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Edição especial do Podcast traz um panorama dos efeitos do coronavírus na indústria do livro

Texto por Leonardo Neto

Editores, livreiros e entidades que representam o mercado editorial comentam sobre os impactos da pandemia

O surto de coronavírus começou na China, mas hoje já atinge 159 países em todos os continentes do mundo. Tornou-se um grande problema global. Mais de 200 mil pessoas já foram contaminadas e este número cresce a cada dia. O poder de transmissão do vírus que causa problemas respiratórios graves e pode levar à morte é tamanho que levou a Organização Mundial da Saúde a declarar, no último dia 11 uma pandemia, ou seja, que a doença já se alastrou por todo o mundo.

Além das consequências à saúde pública, o coronavírus tem produzido efeitos na economia mundial. Numa escala que vai de zero a dez, onde zero significa “está tudo bem, vai passar rapidinho” e dez é “o mundo inteiro tem condições para entrar em recessão”, o efeito do corona da economia está em cinco. Essa escala foi criada pela Bain Macro Trends, consultoria que busca identificar tendências que podem afetar a economia global. A recomendação, no estágio cinco, é: “ativar procedimentos de contingenciamento”.

Esta mesma consultoria avalia que o impacto no PIB mundial seja de – 4%, podendo chegar até -23%. Ela estima ainda que os EUA têm 53% de chance de entrar em recessão.

As indústrias mais afetadas a curto prazo são as de alimentação e entretenimento, por razões óbvias: a recomendação é que as pessoas fiquem em casa. Ficando em casa, as pessoas não circulam. Se elas não circulam, elas não vão a restaurantes, teatros, cinema. Não consomem como consumiriam em situações normais.

Por outro lado, estabelecimentos comerciais também precisam proteger a sua força de trabalho e aí começa o espiral. Gigantes como Nike e Apple já tomaram a decisão de fechar suas lojas pelo mundo.

Por aqui, Rio de Janeiro, Goiás e, mais recentemente, São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina já decidiram e fecharam seus shopping. E a partir de sexta-feira (20), todo o comércio será obrigado a ser fechado na cidade de São Paulo e a medida começa a ser copiada por outros estados.

O impacto nas vendas deve ser enorme e isso afeta diretamente a indústria do livro.

Por isso, nossa equipe foi virtualmente às ruas para ouvir editores, livreiros e analistas que, juntos, conseguem dar um panorama do cenário atual e ainda fazer previsões para o que pode vir por aí.

Reunimos todas estas entrevistas numa edição especial do Podcast.

A economista Mariana Bueno, que há mais de uma década acompanha a evolução do mercado brasileiro, fez uma análise do que poderá acontecer com a economia do livro neste ano. Trouxe informações preliminares de outros mercados, como o italiano e o espanhol. Estima-se que, nas duas semanas de lockdown, a Itália já perdeu 75% das suas vendas de livros. Na Espanha, onde também já foi adotado o protocolo de isolamento total, o mercado também já registrou queda. “

Apesar dos números super catastróficos, e desses resultados muito ruins, é da Espanha que vem uma informação bem interessante e, do meu ponto de vista, muito importante: houve um crescimento da venda de livros no canal supermercado. Estima-se que esse crescimento tenha sido, na média, de 35%. Essa informação é importante. É uma alternativa para o mercado brasileiro. Podemos pensar que o sujeito está em casa de quarentena, sai pouco, não circula, mas vai ao supermercado e dá de cara com uma prateleira de livros e pode levar um, dois, três, por que não mais? Eu acho que, apesar da situação ser bem incerta, de um pessimismo generalizado, a gente pode encontrar algumas alternativas, que obviamente não vão repor as vendas ou fazer que o mercado cresça, mas que talvez a gente consiga conter essa queda”, analisou.

Nossa equipe procurou ouvir editores também. Quisemos saber como as empresas estão colocando em prática seus planos de contingenciamento, o que inclui mudanças nas jornadas de trabalho, mas também a busca por soluções para as quedas nas vendas que virão inevitavelmente. Roberta Machado, vice-presidente do Grupo Editorial Record, por exemplo, disse que a empresa vai adiar lançamentos, suspender ações de marketing e já cancelou todos os eventos. “São dois focos de preocupação. Um é garantir a segurança dos funcionários e ter essa responsabilidade social para conter o contágio. A outra preocupação é econômica. Estamos muito preocupados. As livrarias estão reportando quedas expressivas dia a dia. O que fizemos de imediato foi adiar por volta de 40 lançamentos previstos para o final de março e abril. Deslocamos para maio. Vamos guardar os principais livros para depois dessa confusão toda. A gente entende que precisamos dar as mesmas oportunidades para todos os nossos clientes. Não faz sentido a gente ter lançamentos que vão funcionar só nos canais on-line e não vão ter a chance de performar bem nas livrarias físicas. A gente vai segurar”, disse. “O esforço vai ser trabalhar a retomada depois. Vamos precisar atrair público para as livrarias e reaquecer rapidamente o mercado para tentar recompensar o sufoco que vamos viver nos próximos meses”, completou.

Da HarperCollins, Daniela Kfuri, diretora comercial e de marketing da empresa, reconhece que o impacto será muito grande. “A sociedade nunc a se deparou com uma situação como a que estamos vivendo hoje. As livrarias vão sofrer bastante. Você imagina ficar semanas sem receber pessoas nas suas lojas? O impacto vai ser muito relevante. Aqui vamos viver um dia de cada vez. Nós temos algumas informações do que está acontecendo lá fora. Estamos duas ou três semanas à frente, acompanhando o que está acontecendo na Europa e nos EUA e aí a gente está fazendo alguns movimentos para tentar amenizar um pouco o que dá pra amenizar. Uma preocupação grande da gente agora é dar conforto às pessoas. Conforto através da leitura, do conhecimento, e que a gente conscientize as pessoas que elas devem ficar em casa, uns pelos outros, e que a gente possa formar uma comunidade de leitores, ajudá-los a encontrar, no livro, um conforto. Esse é o foco da HarperCollins nesse momento que é difícil para todo mundo, mas que nós vamos passar por ele. Todos nós”, disse.

O podcast trouxe ainda áudio de Daniel Lameira, da Aleph e da Antofágica. “A gente está preocupado com o lado humano da coisa. É um momento que inspira uma preocupação e a gente tem que estar atento e dar o exemplo. Acho que ambas editoras também têm uma certa tranquilidade nesse momento de ter um share on-line muito grande e uma participação em marketing digital muito forte. Acredito que esse momento seja um pouco mais prejudicial para as editoras que não tenham isso”, avaliou.

Bernardo Gurbanov, presidente da Associação Nacional das Livrarias (ANL) também participou do programa. Ele declarou que a entidade está atenta aos anúncios do governo federal e dos governos estaduais e municipais e concluiu: “Estamos chamando a atenção para o fato de que, nessas circunstâncias, a sobrevida de pequenas empresas, de pequenas livrarias, nesse caso, têm os dias contados se não houver mecanismos de apoio efetivo para que essas empresas possam recuperar seus capitais de giro”.

Já Vitor Tavares, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL) disse que a entidade já está em ação e encaminhou ofícios ao ministro Paulo Guedes, ao presidente da Caixa Econômica Federal e à secretária Regina Duarte, da Cultura. “É um momento bastante complicado. Estamos trabalhando muito forte para encontrar caminhos e levar sugestões a todas as esferas de governo e fazer com que a gente sofra um pouco menos em face a esse período difícil”, disse.

Ouvimos também alguns livreiros. Um deles foi Marcus Telles, da Leitura. Ele disse que já registra queda de 40% nas vendas e isso deve piorar nos próximos dias. “Possivelmente em abril, todas as lojas estarão fechadas. A Leitura mantém uma reserva financeira. Caso o isolamento dure mais de 60 dias, teremos que nos preparar financeiramente para enfrentar essa crise que deve durar até junho. Vamos renegociar os aluguéis, fazer bancos de horas, renegociar alguns prazos, diminuir despesas e compras e algumas lojas novas podem atrasar. Podemos até adiantar cartão de crédito. Nossa prioridade é manter nossa equipe e as contas em ordem”, disse.

Ouvimos também Daniel Lousada, da Leonardo DaVinvi. Ele contou que criou o Cartão Quarentena, um cartão presente nos valores de R$ 150, R$ 300 e R$ 500, que podem ser utilizados por tempo indeterminado. A livraria também se prepara, oferecendo entregas em domicílio ou por Correios, caso o cliente esteja fora do Rio de Janeiro.

O programa trouxe ainda áudios de Otávio Costa, da Companhia das Letras, Fabiano Curi, da Carambaia e Paulo Lima, da L&PM. O Podcast do PublishNews é um oferecimento da Metabooks, a mais completa e moderna plataforma de metadados para o mercado editorial brasileiro, da UmLivro, novo modelo de negócios para o mercado editorial: mais livros e mais vendas, e da Auti Books, dê ouvidos a sua imaginação, escute Audiobooks. Você também pode ouvir o programa pelo SpotifyiTunesGoogle PodcastsOvercast e YouTube.


Fonte: Publishnews

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