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Ecoando as periferias, Sérgio Vaz completa 30 anos de poesia

“Arte e cultura têm poder de resgatar a humanidade e cidadania”, defende poeta da zona sul de São Paulo

Mayara Paixão
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Poeta Sérgio Vaz, 54, criador da Cooperifa - Créditos: Divulgação
Poeta Sérgio Vaz, 54, criador da Cooperifa / Divulgação

Neste 10 de dezembro de 2018, o mineiro Sérgio Vaz completa 30 anos de produção literária. Vivendo em São Paulo há quase 50 anos e tendo o estado como cenário de muitos de seus trabalhos, já pode ser considerado um paulista. Há três décadas, ele publicava sua primeira obra, intitulada “Subindo a ladeira mora a noite” e, desde então, foram mais sete títulos publicados.

Versando sobre as vozes e realidades das periferias paulistas, o poeta retrata o racismo, a desigualdade econômica e também a cultura que pulsa nas regiões periféricas da cidade. Humilde, ele entende a importância de seu trabalho, mas acredita que há muito para fazer, ainda mais quando se trata dos autores negros e independentes. “Se já está difícil para a dita ‘alta literatura’, quem dirá para autores da periferia.”

Buscando dar vazão não só ao seu trabalho, mas ao de centenas de outras vozes, Vaz é fundador da Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa) e idealizador do Sarau da Cooperifa.

Em homenagem ao trabalho prestado à poesia e às periferias brasileiras, Sérgio Vaz recebe, em dezembro, o Prêmio Santo Dias de Direitos Humanos pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp).

O poeta conversou com a Rádio Brasil de Fato sobre as transformações ao longo destes 30 anos, suas inspirações, o cenário político e literário brasileiro e o papel da arte na vida da juventude.

Confira a íntegra da entrevista:

Brasil de Fato — Em 30 anos de construção na literatura, o que sente que mudou?

Sérgio Vaz — Acho que o que mudou foi a identidade da periferia. Quando comecei, nem eu bem entendia o que queria escrever, porque tinha um preconceito e achava que a poesia era e tinha que ser uma linguagem difícil. Minha poesia começou a falar do lugar em que eu vivo, em que permaneço, no qual eu luto, então me deu uma identidade que talvez eu não tivesse. A poesia ajudou a minha pessoa e às vezes eu colaboro com a poesia. Acho que é isso: identidade.

Várias obras suas, em especial as primeiras produções, são independentes. Como você enxerga o espaço no mercado editorial para autores que trazem as pautas e as vozes das periferias para os livros?

O Brasil é um país que não lê. Não lê o pobre, não lê a classe média, não lê o rico e é um país que agora no mercado editorial está passando por uma crise muito grande. Se já para a dita “alta literatura”, quem dirá para autores da periferia.

Mas a vantagem entre nós, autores negros e periféricos, é que criamos um mercado próprio. Os lançamentos geralmente são nos saraus, que são mais de 50 acontecendo em São Paulo e no Brasil, então a gente tem uma rede: compramos os livros dos amigos e os amigos compram os nossos livros, e saímos distribuindo de mão em mão.

Apesar de eu já estar em uma editora e não fazer mais livro independente, ainda pego eles para poder vender, para manguear ele na rua. Para mim não mudou muita coisa. Acho que para nós a batalha vai ser sempre a mesma.

Qual é o papel que a literatura – e a arte como um todo – pode desenvolver na vida das pessoas, em especial da juventude?

Acho que arte e cultura têm um poder de resgatar a humanidade e a cidadania. Essa juventude hoje está consumindo saraus, slams, batalhas e rima. Está popularizando a literatura.

A literatura, para além dos livros, está passando de boca em boca no ouvido dessa molecada e essa juventude é muito inteligente, muito mais rápida, e está gostando de ter voz.

Acho que o mais importante de tudo é ter voz, dizer o que você pensa, o que você acha e cortar os atravessadores. Quem fala pelos jovens da periferia tem que ser os jovens da periferia. Nós não precisamos de pessoas para dizer o que a gente tem que fazer, ouvir ou falar.

Você nasceu em 1964, ano em que começa a ditadura militar no Brasil. Hoje você enxerga que sentiu os efeitos do regime militar na sua vida e formação?

Nessa época eu não tinha nem ideia do que era a ditadura, tamanha era a ditadura. A periferia não tinha a participação política que tem hoje.

Eu servi o exército em 1983, lá que eu descobri que nós vivíamos em uma literatura em que não éramos os heróis, e sim os vilões da democracia.

A partir daí que eu tomo conhecimento, a minha cabeça muda, começo a me interessar por uma literatura mais política, engajada, começo a ouvir um outro tipo de música — já venho dos bailes black de São Paulo, música negra americana e brasileira, e aí me interesso mais pela música popular brasileira dos anos 1960 e 1970, que combatia a ditadura.

Qual foi a “virada de chave” que te fez começar a produzir literatura?

Acho que quando eu li Carolina de Jesus, Quarto de Despejo. Eu tinha uma ideia elitista da literatura, da poesia, e quando li Carolina, pensei: é isso! Fala da minha gente, da minha cor, da minha raça, do meu povo, do meu bairro. Foi aí que eu tive percepção de que a poesia podia ser uma arma de defesa e de ataque.

Pelos olhos da periferia, como tem visto o momento político que vivemos hoje, em especial o que nos espera com o resultado das eleições?

É trágico. Você vê a democracia agonizando novamente e as pessoas sequer sabem o que pode acontecer. A periferia, como sempre, estava de uma certa forma de direita. Mas eu não acho que ela seja de direita e acho também que não é de esquerda. A maioria da população está um pouco alienada devido ao trabalho, pouco estudo, à correria.

Há de se lembrar também que a mesma periferia votou duas vezes no Lula e duas vezes na Dilma. No começo, senti que o povo estava precisando de um herói, de alguém que falasse aquilo que eles estão precisando no momento, que é segurança, saúde, educação, essas coisas. Mas ele [Bolsonaro] disse de uma forma violenta, e as pessoas não conseguiram entender direito. Ele falou diretamente o que as pessoas queriam ouvir. E talvez a esquerda, de alguma forma, não tenha conseguido uma linguagem para que as pessoas entendam realmente quais são as propostas do partido.

Então eu vi que as pessoas estavam mais alienadas do que fascistas. Vi muita gente falar de pobre de direita e eu não acredito nisso, até porque essas coisas sempre começaram na Avenida Paulista e a gente não tem nenhum negro ou pobre na Lava Jato, nesse escândalo todo. A periferia, infelizmente, pegou as notícias que vinham — e a gente sabe que esse trabalho está sendo feito há muitos anos — e essa eleição foi simplesmente o momento final que o golpe deu na população brasileira.

Edição: Guilherme Henrique

Fonte: Brasil de Fato

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