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Dia Mundial da Internet: pandemia reforça vulnerabilidades de acesso

Contexto atual pode ressignificar experiência do uso da Internet e chama atenção para desafios de suprir escassez de talentos em TI

A sociedade contemporânea não pode ser dissociada da internet, mesmo para os excluídos digitais, pessoas sem acesso à rede ou sem acessibilidade a ela, as conexões proporcionadas pela rede transpassam a conectividade do indivíduo, afinal, seus dados trafegam independente do seu acesso à tecnologia. Com a demanda do isolamento social, consequente da pandemia do novo coronavírus, a necessidade da conexão parece ainda maior. Trabalho remoto, educação à distância, telesaúde e até mesmo as conexões interpessoais com as pessoas que estão longe, também em isolamento. Hoje, somos capazes de fazer coisas inimagináveis há 51 anos quando essa história começou, entretanto, suas vulnerabilidades impedem o desenvolvimento de um ecossistema tecnológico, que resulta, entre outras coisas, na escassez de mão de obra qualificada para uma demanda em crescente aceleração.

“Na sociedade hoje, não tem ninguém que esteja totalmente fora do digital, os dados que representam uma pessoa estão na rede não importa se ela está ou não com um celular na mão. De qualquer forma, todos nós somos impactados pela tecnologia. Na sociedade contemporânea tudo está pautado nessa circulação de dados na internet”, disse Rodrigo Botelho, Pesquisador e Professor do Departamento de Gestão da Informação da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Não à toa, países em todo o mundo hoje discutem legislações e normas que protejam a privacidade dos dados das pessoas, necessidade recente a partir do avanço da internet e da dependência que hoje temos dela. Só no Brasil, segundo o último senso do PNAD/IBGE (2018), 74,7% da população tinha acesso à rede. O número cresceu em relação a 2017, quando 69,8% dos brasileiros tinham acesso à internet.

Entretanto, ter acesso à internet não significa ter condições de aproveitar suas potencialidades.

Infográfico: Yuca Estúdio Criativo

Cenário Covid-19

O avanço da internet ao longo do tempo permitiu que a vida de bilhões de pessoas fossem adaptadas de forma irreversível e a ideia de isolamento social fosse ressignificada com uma pandemia na era da internet. Entretanto, para Botelho, embora a internet permita uma série de condições facilitadoras, ela também acentua suas vulnerabilidades, sobretudo nesse cenário. “A situação da pandemia mostrou esse descompasso entre a tecnologia disponível, de experimentação, já existente, e como essa tecnologia vinha sendo gerenciada como política pública”, ressalta.

As tecnologias testadas e utilizadas por nichos específicos da sociedade, indústria modernas, sistemas complexos, inteligência artificial, IoT e etc., ainda eram muito imaturas para se tornar escalável em um cenário crítico como o atual. “Todas as possibilidade não estavam amadurecidas pelos governos, então eles se veem de frente a uma experimentação que precisa ser escalada rapidamente”, diz Botelho.

Outro aspecto acentuado pela pandemia, segundo a Simone Freire, jornalista e idealizadora do movimento Web Para Todos, é o movimento que já vinha sendo adotado por grandes empresas de tecnologia, como a Apple, para simplificar suas plataformas digitais. “Estamos em um momento bem interessante da sociedade digital que as pessoas estão entendendo que é preciso simplificar”, diz. Para ela, a urgência na adaptação às medidas de isolamento fez com que a simplificação da tecnologia fosse não só uma tendência como uma necessidade, à medida que empresas em todo o mundo precisaram tornar sua força de trabalho remota em poucos dias. Essa simplificação, segundo ela, auxilia todos os excluídos digitais, desde as pessoas com deficiência àquelas consideradas “analfabetas digitais”.

De acordo com o mesmo senso do PNAD 2018, cerca de 46 milhões de brasileiros (25,3%) continuam sem acesso à internet, o equivalente, aproximadamente, à população do estado de São Paulo. Em termos de acessibilidade, entretanto, esse número pode ser ainda maior. Dessa fatia, 41,6% dizem não ter acesso à internet porque não sabem como usá-la.

“A questão são as vulnerabilidades, ou em que situações estamos vulneráveis. Ter a posse do celular é uma vulnerabilidade, não ter a internet é outra. Eu posso ter a posse, acesso à internet e não ter as habilidades e atitudes para usar a internet em um cenário crítico. Todos nós temos essas vulnerabilidades, porque a internet tem várias camadas. Quanto mais você tem competência para adentrar essas camadas, menos vulnerável você é”, explica o professor.

Para a jornalista, a acessibilidade digital deveria ser pensada por empresas, governos e desenvolvedores. A ideia de uma internet acessível soa como tema exclusivo para desenvolvedores, entretanto, conteúdistas, designers e profissionais de diversas outras áreas, segundo Simone, precisam pensar na acessibilidade digital como um benefício para todos. Ela diz que é mais fácil entender essa necessidade ao pensar na acessibilidade do universo físico, como uma calçada adaptada para um cadeirante ou bem pavimentada, por exemplo, é benéfica não só para deficientes visuais, mas para pessoas idosas, cadeirantes e carrinhos de bebê, por exemplo.

“A gente precisa sair da esfera dos técnicos e levar essa temática para a sociedade”, evidencia Simone. “Quase 15 milhões de brasileiros tem algum tipo de deficiência severa que precisa de tecnologia assistiva para poder interagir na sociedade e ter um nível mínimo de autonomia. […] As pessoas associam acessibilidade digital a ‘coisas high tech’, mas ela transversaliza tudo que a gente faz”, diz.

Além disso, esse público à borda da rede são consumidores em potencial sendo ignorados por grande parte empresas. “Entrando cada vez mais na sociedade, as empresas aderindo aos planos de cotas, e algumas legislações favoráveis, tudo isso vai mostrando que esse público está aí interagindo e consumindo… um grande potencial de mercado. Além disso, quando eles têm acesso, eles se tornam promotores da marca, como a Nubank, que eles idolatram, pois a empresa está o tempo todo atualizando e facilitando sua plataforma e trazendo a comunidade para perto dela”, diz.

Educação e força de trabalho

Segundo o pesquisador, quando uma sociedade, um país ou uma região é mais vulnerável digitalmente ela não é somente vulnerável no sentido da posse ou acesso à tecnologia mas em um sentido sistêmico em volta dela. Não se trata de olhar somente para a posse e o acesso da tecnologia, mas as relações técnico sociais e todo o seu ecossistema. Quanto pior os índices em torno da tecnologia, em todos os aspectos, pior será a relação de trabalho nessas localidades, diz Botelho.

Entretanto, o inverso também é verdadeiro. Cidades como Florianópolis e Campinas, são reconhecidas pelo cenário tecnológico devido a um ecossistema favorável. “Elas têm universidades que formam vários profissionais nesse ramo da tecnologia e informática. Elas acabam formando um ecossistema junto com essas empresas que estão sediadas nessas regiões, que favorece a capacitação da força de trabalho. Isso então vira um círculo virtuoso, pois quanto mais profissionais essas regiões formam, mais empresas são atraídas para essas localidades, assim como, quanto maior a capacidade de profissionais nessas regiões, também maior é a capacidade de surgirem novos empreendimentos nesse terreno tecnológico digital nessas regiões”, explica.

Uma pesquisa divulgada no ano passado pela Korn Ferry, com executivos de empresas no País, mostrou que em 2020 já haveria um déficit de 1,8 milhão de pessoas para vagas mais especializadas. A empresa prevê que esse número cresça a uma taxa de 12,4% ao ano. De acordo com o relatório, líderes do setor estimam que a escassez de mão de obra qualificada, principalmente nas tecnologias digitais, deve ultrapassar 85 milhões de vagas de trabalho até 2030, em todo o mundo.

Para Botelho é necessário desmistificar a tecnologia como algo para poucos. Para ele, este é um caminho sem volta e a linguagem computacional que gerencia toda rede, precisa ser ensinada do básico como uma segunda língua, assim como o inglês é hoje tida como conhecimento essencial. Isso é necessário para que jovens se sintam atraídos para a área e a enxerguem como um grande potencial.

“É por isso que organismos como a Unesco e a Comissão Europeia, têm proposto o que chamamos de ‘currículos’ – currículos para formação e desenvolvimento de competências informacionais, comunicacionais ou digitais. Cada entidade dessa usa uma terminologia, mas ambas têm uma proposta de currículo formativo para orientar as políticas públicas de vários Estados-nação de como inserir uma formação para as tecnologias digitais, para uma sociedade digital da informação desde o ensino básico. Isso é extremamente importante para a redução da vulnerabilidade digital e, consequentemente, para capitação de força de trabalho para atender as demandas que já temos e que ainda virão com essas tecnologias”, ressalta Botelho.

Fonte: It Fórum 365

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