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Conheça os booktubers, aqueles que unem livros e o Youtube

Booktubers conquistam público divulgando livros nas redes sociais, mas também encontram algumas resistências

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CARLOS ANDREI SIQUARA

Faz cerca de uma década que apreciadores de livros no Brasil começaram a gravar suas opiniões, compartilhando-as, em seguida, na maior plataforma de vídeos, o YouTube. Seguindo uma tendência mundial, essas pessoas vêm sendo identificadas como “booktubers”. A palavra surgiu a partir da junção de outros dois termos: “book” (livro, em inglês) e “youtuber” – atribuição encontrada para identificar quem produz conteúdo para essa rede social.

A atividade dos booktubers abrange desde a apresentação de comentários sobre obras, a partir de leituras pessoais, até a divulgação de listas com títulos diversos, passando pelo “unboxing” (abertura de embalagens) de mimos enviados por seus próprios seguidores ou pelas editoras. Estas têm notado nesse nicho um relevante potencial de contato com novos leitores.

Assim, a maneira como alguns vêm tornando profissão o que pode ter começado apenas como um hobby aponta para a continuidade de um movimento que não deve ser uma onda passageira e muito menos permanecer imune às duras críticas – como quase tudo que emerge no ambiente digital e interfere nos hábitos de consumo de cultura.

Recentemente, por exemplo, uma polêmica colocou os booktubers no centro de um debate sobre os limites de sua atuação, quando o escritor Ronaldo Bressane publicou no Facebook uma tabela de preços encaminhada pela booktuber Tatiana Feltrin, em resposta a outro autor (não identificado por Bressane), interessado no trabalho que ela desenvolve no canal Tiny Little Things – um dos principais e pioneiros dessa seara no país.

Os valores variavam de R$ 1.500 a R$ 5.000, de acordo com a estratégia de divulgação do livro. Quanto maior a exclusividade, mais caro o serviço. Bressane questionou se isso não seria a atualização de uma prática antiga, o jabá, cujo exemplo mais recorrentemente lembrado são os casos de negociação entre gravadoras e rádios, que recebem dinheiro das primeiras para emplacar a carreira de determinados artistas – o que é considerado antiético.

A provocação gerou muito burburinho e críticas, às vezes em tom de deboche, e colocou os booktubers na berlinda. Os seguidores, contudo, manifestaram apoio a seus produtores de conteúdo prediletos. “O público ficou do nosso lado, compreende que nós somos transparentes e percebe quando fazemos uma ação paga. O que não vem a ser jabá, porque o jabá existe quando não é identificado”, comenta Isabella Lubrano, jornalista e booktuber, que mantém o canal Ler Antes de Morrer desde 2014.

A polêmica trouxe à tona uma palavra que circula no meio digital, o “publieditorial”, que, de acordo com Isabela, é um formato que mistura propaganda e conteúdo e refere-se às ações pagas. “Existem várias maneiras de identificar isso em um post. Você pode colocar ‘#publi’ no título ou dizer que aquele conteúdo é um publieditorial na descrição. Eu prefiro dizer isso logo no início do vídeo”, relata Isabela, que pauta suas gravações, principalmente, a partir de clássicos da literatura brasileira e universal.

Para Joana Ziller, que é professora do curso de comunicação da UFMG e pesquisadora, o jabá é inaceitável. Contudo, ela pondera que o tom da reação aos booktubers têm revelado um certo conservadorismo. “Quando se trata de uma atividade nova, com fronteiras não muito bem delimitadas, isso gera essa desconfiança. Mas tudo isso vem também com uma dose de conservadorismo, que sempre envolve as tecnologias digitais. Como atividade, a atuação dos booktubers pode ainda amadurecer. Mas o fato de levar a literatura para essa rede social e alcançar um público que muitas vezes não tem tanto contato com a leitura é algo muito positivo”, observa Joana.

Sobre isso, Isabela acrescenta que boa parte do que faz é convencer as pessoas de como a leitura pode ser algo prazeroso, contribuindo para mudar o ponto de vista de leitores com traumas adquiridos na escola.

“Há seguidores que já saíram do colégio, têm uma vaga lembrança de algum livro e chegam até o canal. Eu adoro quando consigo mudar a impressão que as pessoas têm de alguma obra que acham uma chatice ou associam a uma lembrança traumatizante do período escolar. Fico feliz quando consigo subverter essa opinião”, declara ela.

Fonte: O Tempo

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