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Como nasce um livro de ciência para crianças? A experiência de dois autores

Guilherme Eler 12 Mar 2018

Escritores conversam com o ‘Nexo’ sobre o processo de criação de obras que abordam temas científicos para o público infantil

INICIATIVAS INDEPENDENTES DE PUBLICAÇÃO SURGEM COMO ALTERNATIVA AO MERCADO EDITORIAL TRADICIONAL

A literatura infantil brasileira é repleta de obras de ficção que, mesmo sem terem expressamente esse objetivo, podem explicar conceitos de ciência às crianças. Clássicos de Monteiro Lobato, por exemplo, como “O poço do Visconde”, “História das invenções” ou “Serões de Dona Benta”, contêm informações precisas sobre geologia, evolução humana, física e química – contadas, claro, com uma boa dose de fantasia.

Outro caso é a popular “Série Vaga-Lume”. Lançada pela Editora Ática, a coleção foi responsável por despertar o gosto pela leitura em crianças nas décadas de 1970 e 1980, e consta até hoje em diversas bibliotecas escolares. No título “O Caso da Borboleta Atíria”, uma história policial entre insetos serve de pano de fundo para que a autora Lúcia Machado de Almeida explique tópicos como o mimetismo. O conceito, estudado em biologia, analisa o mecanismo de “disfarce” que certas espécies animais utilizam para se esconder de predadores.

A produção de obras que ensinam de forma lúdica no Brasil aumentou, sobretudo, no final dos anos 1990. Na época, a Lei de

FOTO: DIVULGAÇÃO

Diretrizes e Bases da Educação (LDB), que estabeleceu os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), estimulou o mercado de publicações paradidáticas. Levam esse nome obras que, sem substituir apostilas e livros didáticos, podem ser utilizadas para tratar temas importantes à formação das crianças, de forma mais lúdica, em geral como ficção.

Viabilizar uma publicação com o propósito de explicar ciência para crianças, hoje, mostra-se uma tarefa mais desafiadora. Isso se deve, em boa parte, à situação do mercado editorial. Dados do Snel (Sindicato Nacional dos Editores de Livros) revelam que o crescimento de vendas do gênero infantil foi de 28% em 2016, se comparado ao ano anterior. Esse dado contrasta com um cenário pouco favorável: isso porque, nesse mesmo período, o mercado geral de livros caiu 9,7%.

A retração, que acompanha o setor há alguns anos, pode dificultar a aceitação de novos projetos. É a oportunidade para criações independentes assumirem parte da demanda.

Física ‘de 5 a 105 anos’

Foi após colecionar respostas negativas de editoras que Elika Takimoto resolveu lançar por conta própria sua obra mais recente. “Isaac no mundo das partículas” foi publicada de forma independente em fevereiro de 2018, com uma proposta ousada: ensinar física de partículas para “crianças entre 5 e 105 anos”.

Além de escritora, Elika é graduada em física pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), doutora em filosofia pela UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e professora de física do CEFET/RJ.

Após voltar de um curso promovido pela SBPC (Sociedade Brasileira de Física) no CERN, maior laboratório de física de partículas do mundo, a autora conta que foi recepcionada pelo filho com uma série de questionamentos.

Percebi que essas perguntas eram as mesmas que faziam os grandes estudiosos do CERN: de que o mundo é feito? Como tudo começou? Como sabemos que tudo isso que falam é verdade se não conseguimos ver as partículas? Como é que somos feitos de partículas invisíveis se todos conseguem nos enxergar? A partir de quantas partículas invisíveis que se juntam temos um corpo com massa? E o que é massa, afinal?”, conta, no site do livro.

Com o vocabulário dele, ele fazia essas perguntas. E eu, tentando estimulá-lo, respondia do meu jeito. E percebi que ele estava entendendo”, disse, em entrevista ao Nexo.

Foi onde eu comecei a procurar livros de física de partículas para crianças, para estimular esse lado nele. Encontrei alguma coisa, mas era uma linguagem muito técnica, muito chata, não me agradou. Foi quando decidi fazer eu mesma. Será que consigo escrever um livro de física de partículas para crianças? Se eu consegui transcrever mais ou menos o diálogo que eu tive com o Yuki, que é meu filho caçula, acho que de repente acontece. E aí se deu a ideia”, completa.

A tal ideia foi vencedora de um concurso cultural, que permitiu que o texto original de “Isaac no mundo das partículas” fosse adaptado e viesse à público no formato de peça de teatro. Graças a esse financiamento, o livro impresso também pôde finalmente sair da gaveta. As aventuras filosóficas do protagonista Isaac e Argo, um pequeno grão de areia, ganharam vida pelas ilustrações de Sergio Ricciuto Conte.

O grãozinho na sua singularidade era tão levinho que nem devia ter peso algum. Mas, se um grãozinho nada pesa, por que é difícil levantá-los quando muitos deles se juntam? A partir de qual grão um monte de areia se torna pesado? Essas eram perguntas que Isaac fazia enquanto segurava aquele grão entre os dedos e o olhava com um olho aberto e o outro fechado, como fazem aqueles que querem ver melhor por um buraco de uma fechadura ou através de um telescópio.” Trecho do livro “Isaac no mundo das partículas”, de Elika Takimoto

Ouvi [das editoras] que o livro não tinha apelo comercial. Não era atrativo para ser um livro paradidático em escolas. E quem compraria um livro de física de partículas para crianças? Os pais não se interessariam muito por esse assunto pelo fato de não entendê-lo”, conta Elika, sobre as tentativas de publicar a obra pelas vias tradicionais.

O retorno da aposta veio rápido: mil exemplares foram encomendados na primeira impressão. Após o estoque quase esgotar em menos de um mês, a autora providenciou recentemente a segunda impressão, de outros mil volumes. “Eu considero isso um sucesso total e absoluto. Muito além das minhas expectativas. Estou mega feliz em ver ciência sendo divulgada para crianças de todas as idades.”

Porque não’ não é a resposta

Novos formatos digitais são alternativa para autores que optam por disponibilizar suas obras de forma gratuita. Essa foi a estratégia escolhida pelos criadores de “Health Crew – Os defensores da saúde”, série on-line de gibis focada em histórias sobre saúde e corpo humano.

TRECHO DO PRIMEIRO EPISÓDIO DA SÉRIE DE GIBIS HEALTH CREW, “CONTRA SNACK-TRAP, O MONSTRO DA GORDURA”

O projeto começou a ser concebido em 2014 por Stefan Menon, Danilo Medolago e Evandro Lima. Além do trabalho em projetos de comunicação na área de saúde, o grupo tem em comum a experiência criada pela relação com seus filhos e sobrinhos.

Doces, refrigerantes, biscoitos e outras besteiras são os itens dos quais os pais têm que arrumar sempre respostas para negá-los aos seus filhos”, disse Menon ao Nexo.

Quando os impedíamos de comer doce em determinados momentos ou beber refrigerante, eles perguntavam ‘por quê?’”, conta. Foi pensando em oferecer respostas à questão que os autores escolheram o tema do primeiro volume, “Contra Snack-trap, o monstro da gordura”, disponibilizado na íntegra no site do projeto. “O Monstro da Gordura é um resumo disso, é a resposta visual para o ‘por que não?’ das crianças”, afirma.

A história retrata a aventura de 5 amigos dentro do corpo humano. Os personagens Jon, Pete, Laura, Amanda e Tim têm de lutar contra o incômodo acúmulo de gordura corporal, que vive obstruindo o caminho de sua nave.

“‘Jon’, ‘Pete’ e ‘Laura’ são meus filhos João, Pedro e Laura, que foram quase fielmente representados nos traços dos desenhos. Junto aos 3, [há] Amanda, a sobrinha do Danilo, e Tim, o cientista do grupo”. A trama serve para explicar sobre circulação do sangue, o que são as gorduras e quais seus tipos, além de sua importância para a regulação das funções corporais.

De acordo com o autor, a escolha por dar nomes internacionais serve para facilitar futuras intenções de internacionalização. Por causa dos nomes, o autor acredita que o gibi possa “funcionar em diversos mercados”, sem precisarem passar por adaptações.

Atualmente o projeto é totalmente financiado pelos próprios autores, que produzem por conta própria, também, o roteiro, a colorização, e o desenvolvimento do aplicativo e do site. Para garantir a precisão dos conceitos que aparecem nas histórias, a equipe contou com a consultoria de profissionais da área de endocrinologia, terapia infantil e odontologia.

Se tem uma coisa que criança não gosta é lição. Criança gosta é de história de aventura, de heróis em cenários misteriosos. Coloquei, então, a parte didática em meio a aventuras surreais”, conta Menon. “Nós não podemos dar informações erradas, mas não, não precisamos dar informações completas. Nossa premissa é justamente a de não ser um material didático, a de atrair a criança para a aventura, não para a aula.”

O lançamento do segundo gibi da série é esperado para 26 de março de 2018. “Cárie – A estranha” tratará da importância de bons hábitos de higiene bucal. Para a terceira edição, o tema escolhido é asma, doença que mata três pessoas por dia no Brasil.

Fonte: Nexo

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