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Coleção Brasiliana Itaú traduz o melhor da história, iconografia e literatura sobre o Brasil

O livro e a exposição “Brasiliana Itaú — uma grande coleção dedicada ao Brasil” merecem ser lido e visto — nada ficam a dever aos melhores museus e raisonnés

Jales Guedes Coelho Mendonça e Nilson Jaime

Especial para o Jornal Opção

Em 1969, Olavo Setubal, principal acionista do Banco Itaú, adquiriu, com o aval da diretoria da corporação, um quadro a óleo (“Povoado numa Planície Arborizada”) executado pelo artista holandês Frans Post. Considerado o primeiro pintor da paisagem brasileira, e domiciliado em Pernambuco entre 1637 e 1644, Post integrou a comitiva de Maurício de Nassau no Brasil. Essa valiosa aquisição representou o primeiro passo para a edificação, nas décadas subsequentes, de um notável acervo de obras de arte, documentos, mapas, peças iconográficas e livros, que hoje formam a Coleção Brasiliana Itaú.

Exatos quarenta anos depois da primeira importante compra, foi publicado o livro “Brasiliana Itaú — uma grande coleção dedicada ao Brasil” (Capivara, 2009, 707 páginas), de autoria de Pedro Corrêa do Lago, que retrata essa verdadeira arca de tesouro. A obra, uma produção luxuosa de capa dura com aproximadamente 2.500 imagens, pesa espantosos quatro quilogramas e nada fica a dever aos sofisticados trabalhos da editora alemã Taschen Books. As apresentações de sobrecapa e interna são da lavra de Olavo Setubal, escritas pouco antes de seu falecimento, ocorrido no dia 27 de agosto de 2008. A publicação estrutura-se em seis partes: a) obras de arte; b) livros e impressos; c) documentos manuscritos; d) cartografia; e) economia e finanças, e f) paulistana.

Em 2014, diante das novas aquisições incorporadas ao acervo, surgiu a necessidade de uma segunda edição. O lançamento da obra ampliada coincidiu com a inauguração do Espaço Olavo Setubal, localizado no prédio do Itaú Cultural, situado na Avenida Paulista, centro da capital bandeirante, depositário dos dois acervos, quais sejam, a Coleção Brasiliana e a Coleção Numismática (alusiva a moedas). A entrada na exposição permanente é gratuita e o seu percurso constitui-se num mergulho instrutivo nos cinco séculos da memória histórica e visual brasileira. A variedade e a riqueza do catálogo talvez sejam apenas inferiores ao da Biblioteca Nacional e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB).

De acordo com Milú Villela, presidente do Itaú Cultural, o espaço não apenas homenageia o mecenas da cultura como projeta o aludido instituto como “um relevante protagonista na democratização do acesso e no fomento à cultura e à arte brasileiras.” Além disso, agrega à imagem da instituição financeira, com todos os méritos, um poderoso “soft power”. A exposição, uma fração dos 12 mil itens que compõem as coleções, restou formatada em nove módulos: a) o Brasil desconhecido; b) o Brasil holandês; c) Brasil secreto; d) o Brasil dos naturalistas; e) o Brasil da capital; f) o Brasil das províncias; g) o Brasil do Império; h) o Brasil da escravidão; e i) o Brasil dos brasileiros.

O Brasil desconhecido

O primeiro módulo da exposição aborda um período pouco documentado da história do país, sobretudo em razão de o território brasileiro ser ainda desconhecido do colonizador europeu. Segundo o prospecto e guia de visitação distribuídos na mostra, “nenhum artista visitou o Brasil nesse período. As imagens existentes foram criadas na Europa com base em relatos de descrições escritas. O tema dominante era o canibalismo, protagonista de grande parte das gravuras que descrevem o país. Os povos indígenas também são retratados vestidos à moda europeia ou em modelos atléticos imaginados pelos artistas europeus, que nunca os haviam visto.”

“Índios”, uma das 77 belíssimas gravuras coloridas sobre peixes e silvícolas pescadores, do zoólogo bávaro Spix, par com o botânico Martius, seu conterrâneo, na Viagem ao Brasil | Foto: Reprodução

É dessa fase o raríssimo “Mapa do Almirante” (Estrasburgo, 1522), de Lourentz Fries (1490-1522), que delineia parte do litoral brasileiro, então chamado de “Terra Papagalli”, em latim, ou seja, “Terra dos Papagaios”. Nesse precioso documento, revisam-se as cartas que Martin Waldseemüller (1475-1522) incluíra como suplemento em uma das edições da “Geografia de Ptolomeu”, primeiro “’atlas geográfico’ comentado” da história, confeccionado no segundo século da era cristã. Frise-se que o citado Martin, na primeira versão de seu “Cosmographiae introductio” (sem local, 1507), de forma pioneira, denominou o continente recém-descoberto de “América” – em alusão ao navegante Américo Vespúcio. Segundo Pedro Côrrea do Lago, mais tarde, ele explicaria que a escolha de um nome feminino harmonizar-se-ia com o mesmo gênero dos nomes de Europa, Ásia e África.

O autor de “Brasiliana Itaú” chama a atenção igualmente para um aspecto pouco observado e relacionado especialmente a esse período do “Brasil desconhecido”: os mapas a respeito do país eram impressos em várias nações, menos em Portugal e no Brasil. No afã de decifrar o enigma, Lago assinala: “A ausência do primeiro se explica pela opção política de ocultar as riquezas do Brasil, dificultando-lhe ao máximo o acesso. A inexistência de mapas brasileiros deve-se obviamente ao fato de a imprensa só ter sido autorizada no país a partir do início do século XIX, quando a cartografia de tema brasileiro impressa no exterior já acumulava quase trezentos anos de esplêndidas realizações.”

Guia de visita e prospecto da Coleção Brasiliana Itaú, visitada pelos autores deste artigo em três ocasiões | Foto: Reprodução

Com efeito, salta aos olhos o esforço despendido pelos arquitetos da coleção Brasiliana para reconstituírem o mosaico da legislação luso-brasileira vigente durante os mais de trezentos anos da era colonial (1500-1822). Por tal razão, além de documentos relativos à nossa formação territorial, como o Tratado de Madri (1750), que revogou o Tratado de Tordesilhas (1494), o catálogo ostenta, entre outros, os originais das Ordenações Manuelinas (Lisboa, 1565), do rei Dom Manuel (1496-1521) e da primeira edição do Código Filipino (Lisboa, 1603), conjunto de normas que praticamente regulamentaram a vida privada no Brasil até 1917, data da promulgação do Código Civil elaborado pelo jurista Clóvis Bevilácqua.

O Brasil toma forma ainda em dois atlas clássicos: a “Cosmografia Universal” (Basileia, 1540), do geógrafo alemão Sebastian Münster e a “Delle Navigationi et Viaggi” (Veneza, 1556), do italiano Giovani Battiste Ramusio, considerado por John Locke um “trabalho perfeito”. Ademais, cumpre salientar a mais famosa gravura quinhentista sobre os brasileiros. Inserta no livro de Jean e Robert Dugord (Rouen, 1551), a representação artística retrata uma festa em homenagem aos reis Henrique II e Catarina de Médicis, na qual foram exibidos ao público cinquenta índios Tupinambá e Tabajara numa taba simulada. “O espetáculo marcou as imaginações daqueles que assistiram e dos muitos que viram a gravura, intitulada ‘Festa dos brasileiros’, uma das mais ricas e ambiciosas imagens até então publicadas de uma representação teatral”, consignou Lago.

O Brasil holandês

Os profícuos quase oito anos passados por Maurício de Nassau no Brasil, a serviço da Companhia das Índias Ocidentais, inspiraram bastante os artistas e cientistas de sua comitiva, que divulgaram em livros ilustrados todas as imagens e informações colhidas no país. A presença holandesa ocorreu de 1624 a 1654, destacando-se dessa fase, o já mencionado quadro de Frans Post, que reproduz um pitoresco povoado do Nordeste brasileiro.

A produção bibliográfica associada à ocupação neerlandesa é relativamente extensa e inclui o “Novus Orbis” (Amsterdã, 1633), de Joannes de Laet, uma publicação escrita originalmente em latim e que contém os melhores mapas do Brasil antes da vinda de Nassau. Do mesmo autor, é também a “História da Companhia das Índias Ocidentais” (Leiden, 1644).

Merece realce, de igual modo, a ilustradíssima “Historia Naturalis Brasiliae” (Amsterdã, 1648), de Willem Piso e George Macgraf, considerada a primeira enciclopédia da flora e da fauna do Brasil, primorosamente aquarelada à mão. A obra é tida como um dos maiores tesouros da Brasiliana Itaú e foi produzido sob os auspícios de Maurício de Nassau, “que desejava oferecer à comunidade culta europeia um relato das pesquisas científicas nas áreas de botânica e zoologia promovidas por ele no Nordeste brasileiro. Durante quase duzentos anos essa obra não só foi a principal fonte da história natural brasileira, como praticamente a única até a década de 1820, quando foram publicados os trabalhos do Príncipe de Wied-Neuwied (Príncipe Maximiliano) e dos sábios bávaros Spix e Martius”, pontua Pedro Lago.

“Grande Atlas Blaeu” ou “Cosmographia Blaviana”. Amsterdã, 1667 | Foto: Reprodução

Por último, seria uma lacuna imperdoável a omissão do “Atlas Blaeu”, no justo conceito de Lago “o maior e mais belo atlas de todos os tempos.”  Expressão maior da pujança da República Unida dos Países Baixos no século XVII, o “Grande Atlas Blaeu ou Cosmografia Blaviana” foi editado em 1662 pela editora holandesa Blaeu (Amsterdã) e impresso em sete língua, chegando algumas versões a alcançar doze volumes encadernados em pergaminho e decorados com filete de ouro, o que fazia seu preço equivaler a uma boa casa da cidade neerlandesa. O compêndio buscava consolidar todo o conhecimento da humanidade até então existente. As gravuras de Fran Post e Marcgraf sobre o Brasil e o saber legado pela missão de Nassau, sem dúvida ajudaram a robustecer ainda mais a monumental obra de Joan Blaeu, que frequentemente era usada pelas autoridades holandesas para fins diplomáticos. Nessa direção, consta que o sultão da Turquia ofertou-a ao imperador da Áustria, Leopoldo I.

O Brasil secreto

Após a expulsão dos holandeses do Brasil, o governo português proibiu a entrada de visitantes estrangeiros em sua colônia americana por mais de 150 anos. O “Brasil secreto” adveio da preocupação em manter o país fechado a possíveis exploradores, sobretudo após a descoberta de grandes jazidas de ouro e diamantes, por volta de 1700, em Minas Gerais, e posteriormente em Mato Grosso e Goiás. Por isso, talvez a imagem que melhor simbolize esse obscuro momento repouse na aquarela “Vistas da baía do Rio de Janeiro”, de T. Sydenham (1795). Isso porque o artista foi obrigado a retratar a cidade maravilhosa da perspectiva do navio inglês, uma vez que as embarcações estrangeiras eram proibidas de atracarem no território brasileiro.

Embora não mencionado por Lago, um grande prejuízo à então inexistente ciência nacional foi o veto à presença do naturalista alemão Alexander Von Humboldt (1769-1859). A despeito de ter viajado pela América do Sul entre 1799 e 1804, percorrendo a Venezuela, Colômbia e Peru, o maior cientista daqueles tempos — precursor de Charles Darwin e influenciador de Simon Bolívar, Thomas Jefferson, Goethe, Ernst Haeckel e Henry David Thoreau — não pôde conhecer o Brasil. Em sentido contrário, seus patrícios Spix e Martius e outros naturalistas visitariam demoradamente o país mais tarde, após a chegada da família real, expulsa pela invasão napoleônica.

Ao longo do importante ciclo econômico da mineração (século XVIII), grandes talentos poéticos se manifestaram, a exemplo de Tomás Antônio Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa, expoentes da Inconfidência Mineira. Na mesma Minas Gerais, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, surge como um mito das artes nacionais, produzindo “Nossa Senhora das Dores”, imagem de cedro policromado.

“O primeiro livro impresso no Brasil, quase 300 anos após o primeiro livro europeu, a Bíblia de Gutenberg” | Foto: Reprodução

É desse período o primeiro livro impresso no Brasil, quase 300 anos depois da Bíblia de Gutemberg, a primogênita publicação europeia. Trata-se do livro “Relação da entrada do Bispo do Rio de Janeiro” (Rio de Janeiro, 1747), de Luiz Antônio Rosado da Cunha, editado na Segunda Officina de Antonio Isidoro da Fonseca. Como a existência de tipografia na colônia era terminantemente proibida pelo rei de Portugal, o aparecimento do citado opúsculo é creditado a um cochilo das autoridades portuguesas. Corrobora a interpretação o fato de Dom João V, ao tomar ciência do acontecido, ter determinado o confisco do prelo e a apreensão da obra. Aliás, o mesmo destino sucedido com “Cultura e Opulência do Brazil”, de autoria do padre Antonil, impressa no exterior em 1711 e só republicada no país 126 depois.

Em relação ao pioneirismo do livro de Luiz Antônio Rosado Cunha, sublinhe-se que houve uma polêmica bibliográfica envolvendo a obra do brasileiro José Fernandes Pinto de Alpoym, intitulado “Exame dos Artilheiros” (Lisboa, 1744). Malgrado na capa constar a cidade portuguesa como o local da edição, especialistas advogavam que a impressão ocorrera no Brasil. No século XX, entretanto, várias investigações refutaram a suspeita.

Algumas peças da coleção Brasiliana merecem destaque. A primeira delas é “Governo de Mineiros” (Lisboa, 1770), de Jozé Antônio Mendes, raríssima publicação de um brasileiro na área médica. Segundo Lago, o autor “redigiu um manual para pessoas que, sem formação médica e distantes das cidades com hospitais, precisavam cuidar de seu empregados e escravos.”  A outra refere-se ao “Diccionario portuguez, e brasiliano” (Lisboa, 1795) do frei franciscano José Mariano da Conceição Velloso, criador de um léxico português-brasileiro, sendo brasileira a língua Tupi-Guarani.

O Brasil dos naturalistas

O módulo 4 da exposição apresenta a “era das luzes”, iniciada com a chegada da família real e a abertura dos portos, em 1808. O Brasil “foi finalmente revelado ao mundo e, nas décadas seguintes, receberia centenas de artistas e cientistas determinados em registrar o território, seus costumes, sua flora e sua fauna, movidos pela enorme curiosidade represada nos 150 anos em que o país ficou fechado”.  É a parte mais pujante da mostra. O colorido das telas e as gravuras de animais, plantas, florestas, flores e habitantes do Brasil encantam o visitante.

Logo nos albores desse ciclo, o país ganhou uma obra que se tornaria a mais famosa de sua historiografia produzida por um estrangeiro: “History of Brazil” (Londres, 1810), do inglês Robert Southey. Pedro Lago explica que Southey viveu sua juventude em Lisboa e planejava escrever uma história de Portugal, mas “julgando o projeto ambicioso demais, voltou-se para uma História do Brasil, que lhe pareceu mais fácil de realizar, mas que evoluiu para tornar-se uma obra monumental em três volumes”.  Seu trabalho, republicado pelo consórcio das editoras Itatiaia e Edusp, na Coleção “Reconquista do Brasil”, constitui até hoje um estudo de referência e essencial para a compreensão de nosso passado.

A “Brasiliana Itaú” possui os originais de quase todos os relatos de viajantes que singraram o país nessa fase, a exemplo de “Travels in the interior of Brazil” (Londres, 1812), de John Mawe; “Travels in Brazil” (Londres, 1816), de Henry Koster; “Reise in Brasilien” (Munique, 1823), de Martius e Spix; “Journal of a Voyage to Brazil” (Londres, 1924), de Maria Graham e “Voyage Pittoresque au Brésil” (Paris, 1835), de Johann Rugendas.

É na secção de fauna e flora que são localizados os mais belos livros e gravuras da coleção. Da série constam os seguintes títulos: “Histoire Naturelle des Tangaras, des Manakins et des Todiers” (Paris, 1805), de Anselme Desmarest, o primeiro álbum de pássaros do Brasil; “Simiarum et vespertilionum Brasiliesium species novae” (Munique, 1823), de Spix, catálogo de todos os macacos brasileiros conhecidos à época no país; “Genera et species Palmarum” (Munique, 1823-1831) de Martius, impressionante realização gráfica entre os álbuns dedicados à vegetação brasileira no século XIX; além do clássico de Saint-Hilaire, “Plantes usuelles des Brasiliens” (Paris, 1824).

Ainda sobre a fauna e flora, calha ressaltar que os naturalistas trataram os índios como “parte da fauna” brasileira, nos termos da mentalidade então prevalecente. Os intelectuais devotavam tanto interesse pelos povos indígenas que Spix e Martius chegaram a levar para a Alemanha um casal de índios (Miranha e Iuri ou Puri), que pouco depois faleceu por não suportarem “a mudança de clima,” de acordo com Martius.

“Negros no porão do navio”, de Rugendas, é o mais icônico retrato de 300 anos da escravidão no Brasil | Foto: Reprodução

O Brasil da Escravidão

A escravidão, nódoa que maculou quase quatrocentos anos da vida brasileira foi retratada por uma série de artistas viajantes, como o inglês Henry Chamberlain, que visitou o Rio de Janeiro em 1817 e, em 1822, lançou em Londres a primeira coleção de gravuras focada na mão de obra servil. Esse capítulo determinante da história do Brasil é esquadrinhado no módulo 8 da exposição e permeia grande parte do livro “Brasiliana Itaú”.

Os trabalhos do alemão Rugendas e do francês Debret “mostram cenas da escravidão em contextos diferentes – o rural e o urbano, o cotidiano de trabalhos forçados e os raros momentos festivos.”  Publicado no mesmo ano em alemão “Malerische Reise In Brasilien” (Paris, 1835) e em francês “Voyage Pittoresque au Brésil” (Paris, 1835), o livro do pintor Johann Moritz Rugendas — traduzido no Brasil como “Viagem Pitoresca Através do Brasil” (Belo Horizonte: Editora Villa Rica, 1994) —, “ampliou a repercussão da descoberta das novas imagens autênticas do Brasil pelo público culto europeu, que agora chegavam a mais de trezentas se adicionadas as gravuras dos dois álbuns.”

Capa original do livro que seria traduzido como “Viagem ao Brasil”, de Debret, rico repositório das paisagens urbanas e rurais oitocentista no país | Foto: Reprodução

Destaca-se em seu trabalho gravuras que se tornaram conhecidas de todos os brasileiros através dos livros de História, como nas imagens de “negros no porão do navio”, “capitão do mato”, e “punições públicas”, em que um escravo é chicoteado por um feitor, também negro, observado pelo senhor e pessoas do povo.

O mais famoso álbum de gravuras de um artista viajante, “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil” (Paris, 1835), do francês Jean-Baptiste Debret, no dizer de Lago, “merece sua reputação por todos os títulos: a precisão e acuidade da observação, a qualidade do desenho, a excelência da técnica litográfica e a variedade de temas que abrange, desde os grandes eventos políticos, aos utensílios indígenas, passando pelas roupas, da flora e da fauna brasileiras, enfim, tudo de curioso que o artista pode observar nos quase quinze anos que passou no Rio de Janeiro, com algumas incursões pelas províncias”.

É de Debret a conhecida gravura “sapataria”, na qual dois negros trabalham em seus ofícios enquanto um terceiro é castigado com “bolos” de uma palmatória pelo senhor. Também “aplicação do castigo do açoite”; “pequena moenda portátil”; “o regresso de um proprietário de chácara” e diversas outras imagens de “negros de ganho” em seus afazeres, vendendo arruda, capim, leite, cabra, cavalo, tabaco e milho, em cenas urbanas que são verdadeiros retratos do Brasil antes do advento da fotografia.

Goiás e o Brasil das Províncias

As províncias foram menos retratadas pelos artistas viajantes do que a capital, Rio de Janeiro, mas diferentes regiões do Brasil foram episodicamente documentadas. Um exemplo é “Panorama da Cidade de São Paulo”, de A. J. Pallière, encomendada pelo imperador Dom Pedro I e considerada a obra mais importante da iconografia paulistana anterior à fotografia. O folder da exposição informa que “o óleo sobre tela desapareceu ao ser vendido após a Proclamação da República e ficou esquecido por 110 anos, até ser redescoberto em 2001, quando foi integrado à Coleção Brasiliana Itaú.”

Destacam-se ainda, no “Brasil das províncias” (módulo 6 da exposição) a “Vista de São Luís do Maranhão”, pintada por volta de 1860, bem como a “Vista Panorâmica da Baía de Belém do Pará”, de 1870, ambas de autoria de J. L. Righini, obras de escol da iconografia pátria.

Algumas das duzentas gravuras magnificamente coloridas presentes em “Plantarum brasiliae” (1827), obra-prima de Pohl | Foto: Reprodução

Embora prestes a completar 300 anos, Goiás tem pouca visibilidade tanto no livro quanto na exposição. Na mostra, aparece mencionada apenas uma vez, notadamente quando da divulgação da gravura de Thomas Ender (“Vista da Serra das Figuras do Rio Maranhão”), presente no livro “Reise in innern von Bresilien” de Emanuel Pohl (Viena, 1827).

No livro, por sua vez, são somente três remissões iconográficas. A primeira delas, já mencionada acima, refere-se ao Rio Maranhão. A segunda também encontrada na mesma obra de Pohl — publicada no Brasil como “Viagem no Interior do Brasil” (Itatiaia/Edusp, 1976, 417 páginas) — que retrata com certa verossimilhança a Cidade de Goiás, antiga capital, inclusive mostrando a Igreja de Santa Bárbara, construída no cume de um morro vilaboense.

A terceira abriga-se no bojo do livro “Expedition dans les parties centrales de l’Amerique du Sud” (Paris, 1850), de François Louis de Castelnau, integrante da grande expedição científica francesa que explorou e estudou o interior do Brasil em meados do século XIX. A gravura “Praça do Palácio de Goiás” retrata uma paisagem urbana de Vila Boa, onde se vê uma centena de escravos ajoelhados, vigiados por militares, em frente à Catedral de Sant’Ana.

“Praça do Palácio em Goiás” (1850), de Castelnau | Foto: Reprodução

Pedro Corrêa do Lago apresenta gravuras não existentes na versão em português da obra de Castelnau (“Expedições às Regiões Centrais da América do Sul”, editora Itatiaia Edusp, 448 páginas), traduzido a partir do original citado, como o desenho colorido de “Chiotay”, chefe dos Xerentes (hoje habitantes de Tocantínia, Estado do Tocantins, na ocasião província de Goiás)

Naturalistas viajantes que passaram por Goiás, como Saint-Hilaire, Aires de Casal e Louis D’Alincourt têm pouca ou nenhuma visibilidade na mostra, assim como Louis Cruls, ausente, o que colabora para a pequena presença de Goiás na exposição e no livro. Os relatos de viagens dos aludidos autores primam pela descrição, sem inserção de imagens.

Rugendas, que nunca esteve no Estado cerratense, dá notícias do comércio entre esta capitania e Minas Gerais em pelo menos duas ocasiões em seu livro “Viagem Pitoresca Através do Brasil”, supra mencionado. Chega a inserir a colorida litografia “Habitans de Goyaz”, mas vê-se claramente que se trata de uma idealização do alemão, já que o vaqueiro retratado lembra mais um gaúcho com espécie de túnica árabe cobrindo a cabeça. Bem diferente do estereótipo do vaqueiro goiano daqueles tempos e de hoje.

“Cidade de Goiás” de Johan Emanuel Pohl, faz parte das gravuras de mais esmerado acabamento | Foto: Reprodução

A respeito da exposição e do livro Brasiliana Itaú pode-se escrever um tratado ou uma tese de doutorado. Devido ao ancho espaço que isso demandaria, deixamos de descrever o módulo sobre o “Brasil do Império” que abrangeria esse importante período da história brasileira, bem como o “Brasil da Capital”, com dezenas de trabalhos iconográficos e históricos sobre a cidade maravilhosa. “O Brasil dos Brasileiros”, que aborda a consolidação republicana no país, a literatura brasileira e a Semana de Arte Moderna exigiriam outro artigo, que pretendemos escrever em breve.

Em resumo, a “Brasiliana Itaú — uma grande coleção dedicada ao Brasil”, o livro e a exposição, merecem ser lido e visto, pois nada ficam a dever aos melhores museus e raisonnés do mundo.

Jales Guedes Coelho Mendonça é promotor de justiça, doutor em História (UFG), membro do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) e do Instituto Cultural Bernardo Élis para os povos do Cerrado (Icebe). É colaborador do Jornal Opção.

Nilson Jaime é mestre e doutor em Agronomia, membro do IHGG, das Academias Goianiense de Letras (AGnL) e Pirenopolina de Letras e Artes (Aplam), vice-presidente do Icebe, presidente da Academia Palmeirense de Letras, Artes, Música e Ciências (Aplamc) e colaborador do Jornal Opção.

Fonte: Jornal Opção

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