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Clubes de livros crescem com novo público

Praticidade de receber obras em casa é grande atrativo

Luciana de Melo ampliou projeto de leitura da ONG depois de assinar clube de literatura | Foto: Janaína Moura/divulgação

Há cerca de um ano, a advogada Luciana de Melo Andrade, 35, se deu conta do quão pouco de seu tempo era dedicado à literatura. Estava envolvida de tal maneira nas atividades despendidas pela Instituto Ide Brasil, ONG localizada no bairro Santo André e da qual é fundadora, que consumia apenas conteúdo relacionado ao Terceiro Setor. Ela, que sempre gostou de ler, foi procurar na internet um modo de retomar o hábito perdido. Luciana descobriu, então, a TAG Experiência Literárias, clube de assinatura de livros que envia mensalmente uma obra surpresa para seus associados.

Desde que se inscreveu no clube, a advogada, nascida em Uberaba, afirma que a familiaridade com os livros melhorou consideravelmente. “Tento ler ao menos três livros por mês, mas isso varia. Às vezes, leio quatro, mas, em outro mês, leio um. Quando o conteúdo do livro é denso, prefiro ler menos e absorver mais”, aponta.

Luciana integra uma parcela da sociedade que tem aquecido o mercado: a de assinantes de clubes de produtos como livros, cosméticos, cerveja ou vinho. Em 2016, segundo a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico, foram movimentados R$ 690 milhões pelas 2 milhões de pessoas que assinam algum tipo de clube. Não existem dados específicos sobre o segmento relacionado aos livros, mas o aumento do número de empresas do tipo confirma a tendência.

Depois da TAG, criada em 2013 em Porto Alegre e que afirma ser a pioneira no setor, foram formados outros clubes de assinatura, como o Turista Literário, o BBox Clube, o Pacote de Textos, o Beco Clube e o Leiturinha – este último se dedica apenas à comercialização de livros infantis. Mais recentemente, a mineira Livraria Leitura também entrou no segmento atraída pelos números. “É uma tendência não só no Brasil, como no mundo. É um mercado em ascensão no qual enxergamos potencial”, reitera Igor Mendes, gerente do Clube Leitura.

A comodidade de receber os livros em casa é destacada como o principal motivo do crescimento dos clubes de assinatura, segundo Mendes. “É ideal para as pessoas que não têm tempo, mas gostam de ler”, afirma. Ele destaca ainda que o mercado norte-americano é o precursor desse novo formato de compra. 

Os clubes de assinatura de livro seguem uma lógica parecida com a de serviços de streaming. Os usuários se cadastram no site, pagam um determinado valor por mês e recebem em casa uma caixa com um ou mais títulos. Normalmente, a escolha das obras passa por um processo curatorial desenvolvido por escritores conhecidos. “São intelectuais e pessoas da literatura que escolhem livros de diversos gêneros e países”, observa o sócio-fundador da TAG, Arthur Dambros.

De acordo com ele, 70% das assinaturas são feitas por mulheres, com idade entre 30 e 35 anos. “Isso corrobora com a ideia de que a mulher lê mais do que o homem. Também temos um grande público de universitários”, diagnostica. Em abril, a empresa recebeu o prêmio de inovação The Quantum Publishing Innovation do Excellence Award 2018 durante a Feira do Livro de Londres.

Outras propostas. Criado em agosto de 2016, o Beco Literário funcionou até janeiro deste ano como clube de assinatura. A partir do mês que vem, entretanto, ele assume outro caráter. “Nós resolvemos inovar e criamos no site uma aba que possibilita a compra ou venda de um livro que a pessoa não lê mais”, conta um dos fundadores do site, o jornalista André Daniel. “Quando a pessoa cadastra um livro para vender, ela coloca a sinopse, mas não divulga o nome. Assim, quem comprar o livro não vai julgá-lo pela capa e se abrirá para novas experiências”, destaca Daniel.
Com cerca de 350 assinantes, o clube de assinaturas Pacote de Textos foi criado com o objetivo de “fazer com que as pessoas retomassem o hábito da leitura, muitas vezes deixado de lado sob o argumento da falta de tempo”, conforme aponta Rafael Caneca, responsável pela plataforma. 

Os assinantes têm opções de planos mensal, bimestral, trimestral e anual, com preços que vão de R$ 42,90 a R$ 412. “Sabemos que o Brasil é um país de dimensões continentais. Infelizmente, isso faz com que muitas pessoas não tenham acesso a serviços de qualidade – sendo que a educação é certamente um deles. Temos certeza de que uma boa leitura é essencial nessa missão educadora da sociedade, e os clubes de assinaturas de livros surgem para suprir a necessidade em lugares em que, por exemplo, não tem sequer uma livraria”, diz Caneca.

Encontros para discussão literária tomam a cidade

Muito antes dos clubes de assinatura de livros, porém, surgiram os clubes de leitura. Durante o século XVIII, era comum que intelectuais franceses, advindos do iluminismo, se reunissem para ler livros e debater a respeito de novidades literárias. 

Atualmente, os clubes de leitura não têm a pompa de outrora. Pelo contrário, alguns deles são pautados pela descontração e pela troca de experiências em mesas de bar. Esse é o caso da Confraria do Livro, criada no ano passado pela terapeuta ocupacional Juliana Pacheco, 33. Uma vez ao mês, ela se reúne com cerca de dez pessoas no Agosto Butiquim, no Prado, onde trocam livros. Ex-assinante da TAG, Juliana percebeu que obras que ficavam paradas nas prateleiras das pessoas poderiam ter outro destino.

Os participantes colocam obras à mesa enquanto apreciam um vinho. No encontro seguinte, eles devolvem os títulos e relatam a experiência que tiveram com eles. “Eu tinha lido autoras como Carolina de Jesus e Conceição Evaristo, mas alguns livros dessas autoras são muito caros. Então, se uma pessoa da Confraria tiver um livro, significa que todas as outras terão”, diz. Para colocar ordem nos encontros, a cada mês o participante leva uma obra com um tema pré-definido.

À frente do Clube do Livro BH, criado há cinco anos, a blogueira Letícia Pimenta, 28, também define os encontros bimestrais, que ocorrem no Centro de Referência da Juventude, de acordo com temas. Algumas das reuniões chegam a juntar até 300 pessoas. “Debatemos de cinco a oito livros por encontro, com o cuidado de não dar spoiler. Quem já leu aquele livro também é convidado a falar a respeito”, declara. 

Uma vez por mês, Letícia também se reúne com um grupo menor no Parque Municipal, momento em que discutem sobre um único título. “Como o clube tem um grande número de pessoas, queria estar mais próxima de outras”, afirma Letícia.

Já no Clube do Livro, as 13 participantes, todas mulheres, também escolhem um livro para ser lido e debatido no encontro, que ocorre, normalmente, na primeira terça-feira de cada mês. “Não éramos todas amigas. Cada uma foi entrando em uma época, a convite de uma pessoa diferente… Hoje, estamos com nossa ‘lotação’ máxima para que não haja o comprometimento das discussões, porque muita gente acaba fazendo com que haja pouco tempo para cada uma falar”, diz a advogada e participante do clube Júlia Soares, 33. 

Clube é importante, mas formação é mais

Doutora em letras pela USP, Luzia de Maria destaca a importância social dos clubes de leitura, mas afirma que o crescimento no número de leitores brasileiros virá apenas com o reconhecimento da importância do tema pelos governos. “A experiência da leitura é, por si só, um compartilhamento: é sempre o encontro de alguém que escreveu, o autor, com aquele que está lendo. Uma leitura nunca é uma experiência solitária, e também por isso é tão rica! Num país em que – independente da posição social – tão poucos são verdadeiramente leitores, reconheço a importância social dos clubes de leitura”, diz.

Quanto aos clubes de livros por assinatura, Luzia é crítica. “Essa é uma estratégia de venda de livros criada por editores e livreiros, frente às reais dificuldades do setor. As edições continuam tendo, em geral, 3.000 exemplares, num país com mais de 200 milhões de habitantes”, detecta.

Na opinião de Luzia, os clubes de leitura podem transcender a escolha de um livro para ser debatido. “Gostaria de lembrar que esse é um modelo, um feitio de realização de um clube de leitura. E não exclui outros. Nos anos 80, em turmas do ensino médio, realizei clubes de leitura em que os estudantes de uma escola pública liam entre 40 e 70 livros em um ano escolar. Ninguém era obrigado a ler determinado livro. Eles partiam de um plantel de 40 títulos – democraticamente escolhidos – e, ao fim do ano, as turmas contavam com mais de 100 livros, deles próprios, sendo emprestados aos colegas”, exemplifica. 

Autora da obra “O Clube do Livro: Ser Leitor, que Diferença Faz?”, Luzia reitera a necessidade da formação de leitores. “Tenho mais de 30 anos de efetiva vivência nas questões relacionadas à formação de leitores e sei perfeitamente com clareza que só a formação leitora consistente, nos ensinos fundamental e médio, poderá garantir uma vaga nas profissões que vão continuar existindo. E, evidentemente, nas novas, aquelas que exigem raciocínio rápido, bom senso, articulação linguística, argumentação, criatividade e poder de decisão, capacidades mais facilmente encontradas em pessoas leitoras”, prevê.

Texto por Laura Maria

Fonte: O Tempo

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