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Clubes de assinatura de livros propõem jeito diferente de chegar às obras

Com curadorias, os clubes sugerem e buscam se identificar com seus leitores

Nahima Maciel

Quando decidiu criar a Livraria Africanidades, há dois anos, a bibliotecária Ketty Valencio queria realizar algo efetivo para ampliar o acesso à literatura produzida por autores negros. A Africanidades passou a funcionar dentro de um espaço colaborativo, em Perdizes (SP). E Ketty foi adiante. Agora, criou o Clube de Assinatura Africanidades, um clube de livro que transcende o objeto principal. Além de dois livros de autoras negras, os assinantes receberão itens surpresas produzidos por empreendedoras também negras. Outro detalhe é a curadoria, realizada por escritoras negras engajadas.

Ketty levou quase dois anos para idealizar o projeto. Observou outros clubes, pensou na parte estética e fez questão de escolher as curadoras dentro de um espectro de representatividade. O primeiro lote ficou a cargo de Jarrid Arraes. Autora de Redemoinho em dia quente e de Heroínas negras brasileiras, a cearense de 28 anos foi uma das estrelas jovens da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) este ano.
Entre os dois títulos que deram início ao clube, está Ruby, da norte-americana Cynthia Bond, um dos romances preferidos de Jarrid. Bond viu o livro se tornar um best-seller depois de ser incluído no clube de leitura Oprah’s Book Club 2.0, de Oprah Winfrey. “A escolha tem a ver com a temática da resistência negra, é a história de uma mulher negra que mora no Texas e sofreu violência na infância, mas resistiu. Os outros produtos também têm essa temática e os brindes dialogam com isso”, avisa Ketty.
As próximas curadorias do clube ficarão a cargo de Ryane Leão, Bianca Santana e Esmeralda Ribeiro. “Todas são também autoras. Escolhi por causa do trabalho delas, que tenho acompanhado. Sou fã e consumo o que elas produzem, mas também escolhi por causa da temática. Tentei fazer algo plural, que não focasse tanto em produção atual. A ideia era trabalhar com negritude e a pluralidade”, avisa Ketty.
Escritora e jornalista, Esmeralda faz parte dos coletivos Quilombhoje e Flores de baobá. Escreve desde a década de 1970 e faz parte de uma geração mais antiga. Foi um nome pensado para estabelecer uma ponte com a geração mais jovem, como a de Ryane, poeta cubana radicada no Brasil, autora do blog Onde jazz meu coração e do livro Tudo nela brilha e queima, celebridade digital com mais de 150 mil seguidores.
“Esse trabalho todo tem a ver com a questão política de romper com o apagamento histórico dessa produção. Os homens negros também sofrem com isso, mas, apesar de tudo, ainda têm um espaço, tem autores canônicos que são homens negros. As mulheres negras são a base, são as que ganham os menores salários. E a assinatura não traz só livros, mas também outros objetos de empreendedoras negras, como bijouterias, camisetas. Estou mexendo com a parte econômica”, explica Ketty, que hoje, além de desenvolver um programa de acesso à leitura em uma empresa privada, toca a Livraria Africanidade, no bairro de Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo.
Fernanda Takai é curadora do Bux Club(foto: Weber Pádua/Divulgação)
No Bux Club, as indicações vêm de famosos. Um time de celebridades do mundo da tevê, da moda, dos quadrinhos, do jornalismo, da literatura e até do setor empresarial foi reunido por Marcelo Duarte para criar um clube cuja marca são os nichos. O assinante escolhe um dos nomes com o qual tem mais afinidade e recebe, ao longo do ano, livros escolhidos pelo curador. Na lista de 18 convidados estão Isabella Lubrano, do canal Ler antes de morrer, o escritor Xico Sá, a cantora Fernanda Takai, o apresentador Marcos Mion e a stylist Thais Farage.
Um dos criadores da Panda Books, Duarte teve a ideia depois de observar as estratégias adotadas por grandes livrarias que, recentemente, beiraram a falência, como a Saraiva e a Cultura. “Elas estavam procurando um negócio alternativo para as vendas e começaram a fazer clubes de leitura”, conta. “Nossa editora não tinha um catálogo grande o suficiente para fazer um clube nosso e pensamos se não haveria uma brecha, um nicho de mercado que ainda não tivesse sido atendido.”
Veio então a ideia de criar um clube com vários curadores fixos e diferentes áreas de interesse. Duarte queria que o assinante se identificasse e se sentisse seguro de receber, mensalmente, um livro com o qual tivesse afinidade. A procura começou pelas redes sociais, mas com o cuidado de fugir de influenciadores que não têm engajamento com a leitura. “Foi um trabalho complicado”, conta Duarte.
Criado há dois meses, o Bux Club conta hoje com 1.500 assinantes e dá uma ideia da biblioteca dos famosos. Mion indicou, por exemplo, A garota do trem (Paula Hawkins) e O mundo de Sofia (Jostein Gaarder). Alguns já até fizeram lives com os leitores para conversar sobre os livros, uma versão contemporânea do que eram os antigos clubes, quando os leitores se reuniam para discutir os aspectos da obra.
Os livros vêm com encarte escrito pelos curadores e um brinde, uma mistura de mimo com memorabília. “Fomos fuçar nos acervos dos curadores coisas importantes, um recorte, uma carta, anotações, e reproduzimos, réplicas para colocar na caixinha”, conta Duarte. As primeiras páginas do caderno de música de Fernanda Takai, um desenho feito por Marcos Mion aos 9 anos e cartões com os 12 maiores autores de HQ que Sidney Gusman, editor da Maurício de Sousa Produções entrevistou, fazem parte dos kits enviados aos assinantes.

Estratégia

O sistema de curadoria também é marca da TAG, o mais conhecido entre os clubes de assinatura de livros surgidos nos últimos anos. Um escritor bastante conhecido é responsável, a cada mês, pela indicação do título que vai compor uma caixa com mimo literário e encarte. Criada em 2014, a TAG tem um time formado por nomes internacionais, como Javier Cercas, Chimamanda Adichie, Alberto Manguel, Mario Vargas Llosa e Rupi Kaur, e nacionais, como Fernanda Montenegro, Milton Hatoun, Ruy Castro e Daniel Galera.
Como estratégia de venda, a editora UBU criou, há três meses, o Circuito Ubu, um clube com 400 assinantes e uma cartela de livros de não ficção sobre questões contemporâneas. Os títulos, publicados pela própria editora ou por parceiras, são distribuídos em caixas com marcador e um caderno e as assinaturas compreendem uma versão mensal e outra bimensal. Para Florência Ferrari, da editora da UBU, os clubes ganharam mercado no Brasil, em parte, porque há poucas livrarias e raras são aquelas que contam com pessoal especializado. “Muitas cidades não têm livrarias e a maior parte não tem curadores. O clube faz um pouco esse papel que as livrarias faziam antigamente. As pessoas assinam por dois motivos. Um é o prazer de receber em casa, a sensação de que ganhou algo. O outro é que muita gente não saberia escolher as leituras, então escolhe alguém em quem confia e se alimenta da informação através das seleções de um clube”, explica.
Com o fechamento de grandes livrarias, criar canais de conversa direto com os leitores é mais saudável para as editoras. Na UBU, as vendas com a Livraria Cultura, por exemplo, representavam 35% do negócio antes do processo de falência decretado pela empresa. Segundo Florência, as vendas diretas no site da própria editora são muito mais lucrativas. “Mesmo vendendo menos, conseguimos ter uma margem maior”, diz. No Circuito UBU, além dos livros, o assinante tem acesso a eventos presenciais e a uma área reservada do site na qual pode participar de discussões e acompanhamento crítico.
Revista 451 também criou um clube de livros para comemorar os dois primeiros anos de circulação. Os títulos são escolhidos pelos editores e o primeiro deles, entregue aos assinantes em maio, foi Repórter, de Seymour M. Hersh. Além do livro, o assinante recebe uma edição da própria revista. Para Paulo Werneck, editor da 451 e idealizador do clube, esse novo formato de venda de livros é uma tendência. “Tem um lado que é cultural, é uma nova maneira de consumir livros, criou-se um público que espera esse livro chegar, tem os mimos e tal. E, por outro lado, também tem a crise do mercado editorial que fechou muitos pontos de venda. As editoras passaram a ter dificuldade de escoar a produção e isso obriga a inventar canais de venda”, avalia o editor. Com cerca de 100 assinantes, o Clube 451 não é o foco da revista. Werneck encara o produto como uma espécie de agrado e conta que decidiu levar adiante a ideia porque muitos leitores pediam um sistema de assinatura de livros escolhidos pela equipe de publicação.
Clube de Assinatura Africanidades
Valor: R$ 125 a cada três meses. Conteúdo: dois livros, marca-página, botton, três itens surpresa e carta da curadora
Circuito UBU
Valor: R$ 35 por mês com seis caixas por ano ou R$ 62,90 com 12 caixas por ano. Conteúdo: livro, caderno e marcador
Bux Club
Valor: R$ 52,90 mensal ou R$ 47,90 por mês para assinaturas anuais. Conteúdo: um livro, marcador, encarte e mimo

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