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Ciro Monteiro, coordenador da Biblioteca Sinhá, democratiza acesso à leitura

– Trabalhar em uma biblioteca era o emprego dos sonhos! Imagine? Não tem nada melhor do que isso!

Ciro Monteiro se encantou pela leitura ainda menino. O jornal foi a primeira viagem, entre tantas que descobriu nas palavras. Depois, viajou pela filosofia, lendo “O mundo de Sofia” em uma biblioteca comunitária do bairro onde morava.

Hoje, fala do lugar almejado lá atrás, como quem, aos 36 anos, conquistou a vida.

–  Isso aqui é o paraíso. Eu olho e nem acredito: uma biblioteca pública! Acho esse lugar impressionante.

Há sete meses, ele é coordenador da Biblioteca Sinhá Junqueira, antiga Altino Arantes, que recentemente foi restaurada, reformada, transformada em um espaço de encontros, leituras, arte. Ciro não foi escolhido para ocupar o cargo à toa.

– Dialogar com as comunidades é minha raiz.

A biblioteca, em pleno Centro de Ribeirão Preto, espaço mais democrático da cidade, quer acolher público diverso, ser espaço para todo leitor. Ciro, bom entendedor de gente e de letras, está em seu lugar.

– Goffman diz que a realidade não acontece dentro do seu quarto. É onde está a festa, a reunião. É na relação com o outro. O bibliotecário é responsável por fazer essa mediação entre as pessoas e a leitura.

Antes de chegar ao lugar em que está, ele passou 10 anos atuando no sistema prisional. Começou como professor do Estado na prisão, depois assumiu uma vaga de agente penitenciário, já com o objetivo de atuar na educação dos presos.

Conquistou a meta e foi além. Levou cultura por entre as celas, despertou encantamento pelas palavras, ajudou a mudar trajetórias com leitura.

– Eu tenho a impressão de que dá para chamar de transformação. Porque quando a leitura queima na nossa cabeça, não tem mais jeito. A gente fica muito abalado. E quando eu vejo isso acontecendo, é um prazer.

Ciro começou a carreira como conhecedor de gente pequenino, espreitando o público diversificado e, por vezes, caricato que frequentava o bar/mercearia de sua família.

Nasceu e cresceu em Bauru, bairro Geisel, e começou a ajudar os pais por volta dos oito anos. Pela porta, entrava gente de todo tipo.

– Esse cenário foi o que me criou.

O motorista de ambulância que passava a madrugada toda trabalhando e a manhã toda bebendo, ostentando o título de melhor fazedor de palavras cruzadas dali; a mulher insatisfeita a buscar o marido alcoolista da mesa; caminhoneiros; mecânicos; a senhorinha que só ia ao bar para levar o pão do café.

– A minha vida inteira foi atender. É isso que a gente faz aqui na biblioteca. É, em primeiro lugar, acolher as pessoas.

O pai lia o jornal todo dia. Além do periódico local, Jornal da Cidade, que ainda hoje existe, consumia também os tabloides nacionais. Ciro, curioso de pequeno, tomou gosto pela leitura. Não só lia como comentava. Mandava e-mails para os colunistas, dialogando sobre os causos da vida. Chegou a ter um artigo publicado quando já estava na graduação de História, demovido da ideia de fazer jornalismo que nascera nas leituras diárias.

Na biblioteca comunitária do Geisel, descobriu “O mundo de Sofia” e a vontade de conhecer a história do universo. Decidiu a graduação. Cursou Unesp, em  Assis. Na partida, em 2002, teve pesar. Deixar os pais foi decisão difícil.

– Eu trabalhei com meus pais dos oito aos 18 anos. Tinha responsabilidade de adulto. Estudava à noite e trabalhava durante o dia desde os 13 anos. Estudava no ônibus para o vestibular, lia no almoço.

Como bolsista da faculdade, usou o tempo livre que nunca tivera para estudar e ler tudo o que pôde. Se tornou frequentador assíduo – e de lugar cativo – na biblioteca da universidade. Tinha seu cantinho de todo dia, de onde podia decorar as prateleiras e pensar no futuro.

– Ficou na cabeça essa coisa de fazer biblioteconomia.

Começou logo a dar aulas. Depois de formado, voltou para casa por um ano, para cuidar do pai, que estava doente. Assim que ele melhorou, pegou estrada de novo.

Foi para Marília, buscar a biblioteconomia que tanto queria. Fez a segunda graduação junto com o mestrado em Ciência da Informação, na Unesp. E ainda encontrou energia para começar o trabalho na prisão.

– Eu precisava trabalhar. Fui pegar aulas no Estado e vi que havia muitas vagas na prisão. Ninguém queria. Peguei, mas não sabia o que significava.

Ficou encantado. Os alunos interagiam e a sala era tranquila. Em 2011, então, passou no concurso para agente penitenciário, em Serra Azul, região de Ribeirão Preto.

– É uma população que só aumenta, estão sendo cada vez mais encarcerados. É um lugar que machuca a gente.

Entre os machucados, foi encontrando sua forma de ser agente. Em alguns meses trabalhando no pavilhão, já se percebia que ele não levava jeito para a área da repressão. Ali, viu histórias que não gosta de recordar.

– Violência para mim não faz sentido. Não importa o que a pessoa tenha feito.

Foi para serviços administrativos e, cerca de dois anos depois, estava na educação. Ficou dois anos e meio em Serra Azul, regime fechado, e depois sete anos e meio no semiaberto, em Jardinópolis, onde pôde desenvolver ainda melhor seus projetos.

Poesia, clube de leitura, pintura, diálogo: na prisão, as ideias ganhavam liberdade pela arte.

– Eles escreviam poesias e levavam para mim. Eu lia e entregava de volta. Então, eles escreviam ainda mais, porque percebiam que eu tinha interesse.

Criou uma caixa de poesias na biblioteca, onde os presos depositavam dezenas de obras. Selecionava algumas e colava pelas paredes da prisão: respiro!

Algumas poesias foram também selecionadas para a Feira do Livro e os autores puderam participar do evento literário.

– Eles andavam parecendo astros do futebol!

Ciro chegava a passar 16 horas na prisão, imerso nos projetos, encantado com as possibilidades de mudança que vinham com as letras.

– São muitas histórias de lá. Tinha histórias todo dia.

Viu presos lerem pela primeira vez, outros iniciarem graduações dentro e fora das celas, gente que se encantou pela poesia e quis seguir escrevendo, jovens que encontraram outros caminhos quando perceberam que, sim, seria possível.

Conta de um deles que, lendo “O doente imaginário”, de Molière, fez um paralelo entre a doença e o crime. “Eu estava cego pelo crime. Esse livro me fez pensar muitas coisas”. Um exemplo, entre dezenas que ele conta e outras dezenas que guarda consigo.

– Eu não sabia que os livros falavam todas essas coisas. O encantamento deles era muito grande.

Quando o livro despertava o interesse, chegava a somar 40 pessoas para o clube de leitura. Como não havia exemplares para todos, os leitores iam revezando.

– Tinha que ser um livro que, de alguma maneira, se relacionasse com a vida deles, tocasse.

Em 2016, durante uma rebelião, os presos colocaram fogo na biblioteca. Foi preciso reconstruir. Ao invés de lamentos, Ciro reformulou. Ensinou os presos a catalogarem os livros, deixou tudo novinho, pronto para o recomeço.

As experiências eram tantas e tão complexas que ele decidiu fazer um Doutorado com a temática da rotina, em Ciência da Informação. Pesquisou os espaços de leitura na prisão e qual acesso o jovem faz desses dispositivos, antes e depois de preso. Conta que foi pioneiro na área de biblioteconomia prisional.

– A biblioteca diminui os impactos do aprisionamento, que é uma máquina de moer gente.

Em novembro de 2019, Ciro recebeu o convite para a coordenação da Biblioteca Sinhá Junqueira. Já há algum tempo sentia que era hora de mudar a rota.

No anúncio de sua saída para seus leitores presos, uma salva de palmas e doses altas de afeto confirmaram que ele conseguira mudar algo, deixar um pouco de si.

Trocou de trabalho e hoje passa os dias pelos corredores cheios de luz da Sinhá. Não deixou os laços que, por uma década, construiu. Continua o contato com alguns dos ex-alunos, hoje em liberdade. Eles ligam para contar como está a vida, compartilhar as conquistas iniciadas nas leituras.

Não trocou os mundos. Somou-os, como vem fazendo desde a infância. Levou presos e ex-presidiários para rodas de conversa na Biblioteca Sinhá e estava organizando um projeto literário com eles, para a Feira do Livro de Ribeirão Preto, adiada pela pandemia.

– Eu sou um homem hétero, de posição privilegiada no mundo. Djamila Ribeiro diz que nunca vou sentir o que a outra pessoa passa, mas posso estudar, ter uma postura contra o preconceito e tentar ser sempre atento.

Conhecedor de gente e de letras, constrói um bonito trabalho na biblioteca, rodeado por equipe diversa, escolhida com carinho. Saraus, encontros: gente de todo tipo com espaço para dizer, fazer, ler.

– A gente diversificar esse público. Cada vez mais fazer esse diálogo com a comunidade. Não só trazê-los, mas desenvolver projetos na comunidade.

Em 40 dias de funcionamento, a biblioteca recebeu mais de 20 mil visitantes.

As portas estão fechadas agora, cumprindo o isolamento social necessário, mas as atividades seguem em ambiente digital.

– O que seria da gente sem leitura? Nesse momento, o que seria? Todas as minhas ações são movidas pela leitura. A leitura é o que eu sou.

Trabalhar numa biblioteca é o emprego dos sonhos, diz Ciro como quem, aos 36 anos, conquistou a vida por meio das letras.

– Esse constante repensar a vida por meio da leitura é o que faz a gente ser.

Fotos: arquivo pessoal

Fonte: História do Dia

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