Colecionismo

Coleção Brasiliana Itaú traduz o melhor da história, iconografia e literatura sobre o Brasil

O livro e a exposição “Brasiliana Itaú — uma grande coleção dedicada ao Brasil” merecem ser lido e visto — nada ficam a dever aos melhores museus e raisonnés

Jales Guedes Coelho Mendonça e Nilson Jaime

Especial para o Jornal Opção

Em 1969, Olavo Setubal, principal acionista do Banco Itaú, adquiriu, com o aval da diretoria da corporação, um quadro a óleo (“Povoado numa Planície Arborizada”) executado pelo artista holandês Frans Post. Considerado o primeiro pintor da paisagem brasileira, e domiciliado em Pernambuco entre 1637 e 1644, Post integrou a comitiva de Maurício de Nassau no Brasil. Essa valiosa aquisição representou o primeiro passo para a edificação, nas décadas subsequentes, de um notável acervo de obras de arte, documentos, mapas, peças iconográficas e livros, que hoje formam a Coleção Brasiliana Itaú.

Exatos quarenta anos depois da primeira importante compra, foi publicado o livro “Brasiliana Itaú — uma grande coleção dedicada ao Brasil” (Capivara, 2009, 707 páginas), de autoria de Pedro Corrêa do Lago, que retrata essa verdadeira arca de tesouro. A obra, uma produção luxuosa de capa dura com aproximadamente 2.500 imagens, pesa espantosos quatro quilogramas e nada fica a dever aos sofisticados trabalhos da editora alemã Taschen Books. As apresentações de sobrecapa e interna são da lavra de Olavo Setubal, escritas pouco antes de seu falecimento, ocorrido no dia 27 de agosto de 2008. A publicação estrutura-se em seis partes: a) obras de arte; b) livros e impressos; c) documentos manuscritos; d) cartografia; e) economia e finanças, e f) paulistana.

Em 2014, diante das novas aquisições incorporadas ao acervo, surgiu a necessidade de uma segunda edição. O lançamento da obra ampliada coincidiu com a inauguração do Espaço Olavo Setubal, localizado no prédio do Itaú Cultural, situado na Avenida Paulista, centro da capital bandeirante, depositário dos dois acervos, quais sejam, a Coleção Brasiliana e a Coleção Numismática (alusiva a moedas). A entrada na exposição permanente é gratuita e o seu percurso constitui-se num mergulho instrutivo nos cinco séculos da memória histórica e visual brasileira. A variedade e a riqueza do catálogo talvez sejam apenas inferiores ao da Biblioteca Nacional e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB).

De acordo com Milú Villela, presidente do Itaú Cultural, o espaço não apenas homenageia o mecenas da cultura como projeta o aludido instituto como “um relevante protagonista na democratização do acesso e no fomento à cultura e à arte brasileiras.” Além disso, agrega à imagem da instituição financeira, com todos os méritos, um poderoso “soft power”. A exposição, uma fração dos 12 mil itens que compõem as coleções, restou formatada em nove módulos: a) o Brasil desconhecido; b) o Brasil holandês; c) Brasil secreto; d) o Brasil dos naturalistas; e) o Brasil da capital; f) o Brasil das províncias; g) o Brasil do Império; h) o Brasil da escravidão; e i) o Brasil dos brasileiros.

O Brasil desconhecido

O primeiro módulo da exposição aborda um período pouco documentado da história do país, sobretudo em razão de o território brasileiro ser ainda desconhecido do colonizador europeu. Segundo o prospecto e guia de visitação distribuídos na mostra, “nenhum artista visitou o Brasil nesse período. As imagens existentes foram criadas na Europa com base em relatos de descrições escritas. O tema dominante era o canibalismo, protagonista de grande parte das gravuras que descrevem o país. Os povos indígenas também são retratados vestidos à moda europeia ou em modelos atléticos imaginados pelos artistas europeus, que nunca os haviam visto.”

“Índios”, uma das 77 belíssimas gravuras coloridas sobre peixes e silvícolas pescadores, do zoólogo bávaro Spix, par com o botânico Martius, seu conterrâneo, na Viagem ao Brasil | Foto: Reprodução

É dessa fase o raríssimo “Mapa do Almirante” (Estrasburgo, 1522), de Lourentz Fries (1490-1522), que delineia parte do litoral brasileiro, então chamado de “Terra Papagalli”, em latim, ou seja, “Terra dos Papagaios”. Nesse precioso documento, revisam-se as cartas que Martin Waldseemüller (1475-1522) incluíra como suplemento em uma das edições da “Geografia de Ptolomeu”, primeiro “’atlas geográfico’ comentado” da história, confeccionado no segundo século da era cristã. Frise-se que o citado Martin, na primeira versão de seu “Cosmographiae introductio” (sem local, 1507), de forma pioneira, denominou o continente recém-descoberto de “América” – em alusão ao navegante Américo Vespúcio. Segundo Pedro Côrrea do Lago, mais tarde, ele explicaria que a escolha de um nome feminino harmonizar-se-ia com o mesmo gênero dos nomes de Europa, Ásia e África.

O autor de “Brasiliana Itaú” chama a atenção igualmente para um aspecto pouco observado e relacionado especialmente a esse período do “Brasil desconhecido”: os mapas a respeito do país eram impressos em várias nações, menos em Portugal e no Brasil. No afã de decifrar o enigma, Lago assinala: “A ausência do primeiro se explica pela opção política de ocultar as riquezas do Brasil, dificultando-lhe ao máximo o acesso. A inexistência de mapas brasileiros deve-se obviamente ao fato de a imprensa só ter sido autorizada no país a partir do início do século XIX, quando a cartografia de tema brasileiro impressa no exterior já acumulava quase trezentos anos de esplêndidas realizações.”

Guia de visita e prospecto da Coleção Brasiliana Itaú, visitada pelos autores deste artigo em três ocasiões | Foto: Reprodução

Com efeito, salta aos olhos o esforço despendido pelos arquitetos da coleção Brasiliana para reconstituírem o mosaico da legislação luso-brasileira vigente durante os mais de trezentos anos da era colonial (1500-1822). Por tal razão, além de documentos relativos à nossa formação territorial, como o Tratado de Madri (1750), que revogou o Tratado de Tordesilhas (1494), o catálogo ostenta, entre outros, os originais das Ordenações Manuelinas (Lisboa, 1565), do rei Dom Manuel (1496-1521) e da primeira edição do Código Filipino (Lisboa, 1603), conjunto de normas que praticamente regulamentaram a vida privada no Brasil até 1917, data da promulgação do Código Civil elaborado pelo jurista Clóvis Bevilácqua.

O Brasil toma forma ainda em dois atlas clássicos: a “Cosmografia Universal” (Basileia, 1540), do geógrafo alemão Sebastian Münster e a “Delle Navigationi et Viaggi” (Veneza, 1556), do italiano Giovani Battiste Ramusio, considerado por John Locke um “trabalho perfeito”. Ademais, cumpre salientar a mais famosa gravura quinhentista sobre os brasileiros. Inserta no livro de Jean e Robert Dugord (Rouen, 1551), a representação artística retrata uma festa em homenagem aos reis Henrique II e Catarina de Médicis, na qual foram exibidos ao público cinquenta índios Tupinambá e Tabajara numa taba simulada. “O espetáculo marcou as imaginações daqueles que assistiram e dos muitos que viram a gravura, intitulada ‘Festa dos brasileiros’, uma das mais ricas e ambiciosas imagens até então publicadas de uma representação teatral”, consignou Lago.

O Brasil holandês

Os profícuos quase oito anos passados por Maurício de Nassau no Brasil, a serviço da Companhia das Índias Ocidentais, inspiraram bastante os artistas e cientistas de sua comitiva, que divulgaram em livros ilustrados todas as imagens e informações colhidas no país. A presença holandesa ocorreu de 1624 a 1654, destacando-se dessa fase, o já mencionado quadro de Frans Post, que reproduz um pitoresco povoado do Nordeste brasileiro.

A produção bibliográfica associada à ocupação neerlandesa é relativamente extensa e inclui o “Novus Orbis” (Amsterdã, 1633), de Joannes de Laet, uma publicação escrita originalmente em latim e que contém os melhores mapas do Brasil antes da vinda de Nassau. Do mesmo autor, é também a “História da Companhia das Índias Ocidentais” (Leiden, 1644).

Merece realce, de igual modo, a ilustradíssima “Historia Naturalis Brasiliae” (Amsterdã, 1648), de Willem Piso e George Macgraf, considerada a primeira enciclopédia da flora e da fauna do Brasil, primorosamente aquarelada à mão. A obra é tida como um dos maiores tesouros da Brasiliana Itaú e foi produzido sob os auspícios de Maurício de Nassau, “que desejava oferecer à comunidade culta europeia um relato das pesquisas científicas nas áreas de botânica e zoologia promovidas por ele no Nordeste brasileiro. Durante quase duzentos anos essa obra não só foi a principal fonte da história natural brasileira, como praticamente a única até a década de 1820, quando foram publicados os trabalhos do Príncipe de Wied-Neuwied (Príncipe Maximiliano) e dos sábios bávaros Spix e Martius”, pontua Pedro Lago.

“Grande Atlas Blaeu” ou “Cosmographia Blaviana”. Amsterdã, 1667 | Foto: Reprodução

Por último, seria uma lacuna imperdoável a omissão do “Atlas Blaeu”, no justo conceito de Lago “o maior e mais belo atlas de todos os tempos.”  Expressão maior da pujança da República Unida dos Países Baixos no século XVII, o “Grande Atlas Blaeu ou Cosmografia Blaviana” foi editado em 1662 pela editora holandesa Blaeu (Amsterdã) e impresso em sete língua, chegando algumas versões a alcançar doze volumes encadernados em pergaminho e decorados com filete de ouro, o que fazia seu preço equivaler a uma boa casa da cidade neerlandesa. O compêndio buscava consolidar todo o conhecimento da humanidade até então existente. As gravuras de Fran Post e Marcgraf sobre o Brasil e o saber legado pela missão de Nassau, sem dúvida ajudaram a robustecer ainda mais a monumental obra de Joan Blaeu, que frequentemente era usada pelas autoridades holandesas para fins diplomáticos. Nessa direção, consta que o sultão da Turquia ofertou-a ao imperador da Áustria, Leopoldo I.

O Brasil secreto

Após a expulsão dos holandeses do Brasil, o governo português proibiu a entrada de visitantes estrangeiros em sua colônia americana por mais de 150 anos. O “Brasil secreto” adveio da preocupação em manter o país fechado a possíveis exploradores, sobretudo após a descoberta de grandes jazidas de ouro e diamantes, por volta de 1700, em Minas Gerais, e posteriormente em Mato Grosso e Goiás. Por isso, talvez a imagem que melhor simbolize esse obscuro momento repouse na aquarela “Vistas da baía do Rio de Janeiro”, de T. Sydenham (1795). Isso porque o artista foi obrigado a retratar a cidade maravilhosa da perspectiva do navio inglês, uma vez que as embarcações estrangeiras eram proibidas de atracarem no território brasileiro.

Embora não mencionado por Lago, um grande prejuízo à então inexistente ciência nacional foi o veto à presença do naturalista alemão Alexander Von Humboldt (1769-1859). A despeito de ter viajado pela América do Sul entre 1799 e 1804, percorrendo a Venezuela, Colômbia e Peru, o maior cientista daqueles tempos — precursor de Charles Darwin e influenciador de Simon Bolívar, Thomas Jefferson, Goethe, Ernst Haeckel e Henry David Thoreau — não pôde conhecer o Brasil. Em sentido contrário, seus patrícios Spix e Martius e outros naturalistas visitariam demoradamente o país mais tarde, após a chegada da família real, expulsa pela invasão napoleônica.

Ao longo do importante ciclo econômico da mineração (século XVIII), grandes talentos poéticos se manifestaram, a exemplo de Tomás Antônio Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa, expoentes da Inconfidência Mineira. Na mesma Minas Gerais, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, surge como um mito das artes nacionais, produzindo “Nossa Senhora das Dores”, imagem de cedro policromado.

“O primeiro livro impresso no Brasil, quase 300 anos após o primeiro livro europeu, a Bíblia de Gutenberg” | Foto: Reprodução

É desse período o primeiro livro impresso no Brasil, quase 300 anos depois da Bíblia de Gutemberg, a primogênita publicação europeia. Trata-se do livro “Relação da entrada do Bispo do Rio de Janeiro” (Rio de Janeiro, 1747), de Luiz Antônio Rosado da Cunha, editado na Segunda Officina de Antonio Isidoro da Fonseca. Como a existência de tipografia na colônia era terminantemente proibida pelo rei de Portugal, o aparecimento do citado opúsculo é creditado a um cochilo das autoridades portuguesas. Corrobora a interpretação o fato de Dom João V, ao tomar ciência do acontecido, ter determinado o confisco do prelo e a apreensão da obra. Aliás, o mesmo destino sucedido com “Cultura e Opulência do Brazil”, de autoria do padre Antonil, impressa no exterior em 1711 e só republicada no país 126 depois.

Em relação ao pioneirismo do livro de Luiz Antônio Rosado Cunha, sublinhe-se que houve uma polêmica bibliográfica envolvendo a obra do brasileiro José Fernandes Pinto de Alpoym, intitulado “Exame dos Artilheiros” (Lisboa, 1744). Malgrado na capa constar a cidade portuguesa como o local da edição, especialistas advogavam que a impressão ocorrera no Brasil. No século XX, entretanto, várias investigações refutaram a suspeita.

Algumas peças da coleção Brasiliana merecem destaque. A primeira delas é “Governo de Mineiros” (Lisboa, 1770), de Jozé Antônio Mendes, raríssima publicação de um brasileiro na área médica. Segundo Lago, o autor “redigiu um manual para pessoas que, sem formação médica e distantes das cidades com hospitais, precisavam cuidar de seu empregados e escravos.”  A outra refere-se ao “Diccionario portuguez, e brasiliano” (Lisboa, 1795) do frei franciscano José Mariano da Conceição Velloso, criador de um léxico português-brasileiro, sendo brasileira a língua Tupi-Guarani.

O Brasil dos naturalistas

O módulo 4 da exposição apresenta a “era das luzes”, iniciada com a chegada da família real e a abertura dos portos, em 1808. O Brasil “foi finalmente revelado ao mundo e, nas décadas seguintes, receberia centenas de artistas e cientistas determinados em registrar o território, seus costumes, sua flora e sua fauna, movidos pela enorme curiosidade represada nos 150 anos em que o país ficou fechado”.  É a parte mais pujante da mostra. O colorido das telas e as gravuras de animais, plantas, florestas, flores e habitantes do Brasil encantam o visitante.

Logo nos albores desse ciclo, o país ganhou uma obra que se tornaria a mais famosa de sua historiografia produzida por um estrangeiro: “History of Brazil” (Londres, 1810), do inglês Robert Southey. Pedro Lago explica que Southey viveu sua juventude em Lisboa e planejava escrever uma história de Portugal, mas “julgando o projeto ambicioso demais, voltou-se para uma História do Brasil, que lhe pareceu mais fácil de realizar, mas que evoluiu para tornar-se uma obra monumental em três volumes”.  Seu trabalho, republicado pelo consórcio das editoras Itatiaia e Edusp, na Coleção “Reconquista do Brasil”, constitui até hoje um estudo de referência e essencial para a compreensão de nosso passado.

A “Brasiliana Itaú” possui os originais de quase todos os relatos de viajantes que singraram o país nessa fase, a exemplo de “Travels in the interior of Brazil” (Londres, 1812), de John Mawe; “Travels in Brazil” (Londres, 1816), de Henry Koster; “Reise in Brasilien” (Munique, 1823), de Martius e Spix; “Journal of a Voyage to Brazil” (Londres, 1924), de Maria Graham e “Voyage Pittoresque au Brésil” (Paris, 1835), de Johann Rugendas.

É na secção de fauna e flora que são localizados os mais belos livros e gravuras da coleção. Da série constam os seguintes títulos: “Histoire Naturelle des Tangaras, des Manakins et des Todiers” (Paris, 1805), de Anselme Desmarest, o primeiro álbum de pássaros do Brasil; “Simiarum et vespertilionum Brasiliesium species novae” (Munique, 1823), de Spix, catálogo de todos os macacos brasileiros conhecidos à época no país; “Genera et species Palmarum” (Munique, 1823-1831) de Martius, impressionante realização gráfica entre os álbuns dedicados à vegetação brasileira no século XIX; além do clássico de Saint-Hilaire, “Plantes usuelles des Brasiliens” (Paris, 1824).

Ainda sobre a fauna e flora, calha ressaltar que os naturalistas trataram os índios como “parte da fauna” brasileira, nos termos da mentalidade então prevalecente. Os intelectuais devotavam tanto interesse pelos povos indígenas que Spix e Martius chegaram a levar para a Alemanha um casal de índios (Miranha e Iuri ou Puri), que pouco depois faleceu por não suportarem “a mudança de clima,” de acordo com Martius.

“Negros no porão do navio”, de Rugendas, é o mais icônico retrato de 300 anos da escravidão no Brasil | Foto: Reprodução

O Brasil da Escravidão

A escravidão, nódoa que maculou quase quatrocentos anos da vida brasileira foi retratada por uma série de artistas viajantes, como o inglês Henry Chamberlain, que visitou o Rio de Janeiro em 1817 e, em 1822, lançou em Londres a primeira coleção de gravuras focada na mão de obra servil. Esse capítulo determinante da história do Brasil é esquadrinhado no módulo 8 da exposição e permeia grande parte do livro “Brasiliana Itaú”.

Os trabalhos do alemão Rugendas e do francês Debret “mostram cenas da escravidão em contextos diferentes – o rural e o urbano, o cotidiano de trabalhos forçados e os raros momentos festivos.”  Publicado no mesmo ano em alemão “Malerische Reise In Brasilien” (Paris, 1835) e em francês “Voyage Pittoresque au Brésil” (Paris, 1835), o livro do pintor Johann Moritz Rugendas — traduzido no Brasil como “Viagem Pitoresca Através do Brasil” (Belo Horizonte: Editora Villa Rica, 1994) —, “ampliou a repercussão da descoberta das novas imagens autênticas do Brasil pelo público culto europeu, que agora chegavam a mais de trezentas se adicionadas as gravuras dos dois álbuns.”

Capa original do livro que seria traduzido como “Viagem ao Brasil”, de Debret, rico repositório das paisagens urbanas e rurais oitocentista no país | Foto: Reprodução

Destaca-se em seu trabalho gravuras que se tornaram conhecidas de todos os brasileiros através dos livros de História, como nas imagens de “negros no porão do navio”, “capitão do mato”, e “punições públicas”, em que um escravo é chicoteado por um feitor, também negro, observado pelo senhor e pessoas do povo.

O mais famoso álbum de gravuras de um artista viajante, “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil” (Paris, 1835), do francês Jean-Baptiste Debret, no dizer de Lago, “merece sua reputação por todos os títulos: a precisão e acuidade da observação, a qualidade do desenho, a excelência da técnica litográfica e a variedade de temas que abrange, desde os grandes eventos políticos, aos utensílios indígenas, passando pelas roupas, da flora e da fauna brasileiras, enfim, tudo de curioso que o artista pode observar nos quase quinze anos que passou no Rio de Janeiro, com algumas incursões pelas províncias”.

É de Debret a conhecida gravura “sapataria”, na qual dois negros trabalham em seus ofícios enquanto um terceiro é castigado com “bolos” de uma palmatória pelo senhor. Também “aplicação do castigo do açoite”; “pequena moenda portátil”; “o regresso de um proprietário de chácara” e diversas outras imagens de “negros de ganho” em seus afazeres, vendendo arruda, capim, leite, cabra, cavalo, tabaco e milho, em cenas urbanas que são verdadeiros retratos do Brasil antes do advento da fotografia.

Goiás e o Brasil das Províncias

As províncias foram menos retratadas pelos artistas viajantes do que a capital, Rio de Janeiro, mas diferentes regiões do Brasil foram episodicamente documentadas. Um exemplo é “Panorama da Cidade de São Paulo”, de A. J. Pallière, encomendada pelo imperador Dom Pedro I e considerada a obra mais importante da iconografia paulistana anterior à fotografia. O folder da exposição informa que “o óleo sobre tela desapareceu ao ser vendido após a Proclamação da República e ficou esquecido por 110 anos, até ser redescoberto em 2001, quando foi integrado à Coleção Brasiliana Itaú.”

Destacam-se ainda, no “Brasil das províncias” (módulo 6 da exposição) a “Vista de São Luís do Maranhão”, pintada por volta de 1860, bem como a “Vista Panorâmica da Baía de Belém do Pará”, de 1870, ambas de autoria de J. L. Righini, obras de escol da iconografia pátria.

Algumas das duzentas gravuras magnificamente coloridas presentes em “Plantarum brasiliae” (1827), obra-prima de Pohl | Foto: Reprodução

Embora prestes a completar 300 anos, Goiás tem pouca visibilidade tanto no livro quanto na exposição. Na mostra, aparece mencionada apenas uma vez, notadamente quando da divulgação da gravura de Thomas Ender (“Vista da Serra das Figuras do Rio Maranhão”), presente no livro “Reise in innern von Bresilien” de Emanuel Pohl (Viena, 1827).

No livro, por sua vez, são somente três remissões iconográficas. A primeira delas, já mencionada acima, refere-se ao Rio Maranhão. A segunda também encontrada na mesma obra de Pohl — publicada no Brasil como “Viagem no Interior do Brasil” (Itatiaia/Edusp, 1976, 417 páginas) — que retrata com certa verossimilhança a Cidade de Goiás, antiga capital, inclusive mostrando a Igreja de Santa Bárbara, construída no cume de um morro vilaboense.

A terceira abriga-se no bojo do livro “Expedition dans les parties centrales de l’Amerique du Sud” (Paris, 1850), de François Louis de Castelnau, integrante da grande expedição científica francesa que explorou e estudou o interior do Brasil em meados do século XIX. A gravura “Praça do Palácio de Goiás” retrata uma paisagem urbana de Vila Boa, onde se vê uma centena de escravos ajoelhados, vigiados por militares, em frente à Catedral de Sant’Ana.

“Praça do Palácio em Goiás” (1850), de Castelnau | Foto: Reprodução

Pedro Corrêa do Lago apresenta gravuras não existentes na versão em português da obra de Castelnau (“Expedições às Regiões Centrais da América do Sul”, editora Itatiaia Edusp, 448 páginas), traduzido a partir do original citado, como o desenho colorido de “Chiotay”, chefe dos Xerentes (hoje habitantes de Tocantínia, Estado do Tocantins, na ocasião província de Goiás)

Naturalistas viajantes que passaram por Goiás, como Saint-Hilaire, Aires de Casal e Louis D’Alincourt têm pouca ou nenhuma visibilidade na mostra, assim como Louis Cruls, ausente, o que colabora para a pequena presença de Goiás na exposição e no livro. Os relatos de viagens dos aludidos autores primam pela descrição, sem inserção de imagens.

Rugendas, que nunca esteve no Estado cerratense, dá notícias do comércio entre esta capitania e Minas Gerais em pelo menos duas ocasiões em seu livro “Viagem Pitoresca Através do Brasil”, supra mencionado. Chega a inserir a colorida litografia “Habitans de Goyaz”, mas vê-se claramente que se trata de uma idealização do alemão, já que o vaqueiro retratado lembra mais um gaúcho com espécie de túnica árabe cobrindo a cabeça. Bem diferente do estereótipo do vaqueiro goiano daqueles tempos e de hoje.

“Cidade de Goiás” de Johan Emanuel Pohl, faz parte das gravuras de mais esmerado acabamento | Foto: Reprodução

A respeito da exposição e do livro Brasiliana Itaú pode-se escrever um tratado ou uma tese de doutorado. Devido ao ancho espaço que isso demandaria, deixamos de descrever o módulo sobre o “Brasil do Império” que abrangeria esse importante período da história brasileira, bem como o “Brasil da Capital”, com dezenas de trabalhos iconográficos e históricos sobre a cidade maravilhosa. “O Brasil dos Brasileiros”, que aborda a consolidação republicana no país, a literatura brasileira e a Semana de Arte Moderna exigiriam outro artigo, que pretendemos escrever em breve.

Em resumo, a “Brasiliana Itaú — uma grande coleção dedicada ao Brasil”, o livro e a exposição, merecem ser lido e visto, pois nada ficam a dever aos melhores museus e raisonnés do mundo.

Jales Guedes Coelho Mendonça é promotor de justiça, doutor em História (UFG), membro do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) e do Instituto Cultural Bernardo Élis para os povos do Cerrado (Icebe). É colaborador do Jornal Opção.

Nilson Jaime é mestre e doutor em Agronomia, membro do IHGG, das Academias Goianiense de Letras (AGnL) e Pirenopolina de Letras e Artes (Aplam), vice-presidente do Icebe, presidente da Academia Palmeirense de Letras, Artes, Música e Ciências (Aplamc) e colaborador do Jornal Opção.

Fonte: Jornal Opção

Biblioteca Mário de Andrade homenageia bibliófilos em nova exposição de obras raras

Em cartaz até dezembro, a mostra Grandes Colecionadores foi montada com base no acervo de nomes como Félix Pacheco e Otto Maria Carpeaux

Texto por Maria Fernanda Rodrigues

A Biblioteca Mário de Andrade abre nesta quinta-feira, 3, na véspera da primeira edição do Festival Mário de Andrade, com debates e feira de livros, uma nova exposição com raridades de seu acervo. A mostra Grandes Colecionadores apresenta exemplares significativos da trajetória pessoal de bibliófilos que doaram ou venderam suas coleções para a Biblioteca Mário de Andrade.

A exposição Grandes Colecionadores pode ser visitada até o dia 12 de dezembro, todos os dias, das 10h às 19h.

Com curadoria de Rizio Bruno Sant’Ana, a mostra exibe livros do acervo de nomes como Félix Pacheco (1879-1935), Barão Homem de Mello (1837-1918), Antonio Baptista Pereira (1880-1960), Paulo Prado (1869-1943), Pirajá da Silva (1873-1961), Antonio Francisco Paula Souza (1843-1917), Francisco de Assis Carvalho Franco (1886-1953), Alceu Maynard Araújo (1913-1974), Otto Maria Carpeaux (1900-1978), Paulo Duarte (1899-1984), José Pereira de Mattos e José Perez.

De Félix Pacheco, por exemplo, os visitantes poderão ver o primeiro documento impresso que descreve costumes folclóricos brasileiros: Relação das Faustíssimas Festas, de 1762. Trata-se de um relato das festas para comemorar o casamento entre a Princesa do Brasil (futura rainha D. Maria I) e D. Pedro infante de Portugal (depois, D. Pedro III).

Pacheco foi político, jornalista, poeta e reconhecido como introdutor no Brasil de traduções e estudos sobre Charles Baudelaire. Eleito imortal da Academia Brasileira de Letras em 1912, ele reuniu a maior coleção privada de obras raras e de Brasiliana do País, em seu tempo. Sua coleção de 14 mil volumes foi comprada por Rubens Borba de Moraes, em 1936.

Já de Paulo Prado, advogado, fazendeiro, escritor e patrocinador da Semana de Arte Moderna de 1922, cuja coleção de livros de artistas e obras de história e literatura francesa foi doada em 1945, será exposto um projeto de lei sobre os escravos no Brasil que seria apresentado por José Bonifácio de Andrade e Silva à Assembleia Gerak Constituinte quando ela foi dissolvida e o autor e outros deputados foram presos e deportados. O material foi publicado em 1825, durante o exílio, em Paris.

Otto Maria Carpeaux também foi um colecionador. De sua coleção, o público poderá ver uma edição bilíngue com poemas de Carlos Drummond de Andrade organizada por Hans Magnus Enzensberger e publicada em 1965 pela alemã Suhrkamp. Foi Carpeaux quem fez a ponte entre o poeta mineiro e os editores estrangeiros, e o volume traz uma dedicatória assinada por Drummond em 28 de julho de 1965.

Exposição Grandes Colecionadores

De 3/10 a 12/12, das 10h às 19h (todos os dias). Biblioteca Mário de Andrade (Rua da Consolação, 94)

Fonte: BIBLIOTECNOLOGIA

“Cuido dos meus livros e nada mais”

Por Claudia Costa
“Escrevi-o para passar o tempo, para prosear sobre um assunto por que me apaixonei”, afirma Rubens Borba de Moraes no prefácio de O Bibliófilo Aprendiz – Foto: Acervo BBM

Essa frase de Rubens Borba de Moraes, escrita no prefácio de O Bibliófilo Aprendiz, retrata bem sua infinita paixão pelos livros. O volume sai agora em reedição de luxo pelas Publicações BBM, em homenagem aos 120 anos de nascimento do bibliófilo, bibliotecário, bibliógrafo, historiador e pesquisador brasileiro, nascido no dia 23 de janeiro de 1899. O selo já publicou outros dois títulos – Rubens Borba de Moraes: Anotações de um Bibliófilo e Cartas de Rubens Borba de Moraes ao Livreiro Português António Tavares de Carvalho (leia mais abaixo) – escritos a partir de pesquisas realizadas no arquivo de Moraes, deixado sob a guarda de seu grande amigo, o também bibliófilo José Mindlin, e que – fato que muitos desconhecem – está no acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP.

Edição de luxo de O Bibliófilo Aprendiz, um sonho que Rubens Borba de Moraes expressou em carta, agora concretizado pelas Publicações BBM

Livro de cabeceira do professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP Plinio Martins Filho, O Bibliófilo Aprendiz é um dos melhores títulos sobre a relação de livros sobre livros, como afirma. “O seu jeito de escrever é muito fácil, espirituoso.” Segundo o professor, que por mais de 26 anos dirigiu a Editora da USP (Edusp) e atualmente está à frente do setor de publicações da BBM, essa edição é uma homenagem à figura importante dos bibliófilos, “uma espécie de guardiões do livro”. Para ele, Moraes viveu intensamente a vida com os livros e, assim como José Mindlin, foi muito generoso em não revender as edições para bibliotecas internacionais, deixando seu legado na BBM, com acesso irrestrito a pesquisadores.

Organizador das correspondências entre Moraes e o livreiro português António Tavares de Carvalho, Martins Filho conta que encontrou em uma das cartas o desejo expresso do bibliófilo por uma edição de luxo de O Bibliófilo Aprendiz. “Não uma edição luxuosa, mas de luxo, com aparato crítico, papel nobre, índices e ilustrações, e foi o que tentamos fazer”, explica. A edição sai em capa dura e de tecido, com várias ilustrações dos livros raros e raríssimos, como o próprio Moraes definia. “Espero que tenhamos dado a devida importância e que a edição esteja à altura da personalidade do seu autor”, afirma.

Bibliographical and Historical Description of the Rarest Books, in the Oliveira Lima collection at the Catholic Universityh of America, uma das muitas obras brasileiras adquiridas fora do Brasil

Nascido em Araraquara, o bibliófilo foi muito jovem estudar na Europa, formando-se na Faculté des Lettres de l’Université de Genève e retornando ao Brasil somente em 1919. Ao lado de Mário de Andrade (seu amigo de infância), Oswald de Andrade, Di Cavalcanti e Guilherme de Almeida, foi um dos organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922. Pioneiro da biblioteconomia no País, fundou a Escola Livre de Sociologia e Política (FESPSP). Além disso, assumiu a direção de Divisão de Bibliotecas do Departamento de Cultura, reorganizando a Biblioteca Municipal de São Paulo e, depois, a Biblioteca Nacional.

Sua atuação foi reconhecida internacionalmente e foi convidado a dirigir a biblioteca e o serviço de informações da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York e Paris, cargo que ocupou por mais de dez anos, até sua aposentadoria. Retornando ao Brasil, lecionou na Universidade de Brasília (UnB) e dali mudou-se para Bragança Paulista, falecendo em 2 de setembro de 1986, aos 87 anos, deixando seu rico acervo de obras raras, que colecionou ao longo da vida, ao amigo Mindlin.

Amor aos livros

Bibliografia Brasiliana reúne livros raros no Brasil de 1504 a 1900: “Verdadeiros monumentos de erudição”, afirmou José Mindlin

“Tivemos grande amizade pessoal, encontros frequentes e conversas infindáveis, mas (…) o que nos ligou fortemente foi o amor aos livros, ambos com a mesma compulsão patológica da garimpagem. Um curtia a biblioteca do outro, e ele é, na realidade, o interlocutor que me falta. Preocupado com o que fazer com os livros depois que passássemos desta vida para melhor (pergunto-me se será mesmo a melhor), resolvemos unir as bibliotecas, para evitar a dispersão”, escreveu Mindlin na comemoração do centenário de Moraes. E a sua biblioteca ficou na casa dos Mindlins, “intacta, arrumada, como estava na casa dele, e não se misturando com a nossa, pois uma biblioteca transmite a personalidade de quem a formou”. E agora, da mesma forma, na BBM.

Mindlin ainda ressalta que Moraes foi um homem de grande cultura, conhecedor e infatigável leitor dos mais diversos assuntos e profundo estudioso de temas brasileiros – daí a palavra Biblioteca Brasiliana, sua especialidade. “Apaixonado por livros, passou a lhes dedicar sua vida, não só como leitor, mas também como escritor e organizador da leitura” diz. E acrescenta que tinha pena de ainda ser criança na época das famosas reuniões noturnas em São Paulo, em que Moraes frequentava, ao lado de todo o grupo modernista, a casa de Olivia Guedes Penteado, “quando o ouvia contar o que eram os encontros dos jovens intelectuais”.

As anotações de Rubens Borba de Moraes geralmente eram feitas a lápis nas folhas de guarda dos livros como em O Uraguay, poema de José Basílio da Gama

Moraes dedicou-se especialmente a colecionar autores brasileiros do período colonial, como cita Cristina Antunes (pesquisadora e curadora da BBM) em seu livro Anotações de um Bibliófilo, informando que, de sua Bibliografia Brasileira do Período Colonial, possuía grande parte das obras que ali estavam. Segundo Cristina, sua biblioteca presente na BBM é composta de 1.752 títulos. O autor ainda publicou “verdadeiros monumentos de erudição”, como aponta Mindlin. Entre eles, Bibliografia Brasiliana, sobre livros raros no Brasil de 1504 a 1900, e Bibliografia da Imprensa Régia do Rio de Janeiro (1808-1822), que foi produzido ao lado da historiadora Ana Maria Camargo, professora do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e publicado postumamente.

Já em O Bibliófilo Aprendiz, Moraes discorre sobre a arte de colecionar. O próprio autor diz, no prefácio, que escreveu o livro “para passar o tempo, para prosear sobre um assunto por que me apaixonei”. E ainda conta: “Desde menino coleciono livros, passei toda a minha vida no meio deles e grande parte de meus melhores anos dirigindo bibliotecas na minha terra e no estrangeiro. (…) cuido dos meus livros e nada mais”.

Publicações BBM

Cartas de Rubens Borba de Moraes ao Livreiro Português António Tavares de Carvalho, organizado por Martins Filho

Além de O Bibliófilo Aprendiz, o selo também lançou outros dois livros escritos a partir de pesquisas realizadas no acervo do bibliófilo. O primeiro deles, Rubens Borba de Moraes: Anotações de um Bibliófilo, da pesquisadora Cristina Antunes, foi publicado em 2017 e reúne o conjunto das notas manuscritas por ele nos livros que constituem sua biblioteca. A obra é fruto do levantamento, registro e transcrição das anotações feitas nos próprios livros, notas manuscritas em papéis avulsos, recortes de jornais, recortes de catálogos e notas de venda emitidas por livreiros.

Publicado em 2018, o  segundo título, Cartas de Rubens Borba de Moraes ao Livreiro Português António Tavares de Carvalho, organizado por Martins Filho, traz um conjunto de cartas trocadas com o livreiro português, onde se acompanha parte significativa da formação da Biblioteca Brasiliana de Moraes. Nas cartas, o bibliófilo relata a importância de cada obra desejada, adquirida ou não, traçando um amplo painel dos interesses que nortearam o colecionador. A leitura da correspondência vai ainda além da bibliofilia, mostrando a relação de Moraes com outras pessoas e colecionadores e sua visão do Brasil.

Segundo Martins Filho, além de homenagear Moraes, os livros preservam seu legado e são uma forma de levar ao conhecimento do grande público a sua Biblioteca Brasiliana, já que a BBM é uma biblioteca de pesquisa, e não de consulta. “É importante que as pessoas possam conhecer esse trabalho e o acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin.”

 O Bibliófilo Aprendiz, de Rubens Borba de Moraes (294 págs., 80,00); Rubens Borba de Moraes: Anotações de um Bibliófilo, de Cristina Antunes (136 págs., R$ 78,00); e Cartas de Rubens Borba de Moraes ao Livreiro Português António Tavares de Carvalho, organização de Plinio Martins Filho (544 págs., R$ 79,00); todos editados pelas Publicações BBM. Mais informações no site

Fonte: Jornal do USP

Rubens, aquele que amava os livros

Relançado pela BBM, “O bibliófilo aprendiz”, de Rubens Borba de Moraes é um tratado de clássico sobre a paixão inspirada pelos livros

Por Marcello Rollemberg

Encadernações com as Armas do Império do Brasil, pertencentes ao acervo BBM Foto: Reprodução/Acervo BBM

O paulista Rubens Borba de Moraes (1899-1986) era um homem multifacetado. Pesquisador, historiador, bibliotecário – foi diretor da Biblioteca das Nações Unidas em Nova York –, participante ativo do movimento modernista, só não participou da Semana de Arte Moderna de 1922 ao lado dos amigos Mário e Oswald de Andrade por estar doente. Mas o que ficou para o universo da cultura, seu grande epíteto, foi que Rubens Borba de Moraes era “bibliófilo”. Ou seja, mais do que um colecionador, o intelectual que também foi professor da Universidade de Brasília (UnB) era um homem que amava os livros.

Dessa sua paixão nasceu talvez a sua obra mais representativa, aquela que está definitivamente associada a seu nome: O bibliófilo aprendiz, originalmente publicado em 1965 pela então poderosa Companhia Editora Nacional.

Página de rosto de Relation Succinte et Sincere, de Martin Nantes, pertencente ao acervo BBM – Foto: Reprodução/Acervo BBM

Trabalho essencial para aqueles que querem mais do que livros sendo cobertos de poeira nas estantes, esse livro é uma espécie de manual de como achar as joias raras perdidas em prateleiras de alfarrabistas e de como conservá-las, de como se apaixonar para nunca mais por primeiras edições. Trata-se de um livro de bibliófilo para bibliófilos, aprendizes ou não. Como afirmou ele no prefácio à edição original, “não perca tempo em ler essa prosa fiada de um velho bibliófilo quem não gosta de conversar sobre livros raros, quem não dá a menor importância a uma primeira edição, quem não pretende colecionar”. Talvez um pouco ranheta, a frase faz todo o sentido.

Como faz todo o sentido que O bibliófilo aprendiztenha acabado de ganhar sua quinta reedição, dessa vez pela Publicações BBM, braço editorial da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM), justamente ela que leva o nome do maior bibliófilo que o Brasil já teve – e, não à toa, grande amigo de Borba de Moraes.

A edição – muito bem cuidada, a quatro cores e em bela capa dura vermelha – tem apresentação do editor (e também bibliófilo, claro) Cláudio Giordano. É Giordano, inclusive, que tira um pouco a ranhetice da frase de Borba de Moraes sobre possíveis leitores de seu livro e passa a atrair outros. “Recomendo encarecidamente que além dos aficionados ao livro, não percam a oportunidade de percorrer essas páginas sobretudo aqueles para os quais o livro não passa de objeto de leitura esporádica”, escreve o dublê de editor e apaixonado por livros. “Pois, o que se tem nele não é a apologia do livro feita por um colecionador obcecado, querendo provar que escolheu o melhor lazer do mundo e buscando por isso aliciar novos colecionadores e futuros bibliófilos”, continua ele, para concluir: “Em linguagem despojada, bem humorada, discorre o autor sobre a arte de colecionar como uma opção, entre muitas, de lazer divertido e apaixonante”.

Foto: Reprodução/BBM

É uma bela e importante sugestão, ainda mais nesse mundo de realidade e amizades virtuais, no qual o efêmero e o transitório estão a um toque na tela de LED, mas nunca ao alcance das mãos. A reedição de O bibliófilo aprendiz possibilita, para quem quiser, essa reconciliação com dois elementos que pareciam estar fadados a museus, mas estão cada vez mais presentes e importantes na vida de todos: o papel e o livro. E sua combinação mais luxuosa, o livro em papel – com toda a textura, cheiros e sensações que um objeto assim pode transbordar.

Fonte: Jornal da USP

Bibliofilia (Então, vamos jogar nossos livros fora?)

Autores como Umberto Eco e Jorge Luis Borges têm textos a respeito do assunto, demonstrando o culto pelo livro como objeto – algo além da Literatura.

Texto por José Figueiredo

A traça, de Carl Spitzweg

Uma das grandes questões surgidas com as novas tecnologias foi a do suporte do texto. Muitos viram a cara para novos formatos (pdf, epub etc.) por acharem que não é a mesma coisa que o livro, que perde a graça e assim por diante. Antes de entrarmos na questão em si, gostaria de relembrar alguns fatos históricos interessantes.

Ao contrário do que muitos pensam, o formato livro nem sempre foi o suporte para o texto. Já escrevemos em tábuas de barro e pedra, em papiros e outros tipos de rolos – só para ficar nos mais arcaicos e conhecidos. É provável que as mesmas discussões que temos hoje sobre o valor do livro e do e-book sejam semelhantes às feitas na transição do pergaminho para o livro, como muitos o apontam.

Tendo isso em mente temos que diferenciar outro ponto importante na discussão, que por vezes é confundido com amor a Literatura: a bibliofilia. O nome é feio, porém auto-explicativo. O fetiche pelo objeto livro pode ser um dos motivos para boa parcela dos leitores serem resistentes a novos formatos do texto. Autores como Umberto Eco e Jorge Luis Borges têm textos a respeito do assunto, demonstrando o culto pelo livro como objeto – algo além da Literatura.

(Quero fazer um adendo importante. O fato de ser bibliófago e consequentemente não gostar de suportes de texto não está sendo posto aqui como bom ou mau, apenas é um dos tantos lados a serem vistos e considerados em meio à questão. O que se pretende com este texto não é dar respostas, mas levantar perguntas sobre o assunto.)

Dito isso, sigamos.

A questão principal que devemos levantar quando se fala sobre o assunto talvez seja mais simples e menos apocalíptica ao invés de dizer “o livro é melhor por isso” ou “o digital é melhor por aquilo”. Devemos levar em conta, por exemplo, como se dá a formação do leitor e do suporte por ele utilizado nesse processo. Assim, um leitor com mais de trinta anos, no geral, é menos apto a aceitar formatos digitais pelo simples fato de ter sua formação maciça com o formato físico. As gerações mais novas, no entanto, já criadas dentro do meio digital e acostumadas a lidar com suas ferramentas, inclusive quando se trata de texto, são mais favoráveis a essa forma de leitura. Não há certo ou errado ao se escolher um epub ou um calhamaço, é uma simples escolha baseada na sua experiência como leitor.

Cá chegamos à outra discussão um tanto inconveniente e vazia: o fim do livro. É normal que quando algo novo surge se faça com que os objetos já existentes (e seus amantes) temam pelo seu fim. Com o livro não foi diferente. O caso, porém, que me surpreende é o fato de certas pessoas pensarem ou pregarem o fim do livro físico devido à era digital. A esses, apenas lembro que atualmente há quem escreva em papiro e – surpreendam-se – em tábuas de pedra (seja lá qual for o motivo). O livro como o conhecemos hoje provavelmente não desaparecerá da face da Terra. Pode acontecer da sua circulação diminuir com o avanço das novas gerações, mais adaptadas ao meio digital.

Gostaria, enfim, de levantar um último ponto sobre a questão, talvez a mais importante de todas: o que importa de fato é o formato ou o texto, fim último tanto do livro como do pdf? Deixo a pergunta e a reflexão para cada um.

Fonte: Homo Literatus

Amor aos livros é tema de seminário na Biblioteca Mindlin da USP

Evento sobre bibliofilia acontece nos dias 12 e 13 de novembro, na Cidade Universitária

Texto por Claudia Costa

O acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP: tesouro em forma de livros – Foto: Francisco Emolo/USP Imagens

A paixão pelos livros e o cuidado com eles, desde os mais antigos até os mais modernos, raros ou não, estão no centro das discussões do seminário Bibliofilia: Circuitos e Memórias, que será realizado nos dias 12 e 13 de novembro, das 10 às 16 horas, na Sala Villa-Lobos da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP. Realizado pelo Grupo de Pesquisa Tempo, Memória e Pertencimento do Instituto de Estudos Avançados (IEA) e pela BBM, com apoio do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição (Nele), todos órgãos da USP, o evento é organizado por Marisa Midori Deaecto e Plinio Martins Filho, professores do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, e Marina Massimi, professora aposentada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências de Ribeirão Preto (FFLCRP) da USP e professora sênior do IEA.

Segundo a professora Marina, o evento se volta para as questões do colecionismo, da conservação e da memória dos livros. “Nossos palestrantes são destacados colecionadores ou conservadores de bibliotecas públicas e particulares. Queremos ouvir suas histórias, aprender com suas experiências, disseminar seus conhecimentos e valorizar suas peculiaridades, além de reforçar nossos laços com os livros e com as instituições e as pessoas que os preservam”, informa. A professora acrescenta que o projeto foi idealizado pelos professores Plinio Martins Filho e Marisa Midori Deaecto, “a quem devemos o título, a inspiração e o conteúdo”.

O professor Plinio Martins Filho – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A ideia do seminário surgiu a partir de uma conversa sobre acervos e a importância que os colecionadores e os bibliófilos têm na preservação de um patrimônio nacional da cultura”, conta Martins. “Afinal de contas, se não fossem eles, não teríamos uma biblioteca como a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Ela só existe porque dois bibliófilos importantes doaram seus acervos”, afirma, e ainda questiona: mas quantos bibliófilos temos no Brasil? “A ideia é que os convidados partilhem suas riquezas bibliográficas em suas áreas e especificidades.”

Os descaminhos do colecionismo

O evento está dividido em quatro mesas. A primeira, no dia 12, às 10 horas, vai tratar da Memória dos livros e dos homens, e destacar dois grandes bibliófilos: José Mindlin (1914-2010) – que tinha a grande paixão de colecionar livros raros, e acumulou um acervo de cerca de 40 mil volumes, incluindo manuscritos históricos e literários (originais e provas tipográficas), relatos de viajantes, livros científicos, didáticos e de artistas – e Rubens Borba de Moraes (1899-1986), bibliotecário, bibliógrafo, bibliófilo, historiador e pesquisador brasileiro, um dos organizadores da Semana de Arte Moderna, pioneiro da biblioteconomia no Brasil e diretor da biblioteca da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. A primeira palestra será conduzida por Ana Luiza Martins, da Academia Paulista de História, e a segunda, por Agenor Briquet de Lemont, da Universidade de Brasília (UnB), com mediação de Marina Massimi.

A professora Marisa Midori Deaecto – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A segunda mesa, também no dia 12, às 14 horas, Os des(caminhos) do colecionismo I, vai abordar a trajetória dos acervos, ou seja, que acervos são esses e como eles são formados. Elisa Nazarian, da Ateliê Editorial, bibliotecária de José Mindlin que trabalhou no seu acervo pessoal, vai falar sobre Mindlin e as correspondências, e o professor da ECA Carlos Augusto Calil vai contar suas experiências – ele foi Secretário Municipal de Cultura de São Paulo (2005-2012), implantando em sua gestão o Sistema Municipal de Bibliotecas, com acervo catalogado e informatizado, além de ampliar o programa Ônibus-Biblioteca e reformar as bibliotecas de bairro, incluindo a Biblioteca Mário de Andrade, que passou a contar com a sua hemeroteca em prédio próprio. “Ele fez um belo trabalho em relação à divulgação da leitura, criando bibliotecas e grupos de leitura, o que foi um marco”, ressalta Martins.

No dia 13, às 10 horas, as discussões abrem com o tema Bibliófilos Brasileiros, reunindo Ana Maria Camargo, professora sênior do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, colecionadora de almanaques; Oto Dias Becker Reifschneider, de Brasília, membro da Associação Brasileira de Bibliófilos e autor de uma tese de doutorado sobre a bibliofilia no Brasil, na qual estudou desde os bibliófilos antigos até os modernos; e Cássio Ramiro Mohallem, formado em Direito pela USP, que vai falar sobre o seu acervo particular, formado por documentos do Brasil – Colônia e Império. A mediação é de Carlos Alberto de Moura Ribeiro Zeron, professor de História da FFLCH e diretor da BBM.

A professora Marina Massimi – Foto: Divulgação/IEA-USP

O evento se encerra, no dia 13, às 14 horas, com o jornalista, tradutor e escritor Ubiratan Machado, bibliófilo com especial interesse na área de literatura nacional e primeiras edições. “De alguma forma, conhecemos a sua biblioteca através de trabalhos que ele tem publicado, como História das Livrarias CariocasA Etiqueta de Livros no Brasil e a sua última e gigantesca obra, Capa do Livro Brasileiro (1820-1950)”, informa Plinio Martins, acrescentando que não se conhece a totalidade de seu acervo e essa é uma oportunidade para saber um pouco mais sobre a formação de sua biblioteca. Outro destaque é a participação do acadêmico, poeta, crítico literário e um dos principais bibliófilos do País Antônio Carlos Sechin, professor titular de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um dos membros da Academia Brasileira de Letras (ABL). A mediação será de Marina Massimi.

Além de discutir a bibliofilia e valorizar o papel dos bibliófilos, que podemos chamar de guardiões dos livros, queremos que haja uma discussão sobre os acervos das bibliotecas. Esperamos que possa existir uma política geral que valorize os acervos e que tragam esses acervos para as universidades, ou seja, que grandes bibliotecas ou mesmo livros, como uma primeira edição de Machado de Assis, possam integrar os acervos da Universidade”, diz Martins. “Mindlin tinha um objetivo, que era o de formar a Brasiliana, além de dedicar uma parte do seu acervo às obras internacionais, com livros raríssimos, como uma edição de Petrarca, de 1493, quando o Brasil ainda nem tinha sido descoberto. São livros que têm um valor estético e cultural”, destaca, lançando uma pergunta para reflexão: “Qual a política de formação de acervo nas universidades hoje e no futuro?”.

.

Cartaz do evento, com a programação completa – Foto: Reprodução

O seminário Bibliofilia: Circuitos e Memórias será realizado nos dias 12 e 13 de novembro, das 10 às 16 horas, na Sala Villa-Lobos da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP (Rua da Biblioteca, 21, Cidade Universitária, em São Paulo). Haverá transmissão ao vivo através deste link. O evento é gratuito e aberto a todos interessados mediante inscrição via formulário ou pelo e-mail e-mail bbm@usp.br. Mais informações no site do IEA ou no link da BBM.

Fonte: Jornal da USP

Bibliofilia: Circuitos e Memórias

Texto por Cláudia Regina

A Bibliofilia se nutre do interesse amplo e irrestrito pelas formas e componentes do livro. Mas o bibliófilo não se interessa apenas por uma bela encadernação, por uma impressão de qualidade, por papeis especiais, por ilustrações prestigiosas, ou pela alta tipografia. Tudo isso, sem dúvida, compõe o arsenal de elementos que distinguem um livro, logo, atiçam os colecionadores. Porém, o amor ao livro vai muito mais longe…

O amor ao livro pode nos conduzir a caminhos mais tortuosos e menos nobres. Por exemplo, os circuitos dos cordéis e dos alfarrabistas populares, com suas brochuras grosseiramente empilhadas em estantes de ferro, ou ainda as bibliotecas comunitárias, acomodadas em ambientes nem sempre bem iluminados e salubres. Afinal, a bibliodiversidade constitui hoje um critério fundamental para a valorização do livro.

Com base nessas premissas, a série de encontros “Bibliofilia: Circuitos e Memórias” se volta para as questões do colecionismo, da conservação e da memória dos livros. Nossos palestrantes são destacados colecionadores ou conservadores de bibliotecas públicas e particulares. Queremos ouvir suas histórias, aprender com suas experiências, disseminar seus conhecimentos e valorizar suas peculiaridades.

Ao trilhar os (des)caminhos do colecionismo, buscamos reforçar nossos laços com os livros e com as instituições e as pessoas que os preservam. E isso se faz necessário porque o circuito da memória não pode ser insensível a toda forma de difusão e preservação do conhecimento. Tampouco, às diferentes manifestações de amor ao livro e à cultura.

Inscrições

Evento público, gratuito e com inscrição prévia.

Público online não há necessidade de se inscrever.

Programação

12/11/2018

10h-12h

Memória dos Livros e dos Homens

Mediador: Marina Massimi (IEA)

14h-16h

Os Des(caminhos) do Colecionismo 1

Mediador: Plinio Martins Filho (ECA/USP)

13/11/2018

10h-12h

Bibliófilos Brasileiros

Mediador: Carlos Alberto de Moura Ribeiro Zeron

14h-16h

Os Des(caminhos) do Colecionismo 2

Mediador: Marina Massimi (IEA)

Evento com transmissão em: http://www.iea.usp.br/aovivo

Mais informações: http://www.iea.usp.br/eventos/bibliofilia-circuitos-e-memorias

Cartas mostram mãos apaixonadas de bibliófilo

Rubens Borba de Moraes retorna à cena em volume que cobre sua correspondência de 1961 a 1985

O bibliófilo Rubens Borba de Moraes (1899-1986) – Folhapress

Quando percorremos a magnífica Brasiliana Guita e José Mindlin, hoje abrigada na USP, nem sempre nos lembramos de que, para a edificação desse monumento, muitas pessoas puseram a mão na massa, além de Mindlin.

E, dentre todas, sem dúvida avulta Rubens Borba de Moraes (1899-1986) –que, após a morte , teve sua coleção incorporada ao acervo de Mindlin. Fascinante figura, partícipe (em segundo plano) da Semana de 1922, retorna à cena em volume que cobre sua correspondência de 1961 a 1985 com o livreiro luso António Tavares de Carvalho.

De que trata o livro? Basicamente, das encomendas que Rubens efetuou. A todo momento, fala-se de obras, dinheiro, transferência de valores. Temas que, convenhamos, não chegam a empolgar os leitores, mesmo, talvez, os poucos bibliófilos do país.

Porém o interesse da obra não se esgota nisso, pois questões paralelas, de natureza pessoal, social e política também comparecem.

Rubens, aliás, prefere ver-se menos como bibliófilo do que como bibliógrafo: elaborador de meticulosas descrições de obras pioneiras de nossas letras, com ênfase no período do Brasil Colônia e nos folhetos da Impressão Régia do Rio de Janeiro.

Nessa faixa temporal, o apetite de Rubens era onívoro: desejava amealhar rigorosamente tudo.

É curiosa, nas demandas ao livreiro português, certa fixação do bibliógrafo nos primeiros textos de nossa medicina –decerto como documento, não como terapêutica, caso contrário dificilmente ele teria atingido os 87 anos.

Rubens desenvolveu uma singular trajetória de vida. De origem abastada, educou-se na Suíça, onde, aos 20 anos, em 1919, chegou a publicar, em coautoria, peça de teatro em língua francesa. Em 1924, lançou “Domingo dos Séculos”, livro em que defendeu a arte moderna.

Foi autor de meticulosas obras de referência sobre a bibliografia do nosso período colonial, com títulos indispensáveis. Escreveu o delicioso “O Bibliófilo Aprendiz”.

Nesta muito bem cuidada edição da correspondência, organizada com apuro, registram-se pequenas omissões e alguns (poucos) equívocos facilmente sanáveis.

Pela própria natureza das cartas, o valor das obras é tópico recorrente. Assim, seria útil uma tabela de conversão: quanto, à época, valiam a moeda portuguesa e a brasileira em relação ao dólar?

Esporadicamente surge a informação, mas por iniciativa de Rubens, quando poderia constar em pé de página, por critério editorial.

Estão truncados (raros) títulos de obras, a exemplo, na página 35, de “Glama”, em vez de “Glaura”. Esparsos erros ortográficos, em palavras estrangeiras ou vernáculas, ainda que presentes no original, mereceriam correção (“caçar” por “cassar”, “trás” por “traz”, “mal” por “mau” etc).

Às vezes (página 271) a imagem reproduzida não corresponde a livro comentado nas páginas adjacentes.

Louve-se a opção editorial de não se efetuarem supressões de trechos reveladores de opiniões hoje indefensáveis, comentários de índole racista (págs. 12, 30 e 62) ou politicamente reacionários.

Felizmente tais juízos são marginais, bastante esporádicos, e atenuam-se ou desaparecem na progressão das centenas de cartas.

Resta a curiosidade de saber um pouco mais sobre esse prodigioso livreiro/bibliófilo António Tavares de Carvalho, que, para provável inveja dos colecionadores de então, conseguia, quase semanalmente, garimpar preciosidades e ofertá-las em prioridade às estantes de Rubens.

Se a Brasiliana de José Mindlin, para o bem da cultura do país, ostenta a solidez de uma imponente catedral de obras e documentos, este livro nos revela boa parte de sua laboriosa construção, folheto a folheto, pela mãos apaixonadas de Rubens Borba de Moraes.

Texto por Antonio Carlos Secchin: poeta, ensaísta e bibliófilo, é professor emérito da UFRJ e membro da ABL

Fonte: Folha de São Paulo

Livro reúne cartas de Rubens Borba de Moraes a livreiro português

Organizada pelo professor da USP Plinio Martins Filho, obra traz correspondências enviadas entre 1961 e 1985

Por 

O bibliófilo Rubens Borba de Moraes (1899-1986) – Foto: Reprodução

A BBM Publicações acaba de lançar o livro Cartas de Rubens Borba de Moraes ao Livreiro Português António Tavares de Carvalho, organizado pelo professor Plinio Martins Filho, do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Através dessas cartas – escritas entre 1961 e 1985 -, é possível acompanhar a formação da biblioteca brasiliana do bibliófilo, bibliotecário e ensaísta araraquarense Rubens Borba de Moraes (1899-1986), hoje integrada à Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP. 

Mas não é só. Suas cartas revelam também a visão de Borba de Moraes sobre a política brasileira ao longo das mais de duas décadas em que foram elaboradas. Na carta datada de 8 de abril de 1964 – a primeira escrita após o golpe militar de 31 de março daquele ano -, por exemplo, ele se refere assim ao movimento que tirou do poder o presidente João Goulart: “Recebi sua carta de 30 do mês passado. Não respondi logo pois ela me veio ter em plena revolução! Os jornais já lhe devem ter contato o que se passou. Escapamos por um triz da comunização do Brasil. O golpe comunista estava marcado e tudo pronto quando o Exército resolveu intervir. O extraordinário em todo esse movimento foram as manifestações populares democráticas que precederam o golpe militar. Foram comícios de centenas de milhares de pessoas organizadas por mulheres que saíram à rua pedindo a ação do Exército contra o comunismo! Foi de empolgar”.

Quatro meses depois, em nova missiva ao livreiro português, Borba de Moraes volta a se referir à situação do Brasil: “Acresce que o custo de vida tem subido constantemente e os impostos acabam de ser aumentados, sobretudo o imposto de renda. Não sei onde vão parar os burgueses aposentados como eu. Os comerciantes e industriais sempre se defendem, mas nós os rentiers? Se continuarem assim as coisas, não terei remédio senão voltar a trabalhar, procurar um emprego qualquer para me dar a manteiga que me tiram do pão de cada dia. A minha ‘manteiga’ são os livros que compro”.

O cômico desta situação” – continua a carta – “é que não posso deixar de aplaudir a política financeira do governo. Os governos do Juscelino e do Goulart levaram este país às garras. Estamos arruinados e se não fizermos sacrifícios sérios não sairemos desta inflação. Teremos de pagar mais impostos, pagar mais caro tudo que se importa e pagar o dobro, como estou fazendo, esta luz elétrica que me ilumina, bem mal por sinal, pois estamos com eletricidade racionada.”

Para mudar de assunto e falar de livros, ele se interrompe: “Mas vamos a coisas mais alegres, que falar do Brasil entristece e não há consolo”.

O primeiro contato com António Tavares de Carvalho se deu por indicação de um amigo, o senhor Gropp, como Borba de Moraes observa na primeira carta escrita ao livreiro português, datada de 27 de março de 1961: “Prezado Senhor, meu amigo, o Sr. Gropp, recentemente chegado de uma viagem a Portugal, indicou-me seu nome como pessoa interessada em procurar livros raros para colecionadores e deu-me uma relação de obras que V.S. deseja vender”.

O livro, que não traz as respostas do livreiro português, é separado por ano. Não há nenhum registro de 1984, o que pode ser explicado por Borba de Moraes estar debilitado, já que na época tinha 85 anos. Mas a última carta do bibliófilo, de 16 de dezembro de 1985, não tem tom de despedida. Pelo contrário: “Espero vê-lo aqui no próximo ano. Seria uma festa para este seu velho amigo”. Borba de Moraes morreu em 2 de setembro de 1986.

Rubens Borba de Moraes foi um dos organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, dirigiu a hoje chamada Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade e fundou o Departamento de Cultura de São Paulo, atual Secretaria Municipal de Cultura. Na área acadêmica, atuou como professor e organizou o curso de Biblioteconomia da Prefeitura de São Paulo, em 1936, que contribuiu para a organização e a documentação do acervo do Departamento de Cultura. Borba de Moraes criou a Associação Paulista de Bibliotecários. Após estudar biblioteconomia nos Estados Unidos, tornou-se diretor da Biblioteca da Organização das Nações Unidas (ONU), até 1959. Anos depois, ao voltar ao Brasil, tornou-se docente na Universidade de Brasília (UnB)

O livro tem organização de Plinio Martins Filho e é uma edição da BBM Publicações – Foto: Reprodução

 

A versão digital de Cartas de Rubens Borba de Moraes ao Livreiro Português António Tavares de Carvalho está disponível gratuitamente  aqui.

Além dessa obra, a BBM Publicações lançou no dia 13 passado o livro Rubens Borba de Moraes: Anotações de um Bibliófilo, da curadora da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin Cristina Antunes. Leia mais aqui.

Texto por Jonas Santana

Fonte: Jornal da USP

Mesa-redonda “Bibliotecários, bibliófilos, bibliotecas”

Lançamento dos livros O bibliotecário perfeito: O historiador Ramiz Galvão na Biblioteca Nacional Ana Paula Sampaio Caldeira | Coedição EDIPUCRS/FBN

A Biblioteca Nacional na crônica da cidade: A cidade | O leitor Iuri Lapa e Lia Ramos | FBN( coleção Rodolfo Garcia, n°43

Fonte: Fundação Biblioteca Nacional

Biblioteca Brasiliana lança livro sobre Rubens Borba de Moraes

Obra que será lançada no dia 13, na USP, reúne manuscritos de um dos maiores bibliófilos brasileiros

Texto por Vinicius Crevilari

Rubens Borba de Moraes (1899-1986): um dos maiores bibliófilos do Brasil – Foto: Prefeitura SP/Biblioteca Rubens Borba de Moraes

Parte dos mais de 32 mil títulos ou 60 mil volumes pertencentes à Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP tem origem no acervo de Rubens Borba de Moraes, um dos maiores bibliógrafos, bibliófilos e historiadores do Brasil, que doou sua coleção ao casal Guita e José Mindlin antes de seu falecimento, em 1986.

Pensando na importância de Rubens Borba de Moraes para a concepção e a construção da BBM, a bibliotecária Cristina Antunes, da BBM, vai lançar no dia 13 de março, terça-feira, às 18 horas, o livro Rubens Borba de Moraes: Anotações de um Bibliófilo, pela BBM Publicações.

Cogitei a possibilidade de realizar uma publicação que reunisse o conjunto das notas manuscritas por ele nos livros que constituem a sua biblioteca — hoje parte integrante da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, na Universidade de São Paulo —, o que me levou a elaborar o levantamento, registro e reprodução de toda a marginália presente nas referidas obras”, escreve Cristina na Introdução da obra.

O livro de Cristina Antunes, lançado pela BBM Publicações – Foto: Reprodução

Cristina trabalhou no levantamento, registro e transcrição de notas manuscritas em papéis avulsos, recortes de jornais e de catálogos, notas de vendas emitidas por livreiros e anotações feitas pelo bibliófilo, especificamente relacionadas aos livros que constituíram sua biblioteca pessoal.

Essas anotações continham informações sobre os autores e suas obras, suas biografias e os contextos em que eles estavam inseridos. Geralmente, eram feitas a lápis nas folhas de guarda dos livros (página que une a capa ao corpo do livro) ou na página de rosto (folha que traz informações como título, subtítulo e autor do livro).

Mas, apesar de nos livros de Rubens Borba de Moraes haver inúmeras notas, uma grande parte informava “de forma bastante econômica” somente a referência bibliográfica dos autores, “acompanhada do número do verbete e/ou do número da página do mesmo. Eventualmente, essa informação é complementada com alguma expressão, como ‘raro’, ‘raríssimo’, ‘é a 1ª edição’ etc.”, escreve Cristina.  

No que se refere aos recortes de artigos jornalísticos e às partes de páginas de catálogos, estas, também segundo Cristina, “representam informações complementares ao contexto bibliográfico”. Já as notas de vendas dos livros adquiridos por Rubens Borba de Moraes “são uma excelente fonte de informação sobre a procedência e os valores das obras na ocasião em que foram compradas, além de permitirem uma comparação com os valores atuais desses livros, geralmente presentes em catálogos de livreiros ou catálogos de leilões”. Quanto às notas manuscritas em folhas avulsas — ou seja, separadas dos livros —, embora raras, são “as que evidenciam maior interesse para o pesquisador em virtude da riqueza de informações que elas contêm”.

Foi esse aspecto que deu a certeza da importância de organizar um livro sobre os registros feitos pelo bibliófilo. “O conteúdo dessa empreitada que abrange o levantamento da totalidade das notas de Rubens Borba de Moraes que aqui se encontram devidamente organizadas e registradas, a meu ver, merece ser disponibilizado na forma de uma publicação impressa, que permitiria aos pesquisadores e interessados em bibliografia o acesso ao conjunto completo de informações que estão presentes nos livros de Rubens”, escreve Cristina.

À esquerda, capa de livro do acervo de Rubens Borba de Moraes, História da América Portugueza, de Sebastião da Rocha Pittta, a primeira história do Brasil a ser impressa, em 1730. À direita, imagem de nota de venda onde o livro foi adquirido

Um pouco da história de Rubens Borba de Moraes

Rubens Borba de Moraes nasceu em 1899, na cidade de Araraquara (SP), e morreu em Bragança Paulista (SP), em 1986.

Estudou na Faculdade de Letras de Genebra, na Suíça, onde lançou seu primeiro livro, Le Chevalier au Barizel (O Cavaleiro em Barizel, em português), uma peça de teatro encenada em fevereiro de 1919. No Brasil, manteve fortes laços com o grupo de artistas precursores do movimento modernista, que deu forma à Semana de Arte Moderna de 1922, como Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Guilherme de Almeida, Luís Aranha, Mário de Andrade, Menotti del Picchia e Oswald de Andrade. Em 1923, publicou seu primeiro livro de ensaios, Domingo dos Séculos, e, no mesmo ano, começou a colaborar na criação e lançamento de revistas vanguardistas, como a Terra Roxa & Outras Terras e a Revista de Antropofagia.

Rubens Borba de Moraes, em 1922, durante a Semana de Arte Moderna – Foto: Wikimedia Commons

Contribuiu na fundação da Escola Livre de Sociologia e Política — hoje Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo—, idealizou e concretizou a criação do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, abrindo caminho para o desenvolvimento de bibliotecas públicas paulistanas, e fundou o primeiro curso de Biblioteconomia do Brasil, assumindo a direção da Divisão de Bibliotecas do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo e dedicando-se, a partir de então, aos livros e à biblioteconomia. Também foi diretor da Biblioteca Nacional durante os anos 1940 e, ao final daquela década, assumiu a direção da biblioteca e do centro de informações da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, nos Estados Unidos, cargo que ocupou por mais de dez anos.

Foi responsável pela organização de coleções e séries de livros, como a da Biblioteca Histórica Brasileira e a série Roteiro do Brasil, que inclui dois títulos: Cultura e Opulência do Brasil e Obras Econômicas.

Rubens se dedicou especialmente a colecionar os autores brasileiros do período colonial”, afirma Cristina, lembrando que as coleções Bibliographia Brasiliana: Livros Raros Sobre o Brasil Publicados desde 1504 até 1900 e Obras de Autores Brasileiros do Período Colonial, que o bibliófilo organizou, são consideradas referências na pesquisa e nos estudos bibliográficos brasileiros.

A importância da sua produção pode ser avaliada não só por sua qualidade, como pela preocupação de propagar a cultura brasileira”, escreve a bibliotecária da BBM. Ainda segundo ela, “Rubens era uma pessoa objetiva, prática e direta, que aproveitava todas as situações com que se deparasse para realizar pesquisas ligadas ao seu interesse bibliográfico”. Como um investigador, “seguia exaustivamente a pista dos livros que lhe interessavam, muitas vezes viajando a vários países para isso”.

O livro Rubens Borba de Moraes: Anotações de um Bibliófilo, de Cristina Antunes, será lançado no dia 13 de março, terça-feira, às 18 horas, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP (Avenida Professor Luciano Gualberto, 78, Espaço Brasiliana, Cidade Universitária, em São Paulo, telefone 11 2648-0320).

Fonte: Jornal da USP