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Patrimônio

O risco de descontinuidade da política de patrimônio imaterial

Texto por Inês Virgínia Prado Soares, Mário Pragmácio e Yussef Daibert Salomão de Campos

Em 2020, o Decreto 3551 completou 20 anos. Publicada em 4 de agosto de 2000, essa norma transformou a gestão e salvaguarda do patrimônio cultural imaterial (PCI) no Brasil, incumbindo ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) mais uma importante missão ao instituir o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial que constituem patrimônio cultural brasileiro e criar o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial.

Como campo transdisciplinar que é o PCI, a sua gestão e proteção exige envolvimento de profissionais de diversas áreas: Direito, Arqueologia, História, Letras, Antropologia, Museologia, Educação e Sociologia. E a atuação desses profissionais encontra no Iphan o principal interlocutor, sejam as práticas e saberes registrados como patrimônio ou não.

Pensar conceitos e categorias como “patrimônio imaterial”, “memória”, “decolonialidade”, “cultura” e “apropriação cultural”, “modos de vida”, “ressignificação”, “cultura popular” e “diversidade cultural”, entre outros, nos permite não só avaliar como se deu a gestão do patrimônio cultural imaterial no Brasil nas últimas duas décadas, como também perscrutar como os usos dessa classe de patrimônio são encampados por grupos minoritários politicamente.

A percepção da importância dos bens imateriais no campo de disputa pelo protagonismo dos discursos oficiais do Estado se consolidou entre as comunidades detentoras dos bens, num nítido empoderamento dos grupos, independentemente da patrimonialização. Além disso, foi também notada a possibilidade de fortalecimento dos direitos econômicos coletivos, a partir do reconhecimento do valor identitário do bem. Afinal, o patrimônio é a expressão política da memória e um nobre veículo do direito ao desenvolvimento.

Leia a matéria completa publicada pelo Consultor Jurídico

TJMA participa da escrita colaborativa do Manual de Gestão da Memória

Por designação do presidente do Tribunal de Justiça do Maranhão, desembargador Lourival Srrejo, a Coordenadoria de Biblioteca e Arquivo, contribuiu com a escrita colaborativa do Manual de Gestão de Memória, a ser publicado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O manual – estabelecido pela Resolução CNJ nº 324/2020 –institui diretrizes e normas de Gestão de Memória e de Gestão Documental e dispõe sobre o Programa Nacional de Gestão Documental e Memória do Poder Judiciário (Proname).

O texto foi enviado aos membros do Comitê do Proname – responsável pela finalização da minuta – no dia 30 de outubro. A escrita foi feita com trabalho voluntário de mais de 50 profissionais de diferentes ramos do Poder Judiciário e outros órgãos públicos com diversas formações acadêmicas, como História, Arquivologia, Biblioteconomia, Museologia, Ciências Sociais, Comunicação Social, Arquitetura, Direito, Administração, entre outras. Após a aprovação do comitê, a redação final dos textos será submetida à Presidência do CNJ, que oficializará o manual por meio de portaria.

Para Cíntia Andrade, coordenadora da Biblioteca e Arquivo do TJMA, foi um grande desafio e uma experiência enriquecedora participar como colaboradora num processo que representa a construção da memória do Judiciário no país. “É um trabalho inédito que possibilitou a interlocução entre todos os Tribunais judiciários e a troca de conhecimentos entre os mais variados profissionais que labutam em prol da memória judiciária no Brasil”, frisou.

O historiador Christofferson Melo, chefe da Divisão de Acervo Histórico do TJMA, afirmou que fazer parte do projeto do Manual de Gestão da Memória do CNJ foi uma grande alegria e satisfação, que estimulou o compromisso com a preservação e proteção do patrimônio cultural do Judiciário maranhense e brasileiro. “O Tribunal de Justiça do Maranhão ser convidado a participar de tão importante iniciativa mostra que a Corte tem, por meio de suas políticas públicas, conquistado lugar de proeminência no cenário nacional na preservação de sua memória institucional”, afirmou.

Leia a matéria completa publicada pelo O Maranhense

‘Formulário Médico’, livro da Editora Fiocruz, conquista o 6º Prêmio Abeu

A Editora Fiocruz acaba de conquistar mais um Prêmio Abeu. O livro Formulário Médico: manuscrito atribuído aos jesuítas e encontrado em uma arca da Igreja de São Francisco de Curitiba foi o grande vencedor na categoria Ciências da Vida da sexta edição do prêmio, concedido pela Associação Brasileira das Editoras Universitárias (Abeu). A vitória foi anunciada em cerimônia realizada virtual apresentada na última quinta-feira (26/11). A transmissão ocorreu pelo canal da Abeu no YouTube. 

Lançada em 2019, como parte do selo especial Clássicos & Fontes da coleção História e Saúde, a obra foi organizada pelos pesquisadores Heloisa Meireles Gesteira, João Eurípedes Franklin Leal, Maria Claudia Santiago. Os segundo e terceiro lugares na categoria foram, respectivamente, os livros Terra Papagalorum (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo) e Geopolítica do Alimento: o Brasil como fonte estratégica de alimentos para a humanidade (Editora da Embrapa).         

Um vídeo com depoimento da coorganizadora Maria Claudia Santiago, chefe da Seção de Obras Raras da Biblioteca de Manguinhos da Fiocruz, foi exibido durante a transmissão. Em seus agradecimentos, a historiadora ressaltou que o trabalho só foi possível pelo esforço conjunto de pesquisadores das mais diversas áreas e de órgãos científicos. “Aproveito para agradecer aos 43 profissionais de 17 instituições brasileiras que participaram da produção desse livro”. Segundo ela, a publicação representou a chance de fazer com que um manuscrito raro e de fundamental importância para a história da saúde do país saísse das estantes da Biblioteca e chegasse a um público mais amplo. Ao premiar o livro, a Abeu ressaltou que o cuidado com a memória enriquece e fortalece a ciência do Brasil. 

Essa foi a 5ª vez que a Editora Fiocruz conquistou o primeiro lugar no Prêmio Abeu. Desde sua criação, em 2015, a Editora vem marcando presença em todas as edições da premiação, incluindo, além das vitórias, uma série de indicações e menções honrosas. Em 2019, o livro Clínica, Laboratório e Eugenia: uma história transnacional das relações Brasil-Alemanha foi o vencedor na categoria Ciências Sociais, enquanto Arquivo de um sequestro jurídico-psiquiátrico: o caso Juvenal conquistou menção honrosa em Ciências da Vida. 

Leia a matéria completa publicada Defasa Agência de Notícias

II Colóquio Internacional “Desafios Contemporâneos da Memória: A Bibliografia Material e seus impactos no gerenciamento do patrimônio bibliográfico”

O II Colóquio Internacional “Desafios Contemporâneos da Memória: A Bibliografia Material e seus impactos no gerenciamento do patrimônio bibliográfico” acontece nos dias 23 e 24 de novembro de 2020. O evento é organizado pelo Goethe-Institut e pelo Escritório do Livro e Coordenação das Mediatecas Francesas da Embaixada da França no Brasil. 

O livro impresso é um instrumento tecnológico complexo, com características peculiares que precisam ser desvendadas e analisadas com base em princípios científicos estabelecidos há muito tempo. Entre elas, a Bibliografia Material, uma disciplina de longa data que pode ser entendida como a ciência do livro impresso, o estudo de sua materialidade, a anatomia e arqueologia desse objeto. Ela se concentra no livro de imprensa manual, estudando as várias maneiras pelas quais um livro pode ser produzido, estruturado, alterado e preparado antes da mecanização da produção ca. 1830. 

A ideia do livro como um artefato, independentemente do conteúdo intelectual, encontra convergência e afinidade com a Museologia, pois essa área pensa no diálogo entre objetos. Uma percepção semelhante pode ser encontrada nas facetas epistemológicas das artes plásticas dedicadas aos livros dos artistas. 

Como disciplina, a Bibliografia Material faz parte, há muito tempo, da formação de profissionais nas áreas de Biblioteconomia, História e Literatura. Nas últimas décadas, no entanto, em consonância com o desenvolvimento de uma “História do livro” mais ligada à História Cultural e Social, passou a ser vista, em vários países, como algo obsoleto, de interesse quase amador. E por isso, também desapareceu de vários currículos. Por coincidência, nas últimas décadas, as bibliotecas e os profissionais de informação precisaram desenvolver descrições aprimoradas das coleções, em catálogos tradicionais, bibliotecas digitais e bancos de dados específicos. Agora as bibliotecas estão enfrentando dificuldades, pois nesse novo contexto, que visa oferecer melhor acesso às coleções, exige que os funcionários tenham uma excelente compreensão dos livros como um artefato. A Bibliografia Material – uma ciência que remonta ao século 18 – é um caminho importante para as principais atividades da biblioteca contemporânea. 

Este Colóquio visa trazer a discussão de tendências, mudanças e o uso da Bibliografia Material em diferentes áreas. Ele procurará destacar não apenas o campo como disciplina, discutindo os desenvolvimentos recentes, como por exemplo, ser membro fundador das humanidades digitais, mas também refletir sobre seu papel e função na prática da Biblioteconomia. Os especialistas convidados discutirão o lugar e o papel da Bibliografia Material em relação às ferramentas digitais e seu impacto no gerenciamento do patrimônio bibliográfico. 

 

PROGRAMAÇÃO

23 de novembro de 2020

10h00-10h15: Boas-vindas

10h15-11h30

Palestra

“Esferas cognitivas da Bibliografia Material”

Dr. Eduardo Alentejo (UNIRIO)

Mediador: Prof. Dr. Claudio Gottschalg Duque (UnB)

14h00-15h40

Mesa 1

“A Bibliografia Material e a gestão de coleções especiais: preservação e segurança”

Dra. Raphaële Mouren (Un. of London, The Warburg Institute)

Dr. Wolfgang-Valentin Ikas (Bayerische Staatsbibliothek)

Ma. Jandira Flaeschen (Biblioteca Nacional)

Debatedora: Dra. Walmira Costa (UFMG)

16h00-17h15

Palestra

“O surgimento de fundições de tipos e seu comércio na Alemanha”

Dr. Nikolaus Weichselbaumer (Johannes Gutenberg-Universität Mainz)

Mediador: Dr. Rubens Ferreira (UFPA)

 

24 de novembro de 2020

10h00-11h40

Mesa 2

“A contribuição da Bibliografia Material para a história da cultura impressa”

Dr. Dominique Varry (Université de Lyon-Enssib)

Dr. Nikolaus Weichselbaumer (Johannes Gutenberg-Universität Mainz)

Dr. Nelson Schapochinik (USP)

Debatedora: Dra. Bernardina Maria Juvenal Freire de Oliveira (UFPB)

14h00-15h40

Mesa 3

“A Bibliografia Material e Humanidades Digitais”

Dra. Raphaële Mouren (Un. of London, The Warburg Institute)

Dra. Claudia Fabian (Bayerische Staatsbibliothek)

Dr. Ricardo Pimenta (IBICT)

Debatedor: Dr. Derek Warwick da Silva Tavares (UFBA)

16h00-17h15

Palestra

“Bibliografia Material e desafios contemporâneos”

Prof. Dr. Dominique Varry (Université de Lyon-Enssib)

Mediador: Dr. Fabiano Cataldo de Azevedo (UNIRIO)

 

Não requer inscrição.

Transmissão direta em: https://www.youtube.com/channel/UCKc_gZE6CIVVnt5WLwpding

USP guarda os originais de “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos

Arquivo do escritor é um dos destaques da série “Acervos do Mês”, do Instituto de Estudos Brasileiros da USP

Por Claudia Costa

O escritor alagoano Graciliano Ramos e ilustrações de Aldemir Martins para seu livro Vidas Secas – Fotomontagem: Camila Paim/Jornal da USP com foto do acervo do IEB

O acervo do escritor alagoano Graciliano Ramos (1892-1953), sob a guarda do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP desde 1980, inclui os manuscritos originais de um de seus principais livros, Vidas Secas, publicado em 1938. O arquivo conserva também a edição de 1952, publicada pela Livraria Jose Olympio Editora, fotografias da edição em turco, de 1990, notas de lançamentos e críticas publicadas em jornais e até a prova tipográfica da segunda edição, de 1946, com 200 folhas e correções de Graciliano Ramos. Destaque para a carta enviada ao jornalista João Condé, em 1944, em que o escritor revela a origem de Vidas Secas a partir do conto Baleia, escrito no início de 1937, e comenta a forma como compreende sua história e suas personagens, rebatendo uma opinião de Octávio de Faria, segundo a qual se esgotara a possibilidade de romances do sertão.

Graciliano Ramos – Foto: Arquivo/IEB

O arquivo de Graciliano Ramos é um dos destaques da série Acervos do Mês, iniciativa do IEB que tem como objetivo divulgar o vasto acervo do instituto. Além dos documentos referentes ao autor de Vidas Secas, a série ainda destaca neste mês outros dois arquivos, o do escritor Mário de Andrade (1893-1945) e o da historiadora e economista Alice Piffer Canabrava (1911-2003).

Um dos nomes mais destacados da literatura e da cultura brasileira do século 20, Mário de Andrade é autor de Macunaíma, o Herói sem Nenhum Caráter, um dos principais romances modernistas. Publicado em 1928, o livro é uma rapsódia sobre a formação do Brasil, em que vários elementos nacionais se cruzam numa narrativa que conta a história de Macunaíma. O IEB guarda os manuscritos originais da obra. Entre eles, uma versão do prefácio do livro, em que o escritor afirma: “Evidentemente não tenho a pretensão de que meu livro sirva pra estudos científicos de folclore”, e um exemplar de trabalho.

Há centenas de outros itens a respeito de Mário de Andrade, como cartas, telegramas e bilhetes, um deles, de 1944, assinado por Luís da Câmara Cascudo, em que se refere a Mário como “ao querido Macunaíma”.

Mário de Andrade – Foto: Arquivo/IEB

Mário de Andrade nasceu em São Paulo e atuou como cronista e crítico nos principais periódicos culturais do País. Escreveu diários e pesquisou o folclore brasileiro. Também formou uma coleção de arte representativa do Modernismo e teve cargos de destaque, como o de diretor do Departamento de Cultura do município de São Paulo (1935-1938). Nessa função – equivalente à de secretário municipal de Cultura – planejou a Biblioteca Municipal e implantou a Discoteca Pública. Seu percurso pode ser acompanhado nos mais de 30 mil itens presentes no acervo do IEB, entre correspondências, discos, documentação pessoal, fotografias, literatura popular e partituras.

Sobre a trajetória de Alice Canabrava, o acervo apresenta cerca de 2.400 documentos, entre correspondência com historiadores, fichas de pesquisa, manuscritos de autores diversos e notas bibliográficas, além de livros, teses e revistas de áreas como história, história econômica, geografia e economia.

Alice Canabrava – Foto: Arquivo/IEB

Destaque para os originais datilografados da sua tese O Desenvolvimento da Cultura do Algodão na Província de São Paulo: (1861-1875), com a qual se tornou, em 1951, professora catedrática de História Econômica Geral e Formação Econômica do Brasil da então Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da USP, a atual Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), da qual foi diretora entre 1954 e 1957. O arquivo traz também cartas em que Alice comenta fatos relacionados à Associação Nacional dos Professores Universitários de História (ANPUH), da qual foi uma das fundadoras, em 1961.

Mais informações sobre os Acervos do Mês de outubro estão disponíveis no site do IEB.

Fonte: Jornal da USP

“Revista BBM” faz o elogio dos preservadores de tesouros públicos

Publicação mostra a importância de colecionadores e restauradores de livros antigos para a cultura do Brasil

Texto por Roberto C. G. Castro

O amor aos livros é a primeira etapa do processo de produção da memória, destaca o Editorial da nova edição da Revista BBM – Foto: Cecília Bastos/USP Imagem

As pessoas que se dedicam a colecionar, preservar e restaurar livros antigos exercem uma função social da mais alta relevância. Com seu trabalho, elas evitam a perda, recuperam e colocam à disposição da sociedade valiosos patrimônios culturais, que dizem respeito à memória, à identidade e às aspirações de povos inteiros. É o caso dos bibliófilos brasileiros Rubens Borba de Moraes e José Mindlin, que transformaram as suas coleções particulares em verdadeiros tesouros públicos.

Esse elogio aos preservadores de livros antigos é o que se depreende da leitura da recém-lançada edição número 2 da Revista BBM, editada pela BBM Publicações, o braço editorial da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP. Com 312 páginas, a revista traz um dossiê sobre bibliofilia, ensaios sobre conservação no Brasil e artigos que abordam obras raras da BBM, além de resenhas de livros. Ela tem como editor o professor Plinio Martins Filho, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. “Intrínseco à jornada do colecionador, o afeto pode ser entendido como a primeira etapa do processo de produção da memória”, destaca o Editorial da nova edição da Revista BBM, citando as razões mais remotas da formação de acervos bibliográficos – o entusiasmo e o respeito ao livro.

A edição número 2 da Revista BBM, que acaba de ser lançada pelas Publicações BBM – Foto: Reprodução

Amor aos livros é o que mais transparece nos seis textos da seção da Revista BBM intitulada Rumos Atuais e Futuro da Conservação no Brasil. Os artigos reproduzem palestras proferidas durante seminário de mesmo nome realizado em 2017, na BBM, em homenagem a Guita Mindin, a esposa de José Mindlin, que era restauradora profissional e morreu em junho de 2006.

Num desses textos, o professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB) Antonio Agenor Briquet de Lemos, ex-diretor do Centro de Documentação do Ministério da Saúde e da Editora da UnB, dá uma boa ideia do que representa o descaso com os livros. Através de pesquisas em jornais, ele constatou que, entre 1880 e 2017, houve notícia no Brasil de 77 incêndios e 21 alagamentos em bibliotecas, em que os acervos foram total ou parcialmente destruídos. No dia 14 de setembro de 1958, por exemplo, a biblioteca do Convento do Carmo, no Largo da Lapa, no Rio de Janeiro, foi tomada pelo fogo. Ela reunia cerca de 15 mil volumes, incluindo pergaminhos e originais raros sobre teologia, história da Igreja e coleções sobre as Cruzadas, todos perdidos. Décadas antes, em 1911, um incêndio destruiu o prédio da Imprensa Nacional, também no Rio de Janeiro, fazendo desaparecer documentos referentes à produção bibliográfica da Impressão Régia. Em agosto de 1945, os 45 mil volumes da Biblioteca Pública do Amazonas, com rica documentação sobre a região amazônica, também foram transformados em cinzas em razão de um incêndio. O mesmo aconteceu em 1968 com cerca de 35 mil obras da biblioteca do Colégio do Caraça, no município de Catas Altas (MG), entre elas edições dos séculos 16, 17 e 18. “Talvez não seja exagero supor que mais de 1 milhão de livros foram destruídos nos diversos desastres e sinistros que ocorreram e ocorrem em nossas bibliotecas”, escreve Lemos.

Mais do que elencar as perdas de patrimônios inestimáveis, no seu artigo Lemos faz propostas para a preservação de bibliotecas e arquivos. “Os casos de sinistros e desastres aqui arrolados devem ser analisados da perspectiva contemporânea, para que deles possam ser obtidas informações que contribuam para que se evite sua repetição”, destaca. “Os manuais, normas e planos de salvaguarda do patrimônio serão inúteis se não forem acompanhados da alocação de recursos financeiros suficientes e compatíveis com a escala e a complexidade da preservação de bens dos quais, em muitos casos, somente temos um parco conhecimento. E, desnecessário dizer, de recursos humanos qualificados.”

Os bibliófilos

Amor e profundo respeito aos livros são sentimentos que transbordam nos bibliófilos, como mostra o dossiê publicado na nova edição da Revista BBM, intitulado “Bibliofilia – Circuitos e Memórias”. Ele também reproduz palestras proferidas num evento de mesmo nome realizado na BBM em novembro de 2018.

Com cinco artigos, o dossiê pode ser visto como uma declaração de gratidão e admiração por aqueles que se entregam a juntar livros antigos. Nele, destaca-se a figura de José Mindlin (1914-2010), a quem a escritora e tradutora Elisa Nazarian dedica o artigo O Amável Senhor dos Livros, incluído no dossiê. Ao longo de mais de 80 anos, Mindlin formou sua coleção de livros – cerca de 60 mil volumes -, que doou à USP em 2005 e hoje forma o acervo da BBM, inaugurada em 2013.

O bibliófilo José Mindlin (1914-2010), que formou a coleção hoje conservada pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP – Foto: Cecilia Bastos / USP Imagens

Elisa traça um perfil de Mindlin marcado pela generosidade, pelo afeto e pelo respeito a livros, à arte e a pessoas. “Fui com ele a algumas bienais de artes plásticas e a peças de teatro. Era sempre com paixão que ele se propunha a ir a esses lugares”, escreve Elisa, que trabalhou durante oito anos como funcionária da biblioteca de Mindlin, ainda quando a coleção estava instalada na sua residência, no bairro do Brooklin, na zona sul de São Paulo. “Quando passei a conviver com os Mindlin, ele já tinha 85 anos, mas mantinha a capacidade de se deslumbrar e de se encantar também com pequenas coisas, como quando nos chamava para ver uma orquídea que tinha acabado de desabrochar em seu jardim, ou quando chegava à biblioteca trazendo barras de chocolate para ‘suas meninas’.”

“Mindlin vinha à biblioteca quase diariamente. Tinha grande prazer em receber os pesquisadores e em sugerir obras para consulta. Seu imenso amor por livros incluía a possibilidade de compartilhá-los”, continua Elisa. Ela cita os critérios do bibliófilo ao adquirir acervos que se somariam à sua coleção: “Não comprava nada em língua estrangeira, livros técnicos nem volumes muito danificados. Quando lhe pediam estimativa sobre o valor de um livro, costumava dizer que um livro vale, acima de tudo, o quanto quiserem pagar por ele, não importando que seja o único exemplar publicado, a data de publicação, etc.”.

Outros artigos do dossiê relatam o empenho dos bibliófilos – nem sempre bem-sucedido – na busca por um livro, como é o caso de Descaminhos do Colecionismo, assinado pelo jornalista Ubiratan Machado. No artigo, Machado lembra alguns episódios da sua trajetória como colecionador de obras raras. Ele cita o “fenômeno curioso” causado pelo fato de, em certas ocasiões, as livrarias estarem sob a direção de pessoas que não sabiam avaliar o real valor de um livro. “Ou cobravam um preço excessivo por livros que julgavam raros e que nada valiam ou vendiam obras realmente raras por preço irrisório.” Numa dessas livrarias, contou, ele viu, no fundo da loja, numa prateleira junto ao chão, na seção de “Pássaros”, a coleção completa, com 52 números, do raríssimo jornal O Beija-Flor, editado por Joaquim Norberto entre 1849 e 1852. “Quase dei um pulo de alegria, e aquele beija-flor, vendido a preço de canário da terra, foi piar na minha biblioteca.”

Em outras ocasiões – continua Ubiratan Machado -, o bibliófilo parece receber um presente dos céus. Como ele exemplifica: “A Livraria Brasileira havia comprado uma grande biblioteca. Muitos livros estavam em condição lastimável, mas havia preciosidades bem conservadas. Comprei uns cinco ou seis volumes”. Ao abrir os livros, em casa, ele teve uma agradável surpresa: dentro de um deles, havia um original de Di Cavalcanti, um desenho a nanquim no verso do convite de sua última exposição em Paris. “Raras vezes paguei preço extorsivo por um livro. Raras, pois fui vencido algumas vezes. Mas nunca me arrependi de comprar. Arrependimento só de não comprar”, confessa Machado. “Como a primeira edição de Galinha Cega, de João Alphonsus, que encontrei numa feira do livro e esnobei. Quando me afastei, vi a imbecilidade que estava cometendo. Voltei à barraca, mas o livro já tinha sido vendido. Muitos anos depois, tentei cercar essa galinha, num leilão, mas ela fugiu para outras mãos.”

Santa Wilborada, a “padroeira” dos bibliófilos, segundo o jornalista e bibliófilo Ubiratan Machado – Foto: Reprodução/Revista BBM

Por ser uma atividade nobre, a bibliofilia tem uma padroeira, considera Machado. É Santa Wilborada, freira beneditina que viveu no século 10 na Suábia, onde hoje é a Suíça. Machado dá as razões desse título. “No ano de 925, a Abadia de Saint Gall estava cercada por invasores bárbaros que, como era seu costume, ameaçavam queimar tudo. Seria o fim da riquíssima biblioteca, formada por milhares de volumes. Contam as crônicas da época que Wilborada, uma espécie de bibliotecária da casa, enterrou os livros após uma visão. Os bárbaros foram repelidos, mas o mosteiro ardeu como o pavio de uma vela. O corpo da monja, mutilado e desfigurado, foi abandonado em uma pequena elevação, onde mais tarde encontraram os livros intactos”, escreve. “Outra versão, menos romântica, diz que os livros foram transferidos para um mosteiro próximo e que Wilborada morreu com um machado cravado na cabeça, sendo por isso representada pela Igreja com um livro na mão direita e um machado na esquerda. Seja como for, pelo seu heroísmo ela ascendeu à santidade. Como padroeira dos bibliófilos, possivelmente protege-os dos amigos do alheio, do olho gordo dos colegas e, sobretudo, dos chatos que insistem em pedir livros emprestados.”

Tanto quanto os bibliófilos, Cristina Antunes  – curadora da biblioteca Mindlin durante 34 anos, primeiro na residência dos Mindlin, depois, a partir de 2013, na Cidade Universitária – foi “uma extraordinária leitora e guardiã dos livros”, como destaca o título do artigo escrito pela historiadora portuguesa Débora Dias e publicado na seção Memória da nova edição da Revista BBM. O texto foi composto com base em entrevistas e conversas informais entre a historiadora e Cristina, feitas em 2017. Nessas conversas, Cristina – que morreu em março de 2019, aos 68 anos – relembra a sua trajetória, desde os anos de formação, em Recife (PE), e a vinda para São Paulo até o trabalho com Mindlin. “Ser uma grande leitora foi também a porta de entrada para o que Cristina considerou a sua experiência profissional decisiva: os mais de 30 anos de trabalho na biblioteca de José Mindlin. Apesar de não ser bibliotecária de formação, ela tinha o requisito principal exigido, lia por prazer”, escreve Débora.

Cristina Antunes: curadora dos livros de Guita e José Mindlin durante 34 anos – Foto: Reprodução/Revista BBM

Descrevendo a rotina de trabalho na biblioteca de Mindlin, a historiadora cita que entre as tarefas de Cristina estava receber os pesquisadores que solicitavam acesso à coleção, visitas autorizadas somente depois que ela reunia informações sobre quem pedia para frequentar a casa. “O seu lazer não raro prolongava-se na biblioteca, quando participava dos convívios sociais em torno dos livros, por vezes aos fins de semana”, destaca Débora. “Entre os seus episódios favoritos, o encontro com o escritor português José Saramago, a surpresa de receber o peruano Mario Vargas Llosa ou a correspondência, que perdurou por anos, com o poeta mato-grossense João de Barros.”

Raros e Raríssimos

A nova edição da Revista BBM oferece exemplos práticos da importância, para a cultura, da preservação de livros antigos, que poderiam estar perdidos para sempre. Trata-se de dois artigos publicados na seção Raros e Raríssimos. Um deles se refere a uma raridade poética do século 17: o manuscrito de um poema atribuído a Bernardo Vieira Ravasco, irmão do padre Antônio Vieira, intitulado Saudades de Lídia e Armido, pertencente à BBM. Segundo o autor do artigo, o professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Marcelo Lachat, esse poema teve considerável recepção nas letras portuguesas e luso-brasileiras. Dada a dificuldade de localizar originais de Ravasco – poeta quase nunca citado nos compêndios de literatura -, o manuscrito depositado na BBM é “essencial para um melhor conhecimento e uma mais fundamentada discussão das letras (particularmente da poesia) na América Portuguesa dos anos seiscentos”, escreve Lachat. “Preserva-se nesse códice da Biblioteca Brasiliana, e comprova-se com ele, a auctoritas poética que Bernardo Vieira Ravasco tinha no século 17 e que se perdeu nos séculos seguintes entre papéis mal conservados ou mal compulsados. Historicamente apagado sob a sombra do seu ilustre irmão Antônio, reluz, enfim, o poeta Bernardo nessas manuscritas Saudades seiscentistas.”

O outro artigo da seção Raros e Raríssimos é de autoria do escritor e bibliófilo Ésio Macedo Ribeiro, que nele conta como conseguiu comprar, num leilão, um exemplar da primeira edição de A Cinza das Horas, de Manuel Bandeira. Como Ribeiro explica no início do artigo, a possibilidade de encontrar primeiras edições de escritores modernistas brasileiros é especialmente árdua, uma vez que essas edições foram bancadas pelos próprios autores e por isso tiveram tiragens reduzidas. A Cinza das Horas é um caso típico: foi lançado em 1917 às próprias custas de Bandeira, em papel de baixa qualidade e em tiragem pequena. Primeiro livro do poeta, que reúne poemas escritos na sua juventude, ainda influenciado pelo Simbolismo e pelo Parnasianismo, A Cinza das Horas “revela um Bandeira já dono de linguagem própria, expressando as agruras da condição humana, em versos que exprimem as dores do amor e da morte, do desamparo e da solidão”, explica Ribeiro. “Nunca vi esse livro em nenhuma das bibliotecas que frequentei, públicas ou privadas.”

A primeira edição de A Cinza das Horas, de Manuel Bandeira, lançada em 1917 – Foto: Reprodução/ Revista BBM

Exemplos da importância de preservar livros antigos encontram-se também em outra seção da Revista BBM, intitulada Estudos BBM. Ela contém três artigos de pesquisadores sobre obras do acervo da BBM. Um dos textos é de João Marcos Cardoso, curador da BBM. Ele discorre sobre um livro publicado em Rouen, na França, em 1551, rico em ilustrações, que relata a recepção pública, no ano anterior, naquela cidade da Normandia, dos soberanos franceses Henrique II e Catarina de Médici – cerimônia que teve a presença de 50 índios levados das terras brasileiras. A primeira edição no Brasil de Prosopopeia, de Bento Teixeira, lançada em 1873, e documentos religiosos do século 18 são temas dos outros dois artigos da seção.

Exemplar da primeira edição no Brasil de Prosopopeia, de Bento Teixeira, datada de 1873, pertencente ao acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP – Foto: Reprodução/Revista BBM

Rubens Borba de Moraes

A última seção da Revista BBM, a que se dá o nome de Publicações BBM, traz duas resenhas de livros lançados pela Editora Publicações BBM. Uma delas, assinada pelo artista gráfico Gustavo Piqueira, destaca o livro As Bibliotecas de Maria Bonomi, de 2017. A obra reproduz 23 xilogravuras que expressam a visão da artista sobre bibliotecas localizadas em várias partes do mundo, como a Ambrosiana, em Milão, na Itália, a Joanina, em Coimbra, Portugal, e a Biblioteca do Museu Britânico, em Londres, na Inglaterra. “Mais do que descrever visualmente edifício a edifício, Maria Bonomi pinça particularidades formais únicas de cada espaço e as utiliza como ponto de partida para a execução de suas xilogravuras”, analisa Piqueira.

O bibliófilo Rubens Borba de Moraes – Foto: Reprodução

Simplicidade Alegre de um Bibliófilo é o título da outra resenha publicada na Revista BBM. Ela é de autoria do editor Claudio Giordano e trata da edição de 2018 de O Bibliófilo Aprendiz, de Rubens Borba de Moraes (1899-1986), o bibliófilo que, após sua morte, deixou os mais de 2.300 raros volumes de sua coleção para os Mindlin. Na resenha, Giordano expõe aspectos da bibliofilia discutidos por Moraes na sua obra. Com isso, traça um perfil do bibliófilo, que se mostra semelhante àquele de José Mindlin. Além do amor aos livros, da gentileza e do respeito no trato com os outros, o autor de O Bibliófilo Aprendiz revela também tolerância com relação aos conceitos de Coleção Brasiliana e Coleção Brasiliense, motivo de disputa entre especialistas. Para ele, Coleção Brasiliana se refere a todos os livros sobre o Brasil impressos desde o século 16 até fins do século 19 e os livros de autores brasileiros impressos no estrangeiro até 1808, enquanto Coleção Brasiliense diz respeito a livros impressos no Brasil de 1808 até hoje. Só que Moraes não tem uma posição radical a esse respeito, e diz: “Mas se um bibliófilo quiser colecionar a torto e a direito Brasiliana e Brasiliense, e formar um verdadeiro coquetel de livros, meu Deus, deixem-no juntar seus livrinhos em paz”.

Revista BBM, número 2, lançada pelas Publicações BBM, está disponível na íntegra, gratuitamente, neste link. Clique aqui.

A edição impressa custa R$ 52,00 e estará à venda na Livraria João Alexandre Barbosa, da Editora da USP (Edusp), na Cidade Universitária, em São Paulo, após o fim das restrições impostas pela pandemia de covid-19.

Mais informações podem ser obtidas pelos e-mails bbm@usp.br e publicacoesbbm@usp.br e pelo telefone (11) 2648-0320.

Fonte: Jornal da USP

Biblioteca mais antiga do Brasil tem acervo on-line

O Mosteiro de São Bento, em Salvador, é também conhecido como Arquiabadia de São Sebastião da Bahia. Fundado no século XVII em cima da aldeia indígena do Cacique Ipuru, aldeia que sofreu uma invasão dos padres jesuítas que chegaram à Bahia em 29 de Março de 1559. Com eles veio também Tomé de Souza, o primeiro governador-geral.

Assim, anos mais tarde, em 1575, desembarca na cidade o frei beneditino Pedro de São Bento Ferraz, com o objetivo de fundar o Mosteiro. Desse modo, atualmente, lá se encontra a biblioteca mais antiga do Brasil.

Acervo do Mosteiro

Inaugurada em 1582, a Biblioteca do Mosteiro de São Bento da Bahia, reúne uma enorme coleção de obras e registros raros dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX. Nesse sentido, entre as peças há livros, partituras, testamentos e documentos como os escritos completos de Luiz de Camões e o compêndio de cartas do Padre Antônio Vieira.

Além disso, os volumes contêm também registros em variadas línguas e áreas de conhecimento. Assim, a biblioteca é uma uma das mais antigas e importantes do país.

O acervo passou por ampliação e atualização durante todo século XX, com pesquisas e periódicos importantes. Por isso, hoje a biblioteca é especializada em Filosofia, Teologia e História. Além do trabalho dos monges, o Mosteiro conta com a ajuda de voluntários e doadores de obras e equipamentos técnicos.

Leia a matéria completa publicada pelo Notícias Concursos

A fragilidade e o peso dos papéis

Texto por Hugo Segawa

Hugo Segawa – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Corre na imprensa e nas redes sociais o lamento de que o acervo técnico e artístico do mais importante arquiteto brasileiro em atividade, Paulo Mendes da Rocha, fará parte de uma instituição sediada em Portugal. Se a referida instituição realmente cumprir a promessa de disponibilizar tudo (grifo meu) on-line, a questão de se necessitar um passaporte para consultar o acervo se abranda. A digitalização é o futuro, no âmbito da preservação de originais e disponibilização de documentos. A questão em breve é cobrar tudo que está sendo prometido.

Na expectativa que a Comunidade Europeia permita aos brasileiros circularem por lá (o que, momentaneamente, não é o caso), vale observar o outro lado de uma das tantas questões: quem vai usar o passaporte tem uma motivação especial, daquelas que movem estudos aprofundados. É completamente distinto analisarmos a pintura A Negra, de Tarsila do Amaral, na galeria do MAC-USP, diante de uma reprodução digital (por melhor que seja a resolução) em um monitor full HD. Recordo-me do enlevamento de uma curadora do Art Institute of Chicago enquanto esquadrinhava a peça de Tarsila, quando a recebi no prédio do Ibirapuera.

A vivência, esse contato com a matéria, é provocadora. Raciocínio semelhante vale para os desenhos de Paulo Mendes da Rocha. Assim como os croquis de Tarsila nos dizem algo, os do arquiteto podem dizer até mais. É quando a materialidade inspira a alma – mesmo um pedaço de papel vegetal, um fetiche inexplicável. O que já se passa entre os veteranos estudiosos, é preciso animar naqueles que nos seguirão. Jovens, que nem todos terão bolsas ou apoios para custearem despesas em euro.

É possível que os leitores estranhem a repercussão disso que se lamenta como uma grande perda: “problema dos arquitetos”, em um subentendimento. Vale a pena apontar para um enquadramento maior.

Não existe no Brasil algo que se possa chamar de “Museu da Arquitetura” (e na maioria das vezes, Design), como o Museum of Finnish Architecture, em Helsinki, o Deutsches Architektur Museum (DAM), em Frankfurt, ou o NAI (Netherlands Architecture Institute), em Roterdã, que apregoa ser “mais que um museu: é um arquivo, museu, biblioteca e pódio cultural, tudo em um espaço”. Não é do hábito brasileiro considerar a Arquitetura e o Urbanismo como artefatos museais ou arquivísticos.

Nem é preciso que existam instituições só direcionadas para a Arquitetura e Design. O MoMA de Nova York lida com tudo, mas tem um departamento específico e seu acervo de desenhos, maquetes e objetos – um dos mais impressionantes do mundo –, participa de concorridas exibições temporárias; o Moderna Museet de Estocolmo (no esplêndido edifício de Rafael Moneo) regularmente usa um dos seus pavilhões para mostras de Arquitetura e Design.

Também não são precisos departamentos específicos nos museus. A Avery Library, biblioteca da escola de Arquitetura da Columbia University, em Nova York, e o Environmental Design Archives do College of Environmental Design da University of California, Berkeley, são dois exemplos de bibliotecas/arquivos universitários que processam e disponibilizam desenhos de arquitetura. Sem ter um metro quadrado em suas sedes para expô-los. São primos, na América Latina, os arquivos/bibliotecas das escolas de Arquitetura da Universidad Católica de Chile, em Santiago, da Universidad Nacional Autónoma de México, da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal do Rio de Janeiro – não por acaso, entre as universidades latino-americanas de ponta nos chamados rankings internacionais.

É falsa a premissa de uma manifestação que apregoa “que A FAU tem uma coisa ou outra sobre a biblioteca, mas não um acervo de um escritório” e que a instituição em Matosinhos é “um tipo museológico muito caprichoso que não faz competição alguma com a FAU”. Não se trata de “competição”: é uma insinuação desqualificadora da instituição brasileira.

A universidade brasileira sofre com o esvaziamento moral e financeiro, cujo óbvio impacto é o prejuízo nas suas atribuições fundamentais no ensino, na pesquisa e na extensão. Mencionou-se que as instalações da FAU são precárias. A afirmação, que merece filtragens, permite recordar se isso não é decorrência de processos de sucateamento. Mas, apesar dessa denunciada “precariedade”, a FAU organizou uma parceria pioneira com o Instituto Cultural Itaú para a Ocupação Rino Levi, inaugurada pouco antes do início do confinamento social provocado pela pandemia. E que só não foi mais proveitosa para o grande público e para os milhares de estudantes que visitam aquele espaço cultural na Avenida Paulista pela razão que nos confina em nossos lares.

Antes dessa parceria, a biblioteca da FAU-USP emprestou desenhos de seu acervo para o mesmo Itaú Cultural (exposições Warchavchik, boa parte da mostra sobre Vilanova Artigas) e também, entre outros empréstimos, para o Instituto Moreira Salles, Masp, Museu da Casa Brasileira e para o MoMA de New York, para a exposição Latin American in Construction, em 2015. Ali, a Católica de Chile, a UNAM, a UFRJ e a USP contribuíram emprestando originais de seus acervos. É também uma função educacional que alcança para além do público universitário e para além das nossas fronteiras. É pouco? Poderia ser muito mais se houvesse condições para tanto. A questão não é a precária existência dos nossos arquivos, bibliotecas, museus e instalações; é a sua indigência. Por enquanto, uma postura de resistência institucional, apesar das críticas.

A parceria com o Itaú Cultural foi um esforço bem-sucedido de integrar uma instituição universitária com a iniciativa privada, viabilizando caminhos antes não percorridos. É uma saída, mas não a única. Aportes internacionais já chegaram à FAU, por seu prestígio. Depende do que a escola pode oferecer nos acordos a firmar. Se a escola tem algo que interessa para o ensino e à pesquisa internacional, bem que poderíamos enriquecer mais esse patrimônio incorporando acervos importantes também.

A única instituição brasileira que pode se equiparar a um espaço voltado para mostras de Arquitetura e Design é o Museu da Casa Brasileira, em São Paulo, parte do sistema estadual de museus. Infelizmente notícias dão conta que a instituição será despejada de sua sede.

Acervos, no sistema internacional de museus, também são formas de autossustentação. Os empréstimos de obras geram recursos para seus guardiões. Afora eventuais acordos que isentem royalties ou outras tarifas agregadas, circular peças de acervos de museus implica valiosos seguros, a que algumas poucas seguradoras no mundo se habilitam. A já mencionada exposição de arquitetura latino-americana do MoMA se inviabilizou de se apresentar fora de Nova York pelos altíssimos custos de traslado de desenhos originais que compuseram parte significativa do encanto da mostra. É provável que, nesses termos, dificilmente veremos uma exposição de originais de Paulo Mendes da Rocha no Brasil sem um magnânimo patrocinador.

A expatriação de acervos não é novidade. O arquiteto hispano-mexicano Félix Candela (merecedor de um livro pela popular Taschen) tem seu acervo sob a guarda na Avery Library, na Columbia University. Os portugueses sabem o que é expatriar acervos: o Canadian Centre of Architecture, em Montreal, detém e disponibiliza o fundo Álvaro Siza, parte do acervo cedido pelo principal arquiteto vivo de Portugal.

Sabe-se que desde 1994 o acervo do mais reconhecido arquiteto mexicano do século 20, Luís Barragán (como Siza e Mendes da Rocha, detentor do prêmio Pritzker, o de 1980), está sob a guarda do Vitra Museum, Suíça. Informações rastreadas por internet dão conta que o acesso a ele está interditado há anos. Uma rápida verificação permite constatar que há quase 20 anos não há exposições dedicadas ao grande arquiteto mexicano, e as publicações sobre ele escasseiam. Excelentes livros foram realizados por autores mexicanos no início da fama mundial de Barragán. Os que vemos hoje, nos catálogos virtuais, são de não mexicanos, editados já há algum tempo.

As primeiras publicações sobre Paulo Mendes da Rocha foram feitas no exterior. Um livro espanhol, de 1996, colocou Mendes da Rocha na mira da mídia e dos prêmios internacionais, como o Mies van der Rohe para a América Latina no ano 2000, pelo projeto da Pinacoteca do Estado. Esta premiação permitiu que os originais de um livro da suíça Annette Spiro fossem ressuscitados por uma editora de Zurique, que o publicou em 2002. Obviamente não são apenas esses livros que fizeram Paulo Mendes da Rocha merecer o prêmio Pritzker em 2006. A repercussão internacional do arquiteto brasileiro no início do milênio, em uma época em que ainda não existiam redes sociais, é tributária de críticos e estudiosos estrangeiros que olharam o Brasil também com a ajuda de filtros e intermediários brasileiros. Existem brasilianistas em Arquitetura.

O acervo Paulo Mendes da Rocha não é o primeiro brasileiro a aquecer os arquivos de Matosinhos. Os desenhos do arquiteto baiano Francisco de Assis Reis também se foram para Portugal. Assis, como é conhecido no meio arquitetônico, é o principal arquiteto moderno da Bahia. A ruidosa expatriação do acervo Mendes da Rocha junta-se à discreta expatriação do acervo de Assis Reis. Somente depois da partida dos desenhos de Assis, temos a promessa de um livro sobre o baiano, que desconhecemos por nossa incapacidade de apreciar o que está ao nosso lado.

Incapacidade inconsciente ou consciente. O episódio do acervo Paulo Mendes da Rocha e de Francisco de Assis Reis nos alertam – não é a primeira, nem será a última, nem é tipicamente brasileira – a respeito do que queremos ou podemos com o resguardo de uma tão delicada memória, como os frágeis papéis que seguem para Matosinhos. Esses papéis são a metáfora da nossa condição cultural. Fragilidades que se anunciam há muito, porque, para quem conhece, há vários outros acervos que interessaram aos grandes centros internacionais de arquitetura, e que estão precariamente preservados, talvez a poucos passos de uma expatriação salvadora. E mesmo que nem todos papéis se tornem commodities culturais para exportação, são acervos que deveriam compor o mosaico de uma paisagem cultural brasileira, pelo viés da arquitetura e do urbanismo. Não se trata de um problema apenas dos arquitetos.

Fonte: Jornal da USP

A Biblioteca como espaço de preservação da memória será discutida em mesa-redonda em 14 de setembro

Texto da Comissão Temporária de Patrimônio Bibliográfico e Documental

A Comissão de Patrimônio Bibliográfico e Documental do CRB-8 em parceria com a Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP realizará a mesa-redonda “Patrimônio bibliográfico e documental: a biblioteca como espaço de preservação da memória” às 17h da segunda-feira 14 de setembro pelo canal do Youtube do CRB-8.

O evento foi concebido para realização presencial na Câmara Municipal de São Paulo, dentro da programação de sessão solene para homenagear o Dia do Bibliotecário em 2020, mas foi cancelado em virtude da pandemia de Covid-19. À época, a mesa-redonda fazia parte de uma ação conjunta do Conselho e da Fundação para a internalização da importância e tratamento do patrimônio histórico, bibliográfico e documental na formação de futuros profissionais bibliotecários. Na semana anterior, em 13 de março, foram realizadas duas oficinas na biblioteca da Fundação com participação de docentes, bibliotecários, estudantes e integrantes da Comissão.

Seis meses depois, a iniciativa será realizada em formato virtual.  Isabel Cristina Ayres da Silva Maringelli, Docente da FESPSP e Coordenadora da Biblioteca e Centro de Documentação e Memória da Pinacoteca do Estado de São Paulo, fará a mediação das falas de Maria das Mercês Apóstolo, também Docente da FESPSP e Conselheira do CFB, e Rosaelena Scarpeline, Conselheira e Consultora em objetos históricos e preservação da memória.

Não é necessária inscrição prévia. Será fornecido certificado aos participantes que acompanharem a transmissão e preencherem o formulário de lista de presença disponibilizado no chat da transmissão.

Acesse o canal do Youtube do CRB-8 e ative o lembrete para o evento.

Livros raros: a surpresa de encontrar um autógrafo de um ícone literário

Leitoras contam sobre quando compraram livros de grandes autores com autógrafos sem saber. Nos relatos estão obras de Drummond e Rubem Braga

Texto por Sarah Bichara

Aurélia Nascimento com sua obra autografada de Carlos Drummond de Andrade. Crédito: Marcelo Peres de Oliveira

Leitores apaixonados chegam a pagar preços que preenchem a casa dos mil reais em livros autografados por autores famosos. Em matéria da Folha, de 2015, o livreiro Ramon Rodrigues afirmou ter vendido a obra Dom Casmurro, de Machado de Assis, por R$ 24 mil. A busca por essas raridades é consistente e o mercado abrange de sebos especializados a leilões.

Ma há quem não procure pela sorte e a econtre. A professora de literatura e apreciadora de Drummond Aurélia Nascimento comprou o livro de crônicas “Os Dias Lindos” em abril de 2020 e, para sua surpresa, ele veio com dedicatória e autógrafo. A obra pela qual pagou R$ 7,50 no portal Estante Virtual, foi buscada para dar prosseguimento a uma atividade desenvolvida com alunos, não havendo a pretensão de que fosse um objeto raro.

Livro “Os Dias Lindos” de Carlos Drummond de Andrade autografado e com dedicatória. Crédito: Aurélia Nascimento

“Na hora que eu paguei o livro, vi que ele estava meio amarelinho, falei: ‘poxa vida, podeia ter a assinatura de Drummond’. No que eu abro, meu filho tava comigo, eu fiquei tonta, perdi o chão”, relatou Aurélia, dizendo ainda ter sentido a presença do escritor na obra.

O livro tem uma dedicatória direcionada a Fernanda Monteiro e sua família. “A família não deve nem ter percebido o tesouro que tinha nas mãos”, cogitou a professora, que diz ter o costume de comprar livros em sebos, mas nunca havia conseguido algo assim antes.

Lei a matéria completa publicada pelo site A Gazeta.

Nem tudo são rosas na arte de colecionar livros

A professora Marisa Midori dá continuidade à série sobre as memórias dos livros e das bibliotecas, e conta uma das histórias de Mário de Andrade

Texto por Claudia Costa

“Há muitos aspectos que aproximam nossos escritores-leitores, mas me parece que todas essas memórias podem ser sintetizadas em uma fórmula borgeana: ‘Toda biblioteca é autobiográfica’. Mas o fato é que nem tudo são rosas nas histórias dos colecionadores”, afirma a professora Marisa Midori em sua coluna Bibliomania.

A professora mesmo já vivenciou uma grande decepção bibliográfica, como conta: “Há muito queria um livro do Alberto Manguel, A Biblioteca à Noite. A edição estava esgotada e, para minha surpresa, ela reapareceu em um site de venda de livros. Comprei. (…) O formato era menor do que o esperado. O acabamento da capa brilhante, deselegante. A impressão das letras, um desconcerto, naquele cinza de dar pena.  As ilustrações, muitas, aliás, fico imaginando o cuidado do autor na seleção de tantas imagens, uma afronta aos apaixonados por livros e bibliotecas. E o golpe de misericórdia: a mancha veio tão apertada que, para ler o livro, é preciso esgarçar o volume, porque a margem interna ficou muito grudada na dobra da lombada. Uma indelicadeza bibliográfica, para dizer em poucas palavras”.

Mas, como Marisa lembra, há muitas histórias sobre esses “malogros bibliográficos”, citando a de Mário de Andrade, um colecionador apaixonado. “A história, quem a conta é o meu querido Marcos Antonio de Moraes. Mário subscreveu seu nome no programa de uma edição de luxo do romance de Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, ilustrada por Cândido Portinari, e promovida pelos Cem Bibliófilos Aprendiz”, relata a professora, informando ainda que, devido à Guerra e a vários outros problemas, a edição demorou a ser publicada e, quando finalmente saiu, veio a decepção. “E eu reproduzo um trecho da carta que Mário de Andrade endereça a Cândido Portinari: chega a ‘ser infame que, numa edição desse luxo, tenham botado o último caderno da impressão em papel diferente. É o cúmulo’. Depois de se dirigir infatigavelmente à Sociedade dos Cem Bibliófilos, Mário se recolhe, consternado. Não obtivera resposta. Em 25 de fevereiro de 1945, ele faleceu.”

Fonte: Jornal da USP

17 de agosto: Dia Nacional do Patrimônio Histórico

Data homenageia nascimento de Rodrigo Melo Franco de Andrade, primeiro presidente do Iphan. Várias cidades promovem eventos em comemoração

O Dia Nacional do Patrimônio Histórico, comemorado no dia 17 de agosto, é uma homenagem ao espírito incansável do historiador e jornalista mineiro Rodrigo Melo Franco de Andrade. A data foi criada em 1998, centenário de nascimento de Andrade, primeiro presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e grande defensor do Patrimônio Cultural Brasileiro. Vários estados brasileiros celebram a data com atividades ao longo do dia e da semana.

A capital mineira, Belo Horizonte, terá uma cerimônia para a entrega do documento de inscrição do Conjunto Moderno da Pampulha – com o título inédito de Paisagem Cultural do Patrimônio Moderno – na lista de Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). A solenidade, às 17h, terá a presença do ministro da Cultura, Marcelo Calero, e da presidente do Iphan, Kátia Bogéa.  

Goiânia (GO) sediará seminário para debater o uso do patrimônio edificado, além da exposição fotográfica Arquitetura, Cidade e Patrimônio. Já em Vitória, no Espírito Santo, a Memória Capixaba e Patrimônio Fotográfico é tema de seminário gratuito. Serão realizados debates e palestras sobre as iniciativas que vêm sendo desenvolvidas por órgãos públicos e privados para a preservação de acervos histórico-fotográficos local. 

O Dia Nacional do Patrimônio Histórico em Laguna, Santa Catarina, será comemorado com uma palestra sobre o Patrimônio Cultural e Participação Social, seguida de debate sobre a Valorização do Centro Histórico de Laguna e exibição do documentário O Vale Tombado, de Carlos Daniel Reichel.   

O projeto Dia do Patrimônio em Pelotas, no Rio Grande do Sul, promove, de 19 a 21 de agosto, mais de 120 atividades que envolvem cerca de 50 agentes do patrimônio (muitos são voluntários) e 19 prédios históricos, com a expectativa de receber 3,6 mil estudantes de 30 escolas municipais. Este ano, o tema é Ocupação Feminina e pretende evidenciar as mulheres célebres e anônimas que nasceram ou viveram no município e que fizeram de Pelotas uma cidade múltipla, dinâmica e cultural.

Valorização, reconhecimento e preservação dos patrimônios culturais são o foco das atividades programadas para celebrar a IX Semana do Patrimônio Cultural de Pernambuco. Nove cidades serão palco da comemoração, que começou no dia 15 e vai até o dia 29 de agosto, em referência ao Dia Nacional do Patrimônio Histórico.   

Na Paraíba, em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (Iphaep), será realizada a II Semana do Patrimônio Cultural da Paraíba. E, no dia 19, haverá Formação de Professores: Educação Patrimonial.

São Raimundo Nonato, no Piauí, recebe Simpósio de Gastronomia. O evento, de caráter científico, será um espaço para o intercâmbio de saberes, experiências e práticas no campo da produção acadêmica e científica em níveis e tendências diversas.

O Iphan e a preservação do patrimônio

Próximo de celebrar seus 80 anos de criação, em 2017, e já projetando os próximos 80 anos, o Iphan tem uma importante e desafiadora missão: promover e coordenar o processo de preservação dos bens culturais do Brasil para fortalecer identidades, garantir o direito à memória e contribuir para o desenvolvimento socioeconômico do País.

Em seu esforço para a preservação do Patrimônio Cultural Brasileiro, o Iphan possui a tutela de mais de 45 mil bens imóveis tombados, inseridos em 86 conjuntos urbanos tombados. O Instituto tem ainda tombados um sítio paleontológico, 77 conjuntos arquitetônicos, 33 conjuntos rurais, 449 edificações, 393 edificações e seus acervos, 13 jardins e parques históricos, um quilombo, 30 ruínas, cinco sítios arqueológicos, nove terreiros, 24 patrimônios naturais, 29 acervos, 63 bens móveis e integrados e 45 equipamentos urbanos.

Além disso, o Iphan busca preservar e valorizar o patrimônio formado pelas ferrovias – composto por mais de 600 bens – e pelos barcos tradicionais criados por carpinteiros e artesãos, mestres e pescadores brasileiros, e tombou quatro embarcações de uso tradicional no Brasil: luzitânia (canoa de tolda utilizada na região do baixo rio São Francisco, em Sergipe), dinamar (canoa costeira que navega na Baía de São Marcos, no Maranhão), sombra da lua (saveiro de vela de içar, do Recôncavo Baiano) e tradição (canoa pranchão utilizada nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina).

Também estão sob a proteção do Iphan 38 bens culturais imateriais registrados, sendo nove celebrações, 15 formas de expressão, 11 saberes e três lugares. O Brasil tem ainda 25 bens na Lista do Patrimônio Mundial reconhecidos pela Unesco, sendo cinco imateriais e 20 culturais e naturais.

Rodrigo Melo Franco de Andrade

Advogado, jornalista e escritor, Rodrigo Melo Franco de Andrade nasceu em Belo Horizonte (MG), em 17 de agosto de 1898, e foi contemporâneo de grandes nomes do cenário nacional, como Cândido Portinari, Manuel Bandeira e Mário de Andrade. Andrade foi redator-chefe e diretor da Revista do Brasil e, na política, chefe de gabinete de Francisco Campos, no Ministério da Educação e Saúde Pública, criado em 1930, no governo Getúlio Vargas.  

Durante a gestão de Gustavo Capanema no Ministério da Educação e Saúde Pública (1934-1945), participou do grupo de artistas e intelectuais modernistas, quando se tornou o maior responsável pela consolidação jurídica do tema Patrimônio Cultural no Brasil e pela criação do Iphan, em 1937, tarefa que desempenhou até 1967. Seu legado se confunde com a trajetória da preservação do patrimônio cultural no País, a ponto de simbolizá-la. Rodrigo Melo Franco de Andrade faleceu no Rio de Janeiro, em 1969.

Desde 1987, em homenagem ao seu criador, o Iphan premia ações de proteção, divulgação e preservação do patrimônio cultural brasileiro. Anualmente, instituições e agentes culturais de todo o País participam do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, que oferece certificado, troféu e prêmio em dinheiro aos vencedores em duas categorias: iniciativas de excelência em técnicas de preservação e salvaguarda do Patrimônio Cultural, que visam valorizar e promover iniciativas de excelência em preservação e salvaguarda, envolvendo identificação, reconhecimento e salvaguarda, pesquisas, projetos, obras e medidas de conservação e restauro; e iniciativas de excelência em promoção e gestão compartilhada do Patrimônio Cultural, que visam valorizar e promover iniciativas referenciais que demonstrem o compromisso e a responsabilidade compartilhada para com a preservação do Patrimônio Cultural Brasileiro, envolvendo todos os campos da preservação e provenientes do setor público, do setor privado e das comunidades.

Em 2016, em sua 29ª edição, o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade homenageiou também o Samba de Roda do Recôncavo Baiano, pelos 100 anos de gravação do primeiro samba. Este bem cultural foi inscrito no Livro de Registro das Formas de Expressão em 2004 e foi reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como Patrimônio da Humanidade, em 2005.

Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)

Ministério da Cultura

Fonte: Secretaria Especial da Cultura

Seminários UNIRIO e Simpósio de Preservação de Conservação de Acervo do TOI, informação especializada em conservação em tempos de pandemia

Texto da Comissão Temporária de Patrimônio Bibliográfico e Documental

Logo no início da pandemia, a Comissão Temporária de Patrimônio Bibliográfico e Documental do CRB-8 identificou a necessidade de acompanhar as demandas profissionais na área de preservação e conservação de acervos em período de pandemia. Ao mesmo tempo, avaliou a impossibilidade de realizar essa tarefa a contento isoladamente. Desde então, vem observando as iniciativas neste campo para realização de parcerias.

Uma dessas iniciativas, desde abril deste ano, foi o Núcleo Interdisciplinar sobre Preservação (NIP) da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), que vem desenvolvendo duas atividades muito oportunas para os profissionais da área de biblioteconomia, documentação e arquivos, o Observatório de Opiniões e os Seminários UNIRIO.

O Núcleo está vinculado ao Laboratório Multidimensional de Estudos em Preservação de Documentos Arquivísticos e conta com a participação de quatro docentes: Profa. Brenda Rocco, Prof. Bruno Leite e Profa. Stefanie Freire, do Departamento de Arquivologia, e Prof. Fabiano Cataldo, do Departamento de Biblioteconomia.

O Observatório de Opiniões, interessado em monitorar as necessidades e demandas profissionais, postou a pergunta abaixo que continua disponível para colaborações. Convidamos a todos a partilharem sua opinião:

Você acha que os acervos em Arquivos e Bibliotecas estão mais sujeitos a riscos durante a pandemia de Covid-19? Quais?

Já os Seminários UNIRIO trazem uma série de palestras com especialistas em preservação e conservação. Yerko Andrés Quitral, bioquímico e palestrante internacional, inaugurou a série de palestras em 16 de junho. Na oportunidade, gentilmente antecipou a disponibilização de um artigo para colaborar com os estudos e fundamentaçãoprofissionais gestores de coleções bibliográficas e arquivísticas. Em 23 de julho, a palestra de José Pedersolli, do Centro Internacional de Estudos para a Conservação e Restauro de Bens Culturais – ICCROM, deu continuidade à série. . Links para a gravação das palestras e para o artigo no final deste texto.

Em 23 de julho, a palestra de José Pedersolli, do Centro Internacional de Estudos para a Conservação e Restauro de Bens Culturais – ICCROM, deu continuidade à série; e brevemente terá a gravação disponibilizada.

Para a palestra de 04 de agosto com Jandira Flaeschen, presidente da Associação Brasileira de Conservadores-Restauradores de Bens Culturais – ABRACOR e integrante da Biblioteca Nacional, foi firmada uma parceria com a Comissão Organizadora do VI Simpósio de Preservação e Organização de Acervo do TOI. Nesta data, será realizado o Simpósio do TOI na parte da manhã e, à tarde, o Seminário UNIRIO.

O VI Simpósio de Preservação e Organização de Acervo do TOI vem sendo preparado desde abril com a participação com participação da Comissão de Patrimônio. Pela convergência de interesses e dos temas discutidos, as organizações somaram esforços e trabalharam para a criação de  diálogo entre os eventos. Link para a inscrição nos eventos no final do texto.

A parceria para divulgação e apoio aos Seminários UNIRIO será mantida para as palestras seguintes, buscando a dar mais visibilidade aos eventos de informação especializada e de capacitação profissional neste momento desafiador enfrentado pelos profissionais de informação e pela humanidade.

Inscrições abertas

VI Simpósio Preservação e Conservação de Acervo – Biossegurança e Conservação de Livros e Documentos: Protocolos e Melhores Práticas. 04/08, das 9h às 13h

Seminários UNIRIO – Conservação Preventiva em Biblioteca e COVID-19: ações e reflexões, com Jandira Flaeschen. 04/08, das 15h às 16h30. Vagas limitadas

Palestras e artigos

Gravação da Webconferência “Contaminación permenante: invisibilidad de processos técnicos y riesgos de salud en personal de bibliotecas”, proferida por Yerko Andrés Quitral no dia 16 de junho de 2020, das 15h00 às 16h60. Clique aqui.

[ABNT] QUITRAL, Yerko Andrés. Bibliotecas frente a la pandemia COVID-19 : fundamentos y acciones en Latioamérica. 2020. Material elaborado para o  evento Seminários UNIRIO: Gerenciamento de risco e biossegurança em bibliotecas e arquivos no contexto do COVID-19

[APA] QUITRAL, Y. A. (2020 June 16). Bibliotecas frente a la pandemia COVID-19 : fundamentos y acciones. Rio de Janeiro: Seminários UNIRIO: Gerenciamento de risco.

Os tesouros da Biblioteca Joanina, do livro gigante tão antigo como Portugal à Bíblia que faz chorar os judeus

Texto por Osvaldo Bertolino

Delfim Leão é vice-reitor da Universidade de Coimbra e João Gouveia Monteiro é diretor da Biblioteca

Professor João Gouveia Monteiro, tendo ligação familiar muito forte à Universidade de Coimbra, pois o seu pai foi reitor, recorda-se da primeira vez que entrou na Biblioteca Joanina?

J.G.M. – Foi seguramente antes da tomada de posse do meu pai como reitor, em fevereiro de 1970, portanto, teria 12 anos incompletos. Nasci e cresci em Coimbra.

Para um jovem que gosta de ler, entrar nesta biblioteca do século XVIII é como entrar num local quase sagrado…

J.G.M. – Sim, é um templo, um templo laico. Quando se entra, é essa sensação que se tem, com D. João V lá ao fundo no altar, e aquela arquitetura, aquela estrutura de sala e aquela decoração são difíceis de encontrar num edifício laico. Portanto, sim, é um templo sagrado, e para quem tem amor aos livros tem um significado especial.

Professor Delfim Leão, recorda-se de quando foi a primeira vez que entrou na Biblioteca Joanina?

D.L. – Sou do Porto e o meu contacto com a Joanina é muito marcado pela minha experiência já enquanto estudante, e está também ligado à pessoa que, na altura, era o diretor da Biblioteca Geral, um professor carismático, já falecido, Aníbal Pinto de Castro. Ele foi também meu professor e foi, de certa forma, pela mão dele que visitei a Joanina, com a exigência, com o humor cáustico, mas também com o sentido de que estávamos a pisar solo sagrado; ou seja, entrar ali implicava não apenas o respeito pelo património construído, pelo valor imaterial de todas as obras que lá estão reunidas, mas também pelo que significa entrar numa biblioteca com este peso, com esta tradição, com este conhecimento acumulado, e de que forma é que isso se reflete depois sobre o ser estudante, o próprio respeito que se tem pela investigação e pelo estímulo que se recebe. Sou da área dos Estudos Clássicos, portanto, a minha área de trabalho são o Grego e o Latim, o Português também, mas a antiguidade é algo com que eu lido muito – a edição do próprio texto e, depois, aqueles problemas de perceber uma palavra que não se consegue transcrever e tentar adivinhar o que esteja por detrás – e, entrar numa biblioteca onde todos os sentidos ficam alerta, o deslumbramento, a visão que se tem, o próprio olfato, faz que haja todo um conjunto de pequenas sensações que se retiram a partir daí, até o estalido de abrir um livro, que é algo que me impressiona sempre.

Quando é que, como estudante, teve de recorrer à Biblioteca Joanina?

J.G.M. – Creio que no meu tempo de estudante nunca requisitei nenhuma obra da Biblioteca Joanina. Mas, de facto, há muitas obras que ainda hoje vêm à consulta. Estimamos que cerca de 680 obras da Joanina vêm para a Biblioteca Geral para serem consultadas na nossa sala de leitura pois os leitores que requisitam obras da Joanina consultam-nas nesse outro edifício. Já não há a utilização dos gabinetes de leitura, que são lindíssimos, têm vista para o Mondego, ficam do lado esquerdo quando entramos na biblioteca e têm particularidades fantásticas. Têm dois banquinhos de pedra e uma mesa no meio, que desliza para trás e para a frente para poder ser utilizada por canhotos e por destros, e tendo em conta a luz solar, tem a luz vinda da esquerda para os destros e da direita para os canhotos.

Mas o professor, enquanto estudante de licenciatura, não consultou a Joanina, foi mais como investigador?

J.G.M. – Enquanto estudante de licenciatura trabalhei muito aqui na Biblioteca Geral, mas não me recordo de ter requisitado nenhum livro da Joanina, não tinha necessidade disso. Como sou de História, trabalhava até mais no arquivo da universidade e, portanto, isso não aconteceu, e como sou de História Medieval, tão-pouco aconteceu mais tarde, uma vez que a documentação que me interessa e as obras que me interessam são sobretudo dos séculos XIV e XV, e a Joanina isso não tem.

Quem requisita as tais 680 obras? Estamos a falar de investigadores portugueses, estamos a falar também de académicos estrangeiros?

J.G.M. – Sim, estamos a falar de uns e de outros. A Joanina tem cerca de 60 mil obras com uma cronologia aproximadamente entre o século XVI e o século XVIII.

Professor Delfim Leão, no seu caso, sentiu alguma vez necessidade de recorrer à Biblioteca Joanina?

D.L. – Bom, no meu caso, ainda recuo mais no tempo. Trabalho essencialmente textos dos séculos VIII-VI a.C., em particular obras gregas. A nossa biblioteca não tem esse tipo de obras, embora tenha dotações que foram sendo feitas ao longo do tempo, em particular traduções em latim, que era a grande língua de comunicação, a língua franca. Há colegas da minha área que trabalham muito, por exemplo, a época do Renascimento e a receção dos autores clássicos, e aí tem. Penso, por exemplo, na coleção dos Conimbricenses dos comentários a Aristóteles que são, de facto, traduções feitas em latim, extremamente válidas e que conheceram edições que se espalharam por todo o mundo de então, verdadeiramente globais enquanto manuais de apoio ao estudo da filosofia aristotélica. Portanto, continuam a encontrar aqui material em primeira mão, utilíssimo para fazer precisamente este processo de transposição para a atualidade, não apenas da digitalização das obras para se poder trabalhar com uma cópia e não pôr em causa a preservação dos originais, mas também a transcrição do próprio texto para suportes digitais atuais e também a sua impressão num livro que, digamos, seja moderno, assim como a sua tradução e interpretação.

Alguém que desconheça a Joanina iria dizer que os seus livros são sobretudo em português, mas tem também em latim. E que outras línguas comporta?

J.G.M. – São línguas muito diversas. Na Biblioteca Joanina há muita obra em português, há muitíssima obra em latim e também há obras noutras línguas – espanhol, francês, inglês. A cronologia daquelas obras vai até ao século XVIII e é fácil encontrar uma variedade grande de línguas. Há obras em alemão. Também é isso que ajuda a explicar porque é que a biblioteca é procurada por estrangeiros, se fosse só em português haveria a barreira da língua e ficaríamos reduzidos à Península Ibérica, ao Brasil e pouco mais.

O fundo original não é do rei, D. João V manda construir a biblioteca, mas os livros não são dele?

J.G.M. – O espólio da Biblioteca Joanina, antes de existir o edifício do século XVIII que D. João V mandou construir, era já da biblioteca da Universidade de Coimbra, que era uma biblioteca muito rica e que não tinha um edifício próprio, mas que já tinha muita procura por parte de intelectuais portugueses e estrangeiros. Foi exatamente por se sentir um pouco, digamos, envergonhado por esta situação que o reitor na altura, que era Nuno da Silva Teles, escreveu a D. João V uma famosa carta, no dia 8 de junho de 1716, em que lhe expõe a situação, e é isso que funciona como trigger junto do rei para decidir então rematar o complexo do Paço das Escolas com a construção deste edifício extraordinário, com esta fisionomia de templo, tão templo que até está encostado à Capela de São Miguel.

Há notícia de D. João V visitar a Biblioteca?

J.G.M. – Seguramente, visitou tanto a biblioteca como a capela. Aliás, a minha suposição é que a inauguração do órgão barroco da Capela de São Miguel tenha sido feita pelo próprio Carlos Seixas, que era um homem de Coimbra, músico desde muito jovem e que se tornou músico da corte de D. João V. Foi para lá trabalhar com Domenico Scarlatti, que logo que ouviu Seixas tocar terá feito um comentário do género: “Eu é que vou ter lições consigo”, porque, de facto, Seixas era um músico extraordinário. Portanto, essa ambiência há de ter trazido aqui, segura e merecidamente, o rei.

Dos livros da Biblioteca Joanina, quais escolheria se eu lhe pedisse para enumerar dois ou três tesouros?

J.G.M. – Bem, se quisermos utilizar um critério cronológico – que também interessa, porque a antiguidade dos livros só por si é um mérito -, escolheria aquela obra que é habitualmente chamada Bíblia “atlântica”. É uma obra que é da idade da fundação de Portugal, tem uma cronologia que se aponta para meados do século XII, em quatro volumes. É o livro mais antigo da biblioteca, de enormes dimensões, e é por isso que tem esse nome; atlântica não tem que ver com o oceano, tem que ver é com a figura mitológica do gigante Atlante, pois um livro daquele tamanho tinha de ser carregado por uma pessoa musculada. Depois, uma das outras obras, seria a Bíblia hebraica, que é, aliás, muito visitada até por delegações de Israel.

Estamos a falar de um livro impresso?

J.G.M. – Estamos a falar de um livro dos finais do século XV. Os manuscritos hebraicos praticamente desapareceram por causa da Inquisição. Não sabemos se foi impresso em Portugal, mas provavelmente é da Península Ibérica. Pode ter sido em Sevilha. Em Portugal, até ao século XV existem menos de 20 bíblias deste género e só estão nas bibliotecas mais ricas do mundo. Portanto, pela sua antiguidade, por um certo mistério que o seu trajeto encerra – diz-se que pode ter estado ligado a uma família muito famosa de judeus que foram expulsos de Portugal nos finais do século XV, os Abravanel, um dos quais foi tesoureiro de D. Afonso V e depois teve uma função de destaque também na mesma área das finanças na corte de Isabel, a Católica; depois acabou por ter de fugir também, foi para Itália. Esta bíblia sabe-se que foi comprada no século XIX, até se conhece o valor da compra, 700 mil reis, e é de certa maneira um símbolo. É por isso que as comunidades israelitas que aqui vêm observam aquilo com verdadeira comoção, chegam a chorar perante aquela obra. É um pouco o testemunho sob a forma de livro da diáspora da comunidade judaica.

Existe alguma primeira edição de Os Lusíadas?

J.G.M. – Sim, existe uma primeira edição de Os Lusíadas, naturalmente, e também a Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto. Os tesouros da biblioteca estão distribuídos por diversas zonas, pela Biblioteca Joanina, pela casa-forte, pela Sala de São Pedro, também pela Livraria do Visconde da Trindade. Portanto, poderíamos incluir aqui uma série de outros títulos, estou só a destacar estes quatro ou cinco que me parecem suficientemente emblemáticos, mas poderia incluir as famosas Tábuas dos Roteiros da Índia, de D. João de Castro, que é um livro que tem ilustrações absolutamente fantásticas, e que acrescentam tanto àquilo que as narrativas da Índia nos dizem que ainda hoje é consultado por investigadores que querem ver as ilustrações, as marcas de água, tudo isso. Outras obras, que estão mais ligadas ao grande progresso da ciência no século XVIII, também, no sentido para o qual a reforma pombalina na década de 1770 encaminhou a Universidade de Coimbra, mais virado para o experimentalismo, para a observação da natureza. Temos entre milhão e meio e dois milhões de volumes.

Professor Delfim Leão, em relação aos visitantes, há-os como a comunidade israelita que vem aqui quase pelo simbolismo de determinado livro, mas outros vêm pela beleza. Os turistas que chegam a Coimbra procuram mais a biblioteca do que a própria universidade?

D.L. – A Joanina é claramente a joia da coroa dentro do património construído da universidade e, também, com todo o valor intangível que lhe está associado. Eu diria que são dois princípios que jogam completamente um com o outro – a ideia da universidade, com a antiguidade, o peso central que tem na lusofonia, o espaço onde durante séculos as elites dos vários países lusófonos foram sendo formadas, e a biblioteca como símbolo visível dessa mesma dignidade. É isso mesmo que impressiona quem nos visita. Para nós também é um desafio grande porque a universidade tem tido um acrescento de visitantes, já anda perto da casa do meio milhão por ano – este ano é atípico, pelas razões conhecidas da pandemia – e isto cria desafios grandes, concretamente para quem tem a responsabilidade de gerir o próprio património e, sobretudo, garantir que ele vai ser mantido para as gerações que se seguem. Na verdade, recebemos um património que foi bem preservado e temos essa obrigação também. Neste momento visitam-nos sobretudo portugueses, mas habitualmente visitam-nos muitos brasileiros que vêm à procura daquilo que são as raízes da própria identidade.

Porque até à independência do Brasil praticamente todos os seus licenciados eram formados em Coimbra.

D.L. – Exatamente. E eles sentem que a riqueza do Brasil também ajudou a dar à Universidade de Coimbra e à própria Biblioteca Joanina este carácter especial.

Foi mesmo o ouro do Brasil que permitiu a D. João V ter os meios para esta biblioteca?

D.L. – Essa é a tese dominante, mas há uma outra que diz que dependeu mais até das pessoas aqui da zona, que com os seus tributos mais modestos ajudaram a construir este monumento.

J.G.M. – As últimas investigações que têm sido feitas pelos nossos melhores especialistas de História da Universidade de Coimbra, como o professor Fernando Taveira da Fonseca, apontam muito mais para um grande investimento da própria universidade na construção da Biblioteca Joanina. A construção decorreu entre 1717 e 1728 e está averiguado que a universidade investiu nesta construção uma soma de 67 contos de reis, o que era mais ou menos um terço das receitas totais da universidade nesta altura. Portanto, não foi o ouro do Brasil. O Brasil está representado na Biblioteca Joanina, evidentemente, pelas madeiras extraordinárias que lá estão – pau-santo, ébano, etc. -, sobretudo nas mesas, no mobiliário, porque as estantes são de madeira de carvalho, mas a edificação da Biblioteca Joanina assentou muito no esforço financeiro da Universidade de Coimbra.

Conservar estas obras com séculos é um esforço diário?

J.G.M. – Sim, claro. É uma luta, e é uma luta difícil, porque os recursos humanos não são muitos, a responsabilidade é enorme na gestão e na conservação daquele património. Não há nenhum livro na Biblioteca Joanina que não tenha sido retirado, limpo e recolocado no período do último ano, por exemplo. Tem sido feito um investimento grande na reabilitação de livros que são mais atacados por fungos ou por bactérias, através, por exemplo, do restauro das encadernações que é feito pelos próprios funcionários que limpam o espaço, se forem coisas relativamente diminutas. A Biblioteca Geral e o Arquivo da Universidade juntaram-se para, com o apoio da Fundação Engenheiro António de Almeida, passarem a ter, a partir do final deste ano, uma oficina de conservação e restauro boa e modernamente equipada aqui na Biblioteca, que sirva toda a comunidade universitária. Portanto, é preciso utilizar as técnicas mais modernas de desinfestação dos livros, o que se pode fazer agora melhor, porque o meu antecessor, o professor José Bernardes, teve a boa ideia de adquirir duas câmaras de anoxia que permitem sufocar os bichos, porque transforma o oxigénio em azoto e ao fim de 21 dias esses livros saem desinfestados.

Os tesouros da Biblioteca Joanina, do livro gigante tão antigo como Portugal à Bíblia que faz chorar
© Fernando Fontes / Global Imagens

Com toda essa tecnologia para cuidar dos livros, os morcegos são um mito?

J.G.M. – Os morcegos não são um mito. Existem duas colónias, mas não sabemos se foram colocados de propósito ou não, possivelmente não. Há uma coincidência aqui com a biblioteca de Mafra nesse aspeto, que também é da lavra de D. João V, e também não há nenhuma dúvida de mais duas coisas. Primeiro, que eles são úteis a comer bicharada que faria mal aos livros, gerando ali uma espécie de nicho ecológico que ajuda a proteger as obras. A outra coisa que também é certa é que, provavelmente, essas duas colónias já são extremamente reduzidas. Só saem durante a noite, por uma frestazinha que nunca podemos entaipar na porta principal da Joanina, para se hidratarem, para caçar, reentram, às vezes fazem umas aparições fugazes durante um concerto noturno, por exemplo, lá assustam um ou outro espectador, mas em geral não incomodam e prestam um serviço. Não são eles, por si só, que mantêm a dignidade do espaço, isso é também o esforço das pessoas que lá trabalham. Agora, devo dizê-lo, temos a alegria de ter a reitoria da Universidade de Coimbra sensibilizada para fazer as intervenções de manutenção daquele edifício que são precisas, designadamente ao nível da cobertura, do telhado e de algumas paredes onde há deteção de infiltrações de humidade. É um edifício robusto, com paredes de mais de dois metros, mas, de qualquer maneira, todos os edifícios, por mais robustos que sejam, tal como os organismos humanos, também precisam de ser protegidos e acarinhados. Isso vai ser feito, até porque há muito tempo que se fazem monitorizações quinzenais de temperatura, humidade e poluição dentro do espaço da Biblioteca Joanina.

Professor Delfim Leão, há também um esforço para dar acesso ao que está na Joanina e na Biblioteca Geral através de meios informáticos, certo?

D.L. – Não é possível ter nenhum tipo de biblioteca realmente marcante sem um investimento programático sério. Podemos pegar na primeira das grandes bibliotecas emblemáticas, a de Alexandria, no reino dos Ptolomeus, que só foi possível construir porque os faraós entenderam que deveriam consignar a essa biblioteca uma parte muito substancial do seu rendimento. Vimos na construção da Joanina que além do investimento que foi feito pela coroa, pelo rei, houve uma decisão programática da universidade de afetar à sua biblioteca uma parte importante dos seus rendimentos. Isto leva-nos, naturalmente, a tomar decisões também programáticas, não apenas na curadoria daquilo que é o livro tradicional no seu formato mais analógico, mas naquilo que é a decisão de apostar em bibliotecas digitais e na sua abertura ao mundo. Este é um tema profundamente importante, atual, porque nunca na história, como aconteceu nos últimos meses, nunca a humanidade ficou em grande parte vedada de ter acesso às fontes do conhecimento. De facto, as bibliotecas digitais e, sobretudo, o movimento do acesso aberto foram absolutamente centrais para que fosse possível continuar a investigação, no fundo também a ocupar as pessoas, dar-lhes esperança naquilo que estão a fazer. Claramente, esse é um movimento que já tem expressão e vai ser reforçado. A universidade está muito empenhada não apenas em ser um ponto de referência, mas até em liderar, em parte, esse processo aberto no que respeita à informação e às publicações sobretudo. Isto cria desafios de natureza vária, não apenas digitalizar e tornar disponíveis documentos muito importantes para serem consultados a partir do exterior. Isso permite proteger os originais porque não têm de ser tão manuseados. Temos aqui, à parte da Biblioteca Geral, provavelmente um dos fundos musicais mais importantes da Península Ibérica muito pouco estudados. Temos matéria para gerações de músicos estudarem, que está a ser neste momento curada, portanto, os manuscritos, os objetos em si, estão a ser recuperados por uma empresa espanhola. É um investimento conjunto da Biblioteca Geral, da reitoria, do centro de investigação. Esses documentos são digitalizados, tornados públicos, são depois transcritos e, finalmente, tornados matéria viva, ou seja, para que aquela música que tem estado em silêncio há séculos possa voltar à vida. É um processo realmente notável. Agora, isso implica opções estratégicas importantes porque não basta digitalizar, importa garantir que aquilo que se digitaliza não leva ao esquecimento do objeto original, que não pode ficar descurado. Aquilo que se digitaliza implica um esforço de curadoria futura importante. Eu até diria, talvez mais exigente do que o livro tradicional, porque o livro tradicional resiste nesse formato. Podemos esquecer-nos do livro durante anos e, em princípio, se não houver um acidente, um incêndio, uma inundação, ele resiste. Com o objeto digital não podemos lidar da mesma forma.

Por exemplo, a Bíblia “atlântica” é um desses livros que faz sentido digitalizar?

D.L. – Penso que sim. Temos a alma mater que é precisamente a biblioteca digital dessas preciosidades, está catalogada segundo alguns dos temas que são mais relevantes, muitas vezes ligados a projetos de investigação que têm interesse particular num determinado acervo. Eu diria que estas joias, por assim dizer, faz sentido digitalizá-las e torná-las acessíveis. É uma opção nem sempre fácil, porque se é um objeto único, naturalmente que se o digitalizamos e tornamos completamente público e aberto podemos correr o risco de ele não atrair tanta gente ao processo de veneração do original. Por outro lado, diria que é um risco que vale a pena correr, porque torna-se conhecido, torna-se visível a todos, e isso é algo que é extremamente positivo, mas, por outro lado, a emoção de ver o original torna-se uma experiência sensorial única.

J.G.M. – Queria só acrescentar que um dos projetos da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra – isto até é em primeira mão – é o de fazermos em 2022 um colóquio sobre grandes bibliotecas da história da humanidade. Pode ser muito interessante quer para estudiosos quer para satisfazer a curiosidade do público em geral, seja sobre grandes bibliotecas seja sobre grandes documentos da história da humanidade, como a Magna Carta, por exemplo, que é uma coisa de uma página e é um dos grandes produtos de exportação da cultura inglesa no mundo. Tínhamos também previsto para este outubro, mas vamos repô-lo num calendário diferente, provavelmente em meados de abril de 2021, um colóquio sobre turismo e património, para trazermos cá de diversos outros lugares da Europa, do Alhambra de Granada, de França, de Itália, do Trinity College de Dublin, gente que tem esta experiência de necessidade de equilibrar o património com o turismo. Isto para virem contar aqui o seu percurso e partilhar connosco as soluções, para que nós nos possamos também iluminar um pouco mais nas decisões que temos de tomar para conseguirmos preservar o património sem deixar de corresponder à pressão turística. Em anos normais – não é o caso -, entre março e outubro, a chamada época alta, temos na Biblioteca Joanina 1600 visitantes por dia. (Diário de Notícias)

Fonte: O outro lado da notícia

Biblioteca Digital del Patrimonio Iberoamericano supera los 650.000 recursos digitales

 

La Biblioteca Digital del Patrimonio Iberoamericano (BDPI) es una biblioteca digital de acceso libre y gratuito al patrimonio cultural digital iberoamericano. Este proyecto está impulsado por la Asociación de Bibliotecas Nacionales de Iberoamérica (ABINIA) y su objetivo es crear un portal que permita el acceso desde un único punto de consulta a los recursos digitales de todas las bibliotecas participantes, además de difundir el patrimonio bibliográfico de cada una de ellas para facilitar que el mayor número posible de personas se acerque hasta él.

Recientemente, la Biblioteca Nacional de España (biblioteca que se ha encargado del diseño y creación del portal) ha informado que Biblioteca Digital del Patrimonio Iberoamericano ha superado los 650.000 recursos digitales. Además, señala que ha habido un aumento de la colección de México en casi un 50 por ciento.

La colección de Biblioteca Nacional de México en la Biblioteca Digital del Patrimonio Iberoamericano (BDPI) se actualiza y alcanza 1.208 recursos digitales disponibles en este proyecto de colaboración transnacional que ha evolucionado para dar mayor visibilidad a las colecciones digitales de las bibliotecas participantes.

Acesse a matéria completa publicada pelo Julián Marquina e veja a contribuição da Biblioteca Nacional do México para a biblioteca digital. 

‘Destruir uma estátua não resolve, é preciso discutir a memória’, diz historiador

“Não vamos nos apaziguar tirando um problema, precisamos tratar esse problema”, afirma curador do Museu Paulista
Imagem: AFP

Estátuas de figuras ligadas de alguma forma ao escravagismo estão sendo derrubadas ou destruídas na Europa e nos Estados Unidos nos últimos dias. A questão se levanta também no Brasil. Para o historiador Paulo Garcez Marins, os monumentos são importantes para a reflexão do passado.

Embaladas na energia planetária de descontentamento diante do assassinato de George Floyd, manifestantes têm tido como alvo estátuas de personagens que tiveram influência no tráfico de escravos negros. Primeiro foi Edward Colston, no domingo (7), jogado no rio por uma multidão em Bristol, na Inglaterra. Seguiram-se Leopoldo II, da Bélgica, rapidamente retirado de uma praça em Antuérpia e deslocado para um museu. Cristóvão Colombo tem sido depredado nos Estados Unidos.

Nos últimos dias, principalmente nas redes sociais, levanta-se a possibilidade do ato no Brasil, principalmente contra os bandeirantes, considerados historicamente como desbravadores, mas que buscavam essencialmente riquezas minerais, sendo responsáveis também por dizimar populações indígenas e destruir quilombos.

Paulo Garcez Marins é docente e curador do Museu Paulista (Museu do Ipiranga), da Universidade de São Paulo (USP), acervo que conta com importante material iconográfico sobre os bandeirantes. “São representações codificadas de pioneiros, encomendadas para ilustrar a construção do país, mas hoje eles são discutíveis do ponto de vista historiográfico, ético e memorial”, explica.

“Brasil está de novo construindo mitos contemporâneos, que podem vir a gerir estátuas”, analisa o especialista. “O que vamos fazer com essas homenagens? Elas dizem respeito a quantos por cento da população? A nossa sociedade está debatendo hoje claramente a centralidade de figuras políticas que colocam em xeque posições muito contraditórias. Ou seja, isso nos marcará sempre. Não vamos nos apaziguar tirando um problema, precisamos tratar esse problema”.

“Como historiador, eu não vejo um movimento de derrubada de estátuas como algo que seja efetivamente útil”, diz o especialista. “Mais importante que abolir imagens, é nos capacitarmos para discutir essas imagens e outras. Não há possibilidade de nós lidarmos com imagens, sejam elas esculpidas, pintadas, fotográficas, sem que tenhamos em conta o quanto essas imagens são parciais. Ou seja, mais que derrubar um monumento, é importante entender por que ele foi construído, problematizar essa escolha, problematizar o ato de celebrar alguém no passado que hoje é intolerável e, sobretudo, trazer a discussão sobre a construção de memória para o público. Porque se nós tiramos uma estátua e substituímos por outra, daqui a 30, 40 anos, será essa estatua também objeto de uma crítica – e a solução será derrubar essas estátuas?”

“Destruir estátua não resolve o problema”

Marins cita sucessões de derrubadas e substituição de monumentos na Europa, da monarquia dos Bourbon, na França, passando pela Revolução Francesa, Napoleão e a guerra franco-prussiana. E o processo se repete até hoje.

“Na verdade, sofremos um processo contínuo de destruição dessas evocações memoriais, como se destruindo a estátua, destruíssemos o problema que elas representam e isso não acontece. Do meu ponto de vista, é sobretudo importante usar as estátuas como um ponto de partida para a discussão”, explica o historiador.

O ideal, para Marins, seria um texto explicativo junto a um monumento: “Precisamos saber tratar essas imagens como um problema. Eu não posso simplesmente retirar a estátua de um bandeirante e enterrar junto com isso uma discussão sobre o que é, por exemplo, a destruição de populações indígenas, ou quilombolas, nos séculos 17, 18, porque essas questões continuam presentes hoje”.

Ele enfatiza a importância das discussões. “O documento cruel sobre o passado é um ponto de partida. Precisamos aprender a desconfiar das imagens, dos monumentos, muito mais que simplesmente celebrá-los. . Enquanto uma estátua de um bandeirante estiver na praça, a discussão sobre a memória dos bandeirantes e o massacre das populações indígenas, isso estará vivo. A partir do momento em que aquilo sai da praça, da rua, da vista, esse assunto pode simplesmente fenecer. Sumir”, diz o curador do Museu do Ipiranga.

“A União Soviética passou sucessivas vezes também por esse problema”, lembra Marins. “Quando foi constituído o regime comunista, tudo relativo à monarquia Romanoff tudo foi destruído, fundido, derrubado, com raras exceções, como é o caso da estátua equestre de Pedro, o Grande, em São Petersburgo. Mas quase tudo foi destruído. Depois, com a queda do regime soviético, as esculturas do Lenin, do Stalin, foram todas derrubadas. Enfim, derrubar uma escultura não é efetivamente muito produtivo, acho preferível mantê-la como problema.”.

Argentina troca Colombo por indígena

O historiador cita ainda a Argentina como palco recente do fenômeno. “Isso foi muito discutido há alguns anos, quando o regime da Cristina Kirchner decidiu que uma homenagem a Cristóvão Colombo foi substituída por um monumento lembrando uma liderança indígena, uma mulher. Numa discussão sobre o que é o contato da Europa com a América, é compreensível que muitas pessoas queiram retirar o conquistador e fazer uma homenagem à liderança indígena. Mas não é apenas ela que está ali figurada, é por exemplo todo o movimento do regime da Cristina Kirchner usando a imagem dessa indígena para também promover-se como regime contemporâneo. Ou seja, não é apenas um monumento à índia, mas também ao governo que a faz. Nunca vamos conseguir nos livrar dessas dimensões.”

Fonte: UOL

Acaba de ser lançada edição fac-símile de dicionário japonês raro

Encontrado por pesquisadores da USP, o “Vocabvlario da Lingoa de Iapam” é publicado em co-edição entre instituições brasileiras e japonesa

Texto por Claudia Costa

Imagem: Jornal da USP/Luana Franzão

O Vocabvlario da Lingoa de Iapam foi descoberto em setembro de 2018, na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Publicado em 1603 pelos jesuítas, o volume raro é o quarto de que se tem notícia e o primeiro do continente americano – os outros três estão na Inglaterra, França e Portugal – e sai agora em edição fac-similar pela Editora Yagi Shoten Shuppanbu, de Tóquio. Trata-se de um dicionário bilíngue japonês-português, impresso em Nagasaki, que registra mais de 32 mil palavras (escritas e faladas) em japonês da época, e que é até hoje uma referência para se conhecer a língua, a cultura e a história do país do final do século 16 e início do século 17 (leia mais sobre o dicionário emmatéria publicada no Jornal da USP).

O fac-símile é uma coedição da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e da Yagi Shoten Shuppanbu, com organização dos responsáveis pela descoberta, a professora Eliza Atsuko Tashiro Perez, do Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura Japonesa da FFLCH, e Jun Shirai, na época docente da Shinshu University, do Japão, e professor visitante do programa.

O grande destaque são as imagens fotográficas em alta resolução de todas as páginas do dicionário. Além disso, a obra traz um prefácio de Harumichi Ishizuka, Professor Emérito da Hokkaido University e organizador do fac-símile do exemplar da Biblioteca Nacional da França, e textos de Helena Severo, ex-secretária municipal de Cultura do Rio de Janeiro e ex-presidente da FBN, e da professora Maria Arminda do Nascimento Arruda, diretora da FFLCH. Há ainda textos críticos assinados pelos organizadores, pela diretora executiva da FBN Maria Eduarda Marques e por duas especialistas em lexicografia jesuítica do Japão: Haruka Nakano (Shohoku College) e Emi Kishimoto (Osaka University).

Edição fac-símile de Vocabvlario da Lingoa de Iapam: imagens de alta qualidade, com prefácio, textos críticos e comparação tipográfica – Imagem: FFLCH/USP

O dicionário foi encontrado meio por acaso no Acervo de Obras Raras da Biblioteca Nacional, quando os pesquisadores buscavam por títulos publicados pela prensa jesuítica japonesa nos séculos 16 e 17. “Sabendo que a base formadora da Biblioteca Nacional fora a Biblioteca Real portuguesa mandada trazer pelo então príncipe regente D. João (1767-1826), partimos da hipótese de que esta tivesse em seus acervos obras dos jesuítas do Japão, devido aos interesses comuns entre a Coroa lusa e a Companhia de Jesus”, relata Eliza. Mas, diferindo dessa expectativa, diz a professora, o Vocabvlario foi encontrado no acervo bibliográfico e iconográfico doado por D. Pedro II, em 1891, e leva, a seu pedido, o nome da imperatriz Dona Teresa Cristina Maria (1822-1889). O que ainda não se sabe é o percurso do exemplar do dicionário desde Nagasaki até constituir o acervo da biblioteca particular do imperador, no Rio de Janeiro.

Tanto a edição brasileira da FBN como os outros três exemplares que têm sua existência física comprovada – da Biblioteca Bodleian da Universidade de Oxford, na Inglaterra, da Bibliothèque Nationale de France e da Biblioteca Pública de Évora, em Portugal – foram publicados em fac-símile por diferentes editoras japonesas, comenta Eliza. Além disso, ressalta, a coedição atual é a segunda com imagens fotográficas coloridas.

Outra particularidade da coedição é o trabalho de comparação tipográfica, feita pela pesquisadora Haruka Nakano, entre os quatro exemplares e um outro, que foi encontrado no Convento de Santo Domingos em Manila, nas Filipinas (dado como desaparecido, mas com uma fotocópia no acervo da Sophia University, de Tóquio).

Processo de edição

Foram 18 meses, desde a descoberta do dicionário até a publicação. Segundo a organizadora, logo depois que encontraram a obra, foi realizado contato com o professor Masayuki Toyoshima, um dos maiores pesquisadores das publicações dos jesuítas feitas no Japão. Como conta Eliza, a sugestão da publicação fac-similar partiu dele, que deu sequência aos acordos com a Editora Yagi Shoten, empresa com projeção no mercado editorial japonês pela publicação de obras clássicas e manuscritos.

A proposta de coedição foi submetida ao Centro de Pesquisa e Editoração da Biblioteca Nacional em maio de 2019 e aprovada em julho do mesmo ano. A etapa seguinte foi a formulação do convênio de coedição da obra fac-similar do Vocabulario da Lingoa de Iapam, assinado pelos representantes das três instituições ainda no final de 2019.

“Como envolveu duas instituições públicas brasileiras (uma federal e outra estadual) e uma editora comercial japonesa, o processo de elaboração da proposta e do convênio foi mais lento, pois exigiu cuidados sobre questões técnicas e jurídicas”, afirma. A professora acredita que a proposta deve ter sido a primeira submissão que a Biblioteca Nacional recebeu envolvendo uma editora japonesa, abrindo precedentes para iniciativas futuras.

Cada página do dicionário gerou uma imagem que foi reproduzida em tamanho original e com resolução de 540 dpi, em vez dos  tradicionais 300 dpi. “Incluindo capas e folha de guarda, são 676 imagens que permitem, segundo o presidente da Editora Yagi Shoten, identificar até mesmo mínimas manchas de tinta no papel”, comenta Eliza. Além disso, mesmo durante a revisão, são usadas as mesmas impressoras e papéis do livro final, para que seja possível um ajuste adequado da cor e do tom, entre outros muitos cuidados.

A edição fac-similar por enquanto não será vendida no Brasil, mas, obedecendo a uma cláusula do convênio de coedição, a Fundação Biblioteca Nacional receberá 30 exemplares. E ainda neste ano, como adianta Eliza, a revista Estudos Japoneses – editada pelo Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura Japonesa da FFLCH – deve publicar uma resenha sobre a obra, a fim de levá-la ao conhecimento dos pesquisadores brasileiros.

Fonte: Jornal da USP

Coleção Brasiliana Itaú traduz o melhor da história, iconografia e literatura sobre o Brasil

O livro e a exposição “Brasiliana Itaú — uma grande coleção dedicada ao Brasil” merecem ser lido e visto — nada ficam a dever aos melhores museus e raisonnés

Jales Guedes Coelho Mendonça e Nilson Jaime

Especial para o Jornal Opção

Em 1969, Olavo Setubal, principal acionista do Banco Itaú, adquiriu, com o aval da diretoria da corporação, um quadro a óleo (“Povoado numa Planície Arborizada”) executado pelo artista holandês Frans Post. Considerado o primeiro pintor da paisagem brasileira, e domiciliado em Pernambuco entre 1637 e 1644, Post integrou a comitiva de Maurício de Nassau no Brasil. Essa valiosa aquisição representou o primeiro passo para a edificação, nas décadas subsequentes, de um notável acervo de obras de arte, documentos, mapas, peças iconográficas e livros, que hoje formam a Coleção Brasiliana Itaú.

Exatos quarenta anos depois da primeira importante compra, foi publicado o livro “Brasiliana Itaú — uma grande coleção dedicada ao Brasil” (Capivara, 2009, 707 páginas), de autoria de Pedro Corrêa do Lago, que retrata essa verdadeira arca de tesouro. A obra, uma produção luxuosa de capa dura com aproximadamente 2.500 imagens, pesa espantosos quatro quilogramas e nada fica a dever aos sofisticados trabalhos da editora alemã Taschen Books. As apresentações de sobrecapa e interna são da lavra de Olavo Setubal, escritas pouco antes de seu falecimento, ocorrido no dia 27 de agosto de 2008. A publicação estrutura-se em seis partes: a) obras de arte; b) livros e impressos; c) documentos manuscritos; d) cartografia; e) economia e finanças, e f) paulistana.

Em 2014, diante das novas aquisições incorporadas ao acervo, surgiu a necessidade de uma segunda edição. O lançamento da obra ampliada coincidiu com a inauguração do Espaço Olavo Setubal, localizado no prédio do Itaú Cultural, situado na Avenida Paulista, centro da capital bandeirante, depositário dos dois acervos, quais sejam, a Coleção Brasiliana e a Coleção Numismática (alusiva a moedas). A entrada na exposição permanente é gratuita e o seu percurso constitui-se num mergulho instrutivo nos cinco séculos da memória histórica e visual brasileira. A variedade e a riqueza do catálogo talvez sejam apenas inferiores ao da Biblioteca Nacional e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB).

De acordo com Milú Villela, presidente do Itaú Cultural, o espaço não apenas homenageia o mecenas da cultura como projeta o aludido instituto como “um relevante protagonista na democratização do acesso e no fomento à cultura e à arte brasileiras.” Além disso, agrega à imagem da instituição financeira, com todos os méritos, um poderoso “soft power”. A exposição, uma fração dos 12 mil itens que compõem as coleções, restou formatada em nove módulos: a) o Brasil desconhecido; b) o Brasil holandês; c) Brasil secreto; d) o Brasil dos naturalistas; e) o Brasil da capital; f) o Brasil das províncias; g) o Brasil do Império; h) o Brasil da escravidão; e i) o Brasil dos brasileiros.

O Brasil desconhecido

O primeiro módulo da exposição aborda um período pouco documentado da história do país, sobretudo em razão de o território brasileiro ser ainda desconhecido do colonizador europeu. Segundo o prospecto e guia de visitação distribuídos na mostra, “nenhum artista visitou o Brasil nesse período. As imagens existentes foram criadas na Europa com base em relatos de descrições escritas. O tema dominante era o canibalismo, protagonista de grande parte das gravuras que descrevem o país. Os povos indígenas também são retratados vestidos à moda europeia ou em modelos atléticos imaginados pelos artistas europeus, que nunca os haviam visto.”

“Índios”, uma das 77 belíssimas gravuras coloridas sobre peixes e silvícolas pescadores, do zoólogo bávaro Spix, par com o botânico Martius, seu conterrâneo, na Viagem ao Brasil | Foto: Reprodução

É dessa fase o raríssimo “Mapa do Almirante” (Estrasburgo, 1522), de Lourentz Fries (1490-1522), que delineia parte do litoral brasileiro, então chamado de “Terra Papagalli”, em latim, ou seja, “Terra dos Papagaios”. Nesse precioso documento, revisam-se as cartas que Martin Waldseemüller (1475-1522) incluíra como suplemento em uma das edições da “Geografia de Ptolomeu”, primeiro “’atlas geográfico’ comentado” da história, confeccionado no segundo século da era cristã. Frise-se que o citado Martin, na primeira versão de seu “Cosmographiae introductio” (sem local, 1507), de forma pioneira, denominou o continente recém-descoberto de “América” – em alusão ao navegante Américo Vespúcio. Segundo Pedro Côrrea do Lago, mais tarde, ele explicaria que a escolha de um nome feminino harmonizar-se-ia com o mesmo gênero dos nomes de Europa, Ásia e África.

O autor de “Brasiliana Itaú” chama a atenção igualmente para um aspecto pouco observado e relacionado especialmente a esse período do “Brasil desconhecido”: os mapas a respeito do país eram impressos em várias nações, menos em Portugal e no Brasil. No afã de decifrar o enigma, Lago assinala: “A ausência do primeiro se explica pela opção política de ocultar as riquezas do Brasil, dificultando-lhe ao máximo o acesso. A inexistência de mapas brasileiros deve-se obviamente ao fato de a imprensa só ter sido autorizada no país a partir do início do século XIX, quando a cartografia de tema brasileiro impressa no exterior já acumulava quase trezentos anos de esplêndidas realizações.”

Guia de visita e prospecto da Coleção Brasiliana Itaú, visitada pelos autores deste artigo em três ocasiões | Foto: Reprodução

Com efeito, salta aos olhos o esforço despendido pelos arquitetos da coleção Brasiliana para reconstituírem o mosaico da legislação luso-brasileira vigente durante os mais de trezentos anos da era colonial (1500-1822). Por tal razão, além de documentos relativos à nossa formação territorial, como o Tratado de Madri (1750), que revogou o Tratado de Tordesilhas (1494), o catálogo ostenta, entre outros, os originais das Ordenações Manuelinas (Lisboa, 1565), do rei Dom Manuel (1496-1521) e da primeira edição do Código Filipino (Lisboa, 1603), conjunto de normas que praticamente regulamentaram a vida privada no Brasil até 1917, data da promulgação do Código Civil elaborado pelo jurista Clóvis Bevilácqua.

O Brasil toma forma ainda em dois atlas clássicos: a “Cosmografia Universal” (Basileia, 1540), do geógrafo alemão Sebastian Münster e a “Delle Navigationi et Viaggi” (Veneza, 1556), do italiano Giovani Battiste Ramusio, considerado por John Locke um “trabalho perfeito”. Ademais, cumpre salientar a mais famosa gravura quinhentista sobre os brasileiros. Inserta no livro de Jean e Robert Dugord (Rouen, 1551), a representação artística retrata uma festa em homenagem aos reis Henrique II e Catarina de Médicis, na qual foram exibidos ao público cinquenta índios Tupinambá e Tabajara numa taba simulada. “O espetáculo marcou as imaginações daqueles que assistiram e dos muitos que viram a gravura, intitulada ‘Festa dos brasileiros’, uma das mais ricas e ambiciosas imagens até então publicadas de uma representação teatral”, consignou Lago.

O Brasil holandês

Os profícuos quase oito anos passados por Maurício de Nassau no Brasil, a serviço da Companhia das Índias Ocidentais, inspiraram bastante os artistas e cientistas de sua comitiva, que divulgaram em livros ilustrados todas as imagens e informações colhidas no país. A presença holandesa ocorreu de 1624 a 1654, destacando-se dessa fase, o já mencionado quadro de Frans Post, que reproduz um pitoresco povoado do Nordeste brasileiro.

A produção bibliográfica associada à ocupação neerlandesa é relativamente extensa e inclui o “Novus Orbis” (Amsterdã, 1633), de Joannes de Laet, uma publicação escrita originalmente em latim e que contém os melhores mapas do Brasil antes da vinda de Nassau. Do mesmo autor, é também a “História da Companhia das Índias Ocidentais” (Leiden, 1644).

Merece realce, de igual modo, a ilustradíssima “Historia Naturalis Brasiliae” (Amsterdã, 1648), de Willem Piso e George Macgraf, considerada a primeira enciclopédia da flora e da fauna do Brasil, primorosamente aquarelada à mão. A obra é tida como um dos maiores tesouros da Brasiliana Itaú e foi produzido sob os auspícios de Maurício de Nassau, “que desejava oferecer à comunidade culta europeia um relato das pesquisas científicas nas áreas de botânica e zoologia promovidas por ele no Nordeste brasileiro. Durante quase duzentos anos essa obra não só foi a principal fonte da história natural brasileira, como praticamente a única até a década de 1820, quando foram publicados os trabalhos do Príncipe de Wied-Neuwied (Príncipe Maximiliano) e dos sábios bávaros Spix e Martius”, pontua Pedro Lago.

“Grande Atlas Blaeu” ou “Cosmographia Blaviana”. Amsterdã, 1667 | Foto: Reprodução

Por último, seria uma lacuna imperdoável a omissão do “Atlas Blaeu”, no justo conceito de Lago “o maior e mais belo atlas de todos os tempos.”  Expressão maior da pujança da República Unida dos Países Baixos no século XVII, o “Grande Atlas Blaeu ou Cosmografia Blaviana” foi editado em 1662 pela editora holandesa Blaeu (Amsterdã) e impresso em sete língua, chegando algumas versões a alcançar doze volumes encadernados em pergaminho e decorados com filete de ouro, o que fazia seu preço equivaler a uma boa casa da cidade neerlandesa. O compêndio buscava consolidar todo o conhecimento da humanidade até então existente. As gravuras de Fran Post e Marcgraf sobre o Brasil e o saber legado pela missão de Nassau, sem dúvida ajudaram a robustecer ainda mais a monumental obra de Joan Blaeu, que frequentemente era usada pelas autoridades holandesas para fins diplomáticos. Nessa direção, consta que o sultão da Turquia ofertou-a ao imperador da Áustria, Leopoldo I.

O Brasil secreto

Após a expulsão dos holandeses do Brasil, o governo português proibiu a entrada de visitantes estrangeiros em sua colônia americana por mais de 150 anos. O “Brasil secreto” adveio da preocupação em manter o país fechado a possíveis exploradores, sobretudo após a descoberta de grandes jazidas de ouro e diamantes, por volta de 1700, em Minas Gerais, e posteriormente em Mato Grosso e Goiás. Por isso, talvez a imagem que melhor simbolize esse obscuro momento repouse na aquarela “Vistas da baía do Rio de Janeiro”, de T. Sydenham (1795). Isso porque o artista foi obrigado a retratar a cidade maravilhosa da perspectiva do navio inglês, uma vez que as embarcações estrangeiras eram proibidas de atracarem no território brasileiro.

Embora não mencionado por Lago, um grande prejuízo à então inexistente ciência nacional foi o veto à presença do naturalista alemão Alexander Von Humboldt (1769-1859). A despeito de ter viajado pela América do Sul entre 1799 e 1804, percorrendo a Venezuela, Colômbia e Peru, o maior cientista daqueles tempos — precursor de Charles Darwin e influenciador de Simon Bolívar, Thomas Jefferson, Goethe, Ernst Haeckel e Henry David Thoreau — não pôde conhecer o Brasil. Em sentido contrário, seus patrícios Spix e Martius e outros naturalistas visitariam demoradamente o país mais tarde, após a chegada da família real, expulsa pela invasão napoleônica.

Ao longo do importante ciclo econômico da mineração (século XVIII), grandes talentos poéticos se manifestaram, a exemplo de Tomás Antônio Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa, expoentes da Inconfidência Mineira. Na mesma Minas Gerais, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, surge como um mito das artes nacionais, produzindo “Nossa Senhora das Dores”, imagem de cedro policromado.

“O primeiro livro impresso no Brasil, quase 300 anos após o primeiro livro europeu, a Bíblia de Gutenberg” | Foto: Reprodução

É desse período o primeiro livro impresso no Brasil, quase 300 anos depois da Bíblia de Gutemberg, a primogênita publicação europeia. Trata-se do livro “Relação da entrada do Bispo do Rio de Janeiro” (Rio de Janeiro, 1747), de Luiz Antônio Rosado da Cunha, editado na Segunda Officina de Antonio Isidoro da Fonseca. Como a existência de tipografia na colônia era terminantemente proibida pelo rei de Portugal, o aparecimento do citado opúsculo é creditado a um cochilo das autoridades portuguesas. Corrobora a interpretação o fato de Dom João V, ao tomar ciência do acontecido, ter determinado o confisco do prelo e a apreensão da obra. Aliás, o mesmo destino sucedido com “Cultura e Opulência do Brazil”, de autoria do padre Antonil, impressa no exterior em 1711 e só republicada no país 126 depois.

Em relação ao pioneirismo do livro de Luiz Antônio Rosado Cunha, sublinhe-se que houve uma polêmica bibliográfica envolvendo a obra do brasileiro José Fernandes Pinto de Alpoym, intitulado “Exame dos Artilheiros” (Lisboa, 1744). Malgrado na capa constar a cidade portuguesa como o local da edição, especialistas advogavam que a impressão ocorrera no Brasil. No século XX, entretanto, várias investigações refutaram a suspeita.

Algumas peças da coleção Brasiliana merecem destaque. A primeira delas é “Governo de Mineiros” (Lisboa, 1770), de Jozé Antônio Mendes, raríssima publicação de um brasileiro na área médica. Segundo Lago, o autor “redigiu um manual para pessoas que, sem formação médica e distantes das cidades com hospitais, precisavam cuidar de seu empregados e escravos.”  A outra refere-se ao “Diccionario portuguez, e brasiliano” (Lisboa, 1795) do frei franciscano José Mariano da Conceição Velloso, criador de um léxico português-brasileiro, sendo brasileira a língua Tupi-Guarani.

O Brasil dos naturalistas

O módulo 4 da exposição apresenta a “era das luzes”, iniciada com a chegada da família real e a abertura dos portos, em 1808. O Brasil “foi finalmente revelado ao mundo e, nas décadas seguintes, receberia centenas de artistas e cientistas determinados em registrar o território, seus costumes, sua flora e sua fauna, movidos pela enorme curiosidade represada nos 150 anos em que o país ficou fechado”.  É a parte mais pujante da mostra. O colorido das telas e as gravuras de animais, plantas, florestas, flores e habitantes do Brasil encantam o visitante.

Logo nos albores desse ciclo, o país ganhou uma obra que se tornaria a mais famosa de sua historiografia produzida por um estrangeiro: “History of Brazil” (Londres, 1810), do inglês Robert Southey. Pedro Lago explica que Southey viveu sua juventude em Lisboa e planejava escrever uma história de Portugal, mas “julgando o projeto ambicioso demais, voltou-se para uma História do Brasil, que lhe pareceu mais fácil de realizar, mas que evoluiu para tornar-se uma obra monumental em três volumes”.  Seu trabalho, republicado pelo consórcio das editoras Itatiaia e Edusp, na Coleção “Reconquista do Brasil”, constitui até hoje um estudo de referência e essencial para a compreensão de nosso passado.

A “Brasiliana Itaú” possui os originais de quase todos os relatos de viajantes que singraram o país nessa fase, a exemplo de “Travels in the interior of Brazil” (Londres, 1812), de John Mawe; “Travels in Brazil” (Londres, 1816), de Henry Koster; “Reise in Brasilien” (Munique, 1823), de Martius e Spix; “Journal of a Voyage to Brazil” (Londres, 1924), de Maria Graham e “Voyage Pittoresque au Brésil” (Paris, 1835), de Johann Rugendas.

É na secção de fauna e flora que são localizados os mais belos livros e gravuras da coleção. Da série constam os seguintes títulos: “Histoire Naturelle des Tangaras, des Manakins et des Todiers” (Paris, 1805), de Anselme Desmarest, o primeiro álbum de pássaros do Brasil; “Simiarum et vespertilionum Brasiliesium species novae” (Munique, 1823), de Spix, catálogo de todos os macacos brasileiros conhecidos à época no país; “Genera et species Palmarum” (Munique, 1823-1831) de Martius, impressionante realização gráfica entre os álbuns dedicados à vegetação brasileira no século XIX; além do clássico de Saint-Hilaire, “Plantes usuelles des Brasiliens” (Paris, 1824).

Ainda sobre a fauna e flora, calha ressaltar que os naturalistas trataram os índios como “parte da fauna” brasileira, nos termos da mentalidade então prevalecente. Os intelectuais devotavam tanto interesse pelos povos indígenas que Spix e Martius chegaram a levar para a Alemanha um casal de índios (Miranha e Iuri ou Puri), que pouco depois faleceu por não suportarem “a mudança de clima,” de acordo com Martius.

“Negros no porão do navio”, de Rugendas, é o mais icônico retrato de 300 anos da escravidão no Brasil | Foto: Reprodução

O Brasil da Escravidão

A escravidão, nódoa que maculou quase quatrocentos anos da vida brasileira foi retratada por uma série de artistas viajantes, como o inglês Henry Chamberlain, que visitou o Rio de Janeiro em 1817 e, em 1822, lançou em Londres a primeira coleção de gravuras focada na mão de obra servil. Esse capítulo determinante da história do Brasil é esquadrinhado no módulo 8 da exposição e permeia grande parte do livro “Brasiliana Itaú”.

Os trabalhos do alemão Rugendas e do francês Debret “mostram cenas da escravidão em contextos diferentes – o rural e o urbano, o cotidiano de trabalhos forçados e os raros momentos festivos.”  Publicado no mesmo ano em alemão “Malerische Reise In Brasilien” (Paris, 1835) e em francês “Voyage Pittoresque au Brésil” (Paris, 1835), o livro do pintor Johann Moritz Rugendas — traduzido no Brasil como “Viagem Pitoresca Através do Brasil” (Belo Horizonte: Editora Villa Rica, 1994) —, “ampliou a repercussão da descoberta das novas imagens autênticas do Brasil pelo público culto europeu, que agora chegavam a mais de trezentas se adicionadas as gravuras dos dois álbuns.”

Capa original do livro que seria traduzido como “Viagem ao Brasil”, de Debret, rico repositório das paisagens urbanas e rurais oitocentista no país | Foto: Reprodução

Destaca-se em seu trabalho gravuras que se tornaram conhecidas de todos os brasileiros através dos livros de História, como nas imagens de “negros no porão do navio”, “capitão do mato”, e “punições públicas”, em que um escravo é chicoteado por um feitor, também negro, observado pelo senhor e pessoas do povo.

O mais famoso álbum de gravuras de um artista viajante, “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil” (Paris, 1835), do francês Jean-Baptiste Debret, no dizer de Lago, “merece sua reputação por todos os títulos: a precisão e acuidade da observação, a qualidade do desenho, a excelência da técnica litográfica e a variedade de temas que abrange, desde os grandes eventos políticos, aos utensílios indígenas, passando pelas roupas, da flora e da fauna brasileiras, enfim, tudo de curioso que o artista pode observar nos quase quinze anos que passou no Rio de Janeiro, com algumas incursões pelas províncias”.

É de Debret a conhecida gravura “sapataria”, na qual dois negros trabalham em seus ofícios enquanto um terceiro é castigado com “bolos” de uma palmatória pelo senhor. Também “aplicação do castigo do açoite”; “pequena moenda portátil”; “o regresso de um proprietário de chácara” e diversas outras imagens de “negros de ganho” em seus afazeres, vendendo arruda, capim, leite, cabra, cavalo, tabaco e milho, em cenas urbanas que são verdadeiros retratos do Brasil antes do advento da fotografia.

Goiás e o Brasil das Províncias

As províncias foram menos retratadas pelos artistas viajantes do que a capital, Rio de Janeiro, mas diferentes regiões do Brasil foram episodicamente documentadas. Um exemplo é “Panorama da Cidade de São Paulo”, de A. J. Pallière, encomendada pelo imperador Dom Pedro I e considerada a obra mais importante da iconografia paulistana anterior à fotografia. O folder da exposição informa que “o óleo sobre tela desapareceu ao ser vendido após a Proclamação da República e ficou esquecido por 110 anos, até ser redescoberto em 2001, quando foi integrado à Coleção Brasiliana Itaú.”

Destacam-se ainda, no “Brasil das províncias” (módulo 6 da exposição) a “Vista de São Luís do Maranhão”, pintada por volta de 1860, bem como a “Vista Panorâmica da Baía de Belém do Pará”, de 1870, ambas de autoria de J. L. Righini, obras de escol da iconografia pátria.

Algumas das duzentas gravuras magnificamente coloridas presentes em “Plantarum brasiliae” (1827), obra-prima de Pohl | Foto: Reprodução

Embora prestes a completar 300 anos, Goiás tem pouca visibilidade tanto no livro quanto na exposição. Na mostra, aparece mencionada apenas uma vez, notadamente quando da divulgação da gravura de Thomas Ender (“Vista da Serra das Figuras do Rio Maranhão”), presente no livro “Reise in innern von Bresilien” de Emanuel Pohl (Viena, 1827).

No livro, por sua vez, são somente três remissões iconográficas. A primeira delas, já mencionada acima, refere-se ao Rio Maranhão. A segunda também encontrada na mesma obra de Pohl — publicada no Brasil como “Viagem no Interior do Brasil” (Itatiaia/Edusp, 1976, 417 páginas) — que retrata com certa verossimilhança a Cidade de Goiás, antiga capital, inclusive mostrando a Igreja de Santa Bárbara, construída no cume de um morro vilaboense.

A terceira abriga-se no bojo do livro “Expedition dans les parties centrales de l’Amerique du Sud” (Paris, 1850), de François Louis de Castelnau, integrante da grande expedição científica francesa que explorou e estudou o interior do Brasil em meados do século XIX. A gravura “Praça do Palácio de Goiás” retrata uma paisagem urbana de Vila Boa, onde se vê uma centena de escravos ajoelhados, vigiados por militares, em frente à Catedral de Sant’Ana.

“Praça do Palácio em Goiás” (1850), de Castelnau | Foto: Reprodução

Pedro Corrêa do Lago apresenta gravuras não existentes na versão em português da obra de Castelnau (“Expedições às Regiões Centrais da América do Sul”, editora Itatiaia Edusp, 448 páginas), traduzido a partir do original citado, como o desenho colorido de “Chiotay”, chefe dos Xerentes (hoje habitantes de Tocantínia, Estado do Tocantins, na ocasião província de Goiás)

Naturalistas viajantes que passaram por Goiás, como Saint-Hilaire, Aires de Casal e Louis D’Alincourt têm pouca ou nenhuma visibilidade na mostra, assim como Louis Cruls, ausente, o que colabora para a pequena presença de Goiás na exposição e no livro. Os relatos de viagens dos aludidos autores primam pela descrição, sem inserção de imagens.

Rugendas, que nunca esteve no Estado cerratense, dá notícias do comércio entre esta capitania e Minas Gerais em pelo menos duas ocasiões em seu livro “Viagem Pitoresca Através do Brasil”, supra mencionado. Chega a inserir a colorida litografia “Habitans de Goyaz”, mas vê-se claramente que se trata de uma idealização do alemão, já que o vaqueiro retratado lembra mais um gaúcho com espécie de túnica árabe cobrindo a cabeça. Bem diferente do estereótipo do vaqueiro goiano daqueles tempos e de hoje.

“Cidade de Goiás” de Johan Emanuel Pohl, faz parte das gravuras de mais esmerado acabamento | Foto: Reprodução

A respeito da exposição e do livro Brasiliana Itaú pode-se escrever um tratado ou uma tese de doutorado. Devido ao ancho espaço que isso demandaria, deixamos de descrever o módulo sobre o “Brasil do Império” que abrangeria esse importante período da história brasileira, bem como o “Brasil da Capital”, com dezenas de trabalhos iconográficos e históricos sobre a cidade maravilhosa. “O Brasil dos Brasileiros”, que aborda a consolidação republicana no país, a literatura brasileira e a Semana de Arte Moderna exigiriam outro artigo, que pretendemos escrever em breve.

Em resumo, a “Brasiliana Itaú — uma grande coleção dedicada ao Brasil”, o livro e a exposição, merecem ser lido e visto, pois nada ficam a dever aos melhores museus e raisonnés do mundo.

Jales Guedes Coelho Mendonça é promotor de justiça, doutor em História (UFG), membro do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) e do Instituto Cultural Bernardo Élis para os povos do Cerrado (Icebe). É colaborador do Jornal Opção.

Nilson Jaime é mestre e doutor em Agronomia, membro do IHGG, das Academias Goianiense de Letras (AGnL) e Pirenopolina de Letras e Artes (Aplam), vice-presidente do Icebe, presidente da Academia Palmeirense de Letras, Artes, Música e Ciências (Aplamc) e colaborador do Jornal Opção.

Fonte: Jornal Opção

Preservação do Patrimônio Bibliográfico da Fiocruz

A série quinzenal Memória & Informação promoveu no dia 19/06 a palestra “Preservação do Patrimônio Bibliográfico da Fiocruz” ministrada por Eliane Monteiro de Santana Dias (Mestre em preservação e gestão do patrimônio cultural das ciências e da saúde pela Fundação Oswaldo Cruz, Especialista em preservação e gestão do patrimônio cultural das ciências e da saúde pela Fundação Oswaldo Cruz, Atuação em gestão de biblioteca e interesse em conservação preventiva de acervos culturais).

Fonte: RUBI – REPOSITÓRIO RUI BARBOSA DE INFORMAÇÕES CULTURAIS

Covid-19: desinfecção e bens culturais, as recomendações do Dicastério para a Cultura

“O patrimônio cultural é um bem não renovável”. Portanto, “toda ação que possa influenciar seu estado de conservação deve ser adequadamente conhecida, avaliada, documentada e acordada com os especialistas”.

Sensibilizar os responsáveis ​​pela custódia e gestão do patrimônio cultural ,para evitar possíveis danos causados ​​pelo uso inadequado de produtos desinfetantes ou pela aplicação de procedimentos incorretos por falta de conhecimento.

Esse é o objetivo das recomendações compartilhadas pelo Pontifício Conselho para a Cultura para fazer frente à situação provocada pela Covid-19 em relação à gestão, limpeza e desinfecção do patrimônio cultural. O documento pretende oferecer “indicações muito simples e necessárias para evitar danos irreversíveis aos objetos mais preciosos e delicados presentes em nossas igrejas”.

A desinfecção de ambientes, paramentos, vasos sagrados para o local de culto – especifica o Dicastério na apresentação do texto – é “necessária neste período de emergência sanitária”, mas de diversas partes chegaram relatórios sobre as intervenções efetuadas com “o uso de detergentes não adequados para objetos de arte e patrimônio cultural”.

Em particular, é feita referência ao uso de produtos corrosivos, como alvejantes, amoníaco e detergentes, que geram resíduos muito prejudiciais e, portanto, não devem ser utilizados em complexos monumentais, prédios históricos, sítios arqueológicos, objetos, bens móveis, tecidos e bordados, porque poderiam causar danos irreversíveis.

Neste sentido, a necessidade de oferecer um vademecum que, conforme especificado, não foi elaborado pelo Pontifício Conselho para a Cultura, mas é compartilhado por ele. A premissa é que “o patrimônio cultural é um bem não renovável”. Portanto, “toda ação que possa influenciar em seu estado de conservação deve ser adequadamente conhecida, avaliada, documentada e acordada com os especialistas”.

Recomenda-se “bom senso”: “o sabão é um bom desinfetante para a Covid-19”; portanto, em superfícies e pisos, é melhor usar “soluções hidro alcoólicas diluídas ou sabões neutros, sempre aplicados sob pressão controlada e sob a orientação de um técnico da conservação de bens culturais”.

Aos responsáveis ​​por tais operações, bem como a todos os que entram em contato com o patrimônio, sugere-se o uso de luvas, máscaras e roupas que possam ser lavadas após a operação de limpeza. O uso de fumigação e pulverização não são recomendados em bens imóveis.

Considerando que as igrejas e outros locais tenham ficado fechados por meses, é improvável que o vírus tenha sobrevivido nestes ambientes. Neste sentido, é sempre necessário “ventilar os espaços, tanto para a segurança e a saúde dos trabalhadores e dos fiéis”, quanto “para a correta conservação do patrimônio cultural”.

Quanto aos bens móveis, quando houver suspeita de contaminação, sugere-se que sejam retirados ou delimitados em uma área inacessível por pelo menos até 14 dias.

Nunca desinfetar uma obra de arte, um objeto histórico ou um documento com álcool ou produtos de limpeza. Ao contrário de vários objetos sem interesse histórico, como grades, maçanetas, corrimãos, recomenda-se uma limpeza mais cuidadosa, prestando atenção para evitar o uso de substâncias que possam danificar acabamentos e superfícies. (PO)

Antes da reabertura das igrejas na Itália na Fase 2, Basílicas e igrejas foram sanitizadas e desinfectadas

Fonte: Vatican News

Dia da Memória do Poder Judiciário estimula reflexão sobre democracia e cidadania

​​​Em abril, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aprovou, em sessão plenária, a instituição do Dia da Memória do Poder Judiciário: 10 de maio passou a integrar o calendário da Justiça para celebrar um patrimônio cultural construído desde o Brasil Colônia e legado para as gerações presentes e futuras. O presidente do CNJ e do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, foi o relator da proposta que deu origem à Resolução 316/2020. Segundo o ministro, “somos os guardiões de uma história que moldou e construiu nossas instituições judiciárias”.

A sugestão partiu do comitê do Programa Nacional de Gestão Documental e Memória do Poder Judiciário (Proname), que incentiva e apoia ações de preservação e divulgação da herança histórica da Justiça em todo o país. O objetivo é promover a conservação do acervo memorial dos tribunais, bem como homenagear as personalidades que marcaram a história da Justiça brasileira. Existem documentos, processos, objetos e imóveis, bibliotecas e museus que contam, por esse prisma, a história da sociedade e do Estado.

No Superior Tribunal de Justiça (STJ), uma unidade assume o papel de testemunhar a evolução histórico-jurídica do país. A Secretaria de Documentação (SED) faz jus à teoria clássica dos bens culturais, ao manter sob a sua responsabilidade a tríade museu, arquivo e biblioteca. Hoje, a SED é composta por três coordenadorias (Gestão Documental, Memória e Cultura, Biblioteca), voltadas especialmente para a proteção do patrimônio cultural da corte.

Por que 10 de maio?

A data faz referência ao alvará de 10 de maio de 1808, por meio do qual Dom João VI criou a Casa da Suplicação do Brasil. A iniciativa foi implementada dois meses após a família real se estabelecer no Rio de Janeiro, onde chegou em 7 de março daquele ano, após uma temporada em Salvador, fugindo da ameaça de invasão pelas tropas de Napoleão Bonaparte em Portugal.

A medida marca a independência da Justiça brasileira em relação à portuguesa. Com a criação da Casa da Suplicação do Brasil, os recursos de apelações e agravos passaram a ser julgados no Rio de Janeiro, e não mais em Lisboa. O alvará de D. João VI determinava que “a Relação desta cidade se denominará Casa da Suplicação do Brasil e será considerada como Superior Tribunal de Justiça para se findarem ali todos os pleitos em última instância”. Neste ano de 2020, nossa Justiça comemora 212 anos.

Pensando nisso, o CNJ preparou duas sessões especiais – a primeira foi conduzida na última quinta-feira (7), na sede do STF, e a outra será realizada na terça (12), no próprio conselho. Além disso, o CNJ criou um selo comemorativo e disponibilizou em seu site informações sobre a data, inclusive com matérias produzidas por outros órgãos da Justiça, que poderão participar pelo Portal de Comunicação Integrada do Poder Judiciário.

Gestão documental

O coordenador de Gestão Documental do STJ, Julio Cesar Souza, afirma que parte da memória institucional se encontra registrada em documentos de arquivo, pela capacidade que eles possuem de registrar os fatos, preservar e estender no tempo suas evidências. “São testemunhos importantes da evolução da instituição e de suas relações com a sociedade, e constituem importante fonte de pesquisa.”

Para atender ao pesquisador, não basta à instituição guardar documentos. Segundo o coordenador, eles precisam ser tratados, organizados e estar disponíveis. Nesse aspecto, a gestão documental é fundamental. Só ela, com a aplicação de técnicas e instrumentos específicos, pode garantir que documentos de valor histórico sejam separados daqueles sujeitos à eliminação.

Arquivo virtual

Um exemplo da importância desse tratamento ar​quivístico para a preservação da memória institucional é o Arquivo.Cidadão. Nesse ambiente virtual, estão disponíveis para consulta vários conjuntos documentais acumulados pelo STJ. São documentos recolhidos para a posteridade em razão do valor que possuem como prova ou fonte de informação para o tribunal e a sociedade.

Imagem aérea das obras da sede do STJ, projetada por Oscar Niemeyer e inaugurada em 22 de junho de 1995. O complexo de 140 mil metros quadrados comporta a circulação de 6 mil pessoas por dia.

​​Em 2019, mais de 49 mil pessoas visitaram o acervo virtual e puderam ter acesso a documentos como as fotos da construção da sede do tribunal ou processos que definiram entendimentos jurídicos sobre temas relevantes. São registros da evolução da corte e da sociedade, preservados a serviço da memória do país.
Na página do Arquivo.Cidadão, o usuário tem acesso ao boletim MomentoArquivo, que a cada mês relata um caso de repercussão julgado ao longo dos 30 anos de história do tribunal.

O portal do STJ também traz informações sobre o processo de sua criação na Constituinte de 1988, os antecedentes históricos e as transformações posteriores, até a era do processo eletrônico.

Museu

A memória do STJ tem um lugar cativo na sede do tribunal. Logo na entrada do Museu, o visitante se depara com vestes talares e um habeas corpus escrito em papel higiênico – lembrando que a Justiça é para todos.

Há um vídeo explicativo sobre o tribunal, móveis históricos e a galeria com a primeira composição da corte, proveniente do Tribunal Federal de Recursos (TFR) – cujos magistrados, servidores e recursos materiais foram incorporados ao STJ na instalação do novo tribunal, em 1989.

O Museu tem uma sala onde a história do extinto TFR se confunde com os primeiros passos do STJ. Os 42 anos da instituição que deu origem ao STJ são contados nessa exposição permanente do acervo do extinto tribunal.

Criado pela Constituição de 1946 e instalado em 1947 como segunda instância da Justiça Federal, o TFR é relembrado nessa mostra, que tem a finalidade de aproximar o Judiciário do cidadão, revelando a formação da cultura jurídica do país, com suas ideias e seus personagens.

A exposição permite uma viagem aos tempos em que a Justiça funcionava com procedimentos artesanais. Um exemplo dessa realidade tão distante do processo eletrônico é a mesa de madeira com estrutura em ferro na qual os volumes dos processos em papel eram remontados. Utilizada até 1992, a mobília traz as marcas das perfurações deixadas pela furadeira que abria caminho para os barbantes na costura feita com a ajuda de uma sovela – um tipo de agulha grossa.

O Museu do STJ, que também resgata a memória do extinto TFR, reúne móveis históricos, instrumentos de trabalho, processos, documentos diversos, vestimentas, fotos, condecorações e outras peças.

​Também compõe a mostra a mesa da sala de julgamentos da primeira sede do TFR. A exposição reúne, ainda, processos, documentos, vestimentas e fotografias que retratam como era a atividade judiciária do tribunal ancestral do STJ.

Patrimônio de todos

Para o chefe da Seção de Memória e Difusão Cultural do STJ, Evanildo Carvalho, “a memória é o principal ingrediente das construções identitárias, pois cria e fortalece nos indivíduos as ideias de pertencimento e, a partir disso, fundamenta os laços de reconhecimento e solidariedade no interior de uma comunidade, o que resulta na coesão social”. Segundo ele, reconhecer e trabalhar a memória como um valor “é o que alicerça e assegura a identidade da organização, sua conformação no espaço social”.

O espaço destinado à memória da instituição oferece ao público uma galeria de arte contemporânea, cujas exposições temporárias integram um calendário anual.

O tribunal mantém diversos programas educativos que promovem visitas de estudantes de todos os níveis e grupos de idosos ao museu e outras dependências.

O Museu do STJ fica disponível para visitação de segunda a sexta-feira, das 9h às 19h. No momento, porém, em virtude da pandemia da Covid-19, a sede do STJ está fechada para o público.

O acervo do Museu do STJ pode ser conhecido também pela internet.

STJ 30 anos

Entre dezembro de 2018 e abril de 2019, o site do STJ publicou a série de reportagens 30 anos, 30 histórias​, em comemoração aos 30 anos de instalação do tribunal. Criada com a promulgação da Constituição, em 5 de outubro de 1988, a nova corte foi oficialmente instalada em 7 de abril de 1989.

A iniciativa da Secretaria de Comunicação Social teve o objetivo de resgatar a memória de três décadas de prestação jurisdicional por meio de 30 personagens que, de alguma forma, tiveram suas vidas afetadas pelos julgamentos ou contribuíram, muitas vezes de forma anônima, para a construção dessa história.

A série de reportagens deu origem a uma exposição multimídia, aberta em 2 de outubro de 2019 na sede do tribunal, e também a uma edição especial da revista digital Panorama STJ.

Biblioteca digital

Com quase 130 mil documentos, a Biblioteca Digital Jurídica (BDJur) é um dos maiores acervos digitais jurídicos da América Latina. Atualmente, usuários do Brasil e do exterior acessam a plataforma para visualizar – e baixar – itens como livros, artigos jurídicos, palestras, bibliografias, conteúdos doutrinários, obras de arte, textos da Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados (Enfam) e do extinto Tribunal Federal de Recursos (TFR), além de documentos produzidos pelo próprio STJ.

Criada em 2005, a BDJur foi a primeira biblioteca digital do Poder Judiciário inscrita sobre uma plataforma livre, permitindo acesso direto ao seu conteúdo por meio de ferramentas de busca. O repositório de material jurídico e administrativo é mantido pelo STJ. Além disso, estão disponíveis obras raras, artigos e palestras em vídeo de juristas renomados, trabalhos acadêmicos (de autoria dos ministros e servidores) e mais de 130 títulos de revistas jurídicas das principais editoras do país.

Fonte: STJ

Postais ilustrados mostram o Porto de antigamente

© Carlos Pereira Cardoso Avenida de Massarellos (1905-1910), a actual Alameda Basílio Teles

“Porto. Postais ilustrados antigos nas colecções da BPMP” é um acervo documental, disponível online, com mais de 700 postais que mostram como eram as ruas, mercados e jardins da Invicta desde o final do século XIX.

Texto Por Bebiana Rocha

Segundo a página da autarquia, este é “um dos mais relevantes fundos documentais da Biblioteca Pública Municipal do Porto” e reúne documentos digitalizados e disponibilizados pelos serviços municipais da cultura. O objectivo é não só preservar estes conteúdos únicos, mas também permitir passar melhor o tempo nesta quarentena. O acervo inclui postais “anteriores à Implantação da República e abrange a época áurea da edição e circulação do bilhete-postal ilustrado em Portugal”, período compreendido entre 1898-1940.

Alguns dos exemplares são raros, outros mais recentes, que foram incluídos pelo seu interesse para a história da cidade, como os azulejos do claustro da Biblioteca Pública Municipal do Porto. Vai poder conhecer os espaços, costumes, a vida económica, social e cultural do Porto de antigamente. Há vistas panorâmicas, azulejos, estátuas, cemitérios, lagos e fontes, fotografias da Foz, dos edifícios, ruas e jardins. Mostra também como eram os transportes, os divertimentos e a publicidade da altura.

As imagens são da autoria de fotógrafos anónimos e conceituados, como Aurélio Paz dos Reis e Domingos Alvão, ou ainda de artistas plásticos como Amadeo de Souza-Cardoso.

Fonte: Time In

Iphan abre inscrições para o maior prêmio de Valorização do Patrimônio Cultural do Brasil

Tesouro da Biblioteca do mosteiro de Santa Escolástica digitalizado

Manuscrito da Divina Comédia

Mais de duzentos incunábulos, os livros impressos com tipos ou carácteres móveis das prensas mecânicas, da Biblioteca de Santa Escolástica em Subiaco, serão digitalizados. As obras são dos séculos XV e XVI

Texto por Vatican News

Os incunábulos, livros impressos com tipos ou caracteres móveis das prensas mecânicas, da Biblioteca de Santa Escolástica em Subiaco, serão digitalizados. Parte da catalogação dos 206 incunábulos, impressos entre a metade do século XV e o ano de 1500, pertenciam aos monges beneditinos de Subiaco. O projeto é coordenado e dirigido pela Biblioteca Nacional Central de Roma, em colaboração com o Consórcio Europeu de Bibliotecas e o Mosteiro Beneditino e será financiado pela Fundação Polonsky.

A iniciativa, organizada em módulos, concentra-se em pequenas coleções públicas, privadas e eclesiásticas, espalhadas pelo território italiano que conservam acervos de extraordinária preciosidade e raridade e requerem particular atenção para sua tutela, conservação e utilização.

Onze bibliotecas de mosteiros no projeto

Além do Mosteiro de Santa Escolástica a fase inicial do projeto contará com a participação das abadias de Santa Justina, Praglia, Montecassino, Farfa, S. Nilo em Grottaferrata, Casamari, a Certosa de Trisulti, a Abadia de Cava dei Tirreni e o Oratório dei Gerolamini de Nápoles. São as 11 bibliotecas anexadas aos monumentos nacionais que foram retidas no final do século XIX pelo Estado Italiano depois da lei de confisco e que agora pertencem ao Ministério dos Bens Culturais e Turismo.

Leitura obrigatória para os monges

No site do Mosteiro de Santa Escolástica, lê-se que desde a redação da “Regra” de São Bento, foi imposto aos monges “a leitura tanto privada quanto comunitária, principalmente em particulares momentos do ano litúrgico. Portanto era necessário um lugar para conservá-los, mas em Santa Escolásticas não ficou nenhum sinal desta prática”. No final de 1100, o abade João V, amante da cultura, criou um “Scriptorium” na estrutura, para o qual chamou miniaturistas de grande fama de mosteiros italianos e estrangeiros.

Entre as várias comissões recorda-se a do “Sacramentarium Sublacense”, hoje conservado junto da Biblioteca Vallicelliana de Roma. No final de 1300 a biblioteca de Santa Escolástica contava com 10 mil livros, muitos dos quais foram perdidos com o passar dos séculos. Em 1465 sob iniciativa de dois clérigos o Mosteiro tornou-se sede da primeira tipografia italiana e aqui em 29 de outubro foi impresso o primeiro livro italiano no chamado “estilo Subiaco”.

No século XIX os livros foram confiscados pelo Estado Italiano e, como outros bens do mosteiro, colocados em leilão. Depois Santa Escolástica tornou-se um Monumento nacional. Hoje é Biblioteca Estatal e conta com 100 mil livros, 3780 pergaminhos, 15 mil documentos do ano de 1500 em diante, 440 códigos manuscritos e mais de 200 incunábulos, dos quais apenas 3 impressos em Subiaco.

Os promotores da iniciativa

Quem são os promotores do projeto? O Consortium of European Research Libraries, é uma entidade de pesquisa para a criação de instrumentos para o estudo de livros antigos impressos e manuscritos, enquanto que a Fundação Polonski dedica-se em investir em programas filantrópicos com objetivos de conservação, valorização e livre utilização das heranças históricas e dos patrimônios culturais e ao democrático acesso ao conhecimento e ao saber. O projeto de digitalização dos incunábulos das bibliotecas monásticas na Itália foi encaminhado em 2018.

Fonte: Vatican News

Declaración del UNESCO: Convirtiendo la amenaza del COVID-19 en una oportunidad para un mayor apoyo al patrimonio documental

UNESCO

 

En nombre de la Unidad de Patrimonio Documental de la UNESCO, el Secretariado del Programa Memoria del Mundo, nos complace informarles que, a la luz del COVID-19 y de la respuesta de la UNESCO a la misma, hemos estado trabajando para aclarar los vínculos conceptuales y prácticos entre el patrimonio documental y las pandemias. Por ello, hemos publicamos una declaración, firmada conjuntamente por la UNESCO y algunos de sus principales aliados internos y externos. Para acceder a este documento, lo invitamos a visitar en siguiente enlace

https://en.unesco.org/sites/default/files/dhe-covid-19-unesco_statement_…

Como parte de un sitio web creado para este propósito, estamos también incluyendo algunos recursos útiles para los profesionales del patrimonio documental, en un esfuerzo más amplio para movilizar a la comunidad del patrimonio documental en medio de la pandemia de COVID-19. Siéntase libre de circular esta información, junto con la declaración incluida anteriormente, de la forma más amplia posible, además de proporcionar sus propios recursos los cuales pueden ser útiles para este propósito

Con la expectativa de colaborar con ustedes en el futuro.

Fackson Banda  

Jefe, Unidad de Patrimonio Documental 

Fonte: International Council on Archives

A cultura do índio no acervo de Obras raras da Biblioteca Nacional

Em 1940, no México, acontece o primeiro Congresso Indigenista Interamericano que propôs aos países da América Latina a data de 19 de abril para comemorar o Dia do Índio. Após publicação do Decreto-lei nº5.540, de 2 de junho de 1943, assinado pelo então Presidente Getúlio Vargas, a celebração ocorre pela primeira vez no Brasil em 1944, através de solenidades, festividades e atividades educativas que promovem a divulgação da cultura indígena.
Na imagem, vê-se a figura do Capitão Manuel Arepquembe, chefe dos índios Coroados (Kaingang) do aldeamento de São Pedro de Alcântara.
Na imagem, vê-se a figura do Capitão Manuel Arepquembe, chefe dos índios Coroados (Kaingang) do aldeamento de São Pedro de Alcântara.

Segundo a FUNAI (Fundação Nacional do Índio), o desdobramento da lei abrange as políticas de “proteção territorial e de conservação da biodiversidade das terras indígenas por meio da execução de planos anuais de gestão ambiental, do acompanhamento de processos de licenciamento ambiental e ações coordenadas de fiscalização e monitoramento”.  A questão da terra e a luta pela preservação e legitimidade constitui uma das maiores chagas carregadas pelos povos originários.  Os efeitos da colonização na América portuguesa são sentidos até hoje, principalmente no que diz respeito à dizimação de etnias múltiplas e às tentativas de homogeneização de suas matrizes identitárias. No entanto, a história nos conta que as relações entre colonos e indígenas também foram marcadas por negociações e movimentos de resistência.

Na imagem vê-se a figura do Capitão Manuel Arepquembe, chefe dos índios Coroados (Kaingang) do aldeamento de São Pedro de Alcântara. Oriundo da região dos sertões de Guarapava, Manuel Arepquembe permanecera no aldeamento de São Jeronimo na província do Paraná até 1868, quando se mudou para o aldeamento de São Pedro de Alcântara. O aldeamento contava com cerca de 10.000 indígenas e configurava como núcleo central da operação dos missionários, pois fazia a ligação das províncias de São Paulo ao Paraná. A região também confluía o trânsito e a permanência de diferentes grupos indígenas, com destaque aos Kaingang e Guaranis- Kaiowá.  As ordenações religiosas instaladas na região sul do país resultavam do Decreto instaurado por D. Pedro II que autorizava a vinda de missionários da Ordem Menor dos Capuchinhos da Itália para administrar e organizar os aldeamentos indígenas.

Com objetivo de empregar indígenas, concedendo soldos, trabalho na lavoura e manufatura em pequenas empresas de destilaria, pólvora etc., a ideia consistia em facilitar a apropriação de terras por parte de missionários e colonos. Ao passo que a empresa missionária avançava, os aldeamentos eram tomados pela prática da colonização militar. A titulação de indígenas a postos militares era tida como contrapartida estratégica para a dominação de suas terras. Não à toa é concedida à Manuel Arepquembe a alcunha de Capitão dos Coroados.

Durante a estada do cacique e capitão Manuel no aldeamento de São Jeronimo, Frei Luís de Cemitille, diretor daquela missão relatava a dificuldade em catequisar o cacique, que não fazia o sinal da cruz e mantinha relação providencial com o aldeamento no intuito de ter acesso às provisões, especialmente armas e ferramentas.  O clima de tensão e expectativas revelava as práticas de negociação entre os missionários e os indígenas, indicando o grau de civilidade a que deixavam submeter. Os ritos católicos concorriam com algumas garantias, de propriedade, inclusive. Relações monogâmicas eram ponto de desacordo, a exemplo da preferência do cacique Manuel em manter suas quatro mulheres, sinal de poder e força conforme a estrutura social dos Kaingang.

Em 1872, o frei Timóteo de Castelnuovo relatava a homenagem que os Coroados renderam à Manuel Arepquembe, assassinado durante uma emboscada em Botucatu, província de São Paulo. Na ocasião, o cacique retornava de viagem da casa do Barão de Antonina, após acerto sobre nova empreitada de ampliação do aldeamento de São Pedro de Alcântara com apoio dos Coroados. O ritual funerário típico daquele grupo fora executado conforme suas tradições. O relato do frei demonstrava o ato como manifesto de preservação de suas origens, mas ao mesmo tempo revelava a incompreensão do clérigo ao avaliar a conduta insubordinada e não condizente com princípios de civilidade.

O desenho aquarelado de autoria do alemão Franz Keller computa como mais um dos testemunhos, entre os membros das famosas expedições cientificas, realizadas ao longo do século XIX no Brasil. Ainda que sob uma visão eurocêntrica, etnólogos, naturalistas e artistas revelavam pelas telas e relatos de viagem, preciosos registros sobre a organização das tribos indígenas. Mas, eram através dos documentos administrativos, produzidos pelas ordens missionárias quanto ao empreendimento e organização dos aldeamentos que percebemos os entraves e as formas de resistências dos grupos indígenas para preservação de sua cultura e rendição de suas terras.

(Tatiane Cova)

Na divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional, encontram-se algumas obras referentes ao índio e sua cultura:

ANCHIETA, José de, Santo, 1534-1597. Arte de grammatica da lingoa mais usada na Costa do Brasil. Feito pelo padre Joseph de Anchieta… Em Coimbra [Portugal]: Per Antonio de Mariz, 1595. [2], 58 f.: brasão; 16 cm (4to).

É a primeira gramática missionária portuguesa sobre as línguas indígenas faladas no Brasil que se publicou no século XVI (em língua tupi). Este trabalho, valioso por si só, é extremamente raro.

Entre os romances indianistas, se destaca Iracema: a lenda do Ceará, de José de Alencar e a Confederação dos Tamoyos, de Domingos José Gonçalves de Magalhães.

Com o subtítulo Lenda do Ceará, Iracema é um dos livros mais republicados da literatura brasileira. Sua primeira edição é de 1865 e a segunda, revista, de 1870. Nos cem anos seguintes, serão feitas, só no Brasil, 113 edições, confirmando a percepção de Machado de Assis que, num texto de primeira hora, reconheceu a novidade e importância da obra, afirmando que o futuro a teria por obra-prima. Merecem especial atenção, nesse livro, o trabalho de linguagem centrado na comparação da personagem título com elementos da natureza brasileira, a profusão de notas nas quais se desenvolve uma das ideias centrais do romance: a utilização poética dos nomes indígenas. Notável ainda o fato de a narrativa estar envolvida por uma carta do autor, na qual ele apresenta a obra como parte de um projeto de construção da literatura nacional. Excepcional interesse oferece também o pós-escrito, em que Alencar rebate críticas e discute questões ligadas à elaboração de uma língua literária nacional. (Resumo elaborado por Paulo Franchetti, biblioteca Brasiliana Mindlin). Iracema faz parte da tríade dos romances indianistas, juntamente com O Guarani e Ubirajara.

.“A Confederação dos Tamoyos” é uma obra importante porque, além de seu caráter histórico e de expor um evento pouco abordado na literatura brasileira, revela ainda a importância dos índios na história do Brasil. O livro é rico em descrições sobre os costumes dos índios do século XVI, muitos dos quais em concordância com os relatos expostos na Carta de Pero Vaz de Caminha, como: o uso de penas e pinturas no corpo para ornamento, a igualdade entre os indígenas de uma tribo, a não prática da propriedade privada e o detalhamento das aldeias onde habitavam (Stéfanie Rigamonti Blog. Dica de livro/resenha: A Confederação dos Tamoios – Gonçalves de Magalhães.

Fonte: Biblioteca Nacional

«El arte de curar», un paseo entre libros de medicina de la Biblioteca de la Universidad de Sevilla

Libro del Fondo Antiguo de la Biblioteca de la Universidad de Sevilla
Libro del Fondo Antiguo de la Biblioteca de la Universidad de Sevilla – U. S.

En el patrimonio bibliográfico de la Biblioteca de la Universidad de Sevilla abundan libros de medicina de los siglos XV al XIX que demuestran la importancia que las instituciones educativas y religiosas otorgaban al ejercicio de aquella profesión.

A lo largo de sus cinco siglos de historia la Biblioteca de la Universidad de Sevilla ha ido acogiendo a través de diferentes fórmulas un patrimonio bibliográfico de muy diversas materias. La Biblioteca se ha esforzado en proteger y preservar todo su Fondo Antiguo, pero de igual manera ha buscado las vías oportunas para compartirlo tanto con la comunidad universitaria como con otro tipo de público interesado en los distintos temas.

Por ello, tras un elaborado trabajo de digitalización de algunas de estas obras, estas joyas bibliográficas pueden disfrutarse como exposiciones virtuales en el apartado ExpoBus, que ofrece muestras de libre acceso com es el caso de la exposición «El arte de curar. Libros de Medicina en el Fondo Antiguo de la BUS» .

Estos títulos demuestran la importancia que otorgaban al ejercicio de la profesión. Y no se trata sólo de los grandes textos canónicos, base de la enseñanza que se impartía en la propia Universidad, sino también de los tratados científicos que alumbraron los logros y descubrimientos de la medicina moderna.

Esta exposición arroja luz, la luz de los libros, sobre el largo viaje que la Medicina ha hecho desde la Antigüedad hasta las postrimerías del siglo XIX. Se trata de un viaje histórico, pero la muestra también dedica varios espacios a la evolución particular de la medicina en la ciudad de Sevilla.

Epidemias

Una mirada para comprender el alcance y la repercusión de algunas de las grandes epidemias que a lo largo de la historia diezmaron a nuestra ciudad, y para comprender también el papel que correspondió a los profesionales de la medicina, en la práctica y en la teoría, en la difícil superación de la medicina tradicional y los textos canónicos, largo tiempo tenidos por incuestionables. «El arte de curar» se divide en varios apartados: Medicina Antigua y Medieval; La construcción de la Medicina Moderna; Epidemias; De la sangría a las vacunas; Las instituciones médicas sevillanas o Libros sevillanos de medicina.

Las epidemias por tanto pueden ayudar a comprender mejor un contexto histórico y el devenir de un pueblo, que una épica y gloriosa hazaña de armas.

La lucha contra la enfermedad ha sido una constante en la historia de la humanidad recurriendo a remedios medicinales, generalmente plantas, cuya aplicación era el resultado de la experiencia adquirida.

Títulos

De esta forma se puede disfrutar de varios títulos y exposiciones virtuales, la última de las cuales ha sido «Los desastres de la Guerra, de Francisco de Goya». Otras exposiciones de acceso libre son «Cartografía histórica en la BUS», «Tesoros que guardan tesoros», «Códices Medievales en la BUS2 o «Libros y jardines», que tendremos la ocasión de comprobar en esta serie de entregas de visitas virtuales.

Todas las muestras están disponibles en el apartado que la Biblioteca de la Universidad de Sevilla tiene reservado para ello a través del espacio Expobus.

Fonte: ABCdesevilla

Biblioteca Blanche Knopf, no Recife, amplia digitalização de seu raro acervo de humanidades

Texto por Emannuel Bento

Biblioteca no Edifício Dirceu Pessoa, em Apipucos, após reforma e ampliação. (Foto: Fundaj/Divulgação)

No porão de um chalé centenário na Avenida Rui Barbosa, um pequeno acervo levantado pelo historiador José Antônio Gonsalves de Mello, diretor do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (primeiro nome da Fundação Joaquim Nabuco), dava início a uma das coleções de ciências sociais e humanidades mais ricas do Brasil. A Biblioteca Blanche Knopf, com 65 anos de história e atualmente localizada no campus Apipucos da Fundaj, na Zona Norte do Recife, conta com mais de 130 mil volumes, entre livros, obras raras, fascículos e periódicos. Recentemente, a instituição tem se preparado para intensificar o processo de digitalização dessa coleção, com o objetivo de democratizar e preservar ainda o patrimônio. Parte das obras ser acessadas pode ser acessada pelo link fundaj.gov.br/index.php/biblioteca.

Entre os destaques da Blanche Knopf, é possível encontrar o acervo da revista A Pilhéria, sobre o comportamento recifense na década de 1920, e os álbuns Artístico commercial e industrial do estado de Pernambuco (1925), de Manuel Rodrigues Folgueira, ou Pernambuco e seus arrabaldes (1951), de Gilberto Ferrez. Os visitantes ainda podem conhecer quatro mil cordéis e 340 títulos de histórias em quadrinhos.

Até que um volume considerável seja digitalizado, existe um processo árduo de trabalho realizado por profissionais especializados, além do suporte dos bibliotecários. Hoje, 9 de abril, quando é comemorado o Dia da Biblioteca, vale conhecer o processo e resgatar um pouco da história do equipamento.

Para manusear as obras raras é preciso usar luvas e máscara, disponibilizadas pela equipe. (Foto: Gabriel Melo/Esp. DP)

“As pessoas que visitam a biblioteca podem ter acesso às obras mais antigas usando máscaras e luvas, mas nós estamos pensando há algum tempo que não adianta ter um material excelente se muitas pessoas não têm acesso”, diz Nadja Tenório, coordenadora da Blanche Knopf há cinco anos. “Um novo projeto de digitalização já foi aprovado, mas estamos aguardando o fim da pandemia para dar início, provavelmente em junho. É um trabalho longo pela extensão do material, que precisa ser escaneado sem danificar as obras. É preciso levar em conta o tipo do papel e o ano de produção da obra. Quase como fotografar página a página, frente e verso. Um trabalho demorado, mas necessário.”

A digitalização vai começar pelas obras mais raras, cerca de 15 mil volumes. “Temos como critérios o assunto abordado, tendo em vista os mais pesquisados pelos usuários. As obras que já se encontram em domínio público poderão ser consultadas a partir do site da Fundaj, de qualquer lugar do mundo. Já as que a reprodução é vedada pelos direitos autorais, poderão ser consultadas digitalmente pelos usuários in loco na biblioteca.”

De acordo com a bibliotecária aposentada Lúcia Gaspar, coordenadora da Blanche Knopf entre 1991 a 2002, o equipamento foi uma das primeiras bibliotecas do Brasil a disponibilizar um catálogo online de suas coleções, ainda em 1997. “Aquilo que você tinha escondido no acervo passou a ficar disponível para o mundo todo. Com isso, recebíamos muitos pesquisadores estrangeiros que procuraram pelo livro com o número para pegar na estante. Eles olhavam do país em que estavam e vinham direto na fonte”, diz Gaspar, que recorda também do lançamento da Pesquisa Escolar Online, em 2002. Foi um site de compilações de textos didáticos de temas do Norte e Nordeste, como fatos históricos, folclore e personalidades. Algumas compilações contaram com tradução em espanhol e inglês.

Da trágica enchente à grande coleção

 

Primeiro prédio da Biblioteca, na Avenida Rui Barbosa. (Foto: Fundaj/Divulgação)

Após o início através da coleção de José Antônio Gonsalves de Mello, o acervo começou a crescer quando a Fundação Joaquim Nabuco selou parcerias com organizações estrangeiras, visando aumentar o fluxo de cópias de folhetos e artigos de periódicos. Essa coleção só passou a ser considerada uma biblioteca em 1954, quando se mudou para Casa Forte, na sede do Instituto Joaquim Nabuco. O geógrafo e poeta Mauro Mota, um dos grandes intelectuais do Recife no século 20, assumiu como diretor do espaço. De acordo com um texto informativo da Fundaj, nessa época a biblioteca já recebia a visita de pesquisadores importantes, a exemplo do médico norte-americano Robert Briggs Watson (1903-1978).

Em 1975, uma enchente causada pela cheia do Rio Capibaribe, que marcou a história do Recife, danificou 90% do acervo da biblioteca. Foi esse episódio que estimulou a mudança do equipamento para o bairro de Apipucos, um local mais alto e com menos probabilidade de ser atingido pelas cheias do rio. No ano seguinte, a biblioteca recebeu uma doação generosa do editor norte-americano Alfred A. Knopf, que ficou tocado pela perda. Por isso, o espaço passou a se chamar Blanche Knopf, esposa do intelectual e especialista em edição de livros.

A biblioteca depois da cheia de 1975. (Foto: Fundaj/Divulgação)

Desde então, o acervo cresceu, agregando bibliotecas particulares de Joaquim Nabuco, Mauro Motta, Sylvio Rabello, Mário Souto Maior, Tadeu Rocha, José de Paiva Crespo e, a mais recente, a de Maximiano Campos. Além dos destaques citados no começo da reportagem, ainda existem obras raras como registros originais da Invasão Holandesa, datados do século 17, ou o livro Escrituras de escravos (1880), de Ernesto Augusto da Silva Freire. Por conta da conservação, esses tipos de volumes só podem ser consultados no espaço que, após a normalização do cotidiano, deve continuar preservando a memória de Pernambuco e do Nordeste.

Fonte: Diario de Pernambuco

Epidemias, confinamiento y arte

Las patentes de sanidad acreditaban, ante el puerto de destino, que un barco no tenía contágios

Patente de sanidad emitida el 23-1-1782 por la Junta de Sanidad de Barcelona a favor del bergantín Cristianum et Danielem. A.G.A.

Texto por Antonio Gil Albarracín

Encontrándonos confinados más de una tercera parte de la humanidad a causa de la epidemia del coronavirus que, procedente desde China, gracias a la globalización, se está extendiendo como la pólvora y es probable que aún se tarde en controlar dicha pandemia. Semejante situación resulta novedosa durante el último siglo pero, salvo su acelerada velocidad del contagio en todo el mundo, no es desconocida en el pasado, dando lugar a intentos de aislamiento y cordones sanitarios para aislar territorios amenazados.

En algunos casos la existencia de dichas epidemias dieron lugar a fenómenos literarios de primer orden, de los que el más conocido sería El Decamerón de Giovanni Boccaccio, escrito durante la peste bubónica que asoló Eurasia entre 1347 y 1353, reuniendo los cien relatos narrados por diez jóvenes florentinos confinados en una villa de Fiésole, próxima a Florencia, a la espera de que amainara la morbilidad del contagio.

Patentes de sanidad

Sin embargo, hasta ahora ha pasado inadvertida la existencia de unos documentos denominados patentes de sanidad, que presentan antecedentes medievales. Los mismos habrían de ser emitidos por parte de la Junta de Sanidad del puerto de partida con el fin de presentarlo en el puerto de atraque. La tripulación y viajeros de cualquier embarcación que no dispusiera del mismo quedaba confinada en un lazareto para pasar la cuarentena.

Los avances científicos de la medicina y el morbilidad causada por la peste de Marsella del año 1720 llevaron a los Estados occidentales y sus territorios de soberanía al acuerdo de obligar estrictamente a que cualquier embarcación que llegara a su puertos presentara la patente de sanidad emitida por el puerto de origen, acreditando no sufrir epidemia alguna; dicha obligación permanecería en vigor hasta el siglo XX. En aquellos puertos cuyas autoridades no suscribieron el acuerdo, la patente sería emitida por los consulados de los Estados firmantes. El éxito de dicho acuerdo fue evidente pues el episodio de 1720, que llegó hasta 1722, fue la última epidemia de peste bubónica padecida en territorio europeo.

Las patentes de sanidad son instancias, manuscritas normalmente, que al menos desde el siglo XVII, también aparecen impresas; en las mismas se incluía la declaración de hallarse libre de cualquier contagio el puerto del que se había zarpado.

Adornadas

Algunas de las citadas instancias fueron adornadas con grabados de calidad desigual que incluían el escudo heráldico representativo de la ciudad o del Estado, en muchos de los territorios católicos representaban el santoral que protegía cada población y bastantes ciudades consideraron que era una excelente ocasión para difundir la imagen de la misma representada desde el mar a vista de pájaro o mediante un plano; hecho que ha permitido atesorar en los archivos que custodian dicha documentación una extraordinaria colección de paisajes urbanos fechados entre los siglos XVII y XIX.

Muestra representativa de los mismos son las dos patentes de las que se hace referencia en esta breve noticia.

La patente de Barcelona, obra del grabador Ignacio Valls, fue reiteradamente emitida entre 1730 y 1817.

Patente de sanidad emitida por la Junta de Sanidad de Alicante el 14-2-1821 a favor del laúd San José que zarpaba con destino a Arenys de Mar. A.G.A.

La extraordinaria patente de Alicante encargada a Vicente López Portaña, pintor de Cámara desde 1815, dibujó esta patente hacia 1820, representado la ciudad de Alicante, coronada por el castillo de Santa Bárbara, desde el mar por cuyas aguas navegan, entre otras embarcaciones, un galeón y un imponente Neptuno sobre su carro, en contraposición neoplatónica con la corte celestial que encabeza la patente, presidida por la Santa Faz, a la muestran su devoción los santos Sebastián, Francisco de Paula y Roque.

Tema de enorme interés que he estudiado durante los últimos años; cuando la situación se normalice se colgará una exposición sobre estas patentes, que ya estaba programada de antemano, acompañada de catálogo en el que se tratará extensamente de este interesantísimo tema.

Antonio Gil Albarracín es doctor en Historia. Académico correspondiente de las Reales Academias de Bellas Artes de Nuestra Señora de las Angustias de Granada, de Alfonso X el Sabio de Murcia, y de Bellas Artes de San Fernando de Madrid y de la Historia, también de Madrid.

Fonte: La Voz de Almería

[Storytelling, Livros Raros] Contar histórias em tempos difíceis: acessar o passado durante uma pandemia

Texto por Claire McGuire

Às vezes, parece que estamos vivendo em tempos sem precedentes.

Vivemos em um mundo globalizado que está repleto de problemas globais – instabilidade, conflito e desigualdades que parecem insuperáveis. E agora, uma pandemia que está deixando um rastro de vidas perdidas, desemprego e serviços médicos sobrecarregados, enquanto segue seu curso em todo o mundo.

No entanto, os avanços da tecnologia no mundo de hoje nos permitem conectar de maneiras nunca antes possíveis. Podemos nos conectar um com o outro, e podemos nos conectar com as pessoas do passado. As pessoas que enfrentaram, sofreram e superaram momentos que eles próprios devem ter sentido não tinham precedentes.

Há conforto e sabedoria nessa conexão.

O poder das fontes primárias

Foi o filósofo espanhol George Santayana quem escreveu: “aqueles que não conseguem se lembrar do passado estão condenados a repeti-lo”. Embora tenha se tornado um ditado muito repetido e parafraseado, um aspecto dessa linha tem ressoado comigo ultimamente.

Em nossa era moderna, hiper-visual, somos inundados pela mídia. Falando de maneira geral, e pela minha experiência, as histórias não parecem totalmente reais até vermos evidências visuais delas.

Embora, à primeira vista, os materiais mais antigos possam parecer muito estranhos, abstratos e não relacionados à nossa vida moderna, eles ainda têm um poder muito real. Precisamos dessas fontes primárias. Além disso, precisamos de contar histórias, documentação e manutenção de registros que dê vida a essas fontes.

Uma conexão com o passado pode nos ajudar a entender nossa vulnerabilidade e capacidade de resiliência. Pode nos ajudar a aprender com as lições passadas, apreciar os avanços científicos e tecnológicos que temos agora e desenvolver um senso de solidariedade com a humanidade em geral.

Há consolo em saber que a humanidade superou desafios semelhantes no passado. Há também lições que não devem ser esquecidas.

Lições do passado

Embora a maioria de nós tente, nunca podemos estar verdadeiramente preparados para o que está por vir. Alguns meses atrás, seria difícil acreditar nas mudanças que nossas sociedades e governos estão fazendo em resposta à pandemia do COVID-19.

No entanto, podemos olhar para o passado para fazer previsões para o futuro.

A crise tem sido frequentemente o catalisador da mudança. Por exemplo, a epidemia de gripe que devastou a maior parte do mundo em 1918 também preparou o terreno para a criação de serviços nacionais de saúde na Europa e além.

Infelizmente, a crise também pode desencadear um lado mais feio da humanidade. A Peste Negra, que dizimou populações no  século 14, levou à violência desenfreada e retribuição, tendo como alvo as populações vulneráveis judeus e outros. Com a perspectiva de nossa compreensão moderna de patógenos, podemos considerar o sofrimento causado pela falta de conhecimento como uma lição que não deve ser repetida.

A xenofobia é um resultado de longa data das crises globais. A UNESCO se baseou no exemplo da Peste Negra como um alerta contra reações bruscas que buscariam restringir a conexão no futuro:

Pode ser tentador em tempos incertos, especialmente agora que o mundo está testemunhando a rápida disseminação do COVID-19, concluir que a única maneira de evitar desafios como a disseminação de doenças infecciosas é restringir o movimento e a troca e, de alguma forma, reverter globalização e conexão de diferentes culturas e povos. No entanto, a propagação da praga em um mundo sem aviões, trens e navios de cruzeiro serve como um lembrete de que as doenças podem se mover rapidamente, mesmo sem essas tecnologias.

Podemos acessar o passado para informar melhor a tomada de decisões agora e no futuro. Profissionais dos campos de serviço de informações, arquivo, preservação e conservação e catalogação são necessários para ajudar a descobrir, preservar e interpretar a evidência da fonte primária dessas lições.

Herança de esperança e compreensão

Diante dos muitos desafios prementes que o COVID-19 trouxe, também houve uma notável apreciação e necessidade de cultura – por conexão, entretenimento, inspiração e esperança.

O patrimônio cultural – especialmente os documentos, fotografias, materiais de arquivo e histórias de pessoas que enfrentam pandemias passadas – agora pode ressoar mais do que nunca com o público – possivelmente até mesmo com públicos que não teriam se envolvido prontamente antes.

Poderíamos abordar isso como uma oportunidade de nos envolver com nossas comunidades – conectando-as umas às outras e ao passado através da herança que protegemos e compartilhamos.

O patrimônio cultural pode dar uma perspectiva histórica. Pestilência e guerra há muito tempo abrem as portas para avanços médicos. Mesmo o conhecimento aparentemente simples e óbvio, como a higiene adequada e a lavagem das mãos, foi aprendido através de lições difíceis.

Boletim informativo de arquivo que descreve a higiene adequada
“Auxiliar de saúde voluntário de emergência de Ontário (filial da fronteira). ‘Boletim sobre Influenza ”de ArchivesOfOntario, CC PDM 1.0 https://bit.ly/2xDMrAY

O compartilhamento dessas histórias poderia ajudar as pessoas hoje em dia a entender a importância de levar a sério os conselhos de saúde pública sobre saneamento e higiene? Poderia ajudar a contextualizar nossa vulnerabilidade e, portanto, adicionar peso às iniciativas de saúde pública?

Uma rápida pesquisa on-line de “pandemias passadas” levará a muitas páginas de artigos de blog, reportagens e artigos de interesse humano publicados nas últimas semanas, todos baseados em um interesse aparentemente crescente por histórias de resposta histórica a doenças.

Um ótimo exemplo pode ser encontrado no Center for Disease Control (CDC), nos Estados Unidos. O site mantém um arquivo online de fotografias, cartazes de saúde pública, artigos e histórias de 1918 Flu epidemia e outros emergências de saúde pública do século 20. Eles compartilharam essas imagens nas mídias sociais com a tag #CDCHistory , com considerável envolvimento.

Em resposta ao COVID-19, há claramente interesse pelo contexto histórico entre a população em geral e, portanto, a necessidade de fornecer informações precisas e imparciais.

Esta pode ser uma oportunidade para engajamento?

As bibliotecas mantêm coleções que podem ajudar a sociedade a acessar os valores educacionais, sociais, científicos e artísticos do patrimônio documental e se conectar ao passado durante esse período em que muitos de nós anseiam por conexão.

Fonte: AWBB

Oficina na FESPSP discute o patrimônio bibliográfico na prática

Texto da Comissão de Patrimônio Bibliográfico e Documental do CRB-8

A Biblioteca da Fundação Escola Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP sediou duas oficinas de patrimônio bibliográfico em 13 de março, integrantes da programação da Semana de Biblioteconomia da FESPSP no ano de 2020. A Oficina de Patrimônio Bibliográfico é o resultado da aproximação do Conselho com Faculdades e Escolas de Biblioteconomia num esforço de internalizar junto aos estudantes, corpo docentes e de profissionais da instituição a consciência do valor e importância do patrimônio bibliográfico e documental.

A organização do evento foi conjunta incluindo os bibliotecários da instituição, docentes e os membros da Comissão Temporária de Patrimônio Bibliográfico e Documental do CRB-8. A organização conjunta é um aspecto essencial para a concretização de uma das atribuições da Comissão: “Intensificar, mapear e incentivar o ensino de disciplinas e práticas que busquem abordar o patrimônio histórico, bibliográfico e documental nas Faculdades e Escolas de Biblioteconomia” (Portaria CRB-8 nº 11/2018).

Os fiscais do CRB-8, Ilsom José Lourenço e Ruth Nunes participaram da Oficina da manhã. Sua presença foi muito importante para a aproximação das duas Comissões, seja para conhecimento dos fiscais do trabalho realizado pela Comissão, seja para que os conhecimentos discutidos nas oficinas possam ser utilizados nas visitas e atendimentos, ou ainda para que os fiscais tragam para a Comissão as ações de fiscalização na área de patrimônio bibliográfico e documental.

Cada oficina consistiu de três momentos: iniciando com um momento de apresentação de conceitos e reflexões, passando para o trabalho prático em grupos e finalizando com apresentação de análise dos grupos, comentários de docentes e conselheiras e encerramento. A apresentação teve início com a fala da Profa. Isabel Cristina Ayres da Silva Maringelli, docente da FESPSPP, abrindo a oficina e dando boas-vindas. Na sequência, os bibliotecários da FESPSP fizeram a apresentação da Biblioteca com destaque para o acervo histórico, a bibliotecária Marina Pereira Santos Araújo pela manhã e o bibliotecário Winderson Jesus Gomes à noite. Destaque para trecho do memorial de formação da biblioteca da Fundação, de 1935, referindo-se à aquisição de obras não existentes em outras bibliotecas públicas para aumentar o “patrimônio bibliographico”. Dando continuidade, a conselheira Luciana Napoleone fez uma apresentação do trabalho da Comissão, de conceitos do patrimônio bibliográfico e documental e de aspectos da atuação do profissional, com apoio das conselheiras presentes, Maria da Conceição Gomes Bernardo, Maria Lucia Beffa e Rosaelena Scarpeline. Finalizando o momento de apresentação na parte da manhã, a Profa. Fernanda Brito, docente FESPSP na área de conservação, apresentou documentos da FESPSP que receberam tratamento, discutindo as escolhas técnicas feitas e relacionando com a bibliografia material.

Passou-se ao momento-chave da oficina, o trabalho prático de análise dos livros previamente selecionados e separados pelos bibliotecários, a partir dos conceitos e observações apresentados. Acomodados nas mesas da biblioteca, os participantes receberam alguns dos livros, assim como luvas e máscaras. As conselheiras, docentes e bibliotecários ficaram à disposição dos participantes para perguntas e orientações. Cada grupo foi convidado a apresentar o resultado de sua análise e impressões, comentados pelas professoras, bibliotecários e conselheiras.

As conselheiras observaram uma reação bastante positiva dos participantes nos dois períodos. A Profa. Isabel e a Profa. Fernanda, e os bibliotecários Marina e Winderson foram igualmente receptivos e entusiasmados com a experiência da Oficina desde sua organização. A sinergia entre a proposta da Comissão e o trabalho e interesses da FESPSP foram decisivos para o sucesso das oficinas. E ainda mais traduzem a necessidade de incorporação destes conceitos e práticas na formação e atuação do bibliotecário.

Estava prevista uma sessão solene na Câmara Municipal de São Paulo na segunda-feira seguinte, 16/03, incluindo o painel com a Profa. Maria das Mercês Apóstolo, a conselheira Rosaelena Scarpeline e mediação da Profa. Isabel Ayres. O conteúdo planejado para o painel, comporia a ampliação e aprofundamento das discussões levantadas na Oficina. Infelizmente, em virtude da pandemia do Coronavírus, a cerimônia foi cancelada. Diante do sucesso da iniciativa, a ideia do painel deverá ser retomada de outra forma no momento oportuno.

Mais sobre a Oficina

Semana de Biblioteconomia terá oficina sobre patrimônio bibliográfico

Unicamp inaugura Biblioteca de Obras Raras

Biblioteca da USP homenageia a escritora Clarice Lispector

Por Elaine Patricia Cruz – Repórter da Agência Brasil – São Paulo

Para celebrar o centenário da escritora Clarice Lispector e o mês em que é celebrado o Dia Internacional da Mulher, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da Universidade de São Paulo (USP), vai expor trabalhos de 33 artistas nas quais eles analisam e refletem sobre a obra da escritora. A exposição A Imagem e a Palavra – Encontro com Clarice Lispector começa nesta segunda-feira (9) e ocorre até o dia 30 de abril.

Para a exposição serão apresentadas obras feitas com diversas técnicas, tais como gravuras, desenhos, pinturas, aquarelas, cerâmicas, fotografias e instalações artísticas. A visitação é gratuita. O objetivo é homenagear as mulheres por meio das obras da escritora.

“São produções desafiadoras para o artista visual. Porque envolvem a transformação, em imagens, da palavra de Clarice Lispector, que escreve de uma forma provocativa e que leva à reflexão”, disse Altina Felício, curadora e artista, que assina uma aquarela na exposição.

Clarice Lispector faria 100 anos no dia 10 de dezembro deste ano. Ela morreu um dia antes de completar 57 anos, em 1977, por complicações de um câncer no ovário. Dois meses antes ela lançou A Hora da Estrela, um de seus mais conhecidos romances. Clarice Lispector escreveu ainda A Paixão Segundo G.H., Perto do Coração Selvagem e Laços de Família, entre outros.

Ouça na Rádio MECClarice Lispector: vida e obra no Acervo da Rádio MEC

Fonte: Agência Brasil

Biblioteca de Obras Raras ganha novo prédio

Biblioteca de Obras Raras - novo prédio

A inauguração do prédio da Biblioteca de Obras Raras (BORA) “Fausto Castilho” acontece no dia 9 de março, às 14 horas, na Rua Sérgio Buarque de Holanda 441, no Campus da Unicamp.  Trata-se de uma biblioteca pioneira, projetada e construída com recursos adequados para abrigar e proteger obras raras.

A BORA surgiu de uma necessidade de preservar e reunir as obras raras existentes nas diversas bibliotecas da Universidade, com iniciativas para a conservação e restauro dos materiais em consonância com as instituições de ensino mais modernas do mundo, para que atue como referência no Brasil.

O evento é organizado pelo Cerimonial do Gabinete do Reitor, Sistema de Bibliotecas da Unicamp (SBU) e pela Biblioteca de Obras Raras “Fausto Castilho”.

PODCAST – Em entrevista à Rádio Unicamp, a diretora do Sistema de Bibliotecas (SBU), Valéria Martins, destacou a importância e a raridade das obras que integram esse acervo. Ouça!

Mais informações pelo telefone (19) 3521-6502 ou e-mail rafarg@unicamp.br

Fonte: UNICAMP

Exemplar de livro raro de Isaac Newton é descoberto em biblioteca em Córsega

Um exemplar da primeira edição de um livro de Isaac Newton, na qual ele expõe suas três leis sobre o movimento, que juntamente com a da gravitação universal criaram os fundamentos da física moderna, foi encontrado em uma biblioteca na ilha francesa da Córsega.

Vannina Schirinsky-Schikhmatoff, diretora de conservação da biblioteca pública Fesch em Ajaccio, Córsega, revelou que encontrou uma cópia desta obra do século XVII ao estudar um índice de quem era o fundador da biblioteca, Luciano Bonaparte, um dos irmãos de Napoleão.

“Encontrei este ‘santo graal’ na sala principal (da biblioteca), escondido nas estantes superiores”, contou à AFP.

“A capa está um pouco danificada, mas o interior está em excelentes condições. Trata-se da pedra angular da (aplicação) das matemáticas modernas”, afirmou.

O texto em latim, “Philosophiae Naturalis Principia Mathematica” (Princípios matemáticos da filosofia natural), é a obra-prima publicada pela primeira vez por Newton em 1687.

O célebre físico se inspirou ao ver uma maçã cair de uma árvore de seu jardim em Grantham, Inglaterra, o que o levou a elaborar as leis clássicas da gravidade, do movimento e da ótica.

As traduções para inglês foram publicadas posteriormente, mas as edições originais (“editio princeps”) são particularmente apreciadas pelos colecionadores.

“Um exemplar de uma primeira edição em latim foi vendida por 3,7 milhões de dólares em um leilão realizado pela Christie’s anos atrás, e é a mesma que a da biblioteca de Ajaccio”, afirmou Schirinsky-Schikhmatoff, referindo-se a um leilão em Nova York, em dezembro de 2016.

Não se trata da primeira raridade encontrada na biblioteca Fesch desde o início de uma revisão exaustiva de seu acervo de coleções há alguns anos.

Em 2018, Schirinsky-Schikhmatoff descobriu o estudo “Thesaurum Hyeroglyphicorum” sobre hieróglifos egípcios datado de 1610, cerca de dois séculos antes de o francês Jean-François Champollion decifrar parte da “Pedra de Roseta”

Fonte: Estado de Minas

Formação de Mediadores de Educação para Patrimônio

Conheça o Curso

APRESENTAÇÃO

Segundo a definição do Art. 216 da Constituição da República Federativa do Brasil, o patrimônio cultural brasileiro constitui-se dos “bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: (I) as formas de expressão; (II) os modos de criar, fazer e viver; (III) as criações científicas, artísticas e tecnológicas; (IV) as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; (V) os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.”

O curso Formação de Mediadores de Educação para Patrimônio, em formato modular, modalidade EaD e carga horária de 160 h, é uma ação que visa a descentralização de ações formativas, expandindo para todos os distritos culturais a oferta de formação em cultura, articulando outras instituições e agentes sociais, como OSCs, coletivos, associações, academias, escolas públicas municipais, estimulando ações em espaços e equipamentos públicos. Afinal, esperamos que cada cursista seja provocado a atuar como mediador de educação patrimonial na comunidade/equipamento em que está inserido, contribuindo para que as pessoas ampliem suas possibilidades de inclusão social, por meio do acesso à informação, do diálogo, da fruição dos bens culturais e do seu exercício da cidadania, explorando as possibilidades e o potencial de conscientizar a população sobre os seus principais conceitos e de promover o sentimento de pertença, promovendo oportunidades de reflexão e aprofundamento do conhecimento a partir do seu contexto sociocultural e ambiental de seu entorno.

Período de Inscrições: de 29 janeiro a 3 de maio de 2020.

Mais informaçõeshttps://cursos.fdr.org.br/mod/book/view.php?id=628&chapterid=210&fbclid=IwAR2hU20V_kWWr6GHwpm42uCFh5vy-lwbrwDB4Be_wo34l5CKUEV3kcqCVi0

Revista Memória e Informação torna pública a chamada para publicação no dossiê “patrimônio bibliográfico e documental”

As investigações sobre patrimônio documental e bibliográfico vêm assumido protagonismo cada vez maior no campo acadêmico nacional e internacional. Concomitantemente, em universidades e programas de pós graduação, essa temática tem se apresentado como objeto de pesquisa em número crescente de trabalhos. Essa riqueza de informação se agrega às discussões que alunos e docentes realizam em seminários, palestras e conferências, preocupados com os impactos, as conexões, as contradições e as relações operadas nas diversas e frutíferas abordagens que o debate sobre patrimônio bibliográfico e documental pode suscitar ao campo acadêmico.

A revista Memória e Informação recebe, até 30 de abril de 2020, artigos para o dossiê  especial “Patrimônio Bibliográfico e documental”. O número terá como editor convidado o professor Fabiano Cataldo, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.

O dossiê pretende agregar trabalhos originais de arquivistas, bibliotecários, museólogos, historiadores e acadêmicos em geral sobre Patrimônio Bibliográfico e documental no Brasil, na América Latina e na Europa. Ao reunir pesquisadores e acadêmicos com produção sobre o tema, pretendemos trazer à luz aspectos ainda silenciados nesse campo. Aqui destacamos a predominância de uma confusa discussão conceitual que atinge não somente o campo empírico mas, sobretudo, a área de gestão de acervos.  Além disso, as discussões, muitas vezes privilegiam como campo de análise os acervos históricos e antigos, acarretando sérios problemas de silenciamento e apagamento da memória local, bem como problemas relacionados à gestão de coleções contemporâneas.

Nessa próxima edição, o objetivo é  encorajar enfoques que abordem paralelos entre educação patrimonial; bibliotecas e arquivos; patrimônio bibliográfico e documental em tempos de crise; revisão de literatura; relação com a conservação preventiva; patrimônio bibliográfico e documental no âmbito da Agenda 2030; relação com acervos dos séculos XX e XXI; patrimônio bibliográfico em bibliotecas universitárias, especializadas e públicas; e, inserção desse conteúdo nos currículos de cursos como Biblioteconomia, Arquivologia e Museologia, por exemplo. Os estudos de caso só serão aceitos se acompanhados de abordagem teórica que demonstre o caminho das ações. Na seção Documentos, a prioridade será dada àqueles que justificadamente enquadram-se nas categorias de “Patrimônio Bibliográfico” ou “Patrimônio Documental” e que estejam digitalizados e de acesso público.

Sobre a Revista Memória e Informação

A revista Memória e Informação é uma publicação científica interdisciplinar, da área de Ciência da Informação, com a missão de contribuir para a divulgação de pesquisas inéditas, análises teóricas, casos práticos de gestão e notas técnicas que possibilitem subsidiar a reflexão acadêmica e a prática profissional sobre iniciativas sustentáveis em organizações privadas, públicas e da sociedade civil.

O artigo deverá ser original e não ter sido publicado anteriormente nem estar sendo considerado para publicação em outra publicação. Para mais detalhes sobre as regras de submissão da revista, favor consultar as Instruções aos Autores. Os artigos deverão ser enviados pelo ScholarOne.

Para mais informações, envie uma mensagem para: revistamemoriaeinformacao@rb.gov.br

Editores: Ana Lígia Medeiros, Daniela Sophia e Fabiano Cataldo

Prazo de submissão de artigo: até o dia 30 de abril de 2020

Publicação: junho de 2020.

Fonte: Fundação Casa Rui Barbosa

Old Book Illustrations, un sitio web cargado de ilustraciones en dominio público presentes en libros antiguos

Alice's adventures in Wonderland by Peter Newell

Old Book Illustrations, un sitio web cargado de ilustraciones en dominio público presentes en libros antiguos

Hay ilustraciones en los libros que se pueden considerar como auténticas obras de arte. Ilustraciones que acompañan y deleitan a las personas lectoras en el transcurso de la historia. Imágenes que ayudan y guían al intelecto en la formación de una imagen visual del texto que se va leyendo. Es verdad que hay imágenes e imágenes. Que no todas cumplen con esa exquisitez artística que un amante de las ilustraciones espera encontrar. Pero si eres de esas personas exigentes en cuanto a las imágenes que ilustran los libros no te puedes perder el sitio web Old Book Illustrations.

Old Book Illustrations nació del deseo de compartir ilustraciones de una modesta colección de libros, que nos propusimos escanear y publicar. Con la gran cantidad de recursos disponibles en línea, se hizo cada vez más difícil resistir la tentación de explorar otras colecciones e incluir estas imágenes junto con las nuestras. Aunque hubiera sido posible ampliar considerablemente el marco temporal de nuestra búsqueda, optamos por mantener nuestro enfoque en el período original en el que comenzamos por razones de gusto, coherencia y sentido práctico.

Comentar que las restricciones legales han hecho que únicamente se publiquen y difundan ilustraciones presentes en libros de dominio público. Tal y como señalan, esto explica por qué en su base de datos no hay ilustraciones publicadas por primera vez antes del siglo XVIII o después del primer cuarto del siglo XX.

Esperamos ser un destino de elección para los visitantes más interesados en las ilustraciones románticas victorianas y francesas. Entendemos el romanticismo francés en su sentido más amplio y trazamos su línea final, al menos en el ámbito de la ilustración de libros, a la muerte de Gustave Doré.

The Plague of Darkness - Gustave Doré
The Plague of Darkness – Gustave Doré

En la actualidad Old Book Illustrations tiene cerca de 4.000 ilustraciones, las cuales pueden buscarse a través de su buscador inicial o del buscador avanzado. Entre ellas se pueden encontrar trabajos de Gustave Doré, considerado como uno de los más famosos ilustradores del siglo XIX, y de Peter Newell, ilustrador del clásico Las aventuras de Alicia en el país de las maravillas de Lewis Carroll. También se puede buscar por artistas, grabadores, formatos, editores, temáticas, técnicas y títulos. Además de las ilustraciones también hay en dicho sitio web artículos que hablan tanto de los autores de las ilustraciones como de los libros en las que están presentes.

Nos esforzaremos por añadir regularmente artículos, ya sea biografías o piezas cortas sobre libros y el contexto cultural en el que fueron publicados. Escogeremos estos textos lo más cerca posible del tema, para conservar lo que podamos del sabor y la sensibilidad de una época.

Las imágenes presentes en Old Book Illustrations han sido restauradas con la finalidad de buscar la impresión perfecta buscada por el artista. Aun así, y para aquellos internautas que prefieren experimentar las imperfecciones de las tecnologías de impresión de antaño o los estragos del tiempo inalterados, las imágenes también pueden visualizarse y descargarse tal y como se encuentran en la actualidad a través de los archivos raw scan.

The editions of Caxton and Wynkyn de Worde were his delight - Cecil Aldin
The editions of Caxton and Wynkyn de Worde were his delight – Cecil Aldin

Oratórios e documentos raros contam a história do Brasil colonial

Exposição será inaugurada nesta quarta-feira, dia 12, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP

Texto por Claudia Costa

Um conjunto de oratórios barrocos proveniente da Coleção Casagrande, ao lado de itens raros do acervo textual e iconográfico da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP, estão na mostra Oratórios Brasileiros em Textos e Imagens, que será inaugurada nesta quarta-feira, dia 12 de fevereiro, na BBM. Com curadoria da pesquisadora Silveli Maria de Toledo Russo, a mostra parte da sua pesquisa na BBM sobre documentos de repertório religioso, e se completa com os 44 oratórios dos séculos 17 e 18 reunidos ao longo de mais de 30 anos pelo colecionador e juiz paulistano Ary Casagrande Filho, para contar a história do cotidiano rural e urbano da sociedade colonial brasileira…

Os oratórios revelam aspectos marcantes da sociedade colonial brasileira – Fotomontagem Jornal da USP…..

Mais do que simples objetos de devoção, os oratórios se tornaram parte relevante da tradição brasileira e item fundamental para o estudo da história do País, em especial do período colonial. Trazidos pelos colonizadores portugueses, ganharam nas mãos de artesãos diversas formas e adereços e foram se espalhando pelas fazendas, senzalas e residências através dos séculos. “Na época, com distâncias muito grandes e um pequeno número de padres, a presença dos oratórios em moradias ou espaços públicos acabava fazendo o papel de uma pequena capela”, explica Silveli, que é doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura de Urbanismo (FAU) da USP e pesquisadora residente da BBM.

Frontispício e fólio de rosto do Compromisso da Irmandade de N. S. do Rozario de S. Joze da Barra, 1760, São José da Barra, Capitania das Minas do Ouro – Acervo Digital da BBM-USP – PRCEU-USP.
Jean Baptiste Debret (1768-1848). Paris: Firmin Didot Frères, 1839 – Acervo de Manuscritos da BBM-USP.
Sermão de Nossa Senhora do Socorro, Rio de Janeiro, 1788 – Acervo de Livros Impressos da BBM-USP

Entre os documentos expostos estão manuscritos setecentistas e oitocentistas da Igreja – como os compromissos de irmandades religiosas, que apresentam capitulares ricos em ornamentações, com destaque para o estatuto da Irmandade Nossa Senhora do Rosário dos Pretos da Freguesia de São José da Barra Longa, em Mariana (MG), além de narrativas textuais e iconográficas produzidas por memorialistas estrangeiros estabelecidos no Brasil. É o caso do viajante francês Jean-Baptiste Debret, que produziu diversos desenhos ao longo de sua permanência no Brasil, entre 1816 e 1831, que serviram de inspiração para as gravuras/litografias de Thierry Frères, em 1839. A mostra ainda traz obras literárias que retratam a religiosidade, caso de Senhora e A Viuvinha, de José de Alencar.

Cenas religiosas

Silveli cita, entre outros textos, o do jesuíta austríaco Antônio Sepp von Rechegg (1655-1733), que em seu livro Viagem às Missões Jesuíticas e Trabalhos Apostólicos, escrito no final do século 17 e o início do século 18, informa que nos procedimentos de instalação de uma nova redução havia habitualmente a presença de oratórios “portáteis”, que acolhiam imagens religiosas de pequeno e médio porte. A curadora destaca ainda o desenhista alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858), que relata em Viagem Pitoresca através do Brasil (1825-1830) os costumes dos habitantes do País: “Com o objetivo de estender as celebrações da Igreja às fazendas mais distantes, bem como aos escravos que nelas habitam, há padres que, em certas épocas do ano, percorrem o País, carregando um pequeno altar, que colocam no lombo do cavalo ou da besta”, descreve o autor alemão. Segundo Silveli, Rugendas se refere aqui ao oratório consagrado para ser utilizado como altar, que deve, obrigatoriamente, incluir a Pedra d’Ara, uma peça, que, normalmente feita em mármore, é utilizada para guardar relíquias de santos.

Oratório de salão (madeira recortada, entalhada e policromada), Minas Gerais, século 18. Imagem: Santo Antonio (madeira), 31 centímetros, século 18 – Coleção Casagrande.
Oratório de viagem (madeira recortada, entalhada, policromada e dourada), Minas Gerais, século 18, 22 centímetros de altura, 7,5 centímetros de diâmetro – Coleção Casagrande.
Oratório – lapinha (madeira recortada, entalhada, policromada e dourada), Minas Gerais, século 18. Imagens: Jesus Menino, Nossa Senhora, São José, Pastor, Nossa Senhora da Conceição, São João Evangelista, São Paulo, São José de Botas e Cristo Crucificado. Pinturas com iconografia de São João Evangelista, São Marcos, São Mateus e São Lucas – Coleção Casagrande.

Para ilustrar a vida religiosa típica do Brasil colonial, estão expostos dois tipos de oratórios devocionais: os domésticos, ou seja, aqueles utilizados no ambiente residencial (nos espaços comuns, salão e dormitório), e outros de caráter provisório e eventual, usados em expedições – por terra ou marítimas. Ainda na categoria itinerante, há os oratórios de esmoler que, circunscritos ao espaço urbano, eram destinados a arrecadar recursos para a construção de templos para associações religiosas ou mesmo prestar auxílio aos que necessitavam da caridade alheia. O colecionador Ary Casagrande Filho destaca um oratório de viagem do século 17, um dos mais antigos e raros de sua coleção, e um oratório de alcova com imagem de Santo Antônio, atribuído a Aleijadinho, além das chamadas lapinhas, com cenas de nascimento e morte de Cristo.

A pesquisadora Silveli Maria de Toledo Russo e o colecionador Ary Casagrande Filho: exposição relata o cotidiano rural e urbano da sociedade colonial brasileira – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Segundo a curadora, “os oratórios representam a expressão de fé ao agregarem os fiéis devotos para as práticas da oração e meditação, com um singular repertório de imagens religiosas, em esculturas e pintura, corroborando o entendimento do universo simbólico da vida cotidiana e dos costumes no interior das moradias na sociedade colonial brasileira”. Para ela, a exposição aproxima os visitantes das práticas religiosas e da devoção católica na sociedade colonial e abre espaço para uma profícua troca de ideias no domínio do patrimônio bibliográfico, do intercâmbio artístico e da interlocução patrimonial de objetos de cunho devocional. 

A exposição Oratórios Brasileiros em Textos e Imagens será inaugurada nesta quarta-feira, dia 12 de fevereiro, às 17 horas, e ficará em cartaz até 28 de abril, de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 18h30, na Sala Multiuso da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP (Rua da Biblioteca, 21, Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 2648-0310 e no site da biblioteca

Fonte: Jornal da USP

Biblioteca Brasiliana cria plataforma virtual Atlas dos Viajantes do Brasil

Projeto desenvolvido na Universidade de São Paulo facilita acesso a relatos de viagens de séculos passados

Seleção de viajantes buscou cobrir uma ampla área do território brasileiro. Reprodução

Texto por Joice Santos

Escolha um viajante.” Assim começa o convite para um passeio na interface da plataforma interativa Atlas dos Viajantes no Brasil, um projeto que abarca uma coleção histórica disponível na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da Universidade de São Paulo (USP). As viagens abrangem do Uruguai à Guiana Francesa, da costa nordestina do Brasil aos confins da Amazônia. Sobre a capital paulista, há descrições surpreendentes para os dias de hoje como esta do comerciante e mineralogista britânico John Mawe (1764-1829), datadas de outubro de 1807: “São Paulo, situada num agradável planalto, com cerca de duas milhas de extensão, é banhada, na base, por dois riachos, que, na estação das chuvas, a transformam em ilha; ligando-se ao planalto por um caminho estreito. Os riachos desembocam em largo e belo rio, o Tietê, que atravessa a cidade, numa milha de extensão, tomando a direção sudoeste”.

O Atlas dos Viajantes no Brasil foi apresentado ao público em um evento na Brasiliana em 13 de novembro por João Cardoso, curador da biblioteca, e pelo geógrafo Ian Rebelo Chaves, responsável pela elaboração dos mapas. Na ocasião, o público pode interagir com a plataforma e aprender sobre os viajantes incluídos. Segundo o curador, eles levaram em conta a diversidade em termos de nacionalidade, áreas visitadas e foco de interesse, entre outros aspectos, para definir os primeiros sete viajantes a figurar no atlas.

Em poucos cliques, na plataforma, surge o traçado percorrido pelos navegantes, entre brasileiros e estrangeiros. As narrativas estão presentes em livros, álbuns, atlas e manuscritos. Por meio deles, é possível conhecer aspectos da economia, da sociedade, da natureza e da política de séculos passados. O cotidiano da população, a rotina dos escravos, a maneira como nativos pescavam e a destreza ao se embrenhar na mata são detalhes reproduzidos nos textos selecionados do atlas.

O material produzido pelos viajantes foi selecionado e organizado de acordo com assuntos e temas pelo grupo de Cardoso. Em seguida, as informações foram usadas por Chaves para obter a localização citada por eles com base nos dados geográficos presente nos relatos. Essa parte foi importante para criar as narrativas cartográficas do caminho percorrido. Por último, desenvolveu-se mecanismos de visualização, busca, filtragem e comparação dos conteúdos.

A maioria dos trajetos passou por São Paulo Reprodução

Os viajantes

O acervo da Brasiliana tem relatos de viajantes desde o século XVI. Os primeiros selecionados – cujas narrativa se situam nos séculos XVIII e XIX – foram os naturalistas alemães Johann Baptist von Spix (1781-1826) e Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868), o missionário metodista norte-americano Daniel Parish Kidder (1815-1891), o médico e explorador alemão Robert Christian Barthold Avé-Lallemant (1812-1884), o ouvidor e intendente-geral português Francisco Xavier Ribeiro Sampaio (1741-1812/14), o explorador e cientista francês Charles-Marie de la Condamine (1701-1774) e John Mawe, citado no início desta reportagem.

A formação e os interesses de cada um dos viajantes tiveram impacto na forma como decidiram explorar o Brasil. “Avé-Lallemant queria conhecer as colônias alemãs no sul do país”, explica o geógrafo. Chaves contou ainda que os naturalistas Spix e Martius fizeram o trajeto mais longo, por isso especialmente interessante. Esses elementos e peculiaridades fazem parte de 1.200 obras do acervo da Brasiliana que foram pesquisadas e serviram de fonte.

O curador João Cardoso destaca que a iniciativa visou unificar e divulgar o acesso ao acervo da biblioteca. Com isso, imaginou propor essa nova experiência para os pesquisadores, professores e interessados na história e na geografia brasileiras. O projeto surgiu em 2017 e ganhou corpo com a participação de Chaves, que passou a integrar a equipe em 2018.

Para dar continuidade ao projeto, o geógrafo ressalta que será necessário apoio financeiro e a colaboração de especialistas com o aporte de ideias e a sugestão de rumos que ampliem o acesso ao material histórico da biblioteca. “Tivemos nessa primeira fase o financiamento da USP e do BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social]”, conta Chaves. A parte de programação da plataforma é feita por uma empresa terceirizada.

O Atlas dos Viajantes do Brasil pode ser consultado no site da Brasiliana. Também está disponível um tutorial para uso da plataforma. Com um vasto acervo de livros e manuscritos, a biblioteca reúne o acervo doado pelo bibliófilo José Mindlin (1914-2010) e sua mulher Guita (1916-2006), que se especializou em restaurar livros. A Brasiliana foi criada em 2005 e é aberta ao público desde 2013, no campus da USP, na Cidade Universitária, em São Paulo.

A maioria dos trajetos passou por São Paulo Reprodução

Trechos de relatos de três viajantes sobre São Paulo no século XIX

John Mawe, comerciante e mineralogista britânico, em outubro de 1807

Viagens ao interior do Brasil

“São Paulo, situada num agradável planalto, com cerca de duas milhas de extensão, é banhada, na base, por dois riachos, que, na estação das chuvas, a transformam em ilha; ligando-se ao planalto por um caminho estreito. Os riachos desembocam em largo e belo rio, o Tietê, que atravessa a cidade, numa milha de extensão, tomando a direção sudoeste. Sobre ele existem várias pontes, algumas de pedra, outras de madeira, construídas pelo último governador. As ruas de São Paulo, devido à sua altitude (cerca de cinquenta pés acima da planície), e à água, que quase a circunda, são, em geral, extraordinariamente limpas; pavimentadas com grés, cimentado com óxido de ferro, contendo grandes seixos de quartzo redondo, aproximando-se do conglomerado. Este pavimento é uma formação de aluvião, contendo ouro, de que se encontram muitas partículas em fendas e buracos, depois das chuvas pesadas, quando são diligentemente procuradas pelos pobres. (…)

(…) As moléstias endêmicas não se alastram mais aqui. A varíola, a princípio, e mesmo mais tarde, dizimou grande parte da população, mas seu progresso foi dominado pela introdução da vacina. Os médicos atendiam num grande hall, pertencente ao governador, onde ficavam à disposição do público, sendo a vacinação gratuita. Espera-se que a fé nesse preventivo se difunda pelo povo, incompetente para discutir méritos da controvérsia que tanto prejudicou o emprego da vacina na Europa. (…)”

Daniel Kidder, missionário norte-americano, sobre o bairro do Ipiranga, em 1839 Reminiscências de viagens e permanências nas províncias do Brasil

Chegou finalmente o dia em que tínhamos de deixar São Paulo em companhia de diversos outros viajantes. Partimos à noite, com a intenção de pernoitar em São Bernardo. Distanciados dos companheiros, fizemos uma rápida digressão para tocar na fazenda de D. Gertrudes, no Ipiranga. Essa propriedade era uma das mais ricas e produtivas dessa senhora. Produzia pêssegos, maçãs e outras frutas comuns ao país, que, cultivadas tão perto da cidade, eram facilmente vendidas. Fabricavam também aí grande quantidade de garapa, o suco da cana de açúcar, simples, e em estado de fermentação parcial. Essa bebida é muito apreciada e usada nesta região do Brasil. Veem-se constantemente pelas ruas, mulheres com grandes potes de barro na cabeça, ou ao lado, quando sentadas, vendendo garapa. Apesar da notoriedade e produtividade dessa fazenda suas construções eram rústicas e as culturas estavam em completo desleixo, tal como nenhum português, feitor de escravos, toleraria.”

Robert Avé-Lallemant, médico alemão, em setembro de 1858

Viagem pelas províncias de Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo

Cheguei a São Paulo ao meio-dia. Com um bom animal pode-se fazer comodamente o percurso de Santos a São Paulo num dia e até muito facilmente, trocando-se a cavalgadura em casa do senhor Melo, no Rio Grande. Com a troca do animal pode-se concluir muito bem a pequena viagem em dez horas.”

(…) Algumas ruas, um ou outro bairro bonitos e às vezes até magníficos; em alguns lugares, fileiras de casas assobradadas e, além disso, bom empedramento com calçadas, mas em geral ruas estreitas e a cidade absolutamente irregular.

As igrejas que vi são bonitas, algumas ornadas, no entanto nenhuma me causou grande impressão. A Faculdade de Direito dá uma boa impressão e parece-me o mais notável de todos os edifícios da cidade. (…)”

Fonte: Revista Pesquisa FAPESP

BREVE HISTORIA DEL LIBRO COMO SÍMBOLO DE REFINAMIENTO (Y OSTENTACIÓN) CULTURAL

Los bibliófilos, por Tito Lessi

Desde el momento en que nacieron los primeros sistemas de escritura en Egipto, Mesopotamia y China en torno al cuarto milenio a.C., la lectura empezó a considerarse como algo extraordinario. Las tablillas de arcilla en las que se inscribían las marcas y signos se consideraban objetos únicos, valiosísimos y, en ocasiones, sagrados o mágicos. La capacidad para descifrar e interpretar los signos y símbolos que había en ellas era prácticamente un don que estaba reservado a unos pocos elegidos. Curiosamente, esa importancia simbólica de la lectura se ha mantenido a lo largo de la historia y aún hoy en día muchos lectores siguen acercándose a los textos escritos en busca de refugio espiritual. Durante muchos siglos la lectura ha sido una señal de estatus cultural y social que tenía su expresión más elevada en el amor incurable y desmesurado por los libros.

El elitismo cultural está presente en los libros prácticamente desde su orígenes. En la antigua Mesopotamia solo un pequeño grupo de privilegiados escribas tenía el conocimiento necesario para descifrar las tablillas cuneiformes. El acceso a ese conocimiento era protegido celosamente por los propios escribas, conscientes de que esa autoridad cultural les otorgaba un tremendo prestigio. Es esa la primera vez en la historia que nos encontramos a la lectura vinculada a a un estatus y un poder simbólicos.

En Roma, desde el siglo II a.C., volvemos a encontrar los libros asociados al prestigio cultural al ser convertidos en artículos de lujo que solo los más adinerados podían costearse. No deja de ser sorprendente que el mismísimo Séneca, en el siglo I d.C., criticara la actitud de las personas que «sin educación escolar usan los libros no como herramientas de estudio sino como decoraciones para el comedor». Además de arremeter contra los extravagantes coleccionistas de pergaminos afirmando que las bibliotecas, atestadas hasta el techo, se habían convertido en «un ornamento esencial de una casa rica», el filósofo cordobés fue muy crítico con las lecturas públicas ‒recitatio‒ que se pusieron muy de moda en la época al considerarlas pura ostentación cultural para la promoción política y el lucimiento social de los ciudadanos ricos. Y no fue el único que censuró esta costumbre. Algunos de los más importantes escritores satíricos, como Horacio, Petronio, Juvenal o Marcial, también lo hicieron.

Filobiblión

Tras la caída del Imperio Romano en el siglo V, las bibliotecas privadas se convirtieron en el símbolo máximo de elegancia, sofisticación y refinamiento. Para reafirmar su superioridad social, muchos nobles invirtieron importantes esfuerzos durante la Edad Media para poseer una. La máxima referencia en esta época es el monje benedictino y obispo de Durham Richard de Bury, considerado uno de los primeros coleccionistas de libros de la historia. Para transmitir su amor por los libros a los clérigos Bury escribió el Filobiblión, el documento bibliófilo más importante de la Edad Media. Bury presentaba en pleno siglo XIV los síntomas propios del bibliómano: el acaparamiento excesivo y desorbitado de libros. En el Filobiblión habla de esa obsesión acaparadora y de sus esfuerzos para establecer la bibiloteca de Oxford. El monje tenía tantos libros que era imposible entrar en sus aposentos sin pisarlos. En el prólogo del Filobiblión Bury admite que su exaltado amor por los libros le llevó a abandonar todas las cosas terrenales. Pero además de una especie de defensa de su ambicioso apetito coleccionista, el Filobiblión incluye valiosos detalles para bibliotecarios sobre cómo prestar y cuidar los libros.

Bibliófilo en La nave de los locos

Es como si Bury intuyera las críticas que podían derivar de su pasión. Y de hecho las hubo. El humanista alsaciado Sebastian Brant recoge al bibliófilo como uno de los 112 tipos de tontos que pueblan su sátira La nave de los locos. Pero aunque el libro de Brant fue todo un éxito, resultó insuficiente para poner freno al cada vez más extendido amor por los libros. A partir del Renacimiento, gracias al desarrollo del comercio, el estatus económico deja de identificarse con la nobleza de la sangre y los libros no son ya tanto un signo de distinción social como del dinero que se posee. Esto, unido a la aparición de la imprenta, hace que los libros se conviertan en objetos más extendidos y la lectura en una actividad más habitual. Los libros no son ya ese elemento misterioso al que tienen acceso unos pocos privilegiados sino una forma de conocer el mundo y de conocerse a sí mismo. La vinculación espiritual, por tanto, se mantiene, aunque en otro sentido.

Ese componente inmaterial es lo que muchos pintores tratan de plasmar durante el siglo XVI. En el Renacimiento se ponen de moda los cuadros sobre libros y los retratos de personas leyendo. Un ejemplo es el retrato que Agnolo Bronzino hace de Dante, sosteniendo una enorme edición abierta del Paradiso. El libro dice muchísimo de Dante: el poeta aparece con ese estatus asociado acestralmente a la lectura, como un ser lleno de madurez espiritual, culturalmente superior.

Dante por Agnolo Bronzino

Desde el siglo XVIII la lectura pierde casi por completo su condición elitista y se extiende al conjunto de la población. Los antiguos intelectuales, temerosos de perder su exclusividad, tienden a referirse a sí mismos como «hombres de letras». Es también el momento en el que la bibliofilia se convierte más que nunca en una obsesión malsana, en bibliomanía, considerada una enfermedad en el siglo XIX. Aparece la figura del coleccionista dispuesto a invertir toda su vida y su fortuna en construir la biblioteca personal más espectacular. Como Thomas Phillipps, que consiguió recopilar una colección personal de 40.000 libros impresos y unos 60.000 manuscritos, la colección más grande de todo el siglo XIX. Para ello tuvo que invertir una cantidad de dinero de entre doscientas mil libras y un cuarto de millón, con un gasto medio de cuatro o cinco mil libras al año, lo que le llevó a él y a su familia a la ruina. Ya lo dijo el propio Phillipps en alguna ocasión, quería tener una copia de todos los libros del mundo. O el caso de Richard Heber, que poseía ocho casas en las que guardaba más de 146.000 libros raros, una colección en la que gastó una fortuna de unas 100.000 libras. Los libros son, a partir de ese momento, una forma de elitismo económico más que cultural.

Los bibliófilos, por Luis Jimenez y Aranda

Por otra parte, desde el momento en que ya todo el mundo puede leer, la única forma de distinguirse es diferenciar una buena lectura de una mala. Esa es la opinión que encontramos, ya en el siglo XX, en Virginia Woolf, que en El lector común describe al lector medio como alguien «apresurado, inexacto y superficial», peor educado que el crítico y con una serie de deficiencias «demasiado obvias para ser señaladas». También lo hace Vladímir Nabokov en Lecciones de Literatura Europeacomo recuerda Ivan Thays. Esta idea, curiosamente, ha llegado hasta nuestros días. No es extraño encontrar a críticos literarios que distingan entre la alta literatura y la de masas, adjudicándole un valor cultural desigual a cada una de ellas. De esta manera, el sentimiento elitista de superioridad cultural consigue mantenerse intacto a pesar de que la lectura se haya convertido en una actividad habitual en buena parte del mundo.

El bibiófilo, por Johann Hamza

Con la aparición de los libros digitales el significado de la lectura ha cambiado. El clásico enfrentamiento entre los libros impresos y los electrónicos esconde detrás mucha más simbología de lo que parece. La lectura digital, ya sea a través de ordenadores, de tabletas, de smartphones, o incluso de ebooks, parece estar presente en todas partes. Y volviendo a la distinción que hacía Woolf, tiende a asociarse con la peor de las lecturas posibles, la menos profunda, la más rápida y superficial, una idea defendida y aplaudida por infinidad de autores, como Nicholas Carr, por señalar solo uno de ellos. Se da entonces un hecho singular: gracias a la tecnología digital los libros físicos han vuelto a recuperar su estatus de distinción y refinamiento cultural. Como en el retrato de Dante, las personas consiguen construir su identidad a través del soporte en el que leen. Por una parte los libros impresos conectan con una tradición que tiene milenios y por otra permiten hacer una ostentación de la lectura que con los soportes digitales no es posible. Eso explica que muchas de las primeras ediciones del siglo XX han doblado su precio en muy poco tiempo. No es lo mismo ver en el parque a un adolescente leyendo un libro impreso que verlo leyendo en la pantalla de su móvil. Un padre que lee a su hijo en el transporte público está poniendo de manifiesto al mundo su superioridad cultural al transmitir de forma evidente a otro ser humano su amor por los libros.

No estamos muy lejos de lo que criticaba Séneca: las bibliotecas privadas siguen siendo símbolos de ostentación cultural. Con muchísimo acierto y humor el dibujante Jeffery Koterba consigue plasmas esta realidad. El clásico intelectual de fachada aparece sentado con su clásica pipa de fumar ante su biblioteca, ahora compuesta únicamente por libros digitales. Un lector que intuimos común, siguiendo la terminología de Virginia Woolf, se sorprende y afirma: «Kindle, Nook, Sony Reader… Creo, Hardwick, que esta es una biblioteca impresionante».

Viñeta de Jeff Koterba

Fonte: La piedra de Sísifo

Foi o primeiro jornal português. E ajudou D. João IV a consolidar o poder em 1640

O primeiro número da “Gazeta em Que Se Relatam as Novas Que Houve Nesta e Que vieram de Várias Partes” – que haveria de ficar conhecida como Gazeta da Restauração – foi publicado em novembro de 1641 e posto a circular a 3 de dezembro do mesmo ano. Tinha 12 páginas GAZETA DA RESTAURAÇÃO / BNP

O primeiro jornal português nasceu um ano depois de Portugal recuperar a independência, a 1 de Dezembro de 1640. A Gazeta da Restauração foi acarinhada por D. João IV e seus apoiantes que viram neste periódico “um excelente instrumento de propaganda” de legitimação do novo poder e uma forma de denegrir os feitos dos espanhóis. Há 375 anos, as relações entre o poder político e o jornalismo já davam que pensar

Texto Manuela Goucha Soares

D.João IV gostava da simplicidade do Alentejo e teria pouca paciência para os enfeites e fausto que os rituais das cortes barrocas exigiam. A política tem as suas regras, e o trineto de D. Manuel I que nascera destinado a ser o oitavo Duque de Bragança acabaria persuadido a juntar-se ao grupo de revoltosos que, em 1640, quis acabar com o poder de Filipe IV de Espanha (III de Portugal) e a política centralizada do seu valido Conde-Duque de Olivares.

Viviam-se tempos complicados em todos os reinos do velho continente. Desde o primeiro quartel do século XVII que o clima político favorecia o despertar da imprensa, e as gazetas “multiplicam-se por toda a Europa”, como escreve José Tengarrinha na “Nova História da Imprensa Portuguesa”: Primeiro surgiu a de Basileia em 1610, depois a de Frankfurt e Viena em 1615, Hamburgo em 1616, Berlim em 1617, Praga em 1619, Amesterdão em 1620, Londres em 1622. Anos mais tarde é a vez de chegarem a Florença e Roma.

D. João, o quarto de Portugal, foi entronizado a 15 de dezembro de 1640. E usou um fato que já tinha vestido um ano antes, facto que muito desconcerto causou entre os nobres
D. João, o quarto de Portugal, foi entronizado a 15 de dezembro de 1640. E usou um fato que já tinha vestido um ano antes, facto que muito desconcerto causou entre os nobres D.R.

Uma das mais importantes e que mais terá influenciado a génese da patriótica Gazeta da Restauração, foi a “Gazette de France”, que surgiu em 1631, com o alto patrocínio do Cardeal Richelieu, o todo poderoso primeiro-ministro de Luís XIII.

Menos de um ano depois de ser aclamado rei em Lisboa por um grupo de 71 portugueses, El-Rei D. João, o quarto de Portugal, fez saber que concedia “alvará” de publicação a Manuel de Galhegos, “impressor, livreiro” para editar ,“imprimir” e “vender em todos estes reinos e senhorios as Gazetas das novas deste Reino”. Este primeiro periódico português de publicação regular, haveria de ficar conhecido por Gazeta da Restauração. O alvará régio foi concedido a “14 de Novembro de 1641”, como se lê num livro de Jorge Pedro de Sousa, investigador e professor da Universidade Fernando Pessoa.

Segundo número da Gazeta da Restauração foi impresso em dezembro de 1641 e entrou em circulação a 11 de janeiro do ano seguinte. Tinha mais 4 páginas do que o primeiro e número e custava mais 4 réis, ou seja 10 réis, em vez de 6
Segundo número da Gazeta da Restauração foi impresso em dezembro de 1641 e entrou em circulação a 11 de janeiro do ano seguinte. Tinha mais 4 páginas do que o primeiro e número e custava mais 4 réis, ou seja 10 réis, em vez de 6. GAZETA DA RESTAURAÇÃO / BNP

Ao Expresso, Sousa diz que “muitas notícias da Gazeta portuguesa, à semelhança das notícias da Gazette francesa, que lhe serviu de modelo, apresentavam enquadramentos que se podem considerar propagandísticos”

O poder régio era constantemente engrandecido e a pessoa do rei sempre enaltecida” pela Gazeta da Restauração. Nas notícias dadas sobre a guerra com os espanhóis, que se mantém alguns anos após a aclamação de D. João como rei de Portugal, “os portugueses venciam todas as escaramuças e batalhas e causavam sempre um enorme número de baixas nos inimigos, mas estes raramente conseguiam fazer o mesmo às hostes portuguesas. Classifico, por isso, a Gazeta como um periódico infopropagandístico”, acrescenta o professor da Universidade Fernando Pessoa.

O 9º número da Gazeta da Restauração foi impresso em julho de 1642 e posto a circular em agosto seguinte. Nos dois meses seguintes, agosto e setembro, a Gazeta não foi impressa por causa de uma disposição régia que proibiu todas as “gazetas gerais”
O 9º número da Gazeta da Restauração foi impresso em julho de 1642 e posto a circular em agosto seguinte. Nos dois meses seguintes, agosto e setembro, a Gazeta não foi impressa por causa de uma disposição régia que proibiu todas as “gazetas gerais”. GAZETA DA RESTAURAÇÃO / BNP

O nono número da Gazeta da Restauração foi impresso em julho de 1642 e posto a circular em agosto. Nos dois meses seguintes, agosto e setembro, a Gazeta não seria impressa por determinação do rei. A proibição régia visaria sobretudo as publicações gerais, menos regulares, mas foi também foi aplicada à Gazeta da Restauração.

Se entre a pequena nobreza, o povo e alguns mercadores havia numerosos apoiantes do novo poder, parte da grande nobreza permanecia recetiva à ideia da monarquia dual que governou Portugal entre 1580 e o 1º de Dezembro de 1640.

ARREFECIMENTO DO CLIMA GEROU ESCASSEZ ALIMENTAR

Em Portugal os tempos eram de guerra e crise económica. A Europa sentia os efeitos da Guerra dos 30 anos, que eclodira em 1618 e só terminaria em 1648. Como se isso não bastasse, experimentava-se um período de arrefecimento climático geral, responsável por uma “crescente escassez alimentar”, como explica a historiadora Mafalda Soares da Cunha.

Numa delicada situação de guerra, o poder régio não estava seguro de ter controlo sobre todas as notícias publicadas, embora os impressos, em princípio, se encontrassem ainda sujeitos às regras da censura prévia estabelecidas na Carta de Filipe II”, escreve Tengarrinha. O problema, é que as folhas impressas eram muitas, e o “aparelho censório” tinha “dificuldades de controlar todos os papéis que apareciam”.

A bandeira da Restauração - proclamada a 1 de Dezembro de 1640 no Palácio da Independência, em Lisboa - tinha um fundo verde e uma cruz branca e vermelha, e havia de inaugurar a última dinastia reinante em Portugal, a dos Bragança
A bandeira da Restauração – proclamada a 1 de Dezembro de 1640 no Palácio da Independência, em Lisboa – tinha um fundo verde e uma cruz branca e vermelha, e havia de inaugurar a última dinastia reinante em Portugal, a dos Bragança. DR

É neste contexto que D. João IV reforça as disposições censórias; o decreto régio de 19 de agosto de 1642 “visava, assim, não apenas as Gazetas da Restauração, mas sobretudo outras das numerosas publicações eventuais [não periódicas] que se apresentavam impropriamente com a designação de ‘gazetas’ ou de qualquer modo eram assim classificadas”, explica José Tengarrinha na sua “História da Imprensa Portuguesa”.

Dois meses depois de ter sido suspensa, a Gazeta da Restauração, voltou a ser impressa… mas com novas orientações editoriais e novo cabeçalho. Foi assim que surgiu a “Gazeta Primeira do Mês de Outubro de Novas Fora do Reino”, que entrou em circulação a 18 de novembro. Tal como o primeiro número da Gazeta, impresso em novembro de 1641, tinha 12 páginas e custava 6 réis.

NUMERO DE PÁGINAS DITAVA O PREÇO

Foram publicados 36 números da Gazeta da Restauração – nas suas várias versões – entre outubro de 1641 e setembro de 1647. Pode ter havido mais números, mas foram estes que sobreviveram e chegaram até nós.

 Gazetas de vários meses e vários anos, nomeadamente as que relatavam novas de todas as partes do reino e as que só relatavam novas de fora do reino
Gazetas de vários meses e vários anos, nomeadamente as que relatavam novas de todas as partes do reino e as que só relatavam novas de fora do reino. GAZETA DA RESTAURAÇÃO / BNP

Na Gazeta não há peças de opinião como hoje as conceberíamos. Os periodistas de Seiscentos, na generalidade dos países da Europa continental, viam-se a si mesmos como historiógrafos do presente. A sua principal referência era a escrita da história, o registo cronológico dos factos notáveis da vida dos povos. Por isso, o periodismo emergente foi noticioso por toda a Europa continental”, diz Jorge Pedro de Sousa.

A análise de conteúdo efetuada à Gazeta demonstrou que somente 1% das peças inseridas no periódico não deve ser classificada como notícia. Algumas notícias, porém, continham passagens opinativas: 3% até à interrupção de 1642; 14% depois, quando a Gazeta se converteu na Gazeta de Novas de Fora do Reino, passando os seus conteúdos a serem quase integralmente traduzidos da Gazette francesa, mesmo os respeitantes a Portugal, como revela um trabalho de Patrícia Teixeira”, explica o professor Jorge Pedro de Sousa.

Em tempos de guerra, o poder régio legislou no sentido de privilegiar o noticiário de fora do reino
Em tempos de guerra, o poder régio legislou no sentido de privilegiar o noticiário de fora do reino. GAZETA DA RESTAURAÇÃO / BNP

Sousa considera que este “projeto resultou da iniciativa privada”. Até à data da suspensão dos vários periódicos em 1642, a Gazeta foi seguramente “acarinhada pelo poder régio”. É provável que o tenha sido posteriormente, já que o novo poder “viu na Gazeta um excelente instrumento de propaganda da restauração da independência do reino”, acrescenta Sousa.

D. JOÃO IV CONHECIA O PODER DA DIPLOMACIA E DA IMPRENSA

O primeiro rei da dinastia de Bragança gostava de “caçar e de música”, diz a professora e investigadora Leonor Freire Costa, co-autora com Mafalda Soares da Cunha do livro “D. João IV”, da editora Temas & Debates.

No dia da sua entronização, 15 de dezembro de 1640, desconcertou parte da nobreza por ter trajado com “sobriedade algo modesta, tendo em conta a relevância da ocasião”, lê-se no livro das duas autoras. Esta preferência pela roupa confortável e simples para os padrões das cortes da época, em que fazia “gala” – como diz Freire Costa – tornar-se-ia uma marca da sua “atitude” e forma de estar. Contrariamente ao que as regras do poder real exigiam, o rei gostava de fazer demasiadas refeições acompanhado – em vez de comer sozinho como seria expectável − e de dizer algumas piadas. Mas, se estas características foram vistas como desconcertantes por muitos, o certo é que houve uma estratégia clara de legitimação do novo poder.

Mafalda Soares da Cunha lembra que o trabalho da “diplomacia portuguesa foi notável” para obter o reconhecimento do novo poder junto das entidades políticas estrangeiras e, a nível interno, o rei ou os que o rodeavam terão percebido a importância da imprensa.

O QUE NOS ENSINA A HISTÓRIA SOBRE JORNALISMO E POLÍTICA

Podemos considerar D. João IV como o primeiro governante [português] que percebeu a importância dos escritos impressos”, diz ao Expresso Felisbela Lopes, professora de Jornalismo na Universidade do Minho: O apoio régio às Gazetas era o modo de “controlar a opinão pública na época” – já que o reino vivia tempos em que a crise económica e a escassez de alimentos poderiam fomentar motins municipais.

O rei e os seus conselheiros certamente conheciam o caso da Gazette [francesa] e perceberam que uma publicação portuguesa com características semelhantes poderia ser benéfica para a propaganda da nova dinastia de Bragança e para a sua legitimação simbólica”, diz Jorge Pedro de Sousa.

Felisbela Lopes lembra que “o passado ensina-nos muito sobre alguns tiques do presente, e este elo umbilical que existe entre o jornalismo e o poder político. Como é que desfazemos este elo de ligação quando o jornalismo nasceu de uma ligação com o poder dominante?”, pergunta a docente da Universidade do Minho.

A verdade, é que hoje “há processos [mais] complexos” mas “há múltiplas manipulações que continuam a existir”, acrescenta Felisbela Lopes.

Da Gazeta da Restauração chegaram até nós 36 números. Houve edições bimestrais, meses em que não foi publicada, e outros em que foi impresso mais do que um número. O papel era caro e o preço da Gazeta variou de acordo com o número de páginas impressas, fixando-se maioritariamente nas 12 páginas e 6 réis de custo.

Sobre a tiragem, Sousa diz que “tendo em conta as tiragens médias da época” é de admitir que o “número de cópias por número não deverá ter superado as 300. A maioria das cópias circulavam em Lisboa, especialmente na Corte. No entanto, haveria quem comprasse gazetas e outras publicações em Lisboa com o objetivo de as ir lendo de terra em terra, a troco de uma pequena quantia; e outras eram enviadas por mensageiros e correios para outros lugares,por exemplo, para as sedes de bispado, para agentes importantes na administração e defesa do território, para certos conventos”.

Fonte: Expresso

“O arquivo tem que se tornar imprescindível” diz Fernando Padula sobre os desafios na preservação de acervos documentais

 

A UNESCO no Brasil, em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, realizou no dia 21 de novembro o Encontro Patrimônio Documental de São Paulo. O evento tratou dos principais desafios para a preservação dos acervos documentais com a participação de representantes do Arquivo Público do Estado de São Paulo, da Biblioteca Nacional Digital, do Centro Cultural São Paulo, da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA), do Departamento de Cultura da Câmara do Comércio Árabe-Brasileira, da  TV Cultura, entre outros.

Esse é um passo fundamental na gestão dos arquivos históricos, tanto para preservação como para garantir o acesso da população a esse patrimônio. O evento contribui para avançarmos na troca de conhecimento e experiências”, destaca o coordenador de Comunicação e Informação da UNESCO no Brasil, Adauto Cândido Soares.

Fernando Padula, coordenador do Arquivo Público do Estado de São Paulo, acredita que a política de gestão documental é fundamental para preservar os arquivos, principalmente os natos digitais. “O arquivo tem que se tornar imprescindível para a administração pública”.

O coordenador da Biblioteca Nacional Digital, Joaquim Marçal, ressalta que a questão dos repositórios digitais são de extrema importância neste processo. Aponta como caminho o trabalho em redes e cita o projeto “Brasiliana” [Brasiliana Fotográfica e Brasiliana Iconográfica] desenvolvido em conjunto com o Instituto Moreira Salles, integrando outras instituições.

A imprensa, pela sua natureza fiscalizadora e informativa, é uma das grandes interessadas na utilização destes acervos, e tem a função de sensibilizar a sociedade e os poderes para a importância da preservação e ao acesso público a estes arquivos.

Fonte: Portal Imprensa

Comissão aprova ampliação da proteção ao patrimônio bibliográfico nacional

Texto inclui itens iconográficos antigos, como gravuras, entre os proibidos de serem exportados

A Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 10531/18, que atualiza e amplia a Lei 5471/68, que trata da proteção do patrimônio bibliográfico brasileiro. As regras vigentes tratam apenas da proteção de acervos de livros e documentos antigos, mas a proposta apresentada pela deputada Flávia Morais (PDT-GO) abrange também itens iconográficos do patrimônio brasileiro, como gravuras, a fim de evitar o contrabando dessas obras.

Entrarão na nova lista de itens protegidos – cuja exportação fica proibida – os seguintes materiais:

  • livros e folhetos impressos no Brasil ou que versem sobre o País publicados até 1900;

  • periódicos manuscritos feitos no Brasil ou relacionados com a história brasileira, configurados como jornalismo epistolar (escrito em forma de carta);

  • exemplar ou conjunto de periódicos impressos cujo primeiro número tenha sido impresso no País até 1900;

  • partituras manuscritas ou impressas no Brasil ou de artistas brasileiros datadas até 1930;

  • obras iconográficas impressas artesanalmente no Brasil ou que se relacionem com a história brasileira até 1900.

A lei atual proíbe basicamente a exportação de coleções de livros e de periódicos constituídos de obras brasileiras ou sobre o Brasil, editados entre 1501 e 1900.

Chico D’Angelo foi favorável à proposta por entender que outros materiais, além de livros, integram o patrimônio cultural. Michel Jesus/ Câmara dos Deputados

 

Existem outros tipos de materiais, como periódicos e folhetos, por exemplo, que também são importantes e integram o patrimônio cultural do País”, destaca o relator, deputado Chico D’Angelo (PDT-RJ). O parecer dele foi favorável à proposta.

Iphan
O projeto encarrega o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) de regular a saída temporária do patrimônio bibliográfico e iconográfico brasileiro do País, para fins de interesse cultural. Atualmente, a Lei 5.471/68 menciona a “autoridade federal competente”.

Em caso de apreensão de bens culturais ilicitamente comercializados ou objeto de furto ou roubo, o Iphan também será responsável pela deliberação da destinação desses bens apreendidos.

Ainda pela proposta aprovada, o comércio ilícito, tráfico ou roubo de bens culturais pertencentes ao patrimônio bibliográfico e iconográfico nacional passarão a ser considerados “contrabando”, com pena prevista de reclusão de 2 a 5 anos no Código Penal (Decreto-Lei 2.848/40).

Tramitação

O texto tramita em caráter conclusivo e segue para análise da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC).

Reportagem – Lara Haje

Edição – Alexandre Pôrto

Fonte: Agência Câmara de Notícias

Livro de Patrícia Palma revela rede de bibliotecas religiosas que contribuiu para cultura escrita no século XVIII

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

A nova publicação da investigadora algarvia Patrícia de Jesus Palma vem desconstruir “a ideia feita de um Algarve que, ao contrário das restantes regiões, não tinha tido uma rede de bibliotecas religiosas, como aconteceu no resto do país entre os séculos XVI e XVIII, que alimentasse a formação das elites locais”, constituídas pelos 18% de população alfabetizada.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

A certeza foi deixada pela própria autora no passado sábado na Biblioteca Municipal de Faro, na apresentação da obra, intitulada ‘O Reyno das Letras: a cultura letrada no Algarve (1759-1910)’, que vem “contestar uma série de ideias estereotipadas, de mitos e de preconceitos” que “davam conta de um Algarve culturalmente ausente, isolado e desatualizado”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Patrícia Palma garante que “o Algarve não esteve nem mais nem menos à frente, mas desenvolveu iniciativas e estratégias” com “pessoas e instituições que mantiveram a sincronia e a sintonia culturais com a restante sociedade portuguesa oitocentista”. “O que encontrei foi uma rede de instituições e de pessoas, tanto no foro privado como no foro público, que foram possibilitando e fortalecendo a integração da sociedade portuguesa (não só da sociedade algarvia) na cultura escrita”, afirmou.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

A investigadora rejeitou assim “a imagem de uma região desprovida de cultura bibliográfica porque os seus conventos não teriam bibliotecas ou teriam pouco ou más bibliotecas”. “A investigação permitiu perceber que não foi assim e reconstituir essa rede no Algarve das bibliotecas religiosas, localizar os catálogos, os inventários, fazer uma análise da qualidade dos catálogos dessas bibliotecas, que não consente a ideia de desatualização cultural de bibliotecas paradas no tempo”, explicou.

Patrícia Palma acrescentou que o trabalho permitiu assim “comprovar realmente a importância das bibliotecas religiosas dos conventos como centros culturais de formação e de intervenção na sociedade com importante contributo para o desenvolvimento do livro e da leitura, tendo encontrado inclusivamente conventos que disponham dos seus próprios prelos tipográficos”. “Ou seja, o convento não era só um espaço de leitura, era também um espaço de produção”, acrescentou na sessão que contou com a presença da diretora regional de Cultura do Algarve, Adriana Nogueira, do presidente da Câmara de Faro, Rogério Bacalhau, de João Luís Lisboa, do Centro de História da Cultura da Universidade Nova de Lisboa e orientador do doutoramento do qual resultou a obra.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

A autora – que rejeitou também a ideia de que com a expulsão dos jesuítas se extinguiu a formação letrada no Algarve porque “nem a Companhia de Jesus tinha o exclusivo do ensino, nem a região, por isso, ficou desprovida de bons mestres” – destacou ainda o papel relevante , na formação intelectual do bispo do Algarve que teve a “ideia da fundação” do Seminário de São José, D. José Maria de Melo, “um reformador no campo das letras”.

“Deve ser considerado nessa galeria do século XVIII ainda de protagonistas, tal como D. Frei Manuel do Cenáculo, um dos mais conhecidos e estudados que fundaram e financiaram bibliotecas portuguesas, que tinham como objetivo ainda no século XVIII o uso partilhado, a difusão e a utilidade do saber”.

Segundo a historiadora, o seu “programa episcopal era de tal forma pedagógico, assente no estudo e na partilha de leituras, que a primeira coisa que pensou quando foi nomeado bispo do Algarve foi enviar uma biblioteca devidamente preparada para capacitar o seu clero”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

A autora lembrou que “a Biblioteca Municipal de Faro é hoje a guardiã desta memória de bibliotecas, desde as conventuais de que o século XX já não tinha memória, à biblioteca do Seminário de São José e à biblioteca do Paço Episcopal”.

Patrícia Palma – que também recusou a opinião de “uma região cientificamente desatualizada” devido às “aulas de matemática e de cirurgia nos Regimentos de Infantaria de Tavira e de Lagos, assim como as bibliotecas de um cirurgião-mor do Hospital Militar de Lagos ou a do Regimento de Infantaria de Lagos” –, explicou ainda que a tipografia no Algarve foi reintroduzida logo em 1808, após as invasões francesas. “A imprensa por um lado, o teatro por outro e a música ainda, formam esse tripé da mundividência liberal de que o Teatro Lethes, inaugurado em 1845, um ano antes de D. Maria, é a síntese perfeita”, afirmou, lembrando que em 1860 havia 12 teatros disponíveis ao longo de toda a região e nenhum era de iniciativa estatal.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

A publicação, com quase 700 páginas, é uma edição da Direção Regional de Cultura do Algarve e será também apresentada na próxima sexta-feira na Fnac de Faro.

Patrícia de Jesus Palma, natural de São Marcos da Serra, é licenciada em Línguas e Literaturas Modernas – variante de Estudos Portugueses pela Universidade do Algarve, com mestrado e doutoramento pela Universidade Nova de Lisboa, em Estudos Portugueses, respetivamente nas especialidades de Literatura Portuguesa Contemporânea e História do Livro e Crítica Textual.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Na atualidade, é investigadora integrada do CHAM – Centro de Humanidades da FCSH/UNL, onde desenvolve temas como a circulação cultural no espaço europeu e transatlântico, a história e património da imprensa, ou as relações entre a cultura e o desenvolvimento territorial. Em paralelo, desde 2018, atua no “Lugar Comum”, projeto que criou para investigação, consultadoria, ação cultural e ação educativa e que tem como principais objetivos fomentar o acesso ao conhecimento e à fruição cultural. Tem ainda sido uma das agentes impulsionadoras à criação de um núcleo museológico no espaço da sua antiga tipografia, encerrada em 2012, e da hemeroteca digital do Algarve.

Fonte: Folha do Domingo

Pequena bibliografia online sobre livros antigos e/ou raros: português, inglês e francês

Inspirado no mapa de Campinas, Cemitério da Saudade soma 138 anos de lendas e particularidades

Segundo historiador, mais de 2 milhões de corpos estão sepultados no Cemitério da Saudade — Foto: Rui do Amaral/G1
Segundo historiador, mais de 2 milhões de corpos estão sepultados no Cemitério da Saudade — Foto: Rui do Amaral/G1

Devido a isso, o historiador descreve que grupos de imigrantes eram enterradas em setores próprios, da mesma forma que se organizavam na cidade, morando em bairros próximos e formando comunidades.

Temos uma ala apenas com japoneses, que eram budistas. Também há um grupo de alemães protestantes e famílias italianas”.

Túmulos mais antigos

Grande parte dos túmulos do cemitério possuem cruzes de concreto em formato padronizado. Algumas, porém, são compostas por armações metálicas. Estas, de acordo com Annunziata, são diferentes por terem sido confeccionadas antes da inauguração do Cemitério da Saudade.

Cruz de ferro simboliza túmulos mais antigos do cemitério — Foto: Rui do Amaral/G1
Cruz de ferro simboliza túmulos mais antigos do cemitério — Foto: Rui do Amaral/G1

Ele conta que estas cruzes de ferro são mais antigas pertenciam aos túmulos que foram trazidos de outros cemitérios.

Os cemitérios que existiam naquela época ficavam onde foi construída a ferrovia durante a expansão do café. Com isso, muitos dos corpos enterrados aqui são de pessoas que morreram antes de que se sonhasse com esse lugar”.

Um dos túmulos visitados pelo G1, inclusive, data de setembro de 1876 – cinco anos antes do início do cemitério

Homem morto em 1876 está enterrado no Cemitério da Saudade, inaugurado em 1881 — Foto: Rui do Amaral/G1
Homem morto em 1876 está enterrado no Cemitério da Saudade, inaugurado em 1881 — Foto: Rui do Amaral/G1

Milagreiros’

Os túmulos mais famosos do Cemitério da Saudade reúnem os personagens considerados “milagreiros” por alguns fiéis. Destes, talvez o mais popular seja o Santuário do Senhor Tranca Rua das Almas, o popular Tranca Ruas.

Algumas pessoas acham que este túmulo é apenas a representação do candomblé, mas é mais do que isso. Nele está enterrado o corpo de um pai de santo, que pediu para que os trabalhos dele permanecessem sendo feitos e deixados aqui”.

Túmulo do 'Tranca Ruas', no Cemitério da Saudade — Foto: Rui do Amaral/G1
Túmulo do ‘Tranca Ruas’, no Cemitério da Saudade — Foto: Rui do Amaral/G1

O local, para o historiador, é o maior exemplo de como o cemitério se abriu para outras crenças, sendo até hoje frequentado por praticantes do candomblé.

Outra habitante popular é Maria Jandira, prostituta que ateou fogo no próprio corpo na década de 1930, após ser rejeitada pela família do noivo.

Algumas pessoas que a conheciam passaram a rezar pela alma dela e, assim, começaram também a fazer pedidos. Aqui, no túmulo, centenas de flores eram deixadas por quem acreditava no poder de Maria Jandira em realizar a vontade daqueles que a homenageavam durante as orações”.

Maria Jandira, a prostituta que ateou fogo no próprio corpo, ainda atrai visitantes ao seu túmulo — Foto: Rui do Amaral/G1
Maria Jandira, a prostituta que ateou fogo no próprio corpo, ainda atrai visitantes ao seu túmulo — Foto: Rui do Amaral/G1

Valor histórico

Annunziata reconhece que a sociedade brasileira não está acostumada a valorizar os bens que são considerados patrimônios históricos, e reforça que ainda é necessário muita conscientização para que tal cenário sofra alguma mudança.

“As pessoas até acham bonito, mas veem estes locais apenas como coisas velhas. O que precisa ser feito é um trabalho de educar, mesmo. Mostrar para elas que um patrimônio nada mais é do que uma escola a céu aberto. Pode ser um prédio, uma ponte ou um cemitério. São pedaços da nossa história”.

Historiador destaca necessidade em dar valor aos patrimônios históricos da cidade — Foto: Rui do Amaral/G1
Historiador destaca necessidade em dar valor aos patrimônios históricos da cidade — Foto: Rui do Amaral/G1

*Sob supervisão de Arthur Menicucci, do G1 Campinas

Fonte: G1 Campinas

Palestra: História do Livro

A palestra abordará sucintamente o processo histórico do surgimento e processos de produção dos livros, a partir do desenvolvimento dos suportes e instrumentos para escrita, discorrendo sobre a ideia de reunião e proteção das informações, apresentando formatos como o volumen, codex, livros medievais, o advento da tipografia até o aparecimento dos livros digitais e a encadernação de conservação.

Público-Alvo: Público geral, 3ª idade, encadernadores, bibliotecários, arquivistas, museólogos, conservadores-restauradores e estudantes destas áreas, ou áreas correlatas.

Gabinete Português de Leitura de Pernambuco completa 169 anos

Como novidade está o início da restauração dos prédios anexos ao Gabinete, que estão voltados para a Rua Diário de Pernambuco (Foto: Henrique Araújo)

O Gabinete Português de Leitura de Pernambuco (GPL-PE) completa 169 anos de fundação, no dia 03 de novembro. Para celebrar a data, será realizada uma cerimônia comemorativa para convidados, na noite da segunda-feira 04 de novembro, a partir das 19h30. O evento acontece no salão nobre da sede da instituição, que está localizada na Rua do Imperador Dom Pedro II, no bairro de Santo Antônio, área central do Recife.

Como novidade do GPL-PE está marcado para este mês de novembro, o início da restauração dos prédios anexos ao edifício sede do Gabinete (voltados para a Rua Diário de Pernambuco), que contemplará também a construção de um Edifício Garagem. O objetivo é dar mais conforto aos visitantes e ao mesmo tempo gerar renda para o GPL-PE. Serão oferecidas 60 vagas de estacionamento e mais 10 salas interligadas ao edifício sede.

“As fachadas desses prédios serão restauradas conservando sua originalidade. Dessa forma, vamos concluir o projeto de restauração dos prédios históricos do quarteirão da Rua do Imperador Dom Pedro II”, ressalta o presidente do GPL-PE, Celso Stamford Gaspar. O último prédio restaurado está ao lado do Gabinete, o antigo Hotel Recife, datado do século XX, que desde março de 2018 é a Escola de Saúde do Hospital Português.

A previsão de inauguração do Edifício Garagem é novembro de 2020, quando o GPL-PE completará 170 anos de história. O projeto de restauração e adequação leva a assinatura do arquiteto Bruno Uchoa.

Durante a solenidade comemorativa aos 169 anos do GPL-PE, o empresário Zeferino Ferreira da Costa será homenageado com o Colar do Mérito Luís Vaz de Camões, por sua relação com a comunidade lusa no Recife e com o Gabinete. Receberão ainda a Medalha de Mérito Luiz Vaz de Camões os professores e escritores José Rodrigues Paiva e Alfredo Antunes e mais o arquiteto Bruno Uchoa.

A cerimônia conta ainda com a inauguração da exposição coletiva “Caminhos da Pintura em Pernambuco”, dos artistas Fernando Areias, Vera Sato, Gilvan Júnior e Sandra Paro. A mostra, organizada pela diretoria cultural do GPL-PE, terá parte da renda revertida para a instituição. São 27 quadros, entre pinturas de óleo sobre tela, acrílica sobre tela, litogravura e mosaico de pastilhas de vidro. A exposição ficará em cartaz até o dia 20 de novembro. O encerramento da solenidade será marcado pela apresentação musical do maestro Lúcio Azevedo, acompanhado da cantora Kátia Guedes, seguido de um coquetel, assinado pelo Buffet La Cuisine.

O Gabinete – Em 1850, havia um grande número de portugueses residentes em Pernambuco. Estes, por sua vez, não possuíam um local adequado onde pudessem se reunir para cultuar sua pátria e comemorar datas importantes para o seu país. Procurando uma solução, o Comendador Miguel José Alves, na época, Chanceler do consulado de Portugal no estado, foi o primeiro a pensar na possibilidade de fundar o Gabinete Português de Leitura em Pernambuco.

Porém, se ao Comendador cabe o mérito da elaboração da ideia, coube ao cirurgião e jornalista João Vicente Martins a honra de fundar, em 3 de novembro de 1850, constituir a primeira diretoria, reunir os primeiros associados e viabilizar a instalação, em 15 de agosto de 1851, do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco, em seu primeiro endereço, na Rua da Cadeia Velha, atual Avenida Marquês de Olinda, no Bairro do Recife.

Desde 1921, instalado em sede própria, no coração do Recife, o edifício de três andares, que começou a ser construído no início de 1909, oferece aos pernambucanos e à comunidade portuguesa intensas experiências de troca de conhecimento e de cultura, além de estreitar os laços de amizade entre Portugal e Brasil.

O Gabinete Português de Leitura de Pernambuco promove a realização de solenidades, comemorações, seminários, conferências, exposição de livros, fotografias, pinturas, cursos e projeções cinematográficas portuguesas. Sua biblioteca possui um acervo superior a 80 mil volumes. Toda a bibliografia está permanentemente à disposição do público, em sua maioria estudantes brasileiros.

Inúmeras pessoas frequentam o Gabinete diariamente para pesquisar e estudar todas as obras que desejam, sendo este serviço oferecido gratuitamente. O espaço dispõe, ainda, de uma sala de estudos aberta ao público com capacidade para cerca de 50 pessoas. Climatizada e com internet wifi liberada, a biblioteca conta ainda com as edições diárias de jornais de Pernambuco e Portugal.

Serviço:

Cerimônia Comemorativa aos 169 anos do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco

Gabinete Português de Leitura

Rua Imperador Dom Pedro II, 290 – Santo Antônio, Recife

Segunda-feira (04/11), a partir das 19h30

Evento exclusivo para convidados

Fonte: Revista algomais

O papel dos Fundos Locais nas Bibliotecas Públicas

Nesse sentido, este artigo pretende destacar a importância da criação e manutenção do Fundo Local, dentro do acervo das Bibliotecas Públicas. Evidenciando os seguintes pontos do Manifesto, “5. Promover o conhecimento sobre a herança cultural; 8. Apoiar a tradição oral; 9. Assegurar o acesso dos cidadãos a todo o tipo de informação da comunidade local”. 

O Fundo Local é, por assim dizer, a memória de uma comunidade. No que concerne à recolha, tratamento e divulgação da cultura do concelho e da Região. É através dele que as Bibliotecas Publicas cumprem parte da sua missão. Observando que parte da “sua história” foi construída a partir da transmissão oral, de geração em geração e que os eventos ocorridos hoje serão tema de pesquisa no futuro. É imprescindível recuperar todo o “material” produzido na área geográfica em que a Biblioteca está inserida, como forma de “arquivo temático”, para divulgação e promoção da cultura local e regional. Nesse sentido e tendo noção da importância da preservação das memórias, usos e costumes da sua coletividade, o Fundo Local revela-se uma mais-valia para a cultura local.

Fundo loca l- Biblioteca Municipal de Portimão

As Bibliotecas Públicas do Algarve, em geral, oferecem aos seus utilizadores, um Fundo Local em livre acesso e/ou, um Fundo Local reservado. Sendo que, cada uma, ordena o seu Fundo, segundo a sua politica de disposição da coleção e pelas necessidades dos seus utilizadores. Em ambos (em livre acesso e/ou, reservado), é possível estudar registos de fontes e factos, analisados e recuperados por investigadores, historiadores, estudantes e/ou curiosos, com interesse no património cultural da região. Conhecimento da “história das gentes”, transformado em documentos ordenados numa subcolecção, desenvolvida e arrumada de forma a poder ser reavida nos diversos géneros da memória individual e coletiva da comunidade onde estão inseridos.

Os documentos, que constituem o Fundo Local são, quase todos, adquiridos através de oferta, ou permuta, uma vez que este tipo de publicação é normalmente editada pelos próprios municípios. Contudo, as publicações sobre temáticas regionais aumentaram nos últimos anos, valorizando assim a subcolecção e a consolidação de uma resposta positiva para as questões colocadas pelos utilizadores.

A Subclasse (Fundo Local, Regional e/ou Reservado) representa uma percentagem diminuta do acervo global das Bibliotecas Publicas, mas é, cada vez mais, de importância superior à quantidade de documentos que a constitui. O que se justifica pela especificidade da temática, raridade de algumas obras e pelo papel social que as Bibliotecas representam atualmente para a comunidade.

[1] https://www.ifla.org/files/assets/public-libraries/publications/PL-manifesto/pl-manifesto-pt.pdf

Virgínia Maio
(Biblioteca Municipal Manuel Teixeira Gomes de Portimão)

(CM)

Fonte: Postal do Algarve

VI Simposio Nacional de Patrimonio Bibliográfico y Documental

  • Del 28 al 30 de octubre la Biblioteca Nacional de Colombia será sede por sexta ocasión del Simposio Nacional de Patrimonio Bibliográfico y Documental. 
  • Inscripciones abiertas aquí

Bogotá D.C, 2 de octubre de 2019.Con el objetivo de fortalecer los espacios de reflexión, difusión, análisis y discusión acerca de lo que implica la apropiación y la valoración del patrimonio bibliográfico y documental, como elementos que contribuyen a la construcción de identidad y memoria de las comunidades y del páis, el Ministerio de Cultura y la Biblioteca Nacional de Colombia invitan a participar en el sexto Simposio Nacional de Patrimonio Bibliográfico y Documental.

Esta nueva edición del Simposio se desarrollará a través de conferencias y  conversatorios cuyas temáticas buscan que los asistentes tengan un panorama de las acciones que se vienen realizando desde las instituciones y desde los territorios; con una mirada diversa, critica y especializada que dé cuenta de las posibilidades que se tejen en torno  al patrimonio bibliográfico y documental como un proceso colectivo y participativo.

El Simposio se realizará del 28 al 30 de octubre de 2019 en el Auditorio Germán Arciniegas de la Biblioteca Nacional de Colombia (Calle 24 No. 5-80), en la ciudad de Bogotá, y contará con la participación de invitados nacionales e internacionales.

Durante la primera jornada se analizará lo que implican los  conceptos de valoración y de apropiación del patrimonio, desde una mirada general del patrimonio cultural y la memoria, para desde allí, generar puentes con el ámbito de lo bibliográfico y lo documental.

El segundo día del Simposio estará orientado a la difusión y la reflexión de lo que significa la valoración y la apropiación desde lo bibliográfico y lo documental; a partir de las propuestas que se vienen desarrollando tanto desde el ámbito nacional como desde los territorios.

La última jornada tendrá como objetivo pensar la valoración patrimonial como un ejercicio práctico que se enmarca en unas dinámicas sociales y unos criterios técnicos concretos que ayudan a priorizar la intervención de este patrimonio.

Entre la nómina de invitados internacionales al Simposio Nacional de Patrimonio Bibliográfico y Documental se encuentran Ana Rosas Mantecón (México), Doctora en antropología, docente e investigadora del Departamento de Antropología de la Universidad Autónoma Metropolitana en México desde 1992. Quien estará a cargo de la conferencia inaugural del Simposio

Fernando Cruz Quintana (México), Doctor en Ciencias Políticas y Sociales por la Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM) quien estará presente en el segundo día del Simposio con una charla acerca de las posibilidades de uso y  apropiación del patrimonio digital.

A nivel nacional el Simposio contará con invitados como Enrique Serrano, Director del Archivo General de la Nación; Alberto Escobar, Director de Patrimonio del Ministerio de Cultura, Shirley Zuluaga, Directora de la Biblioteca Pública Piloto; Lidia Nohemy Córdoba Mena, Coordinadora Biblioteca Pública Departamental Arnoldo de los Santos Palacios Mosquera, de Quibdó, Chocó; Erika Diettes, artista plástica,  Martha Zambrano, docente de la Universidad Nacional; y Marina Arango

Coordinadora Grupo de Memoria, circulación e investigación de la Dirección de Cinematografía del Ministerio de Cultura. La apertura del Simposio estará a cargo de la Ministra de Cultura Carmen Ines Vásquez, y Diana Patricia Restrepo Torres, Directora de la Biblioteca Nacional de Colombia.

El Simposio está dirigido a funcionarios del sector público y privado que tienen relación con las bibliotecas públicas, bibliotecas universitarias y escolares, centros de documentación, redes de bibliotecas, academias y centros de investigación, al igual que a editores, autores y productores de contenidos análogos y digitales, así como a bibliotecólogos, comunicadores sociales, profesionales de las ciencias sociales,  estudiantes universitarios y otras personas interesadas en el tema.

Las inscripciones están abiertas en:

https://bibliotecanacional.gov.co/es-co/actividades/congresos-simposios/inscripciones/simposio-nacional-de-patrimonio-bbliografico

La asistencia será gratuita y se entregará certificado de asistencia a los participantes.

 

Mayores informes: 

Juan Alberto Riveros

(57-1) 3816464  Ext. 3169

jariveros@bibliotecanacional.gov.co

Biblioteca Nacional de Colombia

Informes para medios:

Fredy Ávila Molina

Comunicaciones

Biblioteca Nacional de Colombia

Email: favila@bibliotecanacional.gov.co

Celular: 313 456 65 54

Teléfono fijo: (57-1) 3 816464  Ext.3181

Fonte: Biblioteca Nacional de Colombia

Biblioteca Mário de Andrade homenageia bibliófilos em nova exposição de obras raras

Em cartaz até dezembro, a mostra Grandes Colecionadores foi montada com base no acervo de nomes como Félix Pacheco e Otto Maria Carpeaux

Texto por Maria Fernanda Rodrigues

A Biblioteca Mário de Andrade abre nesta quinta-feira, 3, na véspera da primeira edição do Festival Mário de Andrade, com debates e feira de livros, uma nova exposição com raridades de seu acervo. A mostra Grandes Colecionadores apresenta exemplares significativos da trajetória pessoal de bibliófilos que doaram ou venderam suas coleções para a Biblioteca Mário de Andrade.

A exposição Grandes Colecionadores pode ser visitada até o dia 12 de dezembro, todos os dias, das 10h às 19h.

Com curadoria de Rizio Bruno Sant’Ana, a mostra exibe livros do acervo de nomes como Félix Pacheco (1879-1935), Barão Homem de Mello (1837-1918), Antonio Baptista Pereira (1880-1960), Paulo Prado (1869-1943), Pirajá da Silva (1873-1961), Antonio Francisco Paula Souza (1843-1917), Francisco de Assis Carvalho Franco (1886-1953), Alceu Maynard Araújo (1913-1974), Otto Maria Carpeaux (1900-1978), Paulo Duarte (1899-1984), José Pereira de Mattos e José Perez.

De Félix Pacheco, por exemplo, os visitantes poderão ver o primeiro documento impresso que descreve costumes folclóricos brasileiros: Relação das Faustíssimas Festas, de 1762. Trata-se de um relato das festas para comemorar o casamento entre a Princesa do Brasil (futura rainha D. Maria I) e D. Pedro infante de Portugal (depois, D. Pedro III).

Pacheco foi político, jornalista, poeta e reconhecido como introdutor no Brasil de traduções e estudos sobre Charles Baudelaire. Eleito imortal da Academia Brasileira de Letras em 1912, ele reuniu a maior coleção privada de obras raras e de Brasiliana do País, em seu tempo. Sua coleção de 14 mil volumes foi comprada por Rubens Borba de Moraes, em 1936.

Já de Paulo Prado, advogado, fazendeiro, escritor e patrocinador da Semana de Arte Moderna de 1922, cuja coleção de livros de artistas e obras de história e literatura francesa foi doada em 1945, será exposto um projeto de lei sobre os escravos no Brasil que seria apresentado por José Bonifácio de Andrade e Silva à Assembleia Gerak Constituinte quando ela foi dissolvida e o autor e outros deputados foram presos e deportados. O material foi publicado em 1825, durante o exílio, em Paris.

Otto Maria Carpeaux também foi um colecionador. De sua coleção, o público poderá ver uma edição bilíngue com poemas de Carlos Drummond de Andrade organizada por Hans Magnus Enzensberger e publicada em 1965 pela alemã Suhrkamp. Foi Carpeaux quem fez a ponte entre o poeta mineiro e os editores estrangeiros, e o volume traz uma dedicatória assinada por Drummond em 28 de julho de 1965.

Exposição Grandes Colecionadores

De 3/10 a 12/12, das 10h às 19h (todos os dias). Biblioteca Mário de Andrade (Rua da Consolação, 94)

Fonte: BIBLIOTECNOLOGIA

A sangrenta história das traduções da Bíblia

John Wycliffe
Direito de imagemGETTY IMAGES Image captionJohn Wycliffe (1330-1384) foi um dos principais pensadores ingleses do século XIV

Em 1427, o papa Martinho 5º ordenou que os ossos de John Wycliffe fossem exumados de seu túmulo, queimados e jogados em um rio. Wycliffe morrera havia 40 anos, mas a fúria causada por sua ofensa ainda permanecia viva.

John Wycliffe (1330-1384) foi um dos principais pensadores ingleses do século 14.

Teólogo de profissão, ele foi chamado para assessorar o Parlamento em suas negociações com Roma.

Naquela época, a igreja era todo-poderosa, e quanto mais contato Wycliffe tinha com Roma, mais indignado ele se sentia. Em sua visão, o papado estava envenenado por corrupção e interesses pessoais. E ele estava determinado a fazer algo sobre isso.

Wycliffe começou a publicar panfletos argumentando que, em vez de buscar riqueza e poder, a igreja deveria se preocupar com os pobres.

Em uma ocasião, descreveu o papa como “o anticristo, o sacerdote mundano de Roma e o mais amaldiçoado dos batedores de carteira”.

Em 1377, o bispo de Londres exigiu que Wycliffe aparecesse perante sua corte para explicar as “coisas surpreendentes que brotaram de sua boca”.

John Wycliffe
Direito de imagemGETTY IMAGES Image captionAudiência que condenou John Wycliffe foi uma farsa do começo ao fim

O julgamento de Wycliffe na Catedral de São Paulo, em Londres, ocorreu em 3 de fevereiro de 1377.

A audiência foi uma farsa do começo ao fim.

Tudo começou com uma briga violenta sobre se Wycliffe deveria sentar-se ou não. Juan de Gaunt, filho do rei e aliado de Wycliffe, reiterou que os acusados permanecessem sentados; já o bispo exigiu que ele se levantasse.

Quando o Papa ouviu falar sobre o fiasco do julgamento, emitiu uma bula [carta ou documento oficial papal] em que acusou Wycliffe de “vomitar do calabouço sujo de seu coração as mais perversas e condenáveis heresias”.

Wycliffe foi acusado de heresia e colocado em prisão domiciliar. Mais tarde, acabou forçado a deixar seu posto como professor do Balliol College, em Oxford.

‘Emancipação dos pobres’

Wycliffe dizia acreditar firmemente que a Bíblia deveria estar disponível para todos. Via a alfabetização como a chave para a emancipação dos pobres.

Naquela época, embora partes da Bíblia já tivessem sido traduzidas para o inglês, ainda não havia uma tradução completa do livro sagrado.

As pessoas comuns, que nem falavam latim nem podiam ler, só podiam aprender com o clero. E muito do que eles achavam que sabiam, ideias como o fogo do inferno e o purgatório, não faziam parte das Escrituras.

Assim, com a ajuda de seus assistentes, Wycliffe produziu uma Bíblia em inglês, durante 13 anos, começando em 1382.

Bíblia de Wycliffe
Direito de imagemGETTY IMAGES Image captionTrechos da Bíblia de Wycliffe

Era inevitável que uma reação violenta eclodisse: em 1391, antes que a tradução da Bíblia fosse concluída, um projeto de lei foi apresentado ao Parlamento para proibir a Bíblia em inglês e prender qualquer pessoa que possuísse uma cópia do livro sagrado.

O projeto de lei não foi aprovado – John de Gaunt cuidou disso no Parlamento -, mas a igreja retomou sua perseguição contra Wycliffe.

Mas Wycliffe havia morrido 7 anos antes, em 1384.

Sem alternativas, o melhor que podiam fazer era queimar os ossos [em 1427], de modo que seu túmulo não fosse reverenciado.

O arcebispo de Canterbury disse que Wycliffe tinha sido “aquele canalha pestilento, de memória condenável, sim, o precursor e discípulo do Anticristo que, além de sua maldade, inventou uma nova tradução das Escrituras em sua língua materna”.

Jan Hus

Em 1402, Jan Hus, um recém-ordenado padre tcheco, foi designado para celebrar missas em Praga.

Inspirado pelos escritos de Wycliffe, que então circulavam pela Europa, Hus usou sua posição para fazer campanha pela reforma administrativa e pelo fim da corrupção na Igreja.

Jan Hus (1369-1415)
Direito de imagemGETTY IMAGES Image captionJan Hus (1369-1415) era seguidor de John Wycliffe

Como Wycliffe, Hus dizia acreditar que a reforma social só poderia ser alcançada por meio da alfabetização.

Sendo assim, dar às pessoas uma Bíblia escrita em tcheco, em vez de latim, se tornou imperativo.

Hus reuniu uma equipe de estudiosos e em 1416 surgiu a primeira Bíblia tcheca.

A publicação do livro foi considerada uma provocação direta àqueles que ele chamou de “os discípulos do anticristo” e a consequência era previsível: Hus foi preso por heresia.

O julgamento de Hus, que ocorreu na cidade de Constança (atual Alemanha), é um dos mais espetaculares da história.

Julgamento de Jan Hus
Direito de imagemGETTY IMAGES Image captionNata da elite europeia marcou presença no julgamento de Jan Hus

A audiência teve a presença de quase todos os manda-chuvas da Europa.

Um arcebispo chegou com 600 cavalos; 700 prostitutas ofereceram seus serviços; 500 pessoas se afogaram no lago; e o papa caiu da carruagem em cima da neve.

O entorno era tão apoteótico que a eventual condenação e execução brutal de Hus poderia ser considerada um anticlímax nesta história.

Hus foi condenado como herege e morreu queimado vivo.

Jan Hus na fogueira
Direito de imagemGETTY IMAGES Image captionHus morreu como herege, condenado pelo Concílio de Constança

Sua morte desencandeou uma revolta popular. Sacerdotes e igrejas foram atacados. Houve retaliação por parte das autoridades. Em poucos anos, a Boêmia entrou em guerra civil.

Tudo porque Jan Hus teve a coragem de traduzir a Bíblia.

William Tyndale

Em relação à Bíblia inglesa, William Tyndale foi outro tradutor famoso que perdeu a vida por causa do livro sagrado.

Ele vivia na Inglaterra do século 16, governada pelo rei Henry VIII.

A tradução da Wycliffe ainda estava proibida e, embora as cópias dos manuscritos estivessem disponíveis no mercado negro, eram difíceis de encontrar e caras de adquirir. A maioria das pessoas ainda não tinha ideia do que a Bíblia realmente dizia.

Mas a impressão em papel estava se tornando mais comum, e Tyndale achou que era o momento certo para uma tradução acessível e atualizada.

William Tyndale
Direito de imagemGETTY IMAGES Image captionWilliam Tyndale foi outro tradutor famoso que perdeu a vida por causa do livro sagrado

Ele sabia que poderia criar uma. Tudo o que ele precisava era do financiamento e da bênção da igreja.

No entanto, rapidamente se deu conta de que ninguém em Londres estava disposto a ajudá-lo. Nem mesmo seu amigo, o bispo de Londres, Cuthbert Tunstall.

Mas o clima religioso parecia menos opressivo na Alemanha.

Lutero já havia traduzido a Bíblia para o alemão; a Reforma Protestante estava se acelerando e Tyndale achava que teria mais sucesso com seu projeto ali. Então, viajou a Colônia e começou a imprimi-la.

Sua iniciativa provou-se um erro. Colônia ainda estava sob o controle de um arcebispo leal a Roma.

Quando estava no meio da impressão do Evangelho de São Mateus, descobriu que as autoridades estavam prestes a invadir a gráfica. Rapidamente, pegou seus originais e fugiu.

Essa história se repetia várias vezes. Tyndale passou os anos seguintes esquivando-se de espiões ingleses e de agentes romanos.

Mas ele conseguiu concluir sua Bíblia e as cópias logo inundaram a Inglaterra ─ ilegalmente, é claro.

Bíblia de Tyndale
Direito de imagemGETTY IMAGES Image captionBíblia de Tyndale foi contrabandeada à Inglaterra

O projeto estava completo, mas Tyndale era um homem marcado pelas autoridades. E ele não era o único.

O cardeal Wolsey estava fazendo campanha contra a Bíblia de Tyndale. Ninguém próximo a Tyndale estava a salvo.

Thomas Hitton, um padre que conheceu Tyndale na Europa, confessou ter contrabandeado duas cópias da Bíblia para a Inglaterra. Ele foi acusado de heresia e queimado vivo.

Um advogado que mal conhecia Tyndale, Thomas Bilney, também foi jogado nas chamas em 1531.

Richard Bayfield, um monge que havia sido um dos primeiros apoiadores de Tyndale, foi torturado incessantemente antes de ser amarrado à estaca e queimado. E um grupo de estudantes em Oxford foi confinado em uma masmorra, usada para armazenar peixes salgados, até a morte.

Página da Bíblia de Tyndale traduzida para o inglês
Direito de imagemGETTY IMAGES Image captionPágina da Bíblia de Tyndale traduzida para o inglês

O fim de Tyndale não foi menos trágico.

Ele foi traído em 1535 por Henry Phillips, um jovem aristocrata que roubara o dinheiro do pai e o perdera em apostas.

Tyndale estava escondido em Antuérpia, sob a proteção quase diplomática da comunidade mercantil inglesa. Phillips tornou-se amigo de Tyndale e o convidou para jantar. Quando deixaram a casa do comerciante inglês juntos, Phillips fez um gesto a criminosos para que Tyndale fosse preso.

Foi o último momento de sua vida em liberdade.

Tyndale foi acusado de heresia em agosto de 1536 e queimado na fogueira algumas semanas depois.

"Deus, abra os olhos do rei da Inglaterra", disse Tyndale pouco antes de ser queimado vivo
Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption”Deus, abra os olhos do rei da Inglaterra”, disse Tyndale pouco antes de ser queimado vivo

Em Antuérpia, a cidade onde Tyndale acreditava estar seguro, Jacob van Liesveldt produziu uma Bíblia em holandês.

Como tantas outras traduções do século XVI, seu ato foi tanto político quanto religioso.

Sua Bíblia foi ilustrada com xilogravuras: na quinta edição, ele representou Satanás com a aparência de um monge católico, com pés de bode e um rosário.

Foi um passo longe demais.

Van Liesveldt foi preso, acusado de heresia e condenado à morte.

Uma era assassina

O século XVI foi, de longe, o período mais sangrento para os tradutores da Bíblia.

Mas as traduções sempre geraram – e continuam a gerar – fortes emoções.

Em 1960, a Reserva da Força Aérea dos EUA alertou os recrutas contra o uso da Versão Padrão Revisada recém-publicada na época porque, segundo eles, 30 pessoas em seu comitê de tradução haviam sido “afiliadas às frentes comunistas”.

Em 1961, o americano TS Eliot, um dos principais poetas do século XX, opôs-se à Nova Bíblia em inglês e escreveu que “assusta sua combinação do vulgar, do trivial e do pedante”.

TS Eliot
Direito de imagemGETTY IMAGES Image captionTS Eliot condenou tradução de Bíblia

E tradutores da Bíblia ainda estão sendo mortos. Não necessariamente por causa da tradução do livro sagrado, mas por suas atividades como missionários cristãos.

Em 1993, Edmund Fabian foi assassinado na Papua Nova Guiné por um homem local que o ajudara a traduzir a Bíblia.

Em março de 2016, quatro tradutores da Bíblia que trabalhavam para uma organização evangélica dos EUA foram mortos por militantes em um local não revelado no Oriente Médio.

Traduzir a Bíblia pode parecer uma atividade inofensiva, mas a história mostra que não.

*O escritor britânico Harry Freedman é especializado em história da religião. É autor do livro The Murderous History of Bible Translations (A História Assassina das Traduções da Bíblia, em tradução livre).

Fonte: BBC

Bibliotecários e patrimônio educativo: depoimentos de participantes do VII Simpósio Iberoamericano: História, Educação, Patrimônio-Educativo

Texto da Comissão Temporária de Patrimônio Bibliográfico e Documental

Imagem: Site do Simpósio

O Simpósio Iberoamericano: História, Educação, Patrimônio-Educativo tem reunido pesquisadores que tratam da temática do Patrimônio Histórico- Educativo- Cultural. Organizado pela Rede Iberoamericana para a Investigação e a Difusão do Patrimônio Histórico-Educativo – RIDPHE e pelo Centro Internacional de Cultura Escolar – CEINCE, a sétima edição do evento ocorreu no período de 22 a 25 de julho de 2019 em Berlanga de Duero, na região de Soria, Espanha, e teve como tema Patrimônio Histórico-Educativo Material e Imaterial: Memória, Diversidade, Alteridade.

Bibliotecários brasileiros marcaram presença com a apresentação de seus estudos e pesquisas. Confira o depoimento de alguns deles.

Profa. Dra. Cleonice Aparecida de Souza, CRB-8/6713

Profa. Dra. Cleonice Aparecida de Souza, CRB-8/6713
Imagem: Arquivo Pessoal

Coordenadora do Sistema de Bibliotecas da Universidade São Francisco – USF. Docente na USF e PUC-Campinas.

Trabalhos apresentados:

Revista Vozes de Petrópolis: a presença dos franciscanos na educação brasileira por meio dos impressos, trabalho conjunto com o prof. Dr. Claudino Gilz

Editora Vozes: uma das instâncias representativas do patrimônio educativo dos franciscanos na história da imprensa brasileira, trabalho conjunto com o prof. Dr. Claudino Gilz

A minha aproximação ao tema do patrimônio educativo se deu mais pela prática de bibliotecária e docente. Assim como investigar as interfaces entre educação, história, patrimônio e memória em espaços educativos formais e não formais, tendo por escopo disseminar suas potencialidades para pesquisas acadêmicas. O modo como os livros e periódicos eram tratados nas pesquisas educacionais permitiu entender a invisibilidade desses objetos. Tradicionalmente tais fontes eram tomadas como suportes de narrativas, ideias, ideologias, valores, ou seja, como conteúdo. Entretanto, Chartier (2004) aponta que elas têm materialidade, pois foram produzidos num processo de produção de mercadoria numa sociedade capitalista. Nesse sentido participar do VII Simpósio, que teve o propósito de reunir pesquisadores tratando da temática do Patrimônio Histórico Educativo Cultural, ampliou as oportunidades para troca de ideias sobre o potencial investigativo referente à imaterialidade das fontes e informações pertinentes a elas. Além de unir por meio de abordagens interdisciplinares e disponibilizar um espaço de reflexão e interação entre pesquisadores das diferentes áreas do conhecimento. Para além dos espaços das unidades de informação o papel do profissional bibliotecário se liga diretamente ao patrimônio educativo ao considerar que a educação patrimonial é a realização de ações educativas de preservação, apropriação e valorização do patrimônio cultural. Já que o patrimônio cultural é a reunião de bens culturais de valor considerado para um determinado conjunto de pessoas ou para o coletivo. Horta, Grunberg e Monteiro (1999, p. 6) afirma que isso ocorre “[…] a partir da experiência e do contato direto com as evidências e manifestações da cultura, em todos os seus múltiplos aspectos, sentidos e significados”. Assim como Farias (2002, p. 62) diz que “[…] cabe à educação patrimonial proceder à escuta e à mediação dos sujeitos sociais portadores de tradições, de saberes e fazeres que, em sua diversidade, constroem atrativos geradores de significação e integradores da identidade e identificação cultural”. Nesse sentido as pesquisas foram apresentadas no eixo patrimônio material da educação, pois as investigações têm atraído interessados no conhecimento e na avaliação da produção intelectual de determinados períodos de nossa história.

CHARTIER, R. Leituras e leitores na França do antigo regime. São Paulo: UNESP, 2004.

FARIAS, E. K. V. A construção de atrativos turísticos com a comunidade. In: MURTA, S. M.; ALBANO, C. (org.). Interpretar o patrimônio: um exercício do olhar. Belo Horizonte: UFMG; Território Brasilis, 2002.

HORTA, M. L.; GRUNBERG, E.; MONTEIRO, A. Q. Guia básica de educação patrimonial. Brasília: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Museu Imperial, 1999.

Joel Martins Luz, CRB-1/2891

Joel Martins Luz, CRB-1/2891
Imagem: Arquivo Pessoal

Docente na Universidade Federal do Mato Grosso – UFMT. Doutorando em Educação na Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP.

Trabalho apresentado:

A Biblioteca histórica e seu espaço de produção: os catálogos da Biblioteca da EE Culto à Ciência de Campinas de 1896 a 1915

Graduei-me em Biblioteconomia em 2008 pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), de lá para cá, minha relação com os acervos de memória tem sido bastante gratificante. Primeiramente, trabalhei por 8 anos em um Instituto de memória legislativa, onde pude vivenciar diversas práticas de tratamento e socialização dos acervos históricos. Quando digo acervos históricos, refiro-me a articulação de diversas fontes documentais, produzidas ou mantidas pelos arquivos, bibliotecas, bem como objetos museais. Em 2011 ingressei no mestrado em educação na mesma universidade, onde pude trabalhar com os documentos escolares, tanto como fonte para a história da educação quanto para a produção dos saberes históricos escolares com alunos e corpo docente de uma determinada escola. A seguir, ingressei na docência na UFMT, onde pude desenvolver outras atividades voltadas aos temas da memória, educação e acervos, sobretudo, incitar meus alunos para esse vasto campo de atuação, ainda pouco explorado por bibliotecários. O campo do patrimônio histórico-educativo, tem se pautado na interdisciplinaridade, estabelecendo as relações necessárias, tanto com nós bibliotecários, como com os arquivistas, museólogos e historiadores, no sentido de reintegrar acervos muitas vezes dispersos e abandonados pelas escolas. Os historiadores da educação têm se ocupado dessas pesquisas, mas é preciso uma maior aproximação dos documentalistas. Atualmente, cursando doutorado em educação na Unicamp, venho me dedicando a bibliotecas históricas escolares, sua materialidade, práticas e patrimonialização, articulado ao projeto de modernização da escola. Fiquei bastante empolgado com o número de bibliotecários presentes no Simpósio Iberoamericano do Patrimônio Histórico-Educativo, em Berlanga de Duero, na Espanha. Foi uma oportunidade de nos aproximarmos e quem sabe, talvez, pensar caminhos para expandir nossos interesses nesse tema tão importante para que nossas escolas se tornem também, lugares de memória.

Rosaelena Scarpeline, CRB-8/2737

Rosaelena Scarpeline, CRB-8/2737
Imagem: Arquivo Pessoal

Doutoranda em História da Arte pelo IFCH-Unicamp. Foi Diretora da Biblioteca do Centro de Memória da Unicamp. Integrante da Comissão Temporária de Patrimônio Bibliográfico e Documental do CRB-8.

Trabalho apresentado:

Professores e preceptoras: a educação doméstica no interior do Estado de São Paulo

O trabalho de recuperação do patrimônio escolar em nosso país é muito recente, as discussões encontradas sobre esse tema sempre remetem ao patrimônio material. O trabalho por mim apresentado no Simpósio está relacionado com o patrimônio imaterial da educação, pois procura pistas que possam validar o trabalho de professores e professoras estrangeiras no Estado de São Paulo, como educadores domésticos, a partir dos anos oitenta do século XIX. A pratica da educação doméstica se estendeu pelo mundo urbano e rural paulista, onde famílias abastadas proporcionavam aos seus filhos e filhas uma educação ampla e bilingue em tempo integral. Podemos afirmar que esse tipo de educação foi responsável por moldar os gostos e comportamentos de toda uma geração, assim como ser a ponte de ligação entre a modernização higienista e social no seio dessas famílias. É necessário recuperarmos os saberes, praticas, técnicas e conhecimentos que esses homens e mulheres transmitiram para se transformarem em referenciais identitários e não apenas fragmentos soltos, em diários esquecidos e, pequenas menções feitas pelos viajantes que circularam pelo Estado de São Paulo durante o século XIX. Nesse sentido, é grande a importância que o patrimônio educacional imaterial traga à tona essas memórias como produção simbólica de um determinado tempo histórico e a transforme em bens culturais que possam ser transmitidos as novas gerações.

Luciana Maria Napoleone, CRB-8/5808

Maria Lucia Beffa, Luciana Napoleone e Fabiano Cataldo
Imagem: Arquivo Pessoal

Bibliotecária no Tribunal Regional Federal da 3ª Região. Coordenadora da Comissão Temporária de Patrimônio Bibliográfico e Documental do CRB-8.

Trabalho apresentado :

Educação patrimonial em bibliotecas: desafios para bibliotecários e bibliotecas de instituições de ensino

Fabiano Cataldo de Azevedo, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO, Maria Lucia Beffa, Faculdade de Direito da USP – FDUSP, e Luciana Maria Napoleone – Tribunal Regional Federal da 3ª Região – TRF3.

A realização desse trabalho foi um processo muito enriquecedor por muitos motivos. De início permitiu a combinação da prática profissional e da experiência em sala de aula. Visão acadêmica e reflexão da prática somadas para pensar o patrimônio educativo como uma expressão do patrimônio bibliográfico e documental. Normalmente separadas, a teoria e a prática puderam ser aproximadas, integradas. E ainda, o trabalho conjunto com colegas é sempre gratificante porque permite identificar, abordar o tema com uma abrangência ou profundidade que dificilmente conseguiríamos sozinhos. O segundo motivo diz respeito ao tema estudado. O patrimônio educativo está diretamente relacionado aos esforços de valorização do bibliotecário e da biblioteca escolar. Conhecer e preservar o patrimônio já existente nas escolas e nas instituições de ensino em geral (edifício, móveis, livros, documentos, práticas, personagens) e fazer da biblioteca (mais) um espaço de sua fruição deve ser uma competência buscada pelos bibliotecários. E ainda pensar a identificação do patrimônio bibliográfico e documental nessas instituições como uma estratégia de sua valorização e preservação. Por fim, a experiência de participação em eventos é essencial para acompanhar as discussões na área, conhecer os pesquisadores e interessados, estabelecer contatos e parcerias. Muitas vezes considerados espaços eminentemente acadêmicos, os simpósios, congressos são também locais de atuação profissional e enriquecimento da formação. Acredito que os eventos são plataforma para emergência da inteligência da coletiva de uma área. Finalizo compartilhando a urgência dos bibliotecários participarem e apresentarem seus trabalhos e reflexões em eventos fora da área da biblioteconomia e ciência de informação.

E ainda um outro trabalho de profissional bibliotecário integrou a programação:

Os cadernos escolares como fonte para a escrita da história da educação

Cesar Augusto de Castro e Samuel Luís Velazquez Castellanos, Universidade Federal do Maranhão – UFMA.

A diversidade dos temas apresentados expressa a riqueza da área para pesquisa e para trabalho. Com a Lei de Universalização das Bibliotecas Escolares, Lei 12.244/2010, os bibliotecários escolares têm a possibilidade de identificar, valorizar e fazer uso do patrimônio educativo de suas instituições. Essa área pode ser mais explorada pelos bibliotecários por meio de um trabalho interdisciplinar com professores, estudantes, pesquisadores e toda a comunidade escolar.

Para mais informações sobre o Simpósio https://sihepe.blogspot.com/p/o-vii-simposio-iberoamericano-historia.html

Para conhecer o CEINCE https://www.ceince.eu/

I Seminário sobre Cultura, Informação, Memória e Patrimônio

O Grupo de Estudos e Pesquisa em Cultura, Informação, Memória e Patrimônio (Gecimp) convida toda a comunidade acadêmica para participar do “I Seminário sobre Cultura, Informação, Memória e Patrimônio” que ocorrerá entre os dias 24 e 27 de setembro de 2019, no Centro de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Federal da Paraíba – Campus I.

O evento é dividido em subtemáticas: InformaçãoMemória, Cultura e Patrimônio; e Informação, Memória e Cultura Gastronômica, atividade que tem como prerrogativa capacidade inexorável para convergir pontos de vista diferentes, multidisciplinares, a partir das categorias que são os eixos norteadores do Gecimp.

A realização do evento deve-se a três objetivos específicos, como cumprir obrigações acadêmicas sobre as categorias investigadas; partilhar e divulgar os resultados obtidos neste estudo; e por último, promover momento de confraternização da comunidade acadêmica.

prazo para inscrições é até o dia 25 de setembro, via formulário online. Não haverá taxa para inscrição, apenas a arrecadação de 2kg de alimentos não-perecíveis para doação a entidades assistenciais.

Para inscrever-se e obter mais informações, acesse o site do Seminári0.

Fonte: UEPB

Colóquio Internacional “Conservação Preventiva do Patrimônio Bibliográfico e Documental: os desafios contemporâneos da memória”

Data: 27/09/2019

Horário: 9:00 – 17:00

Local: BIBLIOTECA MÁRIO DE ANDRADE – Rua da Consolação, 94, São Paulo

Colóquio Internacional

O Colóquio Internacional “Conservação Preventiva do Patrimônio Bibliográfico e Documental: os desafios contemporâneos da memória” pretende realizar um intenso diálogo entre Bibliotecários, Arquivistas, Museólogos, Historiadores e Conservadores-Restauradores tendo como objeto a conservação preventiva em bibliotecas e arquivos.

O encontro reunirá especialistas destas áreas para discutir questões como: gerenciamento de risco, segurança, memória, humanidades digitais e digitalização sob a perspectiva do Brasil, França e Alemanha. Desde pelo menos 1993 as articulações que orbitam entre preservação e memória no contexto do patrimônio bibliográfico e documental têm sido pauta de inúmeras discussões na IFLA (International Federation of Library Associations), UNESCO, ICA (International Council on Archives). No âmbito dessa movimentação, profissionais e instituições vêm buscando levar a matéria para seus países. Diante disto, sentimos a importância de promover num encontro acadêmico entre pesquisadores destas áreas que têm o atuado em frentes que se alicerçam em dois importantes eixos, ou seja, a conservação preventiva e a salvaguarda, nos seus sentidos mais amplos.

As memórias expressas e contidas nos documentos nos ajudam a entender as trajetórias em que vivemos nossas vidas. Elas nos ancoram em um mundo mutável e em continua transformação. O que uma pessoa se lembra da massa de informações que nos cercam, como selecionamos para colocar na memória fatos que julgamos pertinentes.

Nesse sentido, o IFLA Cultural Heritage Programme Advisory Committee traz a reflexão de que “a cultura é uma necessidade básica. Uma comunidade prospera através de sua herança cultural, morre sem ela”. Alerta ainda para o risco que bibliotecas correm em tempos de guerra, de paz, de crise política e social, levando a dissociação e perdas irreparáveis.

Considera-se que profissionais a cultura e patrimônio precisam estar em constante alerta, engajados e articulados entre si com o fim único de salvaguardar documentos que são fundamentais na formação de nossa identidade.

O Colóquio “Desafios Contemporâneos da Memória”, organizado pelo Instituto Francês do Brasil e Goethe-Institut, contando com o apoio do Fundo de Cooperação Franco-Alemã, ao congregar especialistas que estudam os temas abordados, pretende apontar as questões mais trabalhadas e reconhecer temáticas que eventualmente sobre as quais pouco se dedicou.

PROGRAMAÇÃO:

08h30
Credenciamento

09h às 9h15

Abertura – Representantes do Instituto Francês do Brasil e Goethe-Institut e Biblioteca Mário de Andrade

09h15 às 9h30

Introdução ao Evento – Renata Motta

09h30 às 10h15

Gerenciamento de Risco aplicado à Conservação Preventiva em Arquivos

Ulrich Fischer, Chefe do Departamento de Políticas e diretor adjunto do Arquivo Público da cidade de Colônia

A partir das experiências do Arquivo Público da cidade de Colônia, o objetivo desta mesa será uma análise da construção do plano de gerenciamento de risco para um arquivo, incluindo os desafios, particularidades e complexidades de planejamento e execução.

10h15 às 11h00

Climatização em museus, discussão de novo parâmetros

Cecília Winter, Coordenadora do Núcleo de Acervo do Museu de Arte de São Paulo

11h00 às 11h45

A Segurança do Patrimônio Bibliográfico e Documental

Sarah Toulouse – Biblioteca Regional de RENNESEssa mesa se dedicará a discussão acerca de alguns fatores diretamente associados ao risco a segurança dos acervos, bem como vetores associados. Este assunto é compreendido aqui deste o tráfico ilícito até, lato sensu, os desdobramentos negativos advindos da falta de conhecimentos sobre o valor histórico e de pesquisa de coleções em bibliotecas e arquivos.

Mediação: Renata Motta

11h45 às 12h30

Discussão Plenária

12h30 às 13h30

Intervalo para almoço

13h30 às 14h15

Gerenciamento de Risco aplicado à Conservação Preventiva em Bibliotecas

Celine Allain (Biblioteca Nacional da França)

14h15 às 15h00

A gestão de riscos e a gestão de equipes: o papel das lideranças

Andréia Wojcicki Ruberti (Biblioteca Brasiliana)

Discute o papel das lideranças no engajamento das equipes de instituições de patrimônio artístico e cultural no que tange ao gerenciamento de riscos e à colaboração efetiva no salvamento dos acervos em caso de sinistro.

15h00 às 15h45

A experiência da Mário de Andrade

Aline Pettelin (Biblioteca Mário de Andrade)

Essa mesa abordará o trabalho de preservação da Biblioteca Mário de Andrade, com enfoque na área de higienização e acondicionamento do material.

15h45 às 16h30

Discussão Plenária

Mediação: Teresa Cristina Toledo de Paula

Entrada gratuita com inscrição obrigatória

E-mail: biblioteca-saopaulo@goethe.de

Com tradução simultânea

Mais informações: https://www.goethe.de/ins/br/pt/sta/sap/ver.cfm?fuseaction=events.detail&event_id=21647388

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin recebe inscrições para seu programa de residência

A partir do dia 1º de setembro de 2019, pesquisadores podem se inscrever na quarta edição do Programa de Residência em Pesquisa para desenvolvimento de projetos relacionados ao acervo e ao arquivo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM), órgão da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU).

A finalidade do programa é fomentar as ações de pesquisa centradas no acervo e no arquivo da BBM, o aprofundamento do conhecimento científico, a formação dos envolvidos e a transmissão do conhecimento gerado, no âmbito da cultura e da extensão universitária.

O público-alvo são pesquisadores brasileiros e estrangeiros nas categorias sênior, professor licenciado, professor/pesquisador independente ou em disponibilidade parcial para a pesquisa, assim como doutorandos que possuam financiamento próprio e pretendam permanecer de um a seis meses desenvolvendo projetos junto à Biblioteca.

O edital oferece oito vagas, sendo três projetos voltados para a pesquisa do material constante no acervo da biblioteca e relacionado aos temas do projeto 3×22, que promove o confronto de três 22’s: o da Independência, o da Semana de Arte Moderna e aquele que nossa geração vivenciará. Para isso, vale-se do rico material conservado pela BBM para encontrar nos documentos, nos livros e nos autores esquecidos e renegados pelas vertentes dominantes de nossa historiografia as evidências, as perspectivas e as interpretações que possam contribuir para a análise de nossa história.

Outros três projetos voltados para a pesquisa do material constante do acervo da biblioteca que abordem outros recortes temáticos também serão selecionados; bem como um projeto sobre conservação e restauro; e, por fim, um projeto dedicado à pesquisa do material existente no arquivo da biblioteca.

A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM), órgão da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo (USP), possui um dos mais ricos acervos de brasiliana no país, constituída por aproximadamente 60 mil volumes divididos em  quatro principais vertentes temáticas: assuntos brasileiros, literatura em geral, livros de arte, e livros como objeto de arte. Como parte das quatro vertentes temáticas é possível encontrar obras de literatura, de história, relatos de viajantes, manuscritos históricos e literários, documentos, periódicos, mapas, livros científicos e didáticos, iconografia e livros de artistas

O Edital da 5ª edição do Programa de Residência em Pesquisa da BBM pode ser VISUALIZADO OU BAIXADO na íntegra no arquivo abaixo.

Por Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin

Fonte: PRCEU USP

20° curso informativo de preservação de acervos bibliográficos e documentais

Curso Informativo de Preservação de Coleções Bibliográficas e Documentais
Data: 16/09/2019 a 19/09/2019
Estão abertas as inscrições para o 20° Curso Informativo de Preservação de Acervos Bibliográficos e Documentais, que ocorrerá no período de 16 a 19 de setembro.

INSCRIÇÕES

As vagas são limitadas.

FORMA DE PAGAMENTO

O depósito deverá ser feito em nome da Fundação Miguel de Cervantes, CNPJ 05.214.413/0001-92; Banco Santander, agência 3140, conta corrente 13.000.424-2.

Para confirmar a inscrição, o candidato deverá enviar o comprovante do depósito bancário e a ficha de inscrição preenchida para cursodepreservacao@bn.gov.br.

O evento conta com certificado de participação.

O evento é promovido pelo Centro de Processamento e Preservação – CPP e pela Coordenadoria de Preservação – COP da Biblioteca Nacional. Para mais informações, os interessados podem entrar em contato nos números (21) 2220-1973, 2220-1906 e 3095-3830.

PROGRAMAÇÃO

16 de setembro

9h

Abertura oficial do 20º Curso Informativo de Preservação de Acervos

  • Helena Severo – Presidente da FBN
  • Maria Eduarda Marques – Diretora Executiva da FBN
  • Suely Dias – Coordenadora geral do Centro de Processamento e Preservação|CPP
9h15

O Plano de Gerenciamento de Riscos – uma ferramenta de conservação preventiva

  • Jayme Spinelli – Conservador, restaurador, coordenador de Preservação da Biblioteca Nacional. Mestre em Bens Culturais e Projetos Sociais pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil – Fundação Getúlio Vargas. Pós-graduado em conservação e restauração de bens culturais pelo Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais, Escola de Belas Artes , Universidade Federal de Minas Gerais. Pós-graduado em Arqueologia pelo Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro.
10h35

O prédio da Biblioteca Nacional – ações na arquitetura

  • Luiz Antônio Lopes de Souza – Mestre em Arquitetura pelo Pro Arq./UFRJ – Chefe do Núcleo de Arquitetura da Fundação Biblioteca Nacional.
11h35

As mudanças climáticas na Biblioteca Nacional ao longo de 10 anos

Antônio Carlos dos Santos Oliveira – Graduado em Museologia pela UFRJ e Mestre em Arquitetura pela UFRJ. Doutorando no curso de Museologia e Patrimônio na UNIRIO. Consultor em controle climático para Museus e Bibliotecas. Tem experiência na área de Geociências, com ênfase em Meteorologia. Atualmente desenvolve o sistema “CONCLIMAWEB”: análise de risco para a ambiência museológica.

12h30 Almoço
14h

Química aplicada à conservação e à restauração de acervos documentais

  • Profa. Isabel Spitz – Fundadora e Educadora da ChimicArte Projetos Educacionais. Pesquisadora, Mestre em Química (PUC-Rio). Doutoranda em Química, UFRJ. Desenvolve pesquisa na área de Química, com ênfase em Química do Estado Sólido/Química Inorgânica, atuando principalmente nos seguintes temas: síntese inorgânica, reações no estado sólido, caracterização de materiais. Recebeu, em 2012, o Prêmio Marie Curie de Produções Científicas pelo trabalho Química e Arte: uma articulação mostrada através de mapas conceituais.
15h35

Palestra: O Plano Nacional de Microfilmagem de periódicos brasileiros

  • Vera Lúcia Garcia Menezes – Bibliotecária e Coordenadora de Microrreprodução da Biblioteca Nacional e do Plano Nacional de Periódicos Brasileiros.
16h35

Do daguerreotipo à imagem digital

  • Prof. Joaquim Marçal Ferreira de Andrade – Coordenador da Biblioteca Nacional Digital | BNDigital. Coordenou o projeto de resgate da coleção de fotografias doada pelo imperador D. Pedro II / hoje inscrita no Registro Internacional do Programa Memória do Mundo, da Unesco. Mestre em design e doutor em história social, é professor de fotografia da PUC-Rio e da UCAM. Curador de exposições, perito judicial em fotografia e artes gráficas, é autor de ensaios sobre a história da fotografia, das artes gráficas e do design.

17 de setembro

9h Conservação e restauração hoje

  • Profa. Maria Luiza Soares – Conservadora-restauradora, Especialista em Papel certificada pela ICCROM /Itália, Mestre em Ciência da Informação com concentração em Conservação e restauração pela Universidade de Colúmbia/USA, Doutora em conservação e restauração pela Universidade P. Valencia /Espanha. Profa. do Curso de conservação e restauração da Escola de Belas Artes da UFRJ.
10h

Análises científicas em artefatos do Patrimônio Histórico Nacional

  • Prof. Renato Pereira de Freitas – Graduado em física com mestrado e doutorado em física nuclear aplicada. Bolsista Jovem Cientista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro – FAPERJ. Atua na análise de artefatos do patrimônio histórico cultural, empregando diferente técnicas físico-químicas de análise. Traduziu dezenas de trabalhos neste campo de pesquisa, apresentados em conferências e periódicos científicos nacionais e internacionais. Recentemente, retornou do estágio pós-doutoral no grupo Italiano MOLAB, onde atua realizando análises in situ por diferentes técnicas físico-químicas em acervos de museus europeus, tendo, nessa ocasião, trabalhado na análise científica de obras de arte conhecidas mundialmente como “O Grito” de Edvard Munch.
11h

Os metais e suas ligas e os bens culturais: preservação, conservação e restauração

  • Prof. Marcus Granato – Graduado, mestre e doutor em Engenharia Metalúrgica e de Materiais /UFRJ. É tecnologista sênior do Museu de Astronomia e Ciências Afins. É professor e vice-coordenador do curso de mestrado profissional em Preservação de Acervos da C&T (MAST) e do Programa de Pós-Graduação (mestrado e doutorado) em Museologia e Patrimônio (UNIRIO/MAST). É editor científico do periódico eletrônico Museologia e Patrimônio; consultor ad-hoc do CNPq, da FAPESP, da CAPES, da CYTED, da FAPERJ e da Swiss National Science Foundation. Bolsista de produtividade 1C do CNPq e secretário do Comitê Internacional para Museus e Coleções Universitários (UMAC) do ICOM. Tem experiência na área de Museologia, com ênfase em conservação de objetos culturais metálicos e patrimônio cultural da ciência e da tecnologia.
12h Almoço
13h30

Apresentação de procedimentos de conservação e encadernação do acervo da Biblioteca Nacional

  • Gilvânia Faria de Lima – Conservadora-restauradora. Chefe do Centro de Conservação e Encadernação da Fundação Biblioteca Nacional. Mestre em Bens Culturais e Projetos e Sociais (CPDOC/FGV). Integrante da Câmara Técnica de Preservação de Documentos (Grupo de Segurança) do Conselho Nacional de Arquivos/CONARQ. Linhas de pesquisa: Conservação preventiva, preservação, exposição e memória de obras de arte sobre papel.
15h35

Apresentação de procedimentos de restauração de documentos e encadernação de livros raros do acervo da Biblioteca Nacional

  • Jandira Flaeschen – Mestrado e Especialização em Preservação de Acervos de Ciência e Tecnologia (MAST/2009 e 2017), graduada em Conservação e Restauração de Bens Culturais (Universidade Estácio de Sá/2007). Funcionária da Biblioteca Nacional desde 2010, atualmente, é Chefe do Laboratório de Restauração.

18 DE SETEMBRO

A turma será dividida em grupos para as visitas:

  • Grupo 1 – visitantes
  • Grupo 2 – Funcionários da Biblioteca Nacional
9h às 12h Visita técnica ao Centro de Conservação e Encadernação/CCE Grupo 1
12h às 13h30 Almoço
13h30 Visita técnica à seção do Laboratório de Restauração Grupo 1
17h Lançamento do livro técnico Encadernação flexível em pergaminho em obras restauradas na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, de Tatiana Ribeiro Christo, conservadora e restauradora.

19 DE SETEMBRO

9h às 12h Visitas à Coordenadoria de Microfolmagem e ao Laboratório de Digitalização Grupo 1
10h às 12h Visita ao CCE e ao Laboatório de Restauração Grupo 2
12h às 14h30 Almoço
14h30 às 16h Visitas à Coordenadoria de Microfilmagem e ao Laboratório de Digitalização Grupo 2

Informações complementares: O evento conta com certificado de participação. As inscrições para o evento estão abertas e as vagas são limitadas.

Local

AUDITÓRIO MACHADO DE ASSIS

Rua México s/nRio de Janeiro, RJ20031-144

Jornada do Patrimônio promete resgatar memórias do povo Paulista

Neste final de semana (17 e 18/08) a cidade de São Paulo revisitará sua história por meio do programa Jornada do Patrimônio 2019 da Prefeitura em parceria com o Sesc SP. Serão mais de mil atividades gratuitas espalhadas em cerca de 500 pontos da Capital Paulista.

Esta é considerada a maior edição do evento. A programação oferece mais de 400 roteiros históricos, 300 visitas a imóveis tombados, 210 oficinas e 50 sessões de cinema do Circuito Spcine, com documentários realizados com investimento da Secretaria da Cultura para o programa “História dos Bairros de São Paulo”. Confira a programação completa no site.

De acordo com a gestão municipal, os temas dos roteiros apresentam abordagens diversas quanto às memórias paulistanas. O evento é um momento importante de ampliação e intensificação do sentido de pertencimento, da vinculação afetiva à cidade e do respeito e valorização da diversidade cultural.

Confira a programação da zona norte

Biblioteca de São Paulo | Av. Cruzeiro do Sul, 2630 – Santana

  • Construindo Memórias – Sábado, às 9h

  • Memória ressignificada: um passeio pelo Parque da Juventude – Sábado, às 10h

  • Redesenhando o espaço – Sábado, 14h

Sesc Santana | Av. Luiz Dumont Villares, 579 – Santana

  • Roteiro “Lugares de brincar: espaços de brincadeiras e memórias” – Domingo, 9h

Metrô Carandiru | Av. Cruzeiro do Sul, 2487

  • Caminhos do Carandiru – Sábado, às 9h e às 16h

Metrô Santana | Av. Cruzeiro do Sul, 3173

  • Santana: entre fé, força pública e maçonaria – Sábado, 13h

Casa de Cultura Vila Guilherme (Casarão) | Praça Oscar da Silva, 110 – Vila Guilherme

  • Da Sesmaria a Vila Guilherme – Sábado, 19h e Domingo, 10h

  • Oficina Cianotipia do Patrimônio – Sábado, às 9h

  • Resgatando Memória (Reencontro de ex-alunos do Casarão) – Sábado, 11h;

  • Festival Molungu – Domingo, das 16h às 21h

Casa de Cultura Salvador Ligabue | Largo da Matriz de Nossa Senhora do Ó, 215

  • Roteiro pelo bairro da Freguesia do Ó – Sábado, 10h

Casa de Cultura do Tremembé | R. Maria Amália Lopes Azevedo, 190 – Tremembé

  • Teatro: Baú das histórias – Domingo, 16h

Museu do Jaçanã | Rua Benjamin Pereira, 1021 – Jaçanã

  • Jaçanã, outros olhares – Sábado, 9h

Biblioteca Álvares de Azevedo | Praça Joaquim José da Nova, s/n

  • Caminhada “Amor Tombado” – Sábado, às 15h e Domingo, às 14h

  • Passeio cultural “Caça Noturno” – Sábado, às 19h

  • Passeio cultural “Caça Tombo” – Sábado, às 14h

Largo da Matriz de Nossa Senhora do Ó

  • Cortejo de Memória da Norte” – Domingo, às 13h

Parque do Trote | Av. Nadir Dias de Figueiredo, s/n

  • Caminhada do Trote – Domingo, às 9h e às 11h (Encontro: Portaria 1 do Parque do Trote)

Parque Anhembi | Av. Olavo Fontoura, 1209

  • Visita ao Parque Anhembi – Sábado, 10h e 15h e Domingo, 10h

Coreto de Dominó | Rua João Cordeiro – Freguesia do Ó

  • Percorrendo os coretos de dominó da Freguesia do Ó – Sábado e Domingo, 9h

Paróquia Nossa Senhora da Candelária | Praça Nossa Sra. da Candelária, 1 – Vila Maria Baixo

  • Histórias de Bonde – Sábado, 10h e Domingo, 14h

Paróquia Sant’Ana| R. Voluntários da Pátria, 2060 – Santana

  • Santana: 3 séculos em 3 horas – Sábado, 9h e 16h

Paróquia Santa Cruz | Av. Santa Inês, 2229 – Parque Mandaqui

  • Trem das 11 – Estação Pedra Branca – Sábado, 9h e 14h

CEU Jaçanã | R. Francisca Espósito Tonetti, 105 – Jardim Guapira

  • Exibição do documentário Jaçanã e o Adoniran -Domingo e Quarta (21), 17h

Sítio Morrinhos – Museu da Cidade | Rua Santo Anselmo, 102 – Jardim São Bento

  • Oficina Arqueologia da memória – Sábado, 14h e Domingo, 10h

  • Oficina Observação do céu – Sábado, 15h

  • Oficina Sítio Mirim no Sítio Morrinhos: “Memórias da Penumbra” – uma experiência sensorial com lamparinas – Domingo, 15h

Escola Estadual Padre Antônio Vieira | Av. Cruzeiro do Sul, 3301 – Santana

  • Visita a Escola Estadual Padre Antônio Vieira – Sábado, 9h

Fonte: Jornal SP Norte

Biblioteca Mário de Andrade expõe cordéis históricos

Estadão Conteúdo

Depois de apresentar obras raras escritas por mulheres e livros para crianças também raros, de seu acervo, a Biblioteca Mário de Andrade se volta, agora, à literatura de cordel e exibe, pela primeira vez, parte da coleção de seis mil folhetos de cordel adquirida em 2015 do embaixador Rubem Amaral Jr. Até essa aquisição, a biblioteca contava com 330 folhetos.

Cordel – A História dos Folhetos Nordestinos no Acervo da Mário será aberta no dia 6, às 19h, com uma conversa entre os cordelistas cearenses Jarid Arraes e Moreira de Acopiara com mediação de Rita Palmeira, e poderá ser visitada até o dia 30 de agosto na Sala do Pátio.

Reconhecido em 2018 como patrimônio cultural imaterial brasileiro pelo Iphan, o cordel feito aqui é diferente daquele que surgiu na Europa no século 15 e continuou popular em Portugal e na Espanha nos séculos seguintes, embora seja influenciado por ele. Lá, eles são escritos em prosa. Aqui, quase sempre em verso – isso porque ele se desenvolveu com os cantadores de viola e repentistas no Nordeste.

Essas diferenças, curiosidades com relação à sua origem, a chegada ao Brasil, seus momentos mais emblemáticos no País, os temas e os principais nomes do gênero o visitante conhece no texto dos curadores Joana Morena de Andrade e Rizio Bruno Sant’Ana, que acompanha as três vitrines com as publicações históricas.

Na primeira delas, estarão folhetos portugueses e espanhóis – e brasileiros que adaptaram algumas dessas histórias. Um exemplo. Veremos História do Imperador Carlos Magno e dos Doze Pares de França, impresso no Porto em 1881; A Batalha de Oliveiros com Ferrabraz (parte da história do primeiro), impresso em Juazeiro do Norte em 1951; e de novo A História de Carlos Magno e os Doze Pares da França, feito no Rio provavelmente em 1980.

O folheto mais antigo da exposição, que é também o mais antigo do acervo da Biblioteca Mário de Andrade, é de 1692: Marquez de Mantua – Tragédia do Marquez de Mantua, & do Emperador Carlos Magno.

A segunda vitrine será dedicada à editora Guajarina, do Pará, que publicou cordéis primeiro como suplemento de sua revista e, depois do sucesso deles, como edições avulsas, entre o início e meados dos anos 1900. Lampião aparece em vários deles – e abre caminho para a terceira vitrine, com obras sobre o cangaço e questões sociais.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Fonte: ISTOÉ

Exposição “Vozes dos Livros” traz livros raros da Coleção de Ema Klabin em São Paulo

Texto por Cristina Aguilera

De 17 de julho a 1º  de setembro , das 14h às 18h, a Casa-Museu Ema Klabin promove a segunda edição da Exposição “Vozes dos Livros”.  Durante a programação, os visitantes poderão conhecer livros raros que fazem parte da coleção de Ema Klabin e ouvir trechos dos mesmos durante a visita .Será possível prestigiar desde um Programa de inauguração do  Teatro Maria Della Costa até obras raras de:  Jean-Baptiste Debret (Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil), Mario de Andrade (Macunaíma –Cem Bibliófilos do Brasil – com ilustrações de Carybé), Jorge de Lima (Poemas Negros,  com ilustrações  de Lasar Segall), Simone de Beauvoir (La Femme Rompue –  ilustrada pela irmã Hélène de Beauvoir  e com dedicatória da autora para Ema Klabin), entre outras.

Foto: Divulgação

Com o tema “Identidades Paulistanas: O que eu trago? O que eu Levo”, a exposição percorre diferentes narrativas de construção de São Paulo que transitam entre a literatura e as antigas livrarias da cidade, o teatro, o costume de se corresponder por cartas com os entes distantes, a atuação da mulher na vida intelectual da cidade, a presença indígena e das populações negras em obras como Macunaíma, nos poemas de Jorge de Lima, em Câmara Cascudo ou em Cecília Meireles.

Investigando essa vasta Coleção em sua diversidade linguística e estilística encontramos vozes que falam dos paulistanos, e sua diversidade. São Paulo de muitos idiomas, que agregou muitas formas de ser e viver trazidos de países distantes ou de outros estados, das populações indígenas originárias ou das populações negras que vieram escravizadas.

Foto: Divulgação

Instalações sonoras:

A cada cômodo da casa de Ema Klabin  o público vai se surpreender com instalações sonoras com trechos marcantes de livros da coleção de Ema Klabin.

Os textos foram gravados em uma curadoria minuciosa pela  equipe técnica do museu. Trechos de obras  de Bertolt Brecht, Câmara Cascudo, Jean Baptiste Debret, Cecília Meireles, entre outros,  poderão ser apreciados.

A ideia da Exposição Vozes dos Livros” é por meio de instalações sonoras que apresentam trechos de livros,  emprestar a voz para tantas outras vozes que vivem nessa incrível coleção de Ema Klabin. Também queremos convidar cada um dos visitantes a somar a sua voz e sua história a nossa. E refletir sobre o que a gente traz e o que a gente leva das nossas relações aqui em São Paulo”,  explica a coordenadora do setor educativo da Fundação Ema Klabin, Cristiane Alves.

A programação contará também com oficinas e visitas fomentando um espaço de troca e diálogo entre a exposição e seus visitantes

Serviço:

Exposição “Vozes dos Livros” na Fundação Ema Klabin:

Data: 17 de julho a 1º  de setembro – De 4ª a domingo

Horário: das 14h às 18h

Entrada :  Sábados, domingos e feriados:  entrada franca. De  4ª a  6ª : R$10  – Sem agendamento

Local: Fundação Ema Klabin   – Endereço:  Rua Portugal, 43, Jardim Europa, São Paulo  http://emaklabin.org.br/   Fone : 3897- 3232

Não há estacionamento no local

Fonte: Surgiu

PROJETO DE PRESERVAÇÃO DE OBRAS RARAS DO TRT/RJ PODERÁ SER EXPANDIDO PARA TODA A JUSTIÇA DO TRABALHO

Uma proposta do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região (TRT/RJ) para a preservação de livros e periódicos raros e especiais poderá ser expandida para toda a Justiça do Trabalho. Trata-se do projeto “Acervo Bibliográfico Histórico da Justiça do Trabalho”, que foi proposto pelo desembargador Marcelo Antero de Carvalho ao Comitê Gestor do Programa Nacional de Resgate da Memória da Justiça do Trabalho (CGMNac-JT).

O objetivo geral do projeto é identificar, preservar e divulgar o acervo raro ou especial existente nas bibliotecas, pertinente à história da Justiça do Trabalho e ao Direito do Trabalho, contribuindo para a preservação da memória da instituição. O projeto prevê também a criação de um catálogo coletivo, que consolide as informações sobre o acervo de obras raras disponíveis em todos os tribunais trabalhistas.

O projeto foi apresentado ao Comitê em 2018 e, desde então, o tema vem sendo discutido nas reuniões do grupo. Na última reunião do CGMNac-JT, realizada no mês de maio deste ano, a proposta foi aprovada pelo coordenador do Comitê, ministro Ives Gandra da Silva Martins Filho. O magistrado deve submeter ao presidente do Conselho Superior da Justiça do Trabalho (CSJT) e do Tribunal Superior do Trabalho (TST) a minuta de um ato que, se aprovado, vai orientar as bibliotecas de toda a Justiça do Trabalho na identificação, preservação e divulgação do acervo bibliográfico histórico do Judiciário trabalhista.

Uma das ações decorrentes do projeto apresentado pelo TRT/RJ foi realizada no final do mês de junho: o curso “Gestão de Acervos Raros e Especiais”, promovido pelo Tribunal Superior do Trabalho, reuniu bibliotecários e outros servidores de diversos tribunais trabalhistas. Durante o curso foram discutidos critérios para seleção de um acervo bibliográfico histórico da Justiça do Trabalho. A biblioteca do TRT/RJ não só participou do treinamento, como também vem trabalhando em conjunto com a biblioteca do TST para o desenvolvimento da proposta em âmbito nacional.

CURSO NO TST1
Gestão de acervo raro: curso promovido pelo TST

SAIBA MAIS SOBRE O CGMNac-JT

Instituído em 2011, durante as comemorações dos 70 Anos de instalação do judiciário trabalhista, o CGMNac-JT tem entre seus objetivos o de auxiliar na formulação de políticas e planos estratégicos voltados ao resgate da memória da Justiça do Trabalho, pertinentes a acervos arquivísticos, bibliográficos e museográficos, além de fomentar a pesquisa de temas relacionados à história e à evolução do Direito do Trabalho e da Justiça do Trabalho. O desembargador do TRT/RJ Marcelo Antero de Carvalho magistrado compõe o Comitê como representante da região sudeste.

Fonte: TRT1-RJ

Livro colorido mais antigo está disponível online

Com ilustrações em estilo aquarela, o manual foi lançado em 1633 e pode ser acessado no site da biblioteca da Universidade de Cambridge

O LIVRO COLORIDO FOI DIGITALIZADO E DISPONIBILIZADO NA INTERNET (FOTO: DIVULGAÇÃO/UNIVERSITY OF CAMBRIDGE’S DIGITAL LIBRARY)

Muito antes dos livros supercoloridos que encontramos nas livrarias hoje, uma artista chinesa chamada Hu Zhengyan inventou uma técnica conhecida como douban, uma forma de xilogravura policromática que levou à criação do livro multicolorido impresso mais antigo do mundo.

Chamado de Shi zhu zhai shu hua pu (Manual de Caligrafia e Pintura, em português), o livro de 1633 é descrito como “o mais belo conjunto de impressões já feitas” pela biblioteca da Universidade de Cambridge. E o melhor: agora ele está disponível na internet.

A obra – criada originalmente para ser um manual para professores – contém 138 páginas de figuras coloridas de 50 artistas e calígrafos diferentes, além de 250 páginas de texto. O método pelo qual a artista produziu o impressionante artefato envolve o uso de vários blocos de impressão que sucessivamente aplicam diferentes tintas coloridas ao papel para reproduzir o efeito da pintura em aquarela.

O livro foi mantido intocado nos cofres mais seguros de Cambridge e só foi aberto pela primeira vez há apenas alguns anos. Essa cópia é a única na versão completa, com encadernação original e em bom estado. Uma cópia incompleta foi adquirida em 2014 pela Biblioteca Huntington em San Marino, Califórnia, nos EUA.

O MANUAL CHINÊS DE CALIGRAFIA E PINTURA FOI LANÇADO EM 1633 (FOTO: DIVULGAÇÃO/UNIVERSITY OF CAMBRIDGE’S DIGITAL LIBRARY)

Esse é considerado “um dos livros ilustrados historicamente e artisticamente mais importantes da xilogravura chinesa do século XVII”, disse Liesl Bradner ao jornal LA Times. Segundo ele, os textos de Hu Zhengyan refletem uma época em que os níveis de alfabetização estavam surgindo. Junto com eles veio uma “crescente demanda dos consumidores para a palavra impressa e imagens, o que inaugurou uma era dourada da pintura pictórica chinesa.”

O MANUAL TEM 388 PÁGINAS COM ILUSTRAÇÕES DE CINQUENTA ARTISTAS (FOTO: DIVULGAÇÃO/UNIVERSITY OF CAMBRIDGE’S DIGITAL LIBRARY)

Fonte: GALILEU

O destino das bibliotecas particulares que se tornaram públicas

Texto por Bruno Thys

(Foto: Divulgação Biblioteca Brasiliana Mindlin – Guita e José)

Dia desses, recebi um e-mail com uma lista das mais incríveis bibliotecas do planeta: a de Praga, a Real Biblioteca de Dinamarca, a de São Marcos, em Veneza, a da Universidade de Coimbra, o nosso Real Gabinete Português de Leitura, joia arquitetônica do Rio, entre outras. A mensagem incluía fotos muito bonitas e pensei no esforço de tanta gente, por tantos anos, para criá-las e trazê-las aos nossos dias. São instituições, quase todas centenárias, de países que enfrentaram guerras, catástrofes, crises financeiras etc.

Enquanto me deliciava com o conteúdo do e-mail, pensei também nos esforços individuais para formar bibliotecas particulares. Meu pai, por exemplo, dava a vida por sua bela biblioteca de perfil afrancesado – recheada de obras de Balzac, Flaubert, Moliére, e Maupassant -, que ocupava o principal cômodo de nossa casa, em Copacabana. No fim da vida ele a doou ao Colégio Pedro II, onde estudou.

Era um santuário desenhado para ser, de fato, uma biblioteca caseira, com estantes, cadeira e luzes apropriadas à leitura. Todos os que a conheceram ficavam, de alguma forma, impactados. A quantidade e a organização dos livros dentro de um apartamento, era, é e será sempre algo raro e marcante.

Nada, porém, se comparava à catedral erguida, livro a livro, por José Mindlin, o grande bibliófilo brasileiro. Dono da Metal Leve – uma das maiores fábricas de peças para a indústria automobilística -, Mindlin, com apoio de Guita, sua mulher, dedicou a vida a reunir as mais importantes obras já editadas no mundo sobre o Brasil.

Ele mantinha em sua casa, no Brooklin, algo em torno de 40 mil volumes: livros raros sobre a formação do país, escritos por viajantes que aqui aportaram; os primeiros mapas, diários e originais de obras centenárias, ilustradas manualmente sobre fauna e flora, entre tantas outras raridades. Fazem parte do acervo o texto de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, datilografado e com correções à mão, além das primeiras descrições do Brasil de André Thevet e Jean de Léry.

Não tive o privilégio de conhecer Mindlin pessoalmente; lia e assistia com interesse suas entrevistas e ouvi de Alberto Dines, mestre de várias gerações de jornalistas, relatos sobre a biblioteca. Os dois eram grandes amigos e Dines frequentava a casa do Brooklin também como pesquisador. Ele se referia ao Mindlin simplesmente como “Zé”.

A vida de José Mindlin girava em torno de sua biblioteca, organizada em quatro grandes segmentos: assuntos brasileiros, literatura, arte e livros como objeto de arte. No início dos anos 2000, já com mais de 80 anos, ele decidiu doá-la à USP, o que seria formalizado só em 2006 – quando foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. A burocracia fez de tudo para atrasar o sonho de Mindlin. Doar um bem privado a uma instituição pública no país exige infinita persistência e santa paciência.

Não fosse a burocracia, Mindlin teria presenciado a derradeira e mais importante parte de sua obra: a abertura ao público da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, em março de 2013, num prédio especialmente construído pela USP, na Cidade Universitária, para abrigá-la em sua integralidade. Ele faleceu três anos antes da inauguração. Desnecessário dizer que é visita obrigatória para quem gosta de livros, de Brasil, de história, de pesquisa e, sobretudo, de grandes exemplos.

Mindlin poderia fazer o que bem entendesse com sua fortuna – foi um dos homens mais ricos do país – e decidiu, na adolescência, formar uma biblioteca, sonho acalentado com Guita, sua companheira desde a Faculdade de Direito, que morreu em 2006. Aliás, a paixão de Guita pelos livros levou-a a montar um laboratório na casa do Brooklin para recuperar, encadernar, conservar e manter a biblioteca impecável.

Foram oitenta anos de garimpo, que incluíram um sem número de viagens em busca de raridades, visitas regulares a sebos e contatos com caçadores de preciosidades em várias partes do mundo. O resultado de tamanho esforço é simplesmente espetacular, principalmente num país em que a memória e a cultura recebem pouca atenção. Conhecer a biblioteca dos Mindlin é reverenciar o melhor do esforço humano em favor da sociedade.

“Nunca me considerei o dono desta biblioteca. Eu e Guita éramos os guardiães destes livros, que são um bem público”, disse Mindlin, no ato da doação, justificando o sentido de sua paixão e obra. Embora more no Rio, distante portanto da Biblioteca Mindlin, toda vez que a visito fico em dúvida se é a relevância do acervo ou o belíssimo exemplo do casal o que mais me emociona.

Ao manusear cada obra da Brasiliana dos Mindlin, imagino o trabalho e alegria do colecionador ao encontrá-la, reuni-la e oferecê-la a seus verdadeiros donos: os leitores e pesquisadores interessados na formação do Brasil. Difícil saber o que despertou, em Mindlin, o desejo de fazer da coleção de livros um projeto de vida. Arriscaria dizer que, como meu pai, Mindlin era filho de imigrantes, nasceu em 1916 e se apaixonou tanto pelo país que foi buscar nas fontes originais a história e as histórias do Brasil.

Ele achou muito mais do que buscava: Mindlin declarava ter lido 7 mil dos quase 40 mil títulos de seu acervo. E nisso residia uma questão que tirava seu sono. Para ele, seus livros só faziam sentido juntos: o valor da biblioteca estava no conjunto dos títulos, e não em volumes ou coleções isoladas. Nesse sentido, a doação à USP representava a eliminação do risco de desmembramento do acervo.

A USP, aliás, pegou o bastão e fez sua parte. Além de biblioteca, o lugar funciona como um ativo centro de cultura, pesquisa e produção de conhecimento sobre livros e o Brasil. Há eventos, debates, cursos, exposições e tantas outras atividades regulares. Parte do acervo também pode ser acessada através de buscas digitais, processo iniciado por Mindlin e Guita quando os livros ainda estavam no Brooklin.

Embora não fossem vaidosos, é impossível que José e Guita não tivessem orgulho do que legaram ao país. É um case de contribuição humana e merece ser sempre lembrado. Por falar em lembrança, quem sabe eu não receba em breve um novo e-mail com a relação de importantes bibliotecas privadas que se tornaram públicas, como a de Guita e José Mindlin?

Fonte: OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

VI Seminário Internacional: A Arte da Bibliografia

O Programa de Pós-Graduação em Gestão da Informação da Universidade do Estado de Santa Catarina (PPGInfo / UDESC) em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Santa Catarina (PGCIN / UFSC) promoverão o VI Seminário Internacional A Arte da Bibliografia que será realizado nos dias 05 e 06 de dezembro de 2019.

VI Seminário Internacional A Arte da Bibliografia: das condições materiais e epistêmicas aos dilemas socioculturais

Data: 05 e 06 de dezembro de 2019

Local: Auditório Tito Sena – Térreo – FAED/UDESC – Florianópolis / SC

O prazo para submissões de trabalhos é 15 de agosto de 2019 e as inscrições, bem como demais informações podem ser consultadas no site do grupo de pesquisa Ecce Liber (https://www.ecceliber.org/a-arte-da-bibliografia)

Modelo submissão: https://drive.google.com/open?id=1lGOVrs78F7oFnG7fSpsK3Sy5Rxdwm1yk

Oficina Patrimônio Cultural e sua preservação

O município de Cotia abriga no seu território um amplo patrimônio cultural como os grupos de catira, congada, cavalgadas, folias de reis e romarias, além dos  grupos  religiosos de  matrizes  africanas e os artistas (  escritores, poetas, pintores, escultores e músicos) da  região,  em conjunto com os dois típicos exemplares da arquitetura rural colonial paulista – o Sítio do Padre Inácio e o Sítio do Mandú,  e a Reserva Florestal do Morro Grande, esses últimos bens patrimoniais tombados pelo IPHAN e pelo CONDEPHAAT nas décadas de 50, 60 e 80.

Com a intenção de sensibilizar e debater sobre o  patrimônio  cultural do município e  da  região e com o apoio da Secretaria da Cultura do Município de Cotia no dia  03 de  julho,  às 10hs na Biblioteca Batista Cepelos , acontecerá  a  oficina “Patrimônio Cultural e sua preservação”, com a Historiadora Deborah Regina Leal Neves e o Arq. José Antônio Chinelato Zagato,  técnicos do CONDEPHAAT ( Conselho de  Defesa  do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de  São Paulo) em que será apresentada informações  sobre o tema, as diversas possibilidades de preservação do patrimônio, legislação e instrumentos de proteção, entre outros.

Contamos com a presença  de todos(as)  interessados(as)  em preservar o patrimônio cultural da região.

Quando: 03 de julho de  2019 ( quarta-feira)

Horário: às 10hs.

Local : Biblioteca Batista Cepelos Av. Prof. Manoel José Pedroso, 1147 – Parque Bahia, Cotia – SP, 06717-100

Contato: (11) 4616-0466

Gratuito

Prosa Para Bibliófilos

O mercado é restrito e negócios na área demandam dispender boas somas de dinheiro.

Há alguns anos, lembro-me de ter ouvido de uma professora que o mercado dos livros e autores funcionam como ações de empresas nas bolsas de valores. Ainda segundo ela, aquele que investisse em Victor Hugo certamente faria proveito de bons rendimentos. Falávamos, é claro, da literatura francesa. No Brasil, encabeçando o peloton de tête acho difícil não apostar em Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Drummond e outros, seguidos, é claro, por uma multidão que a poeira do tempo se encarregara de apagar, nos quais, é evidente, não apostaria meus parcos caraminguás, até mesmo porque muitos dos talentosrecentes têm sido listados entre grandes nomes da literatura em razão da onda multiculturalista, que nos tem empurrado goela abaixo muita mosca em meio à sopa.

Por isso, interessou-me uma reportagem publicada este mês no Le Monde sobre a ascensão da bibliofilia. A jornalista Roxana Azimi traça um perfil das ações do bibliófilo, que, discreto e silencioso, tem aquecido o mercado de raridades, inflacionando os leilões de livros antigos, enquanto o setor editorial sofreu queda – na França e no Brasil – no ano de 2018.

O mercado é restrito e negócios na área demandam dispender boas somas de dinheiro. Druout, um portal de leilões, afirma que não se passa uma semana sem que realizem a venda de um exemplar raro e procurado por bibliófilos. A Sotheby’s, líder neste mercado de leilões, ofereceu em 18 de junho uma cópia da Histoire naturellede Buffon, acompanhada de algumas obras ilustradas modernas. Sua rival, a Christie’s oferecerá de 3 a 5 de julho, a formidável biblioteca de Paul Destribats, falecido em 2017.

A bibliofilia é um campo tão vasto que os colecionadores padecem de embarras de richesse, qual seja, o excesso de oferta de obras de excelente qualidade. “Paul Destribats era apaixonado pela vanguarda do século XX, até a obsessão sem dúvida; Pierre Leroy, do Grupo Lagardère, vendeu sua biblioteca surreal em 2002 e seus livros de Baudelaire e Proust, em 2007; hoje, afirma Adrien Legendre, da Christie, ele está preocupado com Camus e Sade. Alguns colecionam incunábulos [obras datadas de antes de 1500], outros impressões góticas do século XVI, e, às vezes, dentro dessas especialidades, ainda pode-se reduzir o campo de coleta selecionando um país, uma impressora, um ilustrador.”

A literatura francesa, também por embarras de richesse é parte do que se oferece aos leões. Os melhores nos quais apostar? Hugo, Rimbaud, Baudelaire, Flaubert e Proust, “autores universais que, modernos em sua época, ainda são hoje”, afirma Benoît Puttemans, especialista da Sotheby’s. “Para estes escritores, quase toda edição original é procurada e é difícil não vender uma cópia das Flores do mal, de Baudelaire, se for corretamente apreciado”, diz Adrien Legendre.

Tomemos o caso de Proust. A Sotheby’s vendeu em 2013, por 650.000 euros, uma das cinco cópias em papel japonês de Du côté de chez Swann, enriquecida por uma correspondência para o escritor Lucien Daudet. Em 2018, este volume, comprado entretanto por Pierre Bergé, foi vendido por quase 1,5 milhões de euros. “Por outro lado, diz Benoît Puttemans, o mercado de autores clássicos como Gide e Giraudoux, para não falar de Anatole France, que era uma das estrelas de vendas do início do século XX, não é o que era”. Autores que aparecem em programas escolares como Lamartine, ou regularmente no teatro, como Claudel, não são populares nos leilões.

Difícil, no entanto, desenhar generalidades. Com o mesmo autor, os preços podem variar completamente. As primeiras obras de Gide são, portanto, mais procuradas do que as posteriores, cujo oferta é mais abundante. Se a Sotheby’s vendeu em 2015 por 11.250 euros uma cópia do Poésies de André Walter, oferecido por Gide a Mallarmé, outros tantas edições originais da mesma obra mal chegam a 100 euros, prova de que a dedicatória tem seu preço.

Embora os colecionadores tenham seu próprio hobby, todos correm atrás do mesmo melro, a Bíblia de Gutenberg, o primeiro livro impresso. “As cópias são tão raras que uma única página pode valer dezenas de milhares de euros”, observa Benoît Puttemans. Outro Graal? Um manuscrito de Molière que ninguém encontrou até hoje, ou uma antiga edição de Shakespeare. A edição de 1623 das obras do dramaturgo inglês atingiu 2,8 milhões de libras esterlinas (cerca de 3,2 milhões de euros) em 2006 na Sotheby’s.

Você não precisa ser um milionário para comprar livros raros. A chamada literatura “popular” é cheia de oportunidades. Desde sua entrada na “Biblioteca da Pléiade”, Georges Simenon excedeu largamente a categoria de romances de estação, mas seus preços permanecem modestos, entre 150 e 500 euros para uma edição original numerada, menos para uma edição original recém publicada. “Mas pode ir até 5 mil euros se essas edições forem enriquecidas por correspondências ou por raridades, como a edição americana de Maigret”, diz Benoît Puttemans.

Nas livrarias, os livros de Michel Houellebecq em papel especial são tomados de assalto. Por enquanto, essas cópias raramente aparecem em leilão. Uma edição original em papel especial de La Carte et le Territoire, publicado em 2010, foi leiloado 4,802 euros no Artcurial em 2018. “Um livro, cuja publicação não excedeu 200 cópias é mais fácil de se tornar raro, com um capa singular, uma dedicação ou uma gravura que um livro publicado com 5.000 ou 10.000 exemplares”, observa Adrien Legendre.

Uma regra que se contradiz se observarmos alguns sucessos anglo-saxões como Harry Potter. Uma edição original do primeiro volume da saga de J.K. Rowling atingiu 162 500 dólares (145 350 euros) em 2018, na Christie’s. Por sua vez, a Sotheby’s vendeu uma cópia de The Tales of Beedle the Bard, anotada e ilustrada por JK Rowling, por 1,9 milhões de libras esterlinas (cerca de 2,2 milhões de euros) em 2007. Em termos de livros não há regras. Outra cópia, que pertenceu ao editor da autora, não excedeu 368.750 libras (cerca de 420.000 euros) em 2016.

No Brasil, os bibliófilos fazem parte de um grupo reduzido e os livros, não raro, são objeto de buscas até mesmo no exterior, a exemplo da primeira edição de O Guarani, de José de Alencar, que levou José Mindlin a algum desespero quando o esqueceu em avião de Air France.

Fonte: Z1 Portal de Notícias

Mostra ‘Ex-libris: marca de identidade’ pode ser vista na Biblioteca Zink

Poderá ser vista até o dia 30 de junho na Biblioteca Pública Municipal “Professor Ernesto Manoel Zink”, a mostra “Ex-libris: marca de identidade”.

Escrever seu nome em um livro é a maneira mais antiga, fácil e básica para afirmar a posse de um bem que temos como valioso.

O ex-libris é uma expressão latina que significa “livros de” e marca a posse. Trata-se de uma marca bibliográfica que pode ser manuscrita, impressa, gravada ou assumir a forma de um rótulo, geralmente colado na parte interna de um documento encadernado ou livro. Além de identificar o proprietário, ele pode ser personalizado artisticamente, seja através de iniciais, uma imagem ou um texto, que indiquem a origem, a posição social, profissão e seus gostos.

O ex-libris aparece no final do século XV, ao mesmo tempo em que o comércio de livros impressos se desenvolve e multiplicam-se os leitores, seu uso tornou-se comum por toda a Europa, mas a ele foram somados funcionalidade e um maior cuidado estético, surgindo assim pequenas obras-primas. No Brasil, ele só aparece no século XVIII.

Ex-libris de Jorge Oliveira
 

Colecionadores dessas pequenas obras de arte originais coletam e trocam ao redor do mundo. Artistas famosos, como Dürer, Monet, Lautrec praticaram esse gênero e muitos ex-libris são como pequenas obras-primas. Atualmente, em todo o mundo, designers, gravadores de madeira, cobre, litógrafos… criam ex-libris e colocam sua arte para traduzir em alguns centímetros quadrados de papel esses símbolos pelos quais o portador terá desejado ser representado.

A importância dessas pequenas obras-primas vai além de seu valor artístico.

Elas permitem recuperar histórias da leitura, de onde vêm os livros que compõem as coleções de uma biblioteca e até mesmo reconstituem características de uma sociedade em uma determinada época.

A pequena mostra de ex – libris aberta na Biblioteca Zink apresenta duas coleções: a do jornalista e também colecionador João Antônio Bührer, que tem como elemento principal as artes originais de um dos maiores exlibrista brasileiro: Jorge de Oliveira (1936-2012), há fotos e cartas do J. Oliveira para o jornalista João Antônio Bührer, e uma tipologia bem variada de ex – libris para serem vistos e conhecidos pelos olhares atentos.

A Biblioteca Zink ocupa-se do universo dos livros em seus mais variados aspectos, daí ter deixado para conhecer algumas dessas marcas bibliográficas, presentes nas Coleções Especiais da Biblioteca Zink como: “Acervo Professor Milton”, “Coleção Século XIX” e de “Escritores Campineiros”. (Carta Campinas com informações de divulgação)

Mostra “Ex-libris: marca de identidade”

Onde : Biblioteca Pública Municipal “Professor Ernesto Manoel Zink”

Av. Benjamin Constant, 1633 Centro Campinas

Quando: até 30 de junho, de 2ª a 6ª feira, das 9h às 17h

Fonte: Carta Campinas

POR QUE O NOSSO PATRIMÔNIO BIBLIOGRÁFICO ESTÁ AMEAÇADO?

O descaso por parte do Estado tem produzido dois frutos amargos vinculados entre si: o estado lacunoso da coleção bibliográfica nacional e a sua suspensão

Em seu parecer pela aprovação do Projeto de Lei que estabelecia o depósito legal no Brasil,[1] o relator, senador Áureo Mello, enfatizava a sua importância e fazia uma ressalva: “É imperioso que o disposto no artigo 7º seja implementado de pronto.”[2] O dispositivo em questão, dispunha sobre a previsão de descentralização do depósito legal. Trata-se de uma das matérias que, embora tenham sido uma das grandes motivadoras da aprovação do projeto de lei, jamais foi regulamentada.

Não se trata, contudo, do único objeto que aguarda a manifestação da parte do Poder Executivo Federal. De fato, o ato normativo em questão gravita em torno da obrigatoriedade por parte da depositária, a Fundação Biblioteca Nacional, de registrar as fontes depositadas, produzindo, como desdobramento desta ação, inclusive, a bibliografia. Não se pode imaginar que a matéria prima da atividade tal depósito se efetive sem a aplicação de sanções em caso de descumprimento do ato normativo.

Nesse sentido, a lei ordinária supramencionada determina sanções monetárias e apreensão de exemplares para aqueles que, sendo depositantes, não cumprirem com suas obrigações legais já listadas (art. 5º, § 1º, I e II), bem como o ajuizamento de ações, no caso de agente público (art. 5º, § 2º).

A medida preventiva otimiza a probabilidade de o dever imposto ser cumprido: “Para ser eficaz, uma lei deve se fazer respeitar, e para isso, deve prever uma sanção em caso de infração. Pode ser arriscado contar, unicamente, com a boa vontade para criar coleções de depósito completas.”[3] O próprio autor do Projeto de Lei do Senado nº 110/1988 reconhece que “[…] a obrigatoriedade do depósito impõe necessariamente sanções aos transgressores da legislação […].”[4]

Práticas sancionadoras são recorrentes na história do depósito legal. Em 28 de dezembro de 1537, surge na França o primeiro ato normativo tratando do depósito legal. Nele, o rei Francisco I estabelecia duas sanções para os editores e impressores que não depositavam um exemplar em sua biblioteca, a saber: o confisco de toda a edição ou das obras postas à venda, e a multa, proporcional ao valor da obra.[5]

Portanto, a sanção monetária tem sido a estratégia adotada pelos Estados Nacionais na tentativa de efetivação do depósito legal. É curioso constatar que, embora suprimida pela Revolução Francesa, a norma, foi restabelecida três anos mais tarde, com a mesma característica punitiva.

Atualmente, o depósito legal, tanto na França metropolitana quanto em seus territórios ultramarinos, é regulado pelo Código do Patrimônio (artigos L131-1 à L133-1 et R131-1 à R133-1), que entrou em vigor no ano de 2004. A obrigação do editor é depositar um exemplar na Biblioteca Nacional da França (BNF). Já o impressor deve entregar um exemplar em biblioteca habilitada de sua região.[6] Vale ressaltar que, desde 20 de junho de 1992, com a aprovação da Lei nº 92-546, o depósito contempla documentos digitais, desde softwares a bases de dados, além de obras radiofusoras e televisivas.

Aquele que, valendo-se de subterfúgios, tenta escapar da obrigação do depósito legal, o Código do Patrimônio estabelece uma sanção pecuniária. A pena de multa, no valor de até 75 mil euros, pode, contudo, ser suspensa pela autoridade judiciária, por um prazo determinado, sob a condição de o condenado reparar as consequências e abandonar a prática ilícita.

A lei espanhola[7] dedica o último dos seus cinco capítulos ao regime de infrações e sanções a serem aplicadas no caso de descumprimento do depósito legal. Inicialmente, o legislador dispõe a respeito das partes envolvidas: de um lado, os órgãos estabelecidos pelas Comunidades Autônomas, responsáveis pela aplicação da penalidade; do outro, o editor ou seu substituto, infrator da norma (artigos 16 e 17).

Observa-se, desde já, o caráter descentralizador do poder sancionador, não restritivo a Biblioteca Nacional da Espanha. Em seguida, elenca-se sete infrações, divididas em leves, com multas entre mil e dois euros, e 2.001 e 30 mil euros. No grupo das leves, apenas duas: a) Não depositar uma publicação no prazo e com o número de exemplares firmado pela lei.

Ao contrário da França, cujo número de exemplares está em função dos responsáveis pelo depósito – quatro para o editor e dois para o impressor –, a lei espanhola estabelece o número de exemplares a partir dos tipos documentais (art. 10, 4); b) Distribuir exemplares de uma publicação que tenha sido depositada ou que não tenha recebido o número de depósito legal. O legislador determina que a pessoa responsável pelo depósito solicite o número de depósito legal (artigo 14, 1).

No grupo das infrações graves, são estabelecidos cinco casos: a) Manipular o número de depósito legal, seja de forma dolosa ou culposa; b) Reincidir em infração leve; c) Apresentar dados falsos pelas pessoas responsáveis pelo depósito legal; d) Obstruir a fiscalização do cumprimento da lei; e) Impedir ou restringir o acesso dos centros depositários as publicações digitais online. O cumprimento da sanção não exime o cumprimento da obrigação (art. 20, 4).

A legislação mexicana, por sua vez, promulgada no mesmo ano que a espanhola, determina que os editores e produtores de material bibliográfico e documental depositem na Biblioteca Dr. José María Luis Mora dois exemplares de suas obras. O descumprimento implicará em sanção econômica, “equivalente a cinco vezes o valor unitário da edição”. [8]

Se as obras forem de distribuição gratuita, a omissão, independente de ser dolosa ou culposa, custará vinte vezes o valor diária da Unidade de Medida e atualização vigente. O legislador teve o cuidado de garantir que o montante recolhido, fruto de sanções econômicas, fosse revertido para a Biblioteca “Dr. José María Luis Mora”, destinado à compra de acervos.

O Estado brasileiro, por sua vez, determina, por meio do Decreto nº 8.297/2014 ser de responsabilidade da Fundação Biblioteca Nacional pela execução da política governamental de recolhimento, guarda e preservação da produção intelectual brasileira. Essa competência se desdobra em oito ações, a saber:

I – captar, preservar e difundir os registros da memória bibliográfica e documental nacional;

II – adotar as medidas necessárias para a conservação e proteção do patrimônio bibliográfico e digital sob sua custódia;

III – atuar como centro referencial de informações bibliográficas;

IV – atuar como órgão responsável pelo controle bibliográfico nacional;

V – ser depositária e assegurar o cumprimento da legislação relativa ao depósito legal;

VI – registrar obras intelectuais e averbar a cessão dos direitos patrimoniais do autor;

VII – promover a cooperação e a difusão nacionais e internacionais relativas à missão da Fundação Biblioteca Nacional; e

VIII – fomentar a produção de conhecimento por meio de pesquisa, elaboração e circulação bibliográficas referentes à missão da Fundação Biblioteca Nacional.

A Lei nº 10.994/2004, que precedeu o decreto mencionado em quase uma década, já previa ser a Fundação Biblioteca Nacional órgão depositário, devendo, a partir daí, exercer duas atividades, a saber, o registro e a guarda da produção intelectual nacional, bem como o controle, a elaboração e a divulgação da bibliografia brasileira corrente. O fato é que a legislação supracitada é destituída de qualquer efetividade jurídica, especialmente no campo obrigacional.

De fato, embora o próprio legislador tenha estabelecido no corpo do próprio ato normativo, o prazo de noventa dias para a regulamentação da mesma, isso jamais ocorreu. Ou seja, a lei ordinária em questão é improlífica, desprovida de qualquer eficácia, inclusive de natureza obrigacional. De fato, como bem ressaltou o jurista Miguel Reale:[9]

Uma lei não regulamentada, não obstante a regulamentação esteja nela prevista, acha-se desprovida de eficácia. Qualquer ato nela baseado incorre em inconstitucionalidade, uma vez que são feridos dois princípios constitucionais: o que diz que ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei, válida e eficaz’; e o de que ‘ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal’ (Constituição Federal, art. 5°, inciso LIV).

Os efeitos da omissão protagonizada pelo Poder Público quanto à regulamentação, em particular ao que envolve as práticas sancionadoras, são extremamente danosos para toda a sociedade brasileira. De fato, o descaso por parte do Estado tem produzido dois frutos amargos vinculados entre si, a saber, o estado lacunoso da coleção bibliográfica nacional – é de se presumir que uma parcela significativa de obras bibliográficas no país não chegue, sequer, aos galpões da Fundação Biblioteca Nacional, por beneplácito dos impressores – e a suspensão da bibliografia nacional.

Desde meados de 1997, a Fundação Biblioteca Nacional não mais publica sua Bibliografia, alegando estar a mesma acessível no seu catálogo online, revelando uma incapacidade institucional de distinguir um catálogo e uma bibliografia. A não publicação da bibliografia, além de impossibilitar a apreensão do estado da arte em qualquer área do conhecimento, impede que setores da máquina pública, como o Ministério Público, ou mesmo a sociedade em geral, fiscalize quanto ao que tem sido incorporado ou não no acervo da Biblioteca Nacional. Dito de outro modo:

a ausência de uma Bibliografia Nacional tem impacto direto na memória intelectual brasileira, não sabemos, afinal, quais áreas do conhecimento produzem mais ou menos no país, o que poderia, sob um ângulo otimista, servir de subsídio para o direcionamento de políticas públicas educacionais para alguns campos do saber etc. Além de que não sabemos em números reais quem tem cumprido ou não a Lei de Depósito Legal.[10]

Sabe-se que a tutela do patrimônio cultural não pode ser efetivada sem a adequada discriminação do bem ou conjunto de bens. É o que Máres[11] preceitua, de forma cristalina:

Para proteger um bem cultural é necessária a sua individuação, de tal modo que móvel ou imóvel ele possa ser exatamente localizado, reconhecido e publicamente tido como bem cultural preservável. Por isto, não só o conceito de bem cultural como o processo de sua constituição tem que estar expresso na lei.

Vale  ressaltar, que, mesmo no caso em que fosse produzida uma lista bibliográfica, a mesma não poderia ser tratada como bibliografia, mas, simplesmente, como repertório bibliográfico constituído por obras entregues, volitivamente, pelos editores do país. Uma análise atenta evidenciaria não se tratar de uma bibliografia, mas um repertório, com enormes lacunas. Afinal de contas, sem uma lei de depósito legal efetiva, não há que se falar em serviço bibliográfico nacional.[12]

Nesses quatorze anos de espera pelo Decreto, poucas ações foram adotadas para sanar essa grave lacuna. Em 2007, o então presidente da Biblioteca Nacional, Muniz Sodré, encaminhou ao Ministério da Cultura uma proposta de regulamentação da lei em questão, reiterando que “a falta de regulamentação da nova Lei de Depósito Legal dificulta a cobrança e atuação da Divisão de Depósito Legal junto à classe editorial.”[13]

Somente em 2017, a questão voltou a ser levantada, dessa vez pelo então Ministro da Cultura, Roberto Freire, através da criação de um Grupo de Trabalho destinado a propor a atualização da legislação. Formado por vários stakeholders[14] e conduzido pela Fundação Biblioteca Nacional e o Departamento de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas,[15] o Grupo de Trabalho acabou sendo suspenso, logo após a troca do titular da pasta ministerial. A ordem de fazer, no caso em questão, de regular, pode representar, no âmbito da aparelhagem estatal, a escolha do nada fazer, sequelando, terrivelmente, o meio ambiente:

Administração Pública pode ser, a um só tempo, elemento mortal ou vital à proteção ambiental: cabe-lhe, via de regra, o poder de preservar ou mutilar o meio ambiente. Assim, na medida em que compete à Administração Pública o controle do processo de desenvolvimento, nada mais perigoso para a tutela ambiental do que um administrador absolutamente livre ou que não sabe utilizar a liberdade limitada que o legislador lhe conferiu. Bem se vê que a proteção ambiental está diretamente relacionada com a questão da discricionariedade administrativa.[16]

Frente a esta prática omissiva do Estado em relação ao patrimônio bibliográfico nacional, há que se pensar em adotar medidas para dar fim ao descaso institucionalizado, seja em relação a incompletude do acervo bibliográfico, fruto do descumprimento da Lei do Depósito Legal, seja quanto ao abandono da Bibliografia, desdobramento daquele.

Afinal de contas, a própria Carta Magna ordena que, em caso de danos e ameaças, medidas punitivas devem ser aplicadas até que tais práticas lesivas à coletividade cessem. A necessidade da tutela na esfera judicial se torna, ainda, mais imperativa quando a proteção via Poder Legislativo se revela insuficiente, e a via poder Executivo jamais ocorreu.

[1] BRASIL. Congresso. Senado Federal. Comissão de Educação. Parecer. In:______. Projeto de Lei do Senado nº 110, de 1998. Dispõe sobre o Depósito Legal de publicações, na Biblioteca Nacional, e dá outras providencias. Disponível em:

<http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1150047&filename=Dossie+-PL+3803/1989>. Acesso em: 11 maio 2018.

[2] Ibid.

[3] LARIVIÈRE, Jules. Principes directeurs pour l’elaboration d’une legislation sur le depot legal. Paris: Unesco, 2000. p. 9, tradução nossa.

[4] BRASIL. Congresso. Senado Federal. Projeto de Lei do Senado nº 110, de 1998. Dispõe sobre o Depósito Legal de publicações, na Biblioteca Nacional, e dá outras providencias. Disponível em:

<http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1150047&filename=Dossie+-PL+3803/1989>. Acesso em: 11 maio 2018.

[5] FRANCISCO I, rei. MARICHAL, Paul. Catalogue des actes de François Ier. Paris: Impr. nationale (Paris), 1905. t. 8.

[6] FRANÇA. Mémento à l’usage des Bibliothèques de dépôt légal imprimeur. Paris, 2015. Disponível em: http://www.bnf.fr/documents/guideDLI.pdf. Acesso em: 12 abr. 2018.

[7] ESPANHA. Ley 23, de 29 de julio de 2011. Boletín Oficial del Estado, Madrid, 30 jul. 2011. Sec. I, p. 86716-86727.

[8] MÉXICO. Decreto número 282, de 31 de março de julio de 2011. Disponível em: <http://legislacion.edomex.gob.mx/sites/legislacion.edomex.gob.mx/files/files/pdf/ley/vig/leyvig174.pdf>. Acesso em: 13 abr. 2018.

[9] REALE, Miguel. [Parecer]. Disponível em: <Disponível em: <https://www.al.sp.gov.br/leis/legislacao-do-estado/leis-nao-regulamentadas/>. Acesso em: 12 maio 2018.

[10] JUVÊNCIO, Carlos Henrique; RODRIGUES, Georgete Medleg. A Bibliografia Nacional Brasileira: histórico, reflexões e inflexões. InCID: Revista de Ciência da Informação e Documentação, Ribeirão Preto, v. 7, p. 165-182, aug. 2016. ISSN 2178-2075. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/incid/article/view/118769/116240>. Acesso em: 20 nov. 2017. doi:http://dx.doi.org/10.11606/issn.2178-2075.v7iespp165-182.

[11] MARÉS, Carlos Frederico. A proteção jurídica dos bens culturais. Revista de Direito Constitucional e Internacional, São Paulo, v. 2, p. 20, Jan./Mar 1993.

[12] MARÉS, Carlos Frederico. A proteção jurídica dos bens culturais. Revista de Direito Constitucional e Internacional, São Paulo, v. 2, p. 20, jan./mar 1993.

[13] BIBLIOTECA NACIONAL (Brasil). Relatório, 2007. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 2008. Disponível em: <https://www.bn.gov.br/es/node/396>. Acesso em: 13 abr. 2018.

[14] Além da Fundação Biblioteca Nacional e do Ministério da Cultura, por meio do Departamento de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas e do Departamento de Direitos Intelectuais, compunha o Grupo de Trabalho representantes das seguintes entidades: Câmara dos Deputados, Biblioteca Nacional de Brasília, Universidade de Brasília, Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, Câmara Brasileira do Livro, Conselho Federal de Biblioteconomia e a figura da biblioteca pública, representada pela Biblioteca Pública Benedito Leite, de São Luís (MA).

[15] BRASIL. Ministério da Cultura. Portaria nº 42, de 26 de abril de 2017. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 28 abr. 2017. Seção 2, p. 16.

[16] BENJAMIN, Antonio Herman de Vasconcellos e. Os princípios do estudo de impacto ambiental como limites da discricionariedade administrativa. Revista Forense, Rio de Janeiro, n. 317, p. 25, jan./mar. 1992.

Fonte: REVISTA BIBLIOO

Debate João do Rio e O Momento Literário em revista

o próximo dia 25 de junho, terça-feira, às 18 horas, o CEDEM realizará o Debate João do Rio e O Momento Literário em revista. As professora Tania Regina de Luca e Silvia Maria Azevedo, da Unesp, Câmpus de Assis, assinam a reedição do livro O Momento Literário, de João do Rio, lançado pela Rafael Copetti Editor. Na atual edição elas corrigem equívocos do original e comentam diferenças entre as entrevistas publicadas em jornal e em livro. Neste Debate CEDEM, as especialistas apontam porque é importante revisitar João do Rio, 110 anos depois.

Nos primeiros anos da República o Brasil vivia a Belle Epoque, um momento de transformações em que o cenário cultural era pleno de novidades. Surgiram novas publicações de importantes escritores. Naquele ambiente, em 1909, João do Rio (1881 – 1921), pseudônimo do jornalista João Barreto, lançou O Momento Literário, obra na qual reuniu entrevistas publicadas em 1905 no jornal Gazeta de Notícias. Os entrevistados eram escritores que agitavam a cena literária, a exemplo de Olavo Bilac e Afonso Celso. Naquela ocasião, a novidade das entrevistas, então chamadas de inquéritos, era a possibilidade que elas ofereciam ao leitor de conhecer um pouco mais a intimidade de seus escritores preferidos, seus posicionamentos críticos em relação a alguns temas importantes do momento. João do Rio inovou com seus 36 inquéritos ao contribuir para mostrar o ambiente intelectual brasileiro.

Expositoras:
Profa. Dra. Silvia Azevado – Professora Livre-Docente de Teoria Literária e Literatura Comparada da Unesp, Câmpus de Assis. É líder do grupo de pesquisa do CNPq “Polêmicas intelectuais na América Latina entre os séculos XIX e XX: retórica, cultura e história”. É pesquisadora na área de Letras, especialmente de Machado de Assis, literatura e história, literatura e imprensa. É autora de Brasil em imagens: um estudo da ilustração brasileira (1876-1878), lançado em 2010; História de quinze dias, história de trinta dias: crônicas de Machado de Assis, 2011; e em co-autoria com Adriana Dusilek e Daniela Mantarro Callipo publicou Machado de Assis: crítica literária e textos diversos, 2013, todos pela Editora UNESP, de São Paulo. Pela Rafael Copetti Editor, organizou com Tania Regina de Luca, a nova edição do livro O momento literário, 2019, de João do Rio.

Profa. Dra. Tania Regina de Luca – Professora Livre-Docente em História do Brasil Republicano pela Unesp, dedica-se a pesquisar sobre a imprensa entre as décadas finais do século XIX e as primeiras do século XX. Pesquisadora do CNPq e pesquisadora principal no projeto temático “A circulação transatlântica dos impressos. A globalização da cultura no século XIX”, financiado pela FAPESP. É autora de vários artigos e capítulos de livros, com destaque para Leituras e projetos e (re)vista(s) do Brasil (1916-1944), 2011; e A Revista do Brasil: um diagnóstico para a (N)ação, ambos pela Editora UNESP. Pela Rafael Copetti Editor, organizou, com Valéria Guimarães, o livro Imprensa estrangeira publicada no Brasil: primeiras incursões, 2017; e em 2019, organizou com Silvia Maria Azevedo, o O momento literário, de João do Rio.

Mediador
Prof. Dr. Nelson Schapochnik – Doutor em História Social pela USP com estágio pós-doutoral na UERJ. Foi professor visitante na Universidade de Lisboa e na Universidad de la Republica. Pesquisa a história do livro, da leitura, da edição e das bibliotecas. Atualmente é um dos coordenadores do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição (NELE-USP); é membro do Board of Directors da Society for the History of Authorship, Reading and Publishing (SHARP) e membro do Conselho Deliberativo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP. Foi bolsista de projeto temático FAPESP “Caminhos do romance no Brasil”, da Fundação Calouste Gulbenkian; ex-membro titular do Comitê Interdisciplinar de Pesquisa e Editoração da Fundação Biblioteca Nacional. Foi responsável pelo Serviço Educativo da Biblioteca Brasiliana Midlin (BBM-USP).

Agenda:
Debate CEDEM
João do Rio e O Momento Literário em revista
Data e horário 25/05/2019 – terça-feira – 18 horas
Local: CEDEM – Praça da Sé, 108 – 1º andar (metrô Sé);
Informações: (11) 3116–1701
Inscrições gratuitas: http://www.cedem.unesp.br/#!/evento1
Transmissão on-line https://video.unesp.br/cedem
E-mail: eventos.cedem@unesp.br
www.cedem.unesp.br
https://www.facebook.com/CedemUnespOficial
*Certificado de participação a ser retirado durante evento

 Fonte: UNESP

Exposição Museus e Acervos da USP

Exposição convida a sociedade a conhecer o patrimônio da USP

“Museus e Acervos da USP” está em cartaz na Casa de Dona Yayá, em São Paulo, com entrada grátis

Casa de Dona Yayá está ocupada pelos painéis da mostra – Foto: Gabriel Fernandes – CPC / Reprodução

.A USP coordena uma série de instituições ligadas à área da cultura, como museus, bibliotecas e centros de divulgação cultural e científica, além de todo um complexo universo de acervos, como coleções artísticas e conjuntos de obras de grandes intelectuais, por exemplo.

Na intenção de ressaltar a importância dessa vasta fonte de produção de conhecimento de que a Universidade dispõe e extrapolar os muros que a cercam, o Centro de Preservação Cultural (CPC) da USP abriu a exposição Museus e Acervos da USP.

Montada na atual sede do CPC, a histórica Casa de Dona Yayá, na Bela Vista, região central de São Paulo, a mostra traz, através de 40 painéis fotográficos, um olhar abrangente sobre todo esse patrimônio da Universidade – como um contraponto à desvalorização que a ciência e a pesquisa vêm ganhando no debate nacional, segundo os organizadores..

Entrada da exposição na Casa de Dona Yayá – Foto: Gabriel Fernandes – CPC / Reprodução

.Criado em 2002, o Centro de Preservação Cultural da USP realiza um trabalho de inventariação dos acervos e coleções mantidos sob a tutela da USP. No ano passado, ele publicou um guia intitulado Museus e Acervos da USP, feito através de um recorte dos museus e acervos abertos ao público geral.

Da intenção de se divulgar a publicação, surgiu a exposição de mesmo nome, inicialmente alocada no prédio da Reitoria da USP, na Cidade Universitária. “A exposição tem um caráter diferente do guia. Ela trabalha com outra linguagem e tem o objetivo de reforçar a publicação”, conta Cibele Monteiro, uma das responsáveis pela concepção e coordenação da mostra.

A inauguração na Reitoria aconteceu no contexto que sucedeu ao incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro, em setembro do ano passado. Cibele conta que naquele momento ela teve um caráter muito importante de chamar a atenção para esses museus e acervos, reafirmando-os e dando reconhecimento a eles. Agora, com a transferência da mostra para a Casa de Dona Yayá, ela explica que outro objetivo se evidencia.

“Aqui na Casa de Dona Yayá a ideia é termos a Universidade sendo reconhecida por outro público, o público externo. Convidar as pessoas a conhecer os diversos museus e acervos que a USP possui e entender que a Universidade faz um trabalho muito além do ensino nos cursos”, conta Cibele..

Exposição é composta de 40 painéis – Foto: Gabriel Fernandes – CPC / Reprodução

.A abertura da Museus e acervos da USP na Casa de Dona Yayá também se deu em um contexto importante. A inauguração aconteceu com a realização de uma mesa de debate, no dia 15 de maio, data que ficou marcada por ocorrer uma série de manifestações pelo País em defesa da educação. Mesmo sabendo que o público poderia ser afetado pelos protestos, o CPC decidiu manter o evento e publicou nota justificando.
“Compreendemos que o evento se soma à mobilização nacional contra os ataques à educação pública impostos pelo governo atual. O evento representa uma oportunidade de valorizar a Universidade e seu papel de diálogo com a sociedade, já que as discussões da mesa e a exposição são formas de revelar a riqueza e a importância do patrimônio universitário e de debater sobre sua relevância e seus desafios”, anunciou o CPC na nota.

A exposição é realizada em parceria com a Reitoria e a Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da USP. Segundo Cibele, a ideia é que, após esta longa temporada em que ficará na Casa de Dona Yayá – prevista para se encerrar no dia 20 de fevereiro de 2020 -, ela circule por outras unidades da USP, principalmente nos campi do interior. “Grande parte dos acervos é fruto de pesquisa da própria Universidade. Então há na exposição um convite para a comunidade conhecer melhor aquilo que a Universidade produz”, conclui.

A exposição Museus e Acervos da USP fica aberta até 20 de fevereiro de 2020, de segunda a sexta-feira, das 9 às 17 horas, na Casa de Dona Yayá (Rua Major Diogo, 353, Bela Vista, em São Paulo). Entrada grátis. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 2648-1501.

Fonte: Jornal da USP

Faculdade de Direito restaura obra rara do século 17

Projeto de restauração e pesquisa histórica recuperou a “Opera Omnia” de Duns Escoto, datada de 1639

Texto por Claudia Costa

Além de ser restaurada, a edição da Opera Omnia, de Duns Escoto, datada de 1639, que faz parte do acervo da Faculdade de Direito da USP, foi submetida a processos químicos e físicos que comprovaram a procedência do papel e as técnicas de confecção dos 12 volumes da coleção – Foto: Divulgação/IF-USP

Possivelmente uma das únicas coleções completas do mundo, a Opera Omnia do filósofo e teólogo medieval João Duns Escoto (1265-1308), publicada em 1639 em 12 volumes, está sob a guarda da biblioteca da Faculdade de Direito da USP – o conjunto de livros da mesma edição encontrado no Canadá tem apenas cinco volumes, e outro, da biblioteca da Universidad Complutense de Madrid, seis. Antes em estado de conservação bastante comprometido – alguns volumes estavam infestados de micro-organismos e outros tinham muitas das folhas soltas –, a obra passou por um processo de recuperação, que incluiu uma pesquisa histórica sobre as técnicas adotadas em sua confecção.

Foram três anos desde a aprovação do projeto de reparação da obra, em 2016, até sua conclusão, em janeiro deste ano. Maria Lucia Beffa, chefe técnica da biblioteca da Faculdade de Direito da USP, explica que a política da biblioteca está baseada na mínima intervenção sobre as obras, ou seja, o restauro é feito apenas quando elas correm algum risco de perda, que era o caso da coleção de Duns Escoto. Segundo ela, na década de 30 foi criada uma sessão de encadernação na Faculdade de Direito que, muito provavelmente, fazia também restaurações com as técnicas da época. “Eu li nos relatórios que estavam restaurando os livros dentro das melhores técnicas, porém não dá para afirmar que esses livros não tenham sofrido intervenções anteriormente”, conta. Maria Lucia lembra que alguns dos 12 volumes apresentavam praticamente todas as folhas soltas, e outros nem dava para abrir. “O estado da obra, sua origem e valor histórico levaram à decisão por sua recuperação”, afirma.

Os volumes chegaram ao ateliê da restauradora Julita Azevedo, responsável pelo projeto de restauração da obra, com as páginas muito deterioradas – Foto: Juvenal Pereira

Segundo o professor José Carlos Estêvão, do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, essa coleção do século 17 é a primeira edição da obra completa de Duns Escoto. Estevão conta que ela foi adquirida pouco antes da fundação da Faculdade de Direito, ocorrida em 1827, quando o então governo provincial comprou toda a biblioteca do Convento dos Franciscanos, com cerca de 5 mil volumes – um número expressivo para a época –, que formaram o núcleo inicial da biblioteca da faculdade. Entre as obras adquiridas estava a a coleção do pensador medieval.

O túmulo de Duns Escoto na Catedral de Köln, na Alemanha – Foto: Roberto C. G. Castro

É uma edição muito bonita, com excelentes ilustrações. Era absolutamente necessário restaurá-la porque continua sendo muito importante para os estudos de História da Filosofia Medieval”, afirma Estevão, que leciona essa disciplina. Há cerca de dez anos, segundo ele, os alunos usavam essa edição da biblioteca da Faculdade de Direito, mas atualmente, para preservá-la, utilizam uma edição fac-similar do acervo da Biblioteca Florestan Fernandes da FFLCH. O professor ainda informa que há uma nova edição completa das obras de Duns Scoto, contendo de 25 a 30 volumes, sob coordenação da Editora do Vaticano. Parte dessa nova coleção está disponível na biblioteca da FFLCH.

Duns Escoto é um filósofo e teólogo da tradição escolástica, que deve ter nascido por volta de 1265 (a data é incerta) e morreu em 1308, sendo beatificado em março de 1993 pelo papa João Paulo II. “Duns Escoto era um franciscano que se opunha, na época, frontalmente aos dominicanos, e isso quer dizer que ele formulou uma filosofia fortemente oposta à de Tomás de Aquino”, explica o professor. Cada um tem enfoques totalmente diferentes sobre a relação entre a razão e a fé. “São extraordinariamente respeitosos da racionalidade filosófica segundo as concepções aristotélicas, prevalecentes naquele momento, na Idade Média latina”, diz Estêvão.

Muito influenciado por Duns Escoto, Guilherme de Ockham, apesar de próximo das suas concepções, o criticou muito e construiu uma outra concepção filosófica bastante diversa e com uma importância histórica enorme”, continua o professor. No fim do século 14 e começo da Modernidade, pode-se dizer, segundo Estevão, que existe na escolástica medieval três filosofias: a de Tomás de Aquino, a de João Duns Escoto e a de Guilherme de Ockham. “Os três com concepções filosóficas que se afastam muito uma da outra, mas que são absolutamente determinantes para todo o desenvolvimento da filosofia posterior”, ressalta. Escoto tem também um impacto na filosofia contemporânea, diz o professor, citando o alemão Martin Heidegger e o francês Gilles Deleuze como dois grandes filósofos do século 20 que se dedicaram ao estudo de seu pensamento.

Processo de restauração

O projeto contemplava não só a recuperação da Opera Omnia de Duns Escoto, mas ia além, incluindo a pesquisa histórica sobre a manufatura dos livros. A conservadora e restauradora Julita Azevedo, responsável pelo trabalho, conta que, sabendo do valor histórico da obra, dividiu sua proposta – escolhida entre outros dois projetos – em dois eixos: a conservação e restauração dos livros e a pesquisa histórica sobre a manufatura dos volumes. A intenção era, principalmente, descobrir onde havia sido feito o papel usado no livro, quais eram as fibras desse papel e quais eram os elementos químicos das tintas usadas na impressão, visando a aprofundar o conhecimento referente às técnicas de confecção.

Primeiro, em seu ateliê, os volumes foram encaminhados para numeração das páginas e mapeamento dos cadernos, a fim de evitar problemas de ordenamento do material. Julita conta que, no material original, as folhas não foram numeradas (a sequência era marcada repetindo na página a última palavra da página anterior) e não havia capa – somente quase um século depois é que se fez a encadernação. Os livros foram então desmontados e higienizados folha por folha. Os bifólios (duas folhas unidas que, dobradas, vão formando o caderno) foram carcelados (a carcela é uma tira de papel japonês que é colada no centro do bifólio e serve para deixar o local mais resistente, pois é a área em que passa a linha da costura) e escaneados para recorte dos enxertos. Em seguida, foram restaurados com papel japonês, remontados e costurados seguindo a mesma técnica usada no passado, com cadarço de pergaminho, além do uso de uma cola neutra produzida pela própria Julita a partir de técnicas japonesas.

No ateliê da restauradora Julita Azevedo foi desenvolvido um novo processo de reconstituição do suporte através de uma máquina Scancut – Foto: Juvenal Pereira

Segundo Julita, a maior parte do tratamento foi realizada a seco. “Das mais de 5 mil folhas da coleção, apenas 2% foi submetida a um banho aquoso”, informa. A novidade, diz, está no desenvolvimento de um novo processo de reconstituição do suporte através da utilização de uma máquina Scancut. Muito utilizada em empresas de comunicação visual, essa máquina, de grandes dimensões, ganhou uma versão japonesa compacta para fins de produção artesanal, que serviu como um scanner que, além de copiar a imagem, depois de um trabalho no Photoshop, recortava o papel na forma exata para os enxertos da parte danificada das folhas. “O primeiro livro demorou seis meses para ficar pronto, e os demais levaram cerca de dois meses, agilizando o processo e com um resultado mais perfeito”, relata, lembrando que cada volume teve dificuldades peculiares para ser restaurado.

Dois volumes, que tinham maior nível de deterioração, foram enviados para o Centro de Tecnologia das Radiações (CTR) do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), a fim de serem submetidos à irradiação de cobalto para tratamento de desinfestação. Depois, foi feito um procedimento chamado análise de composição fibrosa, realizado no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Três fragmentos do papel foram submetidos a uma avaliação segundo norma da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). As amostras foram desagregadas, colocadas sobre uma lâmina de microscópio e coloridas com reagente químico, permitindo a obtenção de fotomicrografias.

O resultado foi a comprovação da origem do papel, manufaturado com fibras provenientes do algodão, também conhecido como papel trappo. “Até o século 18, todos os papéis eram fabricados com restos de tecidos, como lençóis, cortinas e roupas. O material era enviado a moinhos e o papel era produzido a partir de fibras de algodão, linho ou cânhamo. Depois se desenvolveu o método para fabricação a partir da madeira”, explica Julita.

Outra série de estudos foi realizada no Instituto de Física da USP, para descobrir os elementos químicos presentes no papel e na tinta. Esses estudos ainda estão em fase de conclusão. Finalmente, através de uma pesquisa acerca da filigrana ou marca d’água contida em várias folhas dos livros, foi possível descobrir o moinho papeleiro onde o papel foi produzido. A obra é proveniente de um pólo de impressão do século 17, na cidade de Lyon, na França, pertencente a Laurent Durand. Descobriu-se ainda, na leitura dos volumes, que o editor foi Lucas Wadding, um franciscano e grande conhecedor da obra de João Duns Escoto, e, através de pesquisas, que o moinho de papel pertencia à família Lebé, localizado na cidade de Troyes, a cerca de 300 quilômetros de Lyon.

Quanto mais você conhece da obra, melhor você consegue restaurá-la”, afirma Julita, que ainda confeccionou uma caixa em linho para acomodar cada volume, com uma etiqueta em pergaminho escrita em nanquim. “Agora vai durar mais 400 anos”, brinca a restauradora. Para Maria Lucia Beffa, chefe técnica da Biblioteca da Faculdade de Direito, a análise de todos os elementos (papel, tinta, fibra e filigrana) comprova o seu valor histórico e ajuda a conhecer melhor a coleção, que está novamente disponível para consultas de pesquisadores e interessados na obra.

Os volumes, depois de prontos, foram acondicionados em caixas confeccionadas com linho e identificados com etiquetas escritas em nanquim – Foto: Juvenal Pereira

Fonte: Jornal da USP

Biblioteca Calil e seu raro acervo

Um  patrimônio literário valiosíssimo está a venda. A família de Líbano Calil tenta negociar a biblioteca de 15 mil títulos que o livreiro construiu durante uma vida inteira. Eles não querem vender os livros separadamente, procuram uma instituição interessada em todo o acervo, que em termos de raridade, é comparável à biblioteca de José Mindlin, outra importante coleção doada a Universidade de São Paulo.

Fonte: Metrópolis

A economia, a história e a política sob a ótica de Celso Furtado

USP recebe acervo de documentos, cartas, fotografias e originais que mostram a relevância da obra do economista e sua atualidade

Texto: Luiz Roberto Serrano e Roberto C. G. Castro

Arte: Moisés Dorado e Thais Helena dos Santos

A USP vai receber por doação o acervo do economista Celso Furtado (1920-2004), um dos maiores intelectuais brasileiros do século 20. Em entrevista ao Jornal da USP, a viúva de Furtado, a jornalista e tradutora Rosa Freire d’Aguiar, comenta que esse acervo revela a importância e a atualidade do pensamento de Furtado.

Formado por pelo menos 30 mil itens – entre documentos, fotografias e cartas –, o acervo conta boa parte da história, da economia e da política brasileira e mundial do século passado. Correspondências trocadas com personalidades como o antropólogo Darcy Ribeiro e o senador norte-americano Bob Kennedy, aulas ministradas na França e nos Estados Unidos e relatórios das épocas em que ocupou os cargos de ministro do Planejamento e da Cultura fazem parte da documentação preservada pelo economista ao longo da vida.

O acervo também traz curiosidades, como um recorte de jornal datado de dezembro de 1964, informando que alunos da Escola Politécnica da USP não puderam usar o auditório da Cidade Universitária para a colação de grau porque tinham escolhido Celso Furtado – já cassado pelo regime militar então em vigor – como paraninfo. Inconformados com a proibição, os alunos se recusaram a realizar a cerimônia e foram retirar seus diplomas na secretaria da escola. 

Atualmente guardado no apartamento de Rosa no Rio de Janeiro, o acervo de Celso Furtado será encaminhado para o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde será tratado e ficará à disposição dos pesquisadores. A data de transferência dos documentos ainda não está definida, pois depende da abertura de licitação para a contratação da empresa que fará esse serviço.

Carteira de funcionário do Departamento Administrativo do Serviço Público, nos anos 40 – Foto: Rosa Freire d’Aguiar

Nascido em Pombal, no sertão paraibano, Celso Furtado se tornou doutor em Economia pela Universidade de Paris, em 1948, com a tese “L’économie coloniale brésilienne”. De 1949 a 1958, integrou a Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), órgão da Organização das Nações Unidas (ONU) sediado em Santiago, no Chile. Foi diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) e, em 1959, assumiu a direção da recém-criada Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).

Em 1962, Celso Furtado foi nomeado pelo então presidente João Goulart como primeiro titular do Ministério do Planejamento. Nessa função, elaborou o Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social. Com o golpe militar de 31 de março de 1964, o economista foi cassado com base no Ato Institucional Número 1 (AI-1), publicado em 9 de abril daquele ano, e partiu para o exílio, tornando-se professor da Universidade de Paris, cargo que ocupou por 20 anos.

Jornal dos Estados Unidos noticia encontro entre o presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, e Celso Furtado, em 1961 – Foto: Rosa Freire d’Aguiar

Com a anistia política, em 1979, Furtado visitou o Brasil várias vezes e se filiou ao PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro). Em 1986, tornou-se ministro da Cultura do governo José Sarney e elaborou a primeira lei de incentivos fiscais à cultura no Brasil.

Na década de 1990, participou da Comissão Mundial para a Cultura e o Desenvolvimento e da Comissão Internacional de Bioética, ambas da ONU, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL) e ganhou o Prêmio Jabuti com o ensaio O Capitalismo Global. Entre suas principais obras estão Formação Econômica do Brasil (1959) – traduzido em nove línguas –, Desenvolvimento e Subdesenvolvimento (1961) e O Mito do Desenvolvimento Econômico (1974).

Rosa Freire d’Aguiar conversou com o Jornal da USP no dia 11 de abril passado, uma quinta-feira, no saguão do Hotel Trip Higienópolis, em São Paulo, onde estava hospedada. A conversa teve a participação dos professores Alexandre de Freitas Barbosa e Paulo Teixeira Iumatti, ambos do IEB, e de Elisabete Marin Ribas, especialista em Organização de Arquivos, que integra a equipe técnica do Serviço de Arquivo do IEB.

 

Leia a seguir entrevista com a jornalista e tradutora Rosa Freire d’Aguiar

Reg. 131-19 Doação do acervo de Celso Furtado ao Instituto de Estudos Brasileiros (IEB). 2019/04/11 Foto Marcos Santos/USP Imagens

Jornal da USP – Em que consiste o acervo de Celso Furtado que a USP vai receber?

Rosa Freire d’Aguiar – Há uma variedade imensa de documentos, entre eles, milhares de cartas. Somente entre 1964 e 1984, são cerca de 10 mil cartas. A maioria é de correspondência recebida. A cada ano, ele recebia cerca de 400 cartas e escrevia outras tantas, das quais guardou, em cópia carbono, cerca de 80 a 100. Eu li todas elas, com muita atenção, fazendo anotações. Os correspondentes são os mais variados. É incrível como Celso, logo em seguida ao golpe militar, era uma pessoa conhecida internacionalmente. Por exemplo, poucos dias depois de ser cassado, em abril de 1964, ele recebeu telegramas de três universidades dos Estados Unidos – Harvard, Yale e Columbia –, convidando-o para ser professor lá.

JUSP – Como se pode dividir esse acervo?

Rosa – O acervo de Celso tem várias vertentes. Tem cartas referentes ao homem público que ele foi, à sua atuação internacional, à sua participação na ONU (Organização das Nações Unidas) como economista e como membro de comissões muito importantes, como a Comissão Internacional de Bioética, que foi pioneira ao tratar de temas como o genoma humano, por exemplo. Ele foi o único brasileiro a participar dessas comissões. É possível dividir o acervo também de acordo com as décadas.

JUSP – Quais os temas mais recorrentes em cada década?

Rosa – O conteúdo do acervo referente aos anos 40 inclui, por exemplo, recordações da guerra, textos jornalísticos, da época em que ele foi jornalista da Revista da Semana, no Rio de Janeiro, escritos de juventude, três ou quatro tentativas de romances, muitos textos inéditos. Sobre os anos 50 e 60, há muitas cartas e textos referentes principalmente à Sudene, da qual Celso foi o primeiro superintendente, e ao Ministério do Planejamento, que ele dirigiu de setembro de 1962 a meados de 1963.

JUSP – Sobre a Sudene, o que se pode pensar a partir dos textos do acervo?

Rosa – A Sudene foi o grande momento da vida de Celso como homem de ação. Ela representou a possibilidade de colocar em prática as teorias que ele desenvolveu nos quase dez anos em que atuou na Cepal. Ali a teoria passa à prática. Mas foi um trabalho interrompido pelo golpe militar de 1964 e a cassação.

JUSP – Como ele se referia à cassação?

Rosa – Ele nunca imaginou que seria cassado. Jamais. Foi uma coisa que calou muito fundo nele a vida inteira. Em condições normais, ele não costumava falar sobre isso, mas em momentos delicados, por exemplo, como depois de uma cirurgia, ainda um tanto abalado por uma anestesia, algumas vezes ele se referia à cassação de direitos.

JUSP – Antes da cassação, como ministro do Planejamento de João Goulart, em 1962, ele elaborou o Plano Trienal, um plano ao mesmo tempo monetarista e desenvolvimentista. Era um plano viável?

Rosa – Bem, posso falar o que Celso me falava. De fato, o plano era monetarista e desenvolvimentista. Mas nem tinha como ser diferente, tenho a impressão. No fundo, Celso percebeu com certa rapidez que o plano foi feito para ganhar o plebiscito sobre o regime de governo, em janeiro de 1963. Ganho o plebiscito, o plano não iria muito longe. Celso era um ministro técnico, não político, não lidava com as massas. Quem fazia isso era, por exemplo, o ministro do Trabalho, Almino Afonso, do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) e ligado aos sindicatos. Uma das ideias de Celso era que não podia haver aumento da massa salarial. Mas os trabalhadores estavam pressionando. Houve um momento em que o Jango não teve como negar e precisou ceder ao Almino. Aí a coisa estourou e o plano começou a fazer água. Por isso Celso ficou com a impressão, não no momento, mas julgando retrospectivamente, de que o plano foi feito só para ganhar o plebiscito, tanto que em junho de 1963 ele já saiu do governo, com o ministro da Fazenda, San Tiago Dantas.

Alexandre de Freitas Barbosa – Talvez o Plano Trienal nunca tenha sido implementado. Ele foi elaborado pelo Ministério Extraordinário do Planejamento, chefiado por Celso Furtado. Para fazer esse plano, Furtado ficou três meses trancado no BNDE, utilizando todos os quadros técnicos. Quem implementou o plano foi o ministro da Fazenda, San Tiago Dantas. Acontece que uma das vigas do plano era a negociação de créditos com os Estados Unidos. O FMI (Fundo Monetário Internacional) gostou do plano, mas os assessores norte-americanos que faziam a negociação começaram a ser informados pelo embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Lincoln Gordon, que dizia: “Esse pessoal é comunista”. No livro Fantasia Desfeita, Furtado escreve que a sorte do plano estava sendo julgada quando o San Tiago Dantas negociava, em março de 1962, com o pessoal do FMI e do Banco Mundial. Ele não consegue os créditos. Ora, para conter a inflação, mantendo os investimentos em setores estratégicos, é preciso manter o fluxo de importações e isso só poderia ser feito se a dívida externa fosse refinanciada. O Brasil importava petróleo e trigo, com subsídios. As tarifas foram liberadas e os preços subiram. Houve um repique inflacionário que não estava previsto. Mas o Plano Trienal é um documento magistral. Ele tem a frente da estabilização, a frente dos investimentos, inclui a reforma administrativo, a reforma fiscal. Mas não havia contexto político para negociar esse plano. É talvez um plano que sequer tenha sido implementado.

JUSP – Com o golpe e a cassação, Celso Furtado vai para o exílio. O que o acervo traz sobre esse período?

Rosa – As cartas do período do exílio ainda estão em Paris. Precisam vir para cá. Lá tem várias pastas com cartas em inglês, francês e espanhol, e os originais dos livros que ele escreveu nesse período. Essa parte do acervo me parece muito importante porque falta muita pesquisa da vida de Celso durante o exílio. Vejo muitos professores se referindo à cassação, em 1964, à ida para o exílio, à volta em 1979 etc., mas sobre os anos entre 1964 e 1979 não falam nada.

JUSP – O que a pesquisa sobre esse período da vida de Celso Furtado vai revelar?

Rosa – Vai revelar que essa foi a fase mais produtiva da vida de Celso. Ele escreveu 11 livros nesse período. São os seus grandes livros. E foi nesse período que ele se transformou numa personalidade internacional. Outra coisa que eu descobri lendo os textos dessa época é que o exílio está longe de ser apenas uma circunstância na vida de Celso. Ali ele mudou de profissão – ele nunca tinha sido professor – e mudou de língua, ou seja, de universo mental. Ele já dominava as línguas em que foi professor: inglês, francês e espanhol. Mas uma coisa é dominá-las para o dia a dia, para ir ao restaurante. Outra é dar aula de teoria econômica para pós-graduados. Para as aulas na Sorbonne, por exemplo, ele não se resumia a escrever fichar. Preparava-as escrevendo 10, 20 páginas em francês, temendo, durante a aula, ver lhe fugir um termo específico da matéria teórica que ensinava. O mesmo quando foi professor em Yale, em Columbia, em Cambridge: páginas e páginas de notas de aulas em inglês. 

Alexandre de Freitas Barbosa – A ida ao exílio alterou completamente a trajetória intelectual e de vida de Celso Furtado. Num livro de 1962, A Pré-Revolução Brasileira, ele conclama o País para a revolução reformista que tem em vista. Depois, quando é retirado da cena política, ele se reinventa. Passa a ver o mundo se transformando e tenta fazer a mediação. Por que não deu certo aquilo de que ele participava? A partir daí Furtado se torna uma grande referência internacional, para além da América Latina. Ele dá aula na Sorbonne e em Yale e vai ser talvez o intelectual latino-americano mais demandado do mundo. Ele se torna o intelectual brasileiro mais lido no Brasil e no exterior. Ao mesmo tempo, existe uma grande discussão sobre a sua obra. Como diz o professor Chico de Oliveira, Furtado é um divisor de águas: a economia brasileira foi pensada até hoje contra e a favor de Celso Furtado. Ele estabeleceu os termos com que nós pensamos a economia brasileira até hoje.

JUSP – E sobre o período pós-exílio, o que mostra o acervo?

Rosa – A partir de 1979, os textos do acervo abordam principalmente a participação dele na vida política, na redemocratização, culminando no Ministério da Cultura. Quando a gente sai de Brasília, em 1988, documentos e cartas que estavam no Ministério da Cultura vão para casa. Felizmente, nessa época ele tinha uma secretária muito eficiente, que guardava tudo.

JUSP – Pode citar alguns itens específicos do acervo de Celso Furtado?

Rosa – Tem muita coisa. Tem cartas do senador Bob Kennedy, convite para Celso participar de conferências ao lado de Erich Fromm e Martin Luther King, pilhas de recortes de imprensa, curiosidades como uma primeira página do New York Times, de 1964, dizendo que “o banido Celso Furtado” ia lecionar nos Estados Unidos, cartas com intelectuais daqui do Brasil, como Darcy Ribeiro, Antonio Candido, Fernando Henrique, Helio Jaguaribe e Francisco Iglesias, e do exterior, como Albert Hirschman e Raul Prebisch. Algumas são muito divertidas, outras cheias de intrigas políticas de órgãos de “inteligência” brasileira, inventando todo tipo de mentiras sobre a vida de Celso. A mais inacreditável, de um departamento de Polícia Federal, é que ele teria um terreno no Chile que foi vendido para construir uma base soviética.

JUSP – E os diários de Celso Furtado?

Rosa – Celso não era um diarista fiel. Ele deixou uns 30 cadernos, mas nenhum deles vai até o final. O diário era, para ele, um desabafo. Há uns registros curiosos. Por exemplo, quando tinha 17 anos, ainda na Paraíba, ele escreve: “Hoje eu decidi que vou escrever um livro sobre a história da civilização brasileira”. Acabou escrevendo mesmo. O último caderno é de 2002, mas já a partir de 1991 a letra começa a ficar bem ruim, por causa dos problemas de saúde. Vou publicar os Diários pela Companhia das Letras, em setembro.

JUSP – O acervo tem muitos textos inéditos de Celso Furtado?

Rosa – Celso não era de deixar muita coisa sem publicar. Deve ter versões de textos que ele retomou. Mas, sim, tem textos inéditos, técnicos, relatórios.

Alexandre Barbosa – O que talvez seja mais rico é que todos os manuscritos estão rabiscados à mão, o que permite entender o processo de criação e de construção dos conceitos. Para um pesquisador, isso é fascinante.

Qual a importância da doação do acervo de Celso Furtado para a USP?

O acervo de Celso Furtado chega num movimento de ampliação temática que é abrangida pelas coleções do IEB, que começou em 2002, quando chegou o acervo de Caio Prado. Desde então, alguns outros acervos se somaram, como os de Milton Santos e de Manoel Correia de Andrade, um grande geógrafo brasileiro, que se dedicou a estudar o Nordeste. Esses acervos têm a dimensão da reflexão sobre a inserção do Brasil no mundo. Eles permitem uma reflexão abrangente sobre grandes questões do País. Essa é uma perspectiva muito importante, que é reforçada com a vinda dos documentos que pertenceram a Celso Furtado – Paulo Teixeira Iumatti

Para nós, que somos os técnicos que trabalhamos com os acervos, é sempre um privilégio quando recebemos um conjunto assim, porque não só vem completar um linha de pensamento e uma linha que podemos chamar de linha curatorial, mas também ampliar a importância dos arquivos pessoais na história, na economia, na literatura. Com a chegada do acervo de Celso Furtado, principalmente no momento delicado que estamos vivendo, temos a oportunidade de falar aos jovens pesquisadores que nos procuram que ele foi um grande homem, que mudou a história do brasil. Somos convidados a repensar muitas questões – Elisabete Marin Ribas 

Fonte: Jornal da USP

Coleções de obras raras e especiais estão expostas na Biblioteca Comunitária da UFSCar

Coleções de obras raras e especiais estão expostas na Biblioteca Comunitária da UFSCar - Crédito: Arquivo DeCORE/BCo
Crédito: Arquivo DeCORE/BCo

O Departamento de Coleções de Obras Raras e Especiais (DeCORE) da Biblioteca Comunitária (BCo) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) oferece visitação monitorada gratuita para grupos, escolas e outros públicos que tenham interesse em conhecer seu acervo que engloba itens como a biblioteca particular do escritor e jornalista Luís Martins, comprada pela Universidade em 1995, com clássicos da Literatura Brasileira, da Literatura Europeia e das Artes e grande número de obras com dedicatórias de personalidades como Tarsila do Amaral, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade etc.

Há também a coleção do escritor e crítico literário Henrique Luiz Alves, que é inteiramente dedicada à Literatura Brasileira, com várias primeiras edições e dedicatórias de diversos autores. Além disso, o DeCORE possui conjunto de livros do sociólogo Florestan Fernandes, além de minimuseu que reúne objetos pessoais do sociólogo, como placas de homenagens, distinções, óculos, máquina de escrever, fotos da família, diplomas e a beca que ele utilizou durante a solenidade em que recebeu o título de Doutor Honoris Causa na Universidade de Coimbra, Portugal. Todos os objetos do minimuseu foram cedidos pela família do sociólogo.

Outra coleção especial do Departamento é a do militar e político Luiz Carlos Prestes, adquirida em março de 2018 pela Universidade, por meio de doação realizada por Anita Prestes, filha de Luiz Carlos Prestes. Há, também, fascículos da Revista Ilustração Brasileira (RIB) – com publicações de 1920 a 1951, que retratam os usos e costumes do Brasil -; e as coleções Ficção Científica e Brasiliana – esta última reunindo um conjunto de obras específicas sobre História, Geografia e viagens do Brasil.

Dentre os materiais raros alocados no DeCORE destacam-se, por fim, os livros mais antigos do acervo da BCo – de autoria do poeta português Francisco de Sá Miranda, publicados em 1784 -; as primeiras edições das obras “As Meninas” e “Porão e Sobrado”, de Lygia Fagundes Telles; assinatura do escritor Raduan Nassar em livros de sua autoria adquiridos para as Coleções Especiais; assinatura de Fidel Castro; dentre outras raridades.

As visitas ao DeCORE acontecem às terças-feiras, nos três períodos de funcionamento da Biblioteca – manhã, tarde ou noite. Pessoas interessadas devem preencher um formulário de agendamento (disponível em http://bit.ly/2PnrrD8). Mais informações podem ser obtidas pessoalmente com a equipe do DeCORE, localizado no Piso 5 da BCo, área Norte do Campus São Carlos, entre 8 e 22 horas, ou pelo telefone (16) 3351-8428 ou e-mail colesp.bco@ufscar.br.

Fonte: http://www.saocarlosagora.com.br

VII Simpósio Iberoamericano: História, Educação, Patrimônio-Educativo

APRESENTAÇÃO

O VII Simpósio Iberoamericano: História, Educação, Patrimônio-Educativo, ocorrerá no CEINCE, em Berlanga de Duero, na Espanha, em uma parceria RIDPHE/CEINCE

RIDPHE, Rede Iberoamericana para a Investigação e a Difusão do Patrimônio Histórico-Educativo e o CEINCE Centro Internacional de Cultura Escolar, organizam o VII Simpósio com o propósito de reunir pesquisadores que tratam da temática do Patrimônio Histórico- Educativo- Cultural, a partir dos eixos propostos pelo Simpósio.

O número de trabalhos apresentados no Simpósio foi pensado em relação às sessões de trabalho, articuladas aos eixos temáticos propostos, visando que todas as sessões possam ser assistidas por todos e seguidas de debate, ou seja, com o propósito de todas as sessões poderem contar com a participação de todos os inscritos e possibilitar que ao final de cada sessão temática possa haver discussão com todos os participantes.

Fonte: https://sihepe.blogspot.com/p/o-vii-simposio-iberoamericano-historia.html

 

Este site disponibiliza livros do século XIX

Texto por Bruno Leal | Agência Café História

São mais de 100 livros didáticos publicados nos Estados Unidos nos anos 1800. Iniciativa é da Universidade de Pittsburgh. Coleção faz parte da Nietz Old Textbook Collection.

site da Universidade de Pittsburgh disponibiliza gratuitamente mais de 100 livros didáticos publicados nos Estados Unidos, no século XIX. Os livros estão em formato digital e fazem parte de uma coleção chamada Nietz Old Textbook Collection, fundada pelo professor da Universidade de Pittsburgh, John A. Nietz.

A coleção online também contém dois trabalhos produzidos pelo próprio Nietz. Nesses trabalhos, o professor examina livros escolares americanos históricos (em inglês os livros didáticos são chamados textbooks) no contexto da História da Educação.

Há livros de diversas disciplinas na coleção. Doze são de história, a maior parte sobre História dos Estados Unidos. Um deles é History of the United States: from their first settlement as colonies, to the close of the war with Great Britain in 1815 : to which are added questions, adapted to the use of schools, de Salma Hale.

Livros didáticos antigos podem ser objeto de estudo. Foto: Jason Wong no Unsplash.

Sobre o John A. Nietz

O fundador da coleção, o professor emérito John A. Nietz nasceu perto de Toledo, Ohio, em 1888. Graduou-se na Ohio University Norte em 1914, fez o mestrado na Universidade Estadual de Ohio, em 1919, e doutorou-se em Educação na Universidade de Chicago, em 1933. Durante sua estada na Universidade de Chicago, Nietz estudou com o famoso filósofo e teórico educacional John Dewey (1849-1912).

John Nietz passou grande parte de sua carreira na Universidade de Pittsburgh ensinando na Escola de Educação. Quando se aposentou em 1958, fundou a Coleção de Antigos Livros Didáticos de Nietz, doando sua biblioteca de 9.000 volumes de livros didáticos Ele adquiriu os livros quando pesquisava a história do ensino nos primeiros anos dos Estados Unidos. Durante sua carreira, Nietz dirigiu ou aconselhou mais de 30 dissertações e teses de mestrado baseadas na coleção. Dr. Nietz morreu em 1970.

Desde a sua criação, a coleção de livros didáticos de Nietz cresceu para mais de 16.000 volumes através de presentes e compras.

A coleção universitária

Para além de livros didáticos, a biblioteca da Universidade de Pittsburgh digitalizou mais de 100.000 itens exclusivos (mais de 1,5 milhão de imagens de página!), que fazem parte de diversas coleções exclusivas da universidade, o que inclui os Archives & Special Collections e o Center for American Music, além de vários membros do Pitt Faculty e instituições parceiras.

Livros didáticos no Brasil

No Brasil, os livros didáticos também gozam de grande importância e possuem uma longa história. Segundo a Associação Brasileira de Editores de Livros Didáticos, “Essa trajetória tem início em 1929, com a criação do Instituto Nacional do Livro (INL) que, de imediato, não sai do papel. Só em 1934, quando Gustavo Capanema torna-se ministro da Educação do governo do presidente Getúlio Vargas, o INL recebe suas primeiras atribuições: a edição de obras literárias para a formação cultural da população, a elaboração de uma enciclopédia e de um dicionário nacionais e a expansão do número de bibliotecas públicas”.

Em 1938, uma nova mudança. “O livro didático entra na pauta do governo. O Decreto-Lei nº 1.006/38 institui a Comissão Nacional do Livro Didático para tratar da produção, do controle e da circulação dessas obras. Passados 11 anos (1934/1945), quando Gustavo Capanema deixa o MEC, não estavam concluídos o dicionário nem a enciclopédia, mas as bibliotecas cresceram para além do Rio de Janeiro e de São Paulo, graças à oferta de acervo oferecido pelo Governo Federal”.

Como citar esta notícia

CARVALHO, Bruno Leal Pastor de. Este site disponibiliza livros escolares do século XIX (notícia). In: Café História – História feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/livros-didaticos-do-seculo-XIX. Publicado em: 17 abr. 2019.

Fonte: Café História

UFSCar oferece visitação monitorada em coleções de obras raras e especiais da Biblioteca Comunitária

Texto por Ivan Lucas

Foto: Arquivo DeCORE/BCo
Atividade é ofertada às terças-feiras para grupos, escolas e público em geral, mediante agendamento

O Departamento de Coleções de Obras Raras e Especiais (DeCORE) da Biblioteca Comunitária (BCo) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) oferece visitação gratuita monitorada para grupos, escolas e outros públicos que tenham interesse em conhecer suas obras raras. Com a visita, os participantes conhecerão um pouco de cada coleção do DeCORE, que engloba itens como a biblioteca particular do escritor e jornalista Luís Martins, comprada pela Universidade em 1995, com obras de Literatura Brasileira, Literatura Europeia e Artes, com grande número de obras com dedicatórias de personalidades como Tarsila do Amaral, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, dentre outras.

O acervo também tem a coleção do escritor e crítico literário Henrique Luiz Alves, que é inteiramente dedicada à Literatura Brasileira, com várias primeiras edições e com dedicatórias de diversos autores. O DeCORE possui, também, o acervo de livros do sociólogo Florestan Fernandes, além de minimuseu que reúne os objetos pessoais do sociólogo, como placas de homenagens, distinções, óculos, máquina de escrever, fotos da família, diplomas, bem como a beca que Fernandes utilizou durante a solenidade em que recebeu o título de Doutor Honoris Causa na Universidade de Coimbra, Portugal. Todos os objetos do minimuseu foram cedidos pela família do sociólogo.

Outra coleção especial do Departamento é a do militar e político Luiz Carlos Prestes, adquirida em março de 2018 pela Universidade por meio de doação de sua filha, Anita Prestes. Há, também, fascículos da Revista Ilustração Brasileira (RIB) – com publicações de 1920 a 1951, que retratam os usos e costumes do Brasil -; e as coleções Ficção Científica e Brasiliana – esta última reunindo um conjunto de obras específicas sobre História, Geografia e viagens do Brasil.

Dentre os materiais raros alocados no DeCORE destacam-se, por fim, os livros mais antigos do acervo da BCo – de autoria do poeta português Francisco de Sá Miranda, publicados em 1784 -; as primeiras edições das obras “As Meninas” e “Porão e Sobrado”, de Lygia Fagundes Telles; assinatura do escritor Raduan Nassar em livros de sua autoria adquiridos para as Coleções Especiais; assinatura de Fidel Castro; dentre vários outros.

As visitas ao DeCORE acontecem às terças-feiras, nos três períodos de funcionamento da Biblioteca – manhã, tarde ou noite. Pessoas interessadas devem preencher um formulário de agendamento (disponível em http://bit.ly/2Vzht3W). Mais informações podem ser obtidas pessoalmente com a equipe do DeCORE, localizado no Piso 5 da BCo, área Norte do Campus São Carlos, entre 8 e 22 horas, ou pelo telefone (16) 3351-8428 ou e-mail colesp.bco@ufscar.br.Fonte: www.radiosanca.com.br

Em SP, filhos tentam negociar biblioteca de Líbano Calil, com títulos valiosos

Por Agência Estado

Uma luz baixa, a mesa de estudos, a velha máquina de escrever, as prateleiras abertas para arejar e o cheiro de livro usado. Quase tudo naquele espaço remete à presença do patriarca, Líbano Calil, falecido em 1993, e responsável pela construção de um tesouro guardado no fundo de uma casa, no bairro do Ipiranga, na zona sul de São Paulo: uma biblioteca particular. O lugar tem cerca de 15 mil exemplares raros, uma coleção comparável (em termos de qualidade) às bibliotecas de José Mindlin (hoje na Cidade Universitária) e da família Safra.

Desde o falecimento do pai, os filhos de Calil, Maristela e Líbano (conhecido como Libaninho) tentam vender a biblioteca do pai. À princípio, a notícia da venda circulava apenas entre um seleto grupo de especialistas. Mas, desde janeiro do ano passado, o anúncio foi postado na página do sebo da família, a Livraria Calil Antiquária.

Os irmãos já não falam mais em preço – pois temem pela própria segurança. Mas, claramente, são herdeiros de um patrimônio literário valioso. “Por favor, não coloque valores. Hoje em dia, precisamos nos preocupar com esse tipo de coisa”, pediu Maristela. Mas, para se ter uma ideia por alto, alguns exemplares da biblioteca podem custar mais de US$ 10 mil (R$ 38,6 mil) no mercado de livros raros. Maristela e Líbano já tentaram vender para universidades e governos – eles não pretendem desmembrar a biblioteca ou comercializar exemplares avulsos.

Na biblioteca, é possível encontrar todas as primeiras edições da obra de Machado de Assis; a primeira edição autografada por Guimarães Rosa de Grande Sertão Veredas; muitas obras de autores modernistas (sempre em 1.ª edição), como o Pau Brasil (Oswald de Andrade) e da revista Klaxon, editada entre 1922 e 1923 (marco para o modernismo). Além disso, estão lá, e em bom estado, obras como Arte de Furtar, Espelho de Enganos, e Theatro de Verdades, do Padre Antônio Vieira, em uma edição de 1744; e Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens ou Discursos Morais Sobre os Efeitos da Vaidade, de Matias Aires, em uma edição de 1752. Todo o acervo é autenticado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Paixão

O patriarca, de origem libanesa e nascido na cidade de Catiguá, próxima a Catanduva, desenvolveu sua paixão pelos livros desde muito cedo. Quando criança, guardava o dinheiro que ganhava para comprar doces, ir ao cinema ou ao teatro para gastar com livros. Pensou em trabalhar com médico, mas uma lesão ocular fez com que deixasse essa vocação para trás. Começou com um pequeno sebo próximo à Catedral da Sé – tendo o cuidado de separar quais eram os livros do sebo e quais seriam os livros de sua biblioteca.

Desde 1945, a Livraria Calil Antiquária funciona no 9.º andar do número 88 da Rua Barão de Itapetininga, no centro da cidade. O local é um labirinto, bem organizado, de livros – são quase 450 mil títulos. Por lá, já foram gravadas propagandas de TV e uma cena do filme sobre a vida de Carlos Marighella, dirigido por Wagner Moura, mas ainda não lançado no Brasil.

É na livraria que a filha de Calil, Maristela, passa todos os dias. Atende clientes eventuais, faz negócios pela internet e ouve música clássica. Por ter herdado a paixão do pai, trata os livros como seres vivos e uma verdadeira fonte de prazer e sabedoria. Não raro, atua para comprar bibliotecas particulares. “Tento vender a do meu pai para que mais gente tenha acesso ao seu acervo, mas, ao mesmo tempo, vou atrás de famílias que estão vendendo as suas bibliotecas, para que não se percam ou estraguem.”

A mesma paixão está no DNA do irmão de Maristela, o Libaninho. Apesar do desejo de vender a biblioteca do pai, ele diz já saber o que fazer com o dinheiro de uma futura venda. “Olha, vou te contar, acho que eu investiria na criação de uma nova biblioteca, como essa aqui do meu pai.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Fonte: www.folhadaregiao.com.br

Seminário “Patrimônio em chamas: quem é o próximo? Gestão de risco de incêndio para o patrimônio cultural”

O fogo é um grande risco que afeta os bens do patrimônio cultural em todo o mundo. Embora, do ponto de vista de uma única instituição, possa parecer um “evento raro”, grandes incêndios podem se tornar rotina quando se considera o conjunto do patrimônio de um país. Além disso, seu impacto é quase sempre catastrófico, causando perda total ou quase total do bem cultural afetado. Exemplos recentes incluem a Escola de Artes de Glasgow (Reino Unido, 2014 e 2018), o Instituto de Informação Científica sobre Ciências Sociais (Federação Russa, 2015), Biblioteca da Universidade Mzuzu (Malawi, 2015), Museu Nacional de História Natural da Índia (2016), a Catedral Saint Sava de Nova York (Estados Unidos da América, 2016), o Museu Marítimo de Jacarta (Indonésia, 2018) e o Museu Nacional (Rio de Janeiro, Brasil, 2018).

A maioria dos incêndios que afetam as instituições de patrimônio tem causas internas e pode ser evitada ou muito reduzida por meio de procedimentos adequados de manutenção e segurança. A fim de evitarmos desastres de incêndio, a preparação para situação de emergências é essencial, mas não deve ser a única estratégia. Existe uma necessidade clara de promovermos leis e políticas mais eficazes, estimularmos o uso de novas tecnologias de segurança contra incêndios e ajudar a criar uma cultura de prevenção de incêndios em organizações de patrimônio.

O seminário abordará essas questões prementes, destacando o papel fundamental que os tomadores de decisão devem desempenhar na prevenção de incêndios. Serão discutidas as estatísticas de incêndios e suas implicações para a tomada de decisões eficazes, experiências de diferentes países e contextos na gestão de riscos de incêndio e medidas avançadas de segurança contra incêndios para aplicação no patrimônio cultural. Serão buscadas contribuições de uma gama diversificada de áreas e disciplinas, incluindo gestores e autoridades de patrimônio, socorristas, conservadores, especialistas em legislação contra incêndios, engenheiros de incêndio, chefes de bombeiros, avaliadores de risco patrimonial e especialistas em seguros. Uma visita ao Museu Nacional será organizada para fornecer uma visão, em primeira mão, das ações em curso para restabelecer seu papel proeminente como instituição de pesquisa e patrimônio no país e internacionalmente.

Um fórum especializado ocorrerá no final do seminário para apresentar recomendações significativas sobre a redução do risco de incêndio no patrimônio cultural. Isso fornecerá uma saída concreta para apoiar as mudanças nas políticas e garantir ampla disseminação de resultados.

Público-alvo: autoridades e gestores da área de patrimônio, agências nacionais de proteção contra incêndios, diretores de museus, profissionais de museus, educadores de museus e patrimônio etc.

Detalhes do programa em breve!

Mais informações: heritageonfire@gmail.com

Co-realizadores: ICCROM, ICOM Brasil, IBRAM

FonteICOM

Zeladoria do patrimônio cultural: sensibilização da comunidade com o patrimônio histórico

A FormArte, através do patrocinio da MRS por meio da Lei de incentivo a Cultura e realização da Secretaria Especial da Cultura e Ministério da Cidadania, tem o prazer de convidá-los a participar da oficina “Zeladoria do patrimônio cultural: sensibilização da comunidade com o patrimônio histórico”, a ser realizada no dia 30 de março de 2019, na Vila de Paranapiacaba.

Conteúdo:

O curso pretende apresentar o acervo construído de Paranapiacaba sob a ótica da zeladoria do patrimônio cultural, entendida aqui como meio privilegiado para a compreensão do papel das antigas artes e ofícios como interação entre homem e natureza.
Desse modo, os conteúdos próprios às lides da conservação e preservação cultural serão apresentados não como mera catalogação das técnicas construtivas, mas como um modo de proceder próprio dos antigos artífices, que faziam do seu engajamento com as ferramentas e as matérias primas um modo de conhecer e reelaborar o mundo natural em seus próprios termos. Assim, o curso tem por objetivo principal chamar a atenção e revalorizar tais práticas e rotinas do trabalho artesanal há muito relegadas ao esquecimento – além de apresentar a relação entre os materiais e seus processos naturais de degradação – como parte de uma resposta aos impasses há muito existentes no campo preservacionista entre conservação e restauro, arte e artesanato, memória e novos usos.

O curso será dividido em duas partes: uma introdução às questões próprias à preservação cultural na atualidade, enfocando especialmente a trajetória da zeladoria do patrimônio. Já na segunda parte, a torre do relógio e outros edifícios do patrimônio de Paranapiacaba servirão como ponto de partida para a aprendizagem dos antigos saberes das artes e ofícios corporificados nas suas arquiteturas.

Programação:

Manhã – Primeira parte: Preservação cultural e zeladoria do patrimônio
– Breve histórico do preservacionismo no Brasil
– Os desafios atuais da preservação cultural
– A zeladoria como uma política cultural baseada na afetividade

Tarde – Segunda parte: Artes e ofícios na criação do patrimônio
– A linguagem do artífice e a mimese da natureza
– A pedra: a cantaria, a escultura e a cal como base estrutural
– O tijolo: da terra ao canteiro
– O pau: carpintaria e marcenaria como base da arquitetura
– O ferro: processo metalúrgico

Inscrições: https://forms.gle/JcaSoABYjdMGEXun6

Projeto da UFPE digitaliza cartas do Brasil Império e Colônia para acesso público

Foram analisadas e digitalizadas as 314 cartas manuscritas do primeiro volume de um total de oito. Foto: Divulgação.

Documentos do período de 1818 a 1840 da administração pública do final do período colonial e dos primeiros quarenta anos do Império estão disponíveis para o público em geral graças a projeto desenvolvido por professores e estudantes da Universidade Federal de Pernambuco. Preservar, ressignificar e prover acesso público ao patrimônio documental postal brasileiro foi o objetivo do projeto Legado da Memória Postal, realizado pelo grupo de pesquisa Imago e Humanidades Digitais em parceria com o Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano/PE. A proposta foi identificar e tratar documentos deste período que constituem o Fundo do Correio Geral, do Arquivo Público, com a finalidade de dispô-los numa plataforma digital de acesso ao público em geral. Nesta época, o Rio de Janeiro era a sede da Administração Geral dos Correios e era por meio desse órgão que o Império se comunicava com o restante do território brasileiro para tratar de assuntos como envio de tropas e suprimentos, negociação de terras, ordens eclesiásticas e compra e venda de escravos.

O processo de curadoria, entretanto, vai além da digitalização das cartas. “O objetivo foi também planejar, executar e avaliar, de forma constante, tanto o ciclo completo do objeto digital, neste caso as cartas digitalizadas, quanto atuar com uma equipe multidisciplinar na conservação dos documentos originais. Este grupo, atualmente, é composto profissionaisdas áreas de Biblioteconomia, Arquivologia, Museologia, Computação e Administração”, afirma Diego Salcedo, coordenador do grupo Imago e professor no Departamento de Ciência da Informação e no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, ambos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

O projeto também incluiu realização de duas oficinas de formação da equipe da pesquisa: Introdução à Paleografia, ministrado pelo historiador e paleógrafo Thiago Medeiros e Descrição de Documentos Arquivísticos e as Normas Vigentes no Brasil, ministrado pela professora Danielle Alves, do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Softwares facilitam a gestão dos documentos

Foram analisadas e digitalizadas as 314 cartas manuscritas do primeiro volume, de um total de oito. Para isso, o grupo utilizou dois softwares interligados que servem para a gestão e descrição de documentos arquivísticos e foram implementados pelo Arquivo Público em 2018. O ICA-AtoM é um aplicativo de código aberto baseado em padrões para a descrição arquivística num contexto multilíngue, para ambiente web de multiarquivos. Já o Archivematica é a interface de interação com o usuário. É um sistema gratuito de preservação digital de acesso aberto e que utiliza, por exemplo, o AtoM para gerenciar o conteúdo disponibilizado na web. “É um programa de código aberto que facilita o nosso trabalho por contar com parâmetros de descrição, todos eles baseado nas normas brasileiras e internacionais de descrição de documentos arquivísticos”, ressalta Salcedo.

O projeto pode ser acessado na página eletrônica (http://imagohd.me/memoriapostal) ou https://www.acervo.arquivopublico.pe.gov.br/index.php/correio-geral-volume-1

Fonte: Diario de Pernambuco

I Encontro Paulista de Patrimônio Histórico Documental

O Estado de São Paulo possui rico acervo histórico documental e bibliográfico que deve ser preservado e precisa ser valorizado. Diante disso, o I Encontro Paulista de Patrimônio Histórico Documental será um espaço de discussão sobre o patrimônio documental impresso junto aos profissionais atuantes em instituições de memória no âmbito do Estado de São Paulo. O Encontro ocorrerá nos dias 13 a 15 de maio, na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Profissionais das áreas da Arquivologia, Biblioteconomia, História, Museologia, Preservação e Conservação vão discutir a importância desse patrimônio para a sociedade, estratégias e dificuldades de gestão, políticas públicas para a área, a extroversão aos cidadãos e a educação patrimonial.

Clique na imagem para fazer a inscrição para o evento

Curso “Marcas de Proveniência Bibliográficas”

Inscrições para o curso: fundacaoarcadas@fundacaoarcadas.org.br

Lista de trabalhos aprovados

Temos uma imensa satisfação em divulgar os trabalhos aprovados para a primeira edição do Encontro Paulista de Patrimônio Histórico-Documental. Esclarecemos que foi feita uma redistribuição dos trabalhos pelos GTs, considerando o objeto de estudo e a abordagem. Houve poucos trabalhos submetidos para o GT3 (Pôsteres de experiências profissionais em patrimônio documental, conservação e preservação), motivo pelo qual os resumos foram novamente analisados e inseridos em outros GTs. Parabéns aos profissionais, pesquisadores e estudantes que encaminharam seus trabalhos. Até 13 de maio!

Trabalhos aprovados para o 1EPPHD

Comissão Acadêmica do 1EPPHD


Sugestões de Hotéis

Hotéis

Sugestões de Restaurantes

Restaurantes


		

La Biblioteca Británica saca a la luz sus libros prohibidos

La institución ha subido a Internet 2.500 volúmenes, la mayoría de ellos considerados en su época como “demasiado obscenos”

La Biblioteca Británica saca a la luz sus libros prohibidos
Imagen del interior de la Biblioteca Británica (Biblioteca Británica)
Texto por Lara Gómes Ruiz

Desde tiempos ancestrales, la incomodidad se ha traducido en muchas ocasiones con la censura. Son incontables el número de veces en que el poder ha retirado de la circulación libros que molestaban, ya fueran porque alentaban un pensamiento que se salía de la norma o porque se extralimitaran en lo que la moral ética marcaba en ese momento. Sin embargo, por mucho que se prohibieran determinados relatos, son varias las personas e instituciones que optaron por guardarlos bajo llave hasta que la sociedad evolucionara y comprendiera el valor que en realidad tenían.

A lo largo de los siglos y ante el temor de que acabaran quemados, el Museo Británico ha hecho de guardián de muchos de estos volúmenes. Además de guardarlos bajo llave, los ordenó por temáticas, de tal modo que, los que tenían contenido erótico –que eran la gran mayoría –, entraron a formar parte de la colección ‘Private case’ (Caso Privado).Entre los libros publicados se encuentra la que está considerada la primera novela pornográfica escrita en lengua inglesa

En 1973, estas obras –datadas entre los siglos XVII y XX – fueron transferidas a la Biblioteca Británica. Ha sido precisamente esta institución quien recientemente ha anunciado la digitalización de todas ellas. Nada menos que 2.500 obras que en pocos días ya han encontrado en Internet su zona de confort. Así, los más curiosos descubrirán que la ficción erótica gay existe desde hace tiempo con libros como Teleny o la inversa de la Medalla. También podrán leer el diario de un caballero de la Inglaterra victoriana que recopiló sus hazañas sexuales y extraer sus peculiares consejos.

La saga de libros publicada en 1740 The Merryland, que describe a la mujer como “una tierra que debe ser arada”, también se encuentra en la colección. Una definición que se debe contextualizar en el momento en la que fue escrita. Pero si un volumen llama especialmente la atención ese no es otro que Fanny Hill: Memorias de una cortesana (1748). Escrita por John Cleland mientras estaba en prisión, está considerada la primera novela pornográfica escrita en lengua inglesa.

 Amor y Cohetes@UnEteronef

 John Cleland. Fanny Hill. Memorias de una cortesana.
 Ver los otros Tweets de Amor y Cohetes
 Además de interesantes lecturas, la Biblioteca Británica también ha digitalizado Harris’s Lists of Covent-Garden Ladies, una especie de páginas amarillas de las trabajadoras sexuales que ejercían en Londres y que se actualizó anualmente entre los años 1757 y 1795. Cada página contenía una imagen de la prostituta en cuestión y una definición con la que se realzaban sus atributos.

“La importancia de estos libros siempre ha sido conocida, pero las leyes de obscenidad y el peligro de robo impedían que se les dieran libre acceso. Parte del material también entró en la colección mediante depósito legal – la Biblioteca Británica tiene la obligación de conservar todo el material de depósito legal”, cuenta a La Vanguardia Maddy Smith, curadora de colecciones de patrimonio impreso de la entidad.

Ilustración del directorio de prostitutas de Covent-Garden

Ilustración del directorio de prostitutas de Covent-Garden (Biblioteca Británica)

Pero, ¿por qué ahora? Smith explica a La Vanguardia que se trata de una cuestión de “practicidad, conservación y libertad”. “Queremos proteger estos libros raros y frágiles de la decadencia natural, los daños accidentales y la mutilación. Los historiadores podrán acceder a esta fascinante colección que habla de sexo y sexualidad sin necesidad de tocarlos físicamente, pues el paso del tiempo ha hecho mella en muchos de ellos. No obstante, los investigadores podrán ahora encontrar en su lugar sustitutos digitales de alta calidad”.

Cuentan desde la Biblioteca Británica, que en su día llegaron a formar parte de esta serie, considerada en la época como “inmoral”, hasta 4.000 ejemplares. No obstante, conforme avanzaba la sociedad, “el concepto de obscenidad variaba, por lo que muchos de estos libros se liberaban y llegaban por fin a las bibliotecas. Hoy, decimos orgullosos, que ya circulan con total libertad por la red”.

La importancia de estos libros siempre ha sido conocida, pero las leyes de obscenidad y el peligro de robo impedían que se les dieran libre acceso”

Fonte: LA VANGUARDIA

Guia de Coleções da Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional está disponível em formato digital

A Divisão de Manuscritos e o Centro de Pesquisa e Editoração da Biblioteca Nacional disponibilizaram para a consulta neste mês de fevereiro o Guia de Coleções da Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional em formato digital, disponível para download no portal da Biblioteca Nacional. Desde 2014, a Coordenadoria de Editoração vem publicando o Boletim do Plano Nacional de Preservação de Obras Raras/PLANOR em formato digital, também disponível neste site.

Guia de Coleções da Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional está disponível em formato digital

Guia de Coleções da Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional está disponível em formato digital

Ferramenta valiosa de pesquisa, com informações sobre proveniência, conteúdo, dimensão, localização no acervo, acesso aos documentos das coleções custodiadas pela Divisão de Manuscritos, entre outras, o Guia abrange, até o momento, 225 coleções.

As coleções provêm de fundos públicos – como as coleções do Conselho Ultramarino, da Casa dos Cantos/Arquivo Público Mineiro e da Casa Real Portuguesa – e privados – como as coleções Frei José Mariano da Conceição Veloso, José Bonifácio, Mário Pedrosa e Percival Farquhar. Novas coleções serão incluídas à medida que forem sendo tratadas pelos técnicos da Divisão de Manuscritos.

O Guia de Coleções foi organizado e revisado tecnicamente pela bibliotecária Eliane Perez, que o concluiu em 2018. Sua confecção iniciou-se, no entanto, na década de 1990 por iniciativa do então chefe da Divisão de Manuscritos, Waldir da Cunha. O trabalho teve continuidade sob a coordenação das chefes da Divisão de Manuscritos, Carmen Moreno (1995-2003), Vera Faillace (2003-2015) e Luciane Medeiros (a partir de 2015).

As coleções, como informa Eliane Perez na apresentação, estão ordenadas alfabeticamente pelo título (nome do titular da coleção ou da instituição da qual provém); parte delas é ilustrada com reproduções de peças. A capa homenageia o historiador Capistrano de Abreu, que foi funcionário da Biblioteca Nacional, onde preparou a publicação de importantes manuscritos, como o da História do Brasil, de Frei Vicente do Salvador.

A consulta no Guia pode ser feita mediante acesso à Relação das Coleções e um clique no nome da coleção procurada. O clique na margem de cada página da descrição das coleções leva o pesquisador de volta à Relação das Coleções.

CONTEÚDO RELACIONADO

Mapa interactivo busca crear una biblioteca virtual de arte urbano de Uruguay

 

Montevideo, 10 mar (EFE).- La iniciativa uruguaya StreetArt.uy busca crear una “biblioteca virtual” del arte urbano del país suramericano para promocionar los murales y esculturas que hay en el territorio y preservar el patrimonio que crea ese arte efímero.

De momento el mapa interactivo de este portal, que fue declarado de interés turístico por Uruguay, cuenta con quinientos lugares que marcan tanto los murales actuales como los que ya no están.

Para nosotros el arte urbano es un patrimonio vivo, pero, también, al ser parte de nuestra identidad, de nuestra narrativa diaria es parte de la memoria”, señaló a Efe el encargado de la gestión cultural y administración del proyecto, Manuel Rivoir.

Según el experto este mapa es una “biblioteca virtual”, pues muestra no solo una foto del grafiti o escultura urbana, sino que señala qué artista la hizo.

La difusión y promoción de los artistas urbanos, para valorar su arte, para entender que es un trabajo y para articular con futuros clientes”, destacó Rivoir bajo la fachada de una antigua cárcel de mujeres que hoy está recubierta de coloridas piezas.

En este sentido, el experto dijo que las paredes de Uruguay las pintan tanto artistas nacionales como internacionales.

De España está David de la Mano que hace muchos años que está radicado en Uruguay tiene un estilo muy específico, porque él pinta en blanco en negro y más vinculado al arte de seres sobrenaturales”, detalló y dijo que este artista europeo pinta “donde el arte no llega”, haciendo referencia a barrios marginales.

Aunque la mayoría de los puntos del mapa se encuentran en la capital más austral de América, también hay señalizaciones en otras zonas.

En los años 90 surgieron las ciudades museos, San Gregorio de Polanco, en Tacuarembó, en el medio del Uruguay, es una ciudad muy pequeña que está al borde de un río, que decidió juntar muchos artistas y escultores y empezó a pintar arte muralista afuera”, detalló Rivoir.

Además, el gerente cultural indicó otros lugares que destacan por su arte callejero como Mercedes (suroeste), Rosario (suroeste), Punta del Este (sureste) y un “pueblo pequeño” llamado 25 de Agosto que pese a albergar 450 personas cuenta con cerca de ochenta murales.EFE

Fonte: Contacto Hoy

Museus e patrimônio no Brasil são tema de jornada de estudos na Universidade de Borgonha

BORGONHA, Dijon – No próximo dia 12 de março, das 9h45 às 17h, o Centro Georges Chevrier – Sociétés et sensibilités realiza a Jornada de Estudos: ‘Museus e patrimônio no Brasil: experiências comunitárias e insurgentes’.

By Universität von Burgund – fr:Fichier:Université de Bourgogne (logo).svg, (Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=14864057)

O evento é organizado pelo antropólogo, professor do Departamento do Instituto Diderot da Universidade de Borgonha e diretor do Centro Georges Chevrier, Pr. Jean-Louis Tornatore.

A Jornada de Estudos apresentará situações únicas que possibilitarão destacar a singularidade das abordagens e práticas brasileiras. Efeito direto da “mobilidade externa”, apoiado pela região da Borgonha, Franche-Comté é uma primeira realização de uma parceria entre a Universidade de Borgonha e da Universidade Federal de Pelotas (RS).

Com o evento dá-se início a uma rede de pesquisa que liga o Centro Georges Chevrier (Universidade de Borgonha), o Programa de Pós-graduação em Memória Social e Patrimônio (Universidade Federal de Pelotas), o Programa de Pós-graduação em Ambiente Construído Sustentável e Patrimônio (Universidade Federal de Minas Gerais) e da Universidade Federal de Goiás (Bacharelado em Museologia e Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social).

Clique aqui para obter maiores informações.

Programa
10:00-10:15
Jean-Louis Tornatore (uB, CGC)

abertura

Manhã: 10.15-12.30

Moderador: Alain Chenevez (uB, CGC)

Manuelina Duarte (Universidade de Liège e Universidade Federal de Goiás, Brasil)
Museologia social no Brasil: origens, políticas públicas e experiências
Influenciado pelos franceses, a Nova Museologia, também enraizada na singularidades brasileiras, alimentou o pensamento de Paulo Freire e da Museologia social no Brasil, tendo como momentos-chave: o 1º Encontro Internacional de Ecomuseus no Rio de Janeiro (1992) e a criação do Programa Pontos de Memória pelo Instituto Brasileiro de Museus (2009). A conferência apresentará essa trajetória, caracterizará a política pública mencionada e mostrará algumas experiências concretas.

Maria Leticia Mazzucchi Ferreira (Universidade Federal de Pelotas, RS, Brasil)
O programa Pontos de Memória: um ensaio sobre participação popular?
O programa Pontos de Memória foi criado no Brasil sob o governo do PT e estava ligado aos Ministérios da Justiça e da Cultura. A ideia de memória estava diretamente ligada aos processos de identidade e reparação simbólica dos grupos socialmente excluídos. Entre as várias experiências creditadas como “Pontos de Memória” estão os chamados “museus comunitários”. Serão apontados os problemas e o progresso desta política memorial no país.

14h-17h
Moderador: Yannick Sencébé (AgroSup Dijon, CAESER)

Hugues de Varine

Inculturação na museologia brasileira

Ao lado de um conjunto de movimentos inovadores em vez inclusivos do que pode ser atribuída a uma “nova museologia” brasileira (educação patrimonial, o trabalho sobre a memória, ecomuseus, museus comunitários e territórios), constato o aparecimento de formas, redes e personalidades que marcam museologias invenção específica para certas populações usando o museu como uma ferramenta de luta política, social, cultural, econômica, na sociedade brasileira. Três áreas são particularmente exemplares em seus objetivos e métodos: museologia indígena, museologia afro-brasileira e museologia LGBT. Estamos testemunhando fenômenos que surgiram desde a década de 1990 e são particularmente relevantes no novo contexto político. Pode-se falar de uma “inculturação”, em reação a formas de opressão.

Leonardo Castriota (Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil)
Heranças dos insurgentes. Estetização e resistência cultural no Brasil contemporâneo
Nos últimos anos, têm-se multiplicado nas cidades brasileiras de “ação direta” iniciativas de ocupação e reutilização de locais públicos e edifícios de valor patrimonial de forma crítica – mais ou menos clara – a representatividade da poder constituído ou mesmo casos formais de participação, como os conselhos do património, que se inscreveram na luta pela redemocratização do país desde a década de 1970, será proposto elementos problematização desta perspectiva “insurgente” no Área de patrimônio, ocupação de ruas abandonadas ou não utilizadas, praças e prédios no Brasil, desafiando o direito à cidade e à memória.

Jean-Louis Tornatore

Conclusão. Perspectivas: insurgências, contra-hegemonia

Gostaríamos de propor um contraste entre as situações brasileira e francesa. O desenvolvimento notável aqui da museologia social e uma expressão insurgente de ligações patrimoniais deve ser medido contra a possibilidade de escrever um cenário contra-hegemônico do patrimônio. Na encruzilhada de ambos, questiona-se a possibilidade de “devolver” instituições museológicas e patrimoniais e, consequentemente, sua capacidade de transformação social e resistência à hegemonia política e econômica.

Os oradores

Manuelina Duarte professor de museologia da Universidade de Liège (Bélgica) e Professor do Programa de Pós-Graduação (Mestrado / PhD) em Antropologia Social da Universidade Federal de Goiás, no Brasil. Foi Diretora do Departamento de Processos Museológicos do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) de 2015 a 2016.

Maria Leticia Mazzucchi Ferreira é professora da Universidade Federal de Pelotas e pesquisadora do Programa de Mestrado e Doutorado em Memória Social e Patrimônio Cultural e do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas, CNPq. Ela realiza pesquisas sobre museus de memória e patrimônio em lugares de sofrimento.

Hugues de Varine é ex-diretor do ICOM. Ele é ator e observador de ecomuseus e museologia social. Suas publicações incluem a cultura dos outros (Le Seuil, 1976) As raízes do futuro (ASDIC, 2002) O museu singular e plural (Paris, L’Harmattan, 2017).

Leonardo Castriota é professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais e coordenador adjunto do Programa de Pós-Graduação em Ambiente Construído e Patrimônio Sustentável. Atualmente, ele está conduzindo pesquisas sobre heranças insurgentes

Fonte: Revista Museu

Revistas raras já estão disponíveis on-line

Giselle Beiguelman indica coleções como as das revistas “Camera Work” e “Realidade”

O leitor atento encontra na internet coleções de revistas sobre os mais variados assuntos. A artista e professora da FAU /USP, Giselle Beiguelman, orienta um percurso imperdível. “São coleções de edições antigas com temas que vão desde a arquitetura residencial modernista à coleção completa da revista Realidade, passando pela mítica revista Camera Work. Temos um mundo de coisas para comentar”, recomenda.

Segundo Beiguelman, a coleção de arquitetura residencial modernista está disponível no site US Modernist:  http://www.usmodernist.org. “Trata-se de um robusto banco de dados que disponibiliza mais de seis mil revistas em formato digital. O vasto acervo contempla edições dos EUA publicadas desde os anos 1920, e alguns títulos anteriores. Há desde publicações conhecidas como a American Architect e Arts & Architecture a uma série de títulos regionais e específicos.”

Beiguelman indica também a revista Camera Work: http://modjourn.org/render.php?view=mjp_object&id=CameraWorkCollection.

Publicada entre 1903 e 1917, é a primeira dedicada à fotografia como arte. Foi editada pelo fotógrafo e galerista Alfred Stieglitz, um dos nomes referenciais para a história das imagens técnicas. O designer da revista é o fotógrafo e pintor Edward Steichen, que seria, nos anos 1950, o primeiro diretor do Departamento de Fotografia do MoMA de Nova York.”

A professora orienta também a visita à Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP, que reúne 170 diferentes periódicos. Outra indicação é a Biblioteca Nacional, que disponibiliza ao público fartas coleções de revistas brasileiras. “Na Biblioteca Nacional, é possível acessar desde revistas de variedades, como Eu Sei Tudo, um almanaque publicado mensalmente de 1917 a 1955, até publicações jornalísticas que se tornaram importantes fontes históricas pelos seus aspectos gráficos, viés editorial e contribuição ao fotojornalismo, como as revistas O Cruzeiro, Manchete e Realidade. “Importante lembrar que a revista Realidade contou, de 1966 a 1971, com a atuação da incrível fotógrafa Claudia Andujar, com trabalhos em exposição no Instituto Moreira Salles.”

Para mais informações sobre o tema comentado, acessar: www.desvirtual.com. Ouça no link acima a íntegra da coluna Ouvir Imagens.

Fonte: Jornal da USP

Biblioteca digital revela 500 anos da relação entre a França e o Brasil

media

O portal França-Brasil disponibiliza artigos e documentos históricos que revelam cinco séculos das relações entre os dois países. O projeto foi criado em 2009, durante o “Ano da França no Brasil”, pelas bibliotecas nacionais da França e do Brasil, e era pioneiro. Dez anos depois, o portal ganha uma nova versão que está sendo lançada nesta terça-feira (19), na embaixada brasileira em Paris.

A nova versão, atualizada e ampliada, da biblioteca digital França-Brasil, “disponibiliza para o público mais de dois mil documentos, contextualizados por 54 artigos inéditos, redigidos por especialistas dos dois países”, detalha Régine Piersanti, responsável científica do portal pela BNF. Os documentos integram o acervo das duas bibliotecas. São textos manuscritos, impressos, mapas e desenhos que comprovam e ilustram a relação franco-brasileira do século 16 até meados do século 20, das tentativas fracassadas de colonização do território pelos franceses (A França Antártica e a França Equinocial) até a viagem de intelectuais franceses nos anos 1920 e 1930.

O portal é um instrumento útil tanto para estudantes e pesquisadores quanto para os usuários em geral. “O grande público vai encontrar coisas curiosas e vai ter esclarecimentos, pelos artigos, corrigindo às vezes preconceitos ou ideias errôneas sobre a relação França-Brasil. Já o pesquisador vai ter acesso a documentos muito raros”, salienta Michel Riaudel, diretor do Departamento de Estudos Lusófonos da Universidade Sorbonne e integrante do conselho científico do portal.

Influências recíprocas

A grade de navegação foi repensada para facilitar o acesso. A lógica anterior, que era cronológica, deu lugar a uma divisão temática: Momentos Chaves; Correntes Transatlânticas; Literatura e Circulação de Ideias; e Artes, Ciências e Técnicas. A reciprocidade norteia a concepção do site: “Nós saímos dessa ideia de modelo, de influência de uma cultura mais hegemônica. Não se trata de negar as hierarquias que existiam. Mas mostrar que, dentro dessas hierarquias, ambas as partes tinham uma contribuição, um trabalho de reapropriação,” explica Riaudel.

A ideia da França como modelo, de um diálogo unilateral, de um Brasil receptor passivo, ou a “lógica de dependência que foi durante muito tempo ativa”, estão ultrapassadas.

Patrimônios compartilhados

O portal é bilingue, francês e português, e de livre acesso. Em 2009, ele se chamava “A França no Brasil” e era hospedado pelo site da Fundação Biblioteca Nacional. A nova versão passa a ser disponibilizada pelo portal da Biblioteca Nacional da França, a BNF. Ele integra agora a coleção Patrimônios Compartilhados, que a instituição francesa criou em 2017 para valorizar a colaboração com bibliotecas nacionais de outros países com os quais têm laços culturais estreitos. Daqui para frente, o site será mantido e custeado pela BNF e vai se beneficiar de todas as evoluções técnicas da biblioteca digital francesa Gallica, que é uma das maiores do mundo.

Angela Monteiro, responsável científica pela Fundação Biblioteca Nacional, ressalta que a sustentabilidade e a perenidade do projeto também influenciaram a migração do portal para a BNF: ”O fato dele estar hospedado na BNF, que é uma instituição que já tem há muito tempo uma política de preservação digital implementada e validada, nos deixa muito tranquilos quanto ao compromisso de preservação digital a longo prazo do acervo dessa biblioteca França-Brasil.”

Ela diz que o acervo não corria risco hospedado no site da Fundação Biblioteca Nacional, mas “ter um espelhamento, estarem em dois lugares preservados, é uma garantia, uma segurança.”

Fonte: RFI

Tesoros literarios del pasado: los valiosos 173 incunables de la Biblioteca Nacional de México

Portada - Silvia Salgado con un libro de coro conventual del año 1713. (Fotografía: La Gran Época/Fernando Velázquez (UNAM))

Tesoros literarios del pasado: los valiosos 173 incunables de la Biblioteca Nacional de México

En la historia de México, distintos sucesos relevantes ocurrieron en el siglo XV, y entre los más importantes resulta necesario destacar el hecho de haber sido el primer país de América en poseer una imprenta, lo que dio origen a una nueva ilustración que influyó notablemente en el desarrollo de la cultura mexicana.

Todo ello provocó que también se convirtiese en uno de los primeros países del Nuevo Mundo en contar con las primeras y más relevantes bibliotecas de América. Actualmente destaca en él la  Biblioteca Nacional de México (BNM) , perteneciente a la Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM) , por albergar un acervo cultural formado por más de 1.250.000 piezas. Entre tan valiosos documentos destacan 173 libros incunables –fechados entre 1469 y 1500–, además de varios volúmenes ilustrados a mano y con letras de oro. También cuenta con la obra mecanografiada Los murmullos –titulada después como ‘Pedro Páramo’– , con anotaciones de puño y letra de su autor, Juan Rulfo, así como con diversas colecciones de bibliotecas conventuales.

Su cúmulo se divide en dos secciones: la moderna, que reúne ejemplares del siglo XX al XXI, y los fondos reservados –tanto de la biblioteca como de la hemeroteca– que pueden tener libros modernos, y también incunables. Los incunables –del latín ‘incunabula’, en la cuna– son “hijos de la primera imprenta”. Entre ellos se pueden encontrar obras como  La Divina Comedia  (Venecia 1493), de Dante Alighieri . Provienen principalmente de bibliotecas novohispanas y de conventos, pues hay que recordar que la Biblioteca Nacional es producto de las Leyes de Reforma y la desamortización de bienes”, explica la doctora y coordinadora de la BNM, Silvia Salgado Ruelas .

Incunable de La Divina Comedia (año 1493) que alberga la Biblioteca Nacional de México. (Fotografía: La Gran Época/Fernando Velázquez (UNAM))
Incunable de La Divina Comedia (año 1493) que alberga la Biblioteca Nacional de México. ( Fotografía: La Gran Época/Fernando Velázquez (UNAM) )

En la Sala Mexicana , un recinto que contiene grandes tesoros mexicanos, se coleccionan impresos realizados en el país desde el año 1554 hasta 1821. Además, quienes acudan a la BNM también podrán acceder a la Colección de José María Lafragua , al archivo de Carlos Pellicer , a la biblioteca personal de Boris Rosen –pareja de Raquel Tibol –, a las obras que conformaron el acervo de la Antigua Catedral de México o a la colección hemerográfica mexicana, que abarca desde 1772 hasta el presente.

Lo que la biblioteca reúne no se va a encontrar, como colección, en ningún otro lado. Conservamos ejemplares únicos, tanto mexicanos como extranjeros, colecciones de personajes e instituciones que muestran la historia y formación cultural e intelectual de esta nación”, añadió la profesora Salgado .

Cómo se creó la BNM

Inicialmente, la Biblioteca Nacional fue establecida en el templo de San Agustín, ubicado en el Centro histórico de la Ciudad de México, por decreto del presidente Benito Juárez en el año 1867. En 1929, cuando la UNAM logró su autonomía, se puso a su cargo la Biblioteca Nacional, y de esta manera se convirtió en la primera de la historia en estar a cargo de una Universidad: generalmente las Bibliotecas Nacionales se encuentran al resguardo de secretarías o de ministerios de Educación y Cultura.

Libro de horas (origen parisino – año 1450). (Fotografía: La Gran Época/Fernando Velázquez (UNAM))
Libro de horas (origen parisino – año 1450). ( Fotografía: La Gran Época/Fernando Velázquez (UNAM) )

En 1944, debido al crecimiento de los periódicos y las hemerotecas, cuyo desarrollo siempre es más acelerado que el de una biblioteca, ésta salió del Antiguo Templo de San Agustín y fue trasladada al Antiguo Templo de San Pedro y San Pablo, aunque no existiese un decreto oficial de creación. Hubo que esperar hasta 1979 para volver a reunir a la BNM y la Hemeroteca Nacional en el edificio que actualmente ocupan, en la Ciudad Universitaria. Luego, en 1992, se instaló una construcción adicional donde se albergan los fondos antiguos o reservados de ambas.

No hemos terminado de hacer el inventario pues traemos un rezago histórico, pero aproximadamente tenemos 1.250.000 piezas, además de dos millones de imágenes de la biblioteca y más de siete millones más de la hemeroteca. De ese tamaño es la riqueza de la BNM”, concluyó finalmente la experta Silvia Salgado.

Imagen de portada: Silvia Salgado con un libro de coro conventual del año 1713. ( Fotografía: La Gran Época/Fernando Velázquez (UNAM) )

Autor: La Gran Época .

Este artículo fue publicado originalmente en La Gran Época y ha sido publicado de nuevo en www.ancient-origins.es con permiso.

Fonte: Ancient-Origins.es

Patrimônio em risco: MPMG recomenda que Vale retire bens culturais móveis de Barão de Cocais

Texto por Daniele Franco*

Ruínas de Gongo Soco mostram parte da história da vila colonial que existiu no local

A preocupação com a preservação do patrimônio Cultural, Histórico e Turístico de Barão de Cocais, na região Central do Estado, levou o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) a orientar a Vale a retirar todos os bens culturais móveis existentes na área impactada por um possível rompimento da barragem Gongo Soco. A empresa evacuou, na manhã desta sexta-feira (8), toda a Zona de Autossalvamento da mina após ter a garantia de estabilidade negada por uma empresa de consultoria. Cerca de 50 famílias tiveram que deixar suas casas.

Além das residências, um rompimento da barragem de Gongo Soco tem potencial de causar danos ao patrimônio da cidade, segundo avaliou o MPMG. Entre os principais está o Conjunto de Ruínas de Gongo Soco, tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha) em 1995. Além das ruínas, o MP cita outros 17 bens tombados em nível municipal, estadual ou federal presentes no território da cidade. 

Segundo os promotores de Justiça Cláudio Daniel Fonseca de Almeida e Giselle Ribeiro de Oliveira, da Promotoria Estadual de Defesa do Patrimônio Cultural e pela Promotoria de Justiça de Barão de Cocais, “um eventual carreamento de rejeitos, em decorrência do rompimento da barragem, comprometeria gravemente e de forma irreversível a integridade do patrimônio cultural, histórico e turístico do município”. 

Procurada pela reportagem, a Vale ainda não se manifestou sobre o assunto.

Gongo Soco

Desde maio de 1995, o Conjunto de Ruínas de Gongo Soco é um Patrimônio Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico e de Arte Históricas e dos Documentos Paleográficos ou Bibliográficos. A homologação do perímetro do tombamento se deu dois anos depois, em 1997, o que garantiu que a exploração mineral na região não atingisse o conjunto.

A história mostrada nas estruturas em ruínas dos conjuntos remonta dos primeiros anos do século XVIII, quando o comerciante de Madeira Manuel da Câmara Bittencourt descobriu ouro na região e abriu as atividades daquela que ficou conhecida como Mina do Gongo. A vila à qual remetem as ruínas começou a ser construída pelo português José Alvares da Cunha Porto, que arrematou as terras do sobrinho de Manuel Bittencourt. Porto assentou na área a sede da fazenda, senzalas, moinhos, paiol, pomar, jardim e capela.

O território ficou sob o domínio do português até as primeiras décadas do século XIX, quando a companhia inglesa Imperial Brazilian Mining Association adquiriu a propriedade. Segundo as informações coletadas pelo Iepha, entre 1826 e 1856, a Mina de Gongo Soco, sob a direção dos ingleses, teve uma produção de 12.887 quilos de ouro.

A destruição da vila da mina começou na em 1900, quando a The Prospect Corporation comprou a Mina de Gongo Soco do capitalista Paula Santos e eu inicio a prática dos proprietários de se construir edificações sobre as ruínas da antiga vila colonial. Esse tipo de prática, que aos poucos apagava os vestígios da antiga vila, só foram impedidas mais de 90 anos depois, quando ações conjuntas da Fundação Estadual do Meio Ambiente – FEAM -, IEPHA e Ministério Público paralisaram as atividades predatórias no conjunto de ruínas e transformaram a área em patrimônio cultural.

*Com MPMG e Iepha

Fonte: Hoje em Dia

Tesouros na prateleira

Espalhados pelo país, acervos de obras raras demandam proteção e prometem descobertas

Exemplares de A crônica de Nuremberg (à esq.), de 1493, Evangelho grego (abaixo), do século XVI, e Compendio (à dir.), de 1541, integram acervo nacional de obras raras
Acervo BN digital | IEB-USP

Texto por Vivi Fernandes de Lima

Era um dia de atendimento comum na biblioteca da Universidade de Caxias do Sul (UCS), no Rio Grande do Sul, quando um homem entrou na sala em busca de um exemplar do livro De incantationibus seu ensalmis, de Manuel do Vale de Moura (ca. 1564-1650). A ansiedade do usuário, que viajou mais de 400 quilômetros para ter acesso ao título em latim, logo se transformou em revelação: ele contou ter localizado um pote de ouro próximo à fronteira com a Argentina e precisava do livro para desenterrá-lo. Conhecedor da lenda que remonta aos primórdios do período colonial, o homem sabia que índios da região do rio da Prata haviam enterrado um tesouro que só poderia ser retirado da terra com o auxílio de uma reza. O ritual, assegurava o caçador de tesouros, estaria descrito na obra publicada no século XVII, em Évora, Portugal. A bibliotecária ajudou como pôde. Com o auxílio de um professor de latim da universidade, vasculharam o livro atrás da tal reza. Não obtiveram sucesso.

Não se sabe se o homem conseguiu desenterrar o que queria, mas é fato que, na busca pela oração, acabou encontrando outro tesouro: o próprio livro, uma publicação de 610 páginas, encadernada em pergaminho e com escudo de armas reais na página de rosto. Marcia Carvalho Rodrigues, que era a bibliotecária da UCS naquela primeira década dos anos 2000, lembra do momento com carinho. “Estudar livros que têm características especiais e as histórias que estão associadas a eles me realiza profissionalmente”, diz ela, que hoje é professora de biblioteconomia na Universidade Federal do Rio Grande (Furg).

Obras raras como a solicitada na UCS podem ser encontradas em todas regiões do país, em instituições públicas e privadas, mas ainda precisam ser catalogadas. Em 2017, em um esforço para mapear o acervo existente no Rio Grande do Sul, Marcia Rodrigues decidiu pesquisar o tema. Iniciou consultando bibliotecas universitárias. Doze das 19 instituições confirmaram dispor de obras raras em seus acervos. Quando alcançou as bibliotecas públicas, no entanto, a pesquisa travou. Apenas 19 das 533 instituições gaúchas registradas no Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP), responderam – todas negativamente. “Perguntamos se as bibliotecas tinham ou não obras raras. Apenas conseguimos concluir que será necessário mudar o instrumento de pesquisa”, diz Rodrigues, desconfiada de que a desatualização do banco de dados possa ter contribuído para a escassez de respostas.

Los desastres de la guerra, de Francisco Goya, é uma das preciosidades guardadas na Biblioteca Nacional
Acervo BN digital

A Biblioteca Nacional (BN), por meio de seu Plano Nacional de Recuperação de Obras Raras (Planor), identifica, coleta, reúne e dissemina informações sobre acervos raros do Brasil desde 1995. No entanto, seu Catálogo do Patrimônio Bibliográfico Nacional (CPBN), disponível on-line, ainda não contempla todos os acervos do país. Por ser uma plataforma coletiva, depende das informações enviadas pelas instituições. Enquanto elas não tiverem condições de identificar suas coleções raras, as lacunas permanecem. Atualmente são 386 as instituições com acervo raro identificadas no Brasil – 235 já constam do CPBN.

De acordo com Ana Maria de Almeida Camargo, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), a investigação científica sobre o tema ainda é incipiente. “Temos pesquisas sobre o livro como objeto, sobre as editoras, sobre a leitura, mas sobre o livro raro, o livro especial, ainda falta muita coisa, sobretudo bibliografias. Chegamos ao século XXI sem conhecimento exaustivo do que publicamos”, observa a historiadora, especialista em arquivos e que trabalhou no projeto de identificação do acervo bibliográfico da USP – onde está, por exemplo, Compendio, obra sobre os sacramentos religiosos, de autoria desconhecida, publicada em 1541. O curioso é que nem sempre foi assim. “Por incrível que pareça, em 1881 houve uma exposição na Biblioteca Nacional que foi considerada, por bibliófilos de todo o mundo, o melhor e mais elaborado trabalho sobre o tema”, informa Camargo, referindo-se ao Catalogo da Exposição de Historia do Brazil, de autoria do então diretor da instituição Ramiz Galvão (1846-1938). Segundo ela, o Catalogo relaciona mais de 20 mil títulos referentes ao Brasil, representando, na opinião do bibliógrafo paulista José Honório Rodrigues (1899-1986), “uma publicação de extraordinária importância na historiografia brasileira, não somente por ser única em sua época, em termos universais, mas porque nada melhor se construiu no Brasil depois dele”.

Diretamente associada à escassez de conhecimento científico sobre o tema parece estar uma dúvida comum aos responsáveis por acervos: como identificar uma obra rara? A antiguidade de uma obra, o conteúdo, suas ilustrações, as marcas de propriedade, o tipo de papel utilizado ou sua encadernação; exemplares com anotações manuscritas, únicos ou com tiragens reduzidas, ou de autores renomados são alguns dos critérios de classificação aceitos internacionalmente. Existem também as características específicas de cada acervo. Para compor uma coleção de livros raros, por exemplo, é preciso considerar múltiplos aspectos, explica Ana Virginia Pinheiro, que desde 2004 chefia a Divisão de Obras Raras da BN.  “A antiguidade é o mais evidente, pelas características artesanais que impõe ao livro”, diz, referindo-se a papéis de trapos, gravuras e técnicas primevas de impressão. “Mas a unicidade é o mais criterioso, porque exige muito preparo do curador da coleção, porque leva em consideração as características que personalizam o exemplar, como encadernações artísticas ou marcas de leitura por leitores renomados”, observa.

Identificar uma obra rara constitui desafio aos pesquisadores da área

O Acervo Especial de Obras Raras da Biblioteca Nacional é referência no país. “São mais de 2 mil metros lineares de itens”, informa Ana Pinheiro. Ali estão guardadas preciosidades como a primeira edição de Os lusíadas, lançada em 1572 pelo poeta português Luís Vaz de Camões (1524-1580), e A crônica de Nuremberg, publicada em 1493 por Hartmann Schedel (1440-1514), considerado o livro mais ilustrado do século XV, com 645 gravuras diferentes.

A Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco é uma das que se sabe que abriga obras raras. Nessa categoria, estão armazenados cerca de 15 mil títulos entre livros e periódicos. O mais antigo é o Manual de confessores e penitentes, de Martim Azpilcueta Navarro, de 1560.  Poliana do Nascimento e Silva, chefe do Setor de Coleções Especiais da instituição, observa que a língua em que a obra foi publicada pode constituir obstáculo para sua identificação. “Além dos critérios de raridade, que podem ser internacionais, nacionais ou regionais, o idioma do livro pode dificultar a catalogação. Temos obras em latim, alemão, holandês, francês, inglês.” Para driblar a escassez de determinado conhecimento linguístico, uma solução tem sido acessar bases de dados bibliográficos, com obras de domínio público. “Isso tem nos ajudado na identificação de in