LGBTQIA+

LGBTQ+ nas bibliotecas

Consumo cultural e a busca de espaços inclusivos

Por Marília Paiva| Presidenta do Conselho Regional de Biblioteconomia – 6ª Região (MG e ES)

O combate ao preconceito contra pessoas LBGTQ+ é uma atitude cada vez mais necessária. Paulatinamente, essa parcela da população conquista representatividade em filmes, músicas, propagandas e livros, ocupando cada vez mais espaço. A participação cultural é notória. A pesquisa Cultura nas capitais: como 33 milhões de brasileiros consomem diversão e arte informa que pessoas assumidas LGBTQ+ acessam mais atividades culturais em geral que pessoas declaradas heterossexuais.

O levantamento ainda revelou que a leitura é um hábito importante, sendo que esse costume ficou em segundo lugar como preferência da comunidade LGBTQ+, e 75% dos entrevistados responderam que têm o hábito de ler livros e 51% responderam ter frequentado uma biblioteca nos últimos 12 meses. Trata-se de um grupo participativo e que frequenta efetivamente as bibliotecas, mesmo com a aparente escassez de ações e iniciativas de inclusão focadas nesse público.

O bibliotecário precisa também buscar formas de suprir as necessidades de informação e demandas desse grupo, incentivando a participação contínua nas atividades, além de torná-lo mais representado também no acervo. Apurar, selecionar e disponibilizar obras, artigos e informativos com representatividade LGBTQ+ é uma forma de transformar a biblioteca em um ambiente mais inclusivo.

Acesse a matéria completa publicada no O Tempo e veja como a biblioteca pode incluir os usuários LGBTQIA+ 

POR QUE AS BIBLIOTECAS DEVEM SE ENVOLVER NA TEMÁTICA LGBTQIA+? – PARTE 1

Há duas razões para isso: a primeira delas, a defesa do direito à vida, que abrange tanto o direito de não ser morto, como também o direito de ter uma vida digna

Texto por Cristian Brayner

Por onde a pandemia passou, ela deixou um rastro de dor. No Brasil, em razão da flagrante negligência protagonizada pelo Estado – indiferença desavergonhada, sem máscara, nem nada! –, os sulcos são mais profundos. Apesar desse quadro sofrível, tenho me esforçado para cultivar uma leitura menos amargurada dos acontecimentos.

Fui notando, no curso das semanas, que além das lágrimas, a Covid fez brotar um fio teimoso de solidariedade, uma espécie de desejo coletivo, quase sempre genuíno, de ajudar, de estar presente na vida do outro. Isso resultou num sem número de lives de gente comum e notável compartilhando habilidades, da culinária a veterinária. Eu mesmo não me fiz de rogado: aprendi noções de sânscrito e me esbaldei com Caetano.

As lives bombaram mesmo entre bibliotecários, algumas delas com temas sensacionais. Já imaginaram bibliotecários brasileiros discutindo, em alto e bom som, a respeito de acervos destinados a lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, queers, intersexo, assexual e mais? A convite do Conselho Regional de Biblioteconomia da 8ª Região, tratei com outros colegas desse assunto ainda inusitado, o que me deixou gratamente surpreso.

Afinal, nestes mais de 20 anos como bibliotecário, me deparei por dezenas de vezes com perguntas do tipo: “Livro gays numa biblioteca pública? Para que?” Está embutido nesse questionamento certa preocupação em evitar polêmicas, mantendo-se na trilha mais confortável, o que não deixa de ser compreensível. Afinal, é relativamente recente a discussão a respeito do papel ideológico das bibliotecas na construção e manutenção de práticas de violência ou o seu oposto.

Desse modo, esse tipo de pauta sobre a criação de produtos e serviços específicos para grupos marginais implica reconhecer que as bibliotecas, enquanto artefatos culturais, sempre estiveram envolvidas na construção de sistemas de verdades, sejam estes louváveis ou reprováveis. Afinal, ela compõe a estrutura de poder, essa complexa rede de dispositivos que atravessam toda a sociedade e que nos diz o que é certo ou errado.

Desse modo, é inverídico e frustrante a biblioteca evocar a neutralidade para tentar justificar a uma lésbica a ausência das obras de Vange Leonel em suas estantes. De fato, o silêncio travestido de imparcialidade costuma ser tão virulento quanto uma baioneta.

Mas, o que justificaria a biblioteca se envolver nessa pauta tão melindrosa? Há duas razões para isso: a primeira delas, a defesa do direito à vida, “que abrange tanto o direito de não ser morto […], como também o direito de ter uma vida digna.” (LENZA, 2019, p. 1168). O Brasil é terreno minado a quem possuir uma identidade de gênero diferente do sexo designado no nascimento ou uma orientação sexual distinta da heterossexualidade.

No Ceará, a travesti Dandara foi assassinada a chutes e pedradas pelos vizinhos. Já no interior de São Paulo, a mãe do jovem Itaberli Lozano, inconformada com a sua homossexualidade, recorreu a golpes de faca e ao fogo para eliminá-lo. Os fins trágicos de Dandara e Itaberli não são casos isolados. Segundo levantamento do Grupo Gay da Bahia, um cidadão LGBTQIA+ é assassinado no Brasil a cada 24 horas, o que nos põe no topo desse triste ranking.

Além dos homicídios bárbaros que ilustram as manchetes dos jornais e geram uma indignação efêmera, o bastão da violência simbólica é erguido contra esses indivíduos desde a mais tenra idade: é a risada, é a piada; é o cascudo, é o repúdio. A homofobia brasileira é particularmente gravosa por sua dissimulação.

Recordo-me de um parlamentar que, ao protocolar projeto de lei visando impedir o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, declarou, sem ruborizar: “Não sou homofóbico. A sala lá de casa até foi decorada por um gay.” Assim, pretendendo camuflar o próprio ódio, ele forja uma relação de empatia com sua vítima e a encarcera num espaço seguro e restritivo: é o cabelo, é a moda, é a decoração; nada mais. Dessa narrativa burlesca o agressor, “gente de bem”, sai com a consciência tranquila.

A tensão social brota no minuto em que a vítima ousa pisar na linha riscada por seu algoz. Isso tem-se dado quando a comunidade LGBTQIA+ passou a questionar os discursos que atribuíam ao seu corpo e aos seus desejos uma carga penosa e reprovável. Trata-se de uma disputa pelo poder de fala, o qual legitima todo os modos de vida.

E que discursos são esses que distinguem o sujo do limpo, a virtude do pecado? A religião e o direito, certamente, exercem um papel de destaque nesse processo. Entretanto, como bem nos sugeriu Michel Foucault (1979, p. 182), é importante “[…] captar o poder na extremidade cada vez menos jurídica de seu exercício.” É lá, nesta ponta, que se encontra a biblioteca. Ser sensível ou impassível é escolha dela.

O segundo motivo que deveria levar um bibliotecário a ponderar a respeito dessa pauta é o fato de ter se comprometido, solenemente, na colação de grau defender “o cunho […] humanista” da profissão. Ao prometer publicamente desenvolver seu trabalho “fundamentado […] na dignidade da pessoa humana”, o bibliotecário se coloca, voluntariamente, num estado contínuo de tensão, atento a qualquer sistema de verdade que atente contra a diversidade. Ele é, sob juramento, um combatente contra toda prática de violência. Quem de nós ousaria atribuir o mais fantástico dos mundos aos abraçados pela sigla LGBTQIA+? Lembremos do Itaberli, lembremos da Dandara.

Fonte: Biblioo

Calendário literário adere ao mês LGBT

Editoras ampliam no mês de junho a divulgação de obras cuja temática corrobora a luta pela igualdade nos direitos civis e o combate ao preconceito

Texto por Pedro Galvão

Se no Brasil junho sempre foi o mês das fogueiras, quadrilhas e bandeirolas, as cores do arco-íris vêm ganhando mais força a cada ano nessa altura do calendário, com as campanhas a favor dos direitos e do orgulho LGBT. Tudo começou com um episódio conhecido como Rebelião de Stonewall, ocorrida em 1969.

Em 28 de junho daquele ano, frequentadores do bar Stonewall Inn, em Nova York, resistiram a uma invasão violenta e discriminatória da polícia, desencadeando manifestações a favor da diversidade sexual e contra o preconceito sofrido por esses indivíduos em todo o planeta.

Essa luta vem ganhando novas páginas na literatura, com a temática LGBT ocupando uma vistosa fatia do trabalho de editoras. Em novembro do ano passado, a norte-americana Casey McQuiston lançou Vermelho, branco & sangue azul, seu primeiro romance. Trata-se de uma história de amor fictícia entre o filho da presidente dos EUA e o príncipe da Inglaterra. Chegou a figurar em 15º lugar na lista de mais vendidos do New York Times e foi escolhido pelo site Goodreads como o melhor de 2019 nas categorias romance e livro de estreia. Nas últimas semanas, esse e outros títulos ganharam destaque especial no mercado editorial.

No Brasil, o portal de comercialização de livros Estante Virtual promoveu a campanha Mês do Orgulho: 25 livros, autores e histórias LGBTQIA+ e diz ter notado efeito nas vendas. Segundo a empresa, os livros de ficção sobre essa temática cujas vendas mais se destacaram foram Com amor, Simon (2015), de Becky Albertalli, adaptado para o cinema em 2018, e a fantasia A menina submersa (2015), de Caitlín R. Kiernan.

Entre os de não ficção, os destaques foram Devassos no paraíso, de João Silvério Trevisan (2000), que apresenta um panorama histórico da causa LGBT no Brasil, Foucault e a teoria queer (2017), de Tamsin Spargo, com viés filosófico e teórico, e o livro reportagem Ricardo e Vânia (2019), de Chico Felitti.

Acesse a matéria completa em Estado de Minas e saiba mais as iniciativas dos setores do mercado editorial e audiovisual na promoção de conteúdos sobre a comunidade LGBTQIA+

 

Literatura LGBTQIA+: “Sendo um autor Queer, do Norte, este é um espaço que preciso reivindicar”, diz Andrew Oliveira

Em entrevista a GQ Brasil, o escritor de “Vazio da Forma”, livro recém lançado que aborda questões como depressão, paternidade e aceitação, afirma: “Precisamos de narrativas que saiam da caixinha que nos colocaram onde só podemos falar de nossas sexualidades ou identidades de gênero. Não somos apenas essa única história: o sofrimento referente a isso”

Texto por Ademir Correa

Andrew Oliveira: “Eu não saí ileso de nenhum tipo de violência verbal ou física. E, atrelada à violência estrutural externa, desde cedo somos ensinados a nos odiar, então criamos a violência interna, feito uma simbiose. Homem gay já é um indivíduo que tem muito ódio de si mesmo acumulado. Homem gay negro e/ou indígena tem isso em dobro; e o afeminado em triplo” (Foto: Divulgação)

GQ Brasil: Como vê a importância da representação LGBTQIA+ na literatura?

Andrew Oliveira: Acredito que precisamos urgentemente – para ontem – de mais e mais narrativas que saiam do velho parâmetro cis-heteronormativo que, sabemos, nos inunda e nos sufoca em suas mídias, não dando qualquer espaço para mostrar a diversidade de gênero, sexualidade e cor que no mundo existe. Para você ver, apenas um pouco do que nós, autores LGBTQIA+ (sobretudo nós, os de cor), conseguimos mostrar, já causa um alvoroço, um pandemônio de exaltações. É para isso que estamos aqui. E mais ainda, precisamos de narrativas LGBTQs que saiam, também, da caixinha que nos colocaram onde só podemos falar de nossas sexualidades ou identidades de gênero. Não somos apenas essa única história: o sofrimento referente a isso. É claro, a minha sexualidade ditou absolutamente tudo que permeia a minha vida, e em muitas ocasiões na infância e adolescência o preconceito retirou o meu senso de valor próprio, mas sempre tentei demonstrar que sou outras personas além de “por quem eu me atraio” ou “o sofrimento que passei por conta de minha orientação sexual”. Tudo o que escrevo tenta fugir disso, mas sem me esquecer das agruras da realidade. Ela está sempre lá. Sendo um autor Queer, do Norte do país, mestiço de pai indígena e mãe negra – ou afro-indígena, se assim preferir –, sinto que tenho uma responsabilidade imensa a cumprir, um espaço que preciso reivindicar para mostrar o meu trabalho.

Acesse a entrevista completa em Revista GQ.

 

“Existe um interesse crescente na biblioteconomia pela questão LGBT”

O bibliotecário da Universidade Federal do Maranhão e doutor em Políticas Públicas, Carlos Wellington Martins, fala, entre outras coisas, sobre o Dia Internacional de Luta contra a LGBTfobia, celebrada neste 17 de maio

Texto por Chico de Paulo

Neste domingo (17) é comemorado o Dia Internacional de Luta contra a LGBTfobia, uma data para celebrar a diversidade contra todos os tipos de preconceito, sobretudo no Brasil, considerado um dos países que mais discrimina e mata pessoas LGBTs no mundo.

A data coincide com o dia em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou o termo “homossexualismo” de sua Classificação Internacional de Doenças (CID), isso em 1990, informa o bibliotecário da Universidade Federal do Maranhão e doutor em Políticas Públicas, Carlos Wellington Martins.

“Só para atestar o atraso no avanço das pautas que tratam de orientações sexuais e identidades de gênero, apenas em 1990 a homossexualidade foi despatologizada e somente em 2019 a transexualidade deixa de ser considerada um transtorno mental”, explica Carlos.

Mas apesar dos avanços, o bibliotecário destaca que atualmente as pessoas estão menos reticentes em revelar seu preconceito e em alguns casos, de forma violenta e agressiva, seja verbal ou física, fato que se liga ao momento político que vivemos.

“O chefe do executivo já demonstrou em várias ocasiões (antes e depois de eleito) que não governa para a população LGBTQIA+ e que as demandas desse segmento sequer serão trabalhadas durante a sua gestão e ao proferir palavras de cunho lgbtfóbico chancela a violência que cada vez cresce no país”, critica.

Sobre as bibliotecárias e os bibliotecários, Carlos destaca que estas(es) têm um papel importante na construção dessa sociedade pautada em uma cultura de paz, respeito e tolerância, haja vista, as(os) profissionais atuarem em espaços culturais e educacionais que possibilitam a realização de um trabalho de base.

Nesta entrevista à Biblioo, Carlos destaca que o Brasil sempre figurou na lista de países que mais mata LGBTQIA+ no mundo, ocupando em muitos anos a primeira posição na perpetração de violência contra este grupo social. Confira a entrevista!

NO 17 DE MAIO SE CELEBRA O DIA INTERNACIONAL CONTRA A LGBTFOBIA. QUAL O SIGNIFICADO DESSA DATA PARA NÓS BRASILEIROS?

O dia 17/05 é uma data simbólica para a população de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Transgêneros, Queers, Intersexuais, Agêneros, Assexuais (LGBTQIA+) e demais identidades de gênero e orientações sexuais  por fazer menção a data em que a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou o termo “homossexualismo” de sua Classificação Internacional de Doenças (CID), isso em 1990, e, dessa forma, a despatologizou e tornou equivocado e obsoleto a utilização do termo com o sufixo ismo.

A data atua como um momento de reflexão e ação para que se possa criar uma cultura de paz, acabando com a violência contra LGBTQIA+, principalmente em um país que ainda insiste em uma cultura lgbtfóbica. Só para atestar o atraso no avanço das pautas que tratam de orientações sexuais e identidades de gênero, apenas em 1990 a homossexualidade foi despatologizada e somente em 2019 a transexualidade deixa de ser considerada um transtorno mental, no entanto, integra agora o capítulo sobre “condições relacionadas à saúde sexual” como uma incongruência de gênero. Ou seja, há muito ainda a se fazer no campo de informação, conscientização e políticas públicas

NOS ÚLTIMOS ANOS SE VIU EXPLODIR NO BRASIL A VIOLÊNCIA CONTRA A POPULAÇÃO LGBT. A QUE VOCÊ ATRIBUI ESSE FATO?

O Brasil sempre figurou na lista de países que mais mata LGBTQIA+ no mundo, ocupando em muitos anos a primeira posição, contrastando com a imagem de país acolhedor e libertário. Segundo dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), em 2019, a cada 26 horas um LGBTQIA+ é assassinado ou cometeu suicídio por conta da violência perpetrada, isso mesmo com a criminalização da LGBTfobia realizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) que evidencia que em conjunto com a lei outras medidas devem ser tomadas.

Como exemplo temos as campanhas de conscientização mais incisivas com a sociedade em geral, capacitação e treinamento para com os órgãos que atuam no recebimento da denúncia e na efetivação da investigação como delegacias, defensorias, ministério público e demais agentes, vale ressaltar que essa violência tem raiz cultural que precisa ser combatida, também, pelo viés educacional com a discussão de gênero, diversidade e sexualidade nos espaços educacionais.

EM QUE MEDIDA ESSA ONDA DE VIOLÊNCIA CONTRA A POPULAÇÃO LGBT TEM RELAÇÃO COM O MOMENTO POLÍTICO QUE VIVEMOS?

Além do patriarcado, do machismo e da masculinidade tóxica enraizada na sociedade brasileira, testemunhamos o crescimento de uma onda conservadora e reacionária que se materializa no estímulo ao ódio às minorias políticas, no esvaziamento do debate sobre as questões desta população, bem como influi na invisibilidade desses sujeitos sociais no cenário político.

O que se percebe, atualmente, é que as pessoas estão menos reticentes em revelar seu preconceito e em alguns casos, de forma violenta e agressiva seja verbal ou física. O chefe do executivo já demonstrou em várias ocasiões (antes e depois de eleito) que não governa para a população LGBTQIA+ e que as demandas desse segmento sequer serão trabalhadas durante a sua gestão e ao proferir palavras de cunho lgbtfóbico chancela a violência que cada vez cresce no país.

QUAL É OU QUAL DEVERIA SER O PAPEL DOS PROFISSIONAIS DA INFORMAÇÃO, ESPECIALMENTE OS BIBLIOTECÁRIOS, EM RELAÇÃO A ESSA QUESTÃO?

Nesse tocante as bibliotecárias e bibliotecários tem um papel importante  na construção dessa sociedade pautada em uma cultura de paz, respeito e tolerância, haja vista, as profissionais atuarem em espaços culturais e educacionais que possibilitam a realização de um trabalho de base não só possibilitando o acesso a informação, mas bem como permitir que estes espaços possibilitem a construção de conhecimento por parte de todos os sujeitos sociais envolvidos no processo.

Para tanto ações culturais que tenham os LGBTQIA+ como protagonistas, produção de material informativo, um acervo afinado com as demandas dessa população e uma atitude mais cidadã com as questões que envolvam os direitos de uma sociedade mais plural e diversa são necessárias e coaduna com o juramento que a área faz quando frisa a dignidade humana. Vale pontuar que existem algumas iniciativas e ações efetivadas por profissionais em algumas regiões do país mas que por vários motivos não são publicizadas e conhecidas por grande parte dos colegas.

QUE AÇÕES ESTÃO EM CURSO NO BRASIL HOJE ENVOLVENDO A BIBLIOTECONOMIA E QUESTÃO LGBT QUE VOCÊ DESTACARIA?

Apesar de ainda haver um silenciamento e uma posição periférica da discussão das demandas sociais LGBTQIA+ na biblioteconomia, vemos o avanço em alguns aspectos como o crescente interesse de discentes, docentes, técnicos em realizar pesquisas acerca da temática com a socialização destes estudos em eventos na área, mas ainda são em número bastante pequeno, tanto que a primeira publicação a contar com textos escritos por profissionais da Ciência da Informação (CI) que são LGBTQIA+ e abordam sobre a temática referente às suas orientações sexuais e identidades de gênero ocorreu somente em 2019 pelo selo Nyota sob o título “Do invisível ao visível: saberes e fazeres das questões LGBTQIA+ na Ciência da Informação”.

Qualquer consulta aos Projetos Políticos Pedagógicos (PPPs) dos cursos de biblioteconomia revela que grande parte deles não possuem em sua matriz curricular disciplinas que tratem de gênero, sexualidade e diversidade o que aponta uma lacuna gritante na formação deste profissional. Uma ação salutar é a criação do Grupo de Trabalho (GT) “Bibliotecas pela Diversidade e Enfoque de Gênero” (GT-BDEG), pela Federação de Associação de Associações de Bibliotecários, Cientistas da Informação e Instituições (FEBAB).

Esse grupo se propõe a: 1) Criar um documento norteador de ações e orientações de atendimento baseadas nas leis vigentes nos níveis municipal, estadual e federal; 2) Compilar todas as ações e experiências promovidas pelas bibliotecas em todo o Brasil em um documento para publicação; 3) Criar bibliografia básica de literatura LGBTQIA+; 4) Realizar relatórios anuais para consulta pública para entender a relação da comunidade com a biblioteca, especialmente a biblioteca pública; 5) Promover palestras, cursos e ações voluntárias em conjunto as associações estaduais filiadas à FEBAB, escolas de biblioteconomia e ONGs. Esperamos que seja o fortalecimento do debate e da ação entre a Biblioteconomia e as demandas sociais LGBTQIA+.

Fonte: Biblioo

A revolução da representatividade no mundo dos quadrinhos

Isabella Botelho

No Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos, saiba mais sobre a representatividade na arte

“Eu só quero que vocês saibam que a Marvel sempre foi e sempre será um reflexo do mundo que vemos da nossa janela. Esse mundo pode mudar e evoluir, mas uma coisa que nunca irá mudar é o jeito que contamos nossas histórias de heroísmo. Essas histórias tem espaço para todos, independentemente de seu gênero, religião ou cor da sua pele”, afirmou Stan Lee em um vídeo de outubro de 2017. A mensagem do autor e executivo da Marvel, morto em outubro de 2017, foi um tipo de resposta aos fãs que protestavam contra o crescente espaço dado a temas como inclusão e diversidade nos quadrinhos da editora.

Para o bem ou para o mal, o universo da cultura pop está em constante mudança. Por conta disso, o surgimento de algumas polêmicas é parte natural desse processo. Essa situação ocorre por vários motivos como, por exemplo, a dificuldade do público em aceitar algo diferente do tradicional. Um dos primeiros temas a serem abordados e que gerou polêmica para os fãs de quadrinhos foi a representatividade feminina.

Segundo a pesquisa Geek Power 2020, realizada pelo Omelete Company em parceria com a Mindminers, 63% da comunidade geek é composta por homens. Esse resultado aponta para uma velha afirmação de que o universo geek é machista, o que justifica a atitude reacionária de alguns ao verem minorias serem representadas nos quadrinhos. No entanto, a representatividade não parece ser uma brisa passageira, ela veio para ficar e tem tomado cada vez mais espaço.

Cultura e nacionalidade

Tanto a Marvel quanto a DC apostam em personagens provenientes de diferentes partes do mundo. Isso ajuda a trazer à tona diferentes culturas que não são retratadas costumeiramente, como é o caso do povo romani, por exemplo.

Na Marvel, temos a Feiticeira Escarlate como representante dos romani, assim como seu irmão, Mercúrio. A dupla também tem uma origem judia por serem filhos de Magneto. A Ásia também está bem representada com Blindspot (chinês), Armor (japonesa) e Amadeus Cho (coreano). A América Latina é o continente de origem de diversos personagens como Ventania (venezuelana), Motoqueiro Fantasma (mexicano), Inferno (colombiano) e Mancha Solar (brasileiro). A representatividade africana fica por conta de Tempestade (queniana) e Pantera Negra. Cheyenne e Apache dão voz à cultura indígena.

Já na DC, o Asa Noturna representa o povo romani. O Lanterna Verde, por sua vez, um dos personagens mais famosos da editora, é afro-americano. Miranda Tate é descendente de chineses e árabes. Batwoman representa a comunidade judaica. Atom (chinês), Katana (japonesa) e Linda Park (coreana) são os personagens de origem asiática.

Sexualidade e identidade de gênero

Representar diferentes sexualidades tem sido um tanto quanto recente por parte da indústria das HQs, no entanto, aos poucos as empresas conseguiram inserir personagens que representam a realidade da comunidade LGBTQI+. No caso da Marvel, a bissexualidade é representada por Daken, filho de Wolverine. Seus poderes envolvem ferormônios e sedução, os quais ele já usou para despertar o interesse de homens e mulheres. Wiccano, filho da Feiticeira Escarlate, e Teddy Altman, filho do Capitão Marvel, são referência na Marvel quando se trata de homossexualidade. Eles têm um relacionamento e já até mencionaram noivado. No entanto, o primeiro e até hoje principal personagem gay da Marvel foi o Estrela Polar, criado na década de 70. Deadpool, um dos principais personagens da editora é pansexual e também se enquadra na comunidade.

A DC não fica atrás e também aposta muito na diversidade. A editora aborda a assexualidade, falta de atração sexual por qualquer pessoa, através da personagem Tremor. Já a intersexualidade, variação de caracteres sexuais que inclui cromossomos ou órgãos genitais que dificultam a identificação de um indivíduo como totalmente feminino ou masculino, é representada pelo Cavaleiro Brilhante. A editora também criou Lee Serrano, um personagem não-binário, que não se identifica nem como homem e nem como mulher.

Doença e deficiência 

Na Marvel, o Gavião Arqueiro traz a representatividade aos deficientes auditivos. Já Mercúrio é portador de transtorno de personalidade limítrofe, um padrão de comportamento anormal caracterizado pela instabilidade nos relacionamentos interpessoais. Um personagem bem famoso é o Demolidor, que é deficiente visual. Já na DC, a representatividade dos deficientes auditivos cabe ao Flautista, enquanto o Doutor Meia-Noite representa os deficientes visuais. Além, é claro, da Bat-Girl, que combate o crime em uma cadeira de rodas.

Fonte: Mercadizar

Seminário no Museu Victor Meirelles aborda temática LGBT nos acervos

Entre os dias 4 e 6 de novembro 20 palestrantes discutem identidades e expressões de gênero e sexualidades não normativas

Produção literária LGBT cresce com apoio de eventos e pequenas editoras

Está em fase de preparação uma feira de livros que vai integrar a Semana da Generosidade, a ser realizada entre os dias 22 e 25 de outubro

Por CARLOS ANDREI SIQUARA

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Foto: Pixabay

A primeira antologia de textos que contemplam personagens homossexuais foi organizada por Gasparino Damata em 1967. Com o título “Histórias do Amor Maldito”, a obra apresentou escritos de Dalton Trevisan, Alcides Pinto, Dinah Silveira de Queiroz e Nélida Piñon, entre muitos outros autores. De lá para cá, surgiram mais iniciativas semelhantes, como “Poesia Gay Brasileira” (2017), organizada por Marina Moura e Amanda Machado, e “Orgulho de Ser” (2018), editada por Thati Machado. As duas últimas diferem-se da primeira por contemplarem também autores novos, entre eles lésbicas, gays e transexuais, cujo olhares conquistam espaço atualmente em editoras e eventos literários.

“Orgulho de Ser”, por exemplo, foi lançado durante a Bienal Internacional do Livro de São Paulo e surgiu a partir de um concurso que superou a expectativa inicial do número de inscritos. “Nós esperávamos algo em torno de 200 textos e recebemos mais de 800”, conta Thati, que é escritora e editora. No fim deste ano, ela antecipa: vai haver um nova chamada, desta vez para uma antologia a ser publicada em 2020. “Nós queremos contemplar novos autores da cena literária LGTBQI+ e, assim, abrir mais oportunidades para eles”, completa a editora.

Marina, a convite do Sesc Santo Amaro, em São Paulo, também está em fase de preparação de uma feira de livros que vai integrar a Semana da Generosidade, a ser realizada entre os dias 22 e 25 de outubro. Sua missão tem sido encontrar autores e editoras cujos trabalhos propõem dar visibilidade para esses grupos tidos como minoritários. Desde a feitura de “Poesia Gay Brasileira”, a jornalista, escritora e diretora nota uma expansão dessas perspectivas no cenário literário.

“Não só eu percebo que estão entrando mais autores e autoras que têm criado suas obras de forma independente, como têm surgido também pequenas editoras com foco segmentado, como a Padê Editorial, a Brejeira Malagueta e a Vira Letras, que publicam autoras lésbicas”, lista.

Nívea Sabino, que é poeta e uma das curadoras do Festival Literário Internacional de BH (Fli-BH) – a ser realizado a partir do dia 25 –, teve seu trabalho contemplado no volume “Poesia Gay Brasileira” e identifica nesse movimento o interesse de criar um espaço de trocas. “É uma forma de nos colocar em conexão e de criar a possibilidade de construção para além do mercado editorial oficial. Nesse sentido, essas iniciativas nada mais são do que o interesse de essas pessoas conceberem seus próprios espaços, criando elas mesmas um mercado em que essas novas narrativas possam circular e ser fomentadas. Para os LGBT, essa é uma forma, inclusive, de eles conseguirem existir sem terem que esperar para que as editoras façam o convite para essas publicações serem lançadas”, completa ela.

A escritora, professora, especialista em literatura e travesti Amara Moira é outro nome que vem tendo maior projeção desde o lançamento do livro “E Se Eu Fosse Puta” (2016), que se tornou emblemático da presença dessas vozes no ambiente literário. “O meu livro foi um dos primeiros a entrar nas grandes livrarias e causou um bafafá, apesar do título. Nós estamos pensando, inclusive, em mudar o nome, por conta dessa tensão toda, para que ele possa entrar cada vez mais em outros espaços. Se nossos corpos não chegam a determinados lugares, eu espero que ao menos nossas palavras cheguem e comecem a abrir espaço e, assim, consigam preparar o público e a sociedade para aprenderem a conviver conosco”, pontua Amara, que, atualmente, está pesquisando as obras publicadas por autores trans desde os anos 70.

Fique atento

A feira de livros centrada em obras de escritores LGBT, a ser realizada durante a Semana da Generosidade, no Sesc Santo Amaro, em São Paulo, ainda pode receber inscrições de editoras e autores interessados em participar do evento. Contato abaixo: editorial@amarelograo.com.br

Fonte: O Tempo

Diversidade e representatividade no universo dos quadrinhos

Por Nathan Vieira

Com o decorrer do nosso dia-a-dia, ao consumir um produto como um filme, uma série ou mesmo uma história em quadrinhos, acabamos não percebendo a importância de algumas características presentes em determinados personagens. Acontece que ter um personagem que faça parte de uma minoria pode ser muito mais impactante do que nós pensamos, por causa de uma coisinha chamada representatividade. É que, durante muito tempo, era difícil que uma pessoa, parte de uma minoria, se identificasse com algum personagem da ficção. Com o passar dos anos, isso foi mudando, e as produções começaram a ficar mais inclusivas — algo que acabou reverberando também nas HQs, resultando numa maior diversidade entre a safra de personagens.

Em entrevista para o Canaltech, o psicólogo Rodrigo Casemiro explica o impacto da representatividade: “A pessoa se sente pertencente. Sente-se reconhecida, sua subjetividade e seu modo de ser não são excluídos, a diferença é a peculiaridade de cada um e há este sentimento de pertencimento. A autoestima pode ser fortalecida, pois ocorre a sensação de acolhimento, de que somos enxergados. A autoestima é o valor que damos a nós mesmos, mas também recebe influência da maneira como somos vistos, e se somos representados por personagens, ficcionais ou reais, isto é muito positivo para os aspectos psicológicos”.

Para que você entenda a importância da representatividade, vamos exemplificar: pense que uma criança que nasceu paraplégica esteja condicionada a usar cadeira de rodas ao longo de toda a vida. Essa criança cresceu vendo heróis com os quais seus colegas se identificavam, mas que não faziam com que ela se sentisse representada. Então, um novo herói dos quadrinhos é cadeirante, e o fato de usar cadeira de rodas não o impede de combater o crime. A partir da criação desse novo personagem, a criança passa a se identificar verdadeiramente com alguém, que — ainda que fictício — entende tudo o que ela vive sendo uma cadeirante (o preconceito, as dificuldades), e passa o ensinamento de que a cadeira de rodas não deve ser um empecilho para fazer o que se tem vontade, tornando-se um exemplo a ser seguido. Essa é a magia da representatividade.

“Quando há a representatividade é como se uma validação ocorresse, um reconhecimento da existência dessa criança. Ela entende que podemos ser de inúmeras maneiras. A criança sente que existem outras pessoas iguais a ela, ocorre o mecanismo psicológico da identificação. Em obras ficcionais, há, normalmente, um personagem que é tido como herói, e ele tem desafios a serem realizados, e esta é uma fonte de inspiração para a criança resolver os próprios desafios”, aponta o psicólogo.

Com o decorrer do nosso dia-a-dia, ao consumir um produto como um filme, uma série ou mesmo uma história em quadrinhos, acabamos não percebendo a importância de algumas características presentes em determinados personagens. Acontece que ter um personagem que faça parte de uma minoria pode ser muito mais impactante do que nós pensamos, por causa de uma coisinha chamada representatividade. É que, durante muito tempo, era difícil que uma pessoa, parte de uma minoria, se identificasse com algum personagem da ficção. Com o passar dos anos, isso foi mudando, e as produções começaram a ficar mais inclusivas — algo que acabou reverberando também nas HQs, resultando numa maior diversidade entre a safra de personagens.

Em entrevista para o Canaltech, o psicólogo Rodrigo Casemiro explica o impacto da representatividade: “A pessoa se sente pertencente. Sente-se reconhecida, sua subjetividade e seu modo de ser não são excluídos, a diferença é a peculiaridade de cada um e há este sentimento de pertencimento. A autoestima pode ser fortalecida, pois ocorre a sensação de acolhimento, de que somos enxergados. A autoestima é o valor que damos a nós mesmos, mas também recebe influência da maneira como somos vistos, e se somos representados por personagens, ficcionais ou reais, isto é muito positivo para os aspectos psicológicos”.

Para que você entenda a importância da representatividade, vamos exemplificar: pense que uma criança que nasceu paraplégica esteja condicionada a usar cadeira de rodas ao longo de toda a vida. Essa criança cresceu vendo heróis com os quais seus colegas se identificavam, mas que não faziam com que ela se sentisse representada. Então, um novo herói dos quadrinhos é cadeirante, e o fato de usar cadeira de rodas não o impede de combater o crime. A partir da criação desse novo personagem, a criança passa a se identificar verdadeiramente com alguém, que — ainda que fictício — entende tudo o que ela vive sendo uma cadeirante (o preconceito, as dificuldades), e passa o ensinamento de que a cadeira de rodas não deve ser um empecilho para fazer o que se tem vontade, tornando-se um exemplo a ser seguido. Essa é a magia da representatividade.

“Quando há a representatividade é como se uma validação ocorresse, um reconhecimento da existência dessa criança. Ela entende que podemos ser de inúmeras maneiras. A criança sente que existem outras pessoas iguais a ela, ocorre o mecanismo psicológico da identificação. Em obras ficcionais, há, normalmente, um personagem que é tido como herói, e ele tem desafios a serem realizados, e esta é uma fonte de inspiração para a criança resolver os próprios desafios”, aponta o psicólogo.

Fogo (brasileira), Katana (japonesa), da DC, e Tempestade (queniana), da Marvel

Tanto a Marvel quanto a DC apostam em personagens provenientes de diferentes partes do mundo. Isso ajuda a trazer à tona culturas que não são retratadas costumeiramente, como é o caso do povo romani, por exemplo.

Na Marvel, temos a Feiticeira Escarlate representando justamente o povo romani, assim como Mercúrio, seu irmão. Eles também têm origem judia, pois são filhos do Magneto. A Ásia também é bem representada, com Blindspot (chinês), Armor (japonesa) e Amadeus Cho (coreano). A América Latina é a origem de vários personagens, como Ventania (venezuelana), Motoqueiro Fantasma (mexicano) e Inferno (colombiano). Se você acha que o Brasil ficou de fora, está muito enganado, pois temos o Mancha Solar. A representatividade da África fica por conta de ninguém menos que Tempestade (queniana) e Pantera Negra. Cheyenne e Apache dão voz à cultura indígena.

Já na DC, o Asa Noturna representa o povo romani. O Lanterna Verde, por sua vez, um dos mais famosos personagens criados pela empresa, é afro-americano. Miranda Tate é descendente de chineses e árabes. Os judeus também são representados por Batwoman. Os personagens de origem asiática da DC são Atom (chinês), Katana (japonesa) e Linda Park (coreana). Já os personagens latino-americanos são Questão (dominicana) e Besouro Azul (mexicano), assim como Fogo, que representa o Brasil. A África é representada por Vixen, Ísis (egípcia) e Zalika (queniana). A cultura indígena ganha fôlego com a personagem Ya’Wara.

Sexualidade e identidade de gênero

Estrela Polar (homossexual), Sera (transgênero e lésbica) e Shade (drag queen)

Trazer à tona diferentes sexualidades tem sido uma atitude relativamente recente por parte da indústria das HQs, mas aos poucos, as empresas conseguiram inserir personagens que representam a realidade da comunidade LGBTQIA+. Para Rodrigo Casemiro, a representatividade ajuda na autoaceitação e no autoconhecimento. “Muitas vezes as pessoas, sejam crianças, adolescentes ou adultos, sentem e pensam algumas coisas, percebem características suas que não reconhecem nas pessoas mais próximas, e não sabem nem como nomear o que estão sentindo ou percebendo. Quando elas veem em obras, sejam HQs, séries, livros, filmes, novelas, esquetes, entre outros, os personagens que são como ela, há uma ampliação de consciência e autoconhecimento, e isso favorece a autoaceitação”, o psicólogo explica.

No caso da Marvel, a bissexualidade é representada por Daken, o filho de Wolverine. Seus poderes envolvem feromônios e sedução, e ele já usou tanto para despertar o interesse de homens quanto de mulheres. Por sua vez, Wiccano, filho da Feiticeira Escarlate, e Teddy Altman, filho do Capitão Marvel, são referência na Marvel quando se trata de homossexualidade. Eles têm um relacionamento e até já mencionaram noivado. No entanto, o primeiro (e até hoje o principal) personagem gay da Marvel foi o Estrela Polar, criado na década de 70. Em 2012, foi publicada uma edição de Surpreendentes X-Men com o primeiro casamento gay da Marvel, protagonizado por ele. Já Phyla-Vell, irmã de Hulkling, é lésbica. Sua namorada é a Serpente da Lua, filha do Drax (dos Guardiões da Galáxia).

Deadpool, que é um dos personagens mais famosos da editora, também faz parte da comunidade LGBTQIA+. Ele se enquadra na pansexualidade, que é a atração por pessoas, independente se é homem ou mulher, cis ou trans. E por falar em personagens trans, a Marvel tem o Ken Shiga, amigo da Garota-Esquilo, que é um homem trans. Os transgêneros também são representados por Sera, que é uma mulher trans e lésbica, já que tem uma relação com Angela. Uma das apostas mais recentes da Marvel para a diversidade é Shade, uma mutante dos X-men que é uma drag queen. Em entrevistas, os criadores já disseram que ela vai ter mais espaço nas próximas edições.

A DC não fica atrás, e também aposta na diversidade. A empresa aborda a assexualidade (a falta de atração sexual a qualquer pessoa) por meio da personagem Tremor. Já a intersexualidade (variação de caracteres sexuais que inclui cromossomos ou órgãos genitais que dificultam a identificação de um indivíduo como totalmente feminino ou masculino) é representada por Cavaleiro Brilhante. Durante os quadrinhos, é dita inclusive a seguinte frase: “Eu não sou apenas um homem ou uma mulher. Eu sou os dois”, o que ilustra bem a realidade de alguém intersexual. A DC também trouxe à tona Lee Serrano, um personagem não-binário (que não se identifica exclusivamente como homem ou mulher, estando portanto fora do binário de gênero e da cisnormatividade). O Midnighter também é um personagem que faz parte da comunidade LGBTQIA+. Ele é casado com Apollo, outro herói. As lésbicas são representadas por Maggie Sawyer, que aparece nas histórias de Superman.

Doença e Deficiência

Gavião Arqueiro (deficiente auditivo) da Marvel, Oráculo (paraplégica) da DC e Demolidor (deficiente visual), da Marvel

De acordo com o psicólogo, falta de representatividade pode resultar no preconceito: “Se apenas o que é dito normativo é visto, lido, ouvido, conhecido, quando surge algo diferente dessa normatividade, acontece a rejeição, a tentativa de exclusão, e isto é o preconceito. Não acontece a alteridade, o preconceito é um bairrismo muito prejudicial e destrutivo”. Tendo isso em mente, é possível ver que a diversidade também ajuda a trazer informação em torno de uma realidade que acaba não sendo a da maioria. Uma doença ou uma deficiência que vira assunto em pauta na mídia, ainda que na ficção, ajuda o público a compreender melhor do que se trata.

Na Marvel, é o Gavião Arqueiro que traz a representatividade para os deficientes auditivos. Por sua vez, o Mercúrio é o portador de transtorno de personalidade limítrofe (um padrão de comportamento anormal caracterizado por instabilidade nos relacionamentos interpessoais). Outra heroína que ajuda a pregar a diversidade é Silhouette, que é paraplégica, e combate o crime usando muletas. Um caso bem famoso é o do Demolidor, que é deficiente visual. Jane Foster luta contra o câncer de mama, nos quadrinhos, e traz um pouco de como é essa realidade. Já na DC, a representatividade dos deficientes auditivos cabe ao Flautista, enquanto o Doutor Meia-Noite representa os deficientes visuais. Isso, é claro, além da Bat-Girl/Oráculo, que combate o crime na cadeira de rodas.

Casemiro encerra dizendo que essas obras que apostam na diversidade “facilitam o acesso às informações, movimentam discussões positivas em todos os âmbitos da sociedade. Preconceitos são identificados e podem e devem ser repensados. Por isso existe uma responsabilidade para o artista que produz tais obras, para que não aconteça um desserviço”.

Fonte: Canaltech

Conheça a ‘Lesboteca’, a biblioteca livre das lésbicas

Por Gabriela Glette

Se a visibilidade feminina continua sendo muito inferior à masculina na sociedade patriarcal em que vivemos, o que falar das lésbicas? A sexualidade da mulher ainda é considerada tabu e prova disso é a dificuldade em se encontrar literatura lésbica de qualidade. Por isso, a bibliotecária Débora Mestre criou o site site “Lesboteca”.

Em menos de 6 meses de criação, o site já reúne mais de 120 obras, entre elas contos, romances, biografias e até mesmo histórias em quadrinhos. Inclusive, quem quiser indicar obras, mesmo que não seja de sua autoria, pode entrar em contato com o site.

Hoje muito se discute sobre feminismo e direito das mulheres, mas ainda falta muito para alcançarmos a representatividade total. Por isso, diversas autoras fazem releituras de histórias clássicas, como “Romeu e Julieta”, que acabou sendo transformado em “Julieta e Julieta”. Iniciativa incrível, que tem tudo para continuar crescendo!

Fonte: Hypeness

Drag queens leem histórias a crianças em livrarias e escolas dos EUA para incentivar respeito à diversidade

Projeto usa livros infantis com temáticas relacionadas à tolerância e à liberdade. Ataques de grupos conservadores têm sido frequentes, de acordo com as drags.

Texto por Luiza Tenente, G1

Crianças participam de atividades durante a contação de histórias. — Foto: Reprodução/Facebook

Uma drag queen, com roupas coloridas, maquiagem, perucas e muito brilho, reúne um grupo de famílias com crianças para ler uma história. O encontro pode acontecer em escolas, bibliotecas ou livrarias dos Estados Unidos. Depois, todos cantam uma música e podem perguntar o que quiserem para a drag.

Você é um menino ou uma menina?”, questiona uma das crianças. A resposta é sempre uma forma de estimular o respeito à diversidade, conforme relata ao G1 um dos fundadores do projeto, Jonathan Hamilt. “Nós explicamos que as drags escolhem uma forma de mostrar ao mundo o que desejam ser. Ensinamos que cada um deve respeitar a forma como o outro se veste – com tolerância e sem bullying”, diz.

Varinha com lantejoulas é feita durante oficina do projeto. — Foto: Reprodução/Facebook

A ideia de fundar a “Drag Queen Story Hour” surgiu justamente dessa necessidade de mostrar ao público infantil a importância da liberdade de expressão individual. “Queremos um mundo em que as pessoas possam se caracterizar do jeito que desejarem”, explica Jonathan.

A escolha da história que é contada às crianças leva sempre em conta a faixa etária dos ouvintes. As opções foram selecionadas em uma visita à biblioteca pública do Brooklyn, em Nova York. Entre os preferidos das drags, está “Julián é uma sereia”, de Jessica Love. Na obra, a autora conta a aventura de um menino que tem vontade de se fantasiar de sereia, mas teme que sua avó o julgue.

Drag queens leem histórias infantis para crianças nos Estados Unidos. — Foto: Divulgação

Perfis das famílias

Jonathan conta que, em geral, as famílias que frequentam a “hora da leitura” querem mostrar às crianças que não há nada de errado em ser gay, lésbica, transexual ou drag queen, por exemplo. “Não necessariamente os meninos e meninas que nos acompanham fazem ou vão fazer parte do grupo LGBTQ. Mas eles precisam aprender a ter empatia e a respeitar a diversidade de gênero”, diz o fundador do projeto.

Angel Elektra, uma das drags contadoras de história, diz que o futuro será melhor se as crianças forem mais tolerantes. “Nosso futuro são elas”, diz.

Cada história é escolhida com base na faixa etária do público do evento. — Foto: Reprodução/Facebook

Financiamento

O projeto não tem a intenção de gerar lucro para grandes empresas. Para se sustentar, aceita o apoio das livrarias e de organizações locais. Além disso, a drag que conta a história passa um chapéu para que o público, se quiser, coloque alguma contribuição em dinheiro durante o encontro.

Histórias foram escolhidas durante visita a uma biblioteca pública. — Foto: Divulgação

Ataques

Apesar de o projeto declarar que busca o incentivo à tolerância, tem sido frequentemente atacado e criticado por entidades dos Estados Unidos. A “Family Policy Alliance”, organização religiosa americana, lançou uma campanha para pressionar legisladores a proibir os eventos nas livrarias.

Grupos conservadores também fizeram protestos do lado de fora dos estabelecimentos em que ocorreram as horas de leitura.

Nosso objetivo é fortalecer nossa organização para enfrentar essas reações negativas. Esperamos apoio de quem quer transformar o mundo em um lugar com maior aceitação”, dizem os organizadores do projeto.

Livro ‘Bebê feminista’ é um dos que fazem sucesso no projeto. — Foto: Reprodução/Instagram

Fonte: G1

A primeira bibliotecária trans do Brasil é da UNESP

Por Ana Carolina Moraes
Ex-aluna do câmpus de Marília recebeu o título no começo de 2018; nesta entrevista, ela conta sobre sua trajetória na universidade

“O mais importante, pra mim, nisso tudo é poder mostrar pra sociedade que nós, trans, somos pessoas como outra qualquer e que merecemos respeito, dignidade e direitos”, nos confessou Alexia Vitória de Oliveira, bibliotecária no Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca – Cefet/RJ, campus Angra dos Reis.

Formada em 2006 no curso de Biblioteconomia pela UNESP Marília, ela nos contou sobre sua trajetória na UNESP. Foi mudando de ares, de estados, de hábitos que ela se transformou em quem é hoje: a primeira Bibliotecária Transexual do Brasil a ser reconhecida por um Conselho Regional de Biblioteconomia (CRB). O título veio através de uma nota emitida pelo CRB do Rio de Janeiro no início deste ano.

Paixão

“Sou uma verdadeira apaixonada pela UNESP”, declarou Alexia durante a entrevista. É mais do que perceptível o carinho e o entusiasmo que ela tem pelo período que estudou na universidade. Tanto que ela nos deu a permissão para conhecer – e contar – a história de um tempo em que ela era outra pessoa.

O primeiro contato com a possibilidade de estudar na UNESP veio de um amigo, que na época era estudante do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas, de São José do Rio Preto. “[Ele] começou a me falar sobre a UNESP e que seria muito bom pra minha vida como um todo ter uma formação universitária”, relembra Alexia.

O incentivo valeu a pena. Ainda naquele ano ela prestou o vestibular para o curso de Rádio e TV, na UNESP Bauru. Não deu.

“No ano seguinte resolvi me preparar para valer e, às vésperas da inscrição, resolvi que não queria mais área de comunicação. Foi quando Biblioteconomia me chamou a atenção e Marília não ficava muito longe da casa de meus pais. Prestei o vestibular, passei e resolvi encarar essa nova etapa da vida”.

Entre atividades extraclasses, esportes, ser bolsista PIBIC/ CNPq e a vida social unespiana, Alexia conta que conseguiu conciliar tudo aos estudos: “me formei nos 4 anos de duração do curso”.

Apesar de ter feito a transição de gênero há pouco tempo, Alexia afirma que foi na UNESP que teve um contato maior com essa possibilidade. “Por conta da dinâmica do câmpus, quase me libertei, mas por causa de questões familiares e sociais, acabei não o fazendo”, relata. Ainda assim, a graduação – para ela – foi um momento mágico.

“É por causa dela [da UNESP] que tenho minha formação e atuação profissional… O que me marca muito são amigos que trago até hoje e que não são poucos, os eventos esportivos – especialmente Jogos InterUNESP e, claro, as festas, que foram muito importantes para poder descarregar o estresse dos estudos e fortalecer os laços sociais”, declara.

O último contato da Alexia com a UNESP foi para garantir mais uma vitória: em março de 2018 ela solicitou a retificação do diploma, depois ter o registro civil também retificado, via ação judicial. “Liguei na semana retrasada no Departamento de Graduação da UNESP Marília e fui informada que o processo ainda está na Reitoria, mas que até novembro [o diploma] deve estar pronto”.

Quebra de paradigmas

Desde que se formou, Alexia Vitória tem atuado na área de formação. O primeiro emprego foi em março de 2006, quase dois meses após a formatura. Depois disso, trabalhou na iniciativa privada até agosto de 2008, quando saiu a aprovação no primeiro curso público – Prefeitura de São Paulo, no CEU Caminho do Mar.

Em 2012, Alexia tomou posse no Instituto Federal do Mato Grosso do Sul, onde ficou até dezembro de 2014. “Foi uma mudança de ares bastante radical, que me fez bem”, relata sobre essa experiência. Logo em seguida, foi empossada como bibliotecária no Cefet/ RJ, onde continua trabalhando.

Transição

“Me reconheço no feminino desde que tenho memórias, desde os 3 anos de idade”, confirmou a bibliotecária. Mas a transição de gênero é recente na vida de Alexia Vitória.

“Aqui no Cefet Angra dei início à minha transição física de gênero e conto com acompanhamento psicológico e endocrinológico. Acho importante eu sempre mencionar esses acompanhamentos, pois a grande maioria se hormoniza por conta própria e não tem apoio psicológico”, destaca.

“Chamo essa comparação da ‘imagem como emblemática’, pois pega meu visual de maior negação para meu momento mais Barbiezinha”, comenta Alexia Vitória sobre a montagem com a sua transição. (Foto: Acervo pessoal)

Há três anos ela começou a terapia hormonal, já passou por procedimentos cirúrgicos e em junho deste ano, ela fez a readequação sexual. “Hoje eu não vejo problemas de estar em um espaço com outras meninas e trocar de roupa”, declarou em uma entrevista para o programa Profissão Repórter, que acompanhou seu processo cirúrgico.

Fora das estatísticas

Alexia é graduada, pós-graduada e está empregada na área de formação acadêmica. A realidade dela, no entanto, não é a mesma de outras mulheres trans. Segundo o dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais, 90% desta população não consegue encontrar um emprego formal. “Sou um ponto fora da curva”, disse a bibliotecária em entrevista para o Profissão Repórter. “Quando iniciei minha transição física de gênero, eu já era bibliotecária chefe”.

Perguntamos a ela sobre ações que podem tornar a UNESP mais inclusiva: “Adoção de banheiro neutro, pois é algo que atrapalha muito a vida de uma pessoa trans, especialmente mulheres. E campanhas contra transfobia e sanções a quem desrespeitar”, foram as sugestões.

Mas vale dizer que a UNESP já tem está se adaptando a esta realidade.

A UNESP foi a primeira entre as universidades públicas do estado de São Paulo a reconhecer o nome social para transgêneros. A norma foi aprovada em junho de 2017 e, além do nome social, ressalta a utilização da adequação de gênero.

A universidade também conta com Educando para a Diversidade, projeto que reúne uma série de ações para promover o debate sobre inclusão e diversidade no meio universitário, integrando atividades com a comunidade externa, como o programa homônimo produzido e divulgado pela TV UNESP.

Fonte: Portal Alumni UNESP

Maurício de Sousa quer abordar questão de gênero

Em entrevista ao Poder em Foco, do SBT, criador da Turma da Mônica disse que quer abordar essa temática na versão jovem da HQ

Criador da Turma da Mônica que abordar questões de gênero das histórias da versão adulta da HQ
Criador da Turma da Mônica que abordar questões de gênero das histórias da versão adulta da HQ

 

Maurício de Sousa, o criador da Turma da Mônica, revelou que pretende trabalhar a temática de gênero em suas revistas em entrevista ao Poder em Foco, do SBT, que irá ao ar no próximo domingo, 22.

Questionado sobre a possibilidade de incluir a “questão de gênero” em suas produções, respondeu: “Os leitores fazem parte de uma sociedade que ainda tem restrições para essa abertura de gênero. Eu ainda tenho revistas infantis, agora que nós entramos na revista juvenil. Eu quero chegar logo na Turma da Mônica adulta para eu poder abrir mais esse leque”.

“Hábitos, costumes, tradições e tudo mais vão se alterando com o tempo e no bairro do Limoeiro, onde a turma mora, chegam essas mensagens também”, concluiu.

Maurício também ressalta que temas como política não estão em seus planos de abordagem em futuras histórias. “A política é uma coisa assim, que sobe e desce, tem altos, tem baixos, tem cores que variam e tudo mais. Não devemos mexer nisso numa história em quadrinhos. Principalmente o nosso tipo de história em quadrinhos, que vai para criança.”

Fonte: Diário da Região

Drag queen na biblioteca: seria possível aqui no Brasil?

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Imaginem o seguinte cenário: Uma fila de meninas e meninos, muitos vestidos com trajes de princesa ou fada e espremidos na Galeria de Arte da biblioteca, gritaram de volta em concordância. Do lado de fora da galeria, mais de cem pais e apoiadores que não conseguiam se encaixar no espaço esperavam.

Foi exatamente assim que aconteceu, tudo isto para participarem da Drag Queen Kids Party na Biblioteca Pública de Olean (cidade localizada no Estado americano de Nova Iorque, no Condado de Cattaraugus).

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Flo Leeta (@floleeta) animou parte da festa da biblioteca  por quase duas horas. Ela leu dois livros e dublou  “Let It Go” da Disney “Frozen”, e também “Cover Girl” de RuPaul. Ela então fez uma breve apresentação sobre gênero, durante a qual ela passou por um pouco da história feminina, e moda masculina e tentou explicar conceitos como fluidez de gênero.

“Você sabe como a água se move e não é uma forma? É assim que algumas pessoas são ”, disse ela, diante de uma projeção colorida de“ The Gender Spectrum ”.

O evento foi parte dos esforços da biblioteca para destacar o Pride Month para a comunidade lésbica, gay, bissexual, transexual e gay. Flo Leeta respondeu a perguntas tão simples quanto o tempo que levou para fazer sua maquiagem – duas horas e meia – e tão complexo quanto explicar o que é um bioqueen – uma drag queen que é uma mulher, que é diferente de um homem que retrata uma mulher como uma drag queen tradicional.

“Foi exatamente como em nossos sonhos”

Fala da a diretora da Olean Public Library, Michelle La Voie se referindo ao apoio da comunidade.

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Planejamento e gerenciamento de crise

Durante duas semanas antes do evento, a equipe da biblioteca recebeu muitos comentários negativos on-line, pelo telefone e pessoalmente. Eles também foram informados de que haveria um protesto no evento, que deveria incluir neonazistas – embora nenhum tenha aparecido na quarta-feira.

La Voie disse que ela e outros funcionários da biblioteca ficaram inicialmente muito desapontados com a negatividade em torno de sua decisão de sediar um evento de drag queen direcionado a crianças, e ela estava nervosa com o fato de as coisas ficarem fora de controle.

Mas sua atitude foi revirada pelas dezenas e dezenas de apoiadores que apareceram e pelos aplausos das crianças quando Flo Leeta perguntou se queriam que ela voltasse. “Não é como se minha fé fosse restaurada – é como se eu tivesse uma visão totalmente diferente dessa comunidade”, disse ela.

Aqueles que vinham como apoiadores – que ficavam em frente ao prédio três horas antes do evento – conversavam entre si enquanto usavam coisas como pinturas de arco-íris no rosto e alfinetes e camisetas pró-LGBTQ.

“Eu tenho duas mães e arrasto, e para mim é uma coisa enorme para alguém entrar na minha vida e dizer que está errado. Porque não é – é assim que vivemos nossas vidas ”.

SaJean Webb, 17 anos, saiu com sua família de Wellsville para apoiar a biblioteca depois de saber que haveria protestos. Informou ainda que estava feliz em ver a biblioteca realizar um evento especificamente para crianças com informações positivas sobre a comunidade LGBTQ.

Segurança

Embora um líder da Pensilvânia do National Socialist Movement tenha declarado publicamente que a organização estaria no evento, eles não compareceram. Autoridades policiais e de bibliotecas também disseram que não viram manifestantes do grupo neonazista na biblioteca na quarta-feira.

Os protestos permaneceram pacíficos, o que La Voie atribuiu à forte presença de policiais e simpatizantes. Cerca de oito policiais oleanos estavam presentes, incluindo o chefe de polícia Olean, Jeff Rowley, e um oficial da Polícia do Estado de Nova York.

No canto noroeste da biblioteca, do outro lado do estacionamento, de partidários, um grupo de menos de 10 manifestantes se reuniu com cartazes que incluíam declarações como:

“Deixe nossas crianças em paz!” E “Mantenha as crianças inocentes”. –

O manifestante Jonathan Smith, de Olean, questionou por que Flo Leeta estava aparecendo em seu traje de performance e não como um artista masculino Benjamin Berry, que traz o personagem à vida . Smith escreveu uma carta ao editor do Olean Times Herald contra o evento de leitura da drag queen na biblioteca, e disse que ele era especificamente contra uma organização financiada por fundos públicos que a hospedava.

“Se você quiser ler um livro de histórias para crianças, venha e faça”, disse ele no protesto. “Mas ele está sendo político como uma drag queen e isso já é uma coisa sexual, então isso adiciona um sabor sexual ao conceito de leitura de livros de histórias.”


Algumas considerações

Penso que a ideia é positiva no ponto de vista de trabalhar questões da bibliodiversidade, diversidade cultural e questões de gênero bem como o respeito ao próximo. Somado a isto, é super válido porque permite explorar o potencial artístico das dragqueens. Eu não consigo concordar com os posicionamentos que pude ler em algumas matérias que explicitavam que este tipo de atividade possui a  intenção de sexualizar e principalmente homossexualizar a sociedade.

Diante desta matéria gostaria de saber de vocês como leitor, como usuário de bibliotecas, como bibliotecários ou gestores de salas de leituras, projetos de promoção da leitura ou similares, o que pensam a respeito? Já li sobre casos do tipo nos Estados Unidos e na Suécia, mas nenhum caso brasileiro ou na região da América Latina e Caribe. Caso conheçam, por favor, compartilhem. 

Acreditam que esta prática poderia ser viabilizada? Gostaria muito de saber a opinião de vocês. 

Fonte inspiradora deste post: 

Fonte: THIAGOTECA

Apaixonada por literatura, moradora de rua transexual viraliza na web: ‘Na solidão, comecei a conversar com os livros’

Adriana Cavalcanti, de 29 anos, vive há 17 nas ruas de Campinas (SP) e ganhou notoriedade ao comentar a greve dos caminhoneiros na internet.
Apaixonada por literatura, moradora de rua transexual viraliza na web: 'Na solidão, comecei a conversar com os livros'
Moradora de rua transexual preenche solidão com livros e enfrenta dilemas com conhecimento
Moradora de rua transexual preenche solidão com livros e enfrenta dilemas com conhecimento – Vídeo em http://goo.gl/DmPtR4

Acostumada a viver entre a invisibilidade e o preconceito, Adriana Cavalcanti, de 29 anos, encontrou nos livros uma paixão e a companhia para a solidão. Transexual, negra, nordestina e vivendo nas ruas de Campinas (SP) há 17 anos, ela conta que buscou em textos, poemas e músicas as explicações do “porquê é quem é, o porquê o Brasil é o Brasil”. Durante a greve dos caminhoneiros, em maio, um vídeo em que ela aparece ultrapassou dois milhões de visualizações. Nele, a moradora de rua mostra sua opinião sobre a paralisação e sua visão sobre a democracia.

G1 encontrou Adriana no entorno de uma agência bancária, no bairro Ponte Preta, onde ela vive atualmente. Veja, abaixo, alguns pontos sobre o que ela contou. Na sequência, leia mais detalhes da entrevista:

  • Adriana fugiu da casa de acolhimento para as ruas aos 12 anos
  • Desenvolveu a paixão pelos livros e teve até uma biblioteca itinerante
  • Na infância, sonhava ser cantora ou atriz
  • Quer sair das ruas e ter um lugar para os cães e livros

‘Os livros falam’

Dormindo sob a laje de uma agência bancária, acompanhada de quatro cães, poucas roupas e com a comida que as esmolas diárias podem proporcionar, Adriana confia na literatura para poder entender o mundo.

“Na falta de com quem conversar, eu entendi que os livros falam. Eles estão sempre a falar”, diz.

Engajada em dar voz às pessoas que estão à margem da sociedade, ela diz que com a inesperada fama alcançada pelo vídeo que se espalhou pelas redes sociais quer mostrar aquilo que, define, “a cidade teima em não ver”.

“Se minha caneta for a língua, então que essa seja escritora das mais densas páginas em branco, para que outras pessoas possam com a caneta compor suas histórias”, afirma.

Saída das ruas

Esta busca coletiva, conta ela, caminha lado a lado com o sonho pessoal. Sonho de sair das ruas, realidade que conheceu desde quando tinha 12 anos, depois de fugir de uma casa de acolhimento e ser internada em unidades da Febem, atual Fundação Casa.

“Eu nunca fiz nada de mal para ninguém. Meu único crime foi roubar bolachas para me alimentar. Não estava roubando porque eu gostava. A fome é cruel”, diz.

Após o vídeo dela se multiplicar pela web, internautas organizaram um financiamento coletivo para tentar reunir recursos para dar condições iniciais para Adriana recomeçar a vida fora das ruas (veja mais detalhes abaixo).

Vítimas Algozes

Ela conta que ainda criança conheceu as dificuldades que as ruas reservam àqueles que vivem nelas. Para Adriana, a comunidade em situação de rua ou não é vista, ou é vista como vilã.

“É como mostra Joaquim Manoel de Macedo em ‘As Vítimas Algozes'”, fala em menção à obra que retrata os escravos como violentos e perigosos para defender, por meio do medo incutido nos barões, ideais abolicionistas no Brasil do final do século 19.

Referência

Ao comparar a realidade com a literatura, a transexual elege “Capitães da Areia”, de Jorge Amado, como uma bíblia para a própria vida. A obra que retrata crianças e adolescentes moradoras de rua em Salvador nos anos 1930, ela diz, norteia seus passos. “É uma história real”, afirma.

“Vestidos de farrapos, sujos, semiesfomeados, agressivos, soltando palavrões e fumando pontas de cigarro, eram, em verdade, os donos da cidade, os que a conheciam totalmente, os que totalmente a amavam, os seus poetas”, escreveu Jorge Amado em um dos trechos do clássico.

Viralizou

Morando há um ano na região do Cemitério da Saudade, em Campinas (SP), Adriana cultivou amizades e inimizades naquele reduto. Há quem torça o olhar para ela e seus cachorros, mas tem quem pare para conversar ou oferecer ajuda.

Um dos amigos é o atendente Orlailson Araújo, de 29 anos, autor do vídeo da Adriana que circula pela rede. O rapaz conta que conheceu Adriana na região onde ele trabalha, no Cambuí, mas a aproximação se deu quando a transexual se mudou e fixou residência no atual endereço, na agência bancária que fica perto da casa dele.

“Eu comecei a conversar mais e me aproximei mais dela”, explica Orlailson. As visitas passaram de ocasionais para frequentes e culminou com a gravação do vídeo em maio deste ano.

“Estava no meio da greve e, do nada, deu a ideia de fazer o vídeo para perguntar o que a Adriana achava. Liguei o celular e pedi para meu namorado gravar”, lembra.

Para surpresa de Orlailson, o vídeo com Adriana espalhou-se pelo mundo. Só no perfil dele numa rede social, ultrapassou a marca de 2 milhões de views.

“Além de repercutir no Brasil todo, recebi mensagens dos Estados Unidos, Portugal, Angola”, conta.

Adriana e Orlailson, que fez o vídeo que viralizou na web (Foto: Fernando Evans/G1)
Adriana e Orlailson, que fez o vídeo que viralizou na web (Foto: Fernando Evans/G1)

Vaquinha

Um desses contatos pela internet veio de Chicago, nos Estados Unidos, onde mora a brasileira Jéssica Moreira-Spencer. Foi dela a ideia de criar, a partir do vídeo, uma campanha para tentar ajudar Adriana a sair das ruas.

“Eu descobri sobre a Adriana por um vídeo que apareceu na minha timeline que dois amigos compartilharam. E fiquei com ele na cabeça, fui dormir pensando nela. Aí, no dia seguinte, tive a ideia de buscar quem a entrevistou. Conversei com o Orlailson e disse que poderíamos fazer algo para ajudá-la”, conta.

A vaquinha online busca R$ 5 mil, mas o valor, claro, não é suficiente para conseguir uma moradia para Adriana.

“[O dinheiro] vai ajudá-la. Mas estamos nos organizando, com outras pessoas na internet, na tentativa de conseguir um terreno e uma casa contêiner para a Adriana”, diz o atendente.

A possibilidade enche de esperança a moradora de rua, que hoje divide uma pequena barraca de camping com quatro cachorros, “seus parentes das ruas”, diz.

“Imagina se eu consigo um terreno qualquer, um terreninho que seja, que eu consiga me estabelecer, ter espaço para deixar meus cães, meus livros”.

Paixão pelos livros

Adriana conta que desenvolveu a paixão pelos livros graças aos professores de português que teve na infância, ainda nas casas de acolhimento e durante as passagens pela antiga Febem. A leitura, segundo ela, foi um refúgio para lidar com o preconceito.

“Eu comecei na minha solidão, isolamento, a conversar com os livros. Foi quando descobri Jorge Amado, Aluísio Azevedo, Tobias Barreto, Joaquim Manoel de Macedo”, lembra.

Nas ruas, acumulou tantos livros que chegou a montar uma espécie de biblioteca itinerante, onde emprestava títulos para outros moradores de rua ou quem demonstrasse interesse. A iniciativa, no entanto, acabou repentinamente. “Os guardas levaram com a justificativa da operação cata-treco”, diz.

Se muitos livros se foram, os ensinamentos dos escritores ficaram, e ajudaram no que Adriana define como “compreensão de mundo”. Questionada quais seriam os títulos inesquecíveis ou essenciais, ela tratou de listar alguns:

  • Capitães de Areia, de Jorge Amado
  • As Vítimas Algozes e A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo
  • O Abolicionismo, de Joaquim Nabuco
  • Poemas de Cruz e Souza
  • Composições de Vinícius de Moraes

Sua atual leitura é o “O Cortiço”, romance escrito por Aluísio Azevedo e um clássico da literatura brasileira. Protegida do frio apenas por uma barraca fina, Adriana devora com tanta paixão o livro que chama a atenção de quem passa pelo banco.

“Um rapaz chegou e me disse que na escola ele era obrigado a ler esse livro. Perguntei se ele se sentia obrigado a ler esse livro, e disse que sim. Que era um ‘livro chato’. Aí, depois que eu li três páginas, ele disse: ‘nossa, mas é bonito, hein?’ Expliquei: ‘não, bonito é a maneira que você o enxerga, e a maneira que eles te oferecem'”, conta Adriana, que completa.

“Nada do que você é obrigado a fazer é bonito. Tudo que você por prazer faz é maravilhoso. Agora, ele quer o livro emprestado”.

Vida nas ruas

Adriana conta que fugiu de uma casa de acolhimento com três colegas, todos já mortos. Relembra que, enquanto tinha de lidar com a fome, frio e medo, foi apresentada às drogas. Passou pela cola, maconha e chegou ao crack, que utiliza “às vezes”, avisa.

“A droga é uma válvula de escape para o inferno que se vive nas ruas”, diz. O uso do crack, conta, serve como um apoio para os momentos difíceis. “Sem sair de si e da realidade”, fala.

“Eu gasto mais tempo com livro do que com crack. Eu gasto mais tempo com pessoas como eu do que com crack. Não sou uma nóia, mas lógico que vou usar, sim. Quero saber quem é o ser humano que ia conseguir passar a noite sem dar uma ‘pauladinha’ sabendo que poderia morrer no dia seguinte”.

Adriana relata que sobreviveu a quatro hipotermias nas ruas de Campinas (SP) (Foto: Fernando Evans/G1)
Adriana relata que sobreviveu a quatro hipotermias nas ruas de Campinas (SP) (Foto: Fernando Evans/G1)

A morte, aliás, já passou próxima de Adriana pelo menos quatro vezes em 17 anos nas ruas de Campinas.

“Eu já sofri de hipotermia quatro vezes. Já coloquei a mão na frente da boca e expirei ar gelado. Eu já perdi os sentidos, eu já morri!”

Adriana diz ter tirado lições até destes momentos mais extremos. “Para quem morreu e continuou por aqui, graças a esse trote de Deus, então eu passei a aproveitar a vida. Meu sonho quando era criança não era ser nóia, não era ser moradora de rua. Meu sonho era ser artista, cantora…”

“O mundo já está te condenando. Se você continuar se condenando quanto o mundo de condena, tá f….. Se o mundo tá de condenando, se absolva. Se o mundo te priva, se permita.

Fonte: G1 Campinas e Região

Junho é o mês do livro LGBT nas bibliotecas

Bibliotecárias presentes na Parada do Orgulho LGBT de São Francisco nos Estados Unidos, celebrando a liberdade de ler. Foto: Tara Schmidt
Junho é o Mês do Livro LGBT nos Estados Unidos, uma celebração anual da cultura, da história, das contribuições e tradições da comunidade lésbica, gay, bissexual e transgênera.
É uma comemoração nacional entre bibliotecas públicas e privadas, bibliotecas universitárias e comunitárias, onde autores, leitores e profissionais das bibliotecas celebram e refletem sobre as histórias de vidas, experiências e a literatura da comunidade LGBT. Originalmente estabelecida no início dos anos 90 pelo The Publishing Triangle – uma associação norte-americana de gays e lésbicas na indústria editorial – como o Mês Nacional de Lésbicas e Gays, esta ocasião é uma oportunidade para os amantes dos livros entrem em contato com o melhor da literatura LGBT presente nas bibliotecas.

Comemore o Mês do Livro GLBT com a sua comunidade leitora

 
O Mês do Livro GLBT é uma iniciativa da Associação Americana de Bibliotecas (American Library Association – ALA) e é coordenado por meio de seu Escritório de Diversidade, Alfabetização e Serviços de Extensão e também de sua Mesa Redonda de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros (GLBT), que está empenhada em atender as necessidades de informação e acesso da comunidade LGBT, do público em geral e também dos profissionais de bibliotecas que se identificam como gays, lésbicas, bissexuais e pessoas transgêneras. Por todo o país eventos e programações LGBT em bibliotecas são incentivados, celebrados e reunem pessoas para celebrar os livros, a leitura e a diversidade
Arte da Biblioteca Pública de Nova York para celebrar o Mês do Livro GLBT
A Huie Library – biblioteca acadêmica da Universidade Estadual de Henderson, fica na cidade de Arkadelphia, no Arkansas, e montou esse display incrível com um poster em homenagem às vidas perdidas na Pulse Nightclub em Orlando na Flórida, que foram dizimadas em um tiroteio motivado por homofobia em 2016, que foi considerado o mais mortífero incidente de violência e ódio contra pessoas da comunidade LGBTQ, e também da comunidade latina nos Estados Unidos. Foto: Huie Library
Confira esta impressionante mostra que a Bellmore Memorial Library da cidade de Bellmore no estado de Nova York montou com seu acervo de livros LGBTQ. Foto: Instagram da Bellmore Memorial Library
A American University Library de Washington DC comemora o orgulho LGBT com sua mais recente exposição de livros. Foto: AU Instagram
A Associação Americana de Bibliotecas está empenhada em encorajar e apoiar o acesso livre e necessário a todas as informações, disponibilizando em seu site downloads gratuitos e material informativo para que as bibliotecas norte-americanas possam celebrar o Mês do Livro GLBT simultaneamente, além de dar sugestões de livros, como o livro This Day in June da autora Gayle E. Pitman, um guia de leitura para mães, pais e cuidadores sobre como conversar com crianças sobre orientação sexual e identidade de gênero de acordo com a idade.
Exposição de livros LGBT na biblioteca Myers Park, filial da biblioteca Charlotte Mecklenburg na cidade de Charlotte na Carolina do Norte, Estados Unidos. Foto: Pinterest da Biblioteca Charlotte Mecklenburg.
Entre os downloads gratuitos da ALA estão os ‘Guias de leitura para discussões em grupo’ para as pessoas que quiserem organizar grupos de debate e rodas de conversa nas bibliotecas sobre os livros indicados na lista. Autores, editores, distritos escolares, e organizações dedicadas ao incentivo à leitura participaram da organização desse material. O Mês do Livro GLBT culminará em muitos eventos e programas da Conferência Anual da ALA de 2017 em Chicago com foco em questões e serviços para a comunidade LGBT.
Hora da Contação de Histórias Drag Queen com a contadora Honey Mahogany celebrando o orgulho LGBT na Biblioteca Pública de São Francisco. Foto: SFPL
— Zines LGBT: A Biblioteca Pública de Chicago em 2017 está fazendo eventos fabulosos para adolescentes. A biblioteca está convidando adolescentes que tenham uma história para contar ou uma experiência para compartilhar a se juntar com um coletivo de escrita para uma oficina de criação de zines, e discutir a importância de contar nossas histórias como comunidades LGBTQIA (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneras, Queer, Intersex, Assexual e Aliados) para desafiar estereótipos, opressão e narrativas dominantes na mídia convencional
— Para crianças, várias bibliotecas estão cada vez mais encantadas com as Drag Queens contadoras de histórias. Leia a matéria que fizemos sobre esse assunto.

Mês dos Livros LGBT no Brasil

Arte: Juliano Rocha
Adoraríamos conhecer iniciativas brasileiras dedicadas a partilhar conhecimento e informação sobre diversidade, inclusão, sexualidade, história, contribuições e direitos do público LGBT. Se você trabalha ou frequenta uma biblioteca de qualquer modalidade que se dedique a celebrar a comunidade LGBT, ou algum evento exclusivo para o público, para seus funcionários, e que já tenha programações e atividades relacionadas à cultura LGBT, deixe uma mensagem na caixa de comentários desse post, ou fale com a gente pelo Facebook.

Prepare-se para celebrar as Datas Comemorativas LGBT na sua biblioteca

Essas são sugestões de datas importantes para celebrar, incluir e fortalecer a comunidade LGBT em bibliotecas, espaços e projetos de incentivo à leitura

— 29 de Janeiro | Dia da Visibilidade de Travestis e Transexuais
— 17 de Maio | Dia Internacional de Combate à Homofobia
— 28 de Junho | Dia do Orgulho LGBT Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais
— 29 de Agosto | Dia da Visibilidade Lésbica

Leia mais artigos LGBT no blog Bibliotecas do Brasil para se inspirar

Tradução e texto: Daniele Carneiro – Bibliotecas do Brasil
Informações e poster do site da American Library Association – ALA
Fotos com créditos dos sites de origem em cada uma delas
Arte “Eu estarei ao lado do mais vulneráveis” de Juliano Rocha – Bibliotecas do Brasil
contato@bibliotecasdobrasil.com

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Fonte: Bibliotecas do Brasil

DIA NACIONAL DA VISIBILIDADE TRANS NAS BIBLIOTECAS DO BRASIL

29 de Janeiro – Dia da Visibilidade Trans: Data importantíssima para ações, atividades, programações e conscientização do público em bibliotecas e espaços de leitura. A data pode ser uma rica fonte de recursos para que esses locais possam ampliar seus acervos, suas atividades e seu alcance entre as comunidades leitoras. E aumentar a conscientização sobre a discriminação enfrentada por pessoas transgêneras no Brasil e em todo o mundo. Salas de aula, projetos de incentivo à leitura, espaços culturais, centros de educação, ações e iniciativas que têm como objetivo a leitura, a circulação de livros e de conhecimento, são espaços importantes para que a data seja vivenciada de forma significativa. Essa é uma excelente oportunidade de se preparar para eventos futuros na agenda de programações e de atividades da sua biblioteca (algumas datas de conscientização LGBTQ estão listadas no final desse post). Celebrar o Dia da Visibilidade Trans com ações educativas é um posicionamento fundamental  das bibliotecas contra o ódio, tanto para a população trans, como para  instruir o público frequentador e até mesmo as pessoas que são trabalhadoras de espaços de leitura e de conhecimento.

O Dia da Visibilidade Trans é um excelente momento para gerar a conscientização sobre a literatura temática disponível, indicar filmes e documentários ao público, sites, ongs e instituições que trabalham em benefício e apoio da população transgênera, além de ser um momento para fazer circular todo o material de acesso ao conhecimento que uma biblioteca pode disponibilizar. É um momento oportuno para abordar temas difíceis e tão presentes na vida em sociedade, para educar e gerar a conscientização das pessoas sobre como combater o bullying e os de crimes de ódio contra as pessoas transgêneras. É um excelente momento para promover  cuidados com a saúde mental, física e espiritual. Também é o momento ideal para as bibliotecas se declararem como espaços seguros e de aceitação. Data relevante para abordar questões relacionadas à violência de gênero além de ser um momento de lembrar as pessoas que morreram em decorrência dessas violências. 

Ainda dá tempo de realizar algo de relevância. O dia 31 de março é conhecido como o “International Transgender Day of Visibility” —Dia Internacional da Visibilidade Trans, e julho é o mês do Orgulho LGBTQ, como já publicamos nesse post (confira dicas de livros, filmes e documentários no final desse post).

Um importante tópico para a reflexão das pessoas que frequentam as bibliotecas, e principalmente para aquelas que trabalham em espaços de leitura, é sobre o uso do nome social pelas pessoas transexuais em órgão públicos, já assegurado por lei. Nós abordamos esse assunto em uma entrevista abundante de reflexões com o Eli Prado, e você pode se aprofundar nesse assunto lendo a matéria. Como o Eli nos contou, mesmo em bibliotecas públicas grandes e com bibliotecários, pessoas transgêneras são expostas a constrangimentos ao exigir um direito que é assegurado pela Constituição Brasileira.

Nesse Dia da Visibilidade Transgênera reflita:

A biblioteca que você trabalha está ciente sobre o uso do nome social das pessoas trans? 

As pessoas que trabalham com você (em bibliotecas ou espaços de leitura) estão instruídas sobre o que é o nome social? Estão instruídas sobre como fazer o atendimento adequado às pessoas trans que solicitarem o uso do nome social?

Como profissional que trabalha em bibliotecas ou espaços de leitura, o que você fazendo para dar visibilidade às pessoas trans em seu trabalho?

Aqui no blog Bibliotecas do Brasil nós preparamos essas duas entrevistas incríveis para apresentar às nossas leitoras e leitores, profissionais de bibliotecas que são pessoas transgêneras, e que estão empenhadas na diversidade, na inclusão e no respeito mútuo com frequentadores e frequentadoras de bibliotecas, vivendo e trabalhando para assegurar sua representação na sociedade. Nós apoiamos e incentivamos que as bibliotecas, projetos de incentivo à leitura independentes, comunitários ou individuais inovem, se capacitem e busquem sempre apoio na educação para conscientizar seu público, suas comunidades e suas equipes de funcionárias e funcionários, para a importância da realização de atividades, programações, mostras de acervo e disponibilidade de espaços seguros para a população de pessoas transgêneras.

Alexia Vitória – Bibliotecária e mulher transgênera

Alexia Vitória de Oliveira é bibliotecária chefe do Cefet-RJ Campus Angra dos Reis no Rio de Janeiro. Ela se formou há 11 anos pela Unesp-Marília em São Paulo e é pós-graduada em Gestão de Marketing pelo Senac SP. Em 2015 ela começou a fazer a redesignação sexual, e há poucos meses conseguiu sua grande vitória na Justiça: a retificação de nome e sexo no documento de identidade: “Agora sou legalmente Alexia. Consegui a retificação na justiça”.

Alexia Vitória, bibliotecária e mulher transgênera, trabalha na biblioteca do Cefet-RJ em Angra dos Reis no Rio de Janeiro

Alexia conversou com o blog Bibliotecas do Brasil sobre a celebração do Dia Nacional da Visibilidade Trans nas bibliotecas, sobre sua vida, sua transição e sobre como é a rotina de bibliotecária chefe e pessoa transgênera.

“Onde trabalho, logo quando passei a me apresentar como Alexia, alunos homens ficaram encanados mas depois normalizou. Mas no geral, colegas de trabalho que eu não tinha afinidade se aproximaram e a relação com os alunos melhorou muito também. Não sei se é respeito mesmo ou medo, mas as pessoas na minha frente têm mostrado grande respeito. Agora na rua, quando estava de cabelo curto escutava gracejos de homens (quem mais faria isso?) colocando em dúvida minha condição feminina, mas amigas cisgêneras já me disseram passar por isso também. Até o momento não ando tendo problemas de preconceito e violências por parte de desconhecidos. Confesso que ainda me bate espanto por conta de minha inserção na sociedade cisgênera heteronormativa”.

Sobre a importância da celebração do Dia Nacional da Visibilidade Trans nas bibliotecas, Alexia fala o que pensa:

“Não só no dia 29 de janeiro, mas a importância das bibliotecas na divulgação de informações que ajudem a desconstruir ideias infundadas acerca da transexualidade sempre. Por ser biblioteca universitária de ciências exatas onde trabalho, ainda não consegui pensar em uma forma de encaixar essas atividades. Na verdade nossos alunos mal têm tempo pros livros de exatas. Mas até hoje, sempre tive liberdade sim para realizar ações dentro da biblioteca, até porque sou chefia e não peço permissão de nada. Uma iniciativa que tenho desde o ano passado, é deixar no balcão da biblioteca material informativo pra educar nossos usuários sobre como tratar corretamente pessoas transgêneras. O material informativo eu pesquiso na internet, faço a impressão e disponibilizo. Os alunos têm pegado o material e muitos leem no próprio balcão.

“A biblioteconomia tem um imenso contingente de pessoas lésbicas, gays e bissexuais” – Alexia Vitória, bibliotecária

Alexia é a primeira bibliotecária trans que conhecemos através do blog Bibliotecas do Brasil

Pergunto para Alexia se ela tem notícia sobre outras bibliotecárias e bibliotecários no Brasil que também são pessoas transgêneras.

“Transgênera de quem eu tenho notícia só eu no momento. E olha que a biblioteconomia tem um imenso contingente de LGB (lésbicas, gays e bissexuais). Aliás, profissional de biblioteconomia trans que tenho notícias não conheço mais ninguém além de mim. Acredito que deve haver mais, mas talvez tenham medo de se expor por causa da transfobia. Esses dias estava pensando justamente sobre isso, se sou a única bibliotecária transgênera “male to female” (em transição de masculino para feminino), e chefia ainda por cima no país. Fico pensando se soa arrogância quando enfatizo que sou chefe, mas por conta de minha condição transgênera, acho válido mostrar que podemos sim ocupar espaços que são nossos também por direito”.

“Sociedade gostando ou não, tem bibliotecária-chefe trans sim” – Alexia Vitória

 

“Por ser uma biblioteca de ciências exatas, não haverá nenhum evento específico, mas mesmo como faço na minha biblioteca, disseminando informações de forma perene sobre a questão, procuro servir de referência, e no dia a dia faço conscientização das pessoas. Minha própria existência e ser bem sucedida profissionalmente já é uma forma de militância, mas nem encano com isso.”

Bibliotecária transgênera e empoderada, Alexia nos contou: “Acho interessante mencionar que sou formada em Biblioteconomia e pós-graduada em Marketing, pra mostrar empoderamento e que nós, pessoas trans, podemos ter acesso à educação de ponta também”.

Alexia conseguiu na Justiça a retificação de nome e sexo no documento de identidade, na certidão de nascimento e demais documentos, e nos contou sobre sua luta para conseguir a mudança de nome. 

“A ação foi protocolada pela advogada em 4 de setembro de 2017. A sentença saiu em 15 de setembro e ficou 30 dias em trânsito de julgado. 16 de novembro, dia de meu aniversário, chegou a certidão retificada na casa de minha mãe. Depois fui retificando os documentos um a um”. 

Para a retificação dos nomes nos documentos, Alexia precisou investir R$4.500,00 para a contratação de uma advogada, mais R$150,00 dos custos processuais e mais R$77,00 pela certidão retificada. 

E o ‘Vitória’ no nome se deve a isso tudo que estou passando. Sou bibliotecária chefe do Cefet-RJ campus Angra dos Reis. Ou seja, sociedade gostando ou não, tem bibliotecária-chefe trans sim”. 

Eli Prado – Estagiário de biblioteca e homem transgênero

Eli Prado é um homem transgênero, estudante de Filosofia na UPFR, é estagiário em uma biblioteca municipal em Curitiba, na Casa da Leitura Manoel Carlos Karam. Nós fizemos uma longa entrevista com o Eli na matéria “A Transgeneridade nas Bibliotecas e Espaços de Leitura” que vale muito a sua leitura. Eli novamente conversa novamente com o blog Bibliotecas do Brasil, agora para falar sobre o Dia da Visibilidade Trans.

“Acho importante falar sobre ações em diferentes espaços e em todas as letras na sigla LGBT. Em junho é comemorado o Dia do Orgulho Gay que, com o passar do tempo, passou a ser visto e divulgado como Dia do Orgulho LGBT ou Dia da Diversidade, mesmo que na prática o movimento gay tenha mais visibilidade e por vezes reproduza preconceito contra pessoas LBT (lésbicas, bissexuais e transexuais). 19 de agosto é o Dia do Orgulho Lésbico. 23 de setembro é o dia do Orgulho Bissexual. Essa semana, dia 29 de janeiro, é o Dia da Visibilidade Trans. Quando a gente toma conhecimento da existência dessas datas e tem interesse em apoiar essa população, temos que divulgar, disseminar o quanto pudermos as datas, disseminar que o movimento LGBT não se resume ao Dia do Orgulho Gay, que cada uma dessas letras tem especificidades na forma de existir e resistir ao preconceito diariamente.

“Bibliotecas são espaços de resistência, espaços de liberdade, espaços para ampliar horizontes” – Eli Prado, estagiário de biblioteca

Eli Prado, estagiário de biblioteca e homem trans, atualmente trabalha na Casa da Leitura Manoel Carlos Karam em Curitiba, PR

 

“Sobre o Dia da Visibilidade Trans, eu não consigo deixar de pensar em toda opressão e todo preconceito que mulheres trans e homens trans (me incluo nesse grupo) enfrentam todos os dias, toda a exclusão de absolutamente todos os espaços. Somos excluídos nas escolas, nas universidades, no mercado de trabalho, em serviços básicos, em espaços privados e públicos. Em bibliotecas também? Bibliotecas são espaços de resistência, espaços de liberdade, espaços para ampliar horizontes e seria incoerente que esses lugares não fossem ambientes seguros para populações excluídas. Eu não soube de ações voltadas para a comemoração do Dia da Visibilidade Trans nas bibliotecas que frequento em Curitiba, e eu mesmo como homem trans, que faço estágio num programa de incentivo à leitura, sinto que pequei por não ter programado nenhuma ação no meu lugar de trabalho para essa data específica. Mas admito que eu não veria isso com maus olhos em espaços que me tratassem com respeito e dignidade. Existe o Dia da Visibilidade Trans, mas o respeito e conhecimento seja entre os funcionários, seja em ações que disseminem informação entre leitores é um trabalho que se faz dia a dia. Em espaços que não houveram ações esse ano, espero que se dissemine informação para que ano que vem, a data não passe batida, pois é necessário uma base sólida pra que essas ações não sejam atividades isoladas num meio tóxico que não respeite efetivamente a população LGBT”.

Dicas de livros do Eli para o Dia da Visibilidade Trans

Dicas de filmes e documentários – Para pesquisar no Youtube, Netflix, etc

  • Her story (2016 – websérie)
  • Animal sonhado (2015) 
  • Batguano (2014) 
  • Tatuagem (2013)
  • Doce amianto (2013)
  • Madame Satã  (2002) 
  • Better than chocolate (1999) 
  • The watermelon woman (1996)
  • Seams (1993)
  • The living end (1992)
  • Swoon (1992)
  • Paris is burning (1991) 
  • Queer Edward 2 (1991)
  • Tongues untied (1989)
  • It’s a sin (1987) 
  • O funeral das rosas (1969) 
  • Eu não quero ser um homem (1918) 
  • Zapata’s band (1914) 

Prepare-se para celebrar as Datas de Conscientização LGBT na sua biblioteca ou espaço de leitura

Essas são sugestões de datas importantes para celebrar, incluir e fortalecer a comunidade LGBT em bibliotecas, espaços e projetos de incentivo à leitura. Leia também a matéria “Por que elegemos o dia 29 de Janeiro como o Dia da Visibilidade Trans?“da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo.


— 29 de Janeiro | Dia da Visibilidade de Travestis e Transexuais
— 31 de Março | Dia Internacional da Visibilidade Transgênera

17 de Maio | Dia Internacional de Combate à Homofobia

28 de Junho | Dia do Orgulho LGBT Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais 

29 de Agosto | Dia Nacional da Visibilidade Lésbica

Glossário

“cisgênero” ou só “cis”: a pessoa que se identifica com o gênero designado no nascimento, associado ao  sexo biológico
—”transgênero”, “transexual” ou só “trans”: a pessoa que não se identifica com o gênero designado no nascimento
—”heteronormatividade”: o conjunto de normas sociais que sempre associa o “ser hétero” a algo natural, inato, biológico e determinante na vida dos indivíduos (associando pessoas do sexo feminino à fragilidade e pessoas do sexo masculino à dominância, etc).

Entrevistas e texto: Daniele Carneiro – Bibliotecas do Brasil

Fotos: Alexia Vitória e Eli Prado
Glossário: Eli Prado

Artes do post: Juliano Rocha – Biblioteca do Brasil

Email: contato@bibliotecasdobrasil.com

Fonte: Bibliotecas do Brasil