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Minorias Sociais

Conheça a pesquisa sobre bibliotecas prisionais vencedora de prêmio nacional

Dissertação de mestranda da UFS abordou estímulo à leitura em bibliotecas prisionais

Trabalho foi desenvolvido no Prefem. Fotos: Divulgação/Paulo Fernades Júnior

Texto por Abel Victor

Até janeiro de 2018, tudo levava a crer que Raquel Gonçalves iria enveredar pelo tema da biblioteca escolar no mestrado. Ela, além de se interessar pelo assunto, já atuava na área. Mas um convite da orientadora Germana Araujo mudou o curso da pesquisa realizada no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Informação da Universidade Federal de Sergipe (PPGCI/UFS).

Germana perguntou o que a então orientanda achava de realizar um trabalho no Presídio Feminino de Sergipe (Prefem), localizado em Nossa Senhora do Socorro, onde a docente colabora com o projeto Odara, que oferece capacitações às internas. Foi uma surpresa para Raquel que nunca tinha entrado em um presídio e cogitado o tema. Isso até a primeira visita, quando “se apaixonou pela causa” e observou que a biblioteca da unidade “ precisava ser utilizada, ser explorada”.

Foi, a partir daí, que surgiu a ideia de criar um projeto de intervenção para ampliar o uso da biblioteca do Prefem através de dinâmicas culturais, como clubes de leitura e exibição de curtas-metragens. Para isso, Gonçalves analisou o espaço e mapeou os temas que interessavam as internas.

“A gente via que tinha uma utilização da biblioteca, mas sempre com os mesmos livros. Lá, o empréstimo funciona da seguinte forma: você solicita o livro através de uma folha que vai passando de cela em cela e uma responsável pela biblioteca pega esses livros e leva até a essas internas. Então, assim, havia uma repetição de livros, sempre pedindo os mesmos livros, porque era por recomendação”, explica.

“Então, o nosso trabalho tinha o intuito de dinamizar o uso, que elas pudessem utilizar livros que nunca foram emprestados, sobre assuntos de temáticas sobre o feminismo, maternidade, violência doméstica, direito da mulher e vários outros assim que não eram explorados. Aí, através das dinâmicas culturais, a gente conseguiu fazer uma ponte entre curtas-metragens e os livros”, complementa.

Leia a matéria completa publicada pela Universidade Federal de Sergipe

Pesquisa da everis identifica hábitos de acessibilidade e navegação na internet de pessoas com necessidades especiais

Pesquisa da everis identifica hábitos de acessibilidade e navegação na internet de pessoas com necessidades especiais

  • Estudo focou no uso de leitores de tela, que facilitam navegação e uso de pessoas com deficiências visuais, mas beneficiam também idosos e aqueles com deficiências diversas.
  • Resultados reforçam potencial de consumo deste grupo, que representa 23,9% da população brasileira e é econômica e digitalmente ativo.

A everis, consultoria de negócios e TI do Grupo NTT Data, acaba de concluir a “2ª pesquisa brasileira sobre o uso de leitores de tela por pessoas com deficiências”, totalmente on-line. Seu objetivo foi conhecer os hábitos dos brasileiros com deficiência física, intelectual, visual e auditiva ao usarem leitores de telas de computadores, tablets e celulares para acesso aos mais diversos softwares e aplicativos mobile. Ou seja, entender como as empresas podem desenvolver soluções mais acessíveis às pessoas com necessidades especiais. Acesse a íntegra: https://estudoinclusivo.com.br/relatorio-2020 .

Trata-se de um tema extremamente relevante considerando-se que no último censo do IBGE se identificou que existem cerca de 23,9% pessoas (45.606.048) que sofrem com alguma deficiência no Brasil, sendo que, deste total, 8,2% têm condições limitantes severas. A deficiência com maior incidência entre os brasileiros é a visual (18,8%), seguida por auditiva (5,1%), motora (7%) e mental ou intelectual (1,4%). Este contingente de brasileiros precisa e deve ter acesso a produtos e serviços acessíveis, tanto públicos como privados, e este direito é garantido pela Lei Brasileira de Inclusão, nº 13.146/2015.

Entre as principais constatações dessa segunda edição da pesquisa da everis está o fato da maioria das pessoas com necessidades especiais entrevistadas (74,5%) considerar a internet acessível, enquanto na primeira eram apenas 65%. Outra constatação importante foi que mais de 68% dos participantes possuem renda própria, ou seja, são consumidores e impactados pela falta de acessibilidade das plataformas digitais. Ao questionar os entrevistados sobre o leitor de tela para desktop de sua preferência, a maioria informou preferir utilizar o NVDA (76,6%), ficando o JAWS em segundo lugar com 10,8%. Entre os navegadores de celulares e tablets, o mais usado é o TalkBack com Chrome, apontado por 45% dos participantes, enquanto 27,9% usam o VoiceOver com Safari.

Leia a matéria completa publicada pelo SEGS

Lançamentos da literatura que ajudam a entender o racismo no Brasil

Com ficção, reflexão e poesia, três lançamentos convidam leitor a mergulhar em histórias que ajudam a entender o racismo no Brasil

Texto por Nahima Maciel

(foto: Companhia das Letras/Editoria Todavia/Companhia das Letras/Divulgação)

Racismo, pensamento africano contemporâneo, histórias de heroínas negras pouco contadas nas escolas e no dia a dia: os temas são abordados em uma boa leva de livros que acabam de desembarcar nas editoras. Para entender importância de celebrar o Mês da Consciência Negra, vale mergulhar na leitura de autores brasileiros que refletem sobre racismo, desigualdade, violência e discriminação sexual no cenário contemporâneo. O Diversão & Arte fez uma seleção que tem desde ensaios até ficção, incluindo um elegante livrinho de história escrito em forma de cordel sobre mulheres negras que fizeram a história do Brasil e sumiram dos livros e das narrativas.

O avesso da pele

De Jeferson Tenório. Companhia das Letras, 190 páginas. R$ 59,90

Terceiro romance do autor, um professor de literatura nascido no Rio de Janeiro e radicado em Porto Alegre, traz a história de um também professor de literatura, negro como Tenório, vítima de diversas abordagens racistas por parte da polícia e cuja vida acaba por ser tirada em um desses episódios. “Dos três livros que tenho, O avesso da pele foi o que se aproximou mais da minha vida, mas ele surge, na verdade, a partir de um livro que gosto bastante que é o Hamlet, a história de um filho que tem uma relação com um pai fantasma. Eu sempre quis escrever um livro sobre ausência paterna.

E também queria falar sobre um professor de literatura. Depois de sofrer uma abordagem policial em Porto Alegre, em 2016, achei que podia abordar esses três temas: ausência paterna, violência policial e educação”, conta Tenório. Estruturado com várias vozes narrativas, o livro é conduzido pelo filho do professor. Ao mesmo tempo em que revisita a história do pai ausente, o narrador investiga sua própria origem. O racismo é tema constante – Tenório decidiu escrever o livro após ele mesmo sofrer uma abordagem policial sem justificativa –, mas as relações familiares e a educação em um país marcado pela desigualdade social ocupam lugar importante na narrativa. O autor, que já esteve no programa Conversa com Bial, é também um dos convidados da edição on-line da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), programada para dezembro.

Leia a matéria completa publicada pelo Uai e conheça sobre as outras obras.

Cidinha da Silva: conheça a escritora negra brasileira que será lida por milhões no mundo todo

Cidinha da Silva teve o livro ‘Os nove pentes d’África’ incluído no Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) / Foto: Lis Pedreira

Escritora mineira nascida em Belo Horizonte, Cidinha da Silva, de 53 anos, será lida por milhões de estudantes e professores de escolas públicas de educação básica de todo o Brasil. A autora da ficção literária “Os nove pentes d’África” — publicada pela Mazza Edições, em 2009 — teve o livro incluído no , que distribui gratuitamente obras didáticas, literárias e pedagógicas a instituições de ensino público fundamental do país.

Operacionalizado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, do Ministério da Educação, o PNLD atende alunos do 6º ao 9º ano do ensino fundamental. Para receber os livros oferecidos pelo programa, os dirigentes das redes de ensino público básico de cada localidade precisam manifestar interesse e encomendar os materiais oferecidos.

Assim, desde setembro deste ano, o livro de Cidinha — que vem acompanhado de um guia sobre como deve ser utilizado em sala de aula — pode ser requisitado diretamente ao programa do governo federal por diretores e professores da rede pública de ensino.

Com 17 livros publicados, Maria Aparecida da Silva (seu nome de batismo) é graduada em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e, além de escritora, presidiu o Geledés – Instituto da Mulher Negra e foi gestora de cultura na Fundação Cultural Palmares.

Leia a matéria completa publicada pelo Hypeness

A literatura comparada como exercício democrático

Elena Brugioni fala sobre pós-colonialismo e pós-modernismo na perspectiva da literatura comparada, vertente que guia sua pesquisa em crítica literária em busca de caminhos não-hegemônicos

Texto por Luisa Ghidotti Souza

Literaturas africanas comparadas é um livro da professora Elena Brugioni que traz à área da crítica literária uma proposta de análise pouco explorada no Brasil. A autora chegou à Unicamp em 2016 para ministrar disciplinas em literatura africana na graduação dos cursos de Letras e Estudos Literários. A obra oferece grande contribuição, não só para a formação dos estudantes, mas também para as discussões sobre literatura comparada e estudos pós-coloniais, que vêm alcançando maior visibilidade no Brasil. Como nos mostra Brugioni, as pesquisas sobre esse tema vêm sendo conduzidas, em todo o mundo, com especial atenção ao tema do pós-colonialismo.

A recente obrigatoriedade do ensino de cultura e literatura africanas nas escolas brasileiras amplia o interesse pelo assunto. Como nos mostra Brugioni, as pesquisas em literatura africana vêm sendo conduzidas por pesquisadores, em todo o mundo, com especial atenção ao tema do pós-colonialismo, e discorre sobre alguns pontos relevantes para a esse tipo de análise aplicada aos romances históricos africanos. Literaturas africanas comparadas  é finalista na categoria Línguas, Letras e Artes, do Prêmio ABEU 2020, da Associação Brasileira de Editoras Universitárias.

Editora da Unicamp: Para além do amparo teórico para a sala de aula da graduação, quais outras contribuições Literaturas africanas comparadas pode oferecer à área de crítica literária no Brasil?

Elena Brugioni: O livro é fruto de um percurso de estudo que tenho desenvolvido nos últimos anos, e a ideia principal foi reunir trabalhos e reflexões que pautam minha trajetória acadêmica no âmbito da pesquisa e da docência. As obras literárias analisadas no livro, bem como os tópicos críticos e as problematizações teóricas abordadas, pretendem estabelecer um diálogo com os debates que configuram os campos das Literaturas Africanas, da Literatura Comparada e dos Estudos Pós-coloniais em diversos contextos acadêmicos e institucionais, não apenas de língua portuguesa. Neste sentido, penso que a contribuição do livro, além de trazer para a sala de aula alguns dos mais canônicos e recentes debates críticos que pautam estes campos de estudo, é apresentar discussões e propostas que estabelecem um diálogo com problematizações teóricas matriciais que configuram as críticas literárias contemporâneas no âmbito dos estudos recentes sobre romance africano, do debate crítico comparatista sobre sistemas literário e literatura-mundial e das cartografias teóricas pós-coloniais, dentro e fora do Brasil. A literatura como sistema e alegoria nacional, ou ainda, como registro social e político, a relação da escrita literária com a modernidade e o capitalismo global, os temas da oposição e da resistência às narrativas coloniais e imperiais que pautam o romance africano contemporâneo, a relação entre escrita literária, história, memória e futuro em diversos contextos e situações pós-coloniais são algumas das questões desenvolvidas no livro. O contraponto entre línguas e tradições intelectuais, áreas de estudo, campos disciplinares e geografias críticas distintas são algumas das diretrizes teóricas e metodológicas que procurei seguir neste ensaio cujo objetivo primordial é o de pensar as literaturas africanas e suas possíveis cartografias críticas por meio de perspectivas conceituais e teóricas de matriz transacional. Por fim, pensando na contribuição que o livro pode dar ao campo da crítica literária no Brasil, não quero dizer que tentei fazer algo novo, pois não tenho grande simpatia por novidades — sobretudo quando se trata de crítica literária —, mas certamente procurei ensaiar leituras teóricas menos desgastadas e trazer alguns repertórios bibliográficos menos comuns.

Leia a entrevista completa publicada pela Unicamp

Judiciário terá planos nacionais de leitura e esporte para pessoas presas

O Conselho Nacional de Justiça começa na próxima semana a discutir planos nacionais de fomento à leitura e ao esporte nos ambientes de privação de liberdade. Previstas na Lei de Execução Penal, essas atividades são consideradas fundamentais nas dinâmicas de ressocialização de pessoas que tiveram contato com o sistema prisional ou com o sistema socioeducativo, voltado à responsabilização de adolescentes que cometeram infração.

Os temas serão discutidos em dois grupos de trabalho (GT), criados por meio de portarias do presidente do Supremo Tribunal Federal e do CNJ, ministro Luiz Fux. Integram os colegiados representantes do poder Judiciário e do sistema de Justiça, assim como do Executivo e da sociedade civil. As primeiras reuniões ocorrem no próximo dia 27 de outubro (GT Esporte) e 28 de outubro (GT Leitura).

Embora a legislação nacional trate da remição da pena por meio da leitura, do esporte e da cultura, os índices de aplicação da medida são baixos, especialmente pela dificuldade de o Estado prover os serviços. De acordo com dados do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen) de 2019, das mais de 750 mil pessoas privadas de liberdade no país, apenas 3,5% tiveram acesso à remição de pena pela leitura e 2,3% participaram de alguma atividade complementar à educação formal, incluindo atividades culturais. No campo dos esportes, somente 0,4% acessou remição de pena por essa modalidade.

Leia a matéria completa publicada pelo Consultor Jurídico

‘A sociedade quer novas histórias’, diz escritor negro finalista do prêmio Jabuti

Alê Santos concorre na categoria ensaio com obra que traz histórias de personagens da história afro falando sobre lutas. Escritor de Guaratinguetá (SP) fala sobre reconhecimento em mercado editorial, predominantemente branco.

Texto por Poliana Casemiro

Alê Santos concorre ao prêmio Jabuti — Foto: Divulgação

O publicitário e escritor Alê Santos, de Guaratinguetá (SP), foi indicado ao prêmio Jabuti, um dos mais importantes da literatura do país. Negro, do interior e de periferia, Alê recebeu destaque, que rendeu a indicação, pelo livro “Rastros de Resistência” que traz histórias de personagens da história afro falando sobre as lutas deles.

“Essa indicação representa uma quebra do paradigma. Uma sociedade que não se assumia racista e que passou a tomar posição. As pessoas estão se tocado que não é normal viver em um país em que você entra em um estabelecimento e todos são brancos. E que a maioria dos pobres são pretos”, disse.

Alê concorre na categoria ensaios na 62ª edição do prêmio. O autor comenta que a atual edição ouviu uma luta das minorias, que tenta extrapolar as barreiras majoritárias brancas do mercado editorial. Com ele, Djamila Ribeiro, Petrônio Domingues, ambos negros e com obras sobre o racismo, além do líder indígena, Ailton Krenak.

Alê Santos trabalha há dez anos com literatura, mas ganhou voz no mercado com a internet. O autor viralizou no twitter com as “threads” — como são chamadas as publicações em série — contando a saga de líderes negros e explicações sobre a origem do racismo. Depois do viral, recebeu convite de editoras para transformar as postagens em obras.

Leia a matéria completa publicada pelo G1

FGV disponibiliza arquivo histórico de nove mulheres brasileiras

Acervo digital conta com mais de 35 mil páginas com documentos e informações sobre personalidades do jornalismo, literatura, política, diplomacia e trabalho

Documentos da sindicalista, advogada e jornalista, Almerinda Farias Gama, que integrou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino – (crédito: Divulgação/FGV)

A constituição de acervos históricos de mulheres ainda é uma barreira que afeta tanto a pesquisa quanto a memória nacional. A falta de acesso a esse material diminui a análise e a visibilidade para o papel desempenhado por tantas brasileiras, bem como para os desafios que tiveram de superar em tantas áreas como na cultura, literatura, trabalho, política, diplomacia, economia e jornalismo. Para enfrentar esse problema, o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas, em parceria com o Center for Research Libraries (CRL), desenvolveu um projeto para disponibilizar ao público nove arquivos de mulheres que impactaram a história brasileira.

O acervo foi concluído em junho de 2020, e mais de 35 mil páginas de documentos digitalizados estão abertos para consulta pública, por meio do Portal do CPDOC. Todos os interessados podem encontrar no site o material até então inédito para o grande público, sobre mulheres como a sindicalista, advogada e escritora Almerinda Farias Gama, a poetisa Anna Amélia de Queiroz, a jornalista que teve os direitos políticos cassados pelo AI-5 Niomar Moniz Sodré Bittencourt e a diretora de um dos maiores conglomerados de comunicação da historia brasileira, o Diários Associados, Rosalina Coelho Lisboa. A iniciativa também conta com a revisão e atualização de informações e biografias das mulheres.

O arquivo 

Confira um resumo da história de cada uma dessas personalidades, que compõe o acervo:

Almerinda Farias Gama (1899 – 1992) – Foi sindicalista, advogada e jornalista que integrou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e lutou, junto de outras mulheres, pelo direito ao voto feminino no Brasil. Ela fundou o Sindicato dos Datilógrafos e Taquígrafos do Distrito Federal e foi, como representante do sindicato, a única mulher a votar como delegada na eleição para a Assembleia Nacional Constituinte, em 1933. No ano seguinte, Almerinda Farias se candidatou para Câmara Federal pela legenda “Decreto do Direito ao Trabalho, Congresso Master”. Ela também atuou como colaboradora em periódicos paraenses e cariocas e foi autora de livros como Zumbi e O dedo de Luciano.

Leia a matéria completa publicada pelo Eu Estudante e conheça os outros acervos custodiados pela FGV

Com mais de 100 livros lidos, socioeducanda é destaque durante a inauguração de biblioteca da Unidade de Internação

Na manhã de quarta-feira (14), aconteceu a solenidade de inauguração da Biblioteca da Unidade de Internação Provisória e Sentenciada Feminina

Texto por Aparecida Sousa

A formatação final da biblioteca é a realização de um sonho, com doações de livros e dedicação de todos os envolvidos

Na manhã de quarta-feira (14), aconteceu a solenidade de inauguração da Biblioteca da Unidade de Internação Provisória e Sentenciada Feminina (Unif), da Fundação Estadual de Atendimento Socioeducativo (Fease), destacando uma socioeducanda que, internada desde dezembro de 2019, até o momento já leu 132 livros.

Quando Maria (nome fictício), de Porto Velho, foi indagada sobre o que havia despertado o seu desejo pela leitura, respondeu: “o meu gosto de leitura começou quando minha mãe comprou uma máquina de lavar roupa e eu li o papelzinho que estava escrito as instruções, foi quando comecei”, disse sorrindo.

“A educação não transforma o mundo, educação muda pessoas e pessoas mudam o mundo”, disse o presidente da Fease, Antônio Francisco Gomes Silva, citando Paulo Freire.

Maria acredita que a leitura dos livros pode melhorar a sua vida e seu interior, e conclui dizendo: “espero poder levar essa leitura adiante, para que eu tenha uma vida melhor do que eu tinha antes e que eu possa refletir e isso me leve a muitos lugares melhores”.

Leia a matéria completa publicada pelo Tudo Rondônia

Busca por livros aumenta nos presídios do estado de São Paulo

Crescimento no empréstimo de obras literárias demonstra interesse de reeducandos por conhecimento e remição de pena durante pandemia

Durante a pandemia de COVID-19, diversos reeducandos da Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) têm apostado na leitura. Com um acervo de mais de 120 mil livros disponíveis nos estabelecimentos penais da Coordenadoria de Unidades Prisionais da Região Metropolitana de São Paulo (Coremetro), a procura por obras literárias apresentou aumento nos últimos meses.

O crescimento ocorreu após a interrupção de atividades rotineiras nas unidades penais, visando evitar a disseminação da enfermidade no sistema prisional paulista. Na Penitenciária Feminina Sant’Ana (PFS), entre os meses de março e setembro deste ano, houve aumento na média de empréstimos de obras de 419 para 2.011 exemplares.

Protocolos

Vale lembrar que os protocolos sanitários da COVID-19 também são necessários para o empréstimo dos livros. As salas de leitura são frequentadas apenas pelos monitores reeducandos, as obras são escolhidas a partir de catálogo e, após a devolução, os livros são mantidos em “quarentena” por 72h antes de serem emprestados novamente.

Entre os reeducandos da Penitenciária I “José Parada Neto” e do Centro de Detenção Provisória (CDP) II de Guarulhos, os títulos mais procurados estão “O Código Da Vinci”, de Dan Brown, “Juízo Final”, de Sidney Sheldon, “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios”, de Marçal Aquino, “O Processo”, de Franz Kafka, entre outros.

Leia a matéria publicada pelo Governo do Estado de São Paulo

O incentivo à leitura e escrita para alunos especiais

Professores e mães de estudantes da região de Campinas relatam as iniciativas para vencer os obstáculos da aprendizagem e os resultados positivos que são alcançados

EPTV na Escola 2020 com o tema “A tecnologia que melhora o mundo, melhora mesmo a minha vida?”: estímulo a leitura e escrita de todos. — Foto: iStock

O número de alunos com necessidades especiais estudando em escolas regulares vem aumentando ano a ano. Dados do Censo Escolar 2018, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mostram que entre 2014 e 2018, o Brasil registrou um aumento de 33,2% no número de matrículas desses estudantes. Em 2014, eram 886.815 alunos com deficiência, altas habilidades ou transtornos globais do desenvolvimento. Já em 2018, o total saltou para 1,2 milhão de alunos.

A educação inclusiva, que é quando alunos portadores ou não de necessidades especiais dividem a mesma classe, acolhe e revela o potencial de crianças e jovens que precisam de adaptações para que a aprendizagem possa funcionar e gerar maior autonomia.

“A alfabetização, a leitura e a escrita são os pontos mais desejados”, afirma Maibi Mascarenhas, coordenadora de pós-graduação em educação inclusiva no Instituto Brasileiro de Formação de Educadores (IBFE).

Ela explica que os alunos podem precisar de um tempo maior para a realização das atividades, de recursos específicos, textos mais objetivos, ferramentas complementares, como o apoio de imagens, músicas, atividades lúdicas, apresentação de materiais concretos, como o próprio livro, painéis e brincadeiras. Cabe à gestão da escola oferecer isso a eles.

“Uma dica muito importante é utilizar assuntos que eles gostem para atraí-los. A repetição de informações também os ajuda a fixar o conteúdo e a aumentar o interesse pela leitura e pela produção de texto”, diz.

Leia a matéria completa publicada pelo EPTV

Em livro, servidor da UFJF-GV fala sobre os desafios na gestão das bibliotecas dos campi avançados

Servidor da biblioteca da UFJF-GV, Allan Julio Santos assina capítulo que trata dos desafios em atuar e gerenciar essas unidades. (Imagem: Divulgação)

Quer conhecer um pouco a realidade das bibliotecas universitárias dos campi avançados? Então vale a pena dar uma conferida no livro “Leitura, acessibilidade e atuação d@s Bibliotecári@s”. A obra conta com a participação do servidor da Universidade Federal de Juiz de Fora em Governador Valadares (UFJF-GV), Allan Júlio Santos, que assina um capítulo que trata dos desafios em atuar e gerenciar essas unidades.

De acordo com Santos, o principal objetivo da obra é “a disseminação de ideias e ações no campo científico e acadêmico que fogem do lugar comum, com ideias inovadoras e apresentação de cenários factíveis de implementação” e fomentar discussões na área da biblioteconomia.

Na avaliação do servidor, o livro é relevante para a comunidade acadêmica porque destaca as soluções adotadas pela Biblioteca da UFJF-GV, onde ele atua, para superar dificuldades como o compartilhamento do espaço com outra instituição de ensino e a necessidade de adaptação dos produtos e serviços oferecidos às especificidades do campus.

Outra contribuição da obra é “apresentar temas correlatos que acrescentam na formação universitária, ao discutir a organização e disseminação da informação científica de forma acessível, utilizando para isso os canais das tecnologias da informação de modo prático e crítico”, frisa Santos.

Além do servidor da UFJF-GV, outros profissionais ligados à área contribuem com a publicação abordando temas como a atuação do bibliotecário escolar em rede, informática para pessoas com deficiência intelectual e informações acessíveis para usuários surdos em repositórios digitais.

Fonte: Universidade Federal de Juiz de Fora

Idosos paulistas do ‘Clube de Leitura 6.0’ leem o dobro da média brasileira

De acordo com a pesquisa ‘Retratos da Leitura no Brasil’ de 2020, a quantidade anual média de livros lidos por habitante no país é de 4,95; enquanto no projeto vinculado ao Governo de São Paulo os idosos leem 10 livros

A Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo, em parceria com a Fundação Observatório do Livro e da Leitura, promove o ‘Clube de Leitura 6.0’ visando a organização de encontros para propiciar aos idosos uma melhor qualidade de vida e incentivar o entretenimento cultural saudável, no qual todos os participantes devem ler pelo menos 10 livros durante um ano.

Por meio de recursos captados via Fundo Estadual do Idoso, a iniciativa tem colaborado para que mais de 760 idosos paulistas, distribuídos por 26 cidades do Estado (São Paulo, Santos, Santo André, São Bernardo do Campo, Guarulhos, Osasco, Suzano, Itapevi, Campinas, Sorocaba, Sumaré, Piracicaba, Araraquara, São José dos Campos, São José do Rio Preto, Sertãozinho, São Carlos, Itapetininga, Rio Claro, Jales, Descalvado, Pirassununga, Ribeirão Preto, Penápolis, São Caetano do Sul e Bauru), leiam mais que o dobro da média brasileira.

Segundo a última edição da pesquisa ‘Retratos da Leitura no Brasil’, que será divulgada nesta segunda-feira, 14 de setembro, pelo Instituto Pró-Livro e Itaú Cultural, a quantidade anual média de livros lidos por habitante no país é de 4,95.

“Com os dados revelados pela pesquisa, que é a mais ampla e relevante sobre o tema, fica mais evidente a importância de valorizarmos projetos como este, que são fundamentais para a saúde mental e emocional dos idosos, estimulando o envelhecimento ativo por meio da leitura, além de apoiar a inclusão digital deles” disse Célia Parnes, Secretária de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo.

Leia a matéria completa publicada pelo SEGS

Obras literárias ganham novos formatos para pessoas com deficiência

Ao todo, 13 obras estão disponíveis online e gratuitamente; veja

Obras literárias ganham novos formatos para pessoas com deficiência. Foto: Thinkstock/Veja Leia mais em: https://veja.abril.com.br/educacao/57-das-criancas-entre-5-e-9-anos-ja-usaram-computador/

A Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência anunciou a disponibilização de quatro obras literárias gratuitas acessíveis em formato de libras, legenda, áudio, imagem e leitura simples para a população.

Entre as 13 obras já disponíveis para pessoas com deficiência, os clássicos literários Come, menino, de Letícia Wierzchowski, A mulher que matou os peixes, de Clarice Lispector, Um sonho no caroço de abacate, de Moacyr Scliar, e A aldeia sagrada, de Francisco Marins, ganham destaque.

Segundo a secretaria, o objetivo do projeto é proporcionar o acesso de pessoas com deficiência ao mundo da literatura. A ação faz parte do programa Leitura Inclusiva.

As obras, que podem ser acessadas no site Pessoa com Deficiência e contribuem com a equiparação de oportunidades e o fortalecimento das políticas, programas e projetos relativos aos direitos das pessoas com deficiência, com ênfase no acesso ao livro e à leitura, introduzindo a questão da acessibilidade e inclusão, de forma articulada e transversal.

Leia a matéria completa publicada pelo ACidade ON – São Carlos

Tecnologia permite acesso integral de deficientes visuais aos processos do STJ

O acesso de pessoas com deficiência ao mundo digital é um desafio. Atualmente, existem aplicativos que oferecem suporte a pessoas com vários tipos de deficiência, facilitando bastante a rotina desses grupos. Na semana em que se comemora o Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência (21 de setembro), o Superior Tribunal de Justiça coloca ao alcance dos servidores, advogados e demais operadores do direito com deficiência visual a possibilidade de acessar 100% das peças processuais de seu acervo, graças à utilização de softwares baseados em OCR (Optical Character Recognition).

Tecnologia permite acesso integral de deficientes visuais aos processos do STJ

A ministra Nancy Andrighi, que preside a Comissão de Acessibilidade e Inclusão, lembra que aqueles que estão no poder têm o dever de criar caminhos para proporcionar a igualdade de participação das pessoas com deficiência na vida em sociedade. “É um dever de todos nós, mas, principalmente, do STJ, que ousa usar o codinome de Tribunal da Cidadania”, afirma a magistrada.

De acordo com o secretário de Tecnologia da Informação e Comunicação do STJ, Rodrigo Carvalho, os softwares de OCR (em português, Reconhecedores Óticos de Caracteres) são capazes de transformar uma imagem de texto em texto digital, permitindo que aplicativos leitores de tela transmitam o conteúdo digitalizado em voz sintetizada. “Sem o programa, seria muito difícil, para quem vive essa situação, ler o que está em uma imagem. Desde 2009, o STJ se preocupa com esse procedimento. Hoje, 100% das peças do tribunal estão adaptadas ao OCR”, afirmou.

Leia a matéria completa publicada pelo Consultor Jurídico

Projeto de acessibilidade de livros ganha adeptos

O clube de leitura irá reunir obras brasileiras infantis e juvenis, a ficarem disponíveis na plataforma da ONU, que já conta com livros de outros países e idiomas

Texto por Estadão Conteúdo

Instituições brasileiras do livro e do mercado editorial se uniram à ONU para criar o projeto Clube de Leitura em língua portuguesa, com temáticas ligadas aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da instituição global. A iniciativa é da Câmara Brasileira do Livro (CBL), da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) (sessão brasileira da iBBY, Conselho Internacional sobre Literatura para Jovens) e a Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários, Cientistas da Informação e Instituições (FEBAB).

O clube irá reunir obras brasileiras infantis e juvenis, a ficarem disponíveis na plataforma da ONU, que já conta com livros de outros países e idiomas.

A CBL trabalha agora para lançar uma plataforma onde será possível inscrever as obras brasileiras e a FNLIJ será a responsável pela seleção dos títulos.

Segundo as entidades, essa é uma oportunidade de fazer com que esses livros se tornem referências bibliográficas em escolas públicas e particulares, com a chancela da ONU. O lançamento deste Clube de Leitura em Língua Portuguesa acontecerá na Feira do Livro de Bolonha em 2021, programada para abril.

Leia a matéria completa publicada pelo Correio

Ministério da Justiça apoia pesquisa sobre acessibilidade jurídica a deficientes visuais

Com a finalidade de garantir o pleno acesso à justiça e à cidadania e buscar um ambiente de atuação laboral inclusivo aos estudantes de direito e profissionais da área jurídica com deficiência visual, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), por intermédio da Secretaria Nacional de Justiça (Senajus), e o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), por intermédio da Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (SNDPD), apoiam pesquisa da Rede de Acessibilidade Jurídica.

O objetivo é levantar as dificuldades enfrentadas por essas pessoas na utilização das diversas plataformas jurídicas do país e levar possíveis soluções de acessibilidade.

A pesquisa pretende colher as respostas e contribuições de estudantes de direito, bacharéis, servidores públicos, advogados e, ainda, de acadêmicos, pesquisadores ou profissionais de outras áreas que também necessitam utilizar as plataformas, desde que sejam pessoas com deficiência visual.

O acesso à justiça digital foi elencado como o quarto eixo de atuação da gestão do novo presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Luiz Fux.

Leia a matéria completa publicada pelo Consultor Jurídico

Livro infantil com temática LGBTQ+ gera polêmica educacional em Taiwan

Por Beh Lih Yi

(Thomson Reuters Foundation) – Um livro infantil de tema LGBTQ+ sobre dois príncipes que se apaixonam e se casam gerou protestos de pais em Taiwan, depois de ter sido adicionado a um programa de leitura apoiado pelo governo.

“King & King”, publicado originalmente em holandês, conta a história de um jovem príncipe que foi pressionado por sua mãe a se casar com uma princesa, mas depois se apaixonou por outro príncipe.

A versão chinesa do livro foi adicionada a uma lista de livros que o governo distribuiu para estudantes de seis e sete anos neste mês em Taiwan, que, no ano passado, se tornou o primeiro lugar na Ásia a permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

O programa de leitura faz parte de uma atividade extracurricular que visa fomentar o amor pela leitura e não é obrigatório nas escolas. Apesar disso, a medida gerou protestos do lado de fora do Ministério da Educação nesta semana.

Leia a matéria completa publicado pelo Extra

A literatura pode reverter a desvalorização do olhar das mulheres negras no Brasil

A afirmação é de Winnie Bueno, que está com um novo projeto que leva a leitura de escritoras negras às periferias

Texto por Fabiana Reinholz

Desde muito pequena sempre tive os livros como meus amigos e como espaço de refúgio – Marília Dias

O hábito de leitura no país, apesar de ter avançado, ainda está aquém do ideal. Segundo a quarta edição do estudo Retratos da Leitura no Brasil, publicada pelo Instituto Pró-Livro em 2016, desenvolvida a cada quatro anos, o número de pessoas consideradas leitoras saltou de 88,2 milhões em 2011 para 104,7 milhões em 2015. Contudo 44% da população brasileira está enquadrada como “não leitores”. As mulheres continuam lendo mais do que os homens: 59% são leitoras, enquanto 52% são leitores.

“Livro é um bem caro, infelizmente, e o controle de acesso ao conhecimento é uma ferramenta de manutenção de poder. Não é, sem razão que querem taxar os livros ainda mais”, afirma a  doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande Do Sul (UFRGS), Winnie Bueno.

Os livros, no país, estão livres de isenção desde 1946, quando o escritor Jorge Amado, então deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), conseguiu que fosse incluída na Constituição daquele ano a isenção de impostos para o papel utilizado na impressão de livros, jornais e revistas. A proposta tinha como objetivo permitir que o livro e a imprensa pudessem chegar às camadas mais amplas da população, em um país marcado intensamente pelo analfabetismo. O legado de Jorge Amado sobreviveu à época da ditadura, sendo consolidado na Constituição de 1988, em seu artigo 150, que determina que é vedada à União, aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios criarem impostos de qualquer natureza sobre o livro e a imprensa escrita.

Agora, o governo de Jair Bolsonaro (sem partido), impulsionado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, que chegou a afirmar que livro é coisa da elite, pretende, através de uma reforma tributária, taxar os livros em 12%. Diversas associações do setor como a Associação Brasileira de Difusão do Livro (ABDL), a Associação Nacional das Livrarias (ANL) e a Câmara Brasileira do Livro (CBL), lançaram o Manifesto em Defesa do Livro.

Com objetivo de reverter essa lógica e de democratizar o acesso de pessoas negras à literatura, Winnie criou o Tinder dos livros, em 2019, transformando-se no Winnieteca. Recentemente, a iyalorixá e mestra em Direito pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, com pesquisa dedicada ao pensamento de Patricia Hill Collins, lançou o projeto Lendo Mulheres Negras nas Comunidades. Esse visa equipar cinco bibliotecas comunitárias com 40 obras sobre mulheres negras. O financiamento coletivo pode ser acessado aqui.

Em entrevista ao Brasil de Fato RS, Winnie fala dos seus projetos, da importância da escrita feita por mulheres negras e da proposta de se taxar livros em 12%. “Numa sociedade estruturalmente racista, onde ferramentas ideológicas são articuladas para cercear a subjetividade dessas mulheres, a escrita é um importante instrumento de autodefinição”, afirma. Para ela, a proposta de taxação é um ataque à educação, extremamente elitista e representa um projeto de manutenção do poder. “Como eles não podem mais queimar os livros, visam tornar os mesmos inacessíveis. É um retrocesso”.

Veja abaixo a entrevista completa

Brasil de Fato RS – Poderia começar nos contando um pouco da tua trajetória e teu encontro com a literatura?

Winnie Bueno – Eu sempre li. Desde muito pequena sempre tive os livros como meus amigos e como espaço de refúgio. Os livros me davam a oportunidade de acolhimentos que eu não encontrava na escola, por exemplo. Fui uma adolescente rata de biblioteca e minha mãe e minha vó me davam livros de presente sempre. Minha vó lê muito, e eu sempre vi minha vó lendo, é um hábito construído pelo afeto entre as mulheres da minha família. Minha vó, minha mãe, minhas primas.

BdFRS – Ao falarmos de literatura, como tu avalias a literatura feita por mulheres, em especial, mulheres negras no país? A importância dessa literatura? E o que ainda precisamos evoluir?

Winnie – A escrita para mulheres, sobretudo para mulheres negras, é uma ferramenta importante de autodefinição. A escrita de mulheres negras fez possível que essas mulheres escrevessem em voz própria suas narrativas e trajetórias. Numa sociedade estruturalmente racista, onde ferramentas ideológicas são articuladas pra cercear a subjetividade dessas mulheres, a escrita é um importante instrumento de autodefinição. Isso está mobilizado na escrita de Carolina de Jesus, de Conceição Evaristo, de Jarid Arraes, todas elas encontraram na escrita formas de falar sobre mulheres de maneira complexa, viva, sincera e não estereotipada.

O que precisa evoluir é o incentivo para a publicação de obras de mulheres negras e a circulação dessas obras. Os livros de mulheres negras precisam ocupar as prateleiras de destaque nas livrarias, precisam estar acessível a outras mulheres negras, precisam circular mais e com mais destaque.

“Os livros de mulheres negras precisam ocupar as prateleiras de destaque nas livrarias, precisam estar acessível a outras mulheres negras, precisam circular mais e com mais destaque” / Fabiana Reinholz

BdFRS – Pensando em formas de democratização da leitura de mulheres negras, gostaria que tu nos contasse sobre o projeto Winnieteca, lançado ano passado. Qual a trajetória e história dele até o momento?

Winnie – A Winnieteca é uma forma de possibilitar acesso aos livros para quem não tem como acessar. Livro é um bem caro, infelizmente, e o controle de acesso ao conhecimento é uma ferramenta de manutenção de poder. Não é sem razão que querem taxar os livros ainda mais. A Winnieteca é uma possibilidade de reverter essa lógica, é pra isso que ela foi criada, para que as pessoas negras possam acessar os livros que elas precisam e contornar as barreiras do racismo nesse acesso. A gente tem conseguido acessar muitas pessoas, mas ainda falta. Falta gente que entenda a importância de dar um livro que uma pessoa precisa, para quem precisa.

BdFRS – E também gostaria que falasse sobre o novo projeto Lendo Mulheres Negras Nas Comunidades.

Winnie – O Lendo Mulheres Negras nas Comunidades é um financiamento coletivo que visa equipar cinco bibliotecas comunitárias nas cinco regiões do país com uma seleção de livros sobre mulheres negras. Eu fiz a curadoria desses livros, mobilizando tanto autoras da literatura, quanto livros de teoria feminista e compreendidos importantes sobre mulheres negras. Serve para colocar esses livros nas periferias, acessíveis à comunidade negra. Do que vale traduzir a Patricia Hill Collins se as pessoas para quem ela escreveu os livros não puderem acessar esses livros?

BdFRS – Qual o papel da leitura no combate ao racismo e às demais formas de manifestação de ódio e preconceito?

Winnie – Conhecimento é uma das poucas coisas que ninguém pode te tirar. Ler livros de mulheres negras é uma forma de compreender a sociedade a partir do olhar dessas mulheres. O olhar de mulheres negras sobre a sociedade brasileira é totalmente desvalorizado nesse país, a leitura pode reverter esse cenário.

BdFRS – Paira agora uma nova ameaça quando falamos de leitura, a taxação de livros. Como tu vê essa proposta e impactos que ela pode trazer?

Winnie – Essa proposta é um ataque à educação, é extremamente elitista e representa um projeto de manutenção do poder. Como eles não podem mais queimar os livros, visam tornar os mesmos inacessíveis. É um retrocesso.

BdFRS – Tu és uma grande estudiosa das obras da socióloga Patricia Hill Collins. Gostaria que nos falasse da sua importância para o ativismo e para o pensamento feminista negro. E que avaliação tu fazes do movimento feminista negro no país?

Winnie – Foi o ativismo político e intelectual de mulheres negras que desmantelou o mito da democracia racial. Foram ativistas como Sueli Carneiro, Jurema Werneck, Maria Conceição Fontoura, Nilma Bentes, Nilma Lino Gomes que construíram e tocaram as principais lutas por justiça social nesse país. O movimento de mulheres negras brasileiro é um dos mais potentes projetos de justiça social da história. E continua sendo.

São mulheres que pensam outro pressuposto civilizatório a partir da pluralidade, da heterogeneidade, isso é profundamente democrático e transformador.

Projeto Lendo Mulheres Negras nas Comunidades pretende equipar cinco bibliotecas comunitárias com 40 obras sobre mulheres negras / Divulgação

Fonte: Brasil de Fato Rio Grande do Sul

Sistemas prisional e socioeducativo de Minas recebem doações de 2 mil livros

Texto por Sérgio Gonçalves

Bibliotecas de unidades prisionais e socioeducativas estão recebendo um reforço nos seus acervos. A iniciativa está sendo possível com doações de pessoas que acreditam na capacidade da leitura em transformar tanto a vida de adolescentes, quanto a de homens e mulheres presos em alguma das 194 unidades administradas pela Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp).

O Departamento Penitenciário de Minas Gerais (Depen-MG) recebeu cerca de 1,5 mil livros, arrecadados em uma campanha promovida em redes sociais pela jornalista e escritora Paula Emmanuella Fernandes. Ela criou o projeto Biblioteca Solidária, que tem como objetivo conseguir obras, especialmente literárias, para instituições como hospitais, casa de recuperação de dependentes químicos e presídios. “Acredito no poder dos livros em tocar as pessoas, abrir os horizontes e trazer novos sentidos para a vida”, afirma.

Clássicos de autores da literatura nacional e internacional, como Machado de Assis, Cecília Meireles, Graciliano Ramos, Gustave Flaubert e Dostoiévski, estão chegando às mãos de detentos e detentas, de unidades prisionais espalhadas pelas mais diversas regiões de Minas Gerais: Sul, Central Jequitinhonha, Zona da Mata, dentre outras.

Leia a matéria completa em Portal Onda Sul

Livros para ler, ouvir, ver e tocar

Dois projetos gratuuitos têm muitas opções com recursos de acessibilidade. ‘Literatura Acessível’, do Instituto Incluir, leva contações de histórias online para crianças, com títulos próprios como ‘Melhor amigo da Bengala’, ‘A princesa que tinha um cromossomo a mais’, ‘O menino que escrevia com os pés’ e ‘A menina que perdeu a perna’. E a Secretaria da Pessoa com Deficiência de SP acaba de inaugurar uma biblioteca com clássicos da literatura mundial que têm audiodescrição, legendas, interpretações em Libras e leitura simples. Obras como ‘Peter Pan’, ‘Volta ao Mundo em 80 dias’, ‘O Menino do Espelho’ e ‘O Menino Azul’ ja estão no catálogo.

Texto por Luiz Alexandre Souza Ventura

Descrição da imagem #pracegover: Cópia da tela da versão acessível do livro ‘Volta ao Mundo em 80 Dias’, de Júlio Verne, que tem a capa original do livro do lado esquerdo, com título em francês, e uma intérprete de Libras do lado direito. Crédito: Reprodução.

Dois projetos que compartilham literatura com acessibilidade gratuitamente estão disponíveis e têm muitos títulos. São iniciativas ue promovem inclusão, reforçam o hábito da leitura e ampliam o conhecimento.

‘Literatura Acessível’, do Instituto Incluir, apresenta uma série de livros para sensibilizar crianças e escolas sobre a importância da inclusão e da acessibilidade (clique aqui para conhecer). Além de publicar os ebooks ‘Melhor amigo da Bengala’, ‘A princesa que tinha um cormossomo a mais’ e ‘O menino que escrevia com os pés’ com versões em Libras, braile, audiodescrição, pictograma em português e alemão, o projeto compartilha a contação de histórias online, com a atriz Bia Mussi e o escritor Marcos Lima, autor de ‘Histórias de Cego’.

As contações têm legendagem e audiodescrição. “É uma forma de gerar um conteúdo virtual similar aos encontros presencias”, diz Carina Alves, diretora do Instituto Incluir e autora dos quatro livros, dois com participação de Mari Meira, e um, em parceria com Elyse Mattos, fundadora do Instituto Ico Project, voltado à causa do autismo. São obras de ficção, disponíveis em versões físicas e em ebooks em multiformato – Libras, braille, audiodescrição e pictograma – e multilinguismo – português e alemão.

Leia a matéria completa publicada pelo site Estadão.

Ler ouvindo: audiolivro oferece praticidade

Formato se mostra como opção para impulsionar leituras

Texto por Germana Macambira

Michell Platini, diretor da Associação Pernambucana de Cegos – Foto: Michell Platini/Divulgação

Bentinho e Capitu, Rubião e Quincas Borba e Brás Cubas e todas as histórias que rodeiam a respectiva trilogia machadiana “Dom Casmurro”, “Quincas Borba” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, literalmente chegaram aos ouvidos do diretor da Associação Pernambucana de Cegos, Michell Platini, nos idos anos em que prestou vestibular.

“Eu não encontrava livros em Braile nem ampliados, com letras maiores”, explica ele que, à época, tinha baixa visão e precisava de conteúdos de literatura para ser aprovado e ingressar em uma universidade.

A partir de então, apresentado que foi a narrativas em audiolivro, não se afastou mais do formato que vem ganhando adeptos, em paralelo ao mercado tradicional de leituras e aos e-books, seja pela praticidade (liberdade) de degustar romances, ficção, biografias, poesias e tantos outros, onde quer que se esteja, seja pelo acompanhar vivências de personagens trocando o correr dos olhos nas páginas pelo abrir dos ouvidos.

“A questão da narração é essencial para se apegar (ou não) a um audiobook. Um livro sem ritmo de leitura, sem pontos e vírgulas, é ruim, tira o estímulo”, complementa Michell, que cita o escritor pernambucano Valdir de Oliveira, autor de “Fábulas da Gente (2018), publicado também no formato de audiolivro com contexto de contos e fábulas contadas em tom lúdico e  por diversas vozes.

Leia a matéria completa publicada pelo site Folha de Pernambuco.

Governo de São Paulo disponibiliza livros em diversos formatos acessíveis

Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência é a responsável pela iniciativa

A iniciativa conta com 13 obras literárias em libras, legenda, áudio, imagem e leitura simples; a história “Peter Pan” é uma delas

Texto por Redação

Para possibilitar o acesso de pessoas com deficiência ao mundo da literatura, a Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência (SEDPcD), em parceria com o Centro de Tecnologia e Inovação (CTI) e a ONG Mais Diferenças, está disponibilizando livros em formatos acessíveis para pessoas que sofrem com alguma deficiência. No total, são 13 obras literárias disponíveis em diferentes formatos: libras, legenda, áudio, imagem e leitura simples. Uma delas é a história de “Peter Pan”.

A iniciativa garante o acesso de todas as pessoas aos livros acessíveis, que possuem diversos recursos de acessibilidade, como narração e texto em português, audiodescrição e animação das imagens, tradução e interpretação em Libras e leitura fácil – que traz adequações em relação à linguagem, conteúdo e forma para ampliar a compreensão.

Segundo a secretária estadual do SEDPcD, Célia Leão, além de importante, uma ação como esta garante que todos que desejam ler tenham acesso à leitura. “É possível viajar por meio da leitura, conhecer um mundo novo, novas descobertas. Além de mais conhecimento e cultura, a boa leitura, dá asas à imaginação. Leitura é liberdade. Quando falamos em leitura acessível, garantimos que todos que queiram ler, leiam! Esse é mais um atendimento com respeito que o Governo de SP disponibiliza”, disse.

Leia a matéria completa publicada no site Revide.

Autores indígenas refletem sobre literatura

Texto por Estadão Conteúdo

Essa é uma história nova e, ao mesmo tempo, muito antiga. Nova porque começou a ser escrita, literalmente, há cerca de 30 anos, depois da Constituição de 1988, depois do início das políticas públicas para a alfabetização dos povos indígenas e da promulgação da Lei n.º 11.645, que, em 2008, incluiu a temática História e Cultura Afro-brasileira e Indígena no currículo das escolas, abrindo caminho para a publicação de obras literárias. E antiga porque é milenar, remete a conhecimentos e tradições de muito antes de Cabral e foi passada oralmente de geração em geração.

Uma história que começou a ser contada em livro por nomes como Eliane Potiguara, Kaká Werá e Daniel Munduruku, e que hoje encontra novas vozes, linguagens e temas – sempre com o mesmo respeito pela ancestralidade e pela terra.

Julie Dorrico tem 30 anos. Mora em Porto Velho, é macuxi, escritora, poeta e faz doutorado em literatura indígena na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande de Sul. Pelas suas contas, existem hoje, no Brasil, 57 autores indígenas. Ainda é pouco, mas é um começo – e Julie ajuda a divulgar o trabalho deles em seu canal no YouTube, o Literatura Indígena Brasileira.

Se antes o espaço era ocupado pelos autores de livros para crianças – e Julie diz que essa foi uma estratégia dos próprios escritores que, ao iniciar o diálogo com a sociedade dominante, optaram por começar a falar com educadores e crianças -, hoje vemos pensadores como Ailton Krenak e Davi Kopenawa despertando o interesse do grande público.

Leia a matéria completa publicada pelo site ISTOÉ.

Papel social: ler mulheres na literatura brasileira

No Brasil também temos uma porção de autores que nós precisamos valorizar, em especial mulheres brasileiras cuja contribuição é indispensável para o alcance de uma sociedade mais justa

Texto por Da Reportagem

É preciso reformular a ideia do escritor inacessível, ou apenas remeter ao clássicos
Foto: Pexels

Franz Kafka já disse que a “literatura é sempre uma expedição à verdade”, e qual é a nossa verdade quanto sociedade? Se as notícias de jornais nos trazem a informação com tempo de validade contado, na literatura a informação se junta a uma outra, transforma-se em ideia e então, já em narrativa, dura, persiste e finalmente aguça o senso crítico e nos faz pensar sobre as coisas que afetam nossas vidas.

Best-sellers internacionais enchem prateleiras de livrarias, o que é justo, já que leitura sempre será bem-vinda. Mas no Brasil também temos uma porção de autores que nós precisamos valorizar, em especial mulheres brasileiras cuja contribuição é indispensável para o alcance de uma sociedade mais justa.

A literatura brasileira contemporânea – e feminina – como papel social

É preciso reformular a ideia do escritor inacessível, ou apenas remeter ao clássicos. Todo o respeito à Machado de Assis ou Castro Alves, mas a literatura brasileira está viva e tem muito conteúdo bom que infelizmente é pouco divulgado, principalmente de escritoras mulheres. Elas são mães, pesquisadoras, mulheres negras, homossexuais, moradoras de periferia, etc. Ler o que essas mulheres têm a dizer é um aprendizado necessário como indivíduo e cidadão, além de ceder-lhes espaço para discutir questões sociais, de gênero e raciais que são mais dominadas por homens ou por uma elite.

Leia a matéria completa publicada pelo site Diário do Litoral.

Documentos de movimentos negros desmistificam a ideia de subalternidade e passividade

Fernanda dos Anjos Casagrande descreve em sua pesquisa como os acervos de documentos do movimento negro, em São Paulo, foram importantes para desconstruir ideias que predominam no senso comum, de que a população negra aceitou a opressão e a desigualdade passivamente

Texto por Antonio Carlos Quinto

Na entrevista desta quinta-feira (20) nos Novos Cientistas, a historiadora Fernanda dos Anjos Casagrande descreveu sobre a sua pesquisa de mestrado, desenvolvida na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, intitulada Acervos do movimento negro na cidade de São Paulo: um olhar para os registros da luta negra.

Com orientação do professor Ivan Siqueira, Fernanda analisou documentos referentes à luta negra do período de 1904 a 1969 na cidade de São Paulo. O objetivo foi discutir a guarda e preservação de documentos a partir de especificidades da tipologia documental preservadas em instituições de custódia. Além da preservação dos acervos, a pesquisadora também teve a preocupação de contar a história desses acervos e como eles foram parar em algumas instituições. “Esse trajeto ajuda a contar outra história do movimento negro e a refletir sobre como se deu a construção de um discurso estereotipado de subalternidade e passividade. A história desses acervos ajudam a desconstruir essa ideia”, descreveu a pesquisadora.

Fernanda analisou três coleções de documentos: a coleção Jornais Negros Brasileiros – 1904-1969, pertencente ao Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP; a coleção Imprensa Negra, presente no Arquivo Público do Estado de São Paulo; e o Fundo Clóvis Moura, sob a guarda do Centro de Documentação e Memória da Universidade Estadual Paulista – Cedem/Unesp. Com as análises, Fernanda traçou uma abordagem descritiva e crítica que pretende delinear o panorama das condições de acesso a documentos do movimento negro e perfazer a mediação aos acervos analisando, de um lado, a constituição de fundos e coleções, e de outro, as políticas vigentes de guarda, preservação e acesso.

Fonte: Jornal da USP

Live “Livro acessível como ferramenta de inclusão”

A Biblioteca de Ciências Humanas da Universidade Federal do Ceará e o Plurissaberes convidam todas e todos para mais uma live no canal Plurissaberes BCH UFH:

‘LIVRO ACESSÍVEL COMO FERRAMENTA DE INCLUSÃO’

é o tema a ser abordado pelos professores Lindolfo Jr. (UECE) e Katyuscia Silva (UFRN)

Mediação: Joana Páscoa

Audiodescrição: Stefanie Viana

A audiodescrição será feita no YourStream. O link será disponibilizado na hora live.

***Emitiremos declaração de participação. ***

Roger lança projeto para publicar 50 livros de autores negros e indígenas

Roger Machado durante entrevista no novo CT do Bahia, em Salvador
Imagem: Darío Guimarães Neto/UOL

Texto por Demétrio Vecchioli

Uma das principais vozes do movimento negro no futebol brasileiro, o técnico do Bahia, Roger Machado, quer promover a negritude e a luta antirracista para muito além do esporte. O treinador é o mecenas de um projeto que pretende lançar 50 livros de autores negros e indígenas nos próximos cinco anos e, quem sabe, se tornar uma editora no futuro. Já em 2020 serão publicados 10 livros da coleção Diálogos da Diáspora que, graças ao financiamento do Projeto Canela Preta, de Roger, chegarão ao mercado com preço acessível para a parcela mais carente da população, formada em sua maioria por negros.

“Quando minhas filhas eram pequenas, eu procurava livros para elas, de literatura infanto-juvenil, com autores e personagens negros, e tinha dificuldade e encontrar. Essa inquietação cresceu quando li o livro da Chimamanda Adichie que fala do perigo da história única, como é prejudicial o país quando a história é contata só por um lado, o lado que detém os meios da produção do conhecimento”, conta Roger.

Essa inquietação também é presente na academia. “Menos 10% dos livros publicados no Brasil são de autores não brancos e isso é um reflexo da exclusão no espaço acadêmico. Com a chegada de mais negros à universidade, fruto das cotas socioraciais, a gente está tendo maior produção sobre racismo, lutas contra desigualdade social, e a gente entendeu que era importante ter um fomento de produção editorial desse espaço”, conta Tadeu de Paula, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e um dos coordenadores do Grupo de Pesquisa Egbé.

Os dois se encontram como pais com filhos numa mesma escola gaúcha. Ele disse: ‘Que tal a gente pensar conjuntamente?’ E eu disse que era isso que eu tava procurando fazer. Eu não conseguia achar o fio por onde começar, mas é isso que eu quero. E daí surgiu a ideia de nos próximos cinco anos eu fazer o financiamento de 10 publicações por ano de autores não brancos.”

Leia a matéria completa publicada no site UOL.

Nova Museologia cria memoriais antirracistas no Brasil e no mundo

Estátua de Cristóvão Colombo é removida de parque em Chicago
Imagem: KAMIL KRZACZYNSKI/REUTERS

Texto por Marcos Ferreira dos Santos – Colaboração para o TAB

O ano de 2020 será lembrado, entre outras reviravoltas históricas, pela ação espontânea da pessoas — muitas delas, jovens e brancas — derrubando a estátua do traficante de escravizados Edward Colston (1636-1721) em Bristol, na Inglaterra, no mês de junho. Parte da onda mundial de protestos antirracistas provocada pela morte de George Floyd, o monumento lançado ao mar gerou muitas polêmicas. Dentre elas, a discussão se o ato seria legítimo ou excessivo, e de, em se agindo diferente, qual seria a proposta.

Para Mário Chagas, diretor do Museu da República no Rio de Janeiro, “a guerra de imagens faz parte da História da Humanidade”, e derrubar a estátua seria natural. Já para a historiadora Lilia Schwarcz, professora da USP (Universidade de São Paulo), a destruição deve se dar só como última opção. “Algumas memórias precisam ser preservadas, mesmo que criticamente”, diz ao TAB.

Chagas, que é poeta, lembra que nenhum patrimônio se preserva sem uma relação de amor e afeto. Schwarcz, que é escritora, aponta para o sentido de “estar afetado” da palavra afeto. “Se a população já está afetada por alguns monumentos fortes, no coração das cidades, a posição deve ser de, às vezes, deslocá-los. Colocá-los em museus e, quando isto não é possível, antes de chegar na última opção, fazer sim intervenções críticas”.

Voltaremos às intervenções críticas. Por ora, é importante ressaltar um consenso entre os especialistas. “Precisamos erguer muitos monumentos do povo preto: para João Cândido, André Rebouças, Luiz Gama, Abdias do Nascimento, para as mulheres, todos; para os povos originários”, propõe Chagas. “Precisamos sim de monumentos para negros, mulheres, indígenas e população LGBTQ+”, completa Schwarcz.

Leia a matéria completa no site da UOL.

Escritoras negras aliam poder da literatura à denúncia das desigualdades e opressões

Inspiradas na realidade das periferias e sertões nordestinos, elas misturam aspectos da vida pessoal e questões sociais

Texto por Lucila Bezerra

Luna começou a viver a poesia nas ruas através do projeto Agentes da Palavra – Divulgação

No último dia 25 de Julho foram comemorados o Dia da Mulher Negra Latinoamericana e Caribenha e também o Dia do Escritor. Em todo o Brasil, diversas mulheres negras se utilizam da escrita para contar as suas histórias e para lutar contra as opressões impostas pelo racismo, pelo machismo e pelo patriarcado, a exemplo de Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Maria Firmina dos Reis, com obras reconhecidas nacional e internacionalmente. Elas utilizam o poder da palavra e dos versos como ferramenta de denúncia e transformação social.

“Se a gente for olhar na nossa literatura, por vezes as mulheres negras são citadas e tratadas com estereótipos, mas não há uma valorização das histórias contadas por essas próprias mulheres”, afirmou a baiana Jamile Araújo, que é física, comunicadora popular e escritora.

Jamile é umas das autoras do livro “De Bala em Prosa”, que reúne textos de diversos autores que falam sobre as expressões do racismo no Brasil. O nome do livro faz uma referência a a morte do músico Evaldo Rosa e do catador de materiais recicláveis Luciano Macedo causada por 80 tiros disparados por policiais militares do Rio de Janeiro em abril de 2019.

Jamile exemplifica que algumas trajetórias demoram a ser reconhecidas “A gente tem como exemplo é a própria Carolina Maria de Jesus, que era catadora de material reciclável, e escrevia nos seus diários a partir das angústias que ela sentia, da fome, do peso de ser mãe solteira que precisava sustentar dos seus filhos, de ser mãe solteira e pobre, e a partir disso foi a forma dela falar das suas angústias. O livro foi traduzido, ficou famoso, mas essa forma de escrita ainda não é valorizada”.

Apesar de sempre ter utilizado da escrita como uma forma de expressar as suas emoções, Jamile se dedicou à formação superior em física antes de se tornar escritora, mas depois foi voltando a sentir necessidade de utilizar a palavra como forma de se expressar após se deparar com diversas formas de opressão e preconceitos. “Com o período da formação em física isso ficou meio adormecido, mas, a partir do momento que eu ingressei nos movimentos sociais, isso meio que voltou à tona, sobretudo quando eu tenho um contato com a leitura de mundo,  entender o que é o racismo, o que é o machismo, o que é o patriarcado, a exploração dos trabalhadores”, disse Jamile, “Isso trouxe a angústia, mas também me fez ter vontade de voltar a escrever e me expressar”.

Para a poetisa recifense Luna Vitrolira isso não foi diferente. Ela começou a viver a poesia nas ruas através de um projeto chamado Agentes da Palavra, onde viajava pelos sertões e pelas periferias para levar seus versos. “O agente de saúde ele vai de de casa em casa para verificar água, para dar uma informação, a gente ia para dizer poesia”, relembra.

Ela aponta que sempre teve na escrita um instrumento de autocuidado através dos diários e, com o passar do tempo descobriu na palavra o papel de dar voz àqueles que são oprimidos. “Quando eu começo na literatura, infelizmente eu não começo com essa consciência desse papel tanto artístico, quanto político, quanto poético-literário. Mas intuitivamente eu sempre tive a poesia como guiança, então eu vou pra rua com um posicionamento político, mesmo que esse posicionamento não estivesse no meu discurso, estava na minha prática”, afirmou a poetisa.

A literatura tem o papel de fazer as escritoras encontrarem a própria voz dentro do lugar onde vivem, sendo utilizada como instrumento de denúncia e uma forma de se chamar atenção. “A minha poesia começa no sertão, então quando eu começo a declamar no sertão para pessoas sertanejas, isso tem um lugar de identificação também. Então isso respaldava e fundamentava tudo o que eu comunicava para as pessoas”, disse.

Luna também percebe em sua poesia uma função social “Então, para mim, a minha poesia sempre esteve nesse lugar político, sempre foi uma ferramenta de transformação social, de conscientização, de humanização. Hoje a minha poesia fala da minha voz, da minha vida, do meu lugar de fala, do lugar de onde eu vejo o mundo. Então passa pelo lugar de ser uma mulher negra, uma mulher negra, gorda, nordestina e sertaneja”.

Fonte: Brasil de Fato – Pernambuco

Breve história da literatura indígena contemporânea: pioneiros

Eliane Potiguara aos 27 anos Imagem: Instagram/Eliane Potiguara

Texto por Fred Di Giacomo

Quando a jovem Eliane Potiguara, indígena e periférica, começou a publicar poemas, crônicas e jornalismo independente, no final da década de 1970, o que viria a ser chamado de “literatura indígena” ainda não sonhava em existir – era literalmente tudo mato.

Contemporânea dos poetas marginais da “geração mimeógrafo”, Eliane publicava “poemas-pôster” e cartilhas mimeografadas com suas criações artísticas desde 1979. Um ano depois, sairia o primeiro livro publicado por autores indígenas oficialmente: “Antes o mundo não existia” (Livraria Cultura Editora), de Umúsin Panlõn Kumu e Tolamãn Kenhíri, membros do povo Desana.

De 1980 até 1996, o acesso dos escritores indígenas ao mercado literário foi difícil. A produção da “literatura nativa”, como prefere o escritor guarani Olivio Jekupé, era viabilizada de maneira guerrilheira. Em 1996 a publicação de “Histórias de Índio” (Companhia das Letrinhas), de Daniel Munduruku, deu início a um boom do que se chamou “literatura indígena”, transformada pelas grandes editoras em um nicho de livros infanto-juvenis. Foi nessas décadas que floresceu o que a escritora e acadêmica Graça Graúna chama de “literatura indígena contemporânea” (livros com autoria individual e elementos da literatura ocidental que se diferenciavam dos mitos orais da “literatura indígena clássica”).

Para contar a história destes pioneiros, homenageio o clássico “Mate-me por favor” composto por entrevistas dos artistas fundadores do punk, sem intervenções do narrador. Me parece fazer sentido em uma literatura que começou oral e debate, com atenção, as questões referentes ao lugar de fala. Aqui, troquei algumas ideias com Eliane Potiguara, 70, Olivio Jekupé, 54, Aílton Krenak, 66, e Daniel Munduruku, 56. Seria interessante ter falado também com Kaka Werá, Graça Graúna, Daniel Cabixi, Umúsin Panlõn Kumu e Tolamãn Kenhíri, mas essa fica para o volume dois dessa breve história.

Acesse a matéria completa publicada pelo ECOA por um mundo melhor e conheça mais sobre a literatura indígena.

Diretório Brasileiro de Bibliotecas Acessíveis

O GT Acessibilidade (GT-Acess), da Federação Brasileira das Associações de Bibliotecários (FEBAB), está organizando o Diretório Brasileiro de Bibliotecas Acessíveis de instituições públicas e privadas, municipais, estaduais ou federais.

Este Diretório visa oferecer informações e servir de fonte de referência sobre as bibliotecas brasileiras que disponibilizam: (a) acervos em formato acessível; (b) equipamentos de tecnologia assistiva; (c) produzem conteúdo acessível sob demanda; (d) capacitação para usuários com deficiência. 

Deste modo, se sua Biblioteca se encaixa em uma ou mais alternativas acima, por favor, participe do Diretório preenchendo as informações em: https://bit.ly/DiretórioAcessibilidade

Enviar as respostas até dia: ** 17 de setembro de 2020 **

Maiores informações: gtacess.febab@gmail.com

Obra de Carolina de Jesus será publicada pela Companhia das Letras

Projeto terá supervisão de Vera Eunice de Jesus, filha de Carolina, e da escritora Conceição Evaristo.

“Casa de Alvenaria” será o primeiro título do novo projeto. REPRODUÇÃO/COMPANHIA DAS LETRAS “

Texto por Amauri Terto

A Companhia das Letras anunciou nesta sexta-feira (17) que irá publicar a obra de Carolina de Jesus (1914-1977), uma das principais escritoras negras da literatura nacional. Nascida na cidade mineira de Sacramento, ela viveu a maior parte da vida em São Paulo, na favela do Canindé, em Santana, em Parelheiros.

Carolina trabalhou como catadora para sustentar os três filhos e registrou inúmeras histórias, além do cotidiano de fome e pobreza em cadernos encontrados no lixo. Na década de 1950 foram encontrados mais de 20 diários.

Ela ganhou reconhecimento com o livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada (1960), organizado pelo jornalista Audálio Dantas. Diversos de seus escritos, no entanto, nunca foram publicados ou estão fora de circulação.

A Companhia das Letras planeja publicar todo o material escrito por Carolina – hoje espalhado por diferentes acervos -, incluindo romances, diários, contos, poesias, peças de teatro e escritos memorialísticos.

Acesse a matéria publicada pelo Huffpost e entenda como será as publicações das obras de Carolina Maria de Jesus pela Companhia das Letras

Mulheres se mobilizam contra o machismo na literatura de cordel

Devido ao crescimento da iniciativa, a organização já articulou um ciclo de reuniões setoriais por Estado e outras atividades, tudo de forma a repudiar o preconceito na tradicional arte Foto: Saullo Alves

Texto por Diego Barbosa

Denominado Movimento das Mulheres Cordelistas contra o Machismo, grupo conta com apoio de mais de 70 coletivos de todo o Brasil, página nas redes sociais e cronograma de ações

Recentemente, no dia 27 de junho, a cordelista sergipana Izabel Nascimento ministrou a primeira palestra do III Encontro de Cordelistas da Paraíba, um evento virtual. Na ocasião, ao tratar do tema “O cordel como ferramenta de transformação social”, a artista fez um recorte histórico para denunciar o traço forte do machismo que também ocorre nesse gênero literário. A intenção era vislumbrar mudanças numa poesia que ainda não reconhece, não valoriza nem sequer respeita o papel e o protagonismo da mulher cordelista.

Conforme Izabel, durante o momento formativo já era possível perceber resistência à temática em algumas intervenções feitas por quem estava assistindo. Contudo, foi num grupo de WhatsApp e numa publicação no Facebook, na semana subsequente à palestra, que um grupo de poetas cordelistas resolveu polemizar o assunto, não apenas expondo e atacando virtualmente a artista, mas também julgando, questionando e agitando pautas hipotéticas sobre a vida, formação e atuação dela na seara do cordel.

“Essa não foi a primeira vez em que apresentei o tema numa palestra e isso sempre incomodou muitos homens, especialmente os que praticam atos machistas. É fato que não sou a primeira mulher a sofrer por conta desse problema. No entanto, foi a primeira vez também que um grupo de mulheres se reuniu e resolveu organizar um movimento de denúncia e enfrentamento ao machismo no cordel e de ação em defesa de todas as mulheres cordelistas”, conta.

Assim nasceu a campanha #cordelsemmachismo, atualmente formada por um grupo denominado Movimento das Mulheres Cordelistas contra o Machismo. No momento, são mais de 70 coletivos de diversos estados do Brasil aliados à causa, totalizando cerca de 1.500 mulheres unidas.

Acesse a matéria completa publicada pelo Diário do Nordeste e saiba mais sobre o Movimento das Mulheres Cordelistas contra o Machismo

Festival de literatura negra: curta cinco dias de programação online

Evento multicultural tem curadoria de Ketty Valencio, da Livraria Africanidades

Texto por Redação

Durante cinco dias, você tem a chance de conferir a programação online e super empoderada do primeiro “Fellin – Festival de Literatura Negra da Zona Norte de SP“. Organizado pela bibliotecária Ketty Valencio, responsável pela Livraria Africanidades, o evento tem debates plurais e inéditos – além de uma série de performances.

Crédito: Divulgação
Aryani Marciano é uma das atrações do Festival Literário de Literatura Negra da Zona Norte de São Paulo

As lives são transmitidas pelo YouTube do Fellin entre os dias 13 e 17 de julho. Estão programados cinco debates, uma oficina, uma contação de histórias e duas performances. Para não perder nada, acompanhe o Instagram do evento.

Tudo começa às 19h20 do dia 13, com a performance da atriz, artista e pesquisadora de danças de matrizes africanas Fernanda Dias. Ela é uma das fundadoras de Os Ciclomaticos Cia de Teatro e do Coletivo Negraacåo.

A primeira mesa às 20h. Esmeralda Ribeiro, Márcio Barbosa e Miriam Alves falam sobre os 42 anos de Cadernos Negros. A série organizada pelo Quilombhoje ajudou a impulsionar a produção literária afro-brasileira.

Acesse a matéria completa publicada pelo Catacra Livre e conheça a programação completa da “Fellin – Festival de Literatura Negra da Zona Norte de SP“

Fonte: Catraca Livre

Festival apresenta produção literária de autores negros de São Paulo

A partir da próxima segunda-feira (13) começa a primeira edição do Festival Literário de Literatura Negra da Zona Norte de São Paulo – Fellin. A idealizadora do projeto Ketty Valencio diz que a mostra busca “marcar território” nessa parte da capital paulista que, apesar de ter uma das maiores concentrações de pessoas negras, não tinha um festival cultural de peso, como os que acontecem na zonas sul e leste da cidade.

“É uma região onde moram bastante pessoa negras, tem a ver com essa questão da ancestralidade, dos quilombos”, explica Ketty sobre o histórico da região, onde existiram várias comunidades de negros que fugiram da escravidão. “Concentração de escolas de samba, que tem a ver como as pessoas que começaram a se organizar antes de mim e você. Tem vários saraus, tem jongos [dança afrobrasileira], festa de São Benedito [santo de origem africana], que tem a ver com essa relação com os quilombos”, contextualiza, ao exemplificar como esse passado foi determinante para a vida cultural dessa parte da cidade.

História e Afrofuturismo

A organizadora tentou trazer essa diversidade de manifestações culturais para o festival. A abertura vai tratar da publicação dos Cadernos Negros, antologias de poesia afrobrasileira que são publicadas periodicamente desde 1978 pelo grupo Quilombhoje. Na terça-feira, estará no palco virtual a artista multilinguagem Aryani Marciano, que fará uma contação de histórias.

Ketty destaca que a pandemia do novo coronavírus trouxe o desafio para os artistas de se apresentarem sem a proximidade direta com os espectadores. “Está sendo experimental, até para os convidados. Porque a gente quer o contato com o público, com o olhar, saber o que eles estão pensando”, diz.

Saiba mais sobre o Festival Literário de Literatura Negra da Zona Norte de São Paulo – Fellin na matéria publicada pelo UOL.

Bibliotecas do Senado e da Câmara destacam presença feminina em seus acervos digitais

Stella Vaz (no alto) e Judite Martins participaram do Parlabiblio, iniciativa das bibliotecas do Senado e da Câmara Fonte: Agência Senado

As bibliotecas do Senado e da Câmara promoveram na quarta-feira (1º) um debate sobre a produção feminina presente no acervo digital das duas Casas. O evento, que ocorreu por meio de uma “live” transmitida pela internet, faz parte do Parlabiblio, iniciativa das duas bibliotecas para apresentar seus serviços e acervos digitais, além de incentivar a leitura e a discussão de temas relevantes.

Participaram do encontro de quarta-feira as bibliotecárias Stella Vaz, do Senado, e Judite Martins, da Câmara. O encontro foi transmitido pelos perfis das duas bibliotecas no Instagram: @biblioteca.senado e @biblioteca.camara. Essas lives estão armazenadas no IGTV dos dois canais e podem ser vistas a qualquer momento.

Durante o debate, as duas profissionais fizeram uma análise histórica, com base nas obras apresentadas, sobre a produção feminina e a atuação das mulheres na conquista de direitos civis, políticos e sociais. Elas também discutiram a importância dessas escritoras, que, ressaltaram, foram responsáveis por conquistas como o direito das mulheres de votar e serem votadas.

Stella Vaz apresentou algumas das obras da coleção Escritoras do Brasil, com destaque para os livros Mármores, de Francisca Júlia da Silva; A Mulher Moderna, de Josefina Álvares; e Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta. Ela apresentou ainda estudos da Consultoria Legislativa do Senado e bibliografias sobre autoras negras e masculinidades. Todos esses títulos estão disponíveis na biblioteca digital do Senado.

O encontro, segundo Stella, trouxe conscientização sobre a trajetória histórica da pauta feminina na busca da conquista de direitos e sobre o quanto ainda falta conquistar.

Durante séculos as mulheres foram silenciadas, e hoje nós temos essa abertura para tentar resgatar a história delas, oferecendo essas obras em nossos acervos digitais. Mas ainda há um grande caminho a ser percorrido — disse Stella.

Judite Martins também mencionou alguma das obras disponíveis no acervo digital da Câmara, como os livros O Voto Feminino no Brasil e Bertha Lutz, ambos de autoria de Teresa Cristina de Novaes Marques. As obras integram a série Perfil Parlamentar (73), das Edições Câmara.

Para Judite, essas duas obras são de grande relevância, pois na primeira (O Voto Feminino no Brasil) a autora traça uma linha do tempo dos principais eventos que levaram à aquisição do direito da mulher de votar e ser votada. A outra (Bertha Lutz) traz a biografia, com a atuação parlamentar e a trajetória política, de uma das mais destacadas lideranças do movimento feminista na primeira metade do século XX.

Nossa atuação aqui não visa apenas condenar nem desprezar a produção masculina, mas dar destaque à produção feminina, fazendo uma análise histórica de como as mulheres adquiriram o direto de fala na sociedade. Trazer essa temática é uma forma de reduzir as desigualdades históricas. Hoje há muitas deputadas, senadoras e servidoras públicas, e estamos aqui para representar essa temática. Tem muita mulher produzindo no Parlamento e isso se reflete nas bibliotecas digitais — observou Judite.

Fonte: Agência Senado

LIVRO INFANTIL INÉDITO RESGATA MEMORÁVEIS HISTÓRIAS DA CULTURA DE POVOS AFRICANOS

Obra A África recontada para crianças, de Avani Souza Silva apresenta os contos e fábulas mais famosos de países que falam a língua portuguesa

Texto Victória Gearini

Imagem meramente ilustrativa – Divulgação / Pixabay

Lançado em abril deste ano, o livro A África recontada para crianças, da escritora Avani Souza Silva, constrói uma narrativa cultural com as histórias mais famosas contadas nos países africanos, onde a língua portuguesa é predominante.

Capa da obra A África recontada para crianças (2020) / Crédito: Divulgação / Martin Claret

A brilhante obra, publicada pela editora Martin Claret, tem como ilustradora das imagens Lila Cruz, que por meio de traços belos e caprichados explicita o discursivo linguístico apresentado no decorrer da leitura

O leitor tem diante de si uma obra singular no mercado editorial brasileiro. Esta analogia de contos tradicionais e fábulas recria, com esmero e criatividade, uma fatia importante e representativa das narrativas orais e infantis de países africanos, todos eles pertencentes à uma comunidade da língua portuguesa”, escreveu no prefácio da obra, Marana Borges, jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela Universidade de Lisboa.

Bem humoradas, as narrativas deste livro envolvem lobos, coelhos, leões, e claro, muitas aventuras. Músicas, gastronomia, adivinhas e vestimentas são alguns dos elementos que compõem a cultura de povos africanos, que são minuciosamente apresentados nesta formidável obra.

Acesse a matéria completa em Aventuras na História

Livros além das grades: por que focar nas Bibliotecas Prisionais?

Entrevista com Lisa Krolak, do “Instituto para a Aprendizagem ao Longo da Vida” da UNESCO

Sem dúvida, as prisões são alguns dos ambientes mais difíceis nos quais as bibliotecas podem ser encontradas, trabalhando com leitores que enfrentam problemas complexos. No entanto, ajudando a desenvolver novas habilidades e a preparar apenados para a vida do lado de fora, elas podem ter um grande impacto. Para descobrir mais, trazemos a entrevista feita com Lisa Krolak, bibliotecária-chefe do Instituto para a Aprendizagem ao Longo da Vida da UNESCO na Alemanha.

Lisa é autora do livro “Books Beyond Bars: The transformative potential of prison libraries” (Livros Além das Grades: O potencial transformador das bibliotecas prisionais), lançado no Congresso Mundial da IFLA (WLIC) em 2019 na capital da Grécia, Atenas. 

Ela preside o Grupo de Trabalho da IFLA sobre Bibliotecas Prisionais, estabelecido sob a Seção de Serviços de Biblioteca para Pessoas com Necessidades Especiais (LSN). Para mais informações, você pode contatá-la diretamente.

1) Por que focar nas bibliotecas prisionais em particular?

De acordo com padrões internacionais, os presos têm o direito de acesso à educação e informação, incluindo serviços de bibliotecas de qualidade. No entanto, na realidade, a maioria das bibliotecas prisionais não possui recursos suficientes e trabalha isoladamente. A opinião pública geralmente não é a favor de tratar bem os prisioneiros e vê o encarceramento como punição ou dissuasão. No entanto, um dia, a maioria dos prisioneiros é libertada e deve ser do nosso interesse que eles possam viver vidas livres de crimes depois. É mais provável que os presos venham de grupos e comunidades pobres, discriminados e marginalizados, e é mais provável que tenham tido uma experiência educacional limitada ou inexistente do que o resto da sociedade. Muitos têm dificuldades em ler e escrever e provavelmente nunca ou raramente usaram uma biblioteca antes. Oferecer oportunidades educacionais, incluindo serviços de biblioteca de qualidade, é uma maneira de apoiar sua reabilitação.

2) Que diferença as bibliotecas prisionais podem fazer?

O acesso à educação e, mais especificamente, bibliotecas e materiais de leitura podem ajudar a quebrar o ciclo de desvantagens educacionais, pobreza, violência e crime. Além de apoiar a aprendizagem ao longo da vida e a oportunidade de melhorar os níveis educacionais, as bibliotecas prisionais podem fornecer serviços que ajudem os prisioneiros em suas vidas diárias e os auxiliem em planejar sua liberação. Fornecer materiais para a leitura de prazer e outras oportunidades de entretenimento é uma maneira construtiva de passar o tempo livre e pode ser um meio de distração e fuga das preocupações diárias. As bibliotecas prisionais também apoiam a coesão social, atuando como locais de encontro com um ambiente calmo, descontraído e seguro, além de espaços para leituras, debates e cultura. Além disso, há o potencial transformador de participar de atividades de alfabetização (como círculos de leitura ou oficinas de escrita criativa), que propiciam o pensamento crítico e permitem que os apenados reflitam sobre sua vida. Usar os serviços da biblioteca da prisão é uma das poucas oportunidades nas quais os presos têm autonomia e responsabilidade de fazer suas próprias escolhas, selecionando o que ler e como se informar.

3) Que fatores os impedem de conseguir isso?

Pouquíssimos países têm sistemas bem estabelecidos de bibliotecas prisionais administrados por bibliotecários profissionais. Na maioria dos lugares, elas são administradas por funcionários designados da prisão, com a ajuda de reclusos ou voluntários da comunidade que não receberam ou receberam pouco treinamento em biblioteconomia prisional.

4) Que escopo existe para a aprendizagem e o intercâmbio mútuos entre bibliotecários penitenciários e outros bibliotecários?

As bibliotecas prisionais fazem parte da comunidade mais ampla de bibliotecas. Idealmente, os presos devem receber os mesmos serviços de biblioteca que as pessoas que vivem fora da prisão. Existem sistemas em que as bibliotecas prisionais são ramificações da rede de bibliotecas públicas locais. Isso garante padrões profissionais e a chance de introduzir prisioneiros em um serviço público que, esperançosamente, eles continuarão usando quando forem libertos. Em outros países, o sistema de bibliotecas públicas fez um esforço organizado para modernizar as bibliotecas prisionais de acordo com seus padrões. De qualquer forma, bibliotecários públicos e prisionais devem se conectar e trabalhar juntos. Eles podem se reunir regularmente, compartilhar materiais e planejar atividades comuns, como leituras de autores dentro e fora das prisões. As bibliotecas prisionais também podem participar de atividades culturais da comunidade em geral, como noites de leitura ou eventos de leitura em voz alta, que podem servir como uma ponte perfeita entre os dois mundos.

5) Que medidas você planeja tomar para garantir que os tomadores de decisão compreendam o valor de bibliotecas prisionais eficazes? O que você espera que eles façam?

No meu Instituto, o Instituto para a Aprendizagem ao Longo da Vida da UNESCO, publicaremos em março um resumo de políticas sobre bibliotecas prisionais destinadas a tomadores de decisão. Ele será distribuído no próximo Congresso do Crime da ONU em abril de 2020, alcançando autoridades penitenciárias de todo o mundo. Este mês, meu livro sobre bibliotecas prisionais foi publicado em alemão. Enviaremos para todas as prisões de língua alemã na Alemanha, Áustria e Suíça. Duas cópias cada, uma para a administração penitenciária e uma para o serviço de biblioteca da prisão. Além disso, forneceremos a todos os ministros federais alemães e senadores da Justiça uma cópia gratuita.

Para enfatizar ainda mais o potencial transformador das bibliotecas prisionais precisamos realizar e coletar mais pesquisas sobre os benefícios e os impactos das bibliotecas prisionais e encontrar maneiras de compartilhar essas descobertas com os tomadores de decisão. Os documentos de políticas internacionais já pedem o estabelecimento de bibliotecas prisionais, mas não fornecem diretrizes ou padrões de qualidade, particularmente sobre financiamento. Os tomadores de decisão podem ter a melhor intenção e consultar as políticas mais bem escritas, mas se no final do dia eles não fornecerem orçamento suficiente para materiais, atividades e treinamento contínuo para os funcionários da biblioteca da prisão, o serviço da biblioteca simplesmente não alcançará seu potencial.

6) Como você planeja levar esse trabalho adiante na IFLA?

No Congresso Mundial da IFLA em Atenas, em agosto de 2019, iniciamos um Grupo de Trabalho sobre Bibliotecas Prisionais. No momento, compreendemos cerca de 40 bibliotecários penitenciários e bibliotecários públicos, acadêmicos e pessoas que trabalham em organizações da sociedade civil com foco em apoiar as bibliotecas penitenciárias. O grupo já forneceu informações valiosas para o as políticas acima mencionadas para as bibliotecas prisionais. Em uma próxima etapa preencheremos a página do projeto recém-criado das bibliotecas prisionais, localizado no site da Seção da IFLA sobre Serviços de Biblioteca para Pessoas com Necessidades Especiais (LSN), com informações relevantes.

No início do verão, começaremos a atualizar e revisar as Diretrizes da IFLA para a prestação de serviços de biblioteca para apenados, pois as atuais diretrizes datam de 2005. As novas Diretrizes serão apresentadas em uma sessão sobre bibliotecas prisionais, que ocorrerá no Congresso Mundial da IFLA em Roterdã em agosto de 2021, onde esperamos também poder visitar uma biblioteca prisional.

Saiba mais sobre o trabalho da Seção da IFLA sobre Bibliotecas que Atendem Pessoas com Necessidades Especiais.

A maioria das bibliotecas prisionais enfrentam desafios significativos. Elas geralmente são insuficientemente financiadas, não são muito atraentes e estão localizadas em locais inadequados e inacessíveis. Além disso, elas geralmente precisam contar com materiais doados e frequentemente desatualizados que não refletem os interesses, níveis de leitura, habilidades linguísticas ou necessidades da população carcerária. Em muitas bibliotecas prisionais um foco especial deve ser dado aos prisioneiros com baixos níveis de alfabetização e com formação em idiomas não nativos. Isso pode ser feito fornecendo materiais fácil leitura e em vários idiomas, mas esses materiais específicos não estarão disponíveis em muitas bibliotecas prisionais.

Entrevista originalmente feita pela IFLA (Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias). 

Tradução: Anderson Santana, Bibliotecário, Chefe Técnico do Serviço de Biblioteca e Documentação do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP). 

Fonte: Biblioteconomia Social

Literatura infantil e protagonismo feminino: elas como personagens principais

Pedagoga destaca a importância do incentivo à leitura de livros infantis protagonizados por personagens femininas e indica 5 títulos que desenvolvem nas crianças valores e virtudes importantes, como ser guerreira, destemida, curiosa, questionadora e forte. Confira!

Desde sempre os livros são poderosas ferramentas para que o ser humano conheça mais sobre ele mesmo e o mundo ao seu redor. Por isso, a literatura infantil contribui de forma significativa para o desenvolvimento do autoconhecimento, senso crítico, valores morais e virtudes; ou seja, atua na formação da identidade e influencia nas relações com o todo.

Com as crianças isso não é diferente! De acordo com Claudia Onofre, pedagoga e consultora educacional da plataforma Dentro da História, é neste contexto que o hábito de ler se torna ainda mais importante. ‘’A leitura na infância é essencial, pois é a fase onde a criança está construindo o seu ‘’eu’’, formando seus valores, identificando suas virtudes, aprendendo o que é o certo ou errado e como o mundo funciona para assim moldar suas condutas. É neste momento que a criança desenvolve características importantíssimas para o sucesso na vida adulta e em suas relações, seja no âmbito acadêmico, profissional ou pessoal’’, explica.

Nesse cenário é possível compreender quão relevante é mostrar para meninos e meninas o significado dos movimentos atuais, incluindo o cenário onde a mulher luta cada vez mais por espaço e tem cada vez mais voz para ser quem ela quiser, onde quiser. A partir disso, a educadora listou 3 motivos que reforçam a importância da literatura infantil onde ‘Elas’ são as protagonistas.

Acesse a matéria completa em  Embarque na viagem e compreenda a importância da literatura infantil e a representatividade das personagens femininas nela. 

Acessibilidade digital e comunicacional na pandemia

No Webinar da CM, o Grupo Padrão, a SMPED e o Movimento Web para Todos conduziram um debate urgente sobre a acessibilidade aos meios digitais

Texto por Eric Visintainer

Foto ilustrativa (Freepik)

Menos de um 1% dos sites no Brasil são acessíveis por pessoas com deficiência. Então, como garantir a acessibilidade digital e de comunicação para todos em tempos de distanciamento social e quais são as políticas públicas existentes para ampliar e melhorar a qualidade do acesso digital? Este foi o tema central de mais um webinar exclusivo da Consumidor Moderno.

A conversa contou com Cid Torquato, secretário municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo (SMPED), Simone Freire, CEO da Espiral Interativa e idealizadora do Movimento Web para Todos e Jacques Meir, diretor-executivo do Grupo Padrão.

Ações para acessibilidade nas plataformas digitais

”Tudo tem que ser para todos no Brasil e o digital também”, afirmou Torquato que também lembrou que a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência garante este direito. Hoje, a Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo possui um selo de acessibilidade digital para mostrar se um site é acessível ou não.

Freire abordou a necessidade de atenção necessária para os programadores e desenvolvedores de sites e aplicativos: “Temos apostado muito nos profissionais que trabalham com o desenvolvimento de sites e aplicativos para que eles tenham acesso a este conhecimento. Acessibilidade não é algo difícil, que precisa de uma certificação internacional. A informação circula na web há muito tempo”.  Ela ainda falou do diferencial competitivo que as empresas ganham, além da obediência a normas de compliance ao tornar um conteúdo acessível.

Acesse a matéria completa publicada pelo Consumidor Moderno e leia os principais tópicos discutidos no webinar. 

Na luta por mais visibilidade no mercado editorial

Neste episódio do Podcast do PublishNews, Jéssica Balbino e Ketty Valencio falam sobre a lista de 100 autoras pretas brasileiras criada por elas e a luta constante para dar mais visibilidade para esses autores

Texto por Talita Facchini    

Os livros guardam centenas de milhares de histórias. São inúmeros assuntos tratados pelos mais diversos aspectos. Mas quando se trata dos autores, essa diversidade já não é tão grande. O podcast desta semana conversou com duas pessoas que acreditam que todas as narrativas transformam o mundo. Que cansaram de ouvir que não existem muitos livros publicados por negros e de aceitar a pouca presença de escritoras e escritores negros em eventos e feiras brasileiras. Eles estão sim por aí. Em todos os lugares. Basta querer enxergar.

Para facilitar essa busca, a jornalista, pesquisadora em literatura marginal e dona do site Margens, Jéssica Balbino, e a jornalista, com pós graduação em Projetos Culturais e proprietária da Livraria Africanidades, Ketty Valencio, uniram forças e criaram uma lista com mais de 100 autoras pretas e brasileiras para o leitor conhecer.

Ketty Valencio e Jéssica Balbino

Numa edição especial, só com a presença de mulheres, quisemos saber mais sobre como surgiu esta lista, sobre as inúmeras ideias que podem fazer a diferença e trazer os livros de autoras negras e a literatura africana para o centro das atenções e como elas enxergam o mercado editorial.

Jéssica contou que a ideia da lista surgiu a partir do pedido de outras mulheres. O mapeamento começou e veio de Ketty a ideia de tornar a lista pública. “A gente fez juntas a lista e quando ela estava meio pronta, mostrei para a Mel Duarte – que também frequenta muitos slams e faz parte do Slam das Minas em São Paulo – e ela sugeriu mais alguns nomes”, explicou Jéssica. A lista chegou a ter 137 nomes de autoras negras e depois de uma segunda avaliação, chegaram nos 100 nomes, cada uma com uma mini biografia e links para trabalhos já publicados. A lista agora está aberta para que autoras negras possam se automapear. “Creio que já temos aí mais de 200 mulheres mapeadas”, comemora Jéssica.

Ketty frisou também a importância da lista no sentido de mostrar para as pessoas que a literatura feita por mulheres negras não é uma novidade e nem deveria ser vista como tal. “É muito demarcador a questão do racismo e da misoginia quando você pensa que é novidade. Por que eu não conheço esses autores? Por que eu nunca vi isso? Por que eu nunca estudei? E essa lista potencializa a questão de não ter mais uma desculpa mesmo. Tem que consumir essas mulheres, ouvir o que elas têm a dizer”.

As duas falaram ainda sobre a participação de autores negros em feiras literárias, sobre como fazer a literatura africana circular, como trazer esses livros para a frente das grandes livrarias e o papel dos livreiros nessa disseminação. “O mercado editorial reflete o que a sociedade é o que a sociedade acredita. E não podemos romantizar isso porque a sociedade tem todas essas opressões. Ela ressalta todas essas opressões”, analisou Ketty. “Se o capitalismo é irmão do racismo e de outros ismos que a gente abomina, então o mercado editorial é isso também e depende de nós. Eu estou tentando reinventar a máquina com outros livreiros”, explicou. “O mercado editorial é reflexo da sociedade”.

O Podcast do PublishNews é um oferecimento da Metabooks, a mais completa e moderna plataforma de metadados para o mercado editorial brasileiro, da UmLivro, novo modelo de negócios para o mercado editorial: mais livros e mais vendas, e da Auti Books, dê ouvidos a sua imaginação, escute Audiobooks. Você também pode ouvir o programa pelo Spotify, iTunes, Google Podcasts, Overcast e YouTube.

Indicações

Site Margens

Instagram Margens

Lista de 100 escritoras pretas brasileiras para você conhecer

Instagram Jéssica Albino

Instagram Livraria Africanidades

Instagram Mel Duarte

Um defeito de cor – Ana Maria Gonçalves

Pequenos incêndio por toda parte – Celest Ng

Little fires everywhere – Netflix

Queen Sono – Netflix

Hannah Gadsby – Douglas – Netflix

O livro de Líbero (Intrínseca)

Fonte: PublishNews

LGBTQ+ nas bibliotecas

Consumo cultural e a busca de espaços inclusivos

Por Marília Paiva| Presidenta do Conselho Regional de Biblioteconomia – 6ª Região (MG e ES)

O combate ao preconceito contra pessoas LBGTQ+ é uma atitude cada vez mais necessária. Paulatinamente, essa parcela da população conquista representatividade em filmes, músicas, propagandas e livros, ocupando cada vez mais espaço. A participação cultural é notória. A pesquisa Cultura nas capitais: como 33 milhões de brasileiros consomem diversão e arte informa que pessoas assumidas LGBTQ+ acessam mais atividades culturais em geral que pessoas declaradas heterossexuais.

O levantamento ainda revelou que a leitura é um hábito importante, sendo que esse costume ficou em segundo lugar como preferência da comunidade LGBTQ+, e 75% dos entrevistados responderam que têm o hábito de ler livros e 51% responderam ter frequentado uma biblioteca nos últimos 12 meses. Trata-se de um grupo participativo e que frequenta efetivamente as bibliotecas, mesmo com a aparente escassez de ações e iniciativas de inclusão focadas nesse público.

O bibliotecário precisa também buscar formas de suprir as necessidades de informação e demandas desse grupo, incentivando a participação contínua nas atividades, além de torná-lo mais representado também no acervo. Apurar, selecionar e disponibilizar obras, artigos e informativos com representatividade LGBTQ+ é uma forma de transformar a biblioteca em um ambiente mais inclusivo.

Acesse a matéria completa publicada no O Tempo e veja como a biblioteca pode incluir os usuários LGBTQIA+ 

POR QUE AS BIBLIOTECAS DEVEM SE ENVOLVER NA TEMÁTICA LGBTQIA+? – PARTE 1

Há duas razões para isso: a primeira delas, a defesa do direito à vida, que abrange tanto o direito de não ser morto, como também o direito de ter uma vida digna

Texto por Cristian Brayner

Por onde a pandemia passou, ela deixou um rastro de dor. No Brasil, em razão da flagrante negligência protagonizada pelo Estado – indiferença desavergonhada, sem máscara, nem nada! –, os sulcos são mais profundos. Apesar desse quadro sofrível, tenho me esforçado para cultivar uma leitura menos amargurada dos acontecimentos.

Fui notando, no curso das semanas, que além das lágrimas, a Covid fez brotar um fio teimoso de solidariedade, uma espécie de desejo coletivo, quase sempre genuíno, de ajudar, de estar presente na vida do outro. Isso resultou num sem número de lives de gente comum e notável compartilhando habilidades, da culinária a veterinária. Eu mesmo não me fiz de rogado: aprendi noções de sânscrito e me esbaldei com Caetano.

As lives bombaram mesmo entre bibliotecários, algumas delas com temas sensacionais. Já imaginaram bibliotecários brasileiros discutindo, em alto e bom som, a respeito de acervos destinados a lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, queers, intersexo, assexual e mais? A convite do Conselho Regional de Biblioteconomia da 8ª Região, tratei com outros colegas desse assunto ainda inusitado, o que me deixou gratamente surpreso.

Afinal, nestes mais de 20 anos como bibliotecário, me deparei por dezenas de vezes com perguntas do tipo: “Livro gays numa biblioteca pública? Para que?” Está embutido nesse questionamento certa preocupação em evitar polêmicas, mantendo-se na trilha mais confortável, o que não deixa de ser compreensível. Afinal, é relativamente recente a discussão a respeito do papel ideológico das bibliotecas na construção e manutenção de práticas de violência ou o seu oposto.

Desse modo, esse tipo de pauta sobre a criação de produtos e serviços específicos para grupos marginais implica reconhecer que as bibliotecas, enquanto artefatos culturais, sempre estiveram envolvidas na construção de sistemas de verdades, sejam estes louváveis ou reprováveis. Afinal, ela compõe a estrutura de poder, essa complexa rede de dispositivos que atravessam toda a sociedade e que nos diz o que é certo ou errado.

Desse modo, é inverídico e frustrante a biblioteca evocar a neutralidade para tentar justificar a uma lésbica a ausência das obras de Vange Leonel em suas estantes. De fato, o silêncio travestido de imparcialidade costuma ser tão virulento quanto uma baioneta.

Mas, o que justificaria a biblioteca se envolver nessa pauta tão melindrosa? Há duas razões para isso: a primeira delas, a defesa do direito à vida, “que abrange tanto o direito de não ser morto […], como também o direito de ter uma vida digna.” (LENZA, 2019, p. 1168). O Brasil é terreno minado a quem possuir uma identidade de gênero diferente do sexo designado no nascimento ou uma orientação sexual distinta da heterossexualidade.

No Ceará, a travesti Dandara foi assassinada a chutes e pedradas pelos vizinhos. Já no interior de São Paulo, a mãe do jovem Itaberli Lozano, inconformada com a sua homossexualidade, recorreu a golpes de faca e ao fogo para eliminá-lo. Os fins trágicos de Dandara e Itaberli não são casos isolados. Segundo levantamento do Grupo Gay da Bahia, um cidadão LGBTQIA+ é assassinado no Brasil a cada 24 horas, o que nos põe no topo desse triste ranking.

Além dos homicídios bárbaros que ilustram as manchetes dos jornais e geram uma indignação efêmera, o bastão da violência simbólica é erguido contra esses indivíduos desde a mais tenra idade: é a risada, é a piada; é o cascudo, é o repúdio. A homofobia brasileira é particularmente gravosa por sua dissimulação.

Recordo-me de um parlamentar que, ao protocolar projeto de lei visando impedir o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, declarou, sem ruborizar: “Não sou homofóbico. A sala lá de casa até foi decorada por um gay.” Assim, pretendendo camuflar o próprio ódio, ele forja uma relação de empatia com sua vítima e a encarcera num espaço seguro e restritivo: é o cabelo, é a moda, é a decoração; nada mais. Dessa narrativa burlesca o agressor, “gente de bem”, sai com a consciência tranquila.

A tensão social brota no minuto em que a vítima ousa pisar na linha riscada por seu algoz. Isso tem-se dado quando a comunidade LGBTQIA+ passou a questionar os discursos que atribuíam ao seu corpo e aos seus desejos uma carga penosa e reprovável. Trata-se de uma disputa pelo poder de fala, o qual legitima todo os modos de vida.

E que discursos são esses que distinguem o sujo do limpo, a virtude do pecado? A religião e o direito, certamente, exercem um papel de destaque nesse processo. Entretanto, como bem nos sugeriu Michel Foucault (1979, p. 182), é importante “[…] captar o poder na extremidade cada vez menos jurídica de seu exercício.” É lá, nesta ponta, que se encontra a biblioteca. Ser sensível ou impassível é escolha dela.

O segundo motivo que deveria levar um bibliotecário a ponderar a respeito dessa pauta é o fato de ter se comprometido, solenemente, na colação de grau defender “o cunho […] humanista” da profissão. Ao prometer publicamente desenvolver seu trabalho “fundamentado […] na dignidade da pessoa humana”, o bibliotecário se coloca, voluntariamente, num estado contínuo de tensão, atento a qualquer sistema de verdade que atente contra a diversidade. Ele é, sob juramento, um combatente contra toda prática de violência. Quem de nós ousaria atribuir o mais fantástico dos mundos aos abraçados pela sigla LGBTQIA+? Lembremos do Itaberli, lembremos da Dandara.

Fonte: Biblioo

Pesquisadores criam jogo de tabuleiro para crianças aprenderem braile

Criação é dos pesquisadores da UFPB em parceria com o Instituto de Cegos da Paraíba.

Jogo de Tabuleiro em braile Imagem: Divulgação

Pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) desenvolveram um dispositivo para auxiliar no aprendizado de crianças cegas ou com baixa visão. Por meio da ferramenta lúdica, é possível alfabetizar em Braille, explorar habilidades táteis e reconhecer formas 2D (em duas dimensões).

A tecnologia associativa, patenteada pela Agência UFPB de Inovação Tecnológica (Inova) e criada em parceria com o Instituto de Cegos da Paraíba, em João Pessoa, é constituída de um tabuleiro com espaços quadriculares para o encaixe de peças que representam coisas do cotidiano.

Cada peça contém o nome  da respectiva forma, tanto em Braille, para crianças cegas, quanto em caixa alta e em alto-contraste, para crianças com baixa visão.

O produto é feito de madeira, plástico e EVA (Acetato de Vinila), um polímero emborrachado e flexível. Antiderrapante, oferece mais aderência no manuseio, impossibilitando a projeção do dispositivo para frente ou para as laterais.

Para desenvolver o tabuleiro, as pesquisadoras Joele Marques, Catharine Sanches e Maryana Tavares, sob orientação do professor do Departamento de Engenharia de Produção Fábio Borges, buscaram entender quais as necessidades e barreiras encontradas durante o processo de ensino de pessoas com deficiência visual.

O levantamento apontou dificuldade de encontrar brinquedos inclusivos. Até mesmo os educativos não eram completos. Quando identificados, os brinquedos inclusivos apresentaram elevado custo em comparação a produtos similares e direcionados para pessoas que enxergam normalmente.

Acesse a matéria completa em Portal T5

Clubes de leitura aproximam pessoas, distraem e proporcionam trocas de experiência no isolamento

Durante a quarentena, clubes de leitura reúnem online leitores de todo o País; veja ainda dicas de como montar um clube do livro

Texto por Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

Ler é um ato solitário, e quem já participou de um clube do livro ou assistiu ao filme O Clube de Leitura de Jane Austen, por exemplo, sabe como a leitura compartilhada e a escuta podem ser transformadoras.

Cleide Tomazini Aichele, de 78 anos, nunca foi muito de ler, mas desde que começou a frequentar o Clube de Leitura 6.0 assim que ele foi inaugurado, um pouco antes do início da quarentena, no Núcleo de Convivência de Idosos do Centro de Assistência e Promoção Social Nosso Lar, na Mooca, isso mudou.

Foram dois encontros presenciais no início do projeto, do qual só pode participar quem tiver mais do que 60 anos, e então o isolamento começou. Eles passaram a se reunir online semanalmente para discutir a leitura proposta pelo clube criado pelo Observatório do Livro – que está presente em 60 cidades do Estado e, se não fosse pela pandemia, já estaria em 100 municípios. Em uma semana, os participantes conversam sobre o e-book que leram. Na outra, sobre o audiolivro que ouviram.

Cleide Tomazini Aichelle começou a ler recentemente, depois do incentivo do Clube 6.0 Foto: Acervo pessoal

A leitura está ajudando Cleide, que entrou mal na quarentena. Ela tinha perdido o companheiro que estava ao seu lado havia 60 anos e levado um tombo feio no dia 11 de março. “Eu estava mal e percebi que meu organismo não estava reagindo. Não podia sair, nem estava disposta a sair. Ler está me ajudando a passar o tempo, a refletir e a formar opinião. Isso tem ocupado a minha cabeça. Meu ânimo está melhor e sinto que estou com mais coragem”, diz.

Nas discussões, ela conta, ainda prefere apenas ouvir. E só isso já é enriquecedor. “Como li pouco na vida, não tenho facilidade de comentar os livros, mas é muito interessante perceber que às vezes a leitura de outra pessoa não bate com a sua.”

Acesse a matéria completa publicada pelo Estadão e compreenda a importância dos clubes de leitura. 

Painel online – Tratado de Marraqueche e a acessibilidade de livros

Participantes:

Thiago Oliveira, Coordenador-Geral de Regulação, Negociação e Análise, da Secretaria de Direitos Autorais e Propriedade Intelectual do Ministério da Cidadania;

Carlos Ferrari, Secretário de Tecnologia e Acesso à Informação da ULAC – União Latino-americana de Cegos e parte das Diretorias do Comitê Brasileiro de Organizações Representativas das Pessoas com Deficiência e da Organização Nacional de Cegos do Brasil;

Moises Bauer, Assessor Jurídico do Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul, atualmente lotado no Centro de Apoio Operacional dos Direitos Humanos;

Alexandre Munck, Superintendente executivo da Fundação Dorina Nowill para Cegos e membro do Grupo de Trabalho pela regulamentação do Tratado de Marraqueche.

Mediação: Ezequiel Mariano, da Rede de Leitura Inclusiva.

Fonte: Fundacao Dorina Nowill

10 autoras para conhecer a literatura da Amazônia hoje

Texto por Fred Di Giacomo

A escritora Márcia Kambeba
Imagem: Márcia Kambeba/Acervo pessoal

Na última coluna, a “Arte fora dos centros” conversou com a pesquisadora paraense Suelen Silva sobre sua atuação na área de descentralização da cultura, tanto na Amazônia, onde viveu a maior parte da vida, quanto na Alemanha, onde mora hoje. Na mesma semana, a editora Monomito, fundada pela amazonense Adriana Chaves e o paraense Toni Moraes anunciou que está procurando textos inéditos escritos por mulheres cis e trans paraenses, ou que vivem no Pará. O projeto vai se chamar “Trama das Águas: Literatura contemporânea produzida por mulheres no e do Pará.”. Quem tem interesse em se inscrever pode ler o regulamento aqui.

O Pará faz parte da Amazônia Legal, área que engloba os sete estados da região norte, o Mato Grosso e o oeste do Maranhão. Embalados pela entrevista com a Suelen e o anúncio de “Trama das Águas”, listamos 10 autoras para conhecer a literatura da Amazônia hoje.

Acesse a matéria completa no ECOA Por um mundo melhor e conheça as autoras.

Indígena adota a batida do rap para falar da resistência de seu povo

MC Kunumi lançou ‘Guerreiro da floresta’ nas plataformas digitais. Aos 14, ele protestou na abertura da Copa do Mundo no Brasil

Texto por Estado de Minas

MC Kunumi em cena do clipe Xondoro ka’aguy reguá (Guerreiro da floresta), que está disponível nas plataformas digitais (foto: Klaus Mitteldorf/Divulgação)

Selecionado para representar os povos indígenas na abertura da Copa do Mundo de 2014, em São Paulo, Werá Jeguaka Mirim, da aldeia Krukutu, na região de Parelheiros, extremo Sul da cidade, caminhou sobre o gramado da Arena Corinthians para soltar uma das três pombas da paz antes do início da partida entre os times do Brasil e da Croácia.

Na saída do campo, porém, ele, então com 13 anos, quebrou o protocolo e abriu uma faixa vermelha pedindo pela demarcação das terras indígenas.

Seis anos após o protesto, que repercutiu internacionalmente, a causa defendida por esses povos segue sem avanços significativos. E Werá, hoje aos 19, faz uso da música e da literatura para dar visibilidade à realidade de seu povo.

”É um costume na nossa aldeia ir à noite na casa de reza, fumar o nosso cachimbo e entoar cânticos pedindo força”, conta. ”Nós, os guaranis, temos uma ligação muito forte com a música, e isso foi o que me levou a gostar de rap. Nas minhas músicas e na literatura nativa que produzo, escrevo sobre o meu povo e a nossa luta.”

Para apresentar as rimas do que chama de rap indígena, ele assume o nome artístico Kunumi MC – uma derivação de ”curumim” (criança, em tupi-guarani) –, ou seja, “jovem MC”.

Em seu trabalho mais recente, Xondaro ka’aguy reguá (Guerreiro da floresta), disponível nas plataformas digitais, ele retrata a realidade dos povos indígenas desde a invasão dos portugueses até o presente momento.

”A música fala sobre um guerreiro que nasceu das águas e veio para libertar os indígenas e lutar por eles. É uma maneira de dizer que surgiu um MC indígena. Mas também não falo só de mim. A todo momento está surgindo um indígena para falar sobre o seu povo. Já faz tempo que muitas pessoas querem ajudar o indígena, mas por que um indígena não pode ajudar seu próprio povo?”, questiona.

O artista tem também um EP e um álbum lançados e já gravou com Criolo (foto: Fotos: Acervo pessoal MC Kunumi)

 

Acesse a matéria completa em Jornal Estado de Minas.

Calendário literário adere ao mês LGBT

Editoras ampliam no mês de junho a divulgação de obras cuja temática corrobora a luta pela igualdade nos direitos civis e o combate ao preconceito

Texto por Pedro Galvão

Se no Brasil junho sempre foi o mês das fogueiras, quadrilhas e bandeirolas, as cores do arco-íris vêm ganhando mais força a cada ano nessa altura do calendário, com as campanhas a favor dos direitos e do orgulho LGBT. Tudo começou com um episódio conhecido como Rebelião de Stonewall, ocorrida em 1969.

Em 28 de junho daquele ano, frequentadores do bar Stonewall Inn, em Nova York, resistiram a uma invasão violenta e discriminatória da polícia, desencadeando manifestações a favor da diversidade sexual e contra o preconceito sofrido por esses indivíduos em todo o planeta.

Essa luta vem ganhando novas páginas na literatura, com a temática LGBT ocupando uma vistosa fatia do trabalho de editoras. Em novembro do ano passado, a norte-americana Casey McQuiston lançou Vermelho, branco & sangue azul, seu primeiro romance. Trata-se de uma história de amor fictícia entre o filho da presidente dos EUA e o príncipe da Inglaterra. Chegou a figurar em 15º lugar na lista de mais vendidos do New York Times e foi escolhido pelo site Goodreads como o melhor de 2019 nas categorias romance e livro de estreia. Nas últimas semanas, esse e outros títulos ganharam destaque especial no mercado editorial.

No Brasil, o portal de comercialização de livros Estante Virtual promoveu a campanha Mês do Orgulho: 25 livros, autores e histórias LGBTQIA+ e diz ter notado efeito nas vendas. Segundo a empresa, os livros de ficção sobre essa temática cujas vendas mais se destacaram foram Com amor, Simon (2015), de Becky Albertalli, adaptado para o cinema em 2018, e a fantasia A menina submersa (2015), de Caitlín R. Kiernan.

Entre os de não ficção, os destaques foram Devassos no paraíso, de João Silvério Trevisan (2000), que apresenta um panorama histórico da causa LGBT no Brasil, Foucault e a teoria queer (2017), de Tamsin Spargo, com viés filosófico e teórico, e o livro reportagem Ricardo e Vânia (2019), de Chico Felitti.

Acesse a matéria completa em Estado de Minas e saiba mais as iniciativas dos setores do mercado editorial e audiovisual na promoção de conteúdos sobre a comunidade LGBTQIA+

A LITERATURA DE MULHERES PERIFÉRICAS

Conversamos com nove escritoras e poetas que usam a palavra como arma para transformar olhares e construir novas narrativas na literatura brasileira

Texto por Carolina Delboni

“Digam ao povo brasileiro que meu sonho era ser escritora, mas eu não tinha dinheiro para pagar uma editora”. A frase é de Carolina Maria de Jesus, escritora, negra, favelada e catadora de papel. Ela viveu às margens do seu tempo, mas não foi a única e nem a última. A literatura está cheia de textos produzidos por mulheres periféricas. Não são conhecidas pela grande mídia, procuradas pelas grandes editoras nem têm uma orla de seguidores nas redes sociais. São mulheres que vivem na periferia, da sociedade e na própria geografia da cidade. Muitas, não por acaso, são negras.

A arte salva e não há literatura que não seja capaz de ser ferramenta de transformação social. Não à toa, essas mulheres poetizaram a própria existência – para existir. Mulheres que encontraram moradia na escrita. Existir é exercício diário no mundo, mas existir na própria periferia do mundo é um trabalho muito mais árduo. Demanda doses extras de oxigênio, que é outra coisa que parece andar em falta. Mas, enquanto o mundo entra em colapso, são exatamente as mulheres periféricas que nos lembram de que é preciso peito pra viver – ou sobreviver.

Carolina Maria de Jesus Crédito: Reprodução/Acervo Instituto Moreira Salles

Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de JesusCrédito: Reprodução/Acervo Instituto Moreira Salles

Carolina Maria de Jesus poetizou sua existência. Aos 33 anos, desempregada e grávida, mudou-se de Minas para a favela do Canindé, na zona norte da capital paulista. Trabalhava como catadora de papel e, nas horas vagas, registrava o cotidiano da favela em cadernos que encontrava no lixo que recolhia. Um destes diários deu origem a seu primeiro livro, Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada, publicado em 1960. A obra virou best-seller.

Muitas outras poetizam diariamente a mulher periférica brasileira. Elas afloram, na sociedade, uma possibilidade de literatura. Entre livros, publicações acadêmicas, redes sociais, coletivos, saraus, o que for. Mulheres que ampliam olhares para um lugar onde a sociedade não está acostumada a olhar. De onde isolamento social é justificativa pra nascer projeto coletivo. De onde pandemia impulsiona cultura. Porque a literatura de mulheres periféricas salva.

A Tpm conversou com nove escritoras e poetas que usam as palavras para transformar olhares e construir novas narrativas na literatura brasileira.

Acesse a matéria completa em Revista TRIP e conheça as outras autoras. 

Biblioteca solidária: pessoas em situação de rua têm acesso a literatura em Florianópolis

 

Foto: Leonardo Souza/PMF

O serviço de abrigo provisório e temporário municipal Passarela da Cidadania, da Prefeitura de Florianópolis, atende em conjunto com voluntários do Somar Floripa e coletivos organizados denominado “Rede com a Rua” em média, nesta Pandemia, 300 pessoas diariamente. Além das 4 refeições diárias, pernoite, e higiene pessoal, o espaço oferece também uma pequena biblioteca para quem está acolhido. Os livros, que chegam por meio de doações, servem de combustível para amenizar os dias de isolamento por conta do novo Coronavírus.

Michele dos Santos tem 44 anos e está em situação de rua desde março. Ela utiliza os livros oferecidos na Passarela para conhecer mais sobre leis, e assuntos de espiritualidade. “Eu gosto muito de ler livros espíritas, livros sobre leis, eu gosto de tudo. É muito bom até para passar o tempo aqui”, comenta.

A população em geral, pode contribuir também com essa ação, doando livros, a entrega pode ser diretamente na Passarela da Cidadania, na parte inferior a Passarela do Samba Nego Quirido, no Centro de Florianópolis.

Acesse a matéria completa em Imagem da Ilha.

Literatura LGBTQIA+: “Sendo um autor Queer, do Norte, este é um espaço que preciso reivindicar”, diz Andrew Oliveira

Em entrevista a GQ Brasil, o escritor de “Vazio da Forma”, livro recém lançado que aborda questões como depressão, paternidade e aceitação, afirma: “Precisamos de narrativas que saiam da caixinha que nos colocaram onde só podemos falar de nossas sexualidades ou identidades de gênero. Não somos apenas essa única história: o sofrimento referente a isso”

Texto por Ademir Correa

Andrew Oliveira: “Eu não saí ileso de nenhum tipo de violência verbal ou física. E, atrelada à violência estrutural externa, desde cedo somos ensinados a nos odiar, então criamos a violência interna, feito uma simbiose. Homem gay já é um indivíduo que tem muito ódio de si mesmo acumulado. Homem gay negro e/ou indígena tem isso em dobro; e o afeminado em triplo” (Foto: Divulgação)

GQ Brasil: Como vê a importância da representação LGBTQIA+ na literatura?

Andrew Oliveira: Acredito que precisamos urgentemente – para ontem – de mais e mais narrativas que saiam do velho parâmetro cis-heteronormativo que, sabemos, nos inunda e nos sufoca em suas mídias, não dando qualquer espaço para mostrar a diversidade de gênero, sexualidade e cor que no mundo existe. Para você ver, apenas um pouco do que nós, autores LGBTQIA+ (sobretudo nós, os de cor), conseguimos mostrar, já causa um alvoroço, um pandemônio de exaltações. É para isso que estamos aqui. E mais ainda, precisamos de narrativas LGBTQs que saiam, também, da caixinha que nos colocaram onde só podemos falar de nossas sexualidades ou identidades de gênero. Não somos apenas essa única história: o sofrimento referente a isso. É claro, a minha sexualidade ditou absolutamente tudo que permeia a minha vida, e em muitas ocasiões na infância e adolescência o preconceito retirou o meu senso de valor próprio, mas sempre tentei demonstrar que sou outras personas além de “por quem eu me atraio” ou “o sofrimento que passei por conta de minha orientação sexual”. Tudo o que escrevo tenta fugir disso, mas sem me esquecer das agruras da realidade. Ela está sempre lá. Sendo um autor Queer, do Norte do país, mestiço de pai indígena e mãe negra – ou afro-indígena, se assim preferir –, sinto que tenho uma responsabilidade imensa a cumprir, um espaço que preciso reivindicar para mostrar o meu trabalho.

Acesse a entrevista completa em Revista GQ.

Biblioteconomia negra no Brasil: por Franciéle Silva, ganhadora do primeiro lugar do GT6 do Enancib 2019

Texto por Patrícia Osandón – Núcleo de Comunicação Social do Ibict

A partir de inquietações sobre a ausência das questões étnico-raciais dentro dos cursos de Biblioteconomia no Brasil, Franciéle Carneiro Garcês da Silva lançou um questionamento: como promover a inserção da temática africana e afro-brasileira no ensino de Biblioteconomia? O questionamento vem acompanhando os estudos de Franciele desde a graduação, realizada na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).

Após a graduação, Franciéle Silva prosseguiu os estudos e tornou-se mestre pelo Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação (PPGCI), desenvolvido por meio de convênio entre a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict). Atualmente, a pesquisadora é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Os estudos de Franciéle Silva foram reconhecidos durante a 20ª edição do Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (Enancib), principal evento da área no Brasil, que aconteceu em 2019. A comunicação “Biblioteconomia negra brasileira: caminhos, lutas e transformação”, orientada pelo professor Gustavo Saldanha (PPGCI/Ibict/UFRJ), conquistou o primeiro lugar do GT6 (Informação, Educação e Trabalho).

Em entrevista para o site do Ibict, a pesquisadora conta sobre a importância da presença das questões étnico-raciais nos cursos de Biblioteconomia e detalha sua história com a Ciência da Informação. Confira!

Ibict: Conte um pouco da sua trajetória e o que motivou seu estudo?

Franciéle Silva: Eu sou uma mulher negra. Venho do estado do Rio Grande do Sul, da zona rural, lá no extremo sul do país. Como mulher negra, eu sempre passei por muitas situações de racismo dentro das minhas relações não só familiares, mas também de trabalho e nos estudos. Em 2013, ingressei na graduação no curso de Biblioteconomia da Universidade do Estado de Santa Catarina, quando passei a participar do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB), onde aprendi muitas coisas relacionada às questões étnico-raciais.

Foram quatro anos de formação nas questões étnico-raciais, mas percebi que no meu curso isso não era uma coisa que prevalecia. Nós não tínhamos abordagens das questões étnico-raciais nas disciplinas e foi isso que me levou a fazer o primeiro estudo da minha carreira, que foi meu trabalho de conclusão de curso. Nesse trabalho de conclusão, eu entrevistei docentes buscando entender qual era a importância da inserção das questões étnico-raciais para eles, além da história e da cultura afro-brasileira na formação bibliotecária, e se tinham conhecimento de instrumentos normativos sobre isso.

Tenho o entendimento de que o preconceito nasce de um pré-conceito criado a partir daquilo que a gente tem da história que as pessoas contam, da classificação que as pessoas fazem. A gente precisa formar pessoas para entender que todo mundo faz parte do grupo de seres humanos. Somos diferentes e diversos, então cada um tem uma característica, um fenótipo, um pertencimento étnico-racial.

A partir da graduação, eu consegui então ter uma análise local do que os professores consideravam importante e da intersecção entre questões étnico-raciais e o ensino. Quando fui analisar a estrutura do curso, ele não tinha disciplinas específicas sobre isso, mesmo os professores considerando isso muito importante. Eles desconheciam os instrumentos normativos e uma parte dos entrevistados justificou também que, por serem disciplinas mais tecnológicas, não era possível inserir as questões étnico-raciais.

Então, a partir daí, foi possível ter uma percepção maior de como a docência está construída e que, muitas vezes, ela pode sim perpetuar alguns preconceitos. Porque se não se aborda isso dentro da formação, como é que você vai conscientizar os estudantes sobre como olhar para aquela comunidade que vem desde a pós-abolição sofrendo com várias desigualdades?

Ibict: Depois da graduação, quais foram os próximos passos na sua pesquisa com a Biblioteconomia e as questões étnico-raciais?

Franciéle Silva: No mestrado, a partir desse recorte local, eu ampliei a pesquisa. No PPGCI/Ibict/UFRJ, eu tive a sorte de contar com a orientação do professor Gustavo Saldanha e foi partir daí que ele me mostrou algumas outras concepções teóricas, alguns outros movimentos. Conheci o movimento da Black Librarianship, dos Estados Unidos.

Como nos Estados Unidos as pessoas afro-americanas tiveram um período de segregação racial, no qual muitas pessoas não conseguiram acessar as bibliotecas, elas começaram a lutar para serem graduadas em Biblioteconomia, para estarem nesses espaços como bibliotecários* e para levarem informação às populações afro-americanas e transformarem a sociedade por meio do acesso à biblioteca, à leitura e ao livro.

Ibict: Qual a importância de discutir sobre a Biblioteconomia negra brasileira?

Franciéle Silva: Hoje, o meu intuito é que as pessoas negras sejam também reconhecidas como produtoras de conhecimento, como pessoas que estão refletindo, pesquisando e publicando dentro da área não só com viés étnico-racial, mas sobre todas as outras áreas que compõem a Biblioteconomia. Muitas vezes, se você pergunta para as pessoas se elas conhecem um intelectual bibliotecário negro, a maioria não conhece. Então, o intuito de fortalecer esse movimento da Biblioteconomia negra é mostrar quem produz conhecimento e projetos e quem faz ações dentro da biblioteca com viés étnico-racial, refletindo como tornar aquela biblioteca um lugar de representatividade dessa população.

É preciso mudar a biblioteca como sendo um lugar da elite e para elite, ou seja, somente quem faz parte da elite é que deveria estar nesse espaço. A biblioteca deve acolher a todas as pessoas e representá-las. Então, nesse sentido, a Biblioteconomia vem para demonstrar que existem ações, pesquisas e intelectuais dentro do Brasil que estão refletindo sobre questões étnico-raciais e que também há pessoas negras que estão fazendo pesquisas, mas não só pesquisas. A gente também está atuando em prol da questão das políticas de cotas – há pessoas que estão dentro de vários movimentos civis, em todos os espaços. Então, acredito que estudar a Biblioteconomia Negra e promover a sua visibilidade seria uma forma de reconhecer aquelas pessoas que muitas vezes estão “invisibilizadas” porque são bibliotecárias negras.

Ibict: Como pensar uma Biblioteconomia Negra partindo do princípio que a história das produções intelectuais (e da administração dessas produções) foi, em grande parte, construída por homens brancos?

Franciéle Silva: O intuito de reconhecer e de pensar a Biblioteconomia Negra é mostrar que essa intelectualidade existe e que, sim, há uma epistemicídio, que é a supressão, a invisibilidade desse conhecimento que é produzido por pessoas negras. Hoje, nós temos uma gama de livros que têm sido elaborados e produzidos por bibliotecários negros e pensados sobre as questões étnico-raciais. Reconhecer que esses bibliotecários negros estão contribuindo para a construção de uma Biblioteconomia diversa, representativa, antirracista, afro-diaspórica, é importante para desconstruir esse pensamento de que somente o homem branco produz ciência.

A gente tem que desconstruir essa questão relacionada de ver o homem branco nesse lugar de cientista e descolonizar essa Biblioteconomia que ainda é eurocentrada e americanizada. Ou seja, a gente só olha para fora e tenta colocar aquilo que eles produzem dentro do Brasil sem pensar outras realidades que fazem parte do contexto brasileiro e que são muito específicas. Por exemplo, a gente tem que pensar que hoje nós temos alguns impeditivos que fazem com que a população negra ainda esteja em um espaço de desigualdade, tanto educacional quanto financeiro e político.

Quantos de nós estamos representados dentro do Congresso Nacional ou de outros espaços? Quando a gente analisa essa representatividade dessa população, ela não está lá nesses passos de tomada de decisão e de poder, inclusive na ciência. Quando a gente vai olhar palestras, publicações de livros, a maioria dessas publicações é feita por pessoas brancas e quando nós reivindicamos o nosso lugar, o nosso protagonismo, nós somos até taxados de pessoas radicais, mas o movimento da Biblioteconomia Negra não exclui a produção científica feita por pessoas não negras. Ao contrário, é parte dessa produção científica que também está refletindo sobre questões fundamentais para a humanidade.

Ibict: Quais os caminhos para ampliar discussões democráticas sobre racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância?

Franciéle Silva: Para mudar a situação que nós temos hoje – infelizmente muito negativa de muitos retrocessos dentro das políticas públicas, é preciso formar pessoas. Os cursos de Biblioteconomia devem ser modificados para a inserção das questões étnico-raciais, e outras também, como as de gênero, por exemplo. Como é que a gente vai capacitar bibliotecários para serem sensíveis a essas causas se dentro dos nossos meios, os nossos profissionais que estão formando pessoas não estão conscientes de que isso é importante?

Muitas vezes, os docentes também podem propagar um pensamento meritocrático, ou seja, é como se colocasse população negra e branca no mesmo lugar, quando a gente sabe que não é isso: a população negra está em desigualdade desde que o país começou. Os profissionais que formam os bibliotecários têm uma responsabilidade muito forte nesse sentido.

O professor tem que lutar para ter questões relacionadas às humanidades dentro dos projetos político-pedagógicos. Deve fazer parte da nossa profissão, da nossa consciência ético-política enquanto profissionais. Nós temos que trazer representatividade e ajudar na criação de identidade dessas populações, do conhecimento dos aspectos sócio-históricos que nos construíram enquanto população brasileira e, principalmente, mostrar o outro lado que não esse que é hegemônico.

Para ler o trabalho “Biblioteconomia negra brasileira: caminhos, lutas e transformação”, clique aqui.

* Nesta entrevista, quando ler a palavra “bibliotecário”, leia-se bibliotecário ou bibliotecária.

Fonte: IBICT

Clara Stanton Jones, a primeira bibliotecária afro-americana presidenta da American Library Association

Texto por Franciéle Carneiro Garcês da Silva

Como estudiosa da Biblioteconomia Negra Americana e Brasileira, tenho encontrado várias pessoas bibliotecárias que ainda não possuem suas contribuições e produções profissional e intelectual (re)conhecidas na Biblioteconomia brasileira. Sendo assim, tomei como missão visibilizar as epistemologias, ações e contribuições desses bibliotecários e bibliotecárias dentro do território brasileiro, em especial, no ensino de Biblioteconomia do país.

Quando estudamos na graduação em Biblioteconomia sobre a American Library Association (ALA), dificilmente (para não dizer nunca) somos apresentados às bibliotecárias e aos bibliotecários negros que contribuíram para o desenvolvimento de bibliotecas e da Biblioteconomia americana. Ademais, muitos de nós até hoje não conhecíamos o movimento realizado pelos bibliotecários e bibliotecárias afro-americanos para a criação de bibliotecas para a população negra durante o período de segregação racial nos Estados Unidos, nem sobre formação de pessoas negras em Biblioteconomia e sequer sobre as ações implementadas para a luta antirracista e antissexista dentro da ALA.

Hoje, venho apresentar Clara Stanton Jones, ativista social, líder visionária, bibliotecária pioneira no campo de serviços de referências em bibliotecas comunitárias e primeira presidenta negra da ALA. Clara graduou-se em Biblioteconomia pela Universidade de Michigan e, por mais de 40 anos, fez parte do movimento pelo oferecimento de bibliotecas para a comunidade afro-americana.

Clara Staton Jones, primeira presidenta negra da American Library Association (ALA) . Fonte: Site da Universidade de Michigan ( https://www.si.umich.edu/about-umsi/news/trailblazing-librarian-u-m-alumna-clara-stanton-jones-elected-michigan-women%E2%80%99s-hall-fame)

Como pioneira, alcançou distinção como a primeira mulher negra e bibliotecária a chefiar a Biblioteca Pública de Detroit, bem como a primeira a dirigir uma importante biblioteca pública e urbana nos EUA. No entanto, Clara Jones enfrentou o racismo e a discriminação como bibliotecária negra atuante em bibliotecas públicas. Em um dos casos, após ser nomeada diretora da Biblioteca de Detroit, mais de 80 membros brancos do Conselho da Biblioteca protestaram contra a sua nomeação e, inclusive, Clara enfrentou petições que tentavam negar suas qualificações para a posse do cargo. Nessa biblioteca, Clara Jones criou um sistema de referência comunitária que passou a ser utilizado por diversas bibliotecas estadunidenses e que até hoje é usado para coleta, organização e fornecimento de informações práticas visando resolver problemas cotidianos das comunidades.

Clara Jones, em frente à principal biblioteca do sistema público de Detroit.
Fonte: Publicação Ebony, Nov/1971.

Apesar das barreiras raciais enfrentadas, na década de 1970, Clara Stanton Jones se tornou a primeira mulher negra e bibliotecária a ser a presidenta da ALA. Com o objetivo de enfrentar o racismo e o sexismo através da Associação, Clara aprovou a Resolução de Conscientização sobre o Racismo e Sexismo da ALA, visto que para esta bibliotecária negra, os Estados Unidos falharam em proporcionar igualdade às minorias étnico-raciais e às mulheres. Além disso – após diversos episódios considerados racistas – , a ALA se comprometeu a abordar o racismo e o sexismo dentro da profissão, adotando a Resolução como programa de ação para combate ao racismo e ao sexismo dentro da Biblioteconomia. Clara Jones tornou-se um membro ativo da Black Caucus da ALA, auxiliando na promoção da justiça, dos direitos humanos, da liberdade intelectual e do combate ao racismo e ao sexismo na profissão.

Clara Stanton Jones, diretora da Biblioteca Pública de Detroit de 1970 a 1978. Fonte: Detroit Public Library, Digital Collections. Em: https://digitalcollections.detroitpubliclibrary.org/islandora/object/islandora%3A145304 .

Referências:

SILVA, Franciéle Carneiro Garcês da. Clara Stanton Jones e sua contribuição para a Biblioteconomia Negra Americana. In: Silva, Franciéle Carneiro Garcês da. (org.). Mulheres Negras na Biblioteconomia. Florianópolis: Rocha, 2019. (Selo Nyota). Disponível em: http://bit.do/mulheresnegras Acesso em: 21 mar. 2020.

SILVA, Franciéle Carneiro Garcês da. Representações sociais acerca das culturas africana e afro-brasileira na educação em Biblioteconomia no Brasil. 2019. 521 f. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) – Universidade Federal do Rio de Janeiro/Escola de Comunicação, Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Rio de Janeiro, 2019. Disponível em: http://bit.do/francielecgarces Acesso em: 21 mar. 2020.

Fonte: Mulheres na Ciência

Conheça iniciativas que buscam maior representatividade negra na literatura

Autores e personagens negros foram historicamente invisibilizados e estereotipado na literatura. Mais recentemente, pesquisas, perfis em redes sociais e editoras buscam revelar essa lacuna

Texto por Valentine Herold

Livros escritos por autoras e autores negros foram historicamente invisibilizados e vêm ganhando um pouco mais de atenção de grandes editoras nos últimos anos – FOTO: DIVULGAÇÃO

O tempo é de pluralidade e de quebra de paradigmas, não adianta querer negar ou voltar atrás. Movimentos crescentes, liderados por minorias historicamente invisibilidades, vêm ganhando espaço no campo cultural e mostrando a urgente necessidade de ressignificar padrões comportamentais e estéticos seculares. Na literatura não é diferente: clubes de leituras, editoras e projetos popularizados através das redes sociais apontam a imensa lacuna no mercado tradicional de publicações de autoras e autores negros.

Uma pesquisa do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília (UnB) vem colhendo informações dos romances publicados pelas maiores editoras brasileiras desde 2003 com o objetivo de traçar o perfil do romancista e do romance nacional. E os números não negam a realidade do racismo estrutural do país.

Os resultados mais recentes são da segunda fase da pesquisa, divulgada em 2018, que analisou livros lançados entre 2005 e 2014 e não diferem muitos daquelas colhidos na análise de romances lançados entre 1990 e 2004, na primeira fase da pesquisa. Apenas 2,5% dos autores são não-brancos e 6,3% dos personagens são declaradamente negros, 6,9% mestiços e apenas 1,1% indígena, contra 77,9% de personagens brancos.

Dados que, infelizmente, não surpreendem quem está a par da dinâmica das relações raciais na sociedade brasileira, mas que contradizem os resultados do último censo realizado pelo IBGE em 2018, em que cerca de 55% da população se declarou como não branca (pretos e pardos).

A falta de representatividade negra por si só não é o único problema na produção literária. Historicamente, assim como em outras tantas linguagens artísticas, personagens negros foram estereotipados. Pobre e criminosos quando homens, donas de casa ou personagens extremamente sexualizadas quando mulheres. “É a mulher que existe na narrativa para satisfazer os desejos dos homens, sempre muito provocadora, mas nunca a mulher com quem eles casam”, avalia a doutoranda em Teoria Literária pela UFPE, Adriana Minervina da Silva.

Atualmente ela analisa a construção da subjetividade feminina na obra Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, mas há anos se dedica a pesquisar a representação da mulher negra na literatura brasileira. “É muito importante termos autoras e autores negros que publicam e trazem protagonistas negros em suas obras”, afirma. Para Adriana, é preciso ainda que escritores negros do passado que nunca tiveram sua obra legitimada sejam agora redescobertos e publicados. “É um debate que vai muito da discussão do que é uma obra canônica.”

POETA A Pernambucana Bell Puã começou no slam e agora também publica sua poesia -DIVULGAÇÃO
EDITORA Vagner Amaro é co-fundador da Malê, que publica desde 2016 autores negros – DIVULGAÇÃO/Francisco Jorge
PESQUISA Adriana Minervina é doutoranda em Teoria da Literária na UFPE e se debruça sobre a obra Um Defeiro de Cor – DIVULGAÇÃO
REDES SOCIAIS Maria Ferreira mantém o perfil Impressões de Maria, em que resenha livros com enfoque em raça e gênero – DIVULGAÇÃO

Representatividade e a “escrevivência”

A expectativa para muitos leitores e profissionais do livro é que as iniciativas mais recentes de valorização de autores negros, potencializadas após 2014, reflitam na próxima fase da pesquisa da UnB. Mas, independentemente de dados, há uma percepção empírica de mudança gradual que vem acontecendo por fora das grandes editoras, no mercado mais independente do setor literário, como é o caso da editora Malê.

Fundada no Rio de Janeiro em 2016, a Malê publica autores negros brasileiros e de outros países, como Angola, Moçambique, Senegal e República do Congo, tanto de literatura infantil, juvenil quanto adulta. Vagner Amaro, co-fundador e editor, avalia como o crescimento da Malê pode refletir positivamente nos catálogos de outras editoras. “Em menos de um ano, por exemplo, colocamos no mercado três títulos da escritora Conceição Evaristo. Em um mesmo período em que houve uma ampliação da visibilidade da escritora, isso dá sinais para o mercado. A mudança ainda que tímida, não se deu como uma forma de atender às reivindicações dos autores negros, ela se deu porque a partir do trabalho de editoras como a Malê, outras editoras médias e maiores passaram a dar mais atenção para estes autores”, reflete.

Um ponto de convergência entre iniciativas como a pesquisa de Adriana, a Malê e todos os outros necessários movimentos de valorização de autores negros pode ser traçado a partir do termo “escrevivência”, desenvolvido pela própria Conceição Evaristo. A palavra é usada para denominar uma escrita que nasce da vivência do cotidiano e da memória dos próprios escritores e que se comunica com a vida de tantos leitores. Uma perspectiva individual que carrega simbolismos, dores e sonhos universais.

Para Vagner, esse conceito entretanto se desvencilha do que se entende por autoficção. “Ele dialoga com o conceito de literatura negro-brasileira. Acho renovador, uma vez que as narrativas da literatura brasileira estiveram por muito tempo fortemente ‘umbilicais’. Talvez no futuro pesquisadores vão colocar escrevivência em diálogo com os estudos culturais e com as relações entre pós-colonialismo e literatura, ou até, já estejam fazendo isso”, aponta.

Além de publicar livros, a Malê também atua como agenciadora literária, possui um canal no YouTube, uma revista digital gratuita e um prêmio anual. A última edição, de 2019, contemplou quatro categorias e uma delas – Jovens escritor@s negr@s: Conto e Crônica – foi vencida pela pernambucana Bell Puã com o livro Mama Áfica é Mar Solteira, que será lançado este ano.

Conhecida por fazer parte do Slam das Minas de Pernambuco e por ter representado o Brasil em uma competição internacional de slam na França, ela passou da poesia oral para a escrita de forma muito natural. “Minha experiência na literatura começou, claro, antes de tudo como leitora. Como escritora foi primeiro através do slam, eu nem pensava em publicar, mas tive grandes oportunidades e os caminhos foram se abrindo”, lembra.

Na sua formação de leitora durante a adolescência, autores negros não eram maioria das referências. Mas durante seu processo de identificação como mulher negra, Bell passou a também procurar mais leituras representativas e traz hoje temáticas relacionadas a questões de gênero e raça em sua produção. “Eu consigo falar de muitas coisas, de tudo que eu quiser falar. Mas sem dúvidas esses temas estão comigo, mesmo que de maneira subjetiva. Estão comigo da melhor e da pior forma possível e é importante que eu fale sobre eles sempre que possível”, avalia.

Na busca por livros escritos por autores negros, muitos leitores procuram blogs, perfis nas redes sociais ou “booktubers” cujo foco seja justamente este. A baiana Maria Ferreira é, além de graduada em Letras, dona do perfil do Instagram e do blog Impressões de Maria, que mantém desde 2013, quando estava no último ano do Ensino Médio. Inicialmente, ela resenhava livros sem recorte definido, mas com o passar dos anos suas leituras acompanharam seu próprio processo de amadurecimento enquanto mulher negra.

“Acredito que o trabalho desenvolvido pelos blogs e canais literários ajudam a dar mais visibilidade e fazer com que mais pessoas conheçam e se interessem por essas obras”, diz. Através do perfil na rede social, Maria criou uma rede de leitores interessados em ampliar seus repertórios a partir de sua curadoria e resenhas.

“Diante do atual cenário sociopolítico, a busca por livros que abordem a temática do racismo e desigualdade de gênero é um caminho para que haja mudanças estruturais. Só a partir do momento que se entende o funcionamento do sistema, é que se pode alterar esse sistema, essa estrutura, principalmente sabendo qual lugar ocupamos nessa realidade”, conclui Maria.

Confira 10 livros, entre clássicos e contemporâneos, que abordam o racismo:

MARIA FIRMINA DOS REIS Publicado em 1859, Úrsula é considerado o primeiro romance escrito por uma mulher no Brasil. Maria Firmina dos Reis, negra e maranhense, retrata a história de amor entre Úrsula e Tancredo ao mesmo tempo em que tece fortes críticas à sociedade escravocrata. Ter dado voz a personagens escravizados foi um macro à época. – DIVULGAÇÃO/EDITORA TAVERNA
ANA MARIA GONÇALVES Com quase mil páginas, Ana Maria Gonçalves conta a emocionante história de Kehinde, natural do Benin, que, ainda jovem foi escravizada e levada ao Brasil. Se passa, portanto, no início do século 20, mas foi lançado em 2006. Depois de muito tempo a protagonista consegue voltar à África, já idosa e cega, decide voltar ao Brasil em busca de seu filho. – DIVULGAÇÃO/EDITORA RECORD
NEI LOPES Escritor e compositor, Nei Lopes coloca em pauta o racismo brasileiro no Rio de Janeiro dos anos 1950 através da vida de diversos personagens. É uma viagem por uma década importante para a afirmação da negritude brasileira, publicada em 2015. – DIVULGAÇÃO/EDITORA RECORD
CAROLINA MARIA DE JESUS Esta é a única obra de não-ficção da lista. Lançado em 1960, este livro é o diário da autora, uma mineira radicada em São Paulo que teve pouco acesso aos estudos formais. Através do cotidiano de Maria Carolina de Jesus, é possível entender mais do tecido social da vida em uma comunidade. – DIVULGAÇÃO/EDITORA ÁTICA
PAUL BEATTY Vencedor do Man Booker Prize de 2016, este romance retrada a vida de um jovem negro que, após perder o pai (um sociólogo polêmico) morto pela polícia, decide reinstaurar a segregação racial. Nesta tentativa, ele é levado a julgamento na Suprema Corte dos Estados Unidos. – DIVULGAÇÃO/TODAVIA
HARPER LEE Também lançado em 1960, mas nos Estados Unidos, este romance conta a história de um homem negro acusado de estrupar uma mulher branca na década de 1930 e de como foi julgado a partir de uma sociedade racista. Além de ter vencido o Pulitzer, o livro foi adaptado para os cinemas em 1962 (o filme venceu três categorias do Oscar) – DIVULGAÇÃO/JOSÉ OLYMPO
TONI MORRISON Escrito no início dos anos 1960, O Olho Mais Azul foi lançado em 1970 por Toni Morrison, a primeira mulher negra a ganhar o Nobel de Literatura, em 1993. É a emocionante história de uma família negra e pobre americana, os Breddlove, e como cada integrante sofre com o racismo estrutural na década de 1940, tempo em que é ambientado o livro. – DIVULGAÇÃO/TAG LIVROS
CONCEIÇÃO EVARISTO A pobreza e a violência urbana da quais parte da população negra brasileira é vítima são retratadas nos 15 conto deste livro, com muitas mulheres protagonistas. Foi lançado em 2014 por Conceição Evaristo, um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea. – DIVULGAÇÃO
RALPH ELLISON O romance Homem Invisível é um clássico da literatura norte-americana. Lançado em 1952, retrata a mudança de um jovem begro do Sul para Nova York no início do século 20. Sua cor o torna invisível e, entre fracassos e decepções, a vida do portagonista é uma grande analogia à situação dos negros nos EUA. – DIVULGAÇÃO/JOSÉ OLYMPO
CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE Fenômeno da literatura mundial, a autora nigeriana lançou este que é seu quarto livro em 2013. A protagonista do romance é Ifemelu, uma jovem que emigra para os Estados Unidos com o intuito de cursar faculdade e fugir do regime repressor da Nigéria. Quinze anos depois, ela volta a seu país e reencontra o amor de sua joventude. – DIVULGAÇÃO/COMPANHIA DAS LETRAS

Fonte: JC

Marvel libera gratuitamente HQs em inglês criadas por artistas negros

Entre as edições disponíveis estão “Pantera Negra” e “Deathlok”
Imagem: Divulgação

Texto por UOL, em São Paulo

A Marvel liberou hoje o download gratuito de várias histórias em quadrinhos criadas por escritores e artistas negros. As revistas estarão disponíveis até o fim de junho e apenas em inglês.

“Vozes negras de criadores e personagens são uma parte entrelaçada a história da Marvel. Essas histórias em quadrinhos visam celebrar seus legados, desde décadas atrás ou mesmo este ano”, informou a editora.

Entre as edições disponíveis estão “Marvel’s Voice”, de 2020, “Ironhearth”, de 2018, “Pantera Negra”, de 1998, e “Deathlok”, de 1991.

Para acessar os quadrinhos, baixe o aplicativo “Marvel Unlimited”, disponível para Android e IOs. Clique em “Free Comics” na tela inicial e escolhas suas edições. Nenhuma informação de pagamento ou assinatura necessária, basta escolher e iniciar a leitura.

No Instagram, a editora disse que “este mês, a Marvel Unlimited tem uma seleção digital gratuita de quadrinhos liderados por criadores negros, destacando o trabalho de incríveis escritores e artistas negros”.

Fonte: Livros e HQs – UOL

Deficientes visuais relatam dificuldades com acessibilidade na internet, essencial neste período de isolamento

Navegar pelas redes sociais, acessar serviços e fazer uma compra, por exemplo, podem ser tarefas muito difíceis para essas pessoas, devido à falta de acessibilidade de páginas e sites.

Texto por Beatriz Andreoli e Cassio Andrade, Bom Dia Diário

Pessoas com deficiência visual têm dificuldades no mundo on-line

A internet tem sido uma grande aliada das pessoas neste período de isolamento social causado pela pandemia do novo coronavírus. Porém, nem todo o conteúdo on-line está disponível para usuários com deficiência visual, que, por conta disso, precisam buscar adaptações para também se inserirem nesse universo.

Para muitas pessoas, o mecanismo em uma rede social, por exemplo, é bem simples: basta arrastar a tela e, com dois toques, você consegue curtir uma foto. Atualmente, são muitas as pessoas conectadas em todo o planeta, mas muitas delas ainda encontram dificuldades de acessibilidade na internet.

“O contato para nós também está sendo pela internet. Nós precisamos do acesso remoto a outros espaços, serviços, produtos para podermos conciliar a questão do isolamento social e das relações sociais que precisamos estabelecer. Então a fuga tem sido a internet mesmo, mas a acessibilidade deixa muito a desejar em nosso acesso e em nosso pertencimento a esses espaços”, disse Luciane Maria Molina Barbosa, que é professora de audiodescrição.

Na pandemia, a rede social é, para muitos, a única maneira de conversar com outras pessoas. Não só isso, mas para consumir também.

“Esses dias mesmo fui ligar para uma perfumaria e não conseguia ter acesso ao telefone que estava na imagem. Eu comentei na postagem se poderiam me passar o número, e a mesma perfumaria respondeu que estava na imagem e que era só ver. Então as pessoas não têm muita consciência de que pessoas com deficiência visual também consomem informação, produtos, serviços, e que as mídias precisam estar preparadas. Não basta apenas a tecnologia”, relatou Luciane.

Áudio auxilia Luciane a ter acesso às informações presentes nas redes sociais — Foto: Reprodução/TV Diário

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, no mundo, são 39 milhões de pessoas com algum grau de deficiência visual. Só no Brasil, são 6,5 milhões.

A grande reclamação dessas pessoas é que elas se sentem invisíveis. Por mais que a tecnologia e a inteligência artificial ajudem, elas não conseguem enxergar, com a mesma riqueza de detalhes, as fotos e os vídeos publicados nas redes sociais.

Algumas empresas têm adotado ferramentas para melhorar essa situação, e existe a famosa #PraCegoVer, por meio da qual é feita a descrição de uma foto, por exemplo, para que as pessoas com deficiência visual saibam, com detalhes, o que ela contém.

Edgar Jacques é consultor em audiodescrição e conta que nem sempre um site que é acessível é adaptado para um deficiente visual.

“As plataformas têm duas grandes dificuldades. Elas têm que ter o produto com acessibilidade, que é um filme, por exemplo, com audiodescrição. Mas, para você chegar nele, a plataforma em si precisa ser acessível. O leitor de tela tem que ser capaz de identificar cada passo do seu caminho até o produto. E, dentro do produto, tem que ser possível que a pessoa com deficiência consiga modificar o áudio, a legenda. Ela tem que ter todo o controle disponível para essa tecnologia, que é o leitor de tela”.

Marcos Rodrigues da Conceição também é deficiente visual e ainda está na fase inicial do contato com a tecnologia. Por enquanto, ele precisa da ajuda da filha ou da sobrinha para fazer algumas coisas. “Faltam lugares que nos ajudem a aprender. Aqui no Alto Tietê, são poucos lugares que têm associação que possam ensinar, por exemplo”.

Para avaliar a acessibilidade de sites brasileiros, o “Movimento Web para Todos” pesquisou 14 milhões de sites e mostrou que apenas 0,74% são totalmente acessíveis. Entre as falhas mais comuns estão os links. Entre os portais avaliados, 83,56% tinham esse tipo de problema em 2019. Neste ano, o número subiu para 93,65%.

“Eu imagino que a acessibilidade na internet, assim como no cinema, no teatro, na televisão, vai passar a ser vista como um direito essencial para aquele setor quando as empresas passarem a ver as pessoas com deficiência como consumidoras, quando tiverem ali em seus estudos, em seus planejamentos a pessoa com deficiência visual como uma consumidora em potencial”, opinou Edgar.

Fonte: G1

Racismo e literatura: Escritoras dão voz à herança africana no Brasil

 

A poetisa Dinha é uma das autoras negras brasileiras que refletem, por meio de suas obras, os impactos do racismo silenciado no país

O Brasil é o país com o maior número de afrodescendentes no mundo. No entanto, sua herança africana tem sido oficialmente relegada há décadas, e o racismo, silenciado.

Hoje, várias autoras brasileiras estão buscando mudar esse quadro, desde escritoras de ficção consagradas, como Conceição Evaristo, passando pela poetisa underground Dinha, à contadora de histórias infantis Avani Souza Silva. Dar voz à cultura africana no Brasil e combater a discriminação racial é o compromisso literário dessas mulheres.

Negra e periférica

Dinha – apelido da escritora Maria Nilda de Carvalho Mota – define-se como uma “mulher negra e periférica” que encontrou na literatura um refúgio onde “ninguém pode calar” sua voz.

Sua poesia, segundo suas próprias palavras, é um alto-falante para justificar a história do povo afro-brasileiro, condenado ao “silêncio” e reduzido à “escravidão” em um país de 210 milhões de habitantes, onde mais da metade da população é negra.

Dinha passou boa parte de seus 42 anos denunciando “um genocídio contra a população negra”. Enquanto estudava Letras na Universidade de São Paulo (USP), Dinha fez parte de movimentos sociais ligados à cultura hip hop na periferia de São Paulo e encontrou uma situação “horrível” e “vergonhosa” em relação à falta de estudos sobre literatura africana e afro-brasileira no currículo da faculdade.

A consciência desse déficit a marcou para sempre. “Sei que escrever não é suficiente, mas é uma parte importante da formação do imaginário social”, disse.

Em seu último livro de poemas, “Maria do povo” (Edições Me Parió Revolução, 2019), ela quis homenagear “pessoas comuns”, sem deixar de lado questões de gênero, raça e classe, que são sempre pontos fundamentais em sua obra.

Em 2015, ela publicou um livro que a colocou no radar da poesia independente e a tornou uma referência no movimento negro: “Zero a Zero: 15 poemas contra o genocídio da população negra”, no qual denuncia a violência machista e policial.

Segundo a poetisa, as primeiras conquistas na luta contra o racismo foram deixar de lado “a visão eurocêntrica” e deixar de “resumir a escravidão” à história dos povos africanos e seus descendentes “no Brasil e no mundo”.

Contos africanos

Avani Souza Silva, 67 anos, é autora de “A África recontada para crianças” (Martin Claret Editora, 2020).

O livro ilustrado, que acaba de ser lançado, traz fábulas contadas nos cinco países africanos de língua portuguesa (Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné Bissau, Moçambique e Angola) com o objetivo de trazer à população brasileira a cultura africana “que sempre foi esquecida” no Brasil.

Um exemplo é o “Ti Lobo”, de Cabo Verde, muito diferente do animal feroz pintado em fábulas europeias. Esse lobo africano alimenta-se de figos e é uma figura alegórica da seca e da fome que assolou o arquipélago durante gerações.

“A formação étnica do povo brasileiro é composta por três povos: o europeu, o africano e o indígena”, mas, em contraste, nas escolas do país “a história e a literatura da Europa sempre foram estudadas”, afirmou ela. Por outro lado, acrescentou, “basta olhar para os brasileiros” para perceber que “o brasileiro é negro” e “africano”.

Avani contou ainda que, antes de chegar à USP, onde se formou em Letras Clássicas e Vernáculas, “não tinha contato com o continente africano” e “sequer lido nenhum autor africano”, algo comum entre “a maioria do povo brasileiro”.

No entanto, ela acredita que, nos últimos anos, o Brasil deu um “grande passo” após aprovar duas leis, em 2003 e 2008, que tornaram obrigatório o ensino de história e cultura africana e indígena nos programas de educação básica do país.

Apesar de ainda ser uma realidade “muito incipiente” nas escolas brasileiras, que carecem de material didático e investimento na formação de professores, ela se mostra convicta da necessidade de divulgar as culturas africanas e indígenas para combater o racismo.

“Respeitá-la (literatura africana), amá-la, perceber a identidade cultural que temos com alguns países africanos é muito importante” para “ter mais tolerância”, declarou.

De empregada doméstica a escritora premiada

Afrobrasilidade, raça, gênero e classe também são temas que preencheram as páginas da obra de Conceição Evaristo, ex-empregada doméstica que se tornou um ícone do movimento negro no Brasil antes mesmo de receber o prêmio Jabuti em 2019.

Entre suas obras mais conhecidas está o romance “Ponciá Viencio” (Mazza, 2003), onde a escritora narra a trajetória de vida de uma jovem negra e pobre mulher em busca de sua identidade.

“Faço parte de uma geração que, na escrita, busca muito a afirmação de uma identidade negra” e “conta com orgulho essa identidade”, disse a escritora, de 74 anos, em entrevista ao centro Itaú Cultural.

Através da literatura, ela pretende revelar sua “subjetividade como mulher negra na sociedade brasileira” e “lutar para criar textos que se distanciem da literatura que nos estereotipa”.

Ao criar “outro imaginário” que se distancia da “ideologia que a sociedade” tem da população negra, a escritora defende que a principal função de sua obra é atuar como “vigilante”.

*Com EFE

Fonte: Jovem Pan

Os autores negros como maiores representantes da literatura brasileira

Vagner Amaro
Imagem: Francisco Jorge

Texto por Rodrigo Casarin

Em novembro do ano passado, publiquei uma entrevista com Vagner Amaro sobre o trabalho que e o editor faz à frente da Malê, casa especializada em literatura afro-brasileira. Na ocasião, ele comentou como encara a história dos nossos escritores negros: “Esta trajetória não acontece na literatura brasileira, esta trajetória é a literatura brasileira, se iniciando com o negro Teixeira e Sousa, primeiro romancista brasileiro, com a negra Maria Firmina dos Reis, primeira romancista brasileira, passando pelo negro Paula Brito, importantíssimo editor brasileiro do século 19, passando pelo negro Machado de Assis, maior escritor brasileiro…”.

Com os embates antirracistas tomando as ruas do mundo, voltei a conversar com Vagner para nos aprofundarmos nesse ponto: a presença de autores negros ao longo da história literária nacional. O editor lembra do “Panorama Editorial da Literatura Afro-Brasileira Através dos Gêneros Romance e Conto”, estudo feito pelos pesquisadores Luiz Henrique Silva de Oliveira e Fabiane Cristine Rodrigues, para indicar números que espantam e ao mesmo tempo escancaram o racismo sistêmico: entre 1859 e 2016 foram publicados comente 61 romances de autores negros, enquanto entre 1839 e 2016 saíram apenas 88 livros de contos de autores negros. A pesquisa pode ser lida aqui.

Vagner aponta que essa estrutura racista produz silenciamentos e foi pouco discutida ao longo do tempo, mas começou a ser desfeita com a chamada geração Cadernos Negros, referência à clássica publicação de poetas afro-brasileiros lançada em 1977. Apesar das adversidades, ele ressalta: enxerga a literatura negra brasileira como a mais representativa de nosso país: “Na maioria dos casos, ela é mais brasileira do que todo o resto que é produzido. Isso no sentido de ser feita por representantes literários descendentes dos povos que mais marcaram a cultura brasileira, com suas visões de mundo, tecnologias, línguas, ritmos e tantos outros conhecimentos. coletividade e em grandes temas. Mais brasileira porque o Brasil é um país de pobres e boa parte dos escritores negros foram e, ou, são pobres – o que vem garantindo possibilidades mais interessantes de representação do pobre, do povo, assim como do outro que é o rico. A cultura brasileira, como a entendemos hoje, é essencialmente negra. Então, quanto mais negra for a nossa literatura, mais brasileira ela será”.

Para o editor, essa visão se estende a todos os autores que fazem uso da cultura negra nacional em seus textos. E, olhando para um dos maiores fenômenos recentes de nossa literatura, diz encarar o crescente sucesso de Conceição Evaristo menos como um descobrimento da autora e mais como um reconhecimento de leitores que se enxergam na obra da mineira. “É o Brasil que lê literatura, recompondo seu espelho e voltando a se enxergar”.

Guia de leitura

Também retomei o papo com Vagner porque, na última ocasião, uma pergunta tinha ficado de fora da edição da entrevista devido ao tamanho e à complexidade da resposta. Estava claro que o tema da questão mereceria ser tratado com calma em outra oportunidade. Quis saber dele o seguinte: Para quem quiser mergulhar na história da literatura negra, quais são os títulos e autores que você considera fundamentais? Seria possível falar numa espécie de cânone literário negro?

O editor dispensou a ideia canônica; não ajudaria a compreender a situação da autoria negra no Brasil. Preferiu falar na trajetória desses escritores, como lembrei há pouco. E deu muitas dicas. Para começar, recomendou quatro livros para quem deseja refletir: “Literatura Negro-brasileira”, de Cuti (Selo Negro), “Brasil Autorrevelado”, de Miriam Alves (Nandyala), “Literatura Afro-brasileira: 100 Autores do Século 18 ao 21”, de Eduardo de Assis Duarte (Pallas), e “Negrismo”, de Luiz Henrique Silva de Oliveira (Mazza). Além disso, deixou uma lista para quem quiser se aprofundar nesse universo:

“A Cor da Demanda”, de Éle Semog (Malê).

“A Lei do Santo”, de Muniz Sodré (Malê).

“Carro do Êxito”, de Oswaldo de Camargo (Córrego).

“Casa de Alvenaria”, de Carolina Maria de Jesus (Lebooks).

Clara dos Anjos, de Lima Barreto (Penguin/ Companhia das Letras).

“Com A Palavra Luiz Gama” (Imprensa Oficial).

“Contos Escolhidos”, de Cuti (Malê).

“Correntezas e Outros Estudos Marinhos”, de Lívia Natália (Ogum’s Toques Negros).

“Enquanto os Dentes”, de Carlos Eduardo Pereira (Todavia).

“Estação Terminal”, de Sacolinha (Nankin).

“Estela sem Deus”, de Jefferson Tenório (Zouk).

“Gosto de Amora”, de Mário Medeiros (Malê).

“Insubmissas Lágrimas de Mulheres”, de Conceição Evaristo (Malê).

“Leite do Peito”, de Geni Guimarães (Mazza).

“Maréia”, de Miriam Alves (Malê).

“Não Pararei de Gritar”, de Carlos de Assumpção (Companhia das Letras).

“Mural de Ventos”, de Salgado Maranhão (José Olympio).

“Negra Nua Crua”, de Mel Duarte (Ijumaa).

“O Caçador Cibernético da Rua Treze”, de Fábio Kabral (Malê).

“O Crime do Cais do Valongo”, de Eliana Alves Cruz (Malê).

“Oliveira Silveira: Obra Reunida” (Corag).

“Poemas Antológicos de Solano Trindade” (Nova Alexandria).

“Sobre-viventes”, de Cidinha da Silva (Pallas).

“Terra Negra”, de Cristiane Sobral (Malê).

“Úrsula”, de Maria Firmina dos Reis (Fora do Ar).

“Vozes Guardadas”, de Elisa Lucinda (Record).

“Zanga”, de Davi Nunes (Segundo Selo).

Fonte: Página Cinco – UOL

A genialidade — e a melancolia — de Lima Barreto, um dos maiores nomes da literatura brasileira

Barreto enfrentava sérios problemas com o alcoolismo e teve um triste fim; sendo impedido de ver o sucesso de suas obras

Texto por Penélope Coelho

Lima Barreto, em 1917 – Wikimedia Commons

“Não é só a morte que iguala a gente. O crime, a doença e a loucura também acabam com as diferenças que a gente inventa”, a frase dita pelo escritor e jornalista Afonso Henrique de Lima Barreto, representa significativamente sua luta e também os últimos anos de sua vida.

Barreto tem uma trajetória de extrema importância para a literatura nacional no século 20, sendo um exímio escritor romancista, tratava de assuntos como o preconceito, racismo e problemas sociais. O autor não teve o reconhecimento que merecia em vida e suas obras ficaram conhecidas somente 20 anos depois da morte.

Triste infância

Em 13 de maio de 1881, no Rio de Janeiro, nascia Lima Barreto, de família humilde, o homem era descendente de escravos e desde cedo já enfrentava preconceitos. Ainda criança, sofreu uma grande perda em sua vida diante do falecimento precoce de sua mãe, uma professora primária.

Seu pai lutou com todas as forças para conseguir criar os filhos, mas, foi acometido por uma doença mental e acabou enlouquecendo, isso fez com que ainda muito jovem, Barreto se tornasse um dos responsáveis pela sua casa e uma referência para os seus três irmãos. Contrariando as estatísticas, ele se matriculou na Escola Politécnica, no curso de Engenharia, mas, abandonou a faculdade para se dedicar à sua família.

Início da carreira e alcoolismo

Apesar de contribuir para jornais desde a faculdade, Lima fez sua primeira grande aparição como jornalista em abril de 1907, quando escreveu algumas sátiras para a antiga revista Fon-Fon. Mas, a verdade é que o escritor já se dedicava há um tempo para a literatura.

O autor tratava de temas socioeconômicos e costumava evidenciar histórias de personagens negros. Em 1904, ele começou a escrever a primeira versão de seu romance Clara dos Anjos, abrangendo questões sobre a escravidão no Brasil, onde a jovem Clara, uma mulher negra, se envolve com um homem branco. O escritor não chegou a ver esse livro publicado.

Em 1911, Lima escreveu rapidamente aquela que viria a ser uma de suas maiores obras: O Triste Fim de Policarpo Quaresma — um romance do pré-modernismo considerado um dos principais representantes desse movimento. Essa história foi levado ao público pela primeira vez no formato de folhetim, para depois se tornar um livro.

Em suas escritas críticas o artista demonstrava muita personalidade, mas, em sua vida pessoal o homem vinha enfrentando sérios problemas. Em 1912, ele continuava colaborando com a imprensa, no entanto, começou a apresentar alguns episódios de alucinação e depressão ao mesmo tempo em que abusava do uso de álcool.

Em 1914 foi internado no manicômio conhecido como Hospital Nacional dos Alienados. Por um tempo, Barreto conseguiu proceder com a escrita e chegou a ver a publicação de O Triste Fim de Policarpo Quaresma, em 1915, para isso, ele tirou dinheiro do próprio bolso.

Busto de Lima Barreto no Rio de Janeiro / Crédito: Wikimedia Commons

O Triste Fim de um gênio

Seus dias finais foram extremamente solitários, o homem acabou se aposentando precocemente em 1918, já que não tinha mais condições de escrever como jornalista. O fantasma do alcoolismo e a depressão ainda estavam presentes em sua vida e a saúde do autor estava cada vez pior.

Em 1919, após uma série de crises nervosas, foi internado no manicômio novamente, essa triste experiência rendeu mais uma de suas obras: Cemitério dos Vivos, na qual o relata a realidade e a rotina que ele vivenciou no hospício. Devido ao uso exacerbado do álcool, o jornalista desenvolveu alguns problemas de saúde. Acabou morrendo sozinho em sua casa, no bairro de Todos os Santos, Rio de Janeiro.

Isso aconteceu no primeiro dia de novembro do ano de 1922, em decorrência de um ataque cardíaco. Seu pai faleceu apenas dois dias depois do filho e eles foram sepultados no cemitério de São João Batista.

A maioria de suas obras foi publicada após sua morte, nas décadas de 1940 e 1950, diante de uma extensa pesquisa encabeçada pelo biógrafo Francisco de Assis Barbosa. Mesmo que não tenha visto seus textos se tornarem grandes clássicos nacionais, Lima Barreto é um dos maiores nomes da literatura brasileira.

Sem medo de falar sobre preconceito e problemas sociais enfrentados por negros e mulatos, o autor é um dos grandes representantes dessa luta, em uma época onde o assunto não era evidenciado.

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Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto (2018) – https://amzn.to/3fi7Srw

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Fonte: Aventuras na História

Live “Bibliotecas prisionais: a realidade do livro e da leitura nas prisões de Portugal”

Nossa Comissão Brasileira de Bibliotecas Prisionais (CBBP) promove nesta webinar uma conversa com a bibliotecária portuguesa Maria José Vitorino, que é mestre em Ciências da Educação e coordena inúmeros projetos de leitura em bibliotecas escolares e prisionais. A mediação fica por conta de Catia Lindemann, Presidente da CBBP.

A (falta de) diversidade no mercado editorial brasileiro

O Podcast do PublishNews conversou com Vagner Amaro, editor da Malê, sobre a presença de autores e editores negros no mercado editorial brasileiro e em eventos literários e sobre importância dos livros abordarem a cultura afro-brasileira

Texto por Talita Facchini 

No dia 25 de maio, o afro-americano George Floyd morreu nos EUA depois que o policial Derek Chauvin, se ajoelhou sobre seu pescoço por sete minutos enquanto ele estava deitado de bruços. Esse triste episódio desencadeou inúmeras manifestações em diversos países e levantou mais uma vez a questão do racismo, assunto que nunca deveria ter saído de pauta.

Trazendo o tema para o mercado editorial, em 2014, dos livros publicados apenas 2,5% dos autores não eram brancos. Dos personagens retratados nos romances apenas 6,9% eram negros e só 4,5% eram protagonistas. Neste mesmo ano, segundo o IBGE os negros representavam 54% da população brasileira. Uma fotografia da força de trabalho da indústria do livro pode ser bem parecida com esta: a maioria dos trabalhadores de editoras e livrarias é composta por pessoas brancas. Para conversar sobre o assunto, o podcast desta semana ouviu Vagner Amaro, fundador da editora Malê.

Inaugurada em 2016, a Malê busca dar visibilidade a autores africanos e afro-brasileiros e desde então, algumas coisas mudaram no cenário editorial brasileiro. “A Malê surge em 2016, em um momento que outras vozes também estavam se colocando em relação a essa desigualdade tão grande no mercado editorial, então é o trabalho da Malê, junto com o trabalho de outras pequenas editoras que foram surgindo”, contou Vagner. “Em um certo momento, um grupo de intelectuais negros resolveu intensificar esse debate em relação a desigualdade e eu acho que de fato surgiu efeito”, definiu.

Para Vagner, um dos grandes problemas do que ele definiu como um “sistema literário da autoria negra” é que os livros não circulavam. “Eles não estavam nas livrarias, não estavam sendo distribuídos, eles não participavam dessas reuniões de compras e não eram inscritos nos prêmios”, explicou, algo que mudou com o trabalho das editoras como a Malê nos últimos anos.

Sobre a falta de diversidade no mercado de trabalho, Amaro tocou num ponto importante. “Se a gente for pensar na quantidade de editores negros atuantes no Brasil, é um número muito reduzido, não chega a 10 editores”, alertou. “E esses editores que empreenderam as empresas onde trabalham, ou seja, eles não foram absorvidos pelo mercado”, algo que segundo ele só comprova essa desigualdade. “As pessoas que estão pensando o mercado editorial não são negras”, concluiu.

A inclusão dos autores negros nos eventos literários também foi tema da conversa. Amaro lembrou da importância que a Flip de 2017 teve para a Malê e para os autores negros e falou o que tanto mudou nos últimos anos nas feiras literárias com relação a presença de autores negros e de editoras que publicam autores negros. “O que eu comecei a observar, muito atento em relação a isso, é como se o evento, a Flip, tivesse comunicado algo que os curadores entenderam que era essencial e passaram colocar isso nas suas programações”, lembrou.

A conversa com Amaro rendeu: a importância dos livros infantis abordarem a cultura africana e afro-brasileira, os problemas estruturais do mercado, e outros temas relacionados foram discutidos a fundo.

E o que as editoras podem fazer para mudar o mercado, além de somente se posicionar nas redes sociais? “Contratem pessoas negras”, resumiu Amaro. “Contratem pessoas negras, investiguem, pesquisem sua equipe e contratem pessoas negras. Quem é que avalia originais dessa editora? Tem alguma pessoa negra ai? Contrate uma pessoa para essa equipe. Quantos editores existem nessa equipe? Tem alguma pessoa negra? Contrate uma pessoa. As livrarias: na sua equipe de gerentes da sua rede de livrarias, quantos negros são gerentes? Contrate negros para serem gerentes das livrarias. No corpo da CBL, quantos membros fazem parte? Contratem negros para isso. Quantos negros fazem parte do time que pensa a Bienal de São Paulo? Contrate negros”, finalizou.

O Podcast do PublishNews é um oferecimento da Metabooks, a mais completa e moderna plataforma de metadados para o mercado editorial brasileiro, da UmLivro, novo modelo de negócios para o mercado editorial: mais livros e mais vendas, e da Auti Books, dê ouvidos a sua imaginação, escute Audiobooks. Você também pode ouvir o programa pelo Spotify, iTunes, Google Podcasts, Overcast e YouTube.

Indicações

Pequeno manual antirracista (Companhia das Letras) – Djamila Ribeiro

Queer eye – Netflix

Pose – Netflix

Grupo de literatura contemporâneo

Portal Literafro UFMG

Biografia Carolina Maria de Jesus (Malê)

Hollywood – Netflix

Bucala David Nunes – Netflix

Eu não sou seu negro – Globosat

O quarto de Giovanni (Companhia das Letras) – James Baldwin

Fonte: PublishNews

“É preciso priorizar a acessibilidade para que mais pessoas e empresas tornem seus conteúdos acessíveis”, diz especialista

Isa Meirelles é criadora de conteúdos. Foto: Arquivo pessoal.

Isa Meirelles enxerga o mundo pela perspectiva de apenas um olho desde pequena e sempre foi bastante independente. Pra você entender o contexto: ela nasceu com glaucoma congênito nos dois olhos e, depois de algumas cirurgias e transplantes, conseguiu recuperar 100% do olho direito e perdeu a visão do esquerdo. Hoje é criadora e apoiadora de novas narrativas, como ela conta em seu site.

“Acredito que a gente não precisa dizer ok pra todos padrões que um dia alguém nos disse que eram corretos. A gente não precisa agradar a sociedade para ela nos incluir. Se você der uma fuçada nas minhas redes, vai descobrir que eu não acredito nas heroínas como salvação do mundo. Aposto que o mundo está carente de líderes que empoderem pessoas ao seu redor”, afirma.

Isa nasceu em São José dos Campos (SP) e vive na capital paulista desde 2012, ano em que começou a cursar a faculdade de Relações Públicas na Escola de Comunicações e Artes da USP. “Foi o lugar que fiquei para trabalhar e que virou a cidade do meu coração!”, diz.

A aproximação dela com a acessibilidade aconteceu após sua formatura, quando iniciou seu trabalho em um grande banco e conviveu com várias pessoas com diferentes deficiências. “Nessa época, percebi as enormes barreiras de acessibilidade que existiam dentro e fora do ambiente de trabalho, principalmente em relação à comunicação. Foi aí que percebi minha limitação, enquanto comunicadora, para incluir pessoas com deficiência nos processos comunicativos. Eu não havia aprendido sobre acessibilidade na comunicação, sequer considerado a possibilidade de existência das pessoas com deficiência como seres comunicantes”, confessa.

Sempre criativa e dinâmica, a criadora de conteúdos transita em diversos ambientes e usa bastante as suas redes por uma comunicação cada vez mais acessível. Hoje, ela é também uma das embaixadoras do Movimento Web para Todos, engajada em diversos projetos. Entre eles, é uma das fundadoras do coletivo “Quem São Elas?”, uma comunidade que busca soluções para uma moda e beleza mais diversa e representativa e da @redesign, uma plataforma de Design Inclusivo. 

Conversamos com Isa sobre acessibilidade digital, seus desafios como pessoa com baixa visão, dúvidas frequentes sobre o assunto e as barreiras que fazem parte da rotina como profissional que luta para que ela seja aplicada nas empresas e na sociedade em geral.

Movimento Web para Todos – Como é a sua relação com o tema acessibilidade digital? A partir de quando começou a se atentar para ele, a trabalhar e a ser ativista na área?

Isa Meirelles – Depois que detectei minha falha em comunicar com acessibilidade com os diversos públicos, fui atrás de tudo relacionado à acessibilidade e suas relações com comunicação. Fiz curso de moda inclusiva, audiodescrição, curadoria e expografia acessíveis e tecnologias acessíveis. Foi nesse contexto que conheci a acessibilidade digital por meio do Movimento Web Para Todos, que me abriu o horizonte sobre a enorme exclusão tecnológica da sociedade e como a própria tecnologia possuía os recursos para a inclusão de todas as pessoas, independentemente de suas deficiências.

Percebi que faltavam informações de forma ampla, as pessoas perto de mim sequer sabiam da existência desse universo da acessibilidade, e eu precisava fazer algo. Foi então que eu comecei a usar minhas redes sociais, principalmente meu perfil no Instagram (@isa.meirelles) para divulgar e incentivar as pessoas a conhecer a acessibilidade digital e praticá-la.

Movimento Web para Todos – Quais são as dúvidas mais frequentes que recebe quando o assunto é acessibilidade digital?

Isa – Primeiro de tudo, o pessoal quer saber o que é acessibilidade. Então é preciso dar uma contextualizada no tema para as pessoas. As dúvidas mais comuns são em torno das redes sociais, como usar a hashtag #PraCegoVer, como colocar texto alternativo, e também existem muitas dúvidas sobre como as pessoas cegas, por exemplo, acessam esses conteúdos. Daí eu tento explicar sobre o uso das tecnologias assistivas, como o leitor de telas.

Movimento Web para Todos – Como você lida com a baixa visão? Quais desafios você encontra na web, em relação às barreiras de navegação?

Isa – Como eu tenho o olho direito funcionando 100%, quando uso óculos de grau, claro, tenho poucas barreiras de navegação hoje em dia. Antigamente era beeem mais complicado porque eram poucos sites que possuíam a lupa de zoom. Hoje ainda tenho dificuldades com sites com letras pequenas e com pouco contraste –  é uma realidade que existe bastante, infelizmente.

Movimento Web para Todos – O que é preciso fazer hoje para que mais pessoas e empresas tornem seus conteúdos acessíveis?

Isa – Primeiro de tudo, priorizar o assunto. Ainda é muito difícil defender a importância e o impacto da acessibilidade para a sociedade de uma forma ampla, porque a desculpa mais comum é sempre: não me relaciono com pessoas com deficiência ou não tenho clientes/ funcionários com deficiência. Por que gastar com acessibilidade?

Essa é a mentalidade que a gente tem que transformar: trocar “gasto” por “investimento”. Mesmo porque acessibilidade é prevista na Lei Brasileira de Inclusão (LBI). Então, além de tudo, é uma obrigação legal.

Nosso trabalho como criadores de conteúdo e influenciadores sobre o tema é transformar esse pensamento e fazer a acessibilidade digital ser uma realidade no Brasil e no mundo.

Movimento Web para Todos – Você trabalha bastante a sua própria comunicação para conscientizar outros comunicadores com a comunicação acessível e inclusiva. Como é esse processo, os desafios e a importância de atuar nesse tema? 

Isa – Tem vezes (muitas vezes) que eu desanimo (risos), porque você tem que bater na tecla o tempo todo e justificar a importância, mas acredito que é o único caminho possível –  o da divulgação e da educação pra gente formar cada vez mais comunicadores conscientes da acessibilidade. E nós estamos evoluindo. Vejo muitos jovens, os famosos geração Z, que têm outra postura diante do assunto e se interessam pelo tema. Além de tudo, as redes sociais favoreceram muito esse processo, pois possibilitam que as pessoas tenham mais contato com a diversidade e também com a acessibilidade.

Movimento Web para Todos –  O que você diria pra quem está começando a se atentar para isso? Como ser um comunicador mais ativo nesse sentido e quebrar as barreiras de se expor?

Isa – Não tenha medo de começar. Esse é o conselho que de primeiro eu dou para as pessoas, porque acredito muito que o que realmente importa é a intenção de querer ser mais acessível pra gente evoluir no tema e a acessibilidade digital se transformar em uma prática no país.

Algumas dicas práticas que costumo orientar: comece a descrever as imagens nas redes sociais, use legendas quando puder, opte sempre por fontes maiores e com contraste com o fundo e, quando tiver dúvida, pergunte para as pessoas se aquele conteúdo é acessível, como ele pode ser melhorado. Eu sou uma grande incentivadora de primeiros passos, pois é melhor fazer uma pequena ação do que não fazer nada.

Fonte: Movimento Web Para Todos

Revista do Senado abre seleção de artigos sobre equidade e acessibilidade

Texto por Comunicação Interna

Os autores devem enviar os textos até 28 agosto e artigos serão publicados na primeira edição de 2021
Agência Senad
Fonte: Agência Senado

A Revista de Informação Legislativa (RIL), editada pelo Senado, iniciou segunda-feira (1º) chamada especial de artigos sobre equidade de gênero, equidade de raça e acessibilidade. Os autores devem enviar os textos até 28 agosto para o e-mail ril@senado.leg.br. Informações completas sobre a chamada estão disponíveis em www.senado.leg.br/ril/como-publicar.

Publicada ininterruptamente desde 1964 para divulgação de artigos inéditos de direito, ciência política e relações internacionais, a RIL é avaliada pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) como A2 — a segunda melhor nota — na área do direito.

​Segundo o chefe do Serviço de Publicações Técnico Legislativas, Raphael Melleiro, o tema da chamada levou em conta o inciso IV do artigo 3º da Constituição Federal, segundo o qual a promoção do bem de todos, “sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”, é um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil.

— A missão da revista é contribuir para a análise dos grandes temas em discussão na sociedade brasileira e, consequentemente, em debate no Congresso Nacional. Em nosso planejamento editorial, consideramos o tema equidade e inclusão muito oportuno, tanto pela relevância para a sociedade, quanto por estar alinhado com as inciativas da direção da Casa.

Os artigos selecionados serão publicados na primeira edição da RIL em 2021. Como a chamada é para uma edição regular da revista, os requisitos para a submissão de textos incluem titulação mínima, que exige dos autores e coautores dos artigos pelo menos o mestrado concluído, ressalta Raphael. Os artigos aprovados pelos pareceristas, mas não selecionados para essa edição, poderão ser publicados em edições posteriores da revista, após consulta aos autores.

Fonte: Agência Senado

Por uma biblioteconomia decolonial

Texto por Ueliton dos Santos Alves

A proposta desse texto é contribuir com a discussão das teorias decoloniais dentro do campo da Ciência da Informação e Biblioteconomia, na figura da professora doutora Maria Aparecida Moura peço a benção e licença a todas/os que vieram antes, e também a todas/os que agora estão propondo esse debate1.

Figura 1 Joaquín Torres-García – América Invertida.1943

Para pensar decolonialidade é preciso antes conhecer o que é colonialidade. Segundo Aníbal Quijano (2014), a colonialidade trata sobre a constituição de um padrão de poder que não se restringe às questões formais de exploração ou dominação colonial, trata-se de uma ideia que envolve também as diversas formas pelas quais as relações intersubjetivas se articulam a partir de posições de domínio e subalternidade. A colonialidade pode então, ser lida como uma prática que através da ciência moderna/colonial produziu um modelo único, universal e objetivo tendo como referência a Europa.

Um pouco da história dos Estudos Decoloniais

Na década de setenta, formava-se no sul asiático o Grupo de Estudos Subalternos, cujo principal projeto era analisar criticamente a historiografia da Índia feita por ocidentais europeus e também a historiografia eurocêntrica produzida por indianos. A partir dos movimentos insurgentes dos intelectuais indianos desdobra-se nos países que compõem o bloco chamado de Latino Americano um manifesto que apontava para a necessidade de uma releitura das narrativas nacionais, capaz de detectar a ausência de representações da ação e de narrativas das comunidades subalternas, destacadamente ameríndias e de matriz africana.

Figura 2″E para salvar o país, Cristo é ex-militar” (2018), Maxwell Alexandre

É nesse contexto que se dá a constituição do Grupo Modernidade/Colonialidade no final dos anos 1990, que atualmente leva o nome de Modernidade/Colonialidade/Decolonialidade (CMD). Segundo Arturo Escobar (2003), o CMD tem como principal força orientadora uma reflexão continuada sobre a realidade cultural e política latino-americana, incluindo o conhecimento subalternizado dos grupos locais. Para o autor, trata-se de um movimento teórico-metodológico que acabou dando origem à escola de pensamento latino-americana denominada de Estudos Decoloniais, e que alguns autores também chamam de Giro Decolonial (BALESTRIN, 2013)

A prática bibliotecária e a decolonialidade

Quando se discute sobre a função da bibliotecária/o, existe um papel central no desenvolvimento de suas atividades, independente de qual área vai escolher atuar. Ao fazer a escolha para o curso na Universidade de São Paulo, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP-USP) me deparei com a seguinte definição:

O curso está inserido na área de Ciências Sociais Aplicadas e visa formar profissionais da informação aptos para atuarem de forma crítica, ética e humanista nos diversos segmentos do mercado no que concerne ao planejamento, execução e avaliação de atividades inerentes à implantação, gerência e desenvolvimento de unidades de informação, bem como a compreensão dos processos socioculturais relacionados à produção, circulação e apropriação da informação. Para tanto, o profissional formado no curso torna-se apto a aplicar conceitos e práticas na gestão, armazenamento, organização, distribuição e preservação da informação. (BIBLIOTECONOMIA E CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 2020, grifo nosso)

Ao me deparar com a possibilidade de ser um profissional que atuaria de forma crítica, ética e humanista, senti que essa poderia ser a profissão para minha vida, mas ao longo do meu contato com a academia e com minha área de atuação, senti que o aspecto que mais teria que desenvolver, era senso crítico. Na medida em que desenvolvi minha consciência social e racial, tudo isso enquanto me “formava”, e depois quando passei a atuar como bibliotecário, foi possível notar que infelizmente o campo profissional ao qual tinha escolhido, ainda tinha essas discussões como fator secundário, uma vez que, toda sua base epistemológica se estruturava a partir de uma visão eurocêntrica.

Ao identificar a isso, instalou-se uma contradição que me fez repensar enquanto profissional: estaria eu, perpetuando uma narrativa única baseada em ideias opressoras? Como romper com essa lógica?

Tais questionamentos me levam de encontro as teorias decoloniais, ao entender sua proposta passo a pensar na possibilidade de aplicá-la em minha prática bibliotecária. O exercício de relacionar as teorias decoloniais com a área da Biblioteconomia e Ciência da Informação me reconectou com a descrição que me fez sentir estar escolhendo a profissão certa. A decolonialidade me apresentou a necessidade de romper com uma narrativa única, a partir disso, repenso toda a narrativa da história de organização e disponibilização do conhecimento.

Figura 3Foto retirada da página do Slam da Guilhermina no facebook

É a partir desse novo olhar que os convido a pensar como os slams, que são batalhas de poesia falada, podem ser considerados manifestações artísticas culturais para incorporar a nova ideia de conhecimento disponível em uma biblioteca, considero-o a materialização da fusão entre a biblioteca e a tradição da oralidade, os slamers através de suas performances, mixam o ato de informar com a arte de contar história, resultando em uma junção que promove um novo cenário cultural, que ainda tem espaço para crescimento, que movimenta e altera uma visão restrita do que é conhecimento2.

Atividades como o slam exemplificam as diversas outras que podem ser vistas como parte do acervo de uma unidade de informação, é uma prática que surge de maneira orgânica que na maioria das vezes ocorre em espaços abertos, como praças, mas que pode ser adotada como uma tática para trazer novos conhecimentos e consulentes para biblioteca.

Uma biblioteca ao abrir seu espaço para movimentos que surgem do público estão rompendo com uma lógica colonial de enxergar a periferia como um espaço que necessita acessar a cultura que vem da academia, que na atualidade é considerada o centro do da produção de conhecimento, aderir atividades como o slam é reconhecer que a periferia é capaz de produzir sua própria epistemologia.

Autores que fundamentam os estudos decoloniais apresentam pesquisas que demonstram que a produção e o controle de informação são instrumentos fortalecedores de uma sociedade baseada na colonialidade. Para Anibal Quijano, um grande intelectual da teoria decolonial, “A colonialidade se reproduz em uma tripla dimensão: a do poder, do saber e do ser.” O monopólio sobre determinados conhecimentos possibilita a constituição de uma narrativa única, tal narrativa pode ser usada para justificar atrocidades como a colonização de outros povos. Esse tipo de monopólio, Quijano vai chamar de colonialidade do saber, que na interpretação de Santos (2007), em linhas gerais é uma narrativa que:

Portanto, excluiu outros saberes e outras formas de interpretar o mundo, desautorizando epistemologias da periferia do ocidente. Tal colonialidade do saber é representada na geopolítica do conhecimento, a partir da qual a razão, a verdade e a ciência são atributos possíveis nas – e das – metrópoles, cabendo aos territórios (ex) coloniais e seus sujeitos o status de objetos, classificados como populares, leigos, naturais, ignorantes, sem lei (SANTOS, 2007, p.72).

Usando do poder de controlar o saber é que surge o terceiro elemento operante, a colonialidade do ser, que é a capacidade de destituição da existência, da condição de humanidade dos outros, dos povos não europeus, é a exterioridade negada. A partir dessa tríade – a colonialidade do poder, do saber e do ser – fundamenta teorias que atribuem quem são e como devem viver cada povo.

A biblioteca como instrumento da decolonialidade

Os três conceitos utilizados pela colonialidade para se estabelecer, são conceitos muito presentes dentro da atuação profissional da área da informação, pois já que a informação é poder, e que as bibliotecas são importantes instrumentos na construção do saber, logo tratam-se de espaços que possibilitam a transformação do ser, sendo assim pode-se dizer que a biblioteconomia sempre teve uma função decolonial, só esteve e ainda está um pouco distante dela.

A partir dessa lógica, bibliotecárias/os nos seus mais diversos campos de atuação tem o compromisso e a responsabilidade com o combate a colonialidade, bibliotecas em suas diferentes tipologias tem como missão romperem com a concentração e controle do conhecimento, suas/seus profissionais devem oferecer condições tanto físicas quanto epistemológicas que permitam aos consulentes construírem com as informações disponibilizadas o seu conhecimento e sua subjetividade, o caráter pedagógico de uma biblioteca resulta em pessoas emancipadas, sendo assim, o trabalho e a existência de bibliotecas são ferramentas fundamentais para a luta decolonial.

Figura 4 Dois títulos que contribuem com o pensamento decolonial dentro da biblioteconomia – Jornal empoderado

Ao longo da história da literatura, muitos autores negros não foram identificados e retratados como negros, se é verdade que a cor do autor não importa para o leitor, por que embranqueceram esses autores? Por que ainda hoje é tão difícil ver editoras que possuem em seus catálogos uma política de paridade de gênero e de raça? O que sustenta a exotização de autoras e autores marginalizadas/os, que muitas vezes têm suas obras compradas apenas por curiosidade, simples e puramente para entender o que escritores “marginais” criam. Carolina Maria de Jesus, por exemplo, teve um número expressivo de vendas na sua primeira obra, as demais obras não fizeram tanto sucesso, e isso se atribui a que, não foi por perda de qualidade literária, mas sim, porque o efeito racista e classista fez com que a curiosidade fosse diminuindo.

No momento em que a palavra representatividade destaca-se em diversas discussões, é preciso ter cuidado para não confundir representatividade com representação, o fato de corpos marginalizados aparecerem em determinados espaços, não quer dizer que eles estão alí com a intenção de levantar uma discussão sobre sua condição de sujeito marginalizado, por exemplo: Se a Tia Anastácia é quem trabalha na cozinha do Sitio do Pica-Pau Amarelo e desenvolve todas as receitas, por que a Dona Benta é quem dá nome a farinha e os livros?

Percebam que nos momentos de valorização dos saberes, quem ganha destaque são os corpos normatizados, os corpos marginalizados estão sempre ligados ao instinto e trabalho físico. Ter a Tia Anastácia presente no texto não a torna sinônimo de representatividade, por vezes, características atribuídas a ela apenas reforçam um imaginário estereotipado que cumpre com o modelo de subalternidade estabelecido pela lógica colonial. A Tia Anastácia ao invés de ter suas características físicas ressaltadas, poderia protagonizar situações que a humanizasse e demonstrasse o seu intelecto.

Quando uma biblioteca começa a enxergar situações como essa, suas/seus profissionais entendem que para de fato cumprir com o seu juramento profissional, precisam adotar políticas que auxiliem na decolonização de seus acervos e de seu espaço, possibilitando assim, que os exemplos apresentados não voltem a se repetir, que autoras e autores marginalizados sejam reconhecidos pelo valor do seu trabalho e não pela sua condição, que corpos marginalizados não sejam usados como atrativos que reforçam uma narrativa de subserviência colonial.

Em suma, pensar uma biblioteca decolonial é produzir um diagnóstico e um prognóstico afastado e não reivindicado pelo mainstream do pós-colonialismo, envolvendo diversas dimensões relacionadas a colonialidade do poder, saber e ser. Cabe ressaltar que não se trata de eliminação ou interdição de determinados saberes, o processo de decolonização não deve ser confundido com a rejeição da criação humana realizada pelo norte global e associado com aquilo que seria genuinamente criado no sul, no que pese práticas, experiências, pensamentos, conceitos e teorias.

Nesse cenário as/os profissionais da informação têm a oportunidade e o dever social de combater essa lógica, cabe a essa/esse profissional contribuir na missão de combate a colonialidade do saber. Embora atuem em diferentes espaços informacionais, há um ponto que os interseccionam, a busca incansável pela democratização das mais variadas informações, dos conhecimentos e dos saberes. Quando o pensamento decolonial lido como contraponto é ampliado para a biblioteconomia, que é uma ciência social aplicada, demonstra que existe uma necessidade de repensar a área, de suas práticas e de sua teorização, para dar espaço aos saberes e práticas não canonizados.

Notas

1 Assistam à aula: O papel da biblioteconomia na redução das desigualdades – Epistemicidio, subalternidade e a naturalização do privilégio – https://www.youtube.com/watch?v=ZEcD1aSLD_0

2  Idealizado por Emerson Alcalde, o Slam da Guilhermina surgiu em 2012 junto com Vander Che e depois completado com Cristina Assunção e Uilian Chapéu. O projeto fomenta a literatura na periferia da zona leste de São Paulo por meio da poetry slam, ou poesia falada. O movimento abre espaço para diferentes vertentes da poesia, mas o que mais é recitado são poesias de resistência. Textos autorais de poetas marginais que vivem na periferia. “A poesia que se faz nos slams, batalhas de poesia, e saraus de periferia são poesias marginais, pois estão tanto a margem do mercado editorial quanto da sociedade”, explica Emerson. Disponível em: https://medium.com/@cari./um-grito-de-resist%C3%AAncia-slam-da-guilhermina-a84c109778b5

Referências bibliográficas

BALLESTRIN, Luciana. América Latina e o giro decolonial. Revista Brasileira de Ciência Política, Brasília, n. 11, p.89-117, ago. 2013. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbcpol/n11/04.pdf>. Acesso em: 08 ago. 2019.

BIBLIOTECONOMIA E CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO.: Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto – Universidade de São Paulo, 2020. Disponível em: https://sites.usp.br/calourofilo/cursos/biblioteconomia-e-ciencia-da-informacao/. Acesso em: 8 maio 2020.

DUSSEL, Enrique. 1492. El encubrimiento del outro. Hacia El origen Del mito de La modernidad. La Paz: Plural Editores, 1994.

ESCOBAR, Arthuro. Mundos y conocimientos de otro modo: el programa de investigación modernidad/colonialidad latinoamericano. Tabula Rasa, nº 1, Bogotá, Colombia, 2003, pp.58-86.

MIGNOLO, Walter Postoccidentalismo: el argumento desde América Latina, In: CASTRO-GÓMEZ, Santiago & MENDIETA, Eduardo (coords.). Teorías sin disciplina: latinoamericanismo, poscolonialidad y globalización en debate. México: Miguel Ángel Porrúa. 1998. Disponível em: < https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000186&pid=S0103-3352201300020000400028&lng=en> Acesso em: 19 de ago. 2019.

QUIJANO, Anibal. La tensión del pensamiento latino americano [1986]. In: ___. Cuestiones y horizontes: de la dependencia histórico-estructural a la colonialidad/descolonialidad del poder. Buenos Aires: Clacso, 2014a. p.697-704. Disponivel em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_nlinks&pid=S0103-4014201800030039100032&lng=en. Acesso em: 19 de ago. 2019.

Figuras

Figura 1: https://universes.art/de/specials/2016/space-to-dream/torres-garcia-zoom

Figura 2: https://www.sp-arte.com/editorial/o-que-e-a-arte-decolonial/

Figura 3: https://www.facebook.com/photo/?fbid=2414781865298658&set=a.2414775781965933

Figura 4: http://jornalempoderado.com.br/ler-e-o-melhor-caminho/

Vídeo

Maria Aparecida Moura – https://www.youtube.com/watch?v=ZEcD1aSLD_0

*Ueliton dos Santos Alves é Bacharel em Ciências da Informação, da Documentação e Biblioteconomia pela USP- Ribeirão Preto. Entende-se como um Bibliotecário agitador cultural. Trabalha na SP Escola de Teatro onde coordena uma biblioteca especializada em teatro, arte e cultura. Atua em uma proposta decolonial para o acervo, buscando por novos referenciais e narrativas que ajudem a descontruir uma visão eurocêntrica das artes. Com as provocações que surgiram a partir do fortalecimento de sua consciência racial e pelas demandas apresentadas em seu espaço de atuação profissional, passa a buscar referências decolonizadoras para pensar o campo da Biblioteconomia.

DIANTE DA PANDEMIA DO COVID19, DEGASE ESTIMULA JOVENS A PRÁTICA DA LEITURA

Texto por Paulo Araújo

Foto: Divulgação

Instituição capacita agentes de leitura para atuarem nos espaços socioeducativos

Nesse período de isolamento, a comunidade socioeducativa tem se debruçado sobre os mais variados projetos que sejam viáveis de implementar no sistema. Um dos mais eficientes, que garantem os protocolos preventivos à Covid-19, é a oferta de obras literárias aos adolescentes. No Centro de Atendimento Intensivo (CAI) Belford Roxo, o CAI Baixada, a bibliotecária Simone Barros tem aproveitado ainda mais o espaço de leitura reinaugurado esse ano com as mediações de leitura para os internos, que podem ser seguidas de debates sobre o texto lido em rodas de conversas ou mesmo estimular a criação de desenhos ou outros textos.

Já em Volta Redonda, os agentes Jorge Luís e André Peixoto implementaram no Centro de Socioeducação Irmã Asunción de La Gandara Ustara (Cense Ialgu) uma ação que incentiva o hábito da leitura no s jovens. “Independentemente da função que se exerce nessa comunidade é dever de todos zelar pela garantia dos direitos”, afirmam eles.

Na opinião do diretor-geral do Departamento Geral de Gestão Socioeducativa (Degase), Márcio Rocha, salas de leitura trazem a perspectiva de despertar nos adolescentes o interesse pelo conhecimento de algo novo. “Assim como a pandemia é algo incomum para nossas gerações, ler passou a ser uma prática exercida por poucos. Ter um espaço para a prática da leitura nesse momento de distanciamento entre as pessoas passou a ser algo muito importante”, salientou.

As atividades de estímulo à leitura dão continuidade ao trabalho desenvolvido nas salas de leitura no Cense Dom Bosco, EJLA e Cense Ilha, PACGC, Cense Volta Redonda e GCA, Cense Friburgo, Criaad São Gonçalo e Criaad Ilha, Cecel e Cai Belford Roxo. Onze unidades que foram inauguradas ou revitalizadas nos últimos meses, em parceria com a Secretaria de Estado de Educação (Seeduc) e a Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec).

Empréstimo de livros nas unidades da capital

Adolescentes que estão em unidades na cidade do Rio podem solicitar à Divisão de Pedagogia (Diped) e à Biblioteca Claudio Tourinho Saraiva, na Ilha do Governador, o empréstimo de livros nas unidades, com o objetivo de lhes oferecer mais opções de atividades culturais durante este período de pandemia, quando há menor oferta de atividades.

“Estimular o gosto pela leitura é muito importante em qualquer fase da vida, no sentido em que ajuda a despertar a criatividade, aumentar o vocabulário, e melhorar a escrita, sobretudo na adolescência, que se trata de uma fase de transformação da vida em que a dificuldade de nomear o que se sente pode vir acompanhado de uma agressividade incontrolada e ou uma enfermidade”, explica Lilian Casimiro, uma das bibliotecárias da equipe.

Em sua opinião, em contextos de privação de liberdade, a atividade se torna essencial. “Além da leitura contribuir na redução do estresse e ansiedade, atua também como uma atividade de cultura e lazer para os adolescentes, principalmente nesses tempos de isolamento social”, conclui Lilian Casimiro.

Danielle Torres, também bibliotecária, enfatiza que a experiência de leitura é rica sob diversos aspectos: “sobretudo na abordagem de saúde mental, a atividade ajuda a amenizar o medo e a insegurança, sentimentos tão presentes em tempos de pandemia”, salientou, acrescentando que o servidor também pode manter o hábito de ler ou aproveitar o momento para começar. “ Criamos um ponto de leitura da biblioteca na recepção da Escola de Gestão Socioeducativa Paulo Freire”.

Formação de agentes facilitadores

A Biblioteca Degase não apenas oferece as obras, mas também disponibiliza uma formação de agentes facilitadores para atuarem em atividades culturais com uso dos recursos literários. Mesmo nesse momento de trabalho remoto, o operador socioeducativo interessado – seja ele agente, técnico, gestor ou voluntário – pode contar com essa ferramenta de capacitação à distância.

A Biblioteca preparou material e orientação a quem se dispuser a atuar nos ambientes de ressocialização; basta entrar em contato pelo e-mail biblioteca@novodegase.rj.gov.br e solicitar o material, que também conta com acompanhamento técnico. Essa capacitação, através da Escola de Gestão Socioeducativa Paulo Freire (ESGSE), certifica com horas para fim de progressão funcional.

Fonte: SOLIDÁRIO

Na Amazônia, as bibliotecas estão sendo incendiadas

A penetração do coronavírus ao longo do rio Tapajós, no Pará, está matando os anciãos dos povos tradicionais. Com eles, a doença leva embora história e memória

Texto por Bruna Rocha e Rosamaria Loures, em El País

“Saiba que no meu país, toda vez que um velho morre, uma biblioteca é incendiada”, disse o grande intelectual malinês Amadou Hampaté Bâ em 1962. A frase foi dita em resposta a um senador norte-americano que acusava africanos de serem “ingratos, analfabetos e ignorantes” em sessão do Conselho Executivo da UNESCO.

A formulação de Hampaté Bâ nos ajuda a compreender a importância do ancião para sociedades orais, que transmitem seu conhecimento e história a partir da palavra falada. O provérbio se aplica perfeitamente aos povos da floresta da Amazônia —sejam indígenas, ribeirinhos ou quilombolas— bem como todos os povos e comunidades tradicionais pelo Brasil que têm em seus velhos fontes de conhecimento, autoridade moral, orientação política e espiritual. São justamente esses alicerces que, por pertencerem ao principal grupo de risco da covid-19, estão entre os primeiros a morrer. E em série: estamos assistindo a um genocídio em tempo real.

Nos últimos dias, temos seguidamente recebido notícias que indicam a penetração do coronavírus ao longo do rio Tapajós, no oeste do Pará, inclusive no seu médio e alto curso, onde vive grande parte do povo Munduruku e os ribeirinhos de Montanha e Mangabal, que se autodenominam beiradeiros. Seis velhos Munduruku já faleceram. Jerônimo Manhuary (86 anos) em 10 de maio; Angélico Yori (76 anos) em 22 de maio; Raimundo Dace (70 anos) em 26 de maio; Vicente Saw (71 anos) em 1º de junho; Amâncio Ikõ (60 anos) em 02 de junho e Acelino Dace (77 anos) em 03 de junho.

A morte destes anciãos vai muito além da tragédia local e familiar. Como destacado em uma carta das Associações Munduruku: “Também nos preocupamos com a perda da nossa história, guardada e transmitida por nossos velhos, sábios e pajés, para quem o vírus é mais perigoso.” Os anciãos dessas comunidades representam seus repositórios de conhecimento sobre o território, a história do grupo, a fabricação de objetos e alimentos específicos, dentre outros.

Acabamos de saber que uma das principais referências para o povo Munduruku do médio Tapajós, Amâncio Ikõ Munduruku, não resistiu e faleceu hoje, 02 de junho. Estava desde sábado em uma UTI em Belém, sedado e intubado, respirando com auxílio de ventilação mecânica. Nascido em 1960 no alto rio Tapajós, chegou com a família em Itaituba no início da década de 1970. Sua história se mistura com a de Itaituba, que à época tinha apenas uma rua. Em ironia amarga, a família escolheu o local que se tornaria a Praia do Mangue por ele ser suficientemente próximo a um posto médico que poderia atender sua mãe. Além da luta pela saúde, a vida de Amâncio se caracterizou também pela luta por educação diferenciada, pelo território e pela identidade. Amâncio brigou pelo direito dos Munduruku poderem registrar seus nomes originais, e não nomes de brancos como obrigavam os cartórios, em suas carteiras de identidade. Com apoio de parceiros, fundou a Associação Pariri em 1996, que segue sendo fundamental na luta por direitos. Foi ele, ainda, que aconselhou o cacique Juarez Saw, que também deixou o alto Tapajós, a retomar parte do território ancestral Munduruku que hoje é a Terra Indígena Sawre Muybu/Daje Kapap Eïpi. “Meu pai é um grande guerreiro”, ressalta um de seus filhos, Ikõ Biatpu Munduruku. Ikõ temia que seu pai, como seu avô, morresse sozinho em Belém.

Apenas após grande insistência da família que Amâncio foi levado à Unidade de Pronto Atendimento de ambulância. Antes saudável, seu quadro se agravou rapidamente, apresentando insuficiência respiratória aguda, queda na saturação de oxigênio e comprometimento do pulmão. Como Itaituba, cidade de mais de 100 mil habitantes, possui apenas quatro leitos de UTI e todos estavam ocupados, uma solicitação de remoção aérea foi feita no dia 27 de maio. Amâncio apenas realizaria a viagem no dia 30, após ter sido intubado e reanimado manualmente até atingir um nível de saturação mínimo para poder sobreviver à viagem. Em áudio circulado pelo WhatsApp, uma médica intensivista que o atendeu denuncia a falta de equipamentos, insumos e materiais básicos. Em suas redes sociais, a assessoria de comunicação da Prefeitura do Município de Itaituba oferece outra versão, alegando que uma UTI aérea foi “imediatamente” disponibilizada para Amâncio, e que a solicitação de leito em Belém foi realizada pela Secretaria Municipal de Saúde de Itaituba, ignorando a articulação fundamental da COIAB –Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira– para que isso ocorresse.

No alto Tapajós, a grande penetração do garimpo de ouro pode ser diretamente relacionada à rápida disseminação da covid-19. No dia 21 de maio, após uma reunião na aldeia Jacarezinho em que se discutiu a legalização do garimpo em terra indígena, os garimpeiros encorajaram Mundurukus de diversas aldeias próximas à cidade, inclusive crianças, a irem à cidade de Jacareacanga participar de uma carreata a favor do garimpo, contrariando os conselhos do pessoal da vigilância sanitária e do Distrito Sanitário Especial Indígena Tapajós. Isto contribuiu de forma decisiva para levar o vírus às aldeias, explicando porque o cacique Vicente, que sequer havia saído de sua aldeia, Sai Cinza, foi morto pela covid-19. Dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) registraram que, em abril de 2020, a TI Munduruku figurou como a terra indígena mais desmatada do país, desmatamento esse intimamente associado ao avanço do garimpo.

Dispneico, com saturação de oxigênio em cerca de 60%, Martinho Borõ Munduruku está internado em isolamento no Hospital Municipal de Jacareacanga (onde não há leito de UTI). Nascido em 1943, morador da aldeia Caroçal Rio das Tropas e antigo cacique, é considerado um dos primeiros professores Munduruku, que alfabetizou muitas crianças e lutou pela educação e saúde. Grande historiador, conhece os cânticos Munduruku, e participava das assembleias promovidas pelo povo Munduruku, assim como de ações autônomas de fiscalização do território. Sempre preocupado em “contar as histórias dos antepassados para que as crianças saibam as histórias dos nossos avós,” trabalhou como relator da História dos Antigos Munduruku (1977-1979). Há mais de uma semana Martinho, que é diabético, começou a apresentar sintomas. Segundo relatos, o médico do Serviço Especial de Saúde Indígena que se encontrava na aldeia teria dito a quem apresenta sintomas parecidos com os da covid-19 que estariam com virose. Já com dificuldade de respirar, Martinho foi removido de avião até o hospital de Jacareacanga apenas na última sexta, 29 de maio. Lá, começou a ser tratado com hidroxicloroquina, o que piorou seu estado de saúde. Endossada pela Secretaria de Saúde do Pará, a aplicação deste tratamento pode ser feito mesmo em pacientes “no início de sintomas.” Considerando o quadro descrito pelo seu sobrinho, Jair Boro, que ao chegar em Jacareacanga o tio mal conseguia falar e a alta probabilidade de sua acompanhante não dominar a língua portuguesa, é de se perguntar até onde o “consentimento” dado pelo tratamento, tão enfatizado pelo Ministério da Saúde, seria válido.

Em Montanha e Mangabal, após uma grande luta contra grileiros que tentaram os expulsar violentamente de sua terra e que, em peças judiciais, os tacham de invasores, os beiradeiros tiveram uma parte de seu território histórico contemplado por um Projeto de Assentamento Agroextrativista em 2013. A decisão histórica foi embasada por amplo espectro de provas que incluíam registros feitos por viajantes desde o século XIX, antigos registros de batismo – e, fundamentalmente, pela memória coletiva do grupo, transmitida pelos mais velhos e alicerçada em marcos da paisagem. Uma das principais matriarcas dessa comunidade, Odila Braga dos Anjos forneceu relatos, fotografias e documentos que seriam fundamentais ao processo. Nascida em 1937 na localidade de Lajinha, dona Diloca, como é conhecida, tem onze irmãos e teve dez filhos no beiradão do Tapajós. É uma fonte de conhecimento sobre a história do grupo e sua intricada rede de parentesco. Agora, sua hipertensão preocupa filhos e netos mais do que nunca. Garimpeiros vivem aportando no porto da comunidade Sapucaia, onde vive dona Odila, para acessar a bica d’água que sai do morro. Não se sabe se andam armados. É possível que estejam contaminados. Conforme relatado por moradores do território, há confirmações de garimpeiros contaminados, com um caso que agora se encontra em uma UTI na cidade de Santarém.

Nos últimos 500 anos, a invasão dos territórios indígenas sempre veio acompanhada de surtos epidêmicos. A diferença agora se dá pela dimensão da degradação ambiental, sem igual, e pela rapidez do alastramento do vírus. Essa degradação está desfigurando paisagens que serviam como referências de memória para os povos da floresta que vivem no Tapajós. A chegada da covid-19 no médio e alto Tapajós agora aprofunda a degradação das singulares história e tradição destes territórios.

Uma comparação com a destruição ao patrimônio histórico e cultural gerada pelo incêndio do Museu Nacional em setembro de 2018 é possível, mas nem isso poderá abranger o abalo desestruturante e irreversível que está em curso para os povos da floresta, que frequentemente apresentam altos índices de comorbidades resultantes de processos desordenados de contato com a sociedade industrial, que incluem mudanças abruptas da dieta, atividades laborais insalubres e precariedade do atendimento à saúde.

Na ausência de equipamentos médicos para todos, basear a escolha sobre quem vive e quem morre a partir de parâmetros de idade, como tem sido discutido em contextos urbanos, ignora a centralidade dos anciãos para os povos da floresta. Jair Boro Munduruku, primeiro arqueólogo Munduruku formado pela Universidade Federal do Oeste do Pará, escreveu: “Os nossos anciãos têm grande conhecimento. Contam sobre acontecimentos envolvendo o nosso povo, sobre como as coisas eram feitas e porquê, assim como o que não poderia ser feito.” Foi o conhecimento dos anciãos que garantiu o reconhecimento territorial de diferentes povos da floresta, e que os informa sobre suas raízes. E não apenas eles: cada vez mais, pesquisadores de diferentes áreas têm consultado os anciãos locais sobre flora, fauna, história e um universo de informações. Agora, estas bibliotecas estão sendo incendiadas.

*Bruna Rocha é arqueóloga pela Universidade Federal do Oeste do Pará.

Rosamaria Loures é doutoranda em Antropologia na Universidade de Brasília.

Cacique Vicente Saw, morto em primeiro de junho por covid-19, cumprimenta o então Cacique Geral do povo Munduruku, Biboi, ao lado do futuro (e atual Cacique Geral, Arnaldo), em sua aldeia em fevereiro de 2013.VINICIUS HONORATO

Fonte: Blog Combate Racismo Ambiental

BIBLIOTECONOMIA NEGRA BRASILEIRA

A trajetória, a ideia da pesquisa, os resultados e as percepções sobre a questão

 Texto por Franciéle Garcês

Desde a graduação tenho estudado e refletido sobre a inserção das culturas africana e afro-brasileira na biblioteconomia. Atuei como bolsista no Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da Universidade do Estado de Santa Catarina (NEAB/UDESC), o qual me inseriu no mundo de intelectuais negras(os) e suas contribuições para a discussão sobre as relações étnico-raciais, estudos descoloniais, epistemologias não-hegemônicas, entre outras perspectivas antirracistas. Dentro do meu curso, a discussão sobre as populações negras, suas necessidades de informação para transformação social, política e educacional, assim como o estudo de intelectuais negras(os) da biblioteconomia era algo limitado.

Meu trabalho de conclusão de curso, orientado pela professora Daniella Pizarro, me permitiu fazer um estudo da inserção da questão étnico-racial no ensino de biblioteconomia daquela instituição, a partir das percepções docentes. De posse dos resultados da pesquisa e com todo o trabalho realizado pelo NEAB/UDESC durante anos, assim como as pesquisas voltadas para as discussões étnico-raciais feitas pelas bibliotecárias negras Graziela dos Santos Lima, Sandra Fontes e Andreia Sousa da Silva – que, como eu, atuaram como bolsistas do NEAB/UDESC – além do trabalho da professora Daniella Pizarro junto ao Departamento, foi introduzida a disciplina de Relações étnico-raciais durante a reformulação do currículo de biblioteconomia. Inclusive, a Andreia Sousa da Silva foi aprovada como professora assistente para atuar nesta disciplina, o que foi um grande ganho para o curso.

Posteriormente, na dissertação, o intuito foi ampliar em nível nacional a análise da introdução das culturas africanas e afro-brasileiras nos cursos de biblioteconomia brasileiros. Assim, fui aprovada no mestrado em ciência da informação, do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT/UFRJ) e, neste programa, fui orientada pelo professor Gustavo Saldanha, o qual incentivou que eu fosse o mais longe possível dentro da pesquisa em busca de perspectivas contra-hegemônicas e voltadas para às problemáticas sociais na Biblioteconomia.

Foi também o professor Gustavo que comentou sobre a Black Librarianship Americana como um movimento internacional dessas perspectivas e incentivou que eu explorasse os aspectos históricos, teóricos e os protagonistas desse movimento. Estudando sobre tal movimento dos Estados Unidos, descobri uma infinidade de bibliografias, intelectuais, eventos e ações dentro do movimento associativo e da área que demonstraram o percurso em prol do acesso de pessoas afro-americanas à formação em biblioteconomia, às bibliotecas e informação durante o período de segregação.

A partir daí, voltamos nosso olhar para o contexto brasileiro e nos perguntamos se existia uma Biblioteconomia Negra Brasileira (BNB). Elaborei um formulário para encontrar bibliotecárias(os) negras(os) pelo país e o lancei nas mídias sociais. O retorno foi muito positivo, pois descobri várias pessoas negras bibliotecárias, muitas ainda desconhecidas para mim.

Com uma ampla coleta de dados, desde eventos até os currículos lattes de bibliotecárias(os) negras(os), foi possível comprovar a existência da Biblioteconomia Negra Brasileira a partir do movimento reflexivo que discute a formação na área, a atuação bibliotecária de profissionais negras(os), presença e atuação no movimento associativo e a produção científica realizada por bibliotecários negras(os) e não-negras(os) sobre questões étnico-raciais.

Dentre os dados, encontramos o primeiro livro que aborda sobre o negro, o qual foi elaborado e publicado em 1988 pela Biblioteca Nacional e se chama “Para uma história do negro no Brasil”. Encontramos também a atuação de bibliotecárias(os) negras(os) dentro de associações profissionais, FEBAB, conselhos federal e regionais da área. No Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB), hoje, estamos no terceiro presidente do CFB bibliotecário negro, o professor Marcos Miranda. Dentre as primeiras graduações de pessoas negras em biblioteconomia encontramos a Regina Tonini, que por muitos anos foi bibliotecária da Petrobrás. Na docência, a professora Maria Aparecida Moura como primeira professora e bibliotecária negra titular da Escola de Ciência da Informação e com importante produção científica e atuação profissional em prol de causas antirracistas e das ações afirmativas dentro da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Os eventos científicos como o Painel Biblioteconomia em Santa Catarina, o Congresso Brasileiro de Biblioteconomia, Documentação e Ciência da Informação (CBBD), em Santa Catarina, Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (ENANCIB), também contaram com apresentações de trabalhos e palestras que tinham o recorte étnico-racial. Importante frisar que houve um aprofundamento na produção científica e em estudos de pós-graduação no campo, a partir da implementação da Lei de Diretrizes e Base da Educação Brasileira (LDB) e da Lei nº 10.639/2003, que trouxeram a obrigatoriedade do ensino de história e cultura negras nas redes de ensino brasileiras.

Com a análise do currículo lattes e com os dados do mapeamento, verificamos que existem bibliotecárias(os) negras(os) que realizam ações enfoque étnico-racial dentro das bibliotecas brasileiras, mesmo que muitos não divulguem essas ações via produção científica. Assim, englobando tudo isso criamos a Cronologia da Biblioteconomia Negra Brasileira – publicada nos anexos da dissertação.

A pesquisa demonstrou que há tempos a questão étnico-racial tem sido abordada, refletida e discutida dentro do campo biblioteconômico-informacional, em especial por pessoas bibliotecárias negras. Ou seja, esse movimento da Biblioteconomia Negra não é novo – vide a Black Librarianship Americana que tem sua existência datada desde 1808 -, o que ainda existe é um discurso de que são discussões e pesquisas inaugurais, quando na verdade bibliotecárias(os) negras(os) já estão pensando a formação bibliotecária (que ainda possui um viés eurocentrado e norteamericanizado, em grande parte fora das realidades do nosso país); o racismo presente nas relações; a branquitude presente nas práticas profissionais e na docência, responsabilidade ético-política para a cidadania etc. E mais importante: estão buscando soluções para resolver esses problemas.

Dentre os pontos positivos tenho percebido a ampliação do movimento de bibliotecárias(os) negras(os) pelo país. Atualmente temos o Coletivo Nacional de Bibliotecárias(os) Negras(os), cuja criação aconteceu a partir da união das pessoas autoras da obra coletiva “Bibliotecárias(os) Negras(os): ação, pesquisa e atuação política”, publicada pela Associação Catarinense de Bibliotecários em 2018. Há também a formação de Coletivos Regionais, como o Coletivo de Bibliotecárias(os) Negras(os) de São Paulo e outros ainda em construção.

Além disso, a criação do Encontro Nacional de Bibliotecárias(os) Negras(os) e Antirracistas, cuja a primeira edição foi realizado no ano passado, agregou pessoas bibliotecárias negras e não-negras para discussão de diversas ações de engajamento em prol de melhores condições de emprego e trabalho, acesso à educação e à capacitação, desconstrução do racismo institucional e estrutural, além de ações voltadas para o fortalecimento identitário das populações de origem africana em bibliotecas e unidades de informação.

No entanto, apesar da existência da Biblioteconomia Negra Brasileira, quando chegamos à formação bibliotecária, esse movimento ainda é desconhecido, assim como é incipiente a introdução das culturas africanas e afro-brasileiras nos currículos dos cursos presenciais de biblioteconomia brasileiros. Na pesquisa, identificamos 16 disciplinas sobre as questões étnico-raciais em mais de 2.200 analisadas. Ainda, nas entrevistas com docentes vimos que mesmo considerando importante as temáticas, percebemos que muitos ainda desconhecem intelectuais negras(os) da biblioteconomia, pesquisas e projetos sobre essas questões, assim como poucos introduzem essas discussões em sala de aula.

A falta de formação para uma biblioteconomia antirracista e afrodiaspórica traz essas e outras consequências, especialmente em uma sociedade como a brasileira, onde a branquitude e o racismo são estruturantes e estruturadores das relações sociais, trabalhistas, políticas e econômicas; e o mito da democracia racial e a meritocracia são utilizados como justificativas frente às desigualdades presentes na sociedade.

Somente com uma transformação curricular dos cursos que promova conhecimento sobre aspectos sociohistóricos de construção do país e percepção crítica sobre manutenção das desigualdades e opressões sofridas pelas populações negras – que são deixadas à margem para exploração de uma sociedade capitalista – é que poderemos formar profissionais com consciência ético-política, comprometidos com a diversidade e sensibilizados para questões sociais e étnico-raciais. O que se espera é o enfretamento dos obstáculos supracitados para a construção de uma Biblioteconomia brasileira com um currículo antirracista, que contemple epistemologias diversas e perspectivas coletivas de construção cidadã de uma sociedade.

Mapeamento de bibliotecárias(os) negras(os)

Na esteira desse debate e dessas pesquisas, estamos realizando o mapeamento de bibliotecáras(os) negras(os). O intuito é conhecer e visibilizar a todas as pessoas negras da biblioteconomia no doutorado. Quero me aprofundar nas epistemologias negro-africanas da biblioteconomia e no pensamento de bibliotecárias(os) negras(os) para visibilizá-los como intelectuais e colaboradoras(es) da construção da nossa profissão em todos os setores, desde o ensino até a atuação. Para colaborar com a pesquisa, as pesquisas podem acessar o link do mapeamento clicando aqui. Os livros sobre e por bibliotecári@s negr@s podem ser baixados aqui.

Fonte: REVISTA BIBLIOO

Acessibilidade: a defesa do consumidor para todos

O tratamento diferenciado se dá po separações afirmativas; A lei 13.146/14 estabeleceu direitos a pessoas com deficiência

Texto por Fernando Capez

Marcelo Camargo/Agência Brasil
O defesa do consumidor é para todos

O consumidor é considerado por lei a parte vulnerável na relação de consumo (CDC, art. 4º, I), já que o fornecedor tem superioridade técnica (conhecimento do produto ou serviço), econômica (maior estrutura financeira), jurídica (melhor aparato para defesa jurídica) e política (mais influência).

A vulnerabilidade é presumida e não admite prova em contrário. Por essa razão, o Código de Defesa do Consumidor protege o consumidor e lhe concede prerrogativas para compensar sua menor força, como a inversão do ônus da prova (CDC, art. 6º, VIII).

Existem graus de vulnerabilidade, havendo consumidores ainda mais fragilizados (hipervulneráveis), merecedores de proteção especial. O tratamento privilegiado visa a conferir-lhes paridade de armas com o fornecedor.

O tratamento diferenciado se dá por meio da chamada discriminação positiva ou separação afirmativa. Como exemplos dessa política podemos citar a Lei 13.146/14, que estabeleceu para pessoas com deficiência, preferência de assentos (art. 44, §§ 1º, 2º e 3º), vagas especiais para automóveis (art. 47) e atendimento preferencial (art. 30, I).

Discriminação positiva é a implementação de políticas públicas para minimizar a desigualdade existente, por meio das chamadas affirmative actions (ações afirmativas ou políticas inclusivas), criadas pela legislação norte-americana no governo Kennedy, para combater a discriminação (racial, religiosa e por origem) e fortalecer a luta pelos direitos civis.

Como exemplos de ações afirmativas na legislação brasileira, temos o art. 37, VIII, da Constituição Federal, que reserva percentual dos cargos e empregos públicos para pessoas portadoras com deficiência e a Lei 8.213/91, estabelecendo cotas para pessoas com deficiência no corpo funcional das empresas.

O PROCON-SP, por meio da Escola de Proteção e Defesa do Consumidor (EPDC), tem desenvolvido ações para beneficiar consumidores com deficiência, em cumprimento à Constituição Federal, que impõe atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência (CF, art. 208, III).

Essa categoria de hipervulneráveis enfrenta dificuldades nas relações de consumo. Uma simples ida ao supermercado ou compra pela internet pode se transformar em um desafio.

Nossa Constituição considerou garantia fundamental a proteção ao consumidor (CF, art. 5º, XXXII), determinou a criação do Código de Defesa do Consumidor (ADCT, art. 48) e exigiu do Estado a inclusão das pessoas com deficiência (CF, 23, II e 24, XIV).

Além do CDC, foi criado o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/15), conhecido como Lei Brasileira de Inclusão , que foi inspirado no Protocolo da Convenção da ONU sobre Direitos das Pessoas com Deficiência (Tratado de Nova Iorque, de 2006).

Esse Tratado foi incorporado ao nosso ordenamento com força de emenda constitucional, tendo sido aprovado pelas duas Casas do Congresso Nacional pelo quórum qualificado de 3/5 de seus membros, em dois turnos de votação (CF, art. 5º, § 3º).

A Lei Brasileira de Inclusão estabeleceu a educação e a informação como direitos fundamentais da pessoa com deficiência, bem como a garantia de acesso à informação e à sua respectiva comunicação.

Definiu ainda, deficiência como todo impedimento de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, de caráter duradouro que impeça a pessoa de participar na sociedade em igualdade de condições aos demais.

O PROCON-SP considera necessário eliminar barreiras e garantir acessibilidade aos deficientes e, para tanto, investe na digitalização das reclamações e processos sancionatórios.

Nos congressos e palestras realizados em 2019, disponibilizou fones de ouvido e intérpretes de libras. Divulga também cartilhas online e gratuitas sobre os direitos específicos das pessoas com deficiência.

Respeitando a diversidade, com olhar inclusivo e acolhedor, será possível avançar na construção de uma sociedade menos injusta e mais inclusiva.

Fonte: iG – Brasil Econômico

Biblioteca é contemplada com equipamentos para acessibilidade

Texto por Anderson Mendes

Biblioteca Municipal conta atualmente conta com cerca de 29 mil títulos. Foto: Divulgação

A Biblioteca Municipal, através da Secretaria de Cultura e Turismo, será contemplada com equipamentos de tecnologia assistida, voltados para uso do público com deficiência visual.

A conquista chega por intermédio do concurso “São Paulo + Inclusão Bibliotecas” responsável por selecionar projetos de bibliotecas públicas interessadas em receber os equipamentos, ligado ao governo estadual, e que contou com a participação de Mogi Mirim.

O município conquistou a terceira colocação no concurso, que premiou somente dez cidades de todo o Estado de São Paulo. A Biblioteca receberá nos próximos meses kits com scanner leitor, linha braile e computador.

O concurso é promovido pela Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência, através de convênio firmado com o Fundo de Interesses Difusos (FID) da Secretaria de Justiça e Cidadania.

As cidades interessadas deveriam elaborar um projeto indicando como pretendiam aprimorar os serviços bibliotecários para as pessoas com deficiência e qual estratégia seria utilizada para divulgação das novas ações para a comunidade cega.

Um dos objetivos é garantir o acesso desse público, equiparando as oportunidades das pessoas com e sem deficiência aos bens culturais. No Estado, os equipamentos já estão instalados em bibliotecas de 62 municípios.

O município se inscreveu em fevereiro para o programa, que era um desejo nosso enquanto secretaria. É mais uma conquista importante para a Biblioteca Municipal de Mogi Mirim, estamos colaborando para a inclusão e acessibilidade, oferecendo a Cultura para todo o público”, festejou o secretário de Cultura e Turismo, Marquinhos Dias.

Não foi divulgado prazo para a chegada do equipamento à Biblioteca, que atualmente conta com cerca de 29 mil títulos.

O espaço permanece fechado ao público, em razão da pandemia do novo coronavírus (Covid-19). (Da Redação)

Fonte: O Popular

Leitores: Leitura, bibliotecas escolares e alunos com diversidade funcional. Que relação?

A sociedade exige cada vez mais que a escola desenvolva competências nos alunos, no sentido destes mesmos serem agentes transformadores da realidade envolvente.

Texto por António José Alves Oliveira

A sociedade exige cada vez mais que a escola desenvolva competências nos alunos, no sentido destes mesmos serem agentes transformadores da realidade envolvente. A prestação de um ensino de qualidade tem sido uma preocupação de todos os intervenientes no processo educativo, que não pode, nem deve, ser separada de um princípio assente na igualdade de oportunidades para todos.

A educação de crianças com diversidade funcional nas turmas regulares veio provocar mudanças profundas no sistema educativo, partindo de alterações legislativas, organizativas e em mudanças das práticas educativas. O conceito de escola inclusiva baseia-se numa premissa: a de uma educação para todos, promovendo o respeito pelas diferenças e percursos individuais, devendo toda a comunidade escolar estar empenhada no processo de ensino e aprendizagem de todos os alunos. 

Uma abordagem inclusiva requer uma filosofia organizacional que vise o desenvolvimento de metodologias/estratégias diferenciadas, trabalho cooperativo/colaborativo entre professores, técnicos e famílias, medidas educativas adequadas e ajustadas aos alunos, recursos humanos e tecnológicos que lhes permitam melhorar o seu potencial humano. A questão da diversidade funcional no âmbito da Educação Especial tornou-se num princípio crucial do ponto de vista da equidade educativa e da coesão social. A elaboração de uma resposta coerente, integrada e sistemática a esta problemática, exige que se conheça as diferentes problemáticas educacionais.

Sendo hoje o Mundo uma aldeia global, onde a informação percorre os mais recônditos cantos do planeta a uma velocidade outrora impensável, os meios tecnológicos de divulgação são progressivamente mais diversificados e eficazes para os seus utilizadores. Perante este facto, a escola, sendo a instituição melhor capacitada para o papel de educar/formar os indivíduos que compõem a sociedade em que vivemos, deve estar preparada para conseguir acompanhar esse desenvolvimento acelerado do conhecimento e ser capaz de motivar todos os alunos, com ou sem dificuldades permanentes de aprendizagem e participação, durante toda a sua escolarização.

O aluno quando comunica através da linguagem verbal ou escrita, desenvolve situações de diálogo, revela as suas vivências, confronta as suas opiniões, aperfeiçoa o ato de falar, ler e escrever. 

Numa época em que o tema da literacia assume uma importância fulcral no desenvolvimento das sociedades contemporâneas, a experiência da leitura está interligada, não só no saber fazer implícito nas exigências profissionais a que os indivíduos estão sujeitos, mas também melhoria da sua qualidade de vida, quando pensamos que a leitura pode proporcionar-nos prazer, conforto e estimulação intelectual. 

A biblioteca escolar é um elemento da organização do estabelecimento escolar. Portanto, pode constituir-se como um pólo de renovação pedagógica, de comunicação, de animação cultural, de estimulação do conhecimento e de desenvolvimento do pensamento crítico dos alunos. É neste cenário que a diferenciação pedagógica surge como um elemento fundamental no trabalho da biblioteca escolar, no que respeita à promoção de competências de leitura em alunos com diversidade funcional. 

A criação ou transformação das bibliotecas escolares em bibliotecas inclusivas será, inequivocamente, um modo de rentabilizar a documentação disponível em proveito da maximização das competências académicas dos alunos,  com resultados que se tornarão evidentes no desenvolvimento da inclusão laboral dos cidadãos com diferenças ao nível cognitivo, visual, auditivo ou motor.

É possível estimular a leitura dos alunos com diversidade funcional através da biblioteca da escola ou de uma qualquer biblioteca pública, desde que se tenha em conta a forma como o seu utilizador acede à mesma. Basta implementar algumas das tecnologias de apoio disponíveis atualmente, por exemplo: livros em áudio, com pictogramas,  filmes legendados ou com interprete de Língua Gestual Portuguesa, digitalizadores de texto, lupas digitais, etc.)

O professor-bibliotecário é aquele que pode abrir as portas da leitura a alunos com desvantagem intelectual, e frequentemente, social e económica. Mas dar o mesmo a todos no espaço da biblioteca da escola, não é respeitar a individualidade  ou responder às  necessidades educativas de cada aluno; é antes, promover a infoexclusão, algo que a escola inclusiva tem de erradicar, se quer ser verdadeiramente democrática.

Portanto, o professor-bibliotecário assume um papel vital, provavelmente ainda subvalorizado, na preparação e inclusão dos indivíduos no mundo que os rodeia. Mas a biblioteca não se resume apenas às funções de pesquisa documental, empréstimo de livros, ocupação de tempos livres, animação ou difusão de trabalhos. Através de diferentes formas de dinamização e estimulação de hábitos de leitura, a biblioteca está a desempenhar uma função de promoção da cultura e da inclusão social das pessoas com limitações na actividade e participação, de modo a que estas possam aceder ao conhecimento em igualdade de oportunidades, mas melhorando as suas condições e, assim, alcançarem um verdadeiro gosto pela leitura. A valorização crescente das necessidades especiais dos utilizadores das bibliotecas, parece estar a contribuir progressivamente para mudanças legislativas e alterações no funcionamento das bibliotecas públicas, que esperamos terem vindo para ficar.

Fonte: Reconquista

Menos de 1% dos sites brasileiros são totalmente acessíveis, aponta pesquisa

Levantamento analisou aspectos como imagens, links e presença de marcadores de formulários para ajudar o acesso de deficientes auditivos, visuais ou motores

Texto por Bruna Arimathea*

Um levantamento do Movimento Web para Todos e da BigDataCorp indicou que apenas 0,74% dos sites brasileiros foram aprovados em todos os testes de acessibilidade para pessoas com algum tipo de deficiência, como visual, auditiva ou motora. A pesquisa incluiu 14,65 milhões de sites ativos no País.

Em estimativa, o Movimento Web para Todos afirma que atualmente, o Brasil possui mais de 45 milhões de pessoas que precisam de alguma adaptação nos sites para consumirem conteúdos na internet. Em tempos de pandemia de coronavírus, onde a informação é rapidamente atualizada nas redes, muitas dessas pessoas podem ficar sem acesso, à margem da falta de ajustes de veículos na rede.

Os critérios avaliados na pesquisa seguem os mesmos aplicados anteriormente, em setembro de 2019. Entre eles estão verificações de formulário em aqueles sites que possuem campos de preenchimento de dados, imagens, links e validação do World Wide Web Consortium (W3C), entidade referência de padrões a serem seguidos na web. Cerca de 68,8% dos sites brasileiros foram submetidos aos testes propostos.

Mesmo com a pequena porcentagem — 0,74% — os números indicam melhora de pelo menos 20% desde o último levantamento. Ainda, no ano passado, 5,60% dos sites falharam em todos os testes, enquanto neste ano, o número caiu para 0,01% de sites falhando em todos os testes aplicados.

Segundo os organizadores do estudo, sites que não passam no teste ainda podem oferecer adaptações para deficientes, a validação apenas certifica uma maior probabilidade navegação e experiência do usuário. Reinaldo Ferraz, especialista em Desenvolvimento Web do W3C Brasil, explica que apesar de não ser um verificador de acessibilidade, a conformidade com o teste ajuda a eliminar barreiras, obrigando o site a ter descrição de imagens e marcador de formulários, por exemplo.

Governo também teve melhora

Nos sites governamentais, o levantamento indicou uma melhora em relação ao ano passado. No primeiro estudo, apenas 0,34% dos sites não apresentavam algum tipo de problema, enquanto neste ano, 3,29% não apresentam falhas na avaliação. Por segmento, os que mais apresentam problemas na acessibilidade são blogs, seguidos por e-commerce, sites corporativos, de notícias e educacionais.

“Parece que está existindo certo esforço. Eles não cobrem todos os quesitos, porém a quantidade de sites falhando em todos os testes é muito menor que no ano passado. Mas o fato é que ainda temos 99,26% dos sites com pelo menos um problema a ser solucionado em termos de acessibilidade”, explicou o presidente executivo da BigDataCorp, Thoran Rodrigues, durante teleconferência realizada com jornalistas.

*É estagiária, sob supervisão do editor Bruno Capelas

Fonte: Terra

Ibermuseus apresenta dois importantes recursos para o setor neste Dia Internacional dos Museus

Uma Ferramenta de Autodiagnóstico em Acessibilidade e um Centro de Documentação foram criados para promover a igualdade, a diversidade e a inclusão, e para apoiar a gestão dos museus.

Partindo da premissa de que os museus devem ser instituições abertas, democráticas e inclusivas para todas as pessoas, o Programa Ibermuseus, por meio de seu Observatório Ibero-americano de Museus, apresenta uma ferramenta que facilita o diagnóstico da acessibilidade das instituições museológicas.

Como resultado de uma estreita colaboração com a Direção-Geral do Património Cultural de Portugal, nasce a Ferramenta de Autodiagnóstico em Acessibilidade do Ibermuseos, um recurso on-line que permite aos museus conhecer o grau de acessibilidade de sua sede, localização, exposições, comunicação, consultoria, capacitações, emprego, avaliação e gestão.

Depois de responder a um grupo de perguntas simples, a instituição conhecerá sua situação por meio de um resumo dos resultados e uma representação gráfica deles, que pode ser baixada em vários formatos. O recurso também possui um glossário e uma seção para disseminar boas práticas.

Ao mesmo tempo, a ferramenta também apoiará o desenho de políticas públicas, uma vez que facilita aos órgãos de gestão dos museus dos países membros do Ibermuseus o acesso a relatórios globais sobre as instituições de cada país.

Além deste importante recurso, o Centro de Documentação Ibermuseus – CDI disponibiliza ao público mais de 200 publicações de países da região.

O CDI contempla uma grande diversidade de temas relacionados ao universo dos museus, como Acessibilidade, Comunicação, Conservação, Restauração, Curadoria, Educação, Estatística, Estudos de Público, Gestão, Inventário, Legislação, Memória, Museografia, Museologia, Patrimônio, Sustentabilidade, Tráfico Ilícito, entre outros.

Os visitantes podem filtrar sua pesquisa por país, ano, tema ou tipo de documento. No CDI encontra-se uma série de estudos, guias, manuais, reflexões, catálogos, revistas, publicações do Ibermuseus, recomendações e declarações históricas da museologia ibero-americana.

A apresentação pública desses dois recursos ocorre em um momento de fechamento temporário das instituições e adoção do trabalho remoto por muitos técnicos de museus. Dessa forma, muitos profissionais poderão de casa trabalhar na implementação de medidas acessíveis em suas instituições ou na expansão de seu conhecimento por meio de publicações que são referências na região.

Acesse:

Ferramenta de Autodiagnóstico da Acessibilidade

Centro de Documentação Ibermuseos

Juntos somos mais fortes – Museus pela igualdade

Fonte: Ibermuseos

“Existe um interesse crescente na biblioteconomia pela questão LGBT”

O bibliotecário da Universidade Federal do Maranhão e doutor em Políticas Públicas, Carlos Wellington Martins, fala, entre outras coisas, sobre o Dia Internacional de Luta contra a LGBTfobia, celebrada neste 17 de maio

Texto por Chico de Paulo

Neste domingo (17) é comemorado o Dia Internacional de Luta contra a LGBTfobia, uma data para celebrar a diversidade contra todos os tipos de preconceito, sobretudo no Brasil, considerado um dos países que mais discrimina e mata pessoas LGBTs no mundo.

A data coincide com o dia em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou o termo “homossexualismo” de sua Classificação Internacional de Doenças (CID), isso em 1990, informa o bibliotecário da Universidade Federal do Maranhão e doutor em Políticas Públicas, Carlos Wellington Martins.

“Só para atestar o atraso no avanço das pautas que tratam de orientações sexuais e identidades de gênero, apenas em 1990 a homossexualidade foi despatologizada e somente em 2019 a transexualidade deixa de ser considerada um transtorno mental”, explica Carlos.

Mas apesar dos avanços, o bibliotecário destaca que atualmente as pessoas estão menos reticentes em revelar seu preconceito e em alguns casos, de forma violenta e agressiva, seja verbal ou física, fato que se liga ao momento político que vivemos.

“O chefe do executivo já demonstrou em várias ocasiões (antes e depois de eleito) que não governa para a população LGBTQIA+ e que as demandas desse segmento sequer serão trabalhadas durante a sua gestão e ao proferir palavras de cunho lgbtfóbico chancela a violência que cada vez cresce no país”, critica.

Sobre as bibliotecárias e os bibliotecários, Carlos destaca que estas(es) têm um papel importante na construção dessa sociedade pautada em uma cultura de paz, respeito e tolerância, haja vista, as(os) profissionais atuarem em espaços culturais e educacionais que possibilitam a realização de um trabalho de base.

Nesta entrevista à Biblioo, Carlos destaca que o Brasil sempre figurou na lista de países que mais mata LGBTQIA+ no mundo, ocupando em muitos anos a primeira posição na perpetração de violência contra este grupo social. Confira a entrevista!

NO 17 DE MAIO SE CELEBRA O DIA INTERNACIONAL CONTRA A LGBTFOBIA. QUAL O SIGNIFICADO DESSA DATA PARA NÓS BRASILEIROS?

O dia 17/05 é uma data simbólica para a população de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Transgêneros, Queers, Intersexuais, Agêneros, Assexuais (LGBTQIA+) e demais identidades de gênero e orientações sexuais  por fazer menção a data em que a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou o termo “homossexualismo” de sua Classificação Internacional de Doenças (CID), isso em 1990, e, dessa forma, a despatologizou e tornou equivocado e obsoleto a utilização do termo com o sufixo ismo.

A data atua como um momento de reflexão e ação para que se possa criar uma cultura de paz, acabando com a violência contra LGBTQIA+, principalmente em um país que ainda insiste em uma cultura lgbtfóbica. Só para atestar o atraso no avanço das pautas que tratam de orientações sexuais e identidades de gênero, apenas em 1990 a homossexualidade foi despatologizada e somente em 2019 a transexualidade deixa de ser considerada um transtorno mental, no entanto, integra agora o capítulo sobre “condições relacionadas à saúde sexual” como uma incongruência de gênero. Ou seja, há muito ainda a se fazer no campo de informação, conscientização e políticas públicas

NOS ÚLTIMOS ANOS SE VIU EXPLODIR NO BRASIL A VIOLÊNCIA CONTRA A POPULAÇÃO LGBT. A QUE VOCÊ ATRIBUI ESSE FATO?

O Brasil sempre figurou na lista de países que mais mata LGBTQIA+ no mundo, ocupando em muitos anos a primeira posição, contrastando com a imagem de país acolhedor e libertário. Segundo dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), em 2019, a cada 26 horas um LGBTQIA+ é assassinado ou cometeu suicídio por conta da violência perpetrada, isso mesmo com a criminalização da LGBTfobia realizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) que evidencia que em conjunto com a lei outras medidas devem ser tomadas.

Como exemplo temos as campanhas de conscientização mais incisivas com a sociedade em geral, capacitação e treinamento para com os órgãos que atuam no recebimento da denúncia e na efetivação da investigação como delegacias, defensorias, ministério público e demais agentes, vale ressaltar que essa violência tem raiz cultural que precisa ser combatida, também, pelo viés educacional com a discussão de gênero, diversidade e sexualidade nos espaços educacionais.

EM QUE MEDIDA ESSA ONDA DE VIOLÊNCIA CONTRA A POPULAÇÃO LGBT TEM RELAÇÃO COM O MOMENTO POLÍTICO QUE VIVEMOS?

Além do patriarcado, do machismo e da masculinidade tóxica enraizada na sociedade brasileira, testemunhamos o crescimento de uma onda conservadora e reacionária que se materializa no estímulo ao ódio às minorias políticas, no esvaziamento do debate sobre as questões desta população, bem como influi na invisibilidade desses sujeitos sociais no cenário político.

O que se percebe, atualmente, é que as pessoas estão menos reticentes em revelar seu preconceito e em alguns casos, de forma violenta e agressiva seja verbal ou física. O chefe do executivo já demonstrou em várias ocasiões (antes e depois de eleito) que não governa para a população LGBTQIA+ e que as demandas desse segmento sequer serão trabalhadas durante a sua gestão e ao proferir palavras de cunho lgbtfóbico chancela a violência que cada vez cresce no país.

QUAL É OU QUAL DEVERIA SER O PAPEL DOS PROFISSIONAIS DA INFORMAÇÃO, ESPECIALMENTE OS BIBLIOTECÁRIOS, EM RELAÇÃO A ESSA QUESTÃO?

Nesse tocante as bibliotecárias e bibliotecários tem um papel importante  na construção dessa sociedade pautada em uma cultura de paz, respeito e tolerância, haja vista, as profissionais atuarem em espaços culturais e educacionais que possibilitam a realização de um trabalho de base não só possibilitando o acesso a informação, mas bem como permitir que estes espaços possibilitem a construção de conhecimento por parte de todos os sujeitos sociais envolvidos no processo.

Para tanto ações culturais que tenham os LGBTQIA+ como protagonistas, produção de material informativo, um acervo afinado com as demandas dessa população e uma atitude mais cidadã com as questões que envolvam os direitos de uma sociedade mais plural e diversa são necessárias e coaduna com o juramento que a área faz quando frisa a dignidade humana. Vale pontuar que existem algumas iniciativas e ações efetivadas por profissionais em algumas regiões do país mas que por vários motivos não são publicizadas e conhecidas por grande parte dos colegas.

QUE AÇÕES ESTÃO EM CURSO NO BRASIL HOJE ENVOLVENDO A BIBLIOTECONOMIA E QUESTÃO LGBT QUE VOCÊ DESTACARIA?

Apesar de ainda haver um silenciamento e uma posição periférica da discussão das demandas sociais LGBTQIA+ na biblioteconomia, vemos o avanço em alguns aspectos como o crescente interesse de discentes, docentes, técnicos em realizar pesquisas acerca da temática com a socialização destes estudos em eventos na área, mas ainda são em número bastante pequeno, tanto que a primeira publicação a contar com textos escritos por profissionais da Ciência da Informação (CI) que são LGBTQIA+ e abordam sobre a temática referente às suas orientações sexuais e identidades de gênero ocorreu somente em 2019 pelo selo Nyota sob o título “Do invisível ao visível: saberes e fazeres das questões LGBTQIA+ na Ciência da Informação”.

Qualquer consulta aos Projetos Políticos Pedagógicos (PPPs) dos cursos de biblioteconomia revela que grande parte deles não possuem em sua matriz curricular disciplinas que tratem de gênero, sexualidade e diversidade o que aponta uma lacuna gritante na formação deste profissional. Uma ação salutar é a criação do Grupo de Trabalho (GT) “Bibliotecas pela Diversidade e Enfoque de Gênero” (GT-BDEG), pela Federação de Associação de Associações de Bibliotecários, Cientistas da Informação e Instituições (FEBAB).

Esse grupo se propõe a: 1) Criar um documento norteador de ações e orientações de atendimento baseadas nas leis vigentes nos níveis municipal, estadual e federal; 2) Compilar todas as ações e experiências promovidas pelas bibliotecas em todo o Brasil em um documento para publicação; 3) Criar bibliografia básica de literatura LGBTQIA+; 4) Realizar relatórios anuais para consulta pública para entender a relação da comunidade com a biblioteca, especialmente a biblioteca pública; 5) Promover palestras, cursos e ações voluntárias em conjunto as associações estaduais filiadas à FEBAB, escolas de biblioteconomia e ONGs. Esperamos que seja o fortalecimento do debate e da ação entre a Biblioteconomia e as demandas sociais LGBTQIA+.

Fonte: Biblioo

Página reúne iniciativas do Senado em favor da responsabilidade social

O Senado lançou uma página na internet que reúne as iniciativas da Casa na área da responsabilidade social, com informações sobre acessibilidade, equidade de gênero e raça e sustentabilidade. A iniciativa é da Secretaria do Comitê de Internet em parceria com a Diretoria-Geral e do Núcleo de Coordenação de Ações Socioambientais (NCas), que será responsável pela gestão dos conteúdos do site.

Para o coordenador do NCas, Humberto Formiga, a organização de novas iniciativas e informações, antes dispersas, agora estão reunidas em um formato amigável e acessível para o cidadão.

Acessibilidade

O site mostra que as primeiras iniciativas para promover a acessibilidade foram adotadas há mais de 20 anos, a exemplo da impressão de obras em braile. Em 2005, o Senado criou o Programa de Valorização das Pessoas com Deficiência. Cinco anos depois, o Projeto Integrar permitiu que os espaços físicos da Casa fossem adaptados para ficar mais acessíveis.

Desde 2016, está em vigor o Plano de Acessibilidade, que garantiu, por exemplo, carros e vans adaptados, sinalização tátil de piso e vagas especiais de estacionamento, além da aquisição de triciclos e cadeiras de rodas. Na internet, o portal do Senado busca ser acessível. Além disso, a Casa tem promovido cursos de capacitação para atender os visitantes e as quase 200 pessoas com deficiência que integram o corpo funcional.

Equidade

Na área de equidade, o objetivo do Senado é garantir tratamento e oportunidades iguais para todos, sem preconceito de origem, raça, gênero, cor e outras formas de discriminação. Diretora-geral do Senado, Ilana Trombka, afirma no vídeo publicado na nova página que o Senado sempre quis ser um modelo para todo o país. E cita a criação, em 2015, do Comitê de Gênero e Raça.

Entre as ações do comitê está o Programa de Assistência à Mãe Nutriz, que garante às mães de bebê de até 15 meses uma jornada de trabalho de seis horas, e o programa que reserva 2% das vagas de trabalho terceirizado no Senado a mulheres vítimas de violência doméstica. A página cita ainda a campanha contra o assédio moral e sexual.

Desde 2011, o Senado mantém o Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça. E em 2019, foi lançado o Plano de Equidade de Gênero e Raça, que ampliou as ações em favor da igualdade de oportunidades para colaboradoras e colaboradores.

Sustentabilidade

Um dos destaques da página de responsabilidade social é o Plano de Gestão de Logística Sustentável, ferramenta de planejamento de práticas de sustentabilidade e racionalização dos gastos e processos administrativos. Outra iniciativa é o programa de visitação ao Viveiro do Senado. E há a Feira Orgânica, realizada semanalmente sem nenhum gasto para a Casa.

Quanto às boas práticas, foi criado o Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos, que garantiu a distribuição de coletores em todo o Senado para separação dos resíduos e destinação correta dos materiais recicláveis. E uma unidade de coleta — o Ecoponto — abriga contêineres para coleta de eletroeletrônicos.

Outra iniciativa é a Rede Legislativo Sustentável, que prevê a cooperação entre instituições com o objetivo de promover o intercâmbio de práticas e o desenvolvimento de ações voltadas para uma gestão pública sustentável. Integram a parceria com o Senado, o Tribunal de Contas da União e a Câmara dos Deputados, além de assembleias legislativas.

Fonte: Agência Senado

Covid-19: UNICEF disponibiliza orientações globais para proteger crianças e escolas

A orientação inclui ações práticas e listas de verificação para gestores, professores, pais e crianças

@UNICEF/UNI220408/Pacific

Faça o download aqui: http://bit.ly/covid-19_escolas

Brasília, 16 de março de 2020 – O UNICEF disponibiliza, nesta segunda-feira, para o Ministério de Educação, o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), e União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) orientações globais para proteger crianças e escolas da transmissão do vírus Covid-19. O documento foi elaborado pela Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (IFRC), o UNICEF e a Organização Mundial da Saúde (OMS).

O documento fornece orientações cruciais e uma lista de itens que devem ser verificados para manter as escolas seguras. Também aconselha as autoridades nacionais e locais sobre como criar e implementar planos de emergência para manter as instalações educacionais seguras.

No caso de fechamento de escolas –como já foi decretado no Rio de Janeiro, em Goiás e no Distrito Federal e está começando em São Paulo e outros Estados e municípios –, as orientações incluem recomendações para mitigar os possíveis impactos negativos no aprendizado e no bem-estar das crianças e dos adolescentes. Isso significa ter planos sólidos para garantir a continuidade da aprendizagem, incluindo opções de educação a distância – como estratégias de educação online e transmissões de rádio de conteúdo acadêmico e acesso a serviços essenciais para todas as crianças. Esses planos também devem incluir as etapas necessárias para a eventual reabertura segura das escolas.

Onde as escolas permanecem abertas e para garantir que as crianças e suas famílias permaneçam protegidas e informadas, o documento solicita:

  • O fornecimento de informações às crianças sobre como elas devem se proteger;

  • A promoção de melhores práticas de lavagem das mãos e higiene e o fornecimento de suprimentos de higiene;

  • A limpeza e desinfecção de edifícios escolares, especialmente instalações de água e saneamento; e

  • O aumento do fluxo de ar e ventilação.

A educação pode incentivar estudantes a que se tornem defensores da prevenção e do controle de doenças em casa, na escola e na comunidade, conversando com outras pessoas sobre como evitar a propagação de vírus.

Manter operações escolares seguras ou reabrir escolas após o fechamento exige muitas considerações, mas, quando bem feitas, podem promover a saúde pública. Por exemplo, as diretrizes escolares seguras implementadas na Guiné, na Libéria e em Serra Leoa durante o surto de ebola de 2014 a 2016 ajudaram a impedir a transmissão escolar do vírus.

O UNICEF está incentivando os sistemas educacionais – estejam as escolas abertas ou atuando de forma remota – a que forneçam aos alunos um apoio integral. Além de explicar às crianças como proteger a si mesmas e suas famílias, é preciso facilitar o apoio à saúde mental e ajudar a prevenir o estigma e a discriminação, incentivando estudantes para que sejam gentis uns com os outros e evitem estereótipos ao falar sobre o vírus.

A nova orientação também oferece dicas e listas de verificação úteis para pais e responsáveis, bem como para crianças e estudantes. Essas ações incluem:

  • Monitorar a saúde das crianças e mantê-las em casa, se estiverem doentes;

  • Incentivar as crianças a que façam perguntas e expressem suas preocupações; e

  • Tossir ou espirrar em um lenço de papel ou na dobra do cotovelo e evitar tocar rosto, olhos, boca e nariz.

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Para mais informações sobre o coronavírus, acesse o site da Opas/OMS e o do Ministério da Saúde.

Fonte: UNICEF

A regulamentação do Tratado de Marraqueche está em consulta pública

Texto da Comissão Brasileira de Direitos de Autor e Acesso Aberto

Está em consulta pública o texto do Decreto que regulamentará o Tratado de Marraqueche no Brasil. Esse Tratado, assinado em 2013 e promulgado no Brasil em 2018 (Decreto n. 9.522/2018), deixou algumas possibilidades abertas para a livre escolha dos países signatários e, por causa disso, o Decreto de regulamentação que está em consulta pública é crucial, já que é por meio dele que o Estado Brasileiro irá fazer importantes escolhas, adaptando o Tratado à realidade nacional.

Trata-se, portanto, de um momento singular para todos os profissionais da informação preocupados com o debate sobre políticas públicas de acessibilidade onde terão a oportunidade de participar da discussão do instrumento legal mais relevante na promoção do acesso ao conteúdo de qualquer obra publicada para pessoas cegas, com deficiência visual ou com outras dificuldades (por ex., pessoas com tetraplegia ou dislexia).

O Tratado impõe uma nova Limitação ao Direito Autoral, por meio da criação de um Direito para as pessoas cegas, com deficiência visual ou com outras dificuldades que as impeçam de utilizar plenamente uma obra publicada. Sem necessidade de autorização prévia e sem necessidade de pagamento aos titulares de qualquer obra, os beneficiários e/ou as entidades autorizadas poderão reproduzi-las mesmo que estejam protegidas por direitos autorais, sempre com o intuito de convertê-las em um formato acessível que melhor atenda às necessidades do usuário. Além disso, as entidades autorizadas poderão promover o trânsito transfronteiriço de obras que já estejam convertidas para formatos acessíveis em outros países, facilitando ainda mais o acesso.

As bibliotecas são descritas no Decreto como um exemplo de entidade autorizada e poderão se cadastrar para atuarem como intermediárias do beneficiário no exercício pleno de seu direito. Cadastrada, a biblioteca poderá:

  • solicitar uma cópia de alguma obra que tenha sido convertida para formato acessível por outras entidades autorizadas. Isso contribuirá para o acesso dos beneficiários (pessoas cegas, com deficiência visual e com outras dificuldades), mesmo se a biblioteca não for especializada em obras em formatos acessíveis.

  • atuar diretamente na conversão de obras para o formato acessível, criando um acervo próprio e amparando outras entidades autorizadas na promoção do acesso dos beneficiários.

Os profissionais da informação, especialmente os bibliotecários, passarão a lidar diretamente com esses usuários, auxiliando-os no uso das obras em formatos acessíveis, garantindo o acesso a obras já acessíveis mesmo que disponíveis fora de seu acervo e/ou contribuindo para a conversão, para o formato acessível, das obras que estejam em seu acervo. Desse modo, enquanto gestores de entidades autorizadas, os bibliotecários e demais profissionais da informação também serão afetados pela regulamentação do Tratado, motivo mais que suficiente para que participemos do debate.

A redação deste Decreto ora em consulta pública, foi previamente debatida por um Grupo de Trabalho organizado pela Secretaria de Direitos Autorais e Propriedade Intelectual (SDAPI) nos meses de outubro a dezembro de 2019. Dentre os participantes, estavam presentes especialistas e entidades públicas e privadas representando a própria Secretaria, editoras, associações e institutos envolvidos com pessoas cegas e a FEBAB representando o segmento bibliotecas.

A FEBAB, presente por membros da Comissão Brasileira de Direitos de Autor e Acesso Aberto (Sueli Mara S. P. Ferreira e Walter Ellen do Couto), reafirmou o seu compromisso em defesa das bibliotecas, dos usuários de bibliotecas e demais instituições de informação, se posicionando para fazer cumprir sua missão de promover o acesso amplo e irrestrito a todos.

Reafirmou-se nosso respeito aos Direito dos Autores e dos titulares das obras que estejam em domínio privado, mas relembrando sempre que os usuários (denominados beneficiários no Decreto) dessas obras também possuem direitos. Os Direitos dos Usuários limitam intrínseca e extrinsecamente o Direito dos Autores, fazendo a relação dos usuários e dos criadores ser mais equilibrada. Isso ocorre em função do interesse coletivo da sociedade, que é a promoção da cultura e das ciências e não o seu impedimento por meio de um suposto direito absoluto. Não há direitos absolutos em nosso ordenamento jurídico, o que também se aplica aos direitos dos autores, limitados pelos direitos dos usuários. O caso do acesso de pessoas cegas, deficientes visuais e com outras dificuldades de leitura é um exemplo clássico de direito de usuário que limita o direito do autor.

Muitos pontos do Decreto foram pacificados na fase preliminar de debates, porém outros pontos se tornaram naturalmente objeto de controvérsia, dada a realidade de cada parte interessada. A Consulta Pública servirá, principalmente, para que os cidadãos se posicionem em relação a esses pontos. A FEBAB gostaria de convidar os bibliotecários, profissionais da informação e demais interessados a opinar na consulta pública, principalmente em relação aos pontos que considera mais relevantes, como em relação à cláusula de disponibilidade comercial.

Por que a FEBAB é veementemente contra a “cláusula de disponibilidade comercial”?

cláusula de disponibilidade comercial é a possibilidade de os países signatários do Tratado de Marraqueche condicionarem a sua aplicação para obras que ainda não estejam disponíveis comercialmente em formato acessível e em condições razoáveis.

Desse modo, se a entidade autorizada quiser converter uma obra para o formato acessível para atender a um beneficiário, precisará consultar algum catálogo nacional (contendo a descrição de todas as obras disponíveis no país) para saber se a referida obra já está sendo comercializada naquele formato e em condições razoáveis de acesso. Se estiver disponível comercialmente, o usuário não poderá utilizar o direito que o Tratado lhe garante, pois a cláusula de disponibilidade comercial irá impedi-lo.

Esta previsão está no Art. 4°, item 4, do Tratado de Marraqueche, e, se aplicada, funciona como uma “limitação da limitação”, pois estabeleceria limites para um direito do usuário beneficiário (como as pessoas cegas e os deficientes visuais) em função dos direitos dos autores; ainda que o direito do beneficiário tenha sido originalmente criado no Tratado exatamente para estabelecer um limite extrínseco aos direitos do autor. Há vários motivos para sermos contrários à adição desta cláusula, dentro os quais, destacam-se:

1 – Dificuldade de definir universalmente o que é uma “obra em formato acessível”.

O Tratado estabelece que o beneficiário deve ter plenos direitos de acesso às obras publicadas e que a condição desse acesso seja similar à condição de acesso das pessoas sem deficiência e/ou outras dificuldades. A cláusula da disponibilidade comercial dificultaria a individualização do atendimento aos beneficiários, que, por serem de espectro muito amplo, possuem necessidades diversas. Assim, a existência de uma obra em um formato acessível específico que atenda apenas parcialmente o beneficiário poderia justificar de maneira prejudicial e errônea a não conversão da obra para um formato plenamente acessível que atendesse integralmente aquele beneficiário individualizado. Imagine-se a seguinte situação: uma editora disponibiliza comercialmente uma obra e diz que ela é acessível para pessoas com autismo e dislexia; no entanto, o bibliotecário, ao cotejar a obra com um usuário autista que possui dificuldade de leitura constata que aquela obra não atende às especificidades do usuário – o autismo ocorre um espectro muito variável. A situação gera uma insegurança jurídica para os bibliotecários: quem irá definir quando uma obra está ou não em formato acessível compatível com a necessidade do usuário, a entidade autorizada que lida diretamente com o usuário ou o titular do direito de autor? Entendemos que a mera possibilidade de litígio desestimularia algumas entidades autorizadas a realizarem a conversão da obra, prejudicando injustificadamente os legítimos direitos dos beneficiários do Tratado.

2 – Dificuldade de definir o que seriam as “condições razoáveis de acesso”.

A cláusula diz que a disponibilidade comercial só ocorreria se a obra estivesse disponível em formato acessível e em condições razoáveis de acesso. Novamente, a mera dúvida sobre o que é essa “condição razoável” de acesso e quem iria defini-la gera insegurança para as entidades autorizadas, desestimulando a sua atuação como intermediárias do direito dos beneficiários. Muitas obras em formatos acessíveis dependem de aparatos tecnológicos para o seu uso, o que também configuraria hipótese condicional de razoabilidade de acesso, porque a mera disponibilidade da obra para a venda não significa que o beneficiário poderá utilizá-la, caso não tenha o recurso tecnológico que as bibliotecas possuem. Se uma editora que comercializa a obra alegar que ela está disponível em condições razoáveis, mas a entidade autorizada (como uma biblioteca) entender que as condições, para o seu usuário, não são razoáveis, quem irá decidir quem está certo? Provavelmente a questão iria para a justiça, o que, por si só, desestimularia as bibliotecas no atendimento pleno dos beneficiários.

– O espírito do Tratado não é a formação de um mercado, mas a garantia de um direito.

Argumenta-se que esta cláusula é importante para fomentar o mercado editorial das obras acessíveis no Brasil, o que justificaria a sua adição. A FEBAB lembra que o Tratado de Marraqueche não tem o objetivo de fomentar um mercado editorial, mas sim estabelecer um direito ao usuário com dificuldade e/ou deficiência visual. Entendemos, portanto, que não é o local e nem o momento de debater o fomento ao mercado editorial de obras acessíveis, mas sim o de garantir o direito dos usuários (no caso, os beneficiários já mencionados) de acessarem essas obras independentemente de autorização prévia dos titulares.

4 – A cláusula geraria insegurança no principal avanço do Tratado, que é o intercâmbio transfronteiriço.

Não está claro como essa cláusula afetaria o intercâmbio das obras entre as entidades autorizadas de diferentes países. Por exemplo, se uma obra estiver comercialmente disponível em formato acessível no Brasil, isso poderá impedir as entidades autorizadas nacionais de realizarem intercâmbio dessa mesma obra em formato acessível que tenha sido adaptada fora do país, onde eventualmente não há essa cláusula? Se a resposta for positiva, as entidades autorizadas nacionais perderiam muito ao terem o direito de realização do intercâmbio transfronteiriço limitado, porque ele é um dos principais avanços do Tratado, especialmente para as bibliotecas, tradicionais gestoras de grandes acervos.

5 – A ausência da cláusula não afeta a Regra dos Três Passos da Convenção de Berna.

Como o próprio Tratado estabelece na Nota de Rodapé n. 5, a cláusula de disponibilidade comercial não pressupõe alinhamento direto com a regra dos Três Passos da Convenção de Berna. Esta regra estabelece os mínimos convencionais para os países criarem limitações aos direitos autorais. A FEBAB entende que, mesmo na interpretação direta das Regras, a ausência da cláusula é autorizada por elas. Segundo as Regras, a limitação ao direito autoral só é legítima:

  1. a) em certos casos especiais. A FEBAB entende, seguindo teoria jurídica consagrada, que em nosso sistema legal (romano-germânico) a inclusão da limitação apenas para o caso das pessoas que possuem dificuldades de acesso aos textos em condições idênticas às pessoas que não possuem nenhuma deficiência já atende a esse critério, pois se configura como um caso especial.

  2. b) se não afetar a exploração normal da obra. Entendemos que as medidas adotadas pelas entidades autorizadas para controlar o acesso das obras apenas para os beneficiários que possuem o direito, conforme consta no próprio Decreto, já atenderá a esse requisito, pois não permitirá a circulação ampla da obra e, portanto, não afetará a sua exploração normal. Não se deve confundir o uso de um direito do usuário com uma violação do direito do autor que atrapalha o titular em sua exploração. Ademais, na maior parte dos casos, a exploração normal da obra está ligada ao formato convencional, que é o mercado de atuação principal das editoras. As pessoas cegas e com outras deficiências visuais não podem esperar a formação de um mercado editorial, que ainda é inexistente ou muito tímido, para ter o seu direito garantido.

  3. c) se não causar prejuízo injustificado aos interesses legítimos do autor. Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que esta regra não diz que os titulares são imunes a qualquer prejuízo; subentende-se que os titulares podem sim ter algum prejuízo pelo eventual exercício do direito dos usuários, contanto que esse prejuízo não seja injustificável. A FEBAB entende que o acesso amplo e irrestrito das pessoas cegas, dos deficientes visuais e das pessoas com outras dificuldades de leitura seja condição mais do que justificável para a implementação de uma limitação ao direito do autor.

Comissão Brasileira de Direitos Autorais e Acesso Aberto da FEBAB convida a todos os profissionais da informação e demais cidadãos interessados a participarem da consulta pública sobre o Decreto de regulamentação do Tratado de Marraqueche. É necessário o preenchimento do cadastro para incluir quaisquer contribuições:

cultura.gov.br/secult-abre-consulta-publica-para-regulamentacao-do-tratado-de-marraqueche/

Informe-se mais sobre o Tratado de Marraqueche:

PLANTÃO DE DÚVIDAScbda3@febab.org.br

Fonte: FEBAB

Primeiro Doutorado sobre Bibliotecas Prisionais

Texto por Catia Lindemann

No Brasil, a criação de Bibliotecas Prisionais é legitimada por meio da Lei de Execuções Penais (LEP – Lei Federal nº 7.210 de 11 de Julho de 1984) que diz em seu art. 21, Capítulo V, que:

“Cada estabelecimento penal deve ser dotado de uma biblioteca, para uso de todas as categorias de reclusos, provida de livros instrutivos, recreativos e didáticos”.

Quatro anos mais tarde, o direito a informação é assegurado a todo e qualquer cidadão, conforme a Constituição Brasileira de 1988, prescrito no Artigo 5º, inciso XIV, o que solidifica ainda mais a LEP das Bibliotecas Prisionais, corroborando para que todo o individuo brasileiro, inclusive os encarcerados, tenham acesso à informação. Passadas mais de três décadas, em 2017, a Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários, Cientistas da Informação e Instituições (FEBAB) deu voz e representatividade para as unidades de informação no cárcere, ao montar a primeira Comissão Brasileira de Bibliotecas Prisionais (CBBP). Foram trinta e três anos de negligenciamento biblioteconômico e, não obstante ao descaso do governo, apenas agora temos a primeira Tese, no Brasil, sobre a temática.

O Doutor – Ciro Monteiro é Agente Penitenciário, foi Diretor substituto do setor educacional do Centro de Progressão Penitenciária (CPP) de Jardinópolis (SP); Formado em História (UNESP), Biblioteconomia (USP), Mestre em Ciência da Informação (UNESP) e Doutor em Ciência da Informação (UNESP). Ele também faz parte da CBBP, convite que lhe foi feito ainda dentro do “Primeiro Fórum Brasileiro de Bibliotecas Prisionais”, ano passado. Sua linha de pesquisa partiu da sua própria experiência com os livros e a leitura intramuros das prisões e abarcou justamente os espaços de leitura na prisão. A Tese foi defendida no final do ano passado, 19 de novembro. Segundo o próprio Ciro, é preciso refletir sobre as possibilidades de atuação do bibliotecário no interior do cárcere.

E ele conta um pouco se sua trajetória:

Fui funcionário da prisão por 10 anos, atuando diariamente como mediador de leitura, estruturação de bibliotecas e projetos de incentivo à leitura e produção do conhecimento. A prisão é também nosso espaço de atuação. Deixo um trechinho do meu diário de campo para despertar curiosidade em vocês:

“Hoje algo que emociona qualquer pessoa vinculada à ideia de educação como forma de transformação da humanidade, tomou conta do meu ser. Era final do dia e ainda faltava coletar assinatura dos presos em documento que autorizava o setor de educação a publicar suas poesias para o evento Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, o qual a unidade foi convidada a participar e levar a produção de poesia dos educandos feitas por meio do projeto Rompendo as grades com poesia”. 

A ideia, discorre Ciro, era fazer um varal de poesia com as melhores poesias que foram depositadas na “caixa de poesia” para serem expostas no evento.

Fui até o pavilhão onde estavam todos os presos soltos e falei o nome de quais educandos tiveram a poesia selecionada. A reação foi impressionante. O caminho do educando até chegar para assinar o documento que estava em minha mão na porta do pavilhão, lembrava a passagem de um astro de futebol. Os demais reclusos gritavam, batiam palmas e passavam a mão na cabeça do contemplado. Toda essa glória por conta da produção de conhecimento é o que mais satisfaz o coração de um educador”. 

Atualmente, Ciro é coordenador da  Biblioteca Pública Sinhá Junqueira, de Ribeirão Preto (SP). Ele pediu exoneração do Sistema Penitenciário para se voltar exclusivamente nos fazeres bibliotecários dedicados ao social, com atividade totalmente inclusivas. “Aqui fizemos chá das pretas, rodas de preconceitos na literatura e conferência sobre pessoas com deficiência…”, relata Ciro.

Em março deste ano, Ciro organizou um evento em comemoração ao dia do bibliotecário, 12 de março: “Livro, Leitura e Biblioteca na Prisão”. Levou para ministrar fala, um egresso do sistema prisional e o atual monitor (reeducando) da sala de leitura do Centro de Progressão Penitenciária (CPP) de Jardinópolis (SP), Florindo Cassimiro Junior.

Florindo Cassimiro Junior

“Ele é um monitor excelente, que faz um ótimo trabalho”, afirma Ciro, acrescentando que o reeducando atualmente cursa graduação de Biblioteconomia (secundarista) na modalidade Ensino a Distância (EAD).

Para grande parte dos bibliotecários, a Biblioteconomia Social é redundância, afinal, a Biblioteconomia por si só é social. No entanto, embora tenha nascido completamente humanista e com viés erudito, pós o tecnicismo Deweyniano, que visava apenas a organização das obras do conhecimento, nós perdemos a nossa nascente, para não dizer a identidade. Simplificando, no sentido figurado, seria como alguém dizer seu nome sem citar o sobrenome. Ora, quantas pessoas de mesmo nome têm por aí? Então é necessário inserir o sobrenome, para então dar a origem evolutiva de nossa história. Da mesma forma acontece com a Biblioteconomia. Atribuindo o “Social”, conotamos a essência, almejando exclusivamente mostrar que a técnica bibliotecária não pode ser avessa ao social e sim parceira, andando lado a lado. Não exercemos, em tese, nossa aplicabilidade bibliotecária para os pares e sim para o leitor. Eis a base da Biblioteconomia Social: um fazer bibliotecário voltado ao povo e pelo povo, principalmente aos excluídos da sociedade, às comunidades em vulnerabilidade social. E este é o trabalho do Ciro Monteiro que nos enche tanto de orgulho e admiração.

E sim, a representatividade das Bibliotecas Prisionais tem um “Doutô SimSenhô “. Orgulho define. Inspiremo-nos!

Apenados utilizando a Biblioteca Prisional

Fonte: Biblioteconomia Social

Por que devemos participar da consulta pública sobre o Tratado de Marraqueche no Brasil?

Nossa Comissão Brasileira de Direitos de Autor e Acesso Aberto apresenta neste webinar a importância de participarmos da consulta pública sobre o Decreto de regulamentação do Tratado de Marraqueche.

Nossos convidados são:

  • Dra. Sueli Mara Soares Pinto Ferreira: Professora Titular da Universidade de São Paulo (USP), Coordenadora da Divisão V Regiões África e Oceania, África, América Latina e Caribe da IFLA, Membro do Conselho Administrativo da IFLA (2017-2021). Coordenadora da Comissão Brasileira de Direitos Autorais e Acesso Aberto da FEBAB desde 2016.

  • Dr. Allan Rocha de Souza: Professor e Pesquisador em direito civil, direitos autorais e propriedade intelectual no curso de Graduação em Direito (ITR-UFRRJ). Pesquisador visitante da Oxford Intellectual Property Research Center, Faculty of Law, Oxford University. Advogado e Consultor Jurídico com atuação profissional e acadêmica nas áreas de Direito Civil, Direitos Autorais, Direitos Culturais e Propriedade Intelectual. Consultor em Direitos Autorais da Fiocruz, UNESCO, OMPI e Governo Federal (Ministério da Cultura, Ministério da Saúde, Fiocruz). Membro da Comissão de Direitos Autorais da OAB-RJ.

  • Walter Couto: Doutorando em Ciência da Informação pela ECA USP, tendo como áreas de especialidade a Comunicação Científica (editoração científica, escrita científica, autoria científica, plágio acadêmico, acesso aberto) e o Direito dos Usuários das obras protegidas por Direitos Autorais (licenças públicas, limitações, fair use, compartilhamento de arquivos).

Fonte: FEBAB

VAZIOS NAS ESTANTES: REFLEXÕES SOBRE AS AUSÊNCIAS NOS ACERVOS DE BIBLIOTECAS E ESPAÇOS DE LEITURA

Terça-feira, 5 de maio de 2020, às 19h. Atividade realizada online

A ideia do encontro é destacar a importância que os profissionais da área da cultura e educação, especialmente bibliotecários e auxiliares, têm no processo de desconstrução/descolonização de acervos onde, geralmente, a presença masculina, branca, acadêmica e canônica é predominante, e onde a produção literária feminina, sobretudo de mulheres negras e indígenas, é muito escassa.

Faça sua inscrição online, neste link, a partir de 25/4/2020, até o preenchimento das vagas. O encontro será ministrado a distância, em plataforma online. O acesso ao ambiente em que serão realizadas as aulas será enviado para o e-mail cadastrado na ficha de inscrição.

Dayane Teixeira é graduada em Letras pela Universidade Paulista, tem cursos de extensão/especialização em História da Arte, Literatura, Museologia. Trabalha no Museu Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, desenvolvendo trabalhos junto ao acervo da biblioteca Espaço da Palavra e de Haroldo de Campos. Atua como pesquisadora independente com foco em África/Africanidades, Literatura indígena e temas correlatos, sobretudo na área da Literatura e Artes Visuais.

Imagem: foto de Dayane Teixeira

Fonte: Casa das Rosas

Acessibilidade e empatia: acadêmicos vivenciam dificuldades enfrentadas por deficientes físicos

Atividade realizada pelo curso de Design destaca a importância de desenvolver projetos que sejam acessíveis

Texto por Filipe Gabriel

Empatia é um exercício que deveria ser realizado todos os dias, mas, muitas vezes, acaba sendo substituído por outras prioridades do cotidiano. Pensando nisso, o curso de Design da Faculdade Satc, realiza, todos os anos, uma atividade que estimula a capacidade dos alunos de se colocarem no lugar de quem tem algum tipo de deficiência física. A ideia é fazer com que eles sintam na pele as dificuldades enfrentadas por pessoas que não conseguem enxergar, ou que perderam o movimento de alguma parte do corpo.

A atividade é, praticamente, a mesma realizada por toda a sociedade nos últimos dias devido a pandemia do coronavírus: sair da zona de conforto e se adaptar a uma nova realidade. A diferença é que, no projeto, a realidade é a de portadores de necessidades especiais. Conforme o professor Davi Denardi, os alunos vendam os olhos ou amarram uma das mãos e devem realizar práticas que estão acostumados no dia a da.

Nos anos anteriores, o projeto ocorria nos pátios da Satc, onde os alunos vendavam os olhos e se locomoviam em uma cadeira de rodas. Por conta da quarentena, a atividade foi adaptada e realizada em casa. “Para simular a cegueira, pedimos para eles vendarem os olhos e fazerem tarefas básicas, como manda uma mensagem no celular, trocar de roupa ou pentear o cabelo”, explica o professor.

Já para compreender a realidade de pessoas que sofreram uma amputação, os acadêmicos imobilizaram uma das mãos e tentaram fazer sanduíches, lavar a louça e botar em prática hábitos de higiene pessoal. “Depois disso, durante a aula virtual, nós discutimos a experiência e debatemos sobre a importância de irmos além de nossas realidades. Muitos deles, não conseguiram finalizar tarefas simples, como fritar um ovo, por exemplo”, destaca.

Experiência desafiadora

A atividade está inclusa nos ensinamentos de Design Universal, que visa estudar a projeção de produtos com ênfase na acessibilidade. Para a acadêmica Isadora Varela, foi algo diferente de tudo o que ela já havia vivenciado. “Foi uma atividade educativa e ao mesmo tempo desafiadora. Até gerou mais admiração pelas pessoas que precisam passar por isso no dia a dia”, conta. Segundo ela, a partir desta prática, gerou-se também uma preocupação maior com a questão da inclusão.

Para nós, como designers, pensar na usabilidade das coisas é um ponto crucial. No fim, a gente acaba precisando dessas experiências sem nem perceber, pois elas nos fazem pessoas melhores e mais compreensivas”, completa Isadora. Outra discussão levantada pelos participantes do projeto, foi sobre as dificuldades enfrentadas para o uso da tecnologia. Segundo o acadêmico Weslei Ferreira, enviar mensagens pelo celular sem enxergar foi uma missão praticamente impossível.

A experiência durou apenas algumas horas, mas foi suficiente para que eles percebessem a necessidade de produzir materiais gráficos e produtos em geral pensando em todos os públicos. “A gente fez isso dentro de casa, então todo mundo já tinha uma ideia de como era o local e os objetos mais ou menos. Para um deficiente visual que está em um lugar desconhecido e sem poder contar com um ambiente acessível, a situação fica ainda pior”, afirma Ferreira.

Fonte: SATC

Literatura antirracista para crianças e jovens

Texto: Vitor Taveira

Projeto idealizado por quilombola capixaba, Pretaria lança projeto Blackids, clube de leitura por assinatura para público infanto-juvenil
Nascida na comunidade quilombola de Angelim, em Conceição da Barra, Mirtes dos Santos é CEO da startup Pretaria

Primeiro clube de leitura por assinatura com foco na literatura antirracista do Brasil, o Pretaria BlackBooks foi idealizado e é comandado por Mirtes dos Santos, uma capixaba de origem quilombola que é mestre em Direito e Sociologia. O projeto acaba de apresentar mais uma novidade: o Blackids, um box infanto-juvenil, com foco na valorização da identidade negra e da representatividade para crianças e adolescente.

Para os assinantes, o box trará a cada mês livros infanto-juvenis que abordem direta ou indiretamente as questões étnico-raciais, além de outros brindes. Segundo Mirtes, o objetivo é orientar pais, mães e responsáveis sobre a importância de incentivar a leitura de literatura antirracista para crianças e adolescentes, sejam elas negras ou não.

“A obra escolhida é uma surpresa que virá de encontro com as motivações do projeto de estimular o leitor para uma formação social livre de preconceitos e fortalecer as publicações de editoras e autores negros brasileiros”, disse. A curadoria é feita por mulheres negras por meio de um grupo composto por ativistas, intelectuais, escritoras e pesquisadoras convidadas.

O projeto oferece planos com pagamento mensal, semestral ou anual tanto para o público adulto como para o infanto-juvenil e com entregas para todo o Brasil. Entre as propostas do projeto está o trabalho com algumas editoras especializadas e que não costumam ter espaço nas grandes livrarias, como Cora, Crivo, Malê, Nandyala e Perspectiva.

Enquanto o número de vendas em livraria tem caído, os clubes de assinatura apresentam um crescimento significativo nos últimos anos, segundo a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABCcomm), despontando como uma nova tendência no mercado editorial. A Câmara Brasileira do Livro (CBL), estima a existência de 25 clubes de assinatura de livros no Brasil, totalizando 2 milhões de assinantes. Destes, a Pretaria é o primeiro e único até o momento que apresenta como foco a questão étnico-racial.

O grupo editorial Pretaria foi lançado em 25 de julho de 2015, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. No ano passado, a partir de uma campanha de financiamento coletivo, deu o pontapé para o início do projeto do clube de leitura, que agora ganha um novo plano para contemplar também o público mais jovem.

Além de Mirtes, o grupo tem como co-fundadora e diretora de tecnologia da informação Neide Sellin, e a atriz e escritora Suely Bispo.

Para mais informações, o e-mail para contato é pretaria.ed@gmail.com, além da página oficial e em redes sociais como Facebook e Instagram.

Fonte: Século Diário

Rhaiane Leal analisa obra do autor do ‘Sítio do Pica Pau Amarelo’ e comenta sobre o racismo e elitismo inseridos em sua criação literária

Jeca Tatu é um dos personagens mais famosos de Monteiro Lobato que cria a imagem do trabalhador do campo como um ‘homem atrasado’ em sua narrativa
Foto: Divulgação

Texto: Rennan Rebello

Em tempos de isolamento social por conta da pandemia do novo coronavírus (covid-19), a literatura tornou-se, mais uma vez, uma boa companhia durante momentos de tédios causados pela restrição de sair de casa. Além de ser um bom passatempo, os livros também são alicerces de informação para reflexão do atual momento e de uma projeção de sociedade.

Desta forma, a análise de obras se faz necessária a fim de manter diálogo com outros leitores (cidadãos) para a interpretação dos escritos e trajetória de determinados autores. Em São Gonçalo, o trabalho literário do consagrado escritor paulista Monteiro Lobato (1882-1948), um dos ícones do segmento infanto-juvenil no Brasil, foi analisado pela professora de História e revisora de textos, Rhaiane Leal, 25, ainda durante sua graduação na Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FFP/UERJ), no bairro do Patronato.

A análise culminou em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) intitulado como: “Urupês e ideias de Jeca Tatu: Monteiro Lobato e o projeto de identidade nacional no início do século XX” e na dissertação “Nacionalismo militante: uma análise da correspondência de Monteiro Lobato e Artur Neiva (1918-1942)”, no Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio. Neste último trabalho, a pesquisadora encontrou elementos racistas no trabalho do autor do livro ‘O Sítio do Pica Pau Amarelo’.

“Durante a minha monografia eu abordei o Monteiro Lobato por uma perspectiva literária. Seus contos no início do século XX tinham um perfil muito voltado para queixas. Tanto que o seu primeiro de livro, o ‘Velha Praga, de 1914, onde ele reclamava das queimadas do ‘caipira’ no campo, onde adotava o discurso de reclamar sempre do homem do campo com a imagem de atrasado por meio do personagem ‘Jeca’ Tatu’. O Monteiro Lobtato era latifundiário e tinha fazenda no interior de São Paulo e dialogava politicamente com a classe média branca e elitista do país. No entanto, ele criticava o culto ao estilo francês e defendia que o Brasil precisava mudar neste aspecto. Já na minha dissertação, analisei 180 cartas que ele trocou com Arthur Neiva (político brasileiro e ex-secretário de Interior do Estado de São Paulo)e pude analisar o Monteiro Lobato não apenas como um homem das letras mas também como um político. Ele se engajou pela causa do petróleo e a metalurgia além de analisá-lo como empresário. Monteiro Lobato  passou a escrever livros para crianças porque percebeu que era lucrativo mas escasso no mercado”, explicou Rhaiane que teve experiências em sua infância e seu trabalho como agente de leitura como influências para sua pesquisa acadêmica referente ao escritor de Taubaté.

“O Monteiro Lobato sempre esteve presente na minha infância. Eu conheci sua obra através da TV Globo, em 2002, e me encantei com a fantasia em torno do ‘Sítio do Pica Pau Amarelo’. E eu associava ao bairro aonde morava em São Gonçalo, no Arsenal, que era bastante arborizado e tinha um campo de futebol, e minha casa apesar de simples era grande e arejada. E eu acabava associando ao sítio com minha residência. Passaram-se os anos e entre os anos de 2014 e 2015 tive o prazer de ser agente de leitura para trabalhar nas escolas municipais de São Gonçalo e passei a ser contadora de histórias e preferi trabalhar com crianças. Após este período, tive como legado o acesso aos livros e durante a graduação tive uma disciplina chamada ‘Teoria da História’ e conheci o trabalho do historiador Robert Darnton e ele retratava como o conto da ‘Chapeuzinho Vermelho’ e da ‘Cinderela’ eram usados pelos antigos regimes e trabalhado com os camponeses na França e na antiga região da Prússia (atual Alemanha) e percebi como a literatura servia de pano político. Como eu não sabia falar muito francês e queria abordar o Brasil, resolvi adotar o Monteiro Lobato, que é considerado o pai da literatura infantil mas na minha pesquisa utilizei os contos adultos que ele escreveu onde abordava questões políticas e sociais”, acrescentou a pesquisadora. Quanto a polêmica referente ao racismo inserido em representações de personagens na narrativa de Monteiro Lobato, que era ligado a movimento de eugenia no Brasil, Rhaiane analisou esta temática para a reportagem de O SÃO GONÇALO.

“Na questão social, na minha dissertação, também percebi que Monteiro Lobato era um intelectual que atuava em rede e tinha diversos tipos de contatos, tendo vínculos com médicos, cientistas e políticos da época. Ele também era um influenciador destas redes pois estava sempre escrevendo e publicando. Desta forma descobri a sua participação na Sociedade Eugênica de São Paulo. Sobre a acusação de Monteiro Lobato como racista, para mim não se trata de uma acusação e sim uma afirmação, uma vez que desde 1990 há trabalhos acadêmicos na plataforma da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) que já abordaram o racismo de Monteiro Lobato em suas obras. Na minha concepção, o Movimento Negro não o acusa de racismo mas sim afirma algo que já é algo incontestável. A carta que ele enviou à Artur Neiva em 10 de abril de 1928, da qual analisei, é o ápice desta constatação pois ele coloca seu apoio à Ku Klux Klan (grupo terrorista e racista criado nos Estados Unidos). Além disso, Monteiro Lobato representa o universo africano e negro de forma preconceituosa e estereotipada em suas obras”, pontuou a professora, que também explica a importância do estudo crítico  das obras de Monteiro Lobato e da reivindicação por outras narrativas.

“A questão não é tirar o peso do autor Monteiro Lobato em relação as obras em sua vida mas sim, fazer uma reflexão dos personagens negros, sobretudo a Tia Nastácia que é a sua personagem negra mais famosa. E ele a coloca como ‘negra beiçuda’, ‘macaca de carvão’, ‘negra do Congo’ e ignorante.  Na verdade, o Movimento Negro questiona a subalternização do passado colonial e defende novas formas de representações literárias para este mundo lúdico da mulher negra e do negro em geral pois temos o personagem do Saci (Pererê). Será que são estas referências que temos que ter para as crianças negras? Até quando a reprodução da mulher negra será justificada pelo contexto história? Este período não é uma maneira de passar a mão no autor. É importante entender a sua obra como fonte. Na sala de aula, eu vou usar esta obra de 1933 para compreender política, economia e a sociedade e como os homens pensavam mas nunca para dizer que aquilo condiz com o que pensamos hoje. Portanto, o professor precisa ser a ferramenta principal para que os alunos tenham um olhar crítico para qualquer tipo de documento. É importante sempre circunstancializar “, finalizou.

Recentemente a pesquisadora concedeu entrevista, de forma remota, ao programa ‘Aulas com Filatelia’ com Heitor Fernandes na Web Rádio Censura Livre, de São Gonçalo. Escute, abaixo.

Fonte: O São Gonçalo

Encontro online do WPT incentiva produção de conteúdo acessível

Especialistas participam do terceiro meet up virtual do Movimento Web para Todos. Imagem: Reprodução YouTube Movimento Web para Todos.

Formar cada vez mais criadores de conteúdos acessíveis faz parte do nosso trabalho diário com o Movimento Web para Todos. Seguindo esse nosso propósito, ontem (23/04), realizamos o terceiro meet up online e gratuito incrível com muita interação no chat e dicas relevantes dos especialistas. O tema foi: “Acessibilidade digital: como produzir conteúdo para ampliar a sua audiência?”

O encontro aconteceu no nosso canal no YouTube com a presença de João Bezerra Leite, embaixador do WPT, que foi nosso mediador; Edney Souza, Diretor Acadêmico na Digital House Brasil; Simone Freire, idealizadora do WPT; Isadora Meirelles, criadora de conteúdo acessível; Rafael Kiso, Fundador e CMO da mLabs. A live contou também com a tradução em Libras, em tempo real, pela intérprete Paloma Bueno.

Falamos de tendências, dicas práticas e ferramentas para que produtores de conteúdo digital possam ampliar sua audiência eliminando pequenas barreiras que vão beneficiar todo mundo!

DESTAQUES E DICAS

Destacamos alguns trechos do bate-papo para você saber um pouco como foi.  

Escrever pensando em todo mundo 

Quando você trabalha com acessibilidade, você entende que está trabalhando com a essência do jornalismo. A informação tem que estar ali para todo mundo. O objetivo é fazer a informação chegar para um maior número de pessoas. Quando você tem consciência disso, você faz um texto acessível. Assim, você facilita o uso do avatar de Libras, tudo fica mais fácil, até mesmo para uma ferramenta que vai ler aquele áudio”, enfatizou Simone Freire. 

Produzir conteúdo pensando nos cinco sentidos humanos de recepção de informação 

Eu incentivo as pessoas a usarem os cinco sentidos porque costumamos concentrar a maioria da produção de conteúdo apenas na visão. Então, por que não começar a colocar um player de áudio para fazer a leitura do áudio? Isso traz humanização da marca para o conteúdo. Eu enxergo de um olho só. Pra mim, o áudio é muito melhor. É enxergar a comunicação inclusiva como forma de inovar e também pra ir além dos sentidos”, disse Isa Meirelles.

Importância de incluir acessibilidade na grade curricular dos cursos técnicos, universidades e escolas

Falamos de acessibilidade em diferentes níveis: na interface, no dashboard, nos controles do aplicativo, na linguagem de um chatbot ou de um texto ser inclusivo. Temos diversidade, acessibilidade e inclusão na nossa filosofia. A pauta da acessibilidade faz parte da nossa rotina dos cursos da Digital House”, afirmou Edney Souza. 

Mudança de mentalidade e inclusão de pessoa com deficiência na equipe

Acredito que colocar a acessibilidade em prática é muito mais uma mudança de mentalidade. Tem muitas ações simples, como criar um texto alternativo, que você pode aplicar rapidamente. Se fizer um site acessível, seguindo os guidelines do W3C, seu site vai ser melhor ranqueado, vai ter melhor desempenho, reduzir custos de manutenção. É transformar a cultura da empresa. Uma das recomendações é ter alguém com deficiência no time. Isso faz com que você pense em acessibilidade o dia inteiro”, contou Rafael Kiso. 

Quer saber mais e acompanhar tudo o que aconteceu no nosso meet up? Assista ao vídeo completo!

Semana que vem tem mais! Na quinta-feira (30/04), teremos mais um meet up. A temática do encontro vai ser: “O que não pode faltar na hora de construir ambientes digitais mais inclusivos?”. Em breve, divulgaremos o link para inscrição.

Fonte: Web para todos

Quando o direito de acesso à comunicação é tirado de pessoas com deficiência auditiva e visual

Dados do Censo do IBGE apontam que cerca de 24% da população brasileira se autodeclara como pessoa com algum tipo de deficiência

Texto por Liliane Rocha

Foto: Camilo Freedman/APHOTOGRAFIA/Getty Images

Neste mês, tivemos duas datas muito importantes que nos ajudam a refletir sobre a importância do diálogo. Ainda mais relevante é analisar como fazemos para dialogar, nos comunicar, trocar ideias com todas e todos, sem distinção.

A primeira data foi o Dia Nacional do Sistema Braille, celebrado em 8 de abril, que nos remete a pessoas cegas ou com baixa visão. E a segunda, o Dia Nacional da Língua Brasileira de Sinais Libras, em 24 de abril, que nos remete a pessoas surdas ou com baixa audição. Dados do Censo do IBGE (2010) apontam que cerca de 24% da população brasileira se autodeclara como pessoa com algum tipo de deficiência, ou 7%, considerando um refinamento deste estudo, no qual foram especificadas somente deficiências mais severas.

Ainda segundo o IBGE, há no país mais de 6,5 milhões de pessoas com alguma deficiência visual. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que, se houvesse um número maior de ações efetivas de prevenção e tratamento, a maioria dos casos poderia ter sido evitada.

Já o estudo do Instituto Locomotiva, realizado em parceria com a Semana da Acessibilidade Surda (SAS) em 2019, aponta que cerca de 10 milhões de brasileiros são pessoas com deficiência auditiva, e desse total 2,3 milhões são surdas.

Estamos falando de milhões de brasileiros que têm o direito de ter acesso a conteúdos, por leitura em braille, áudio leitura ou língua dos sinais, à educação, e principalmente ao emprego. Vamos lembrar aqui novamente que, desde 1991, temos uma legislação no Brasil que nos diz que empresas com mais de 1001 funcionários, mencionando apenas as grandes companhias, devem ter 5% de pessoas com deficiência em seu quadro de profissionais.

Se a comunicação é uma limitação para os profissionais que apresentam esses dois tipos de deficiência, como as áreas de recursos humanos vão chegar até eles? Como irão divulgar as vagas? E, principalmente, como farão um processo seletivo justo e correto quando essa pessoa chegar até a empresa?

Veja, as iniciativas a serem tomadas são simples, mas precisamos nos adaptar. Sim, nós pessoas sem deficiência precisamos nos adaptar. Parar de cobrar uma mudança do outro, ou falar que o outro precisa mudar. As pessoas com deficiência não precisam mudar, quem precisa mudar somos nós. E a sociedade.

Divulgar as vagas somente em meios impressos não é suficiente, vamos divulgar nas rádios também. Vamos tornar os nossos sites acessíveis, com sistema de som e áudio. E que tal incluir Libras em nossos eventos? Vamos divulgar as nossas vagas em instituições que atuem com pessoas com deficiência, vamos contratar especialistas que estudaram sobre esse tema.

Por exemplo, o Brasil tem duas línguas oficiais, e uma delas é a Libras. Por que então não estudamos para ter conceitos básicos dessa língua desde o ensino primário? Até o século 15 XV, acreditava-se que pessoas surdas eram incomunicáveis. O francês Charles-Michel foi quem criou, na metade do século XVIII, o sistema de sinais para alfabetizá-las.

No Brasil, a luta pela educação das pessoas surdas começou em 1857, após a vinda do francês, Eduard Huet, que era surdo, para a fundação da primeira escola para surdos, hoje conhecida como Instituto Nacional de Educação dos Surdos (INES). Em 1966, o americano Orin Cornett deu mais uma importante contribuição para o desenvolvimento da língua, unindo a utilização dos sinais com a leitura labial. Todas as línguas de sinais utilizadas atualmente no mundo derivam do alfabeto manual francês, mas apresentam pequenas variações em função da gramática local.

Ainda assim, infelizmente parece que até hoje algumas empresas e pessoas acreditam que pessoas com deficiência auditiva continuam incomunicáveis.

A Lei N° 10.436/02, que dispõe sobre Libras e a reconhece como segunda língua oficial do Brasil, prevê o seu uso em ambientes públicos e privados, com o objetivo de proporcionar acessibilidade e visibilidade à comunidade de surdos.

O Braille, por sua vez, sistema criado e adaptado para a comunicação de pessoas com deficiência visual, existe há quase 200 anos. Este modo de escrita e leitura em relevo foi desenvolvido inicialmente pelo francês Louis Braille, em 1837.

Como podem dois sistemas de comunicação para pessoas com deficiência existirem há cerca de 200 e 300 anos e ainda serem, em 2020, um tabu para a sociedade? Como é possível não garantirmos que as informações relevantes estejam disponíveis e acessíveis a todos? Como é possível até hoje impormos a limitação a determinados grupos sociais nos processos seletivos, com base em nosso desconhecimento sobre o tema?

Essas datas nos dão a oportunidade de refletirmos sobre a construção de “novas” empresas, uma nova sociedade mais inclusiva para todos. Como disse certa vez a Mariana Rosa, do Diário da Mãe de Alice: “Pessoas não são deficientes. Deficientes são as estruturas sociais, a arquitetura o sistema de ensino e trabalho que não estão acessíveis para todos”.

Ou como disse Benedita Casé Zerbini, filha de Regina Casé, em uma rede social, revelando que é uma pessoa com deficiência auditiva para apoiar outras pessoas surdas: “Não sabia até onde eu chegaria, como iria me virar, estudar, me formar, trabalhar, casar, ter filho […], busquem reabilitação auditiva e vejam que é possível, sim, ir muito mais longe do que a gente imagina”.

Sim, as pessoas surdas e cegas podem ir muito além das barreiras impostas pela sociedade, mas é inegável que para isso precisam de líderes e gestores que estejam abertos para as suas habilidades. Mais do que estar aberto à inclusão desses profissionais, o verdadeiro líder permite que esses profissionais se desenvolvam e cresçam dentro de suas empresas.

*Liliane Rocha CEO e Fundadora da Gestão Kairós, consultoria especializada em Sustentabilidade e Diversidade, autora do livro Como ser um líder Inclusivo e premiada com o 101 Top Global Diversity and Inclusion Leaders.

Fonte: Época Negócios

UFC disponibiliza site com jogos e conteúdos educacionais para alfabetização de crianças

Projeto deve ser expandido para atender o público jovem e adulto.  

Foto: Reprodução

Em tempos de pandemia novo coronavírus, a tecnologia desponta como aliada da educação. Para ajudar na alfabetização de crianças, a Universidade Federal do Ceará (UFC) disponibilizou a ferramenta “Luz do Saber”, um site com conteúdos didáticos e lúdicos para os anos iniciais do ensino fundamental. 

Usada anteriormente em algumas escolas como apoio para aulas, agora a plataforma digital pode ser acessada gratuitamente em qualquer lugar. Além de jogos, e atividades lúdicas, o Luz do Saber oferta biblioteca digital com mais de 30 livros didáticos. A expectativa é de que o acervo seja ampliado, em breve, com cerca de 200 obras da coleção Prosa e Poesia, do Programa Alfabetização na Idade Certa (PAIC), da Seduc.

O projeto é uma iniciativa da universidade, por meio do Laboratório de Mídias Educacionais do Instituto UFC Virtual, do Governo do Estado e da Prefeitura de Fortaleza que planejam expandir a ferramenta digital para outros públicos. “No momento, estamos ampliando o projeto para a versão apropriada para educação de jovens e adultos, sempre em parceria com a SEDUC”, explica, jorge Lira, pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UFC e coordenador do Programa Cientista-Chefe.

Conheça o site

Fonte: Diário do Nordeste

Contação de histórias com acessibilidade para crianças

 Os vídeos têm tradução em Libras e audiodescrição (Foto: Amanda Vieira/JP)

Além de se informar para proteger-se do novo coronavírus, as pessoas com deficiência também precisam de lazer durante a quarentena. Mas a falta de acessibilidade é persistente. Para quebrar essa barreira, a equipe piracicabana Encanto Produções e Eventos pensou em uma forma de levar o “mundo mágico” das princesas para todas as crianças pelos vídeos em seu canal no YouTube. A primeira produção disponível para os pequenos é a história da Bela e Cinderela, que conta com tradução em Libras (Língua Brasileira de Sinais), legendas e audiodescrição.

“Assim que surgiu uma oportunidade de gravarmos, nosso primeiro pensamento foi: ‘como podemos fazer com que esse conteúdo esteja de fato disponível para todas as crianças?’”, lembra Giulia Sbrissa, produtora artística. “Iniciamos os nossos estudos e preparativos para produzirmos, além de vídeos comuns, vídeos que podem ser assistidos e compreendidos por cada criança, dentro de suas particularidades”, conta.

A equipe visa continuar a produção com acessibilidade para o YouTube e levá- -las, após a quarentena, para os eventos presenciais. “Nosso principal objetivo é levar carinho, diversão e entretenimento de qualidade para dentro de cada casa, para cada família, principalmente neste momento tão vulnerável”, enfatiza Giulia.

De acordo com Leonardo Moraes, produtor cultural e diretor, a equipe recebeu apoio da intérprete de Libras Beatriz Turetta, também coordenadora do grupo Libras Piracicaba e Região, e a intérprete que aparece nos vídeos é Shalimar Laureano, que tem direito a uma fantasia e senta- -se ao lado das princesas durante a contação de histórias. “[A Beatriz] nos instruiu com vários tópicos sobre como realizar essas gravações de forma correta, porque além da nossa intenção de acertar, é necessário que as atividades sejam feitas de uma maneira que o público que está recebendo consiga compreender e usufruir desse material”, avalia Moraes.

Para Beatriz, a intérprete ocupar o mesmo espaço que as princesas ocupam é “uma conquista” para a área. “Não tenho palavras, [eles] foram muito sensíveis à necessidade das crianças, não só das surdas, mas se preocuparam se ia ser acessível para as crianças cegas”, avalia Beatriz.

Conforme conta Cristiane Sbrissa, administradora da equipe, eles se atentam à recepção do público para aprimorar a acessibilidade nos próximos vídeos.“Estamos recebendo muitas mensagens de carinho de diversas famílias e profissionais que estão felizes e tocados pelo resultado dessa primeira produção, assim como diversos feedbacks de profissionais de todo o Brasil que estão nos ajudando a ajustar alguns detalhes técnicos para as próximas gravações”, afirma Cristiane.

Andressa Mota

Fonte: Jornal de Piracicaba

Leia mulheres: clube do livro em Florianópolis dá visibilidade à literatura feminina

Projeto mundial tem grupo fixo na Capital catarinense; participantes fazem reuniões virtuais em meio à pandemia do coronavírus

Texto Catarina Duarte

Lançado em 1977, o ‘Seminário dos ratos’, de Lygia Fagundes Telles, é o livro do mês de abril do Leia Mulheres Florianópolis. O clube de leitura, que completou quatro anos em março, é dedicado exclusivamente à literatura feminina.

O projeto surgiu em 2014 com a escritora Joanna Walsh. Por meio da #readwomen2014, a britânica propôs que naquele ano apenas autoras fossem lidas por seus seguidores. A ideia era dar visibilidade às mulheres dentro do mercado editorial.

A pesquisa Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, vinculada à Unb (Universidade de Brasília), mostrou que entre 1965 e 2014, mais de 70% dos livros publicados por grandes editoras foram escritos por homens.

No Brasil, o Leia Mulheres passou a ocupar livrarias e espaços culturais no ano seguinte. Os clubes se espalharam por diversas capitais brasileiras, chegando a Florianópolis em 2016.

Os encontros, que já reuniram dezenas de participantes, acontecem no último sábado de cada mês na BU (Biblioteca Universitária) da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Não há restrição quanto à participação de homens no clube, mas as mediadoras dos debates são sempre mulheres. Assim, explica uma das fundadora do grupo na Capital, o espaço tem garantias de que a discussão abordará o universo feminino.

Por meio do clube é que as pessoas acabam percebendo como não é habitual ler autoras. Eu mesma percebi que na minha biblioteca só tinham livros escritos por homens. Isso mudou bastantes depois do Leia”, comenta Liandra Schug.

Graduanda do curso de Letras Português, Liandra fundou o grupo com uma colega um ano após entrar na universidade. Desde então, media os debates mensais, que têm público de cerca de 20 pessoas.

Discussões virtuais

Com o avanço do coronavírus em Santa Catarina, as reuniões do Leia Mulheres passaram a ser virtuais. A primeira em meio à pandemia acontece neste sábado (25).

O calendário com as obras também sofreu alterações, substituindo obras com edições limitadas ou de acesso mais difícil por livros online, por exemplo.

Até o fim do ano, obras de Cora Coralina, Ana Miranda e Ayobami Adebayo devem ser lidas pelas participantes do grupo.

Para participar do Leia Mulheres Florianópolis basta entrar em um grupo que as administradoras mantêm no Facebook. Não há restrições de idade ou gênero.

Fonte: ND+

A cultura do índio no acervo de Obras raras da Biblioteca Nacional

Em 1940, no México, acontece o primeiro Congresso Indigenista Interamericano que propôs aos países da América Latina a data de 19 de abril para comemorar o Dia do Índio. Após publicação do Decreto-lei nº5.540, de 2 de junho de 1943, assinado pelo então Presidente Getúlio Vargas, a celebração ocorre pela primeira vez no Brasil em 1944, através de solenidades, festividades e atividades educativas que promovem a divulgação da cultura indígena.
Na imagem, vê-se a figura do Capitão Manuel Arepquembe, chefe dos índios Coroados (Kaingang) do aldeamento de São Pedro de Alcântara.
Na imagem, vê-se a figura do Capitão Manuel Arepquembe, chefe dos índios Coroados (Kaingang) do aldeamento de São Pedro de Alcântara.

Segundo a FUNAI (Fundação Nacional do Índio), o desdobramento da lei abrange as políticas de “proteção territorial e de conservação da biodiversidade das terras indígenas por meio da execução de planos anuais de gestão ambiental, do acompanhamento de processos de licenciamento ambiental e ações coordenadas de fiscalização e monitoramento”.  A questão da terra e a luta pela preservação e legitimidade constitui uma das maiores chagas carregadas pelos povos originários.  Os efeitos da colonização na América portuguesa são sentidos até hoje, principalmente no que diz respeito à dizimação de etnias múltiplas e às tentativas de homogeneização de suas matrizes identitárias. No entanto, a história nos conta que as relações entre colonos e indígenas também foram marcadas por negociações e movimentos de resistência.

Na imagem vê-se a figura do Capitão Manuel Arepquembe, chefe dos índios Coroados (Kaingang) do aldeamento de São Pedro de Alcântara. Oriundo da região dos sertões de Guarapava, Manuel Arepquembe permanecera no aldeamento de São Jeronimo na província do Paraná até 1868, quando se mudou para o aldeamento de São Pedro de Alcântara. O aldeamento contava com cerca de 10.000 indígenas e configurava como núcleo central da operação dos missionários, pois fazia a ligação das províncias de São Paulo ao Paraná. A região também confluía o trânsito e a permanência de diferentes grupos indígenas, com destaque aos Kaingang e Guaranis- Kaiowá.  As ordenações religiosas instaladas na região sul do país resultavam do Decreto instaurado por D. Pedro II que autorizava a vinda de missionários da Ordem Menor dos Capuchinhos da Itália para administrar e organizar os aldeamentos indígenas.

Com objetivo de empregar indígenas, concedendo soldos, trabalho na lavoura e manufatura em pequenas empresas de destilaria, pólvora etc., a ideia consistia em facilitar a apropriação de terras por parte de missionários e colonos. Ao passo que a empresa missionária avançava, os aldeamentos eram tomados pela prática da colonização militar. A titulação de indígenas a postos militares era tida como contrapartida estratégica para a dominação de suas terras. Não à toa é concedida à Manuel Arepquembe a alcunha de Capitão dos Coroados.

Durante a estada do cacique e capitão Manuel no aldeamento de São Jeronimo, Frei Luís de Cemitille, diretor daquela missão relatava a dificuldade em catequisar o cacique, que não fazia o sinal da cruz e mantinha relação providencial com o aldeamento no intuito de ter acesso às provisões, especialmente armas e ferramentas.  O clima de tensão e expectativas revelava as práticas de negociação entre os missionários e os indígenas, indicando o grau de civilidade a que deixavam submeter. Os ritos católicos concorriam com algumas garantias, de propriedade, inclusive. Relações monogâmicas eram ponto de desacordo, a exemplo da preferência do cacique Manuel em manter suas quatro mulheres, sinal de poder e força conforme a estrutura social dos Kaingang.

Em 1872, o frei Timóteo de Castelnuovo relatava a homenagem que os Coroados renderam à Manuel Arepquembe, assassinado durante uma emboscada em Botucatu, província de São Paulo. Na ocasião, o cacique retornava de viagem da casa do Barão de Antonina, após acerto sobre nova empreitada de ampliação do aldeamento de São Pedro de Alcântara com apoio dos Coroados. O ritual funerário típico daquele grupo fora executado conforme suas tradições. O relato do frei demonstrava o ato como manifesto de preservação de suas origens, mas ao mesmo tempo revelava a incompreensão do clérigo ao avaliar a conduta insubordinada e não condizente com princípios de civilidade.

O desenho aquarelado de autoria do alemão Franz Keller computa como mais um dos testemunhos, entre os membros das famosas expedições cientificas, realizadas ao longo do século XIX no Brasil. Ainda que sob uma visão eurocêntrica, etnólogos, naturalistas e artistas revelavam pelas telas e relatos de viagem, preciosos registros sobre a organização das tribos indígenas. Mas, eram através dos documentos administrativos, produzidos pelas ordens missionárias quanto ao empreendimento e organização dos aldeamentos que percebemos os entraves e as formas de resistências dos grupos indígenas para preservação de sua cultura e rendição de suas terras.

(Tatiane Cova)

Na divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional, encontram-se algumas obras referentes ao índio e sua cultura:

ANCHIETA, José de, Santo, 1534-1597. Arte de grammatica da lingoa mais usada na Costa do Brasil. Feito pelo padre Joseph de Anchieta… Em Coimbra [Portugal]: Per Antonio de Mariz, 1595. [2], 58 f.: brasão; 16 cm (4to).

É a primeira gramática missionária portuguesa sobre as línguas indígenas faladas no Brasil que se publicou no século XVI (em língua tupi). Este trabalho, valioso por si só, é extremamente raro.

Entre os romances indianistas, se destaca Iracema: a lenda do Ceará, de José de Alencar e a Confederação dos Tamoyos, de Domingos José Gonçalves de Magalhães.

Com o subtítulo Lenda do Ceará, Iracema é um dos livros mais republicados da literatura brasileira. Sua primeira edição é de 1865 e a segunda, revista, de 1870. Nos cem anos seguintes, serão feitas, só no Brasil, 113 edições, confirmando a percepção de Machado de Assis que, num texto de primeira hora, reconheceu a novidade e importância da obra, afirmando que o futuro a teria por obra-prima. Merecem especial atenção, nesse livro, o trabalho de linguagem centrado na comparação da personagem título com elementos da natureza brasileira, a profusão de notas nas quais se desenvolve uma das ideias centrais do romance: a utilização poética dos nomes indígenas. Notável ainda o fato de a narrativa estar envolvida por uma carta do autor, na qual ele apresenta a obra como parte de um projeto de construção da literatura nacional. Excepcional interesse oferece também o pós-escrito, em que Alencar rebate críticas e discute questões ligadas à elaboração de uma língua literária nacional. (Resumo elaborado por Paulo Franchetti, biblioteca Brasiliana Mindlin). Iracema faz parte da tríade dos romances indianistas, juntamente com O Guarani e Ubirajara.

.“A Confederação dos Tamoyos” é uma obra importante porque, além de seu caráter histórico e de expor um evento pouco abordado na literatura brasileira, revela ainda a importância dos índios na história do Brasil. O livro é rico em descrições sobre os costumes dos índios do século XVI, muitos dos quais em concordância com os relatos expostos na Carta de Pero Vaz de Caminha, como: o uso de penas e pinturas no corpo para ornamento, a igualdade entre os indígenas de uma tribo, a não prática da propriedade privada e o detalhamento das aldeias onde habitavam (Stéfanie Rigamonti Blog. Dica de livro/resenha: A Confederação dos Tamoios – Gonçalves de Magalhães.

Fonte: Biblioteca Nacional

Como criar sites acessíveis

Desenvolvedores precisam colocar a acessibilidade na rotina de trabalho. Imagem de Free-Photos por Pixabay

Um site acessível é aquele que é bom para todo mundo! E pra isso acontecer, é preciso fazer com que a  acessibilidade seja incorporada na rotina do desenvolvimento para eliminar barreiras de navegação e incluir todas as pessoas. Na prática, é essencial considerar quatro frentes na hora de pensar a acessibilidade do seu projeto: planejamento, conteúdo, design e desenvolvimento. 

Gosto de comparar acessibilidade web com a arquitetônica. É muito mais fácil, simples e rápido se implementar quando pensada no início do projeto. Após finalizado, vai ter refação de trabalho, levar mais tempo e custar mais caro”, explica Reinaldo Ferraz, especialista em desenvolvimento web do W3C Brasil.

Separamos, abaixo, três links para mostrar que, com planejamento, vontade e conscientização, é totalmente possível fazer um site acessível desde o começo. Eles serão de grande utilidade para você nessa jornada inclusiva.

Parte 1: planejamento e conteúdo

Parte 2: design

Parte 3: desenvolvimento

Além desses conteúdos, é possível encontrar muitos outros materiais de referência, dicas, artigos e ferramentas em nossa biblioteca virtual. E, em nossa área de Educação, estão disponíveis também uma seleção de melhores práticas e exemplos de códigos acessíveis. 

Fonte: Web para todos

Arquivo Público lança conteúdo infantil para download durante isolamento em Alagoas

Arquivo Público lança conteúdo infantil para download durante isoamento em Alagoas — Foto: Divulgação
Arquivo Público lança conteúdo infantil para download durante isoamento em Alagoas — Foto: Divulgação

Para entreter e educar as crianças durante o período de isolamento social, o Arquivo Público de Alagoas (APA), está disponibilizando um material didático e atrativo para download de forma gratuita. A Iniciativa faz parte das atividades que compõe o “Suquinho de Memória”, parceria com o Programa Criança Alagoana (Cria), que desperta no público infantil o interesse pela cultura alagoana.

Clique aqui e acesse o conteúdo do Arquivo Público

Os conteúdos que estão disponíveis são: o Calendário Cultural 2020, desenhos para colorir e joguinhos temáticos da Iara e a Turma do Guerreirinho, que podem ser encontrados nas páginas oficiais e redes sociais do Arquivo Público de Alagoas, do Gabinete Civil e do Relu/Ufal.

A outra novidade que o APA traz, é o lançamento do mascote Moacirzinho, em homenagem ao historiador Moacir Medeiros de Sant’ana. O mascote está presente no Calendário Cultural 2020, com personagens mirins do folclore regional, que foram criados pelo grupo de estudos Representações do Lugar (Relu), da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), e com o apoio da Imprensa Oficial Graciliano Ramos.

Segundo a superintendente do Arquivo Público, Wilma Nóbrega, a criação desse material didático aproxima o público infanto-juvenil da educação patrimonial e do contexto histórico e cultural do estado.

O Moacirzinho é uma homenagem que o Gabinete Civil faz, por meio do APA, ao professor Moacir Sant’ana, o primeiro diretor do Arquivo Público de Alagoas, que é pesquisador, escritor, nomeado historiador por notório saber na área, e que deixou seu legado na preservação da história de Alagoas”, disse Wilma.

De acordo com professora de arquitetura, Adriana Capretz, que coordenou a publicação, os outros personagens que estão no calendário representam os folguedos e figuras importantes de Alagoas.

As escolhas dos nomes Branquinha e Theo para os mascotes coincidem com a escolha dos nomes dos meus filhos, Branca, que é um nome muito presente nos lugares de Alagoas, e Theo – em homenagem a Theo Brandão”, informou a professora.

Arquivo Pública disponibiliza conteúdo infantil durante isolamento social — Foto: Divulgação
Arquivo Público disponibiliza conteúdo infantil durante isolamento social — Foto: Divulgação

Conheça os outros personagens que representam um folguedo

  • Guerreirinho – Guerreiro

  • Branquinha – Branca que é um nome muito presente nos lugares de Alagoas (roupa de festa junina)

  • Theo – homenagem a Theo Brandão (veste roupa de festa junina)

  • Iara – rainha das águas doces e salgadas (veste roupa do Coco de Roda)

  • Raimundo – personagem do livro Terra dos Meninos Pelados, de Graciliano Ramos, (veste roupa de Coco de Roda)

  • Aurélio – homenagem a Aurélio Buarque de Holanda (Chegança, veste roupa de marujo )

  • Martinha – referência à rainha Marta do futebol (veste roupa do Toré)

  • Diana – personagem do pastoril, conciliadora do cordão vermelho e do azul (veste roupa de Pastoril)

  • Dandara – em homenagem à Dandara, esposa de Zumbi dos Palmares (com vestimenta do Baianal)

  • Nise – homenagem à Nise da Silveira (roupa do Samba de Matuto)

  • Jorginho – homenagem a Jorge de Lima (roupa de Reisado)

  • La Ursa – urso de carnaval que também é muito presente no folclore em Alagoas

  • Bumba – o boi também está muito presente na cultura de Alagoas, então foi criado o Boi, no caso ele se chama Bumba.

Fonte: G1 Alagoas

Coronavírus: cegos, surdos e pessoas com outras deficiências criam rotinas de cuidados para usar as mãos durante a pandemia

Por EPTV 1

Pessoas com diversos tipos de deficiência relatam dificuldades para se proteger da Covid-19

Pessoas com diversos tipos de deficiência relatam dificuldades para se proteger da Covid-19

Acostumados a usar os braços e as mãos na locomoção, seja com a ajuda de uma bengala ou de terceiros, cegos, deficientes visuais, surdos, deficientes auditivos e cadeirantes precisaram mudar a rotina de cuidados e de higienização por conta da pandemia do novo coronavírus. Em Campinas (SP) o apoio no ombro de outras pessoas passou a ser uma opção quando é necessário sair de casa.

“O cego está acostumado a ser conduzido por uma pessoa segurando no antebraço dessa pessoa. Agora que nós temos a orientação de quando fomos espirrar e tossir cobrir com o antebraço, isso não é mais possível. Agora, a orientação é para que segure no ombro do acompanhante”, afirma a especialista em diversidade e acessibilidade Nilza Montanari.

O analista de sistemas Thiago Magalhães é deficiente visual e trabalha de casa. Ele tem dividido mais as tarefas com a esposa, antes ele saía mais para ir ao mercado e à padaria, por exemplo.

“Higienizar a bengala, coisa que a gente fazia raramente, agora a gente tem que fazer toda vez que chega em casa”, conta.

14/04: Homem com deficiência visual precisa higienizar a bengala várias vezes ao dia para se prevenir contra o coronavírus. — Foto: Reprodução/EPTV

14/04: Homem com deficiência visual precisa higienizar a bengala várias vezes ao dia para se prevenir contra o coronavírus. — Foto: Reprodução/EPTV

No caso dos cadeirantes, a cadeira de rodas precisa ser higienizada muitas vezes ao dia. Nilza pede que a solidariedade em tempos de pandemia se estenda a quem se deparar na rua com pessoas com deficiência, e se lembre de protegê-las.

“”Ajudando sempre, mas mantendo a segurança sua e da pessoa que você está ajudando”, explica.

14/04: Cadeirantes precisam higienizar a cadeira de rodas várias vezes ao dia por causa do novo coronavírus. — Foto: Reprodução/EPTV

14/04: Cadeirantes precisam higienizar a cadeira de rodas várias vezes ao dia por causa do novo coronavírus. — Foto: Reprodução/EPTV

Dicas de prevenção contra o coronavírus — Foto: Arte/G1

Dicas de prevenção contra o coronavírus — Foto: Arte/G1

Fonte: G1

Dorinateca tem clássicos acessíveis grátis na internet

Localizada na Vila Clementino, a Fundação Dorina Nowill surgiu há 70 mais anos como a Fundação para o Livro do Cego no Brasil. Hoje, a instituição atende deficientes visuais em vários trabalhos profissionalizantes, educativos e de consultoria para implementação de acessibilidade, mas continua editando audiolivros e livros em braille distribuídos para todo país.

Agora, em tempos de pandemia e crianças fora da escola, a instituição sugere aos pais e mães de crianças com deficiência visual para que acessem a Dorinateca, uma biblioteca virtual gratuita, que conta com vários clássicos da literatura infantil e que representam uma ótima opção de entretenimento para os pequenos. O site dispõe de um vasto acervo com opções de livros acessíveis nos formatos falado, digital acessível e braille para impressão.

“Entre os diversos gêneros que temos disponíveis, estão os clássicos que toda criança gosta. Desde contos de fada, como da Branca de Neve até aventuras como as de Robin Hood, que sempre estiveram no imaginário infantil e são atemporais”, explica Kely Magalhães, gerente de Serviços de Apoio à Inclusão da Fundação Dorina.

A gestora também reforça a importância do acesso aos formatos acessíveis de leitura para as crianças cegas e com baixa visão. “Ler proporciona condições de acesso à formação educacional e cultural, além de ampliar as possibilidades de trilhar um futuro mais independente, de maneira autônoma e plenamente cidadã”, afirma.

A Fundação Dorina já distribuiu 3.000 unidades da Coleção Clássicos para diversas escolas e bibliotecas do país, beneficiando pelo menos 30.000 crianças.

Entre os títulos disponíveis, há Bela Adormecida, de Simone Bibian; Branca de Neve, de Jacira Fagundes; Chapeuzinho Vermelho, de André Luiz P. Alves; Cinderela, de Anna Claudia Ramos; João e Maria, de Roberto de Carvalho; Os três porquinhos, da Editora Globo; Peter Pan, de Julio Lira; Pinóquio, de Viviane Brasil e Mary Aparecida Marques; Rapunzel, de Regina Drummond; Robin Hood, de Maurício Veneza

A Fundação fica na Rua Doutor Diogo de Faria, 558 • Vila Clementino

Fone: (11) 5087-0999

Site: fundacaodorina.org.br

Biblioteca virtual: dorinateca.org.br

Fonte: Jornal São Paulo Zona Sul

Coronavírus: um guia para todos verem

Luiz Alexandre Souza Ventura

Descrição da imagem #pracegover: Foto de smartphone sobre uma mesa, ao lado de um óculos de sol. Na tela do smartphone, a home do site ‘ParaTodosVerem Coronavírus’. Crédito: blog Vencer Limites.

Um empreendedor social e um programador, ambos de Curitiba (PR),lançaram nesta semana uma plataforma de acesso gratuito com informações atualizadas em tempo real sobre o coronavírus. O principal diferencial do site é que ele tem encontrado muitas barreiras para acompanhar a cobertura da pandemia.

O ‘Guia PraTodosVerem sobre o Coronavírus’ entrou no ar nesta segunda-feira, 30, no link guiapratodosverem.com.br.

Toda a construção da página, desde a primeira concepção, foi pensada para acesso por pessoas com deficiência visual em smartphones, notebooks ou computadores desktop. A navegação é inteira adaptada para os leitores de tela de todos os sistemas – Talk Back, no Android; Voiceover, no IOS/Aple, e o Narrador, do Windows –, tem botões de acessibilidade para constraste e aumento de texto, além de conteúdos acessíveis como audiolivros e audiodescrição de filmes.

O projeto surgiu há poucos dias, durante o período de distanciamento social que o mundo inteiro está enfrentando junto. Quem teve a ideia foi João Pedro Novochadlo, de 28 anos, empreendedor social na área de tecnologia para pessoas com deficiência visual e co-fundador do Veever. Ele entrou em contato com o amigo Mateus Silva, de 22 anos, que é programador, e eles construíram a plataforma juntos.

A página tem informações gerais sobre a covid-19, como sintomas, prevenção e perguntas frequentes, tudo coletado diretamente do Ministério da Saúde. Também está conectado ao sistema criado pela Microsoft que recebe dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) em tempo real, com estatísticas do Brasil e do mundo.

Além disso, mostra reportagens publicadas nos principais portais da grande imprensa do Brasil. Nesta quarta-feira, 1, foi incluida uma área somente de boas notícias.

“É uma plataforma centralizada de informações sobre o coronavírus. Não produzimos nenhum conteúdo”, explica João Pedro Novochadlo. “Além das notícias e dados, listamos diversos audiolivros publicados no YouTube e temos uma parceria com a Superplayer, que tem várias playlists de música”, diz Novochadlo.

Fonte: Estadão

Informações essenciais sobre novo coronavírus não chegam para os surdos

Língua Brasileira de Sinais (Libras) é reconhecida oficialmente no Brasil, mas a comunidade surda ainda não recebe informações básicas sobre a covid-19 - Reprodução
Língua Brasileira de Sinais (Libras) é reconhecida oficialmente no Brasil, mas a comunidade surda ainda não recebe informações básicas sobre a covid-19 Imagem: Reprodução

Texto por Marie Declercq

Apesar da Língua Brasileira de Sinais (Libras) ter sido oficialmente reconhecida em 2002 como um meio legal de comunicação e expressão, grande parte das pessoas surdas ou com deficiência auditiva do Brasil não têm acesso a informações corretas sobre o novo coronavírus e suas medidas de prevenção. Essa demografia, também impactada pelas medidas de distanciamento social para evitar o contágio, conta com poucos canais de comunicação dispostos a repassar adequadamente as noticias sobre a pandemia. Por conta disso, informações básicas como a forma correta de lavar as mãos, a importância do isolamento e outras medidas não chegam até a comunidade.

Segundo o IBGE de 2010, 9,7 milhões de brasileiros são surdos ou possuem deficiência auditiva. Ao contrário do que se pode imaginar, nem todos os surdos dominam a língua portuguesa. A língua de sinais possui morfologia, sintaxe e regras gramaticais próprias — o que a qualifica não como muleta da língua falada, mas como um idioma completamente independente. Por conta disso, nem sempre um texto escrito será o suficiente para os surdos, muitos dos quais têm a Libras como língua materna. É como se uma pessoa ouvinte cuja língua materna é o português tentasse ler um texto em inglês sem dominar o idioma. Assim, reportagens escritas ou o closed caption da televisão não contemplam todo surdo no Brasil.

“Um número expressivo de surdos brasileiros não falam português, e eles vão receber essas informações [sobre o Sars-Cov-2] por meio da própria família, que trarão informações picadas, ou por meio de outros surdos”, explica Lúcio Cruz Silveira Amorim, professor do núcleo de Libras e Educação Especial da Faculdade de Educação na UFU (Universidade Federal de Uberlândia). “Recebi as notícias pela internet, mas não entendi muito bem o que estava sendo dito. Precisei ler dez vezes, e mesmo depois de ler não achei que fosse uma coisa relevante.”

Amorim, como muitos outros surdos da comunidade que leem o português escrito, se dispõe a esclarecer dúvidas sobre termos médicos e outras questões surgidas com a pandemia, mas alerta para o grande volume de conteúdos não confiáveis que chegam até a comunidade. “São informações enviesadas, erradas e achismos sobre uma questão muito grave”, explica.

Pronunciamentos oficiais nem sempre são compreensíveis

Nos últimos anos, se tornou obrigatório: todo pronunciamento oficial do poder público precisa de tradução simultânea em Libras. Para os ouvintes, a mera presença de um intérprete parece resolver a questão, porém, para os surdos, nem sempre essa presença é aproveitada como deveria. Em diversas ocasiões — como nas coletivas de imprensa do governador de São Paulo, João Doria — é possível perceber que há um intérprete presente. No entanto, poucas emissoras brasileiras (exceto as obrigadas a isso, por serem estatais) se preocupam em manter o intérprete enquadrado em cena para transmitir também em língua de sinais. No fim das contas, os surdos consideram que a obrigatoriedade acaba sendo tratada como “perfumaria”.

Na semana passada, o governador do Espírito Santo fez um pronunciamento por meio da sua página oficial do Facebook para explicar as medidas tomadas no estado em relação ao novo coronavírus. Tinha a seu lado uma intérprete de Libras que, segundo muitos internautas surdos, não estava traduzindo corretamente e, ao ser questionada, alegou estar fazendo um trabalho voluntário.

Também pelo Facebook, Fernando Parente Jr, presidente da Febrapils (Federação Brasileira das Associações dos Profissionais Tradutores e Intérpretes e Guia-Intérpretes de Língua de Sinais) criticou o desempenho da suposta intérprete.

Na posse do presidente da República em janeiro de 2019, a primeira-dama Michelle Bolsonaro discursou em Libras para chamar atenção aos direitos dos surdos e de pessoas com deficiência auditiva. A própria primeira-dama atuava como intérprete nos cultos ministrados no Ministério dos Surdos e Mudos da Igreja Batista Atitude, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Carro chefe das atividades da primeira-dama, a questão da inclusão das Libras no país pouco avançou para incluir a comunidade surda no acesso às informações de interesse público.

Thyago de Souza Santos, tradutor e intérprete de Libras, ajuda a traduzir reportagens em português escrito para a língua de sinais. Imagem: Arquivo pessoal.

Para Thyago de Souza Santos, tradutor intérprete de Língua de Sinais/Português TILSP, a abordagem do Governo Federal ao tratar a profissão como voluntariado complica a convocação de profissionais com proficiência e capacitados na língua de sinais, como no caso do Espírito Santo. “Ano passado, uma campanha feita pelo governo federal incentivou o trabalho voluntário de intérpretes de Libras, então é como se fôssemos missionários de igreja. Nossa trabalho não é visto como profissão, mas como assistencialismo. Nenhum desses veículos de informação destina verbas para acessibilidade, porque você encontra alguém disposto a fazer o trabalho de forma voluntária. Por amor, digamos assim”, explica. A falta de um órgão fiscalizador do trabalho dos intérpretes também contribui para que a tradução do português para a língua de sinais não seja padronizada em todos os pronunciamentos e meios de comunicação.

A falta de qualidade nas interpretações não para por aí. “Algumas emissoras disponibilizaram janelas com interpretação em Libras, mas não consegui entender nada do que estava sendo traduzido. Eram péssimos profissionais. Entendi melhor o que estava sendo dito em língua portuguesa”, conta Heloise Gripp, professora de Libras na Faculdade de Libras Letras da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Gripp pertence à segunda geração de uma família de surdos e possui proficiência em língua portuguesa e língua de sinais.

Imagem: Arquivo pessoal

Por conta disso, é ela que mantém a família informada sobre as precauções para se prevenir da covid-19. Para a professora, muitas vezes os intérpretes escolhidos não possuem um nível equivalente de formação e proficiência e, assim, as informações se perdem. “Como em várias ocasiões é necessário um revezamento entre intérpretes, às vezes você está vendo um profissional fazer uma interpretação muito boa e em seguida entra outro, de um nível diferente. Isso faz com que se perca o que está sendo passado”, conta.

“Os surdos ficam aquém das informações que são passadas”

Os desencontros de medidas e informações entre Governo Federal e Ministério da Saúde, somadas à enxurrada de informações não confiáveis compartilhadas pelas redes sociais, são suficientes para confundir muitos ouvintes. No caso da comunidade surda, os pronunciamentos oficiais, mesmo com falhas de tradução, são um dos poucos meios de obter informações.

Claudia Hayakawa, guia turística, costuma checar a veracidade das notícias usando a internet, mas percebeu que muitos surdos idosos minimizaram o impacto do Sars-Cov-2 no Brasil após o pronunciamento presidencial feito no dia 24 de março, quando Bolsonaro disse que o país deveria voltar ao normal o mais rápido possível. “As pessoas surdas têm ficado em casa, mas isso acabou causando uma questão séria na comunidade, porque alguns passaram a descartar as recomendações contra o contágio. Alguns surdos também têm saído por conta do trabalho, porque não foram dispensados”, conta Hayawaka. “É muito importante para nós ter acesso linguístico e medidas para favorecer esse acesso. Sem isso, sempre ficaremos aquém das informações não só no caso das notícias, mas em todos os aspectos”, afirma.

Imagem: Arquivo pessoal

Como nem todo surdo consegue entender toda a terminologia médica usada para falar da covid-19, muitos ainda não adotaram o isolamento porque simplesmente não lhes foi explicada a importância desta medida. “A maioria dos surdos nasce em famílias de ouvintes, que não aprendem língua de sinais. Por isso, muitas crianças surdas não ficam sabendo o motivo de não estarem indo para a escola. Alguns ficam em casa, mas outros não fazem quarentena por não entenderem o que está acontecendo”, reclama Lucio Amorim.

Ruídos

O acesso prejudicado a informações sobre saúde não reflete apenas uma falta de iniciativa do poder público em valorizar intérpretes e pensar meios eficazes de traduzir a língua portuguesa para a Libras, mas também evidencia problemas na própria educação brasileira ao atender os alunos surdos. Para Nubia Garcia Vianna, fonoaudióloga, sanitarista, doutora em Saúde Pública e professora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), isso dificulta o aprendizado da língua portuguesa, seja falada ou escrita, pelos surdos. A negligência também prejudica o aprendizado de Libras das crianças surdas por falta de contato prematuro com outros membros da comunidade.

A consequência da falta de comunicação em Libras é uma ausência de informações básicas, especialmente no tocante à saúde, muito antes da chegada da pandemia ao Brasil. “Infelizmente, os surdos não têm acesso às coisas mais simples e básicas da nossa vida diária. Se, para nós, é óbvio que usar camisinha previne infecções sexualmente transmissíveis, não é para todo surdo que isso está claro, porque faltam informações. Essa precariedade vai das coisas mais simples às mais complexas. Quando a pandemia começou a estourar no Brasil, tive acesso a vídeos gravados por surdos falando que não deveríamos nos preocupar. A informação vem truncada, e isso causa um grande ruído na comunicação”, aponta Vianna.

A ajuda vem da própria comunidade

Com um intérprete, Vianna ajudou a produzir um vídeo em Libras para passar informações e cuidados sobre o novo coronavírus publicado na página de Pedro Tourinho, médico sanitarista e vereador de Campinas eleito pelo PT (Partido dos Trabalhadores). Algumas associações também se dispuseram a tentar criar canais seguros para a divulgação de dados corretos sobre a pandemia. Nas redes sociais e em grupos fechados, surdos com profiência em português e intérpretes estão gravando por conta própria vídeos com reportagens traduzidas para língua de sinais. Um desses grupos, o Central Libras/Coronavírus, conta com mais de sete mil membros.

“[A existência desse grupo] me deixou extremamente contente, e convidei vários surdos a participarem para terem acesso às informações em língua de sinais”, conta Heloise Gripp. “Eu mesma me prontifiquei a ajudar na tradução, porque tinha muita dificuldade com as informações truncadas e incompletas que chegavam até mim, exigindo um esforço muito grande de compilação. O grupo tem todas as informações, facilitando a compreensão, e vemos todos unidos em prol de uma causa maior: fazer com que os surdos tenham acesso à informação”, afirma.

Nas últimas semanas, a fonoaudióloga se deparou com diversos vídeos enviados por surdos da comunidade, disseminando notícias falsas sobre a covid-19 e questionando a taxa de letalidade e de contágio da doença. A pandemia trouxe dificuldades e desafios para toda a sociedade, mas sem conteúdos informativos produzidos e pensados para a compreensão dos surdos proficientes em Libras, a comunidade depende de poucas iniciativas para se proteger.

Fonte: UOL

Coronavírus: Secretaria Nacional publica cartilha para pessoas com deficiência

Luiz Alexandre Souza Ventura

Descrição da imagem #pracegover: Desenho com quatro figuras representando as pessoas com deficiência. Crédito: Reprodução.

Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (SNDPD), subpasta do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos (MMFDH), publicou nesta semana na internet uma cartilha com orientações sobre o coronavírus e a pandemia da covid-19 (clique aqui para acessar). O guia foi desenvolvido na plataforma Sway, da Microsoft, que gera apresentações interativas para publica na web e nas redes sociais.

A página tem recursos completos de acessibilidade e vídeos com tradução de todo conteúdo em Libras, a Língua Brasileira de Sinais.

São informações sobre o vírus, formas de transmissão, os principais sintomas e as diversas maneiras de garantir a prevenção. O site também indica as precauções que cuidadores, atendentes pessoais e equipes de home care precisam ter quando chegarem a rua, antes de qualquer contato com os atendidos, orientando a respeito das medidas a serem adotadas com casos suspeitos.

Além disso, tem explicações importantes a respeito de doenças raras e apresenta orientações para aspectos específicos das várias deficiências – auditivas, físicas, intelectuais e visuais -, inclusive a surdocegueira.

Um detalhe importante é que o sistema permite fazer download do guia completo em arquivo PDF.

Na semana passada, a Organização das Nações Unidas fez um alerta mundial sobre o abandono das pessoas com deficiência durante a pandemia.

No texto publicado em vários idiomas, a relatora especial da ONU sobre os direitos das pessoas com deficiência, Catalina Devandas, afirmou que “pouco foi feito para fornecer as orientações e apoios necessários às pessoas com deficiência para protegê-las durante a atual pandemia do COVID-19, apesar de muitas delas pertencerem ao grupo de alto risco”.

E todo o planeta, conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de casos confirmados ultrapassa 509 mil e mais de 23 mil pessoas morreram por causa do coronavírus.

No Brasil, o Ministério da Saúde confirmou, até agora, 92 mortes e 3.417 casos, em todas as unidades federativas.

Fonte: Estadão

“A literatura tem permitido que crianças negras se valorizem como tal”

Autora de livros infantis sobre racismo e direitos humanos, Kiusam de Oliveira é também professora e se inspirou em sua própria experiência com o preconceito para escrever histórias

Marília Marasciulo

Kiusam de Oliveira escreve livros infantis sobre temas como racismo e empoderamento (Foto: Reprodução/Facebook)

A autora de livros infantis Kiusam de Oliveira, 54 anos, abraçou uma causa nada simples: tratar de temas espinhosos como racismo e direitos humanos de uma forma que crianças compreendam, se identifiquem e, o mais importante, se encantem. Para isso, buscou na sua própria experiência e vivência como estudante e professora negra a inspiração para histórias que hoje são tidas como referência na educação infantil.

Nascida em Santo André, na Grande São Paulo, Oliveira é filha de uma tricoteira que sempre priorizou a educação. “Minha mãe, mesmo muito pobre, primava pelos estudos e dizia: ‘nós vamos dividir um ovo em quatro partes, mas você vai ter uma educação de qualidade’”, lembra a autora. Aos 14 anos, começou a cursar Magistério de 2º Grau, seguiu na Pedagogia, obteve especialização em deficiência intelectual, mestrado em Psicologia Escolar e doutorado em Educação.

Mas, além da carreira no magistério, e também por influência da mãe, Oliveira sempre gostou de escrever. “Ela fazia capangas [tipo de bolsa] e colocava dentro dos bolsos cadernetinhas com lápis pequenos e me dizia para escrever”, lembra a autora. Foi em algumas destas centenas de cadernetas — ela conta mais de 150 — que a autora encontrou as temáticas para suas histórias.

Em 2009, lançou seu primeiro livro: Omo-Oba: Histórias de Princesas, no qual contos e mitos de orixás femininos ganharam forma de princesas. Em 2013, publicou seu maior sucesso, O Mundo no Black Power de Tayó, em que questiona estereótipos racistas a partir do empoderamento de uma menina negra de 6 anos de idade. No ano seguinte, com O Mar que Banha a Ilha de Goré, a autora se aprofundou ainda mais nos temas, usando a viagem da protagonista, uma menina de 9 anos, para o Senegal, para abordar a história do tráfico de seres humanos escravizados durante a colonização europeia das Américas.

Agora, ela se prepara para lançar dois novos títulos em abril: O Mundo de Tayó em Quadrinhos e O mundo no Black Power de Akin, uma esperada versão de Tayó para meninos. “Entendo que essa literatura que eu faço, que chamo de literatura infantil negro-brasileira do encantamento, ajuda a criança negra a se reencontrar, a trazer esse encantamento ou reencantamento para seu corpo”, diz a autora. A seguir, ela fala mais sobre infância, racismo e educação:

Você sofreu os preconceitos que combate hoje durante a sua infância em Santo André?
Conheci as marcas do racismo em uma escola de freiras perto de casa, para onde fui quando estava próxima de completar 6 anos. Vou contar uma situação que foi muito marcante, para que as pessoas consigam compreender as marcas da violência na vida da gente. Eu não conseguia segurar meu xixi, e tinha uma necessidade ir ao banheiro imediatamente, com um atestado para isso. Um dia minha professora faltou e veio a diretora, ela era muito temida por nós. Ela dizia: “eu sou uma alemã de 2 metros de altura e vocês vão ter que me engolir.” Dava pavor.

Eu senti vontade de fazer xixi, levantei e pedi autorização para ir ao banheiro. Ela não autorizou, pediu para eu sentar novamente, e quando eu abri a perna para me movimentar e retornar à minha carteira, fiz xixi ali. Ela se levantou, agarrou a minha orelha, foi me arrastando, me levou ao banheiro, tirou minha roupa, abriu o chuveiro e me jogou embaixo da água fria. Comecei a chorar muito, gritava, porque tinha esperança da minha mãe me ouvir da nossa casa. Nisso ela pegou um tufo de papel higiênico e colocou dentro da minha boca. Aquilo rasgou minha gengiva, eu me lembro da água caindo com sangue. Aí ela saiu. Quando voltou, estava com todos os alunos da minha sala. As crianças começaram a rir e a gritar: “a macaca tá pelada, a macaca tá pelada!”.

Aí ela disse assim: “olhem bem para o que vocês estão vendo, é assim que todo preto deve ser tratado”. Isso pra mim foi muito marcante, porque minha mãe falava em casa sobre o racismo, e eu não entendia, eu era uma criança. Fui entender nesse dia.

Como essas vivências influenciaram sua escolha pela carreira no magistério?
Quando fui fazer uma habilitação na USP, na década de 1990, na área de deficiência intelectual, conheci grupos de estudos de formação de professores. E nesses grupos estudavam memórias que a gente tinha enquanto estudantes de pedagogia, e que a gente carregava na prática do magistério. Foi nele que consegui me lembrar de uma agressão racista de um professor de geografia. Hoje posso dizer que minha escolha de atuar como professora vem dessa potência de entender o quanto um professor e uma professora são capazes de determinar a vida de um estudante.

E depois de tantos anos, acha que a situação nas escolas melhorou?
A educação ganhou um novo corpo a partir da Lei Federal 10639, de 2003, que obriga o ensino da história da África nas escolas brasileiras. Foi tão importante que conseguiu alterar a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Ela obrigou professores e profissionais da educação a olharem para a diversidade de uma outra forma, que valoriza, compreende e respeita. E pensar em projetos e ações a partir das falas e dos comportamentos das crianças, jovens e adultos em sala de aula.

Falo desta lei sempre com muita cerimônia, muito respeito, porque pra mim é uma lei revolucionária que alterou o padrão da educação brasileira desde a sua criação. Ela é tão revolucionária que não foca somente no espaço da sala de aula, ela obriga os profissionais da educação a se verem e se olharem. Nós precisamos nos olhar e refletir sobre a educação que tivemos: o que a vó falava sobre negros dentro de casa, a mãe, o pai, os filhos… que cenas racistas você viu quando foi para o mercado, como se portou, o que sentiu. É preciso olhar para isso.

Por que educar os professores faz parte da luta contra o racismo?
Trabalhei com formação de professores nos últimos 20 anos no Brasil inteiro, e as professoras adoram contar esse mesmo caso, o do aluno que reclama: “professora, fulana está me chamando de negrinha.” E eu pergunto: “e aí, qual foi a sua resposta?”. Elas costumam responder: “ué, eu falei, você não é negrinha mesmo?” E ainda complementam: “por que o próprio negro é racista?” Esse é um estereótipo para cima do negro.

Um estereótipo recorrente e reforçado na sala de aula.
Primeiro, vou dizer o seguinte: nao tem como negro ser racista, assim como não tem homem ser feminista, mulher machista. O que tem de possibilidade é no máximo reproduzirmos a forma com a qual somos tratados. Então, se eu recebo práticas racistas, e sou chamada de negrinha o tempo todo e passo a minha infância passando por situações violentas e de exclusão, uma hora eu vou querer não ser mais quem eu sou, vou me negar. Em algum momento dessa negação, vou preferir achar que tenho forças para alterar minha forma de ser e me tornar parecida com quem eu quero ser, que é uma pessoa branca. Vou alisar meu cabelo, vou usar certo tipo de roupa, tentar ser discreta nas cores (que é outro estereótipo). Mas isso não quer dizer que a pessoa está sendo racista, porque o conceito de racismo está atrelado a poder, poder real e concreto, coisa que o negro não tem.

De onde veio a inspiração para criar suas histórias?
Escrevo desde criança. Minha mãe era crocheteira e tricoteira, ela fazia capangas, e colocava dentro dos bolsos cadernetinhas com lápis pequenos e me dizia para escrever. Antes eu fazia garatujas, bolinhas, linhas. Com o tempo, aprendi a ler e a escrever, e aí comecei a trabalhar as letras dentro do modelo formal de escrita. Assim registrei as coisas. O incrível é que minha mãe guardou todas as minhas cadernetinhas. Tenho mais de 150 com histórias escritas, é um material que tem uma potência gigantesca com a forma que eu pensava, e há textos focados na questão racial desde a infância. Infelizmente, é uma questão que permanece, o corpo da criança negra é marcado pelo racismo. Todas as histórias que escrevo são reais. São experiências vistas, vividas, ouvidas por mim enquanto professora e como negra.

Como as crianças reagem aos seus livros?
Tem um vídeo que mostra um grupo de professoras trabalhando com o primeiro livro que eu lancei, Omo-Oba: Histórias de Princesas, e é notório perceber como as crianças receberam o livro naquela época. Foi muito surpreendente, porque elas olhavam e diziam que aquelas princesas eram falsas, de mentira, mas o mais comum era ouvir delas o que eram feias porque são pretas. Havia uma rejeição por parte de crianças negras e não negras. O livro foi lançado em 2009, e de lá para cá, especialmente nos últimos cinco anos, tenho percebido pelas cartas que recebo dos leitores que as crianças escolhem uma princesa e dizem “eu me pareço com tal”. É isso, porque nessa história eu trabalhei arquétipos femininos, então as crianças vão se identificando com aquilo para além da aparência.

Por que é tão importante trabalhar a identidade na literatura infantil?
Quando conto a história da Tayó, do meu livro O Mundo no Black Power de Tayó, muitas crianças de 5, 6 anos, verbalizam ali, no coletivo, “nossa, eu sou igual a Tayó, então eu sou negra?”. Tayó é uma personagem superempoderada, que se sabe linda porque se vê pelos olhos da mãe dela. Isso é o encantamento, ela nao se sabia negra, mas que bom que com 5, 6, 7 anos ela está tendo condições pela literatura hoje de se entender, se reconhecer e se valorizar enquanto negra. Dei aula até o ano passado na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), e recebia jovens com 25 anos, que relatavam que tinham acabado de se descobrir como negras.

Trecho de O Mundo de Tayó, de Kiusam de Oliveira (Foto: Divulgação)

Há alguns elementos recorrentes nas suas histórias, como a ancestralidade e o cabelo black power. Por que escolheu trabalhar com eles?
Esses são os elementos que faltam na literatura brasileira focada para os públicos infantil e juvenil. São elementos que os autores sempre tiveram grandes problemas para trabalhar. Ancestralidade é algo que é fundamental para qualquer origem étnico-racial, é um assunto visceral para todos e todas nós.

Para além disso, parto do princípio de que a África é o berço da humanidade, como cientistas já comprovaram há alguns anos. Para mim é o seguinte: independentemente da cor da pele, todos nós remontamos à África, então ancestralidade está em nós, acreditando nela ou não, basta olhar o legado de todas as pessoas que vieram antes da gente. Cabelo black power é recorrente, porque tanto no meio negro e no meio não negro ele continua a ser um assunto central. O cabelo crespo não é visto como bonito, como higiênico, como esteticamente coerente ou positivo.

Vivemos hoje em uma época de revisionismo e negacionismo histórico. Por que desconstruir o racismo é algo que ainda gera tantos embates e retrocessos?
Nós retornamos para um Brasil saído do… Eu ia usar a expressão colonialismo, mas nem vou, porque acho que ainda vivemos o colonialismo, a colonialidade está presente, e nós do movimento negro sempre pontuamos isso. O que acontece hoje é que está explícito. Como nós temos autoridades que não se furtam em demonstrar o seu racismo, por que os cidadãos comuns vão se furtar? Então quando temos um governo que coloca políticos todos alinhados em um mesmo pensamento de exclusão da população preta e desprezo pelo pobre, é isso que nós vamos ter: retrocesso. Não que esse retrocesso de práticas e pensamentos não existisse, ele sempre existiu, mas as pessoas eram mais discretas, se preocupavam com a forma como iam agir. Então é esse Brasil que estamos vivendo, capaz de olhar para mim, uma pessoa de 54 anos, e atirar uma pedra simplesmente porque estou com uma roupa branca.

Ao mesmo tempo, temos visto o tema entrar um pouco mais em pauta, aparecendo por exemplo no Oscar deste ano, cujo vencedor foi um curta justamente sobre black power. Que outros avanços você vê neste sentido?
O primeiro avanço que eu elencaria é toda a movimentação que os negros e negras estão conseguindo fazer nas redes sociais. As redes sociais se tornaram grandes plataformas de visibilidade coletiva. A gente consegue expor as práticas racistas, chamar as pessoas para o debate, com elas é impossível alguma pessoa dizer que o racismo não existe. Isso para mim é revolucionário. Outro espaço é a universidade, que vem sendo acessada por negros e negras. Isso é algo impagável, com o qual eu há 15 anos eu sonhava, mas não imaginava que alcançaríamos tanto.

Como seus livros podem transformar a relação de toda a sociedade com a cultura negra e africana?
Entendo que essa literatura que eu faço ajuda a criança negra a se reencontrar, a trazer esse encantamento ou reencantamento para seu corpo. Eu, por exemplo, era uma criança amada dentro da minha casa e na minha família, todos meu achavam linda, diziam que eu tinha olhos lindos, nariz lindo, boca linda. Mas cheguei na escola e conheci uma negação para meu ser e minha existência, e passei a não gostar mais de mim, a querer ser diferente para poder ser tratada com maior respeito. Então, neste caso, é um reencantamento. Para aquelas crianças que cresceram em lares onde pais e mães também viveram de forma visceral o racismo desse país, sem ter alguém para orientá-las de que “isso que fizeram com você é racismo, não aceite”, aí o primeiro momento é o encantamento de se entender como negra. Nós vivemos um tempo em que a literatura tem favorecido e proporcionado momentos dignos para que as crianças negras se reconheçam e se valorizem como tal. E isso é incrível.

Fonte: GALILEU

Fundação Dorina Nowill disponibiliza livros infantis acessíveis para cegos

Em meio ao isolamento social provocado pela pandemia do novo coronavírus, livros para crianças com deficiência visual estão disponíveis pela biblioteca virtual

A Fundação Dorina Nowill para Cegos disponibilizou livros infantis acessíveis gratuitamente no acervo de sua biblioteca digital, a Dorinateca.

Editoras, escritores e livrarias vêm tomando medidas para tornar disponíveis livros, e-books e audiolivros para as pessoas que estarão isoladas durante a pandemia de coronavírus, mas o acesso a obras acessíveis para cegos ainda é limitado.

Como as aulas foram temporariamente suspensas por todo o Brasil, esse acervo poderá ser acessado por crianças com deficiências visuais que não terão acesso a livros acessíveis por meio das escolas.

“Entre os diversos gêneros que temos disponíveis, estão os clássicos que toda criança gosta. Desde contos de fada, como da Branca de Neve até aventuras como as de Robin Hood, que sempre estiveram no imaginário infantil e são atemporais”, explica Kely Magalhães, gerente de Serviços de Apoio à Inclusão da Fundação Dorina.

Confira a lista dos títulos da Coleção Clássicos disponibilizados virtualmente:

  • Bela Adormecida, de Simone Bibian

  • Branca de Neve, de Jacira Fagundes

  • Chapeuzinho Vermelho, de André Luiz P. Alves

  • Cinderela, de Anna Claudia Ramos

  • João e Maria, de Roberto de Carvalho

  • Os três porquinhos, da Editora Globo

  • Peter Pan, de Julio Lira

  • Pinóquio, de Viviane Brasil e Mary Aparecida Marques

  • Rapunzel, de Regina Drummond

  • Robin Hood, de Maurício Veneza

Fonte: Terra

Vídeos em libras sobre o coronavírus ajudam a atender pessoas com deficiência auditiva

Secretaria Extraordinária da Pessoa com Deficiência defende visitas domiciliares e elabora material especial em tempo de Covid-19

Texto por Lúcio Flávio

Na luta contra o coronavírus, todos os vídeos elaborados para o público especial devem ter legendas e uma janela com tradutor em libras | Foto: Divulgação

Os cuidados com a higienização diante da pandemia que assola o mundo nos últimos dias têm sido ampliados para contemplar uma parte especial da sociedade: os cidadãos que convivem com qualquer tipo de deficiência. A Secretaria Extraordinária da Pessoa com Deficiência, órgão subordinado à Casa Civil, está atenta e empreende várias ações destinadas a esse público.

Destacam-se, como alvo desse trabalho, os deficientes auditivos – que fazem das mãos sua principal ferramenta de comunicação com o mundo exterior – , cadeirantes e usuários de muletas e bengalas. Lavar bem as mãos com água e sabão ou esterilizá-las com álcool em gel são algumas das medidas preventivas, mas essas pessoas demandam e merecem mais atenção.

Trata-se de uma parcela da sociedade muito especial. Antes de qualquer vídeo sobre os cuidados sobre o coronavírus, é preciso alertá-las [as pessoas com deficiência] sobre o porquê de elas terem que tomar esses cuidados”, alerta a secretária da pasta, Roseane Estrela, a Rosinha, como gosta de ser chamada. Ela defende que todos os vídeos produzidos para esse público devem ter legendas e uma janela com tradutor em libras, a língua brasileira dos sinais. “Isso já é lei no Brasil desde 2015”, destaca, referindo-se à Lei nº 13.146.

Atualmente há mais de 600 mil pessoas com qualquer tipo de deficiência no Distrito Federal. A grande maioria, informa Roseana, se encontra abaixo da renda da pobreza e com grande dificuldade de locomoção. “São pessoas que se encaixam no grupo de risco e que por isso deveriam ser dispensadas ou pelo menos atuar em regime de teletrabalho”, sugere.

Esse foi um dos assuntos da conversa que Roseane teve recentemente com o novo secretário de Saúde, Francisco Araújo. Na ocasião, ela aproveitou para sugerir outras propostas para o titular da pasta, entre elas, uma de caráter emergencial, em tempos de coronavírus, como a criação de um “protocolo especial de atendimento domiciliar” para deficientes físicos.

Vai funcionar da seguinte maneira: a pessoa suspeita entrará em contato com a gente, que encaminhará uma equipe até à casa dela”, antecipa. “Estamos aguardando uma resposta da Secretaria[de Saúde] para as próximas semanas, para a aprovação desse procedimento.”

Assista, abaixo, a dois vídeos sobre cuidados com o coronavírus, produzidos com acompanhamento em tempo real de um intérprete de libras.

Vídeo 1:


Vídeo 2:

Fonte: Agência Brasília

Coronavírus: isolamento reforça importância da acessibilidade digital

Texto por Luiz Alexandre Souza Ventura

Pessoas em todo o mundo estão recolhidas dentro de casa e a internet se tornou a principal ferramenta para acesso a serviços, compras e notícias. Para a população com deficiência e os idosos, a falta de recursos assistivos nos websites cria barreiras de navegação que dificultam a prevenção e impedem a leitura de informações fundamentais sobre a pandemia. Brasil tem 14 milhões de páginas na internet, mas somente 0,7% com acessibilidade para pessoas com deficiências.

Descrição da imagem #pracegover: Foto distante de um computador e um smartphone sobre uma mesa de madeira. Crédito: blog Vencer Limites.

A recomendação é ficar em casa e manter a higiene constante. Para usar os serviços públicos, fazer compras, acompanhar as notícias e se manter bem informado sobre o avanço da pandemia do coronavírus, a internet é uma ferramenta fundamental.

Apesar da quantidade de informações diárias sobre o esforço mundial para conter a doença, há uma parcela do público que não consegue acompanhar as atualizações por conta própria. O motivo é a ausência de recursos de acessibilidade digital nos websites.

No Brasil, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), 57% dos cidadãos com deficiência usam com frequência a internet. Dados do World Wide Web Consortium Escritório Brasil (W3C Brasil) mostram que nosso País tem aproximadamente 14 milhões de websites, mas somente 100 mil com algum tipo de acessibilidade.

Isso representa 0,7% de páginas que podem ser acessadas por pessoas com deficiência, principalmente deficiências severas, além dos indivíduos com pouca prática no uso da tecnologia, grupo no qual estão muitos idosos que vivem sozinhos.

Em todo o mundo, são 1,8 bilhão de páginas na web. Em 2018, a quantidade de pessoas que acessaram a internet diariamente chegou a 3,5 bilhões, mais da metade da população no planeta.

Na situação atual, com o confinamento imposto pelas autoridades em vários países para impedir que o coronavírus se alastre e cause colapso nos sistemas de saúde e na economia, o número diário de internautas, provavelmente, aumentou bastante.

De acordo com a empresa eSSENTIAL Accessibility, especializada em consultoria e serviços de acessibilidade digital, pessoas com deficiência movimentam em todo o mundo aproximadamente US$ 4 trilhões por ano. No Brasil, esse montante chega a R$ 22 bilhões.

Somente em nosso País, o setor de tecnologia assistiva faturou R$ 5,5 bilhões em 2017, segundo dados do Grupo Cipa Fiera Milano, responsável pela REATECH (Feira Internacional de Tecnologias de Reabilitação, Inclusão e Acessibilidade).

Considerando o número de cidadãos brasileiros com deficiência e também pessoas com dislexia, daltonismo e idosos, a quantidade de usuários da internet que precisam da acessibilidade pode chegar a 30,2 milhões, conforme dados do IBGE (PNAD Contínua 2018).

Tudo na internet – Explicações detalhadas sobre a acessibilidade digital e sua importância para a inclusão socioeconômica estão disponíveis. O movimento Web Para Todos é um exemplo. A página do governo federal também tem informações sobre o tema.

Fonte: Blog Vencer Limites

A invisibilidade dos arquivos femininos: entrevista com Luciana Heymann

De acordo com pesquisadora, “o menor número de arquivos de mulheres nas instituições de memória reflete a desigualdade de oportunidades que tem marcado a sociedade brasileira, responsável por reservar mais e melhores lugares para os homens”.

Cristiane d’Avila entrevista Luciana Quillet Heymann

Na apresentação do dossiê “Mulheres, arquivos e memórias”, publicado pela Revista do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), em março de 2018, as organizadoras apontam para a invisibilidade feminina nos arquivos públicos, nacionais e internacionais. Para além da presença ou ausência de mulheres na historiografia, o texto de apresentação do dossiê indica algo importante: não há apenas lacunas em narrativas sobre mulheres, mas uma imensa ausência de fontes sobre ou produzidas por elas.

Os arquivos são instituições que expressam relações de poder. Silêncio e invisibilidade não são elementos neutros na construção de suas fontes e fundos. A partir deles podemos perceber questões como a negociação entre memória e esquecimento, o direito ao uso e à privacidade de dados pessoais e a luta por reconhecimento e prevalência de desejos e interesses. Em momento no qual vozes femininas são caladas, muitas vezes à força e violentamente, há que se ressaltar a importância dos processos de arquivamento de suas experiências como sujeitos históricos e o papel das instituições de memória.

Luciana Heymann (Fiocruz). Foto: Vinícius Pequeno, DAD/COC/Fiocruz.
Luciana Heymann (Fiocruz). Foto: Vinícius Pequeno, DAD/COC/Fiocruz.

Para se ter uma percepção do contexto aqui referido, dos 305 arquivos pessoais custodiados pelo Arquivo Nacional (AN), no Rio de Janeiro, apenas 26 são de mulheres. Na Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, dos 88 arquivos pessoais sob a guarda do Departamento de Arquivo e Documentação, apenas seis (6) são de sujeitos femininos – os nomes e um pequeno resumo de cada um estão ao final do artigo.

Para falar sobre o tema, entrevistei Luciana Quillet Heymann, historiadora, doutora em Sociologia e pesquisadora do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz. Segundo explica a historiadora, “o menor número de arquivos de mulheres nas instituições de memória reflete a desigualdade de oportunidades que tem marcado a sociedade brasileira, responsável por reservar mais e melhores lugares para os homens”.

A que você atribui a baixa representatividades das mulheres nos arquivos?

Em primeiro lugar, creio que essa baixa representatividade espelha a presença minoritária das mulheres na vida pública. Essa presença vem aumentando, mas ainda está longe de uma situação paritária. Prova disso é que está para ser votado um projeto de Lei (PL 2.235/2019) que prevê a reserva de ao menos 30% das cadeiras de Deputado Federal, Deputado Estadual, Deputado Distrital e Vereador para mulheres. Não tenho dados sobre outros campos de atuação, mas o que se observa, em geral, é tanto uma menor presença feminina como mulheres em cargos de menor prestígio em relação aos ocupados por homens.

Como você avalia a situação das mulheres em arquivos de instituições de memória e científicas?

O menor número de arquivos de mulheres nas instituições de memória reflete a desigualdade de oportunidades que tem marcado a sociedade brasileira, responsável por reservar mais e melhores lugares para os homens (e aqui não estou me detendo na enorme desigualdade que atinge negros e negras, fazendo com que a representatividade das mulheres negras seja infinitamente menor do que a das mulheres brancas). Embora haja sinais de que essa situação está mudando, o número de mulheres em cargos políticos ou na liderança de grupos de pesquisa, ao menos nas ciências biomédicas, segue sendo bem menor, o que explica que homens sejam franca maioria como titulares de arquivos em instituições o Arquivo Nacional e a Casa de Oswaldo Cruz. Até as instituições voltadas para o campo literário, onde poderíamos imaginar uma situação mais paritária, a presença masculina é bem mais expressiva (basta consultar o Guia de Acervo do Arquivo Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa).

Há outros fatores no âmbito dos arquivos que fomentam essa situação?

Essa baixa representatividade também espelha as políticas de aquisição de acervo nas instituições, que naturalmente priorizam titulares que tiveram atuação destacada nos seus respectivos campos de atuação. A desatenção com relação a essa situação, porém, colabora para a reprodução da invisibilidade das mulheres.  Se pensarmos que tais espaços estão inseridos nas dinâmicas de poder, produzindo hierarquias e definido condições de acesso às fontes históricas, fica claro que é preciso assumir uma postura crítica com relação à disparidade entre homens e mulheres nos acervos institucionais.

O que poderia ser feito para reverter esse quadro?

Vejo como caminho para reverter a baixa representatividade das mulheres em instituições arquivística uma política ativa de prospecção de arquivos de mulheres que possam ser incorporados. Devem ser arquivos compatíveis com a linha de acervo de cada instituição, já que é importante manter coerência na constituição dos acervos, mas privilegiar arquivos de mulheres é uma forma de ativismo diante da invisibilidade da atuação feminina em diferentes áreas da vida social. Trata-se de uma ação que, a médio prazo, resultará em acervos mais plurais e representativos e, por isso mesmo, mais atraentes para diferentes públicos. Isso sem falar na possibilidade de criar espaços de arquivamento voltados, especificamente, para arquivos de e sobre mulheres.

Pode sugerir uma ação?

Uma possibilidade seria investir na história arquivística dos arquivos de titulares homens, já que muitos foram reunidos, organizados e preservados por mulheres (esposas, filhas, secretárias). Há muitos casos que documentam esse “cuidado feminino”, responsável, muitas vezes, pela própria existência dos documentos. Jogar luz sobre essa atuação teria como resultado não apenas dar visibilidade a essas “guardiãs da memória”, mas denunciar a própria subalternidade feminina nos âmbitos privado e público.

Outra possibilidade seria desenvolver projetos que prospectassem, nos arquivos existentes, a presença de mulheres. Missivistas mulheres presentes nos arquivos pessoais de homens, mas também personagens femininas cuja atuação esteja documentada em arquivos institucionais.

Os arquivos da casa Oswaldo Cruz
Alda Lima Falcão (1925-)

Doação feita por Valéria Lima Falcão em 2013.

Nasceu em 27 de março de 1925, em Aracati (CE), filha de João Barbosa Lima e Raimunda Pereira Lima. Sua trajetória profissional, iniciada em 1939, aos 14 anos, esteve ligada a instituições da área da saúde pública. Primeiramente atuou no Serviço de Malária do Nordeste (1939-1942), depois no Serviço Nacional de Malária (1942-1956), e posteriormente no Instituto Nacional de Endemias Rurais (1956-1975), que a partir de 1976 passou a fazer parte da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Nessa instituição foi pesquisadora e chefe do Laboratório de Leishmanioses do Centro de Pesquisas René Rachou, como também curadora da Coleção de Flebotomíneos. Em 1958 fez o curso de especialização em entomologia médica da Faculdade de Higiene e Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Aposentou-se em 1994, mas permaneceu desenvolvendo seus trabalhos sobre sistemática de flebotomíneos. Em 2007 recebeu o título de pesquisadora emérita da Fiocruz.

Fonte: http://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/alda-falcao

Dely Noronha de Bragança Magalhães Pinto (1942-)

Nasceu em 24 de novembro de 1942, no Rio de Janeiro, filha de Décio Noronha e Ottilia Noronha. No pré-vestibular para medicina, conheceu o professor Fritz de Lauro, médico aposentado e futuro padrinho de formatura do Curso de História Natural, e que teve grande influência em sua trajetória profissional. Foi nas aulas deste professor que desenvolveu seu interesse pela biologia. Em 1963 ingressou no Curso de História Natural da Faculdade Nacional de Filosofia, da Universidade do Brasil, concluindo-o em 1968. Ainda em 1963, iniciou seu trabalho como estagiária no Instituto Oswaldo Cruz (IOC), graças à influência de Domingos Arthur Machado Filho, que havia sido seu professor no científico. No IOC trabalhou inicialmente na Seção de Bacteriologia e, depois, na Coleção de Diptera, com Lauro Travassos. A contratação definitiva como pesquisadora do IOC se deu em 1983, quando por um breve período passou a se dedicar ao estudo dos moluscos. À época, foi responsável por amplas modificações nas instalações do Laboratório de Esquistossomose Experimental do Departamento de Helmintologia, como a implantação do sistema de água corrente para os aquários de moluscos. Em 1989 assumiu a curadoria da Coleção Helmintológica, cargo que ocupou até 2007, mesmo após a sua aposentadoria em 1996.

Fonte: http://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/dely-noronha

Dyrce Lacombe de Almeida (1932-)

Doação feita pela própria pesquisadora em 2013.

Nasceu em 16 de março de 1932, no Rio de Janeiro, filha de Luís Lacombe e Maria Franco da Cunha. Em 1955 graduou-se em história natural pela Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) da Universidade do Brasil. Ainda estudante, trabalhou na faculdade como assistente de Olympio da Fonseca Filho e participou do curso de extensão universitária em zoologia ministrado por Newton Dias dos Santos, do Museu Nacional. Em 1952 fez o Curso de Entomologia Geral do IOC com Rudolf Barth. A partir desse momento, como bolsista da instituição, iniciou uma frutífera carreira de pesquisa junto ao pesquisador, trabalhando com anatomia e histologia de insetos, principalmente barbeiros. Aposentou-se em 1991, mas permaneceu no IOC desenvolvendo suas pesquisas sobre cracas, embiópteros e histologia de barbeiros.

Fonte: http://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/dyrce-lacombe

Elizabeth Rachel Leeds (1942-)

Doação feita pela própria Elizabeth Rachel Leeds em 2007.
Nasceu em 30 de agosto de 1942, em Worcester (Massachusetts, Estados Unidos). Formada em ciência política pela Universidade de Boston, foi voluntária do Peace Corps Volunteers e colaboradora do antropólogo Anthony Leeds, com quem se casou em 1967, em suas pesquisas sobre favelas, iniciadas em 1965. Sua dissertação de mestrado foi defendida na Universidade do Texas e sua tese de doutorado, no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Além das favelas, pesquisou a imigração em Portugal, direitos humanos e políticas de segurança pública no Brasil. De 1989 a 1997 foi diretora executiva do Centro de Estudos Internacionais no MIT. É co-fundadora e presidente honorária do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, iniciado em 2005.

Fonte: http://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/fundo-elizabeth-leeds

Hortênsia Hurpia de Hollanda  (1917-2011)

Doação feita por Virgínia Torres Schall em 2013.

Nasceu em 26 de maio de 1917, em Corumbá (MS), filha de Horácio Hurpia Filho e Olívia Bacchi Hurpia. Em 1941 formou-se em língua e literatura anglo-germânica pela Faculdade Nacional de Filosofia e, em 1949, concluiu o curso de nutrição pela Universidade do Brasil. Especializou-se em saúde pública e educação em saúde na Universidade do Chile em 1950. Dois anos depois obteve o título de mestre em saúde pública e educação na Universidade da Califórnia, em Berkeley, Estados Unidos. De 1949 a 1955 foi assistente técnica da Divisão de Educação Sanitária do Serviço Especial de Saúde Pública. A partir de 1954 atuou no Departamento Nacional de Endemias Rurais, onde formulou e coordenou, em caráter pioneiro, programas de educação em saúde, em perspectiva multiprofissional, integrando as áreas de epidemiologia, psicologia, educação, ciências sociais e clínica médica. Morreu em 5 de maio de 2011, em Votuporanga (SP).

Fonte: http://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/hortensia-de-hollanda

Maria Cristina Fernandes de Mello (1950-)

Os documentos foram doados pela titular à COC /Fiocruz em 2011, por intermédio do arquiteto Renato Gama-Rosa, do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH/COC).

Nasceu em 21 de setembro de 1950, em São Paulo. Graduou-se em 1974 pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em 1976 ingressou, por concurso público, na Universidade Federal Fluminense (UFF), como professora do curso de Teoria e História da Arquitetura. No mesmo ano ingressou na Universidade Gama Filho, onde permaneceu até 1979 como professora de Desenho. Cursou o doutorado em Restauração de Monumentos entre 1982 e 1988 na Scuela de Specializzacione da Universidade de Roma, tendo defendido a tese “Le torri del Padiglione Moresco nella Fondazione Oswaldo Cruz a Rio de Janeiro”. Em 1986 foi contratada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a convite de Sérgio Arouca, para projetar e coordenar a obra de restauração do Pavilhão do Relógio. Posteriormente, também coordenou as obras de restauração dos prédios que constituem o Núcleo Arquitetônico Histórico de Manguinhos. Em agosto de 1989 foi instituído o Departamento de Patrimônio Histórico da Casa de Oswaldo Cruz, do qual foi a primeira chefe. Em 1990 tornou-se servidora pública nesta instituição.

Fonte: http://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/maria-cristina-de-mello

Sarah Hawker Costa (1949-)

Nasceu em 4 de junho de 1949, em Londres, filha de Albert Arthur Hawker e Rosamund Ann Maurenn Hawker. Sua formação acadêmica foi realizada na Inglaterra, onde obteve os títulos de bacharel em ciências pela Universidade de Surrey (1971), de mestre em demografia médica pela Universidade de Londres (1972) e de doutora em saúde pública pela Universidade de Oxford (1995), com a apresentação da tese “The determinants and consequences of induced abortion in Rio de Janeiro, Brazil”. Foi professora e pesquisadora titular do Departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos da Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz. Atuou também como assessora de programas na Fundação Ford no Brasil, na área de saúde reprodutiva.

Fonte: http://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/fundo-sarah-hawker

Virginia Maria de Niemeyer Portocarrero (1927-)

A coleta dos documentos foi realizada entre 2008 e 2010, através de contato da titular com a equipe do DAD/COC e com a intermediação de Margarida Maria Rocha Bernardes. A assinatura do Termo de Doação ocorreu em 2010.

Nasceu em 23 de outubro de 1917, no Rio de Janeiro, filha de Tito Portocarrero e Dinah de Niemeyer Portocarrero. Formou-se bacharel em ciências e letras pelo Colégio Pedro II da avenida Marechal Floriano, no centro do Rio de Janeiro, e mais tarde realizou o Curso de Aperfeiçoamento e Arte Decorativa da Escola Politécnica Nacional de Engenharia, adquirindo formação de decoradora, professora de desenho e desenhista. Ao ler uma matéria no jornal “O Globo”, na qual o governo solicitava voluntários para a Segunda Guerra Mundial, inscreveu-se sem o conhecimento da família e foi selecionada. Ficou à disposição do Primeiro Escalão da Força Expedicionária Brasileira, cujo contingente total era de 25.334 cidadãos, sendo 67 enfermeiras. Em 7 de julho de 1944 seguiu para Nápoles, Itália, como integrante do 2º Grupo (General Diretor de Saúde Marques Porto). Após quase um ano de trabalho voluntário na guerra, regressou ao Brasil em 7 de julho de 1945. Em 1957, as enfermeiras “febianas” foram incorporadas ao Exército Brasileiro. Voltou ao serviço ativo do Exército como 2º tenente e passou a atuar como enfermeira na Policlínica Central do Exército. Passou para a reserva em 25 de setembro de 1962 como 1º tenente e foi promovida a capitão em 1963.

Fonte: http://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/virginia-portocarrero

Referências bibliográficas

SIMIONI, A. P.; ELEUTÉRIO, M. DE L. Apresentação do Dossiê Mulheres, arquivos e memórias. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 71, p. 19-27, 12 dez. 2018.

VASSALLO, Jaqueline. “Mujeres y patrimônio cultural: el desafio de preservar lo que se invisibiliza”. In: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 71, p. 80-94, dez. 2018.

Cristiane d’Avila é jornalista, doutora em Letras pela PUC-Rio, Tecnologista em Saúde Pública da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), onde atua no Departamento de Arquivo e Documentação. Mestre em Comunicação Social e Especialista em Comunicação e Imagem pela PUC-Rio. É organizadora do livro “Cartas de João do Rio a João de Barros e Carlos Malheiro Dias”, publicado pela Funarte em 2013, e autora do livro “João do Rio a caminho da Atlântida”, publicado em 2015 com apoio da Faperj. Colabora mensalmente com o Café História com textos sobre História das Ciências e da Saúde.

Como citar este artigo

HEYMANN, Luciana Quillet. A invisibilidade dos arquivos femininos: entrevista com Luciana Quillet Heymann (Entrevista feita por Cristiane d’Avila). In: Café História – história feita com cliques. Publicado em 16 de março de 2020. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/entrevista-com-luciana-heymann/. ISSN: 2674-5917

Fonte: Café História

Pesquisador da UFG desenvolve mapas com língua de sinais para ajudar surdos

Texto por Vanessa Chaves, G1 GO

Estudantes surdos enfrentam dificuldades na leitura de mapas tradicionais, em Goiânia — Foto: Pedro Moreira/Arquivo Pessoal
Estudantes surdos enfrentam dificuldades na leitura de mapas tradicionais, em Goiânia — Foto: Pedro Moreira/Arquivo Pessoal

Um pesquisador da Universidade Federal de Goiás (UFG) desenvolveu mapas adaptados com a língua brasileira de sinais (libras). Eles podem auxiliar no ensino de cartografia na escola e até mesmo na locomoção de surdos pela cidade.

“A primeira pessoa que testou o mapa foi minha mãe, que é surda, e foi uma felicidade enorme. Eu vi a expressão no rosto dela, de que ela leu e entendeu o mapa, foi bacana demais, foi incrível”, disse o professor de geografia Pedro Moreira.

O projeto foi desenvolvido em 2016, durante o doutorado do pesquisador. Segundo ele, os mapas são usados em diversos locais e situações, como em pontos de ônibus, shoppings e aplicativos de transporte, mas, geralmente, não estão em libras.

“Meus pais são surdos. Alguns primos e tios também são. Sou professor de geografia e também tenho alunos surdos. Eu sempre via uma dificuldade muito grande deles em entender mapas, por um motivo simples, os mapas não têm linguagem em libras”, afirma Pedro.

Mapas

Ele desenvolveu o mapa-múndi e um mapa da população do Centro-Oeste. As adaptações são no título, legenda, escala, orientação, que indica a direção, e as coordenadas geográficas, que informam latitude e longitude.

O projeto saiu do papel em abril de 2019. Para garantir que os surdos pudessem ler os mapas de forma mais completa, o pesquisador também usou a datilologia, que é um sistema de representação das letras do alfabeto, e a visografia, uma representação gráfica da língua de sinais.

O pesquisador disse que o próximo projeto será o desenvolvimento de um atlas, com mais possibilidades de sinais e espaços para a compreensão de pessoas surdas. Ele destacou que o resultado da pesquisa foi gratificante, tanto pelo lado pessoal quanto pelo profissional.

“Ver meus pais e meus alunos lendo o mapa foi gratificante demais. Lembrei de quando eles não conseguiam ler, Hoje isso não existe mais. Eu, como professor, posso dar um mapa aos meus alunos surdos e eles conseguem entender, assim como os outros alunos. É uma possibilidade de inclusão imensa”, conta o professor.

Além dos mapas didáticos desenvolvidos, Moreira desenvolve mapas de inclusão em linguagem de sinais para shoppings, empresas de ônibus e até para aplicativos.

Mapa desenvolvido com linguagem de sinais para surdos, em Goiânia — Foto: Pedro Moreira/Arquivo Pessoal
Mapa desenvolvido com linguagem de sinais para surdos, em Goiânia — Foto: Pedro Moreira/Arquivo Pessoal

Fonte: G1 Goiás