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Minorias Sociais

Bibliotecas do Senado e da Câmara destacam presença feminina em seus acervos digitais

Stella Vaz (no alto) e Judite Martins participaram do Parlabiblio, iniciativa das bibliotecas do Senado e da Câmara Fonte: Agência Senado

As bibliotecas do Senado e da Câmara promoveram na quarta-feira (1º) um debate sobre a produção feminina presente no acervo digital das duas Casas. O evento, que ocorreu por meio de uma “live” transmitida pela internet, faz parte do Parlabiblio, iniciativa das duas bibliotecas para apresentar seus serviços e acervos digitais, além de incentivar a leitura e a discussão de temas relevantes.

Participaram do encontro de quarta-feira as bibliotecárias Stella Vaz, do Senado, e Judite Martins, da Câmara. O encontro foi transmitido pelos perfis das duas bibliotecas no Instagram: @biblioteca.senado e @biblioteca.camara. Essas lives estão armazenadas no IGTV dos dois canais e podem ser vistas a qualquer momento.

Durante o debate, as duas profissionais fizeram uma análise histórica, com base nas obras apresentadas, sobre a produção feminina e a atuação das mulheres na conquista de direitos civis, políticos e sociais. Elas também discutiram a importância dessas escritoras, que, ressaltaram, foram responsáveis por conquistas como o direito das mulheres de votar e serem votadas.

Stella Vaz apresentou algumas das obras da coleção Escritoras do Brasil, com destaque para os livros Mármores, de Francisca Júlia da Silva; A Mulher Moderna, de Josefina Álvares; e Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta. Ela apresentou ainda estudos da Consultoria Legislativa do Senado e bibliografias sobre autoras negras e masculinidades. Todos esses títulos estão disponíveis na biblioteca digital do Senado.

O encontro, segundo Stella, trouxe conscientização sobre a trajetória histórica da pauta feminina na busca da conquista de direitos e sobre o quanto ainda falta conquistar.

Durante séculos as mulheres foram silenciadas, e hoje nós temos essa abertura para tentar resgatar a história delas, oferecendo essas obras em nossos acervos digitais. Mas ainda há um grande caminho a ser percorrido — disse Stella.

Judite Martins também mencionou alguma das obras disponíveis no acervo digital da Câmara, como os livros O Voto Feminino no Brasil e Bertha Lutz, ambos de autoria de Teresa Cristina de Novaes Marques. As obras integram a série Perfil Parlamentar (73), das Edições Câmara.

Para Judite, essas duas obras são de grande relevância, pois na primeira (O Voto Feminino no Brasil) a autora traça uma linha do tempo dos principais eventos que levaram à aquisição do direito da mulher de votar e ser votada. A outra (Bertha Lutz) traz a biografia, com a atuação parlamentar e a trajetória política, de uma das mais destacadas lideranças do movimento feminista na primeira metade do século XX.

Nossa atuação aqui não visa apenas condenar nem desprezar a produção masculina, mas dar destaque à produção feminina, fazendo uma análise histórica de como as mulheres adquiriram o direto de fala na sociedade. Trazer essa temática é uma forma de reduzir as desigualdades históricas. Hoje há muitas deputadas, senadoras e servidoras públicas, e estamos aqui para representar essa temática. Tem muita mulher produzindo no Parlamento e isso se reflete nas bibliotecas digitais — observou Judite.

Fonte: Agência Senado

LIVRO INFANTIL INÉDITO RESGATA MEMORÁVEIS HISTÓRIAS DA CULTURA DE POVOS AFRICANOS

Obra A África recontada para crianças, de Avani Souza Silva apresenta os contos e fábulas mais famosos de países que falam a língua portuguesa

Texto Victória Gearini

Imagem meramente ilustrativa – Divulgação / Pixabay

Lançado em abril deste ano, o livro A África recontada para crianças, da escritora Avani Souza Silva, constrói uma narrativa cultural com as histórias mais famosas contadas nos países africanos, onde a língua portuguesa é predominante.

Capa da obra A África recontada para crianças (2020) / Crédito: Divulgação / Martin Claret

A brilhante obra, publicada pela editora Martin Claret, tem como ilustradora das imagens Lila Cruz, que por meio de traços belos e caprichados explicita o discursivo linguístico apresentado no decorrer da leitura

O leitor tem diante de si uma obra singular no mercado editorial brasileiro. Esta analogia de contos tradicionais e fábulas recria, com esmero e criatividade, uma fatia importante e representativa das narrativas orais e infantis de países africanos, todos eles pertencentes à uma comunidade da língua portuguesa”, escreveu no prefácio da obra, Marana Borges, jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela Universidade de Lisboa.

Bem humoradas, as narrativas deste livro envolvem lobos, coelhos, leões, e claro, muitas aventuras. Músicas, gastronomia, adivinhas e vestimentas são alguns dos elementos que compõem a cultura de povos africanos, que são minuciosamente apresentados nesta formidável obra.

Ilustração de um lobo feita por Lila Cruz / Crédito: Divulgação / Martin Claret

É interessante notar a versatilidade das histórias, nem sempre acompanhadas do forte apelo moral e cariz pedagógico, recorrente em muitos textos de literatura infantil. Por isso mesmo, elas são mais criativas. Conferem à criança o direito da imaginação. Mais do que ensinar bons costumes, pretendem explicar coisas tão distintas como fenômenos naturais ou a relação entre as espécies”, acrescentou Marana Borges no prefácio do livro.

Ilustração de um coelho e gato feita por Lila Cruz / Crédito: Divulgação / Martin Claret

Disponível em capa dura e na versão Kindle na Amazon, este livro apresenta muita criatividade e convida o leitor à uma verdadeira viagem pelas histórias contadas na Angola, Moçambique, Guiné- Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. “Um tributo à África, à língua portuguesa e aos contadores de histórias. As crianças agradecerão, e nós adultos, também”, concluiu Marana Borges.

A África recontada para crianças, de Avani Souza Silva (2020) – https://amzn.to/3eVphH0

O destino da África: Cinco mil anos de riquezas, ganância e desafios, de Martin Meredith (2017) – https://amzn.to/2VCmGtF

Literaturas Africanas Comparadas: Paradigmas Críticos e Representações em Contraponto, de Elena Brugioni (2019) – https://amzn.to/31COh1L

Mayombe, de Pepetela (2013) – https://amzn.to/2ZCtEQW

Madiba, o menino africano, de Alar Alarcão (2016) – https://amzn.to/3dUVg8E

Vale lembrar que os preços e a quantidade disponível dos produtos condizem com os da data da publicação deste post. Além disso, a Aventuras na História pode ganhar uma parcela das vendas ou outro tipo de compensação pelos links nesta página.

Fonte: Aventuras na História

Livros além das grades: por que focar nas Bibliotecas Prisionais?

Entrevista com Lisa Krolak, do “Instituto para a Aprendizagem ao Longo da Vida” da UNESCO

Sem dúvida, as prisões são alguns dos ambientes mais difíceis nos quais as bibliotecas podem ser encontradas, trabalhando com leitores que enfrentam problemas complexos. No entanto, ajudando a desenvolver novas habilidades e a preparar apenados para a vida do lado de fora, elas podem ter um grande impacto. Para descobrir mais, trazemos a entrevista feita com Lisa Krolak, bibliotecária-chefe do Instituto para a Aprendizagem ao Longo da Vida da UNESCO na Alemanha.

Lisa é autora do livro “Books Beyond Bars: The transformative potential of prison libraries” (Livros Além das Grades: O potencial transformador das bibliotecas prisionais), lançado no Congresso Mundial da IFLA (WLIC) em 2019 na capital da Grécia, Atenas. 

Ela preside o Grupo de Trabalho da IFLA sobre Bibliotecas Prisionais, estabelecido sob a Seção de Serviços de Biblioteca para Pessoas com Necessidades Especiais (LSN). Para mais informações, você pode contatá-la diretamente.

1) Por que focar nas bibliotecas prisionais em particular?

De acordo com padrões internacionais, os presos têm o direito de acesso à educação e informação, incluindo serviços de bibliotecas de qualidade. No entanto, na realidade, a maioria das bibliotecas prisionais não possui recursos suficientes e trabalha isoladamente. A opinião pública geralmente não é a favor de tratar bem os prisioneiros e vê o encarceramento como punição ou dissuasão. No entanto, um dia, a maioria dos prisioneiros é libertada e deve ser do nosso interesse que eles possam viver vidas livres de crimes depois. É mais provável que os presos venham de grupos e comunidades pobres, discriminados e marginalizados, e é mais provável que tenham tido uma experiência educacional limitada ou inexistente do que o resto da sociedade. Muitos têm dificuldades em ler e escrever e provavelmente nunca ou raramente usaram uma biblioteca antes. Oferecer oportunidades educacionais, incluindo serviços de biblioteca de qualidade, é uma maneira de apoiar sua reabilitação.

2) Que diferença as bibliotecas prisionais podem fazer?

O acesso à educação e, mais especificamente, bibliotecas e materiais de leitura podem ajudar a quebrar o ciclo de desvantagens educacionais, pobreza, violência e crime. Além de apoiar a aprendizagem ao longo da vida e a oportunidade de melhorar os níveis educacionais, as bibliotecas prisionais podem fornecer serviços que ajudem os prisioneiros em suas vidas diárias e os auxiliem em planejar sua liberação. Fornecer materiais para a leitura de prazer e outras oportunidades de entretenimento é uma maneira construtiva de passar o tempo livre e pode ser um meio de distração e fuga das preocupações diárias. As bibliotecas prisionais também apoiam a coesão social, atuando como locais de encontro com um ambiente calmo, descontraído e seguro, além de espaços para leituras, debates e cultura. Além disso, há o potencial transformador de participar de atividades de alfabetização (como círculos de leitura ou oficinas de escrita criativa), que propiciam o pensamento crítico e permitem que os apenados reflitam sobre sua vida. Usar os serviços da biblioteca da prisão é uma das poucas oportunidades nas quais os presos têm autonomia e responsabilidade de fazer suas próprias escolhas, selecionando o que ler e como se informar.

3) Que fatores os impedem de conseguir isso?

Pouquíssimos países têm sistemas bem estabelecidos de bibliotecas prisionais administrados por bibliotecários profissionais. Na maioria dos lugares, elas são administradas por funcionários designados da prisão, com a ajuda de reclusos ou voluntários da comunidade que não receberam ou receberam pouco treinamento em biblioteconomia prisional.

4) Que escopo existe para a aprendizagem e o intercâmbio mútuos entre bibliotecários penitenciários e outros bibliotecários?

As bibliotecas prisionais fazem parte da comunidade mais ampla de bibliotecas. Idealmente, os presos devem receber os mesmos serviços de biblioteca que as pessoas que vivem fora da prisão. Existem sistemas em que as bibliotecas prisionais são ramificações da rede de bibliotecas públicas locais. Isso garante padrões profissionais e a chance de introduzir prisioneiros em um serviço público que, esperançosamente, eles continuarão usando quando forem libertos. Em outros países, o sistema de bibliotecas públicas fez um esforço organizado para modernizar as bibliotecas prisionais de acordo com seus padrões. De qualquer forma, bibliotecários públicos e prisionais devem se conectar e trabalhar juntos. Eles podem se reunir regularmente, compartilhar materiais e planejar atividades comuns, como leituras de autores dentro e fora das prisões. As bibliotecas prisionais também podem participar de atividades culturais da comunidade em geral, como noites de leitura ou eventos de leitura em voz alta, que podem servir como uma ponte perfeita entre os dois mundos.

5) Que medidas você planeja tomar para garantir que os tomadores de decisão compreendam o valor de bibliotecas prisionais eficazes? O que você espera que eles façam?

No meu Instituto, o Instituto para a Aprendizagem ao Longo da Vida da UNESCO, publicaremos em março um resumo de políticas sobre bibliotecas prisionais destinadas a tomadores de decisão. Ele será distribuído no próximo Congresso do Crime da ONU em abril de 2020, alcançando autoridades penitenciárias de todo o mundo. Este mês, meu livro sobre bibliotecas prisionais foi publicado em alemão. Enviaremos para todas as prisões de língua alemã na Alemanha, Áustria e Suíça. Duas cópias cada, uma para a administração penitenciária e uma para o serviço de biblioteca da prisão. Além disso, forneceremos a todos os ministros federais alemães e senadores da Justiça uma cópia gratuita.

Para enfatizar ainda mais o potencial transformador das bibliotecas prisionais precisamos realizar e coletar mais pesquisas sobre os benefícios e os impactos das bibliotecas prisionais e encontrar maneiras de compartilhar essas descobertas com os tomadores de decisão. Os documentos de políticas internacionais já pedem o estabelecimento de bibliotecas prisionais, mas não fornecem diretrizes ou padrões de qualidade, particularmente sobre financiamento. Os tomadores de decisão podem ter a melhor intenção e consultar as políticas mais bem escritas, mas se no final do dia eles não fornecerem orçamento suficiente para materiais, atividades e treinamento contínuo para os funcionários da biblioteca da prisão, o serviço da biblioteca simplesmente não alcançará seu potencial.

6) Como você planeja levar esse trabalho adiante na IFLA?

No Congresso Mundial da IFLA em Atenas, em agosto de 2019, iniciamos um Grupo de Trabalho sobre Bibliotecas Prisionais. No momento, compreendemos cerca de 40 bibliotecários penitenciários e bibliotecários públicos, acadêmicos e pessoas que trabalham em organizações da sociedade civil com foco em apoiar as bibliotecas penitenciárias. O grupo já forneceu informações valiosas para o as políticas acima mencionadas para as bibliotecas prisionais. Em uma próxima etapa preencheremos a página do projeto recém-criado das bibliotecas prisionais, localizado no site da Seção da IFLA sobre Serviços de Biblioteca para Pessoas com Necessidades Especiais (LSN), com informações relevantes.

No início do verão, começaremos a atualizar e revisar as Diretrizes da IFLA para a prestação de serviços de biblioteca para apenados, pois as atuais diretrizes datam de 2005. As novas Diretrizes serão apresentadas em uma sessão sobre bibliotecas prisionais, que ocorrerá no Congresso Mundial da IFLA em Roterdã em agosto de 2021, onde esperamos também poder visitar uma biblioteca prisional.

Saiba mais sobre o trabalho da Seção da IFLA sobre Bibliotecas que Atendem Pessoas com Necessidades Especiais.

A maioria das bibliotecas prisionais enfrentam desafios significativos. Elas geralmente são insuficientemente financiadas, não são muito atraentes e estão localizadas em locais inadequados e inacessíveis. Além disso, elas geralmente precisam contar com materiais doados e frequentemente desatualizados que não refletem os interesses, níveis de leitura, habilidades linguísticas ou necessidades da população carcerária. Em muitas bibliotecas prisionais um foco especial deve ser dado aos prisioneiros com baixos níveis de alfabetização e com formação em idiomas não nativos. Isso pode ser feito fornecendo materiais fácil leitura e em vários idiomas, mas esses materiais específicos não estarão disponíveis em muitas bibliotecas prisionais.

Entrevista originalmente feita pela IFLA (Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias). 

Tradução: Anderson Santana, Bibliotecário, Chefe Técnico do Serviço de Biblioteca e Documentação do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP). 

Fonte: Biblioteconomia Social

Literatura infantil e protagonismo feminino: elas como personagens principais

Texto por Redação

Pedagoga destaca a importância do incentivo à leitura de livros infantis protagonizados por personagens femininas e indica 5 títulos que desenvolvem nas crianças valores e virtudes importantes, como ser guerreira, destemida, curiosa, questionadora e forte. Confira!

Desde sempre os livros são poderosas ferramentas para que o ser humano conheça mais sobre ele mesmo e o mundo ao seu redor. Por isso, a literatura infantil contribui de forma significativa para o desenvolvimento do autoconhecimento, senso crítico, valores morais e virtudes; ou seja, atua na formação da identidade e influencia nas relações com o todo.

Com as crianças isso não é diferente! De acordo com Claudia Onofre, pedagoga e consultora educacional da plataforma Dentro da História, é neste contexto que o hábito de ler se torna ainda mais importante. ‘’A leitura na infância é essencial, pois é a fase onde a criança está construindo o seu ‘’eu’’, formando seus valores, identificando suas virtudes, aprendendo o que é o certo ou errado e como o mundo funciona para assim moldar suas condutas. É neste momento que a criança desenvolve características importantíssimas para o sucesso na vida adulta e em suas relações, seja no âmbito acadêmico, profissional ou pessoal’’, explica.

Nesse cenário é possível compreender quão relevante é mostrar para meninos e meninas o significado dos movimentos atuais, incluindo o cenário onde a mulher luta cada vez mais por espaço e tem cada vez mais voz para ser quem ela quiser, onde quiser. A partir disso, a educadora listou 3 motivos que reforçam a importância da literatura infantil onde ‘Elas’ são as protagonistas.

1) A riqueza da infância

Esta é a fase onde o ser humano passa a desenvolver suas percepções sobre o mundo; e isso faz então com que a criança tenha maior capacidade para absorver tudo ao seu redor. ‘’Este é o momento ideal para incentivar a leitura, pois os pequenos levam a sério personagens e narrativas e as somam às suas experiências cotidianas para formação da identidade. Por isso, essa também é a hora da família introduzir na rotina de leitura dos pequenos livros que trazem, de forma lúdica, questões atuais e importantes, como a luta contra o preconceito e estereótipos que circundam a figura feminina’’, frisa.

2) Quebra de estereótipos

Por muito tempo, a imagem das personagens femininas, seja em livros, filmes ou outros tipos de obras, refletiam imagens estereotipadas e desatualizadas de meninas e mulheres, vistas muitas vezes como figuras frágeis, mais passivas e submissas quando comparadas a personagens masculinos.

‘’Esse ‘padrão’, de forma inconsciente, afetou e ainda afeta a autoestima das meninas, fazendo-as a acreditarem que são menos importantes e capazes do que os meninos, o que não é verdade. É preciso despir os pequenos de rótulos pré-estabelecidos pela sociedade, como aqueles que ditam que os meninos nunca devem sentir medo e falarem sobre seus sentimentos e que as meninas devem ser mais delicadas e contidas. Portanto, é fundamental que as famílias introduzam na rotina de leitura das crianças livros que contam histórias inspiradoras, protagonizadas por diferentes tipos de personalidades femininas, que as mostrem que todas são importantes e capazes’’, reforça.

3) Representatividade

Por fim, talvez o principal motivo para o estímulo da busca por livros infantis onde as meninas são as personagens principais, seja a compreensão da transformação postural e ocupação das meninas e mulheres perante a sociedade. O empoderamento feminino, que hoje é uma realidade, deve ser tema que desperte reflexões desde a infância.

De acordo com Onofre, para ‘Elas’, o estímulo do acesso a narrativas que trazem a figura menina como foco central, confere a sensação de empoderamento, o que significa que as meninas e mulheres são capazes de serem o que quiserem e conquistarem o espaço que quiserem, e isso está diretamente ligado à construção da confiança para o sucesso na vida adulta.

Para ‘Eles’, o incentivo a este tipo de leitura também deve estar presente. ‘’As famílias também devem apresentar aos meninos os livros protagonizados por meninas. Isso reforça a ideia de que garotos e garotas não são tão diferentes assim, já que ambos podem ser confiantes, sensíveis, fortes, e muito mais. Além disso, os pequenos passam a construir um imaginário mais completo sobre a representatividade feminina, tornando-se mais respeitosos’’, completa.

:: LIVROS PROTAGONIZADOS POR MENINAS

Histórias clássicas da literatura infantil, onde as meninas são representadas por princesas e salvas pelos príncipes certamente estão no passado. O mercado tem acompanhado o movimento da presença feminina cada vez mais em evidência na sociedade e, por isso, vem se adaptando. A Dentro da História é um exemplo disso, já que agrega a seu portfólio títulos infantis que enfatizam o poder feminino por meio de personagens ativas e diversificadas. Além disso, por meio da personalização, a plataforma permite que as próprias crianças protagonizem histórias ao lado de suas personagens preferidas e inspiradoras.

‘’O fato de a criança poder se ver nas páginas de um livro é muito rico, seja por meio da personalização ou por meio da identificação com as personagens. Isso a mostra o poder que tem para conduzir com sucesso sua própria narrativa’’, destaca.

Conheça títulos de literatura infantil da Dentro da História que rompem com estereótipos e encorajam as meninas a serem o que quiserem!

Guerreira como a Mulan

A Mulan foi primeira princesa da Disney com origem asiática, reforçando a importância da pluralidade nos filmes infantis. Neste livro personalizado, as crianças aprendem com o exemplo de Mulan que ser uma guerreira significa fazer o que é certo e proteger os seus amigos.

Frozen: Clima de Diversão

Quem tem criança por perto com certeza já conhece Elsa e Anna, mas não custa lembrar que as duas personagens de Frozen se destacam como protagonistas femininas por ensinarem que o amor verdadeiro vem da família – e claro, que meninas são capazes de congelar ou salvar um grande reino.

O Show da Luna! Brincando de Faz de Conta

A Luna é uma garota curiosa e muito esperta, que usa a imaginação para descobrir as respostas de suas perguntas sobre o mundo. Com essa personagem brasileira muito original, as crianças aprendem desde cedo que a ciência é para todos – e pode ser muito divertida!

Criativa como Moana

Moana é filha do chefe de seu povo e decide seguir os passos de seus ancestrais, velejando pelos mares para descobrir o que há além do oceano. Neste livro de literatura infantil, as crianças se inspiram nessa personagem destemida e aprendem a usar a criatividade para superar os desafios do dia a dia.

Meninas Superpoderosas – O Poder da Amizade

As Meninas Superpoderosas mostram como garotas podem ser sensíveis, fortes, doces e confiantes, tudo ao mesmo tempo. Tanto meninas quanto meninos podem aprender muito fazendo parte de uma aventura junto com esse trio fantástico de super-heroínas.

Fonte: Embarque na viagem

Acessibilidade digital e comunicacional na pandemia

No Webinar da CM, o Grupo Padrão, a SMPED e o Movimento Web para Todos conduziram um debate urgente sobre a acessibilidade aos meios digitais

Texto por Eric Visintainer

Foto ilustrativa (Freepik)

Menos de um 1% dos sites no Brasil são acessíveis por pessoas com deficiência. Então, como garantir a acessibilidade digital e de comunicação para todos em tempos de distanciamento social e quais são as políticas públicas existentes para ampliar e melhorar a qualidade do acesso digital? Este foi o tema central de mais um webinar exclusivo da Consumidor Moderno.

A conversa contou com Cid Torquato, secretário municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo (SMPED), Simone Freire, CEO da Espiral Interativa e idealizadora do Movimento Web para Todos e Jacques Meir, diretor-executivo do Grupo Padrão.

Ações para acessibilidade nas plataformas digitais

”Tudo tem que ser para todos no Brasil e o digital também”, afirmou Torquato que também lembrou que a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência garante este direito. Hoje, a Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo possui um selo de acessibilidade digital para mostrar se um site é acessível ou não.

Freire abordou a necessidade de atenção necessária para os programadores e desenvolvedores de sites e aplicativos: “Temos apostado muito nos profissionais que trabalham com o desenvolvimento de sites e aplicativos para que eles tenham acesso a este conhecimento. Acessibilidade não é algo difícil, que precisa de uma certificação internacional. A informação circula na web há muito tempo”.  Ela ainda falou do diferencial competitivo que as empresas ganham, além da obediência a normas de compliance ao tornar um conteúdo acessível.

Olhar para os extremos e tirar boas ideias

O secretário municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo também falou que mesmo em 2020, o processo civilizatório ainda está atrasado neste universo da deficiência. “O preconceito é grande, o estranhamento é grande, a falta de conhecimento é grande. Mas existe uma resistência atávica das pessoas em aprenderem sobre a deficiência. As pessoas não discutem. Precisamos promover o processo civilizatório, através de espaços inclusivos”, explicou também incluindo que este é o cerne da SMPED.

A CEO da Espiral Interativa e idealizadora do Movimento Web para Todos comentou que está tudo ligado a representatividade. “O digital precisa ser um espaço democrático para todo mundo.  Hoje em dia, eu fico muito feliz que as novas gerações já estão convivendo com pessoas diferentes, do que na nossa geração. O diferente é normal”, disse.

Representativa e protagonismo nos locais de trabalho

Segundo Torquato, atualmente a população do Brasil tem mais de 13 milhões de pessoas com deficiência e só 400.000 trabalham. Desta forma ele acredita que a Lei de Cotas é uma das principais ferramentas para a inclusão. “Este é um caminho. Mas antes, é muito importante terem [as pessoas com deficiência] educação a chegarem a uma capacitação. O caminho é a inclusão e participação nas escolas e no trabalho.”

Além do número quase nulo de sites brasileiros acessível, hoje em dia, Freire também apontou que 96% das páginas .gov falharam em pelo menos um teste de acessibilidade. “Acessibilidade não é favor, é Lei, é oportunidade, é necessidade básica hoje”, disse.

Ambiente digital inclusivo

Ao final, a CEO da Espiral Interativa e idealizadora do Movimento Web para Todos comentou que “o ambiente digital tem que ser bom para qualquer pessoa, independentemente da forma que ela navega”. E para isso os conteúdos devem ser acessíveis para leitores de telas, navegáveis pelo teclado, terem contraste e zoom de tela, e libras, com avatar, interprete e legenda.”

O secretário municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo ainda comentou que é necessária uma mudanças de comportamento para que exista uma acessibilidade digital. “O mais importante é o upload do conteúdo. Não pode ser upload de conteúdo que não é acessível e precisa fazer a descrição de imagens”, explicou ao descrever que quem quiser saber a nota de acessibilidade para o seu site ou da empresa, basta acessar hasesweb.governoeletronico.gov.br/ases/avaliar.

O selo da Secretaria da Pessoa com Deficiência de São Paulo é concedido após uma nota de 95 de aderência, a checagem de 50 itens em uma avaliação humana e a aprovacão de um grupo de experts.

Assista ao vídeo na íntegra

Fonte: Consumidor Moderno

Bibliotecas do Senado e da Câmara debatem em live produção literária feminina

Texto por Comunicação Interna

Stella Maria Vaz (na foto), bibliotecária do Senado, e Judite Martins, bibliotecária da Câmara, abordarão conteúdos e obras das bibliotecas digitais das duas Casas que tratam de temas relacionados à mulher e à produção literária e acadêmica feminina
Osmar Arouck/Biblioteca do Senado

As bibliotecas do Senado Federal e da Câmara dos Deputados promovem mais uma live para apresentar ao público serviços, produtos e acervos on-line disponíveis nas duas Casas legislativas. Desta vez, as bibliotecárias Stella Maria Vaz, do Senado, e Judite Martins, da Câmara, abordarão conteúdos e obras das bibliotecas digitais que tratam de temas relacionados à mulher e à produção literária e acadêmica feminina. A transmissão pode ser acompanhada no Instagram pelos canais @biblioteca.senado e @biblioteca.camara, nesta quarta-feira (1º), às 17h.

A Parlabiblio, explicou Stella Vaz, é uma iniciativa das duas Casas que surgiu para reforçar a atuação das respectivas bibliotecas nas redes, em meio às mudanças comportamentais promovidas pelo distanciamento social (devido à pandemia de coronavírus). Segundo a servidora, a live de quarta-feira, além de trazer ao conhecimento do público o acervo de autoras femininas presentes nas bibliotecas das duas Casas, pretende ainda promover a fala, a escuta, o protagonismo e o empoderamento feminino.

— Além de ser uma oportunidade de contato positivo do cidadão com o Parlamento, o qual está atento às necessidades sociais e aberto ao diálogo, isso reforça o papel das bibliotecas como espaço fomentador de leitura, cultura e reflexão, democratizando o acesso à informação e estimulando o pleno exercício da cidadania — ressaltou Stella, ao reforçar a importância do trabalho neste momento em que as bibliotecas permanecem fechadas ao público por causa do isolamento social.

Fonte: Agência Senado

Na luta por mais visibilidade no mercado editorial

Texto por Talita Facchini    

Neste episódio do Podcast do PublishNews, Jéssica Balbino e Ketty Valencio falam sobre a lista de 100 autoras pretas brasileiras criada por elas e a luta constante para dar mais visibilidade para esses autores

Os livros guardam centenas de milhares de histórias. São inúmeros assuntos tratados pelos mais diversos aspectos. Mas quando se trata dos autores, essa diversidade já não é tão grande. O podcast desta semana conversou com duas pessoas que acreditam que todas as narrativas transformam o mundo. Que cansaram de ouvir que não existem muitos livros publicados por negros e de aceitar a pouca presença de escritoras e escritores negros em eventos e feiras brasileiras. Eles estão sim por aí. Em todos os lugares. Basta querer enxergar.

Para facilitar essa busca, a jornalista, pesquisadora em literatura marginal e dona do site Margens, Jéssica Balbino, e a jornalista, com pós graduação em Projetos Culturais e proprietária da Livraria Africanidades, Ketty Valencio, uniram forças e criaram uma lista com mais de 100 autoras pretas e brasileiras para o leitor conhecer.

Ketty Valencio e Jéssica Balbino

Numa edição especial, só com a presença de mulheres, quisemos saber mais sobre como surgiu esta lista, sobre as inúmeras ideias que podem fazer a diferença e trazer os livros de autoras negras e a literatura africana para o centro das atenções e como elas enxergam o mercado editorial.

Jéssica contou que a ideia da lista surgiu a partir do pedido de outras mulheres. O mapeamento começou e veio de Ketty a ideia de tornar a lista pública. “A gente fez juntas a lista e quando ela estava meio pronta, mostrei para a Mel Duarte – que também frequenta muitos slams e faz parte do Slam das Minas em São Paulo – e ela sugeriu mais alguns nomes”, explicou Jéssica. A lista chegou a ter 137 nomes de autoras negras e depois de uma segunda avaliação, chegaram nos 100 nomes, cada uma com uma mini biografia e links para trabalhos já publicados. A lista agora está aberta para que autoras negras possam se automapear. “Creio que já temos aí mais de 200 mulheres mapeadas”, comemora Jéssica.

Ketty frisou também a importância da lista no sentido de mostrar para as pessoas que a literatura feita por mulheres negras não é uma novidade e nem deveria ser vista como tal. “É muito demarcador a questão do racismo e da misoginia quando você pensa que é novidade. Por que eu não conheço esses autores? Por que eu nunca vi isso? Por que eu nunca estudei? E essa lista potencializa a questão de não ter mais uma desculpa mesmo. Tem que consumir essas mulheres, ouvir o que elas têm a dizer”.

As duas falaram ainda sobre a participação de autores negros em feiras literárias, sobre como fazer a literatura africana circular, como trazer esses livros para a frente das grandes livrarias e o papel dos livreiros nessa disseminação. “O mercado editorial reflete o que a sociedade é o que a sociedade acredita. E não podemos romantizar isso porque a sociedade tem todas essas opressões. Ela ressalta todas essas opressões”, analisou Ketty. “Se o capitalismo é irmão do racismo e de outros ismos que a gente abomina, então o mercado editorial é isso também e depende de nós. Eu estou tentando reinventar a máquina com outros livreiros”, explicou. “O mercado editorial é reflexo da sociedade”.

O Podcast do PublishNews é um oferecimento da Metabooks, a mais completa e moderna plataforma de metadados para o mercado editorial brasileiro, da UmLivro, novo modelo de negócios para o mercado editorial: mais livros e mais vendas, e da Auti Books, dê ouvidos a sua imaginação, escute Audiobooks. Você também pode ouvir o programa pelo Spotify, iTunes, Google Podcasts, Overcast e YouTube.

Indicações

Site Margens

Instagram Margens

Lista de 100 escritoras pretas brasileiras para você conhecer

Instagram Jéssica Albino

Instagram Livraria Africanidades

Instagram Mel Duarte

Um defeito de cor – Ana Maria Gonçalves

Pequenos incêndio por toda parte – Celest Ng

Little fires everywhere – Netflix

Queen Sono – Netflix

Hannah Gadsby – Douglas – Netflix

O livro de Líbero (Intrínseca)

Fonte: PublishNews

LGBTQ+ nas bibliotecas

Consumo cultural e a busca de espaços inclusivos

Por Marília Paiva| Presidenta do Conselho Regional de Biblioteconomia – 6ª Região (MG e ES)

O combate ao preconceito contra pessoas LBGTQ+ é uma atitude cada vez mais necessária. Paulatinamente, essa parcela da população conquista representatividade em filmes, músicas, propagandas e livros, ocupando cada vez mais espaço. A participação cultural é notória. A pesquisa Cultura nas capitais: como 33 milhões de brasileiros consomem diversão e arte informa que pessoas assumidas LGBTQ+ acessam mais atividades culturais em geral que pessoas declaradas heterossexuais.

O levantamento ainda revelou que a leitura é um hábito importante, sendo que esse costume ficou em segundo lugar como preferência da comunidade LGBTQ+, e 75% dos entrevistados responderam que têm o hábito de ler livros e 51% responderam ter frequentado uma biblioteca nos últimos 12 meses. Trata-se de um grupo participativo e que frequenta efetivamente as bibliotecas, mesmo com a aparente escassez de ações e iniciativas de inclusão focadas nesse público.

O bibliotecário precisa também buscar formas de suprir as necessidades de informação e demandas desse grupo, incentivando a participação contínua nas atividades, além de torná-lo mais representado também no acervo. Apurar, selecionar e disponibilizar obras, artigos e informativos com representatividade LGBTQ+ é uma forma de transformar a biblioteca em um ambiente mais inclusivo.

Mudança de padrão

A biblioteca deve buscar, por meio de acervo, serviços e atividades, incluir todas as esferas e grupos sociais, especialmente as minorias. Temáticas como a saúde, direitos, história e desafios da comunidade LGBTQ+ devem estar à disposição nas prateleiras. O investimento em obras ficcionais com personagens desse grupo também é uma forma de investir numa sociedade que admita e até aprecie mais as diferenças.

A oferta de obras com personagens e temáticas fora do padrão heteronormativo enriquece a biblioteca, que deve ser um espaço física e intelectualmente acolhedor e seguro, estimulando atividades direcionadas também a esse público.

Em outros lugares do mundo, a preocupação com a inclusão já é uma realidade, promovendo atividades e campanhas nacionais. O Mês do Livro LGBT é um exemplo, celebrado em junho como iniciativa da Associação Americana de Bibliotecas (American Library Association – ALA) com a proposta de atender as necessidades de informação e acesso da comunidade LGBTQ+, do público em geral e dos profissionais de bibliotecas que se identificam como gays, lésbicas, bissexuais e pessoas transgêneras.

Os eventos e programações em bibliotecas são incentivados em todas as regiões, convidando a comunidade local. As ações podem ser simples, mas devem ser muito bem planejadas de modo a promover a inclusão de pessoas que ainda têm que lutar cotidianamente para demonstrar o valor de suas próprias existências.

Fonte: O Tempo

POR QUE AS BIBLIOTECAS DEVEM SE ENVOLVER NA TEMÁTICA LGBTQIA+? – PARTE 1

Há duas razões para isso: a primeira delas, a defesa do direito à vida, que abrange tanto o direito de não ser morto, como também o direito de ter uma vida digna

Texto por Cristian Brayner

Por onde a pandemia passou, ela deixou um rastro de dor. No Brasil, em razão da flagrante negligência protagonizada pelo Estado – indiferença desavergonhada, sem máscara, nem nada! –, os sulcos são mais profundos. Apesar desse quadro sofrível, tenho me esforçado para cultivar uma leitura menos amargurada dos acontecimentos.

Fui notando, no curso das semanas, que além das lágrimas, a Covid fez brotar um fio teimoso de solidariedade, uma espécie de desejo coletivo, quase sempre genuíno, de ajudar, de estar presente na vida do outro. Isso resultou num sem número de lives de gente comum e notável compartilhando habilidades, da culinária a veterinária. Eu mesmo não me fiz de rogado: aprendi noções de sânscrito e me esbaldei com Caetano.

As lives bombaram mesmo entre bibliotecários, algumas delas com temas sensacionais. Já imaginaram bibliotecários brasileiros discutindo, em alto e bom som, a respeito de acervos destinados a lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, queers, intersexo, assexual e mais? A convite do Conselho Regional de Biblioteconomia da 8ª Região, tratei com outros colegas desse assunto ainda inusitado, o que me deixou gratamente surpreso.

Afinal, nestes mais de 20 anos como bibliotecário, me deparei por dezenas de vezes com perguntas do tipo: “Livro gays numa biblioteca pública? Para que?” Está embutido nesse questionamento certa preocupação em evitar polêmicas, mantendo-se na trilha mais confortável, o que não deixa de ser compreensível. Afinal, é relativamente recente a discussão a respeito do papel ideológico das bibliotecas na construção e manutenção de práticas de violência ou o seu oposto.

Desse modo, esse tipo de pauta sobre a criação de produtos e serviços específicos para grupos marginais implica reconhecer que as bibliotecas, enquanto artefatos culturais, sempre estiveram envolvidas na construção de sistemas de verdades, sejam estes louváveis ou reprováveis. Afinal, ela compõe a estrutura de poder, essa complexa rede de dispositivos que atravessam toda a sociedade e que nos diz o que é certo ou errado.

Desse modo, é inverídico e frustrante a biblioteca evocar a neutralidade para tentar justificar a uma lésbica a ausência das obras de Vange Leonel em suas estantes. De fato, o silêncio travestido de imparcialidade costuma ser tão virulento quanto uma baioneta.

Mas, o que justificaria a biblioteca se envolver nessa pauta tão melindrosa? Há duas razões para isso: a primeira delas, a defesa do direito à vida, “que abrange tanto o direito de não ser morto […], como também o direito de ter uma vida digna.” (LENZA, 2019, p. 1168). O Brasil é terreno minado a quem possuir uma identidade de gênero diferente do sexo designado no nascimento ou uma orientação sexual distinta da heterossexualidade.

No Ceará, a travesti Dandara foi assassinada a chutes e pedradas pelos vizinhos. Já no interior de São Paulo, a mãe do jovem Itaberli Lozano, inconformada com a sua homossexualidade, recorreu a golpes de faca e ao fogo para eliminá-lo. Os fins trágicos de Dandara e Itaberli não são casos isolados. Segundo levantamento do Grupo Gay da Bahia, um cidadão LGBTQIA+ é assassinado no Brasil a cada 24 horas, o que nos põe no topo desse triste ranking.

Além dos homicídios bárbaros que ilustram as manchetes dos jornais e geram uma indignação efêmera, o bastão da violência simbólica é erguido contra esses indivíduos desde a mais tenra idade: é a risada, é a piada; é o cascudo, é o repúdio. A homofobia brasileira é particularmente gravosa por sua dissimulação.

Recordo-me de um parlamentar que, ao protocolar projeto de lei visando impedir o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, declarou, sem ruborizar: “Não sou homofóbico. A sala lá de casa até foi decorada por um gay.” Assim, pretendendo camuflar o próprio ódio, ele forja uma relação de empatia com sua vítima e a encarcera num espaço seguro e restritivo: é o cabelo, é a moda, é a decoração; nada mais. Dessa narrativa burlesca o agressor, “gente de bem”, sai com a consciência tranquila.

A tensão social brota no minuto em que a vítima ousa pisar na linha riscada por seu algoz. Isso tem-se dado quando a comunidade LGBTQIA+ passou a questionar os discursos que atribuíam ao seu corpo e aos seus desejos uma carga penosa e reprovável. Trata-se de uma disputa pelo poder de fala, o qual legitima todo os modos de vida.

E que discursos são esses que distinguem o sujo do limpo, a virtude do pecado? A religião e o direito, certamente, exercem um papel de destaque nesse processo. Entretanto, como bem nos sugeriu Michel Foucault (1979, p. 182), é importante “[…] captar o poder na extremidade cada vez menos jurídica de seu exercício.” É lá, nesta ponta, que se encontra a biblioteca. Ser sensível ou impassível é escolha dela.

O segundo motivo que deveria levar um bibliotecário a ponderar a respeito dessa pauta é o fato de ter se comprometido, solenemente, na colação de grau defender “o cunho […] humanista” da profissão. Ao prometer publicamente desenvolver seu trabalho “fundamentado […] na dignidade da pessoa humana”, o bibliotecário se coloca, voluntariamente, num estado contínuo de tensão, atento a qualquer sistema de verdade que atente contra a diversidade. Ele é, sob juramento, um combatente contra toda prática de violência. Quem de nós ousaria atribuir o mais fantástico dos mundos aos abraçados pela sigla LGBTQIA+? Lembremos do Itaberli, lembremos da Dandara.

Fonte: Biblioo

Pesquisadores criam jogo de tabuleiro para crianças aprenderem braile

Criação é dos pesquisadores da UFPB em parceria com o Instituto de Cegos da Paraíba.

Jogo de Tabuleiro em braile Imagem: Divulgação

Pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) desenvolveram um dispositivo para auxiliar no aprendizado de crianças cegas ou com baixa visão. Por meio da ferramenta lúdica, é possível alfabetizar em Braille, explorar habilidades táteis e reconhecer formas 2D (em duas dimensões).

A tecnologia associativa, patenteada pela Agência UFPB de Inovação Tecnológica (Inova) e criada em parceria com o Instituto de Cegos da Paraíba, em João Pessoa, é constituída de um tabuleiro com espaços quadriculares para o encaixe de peças que representam coisas do cotidiano.

Cada peça contém o nome  da respectiva forma, tanto em Braille, para crianças cegas, quanto em caixa alta e em alto-contraste, para crianças com baixa visão.

O produto é feito de madeira, plástico e EVA (Acetato de Vinila), um polímero emborrachado e flexível. Antiderrapante, oferece mais aderência no manuseio, impossibilitando a projeção do dispositivo para frente ou para as laterais.

Para desenvolver o tabuleiro, as pesquisadoras Joele Marques, Catharine Sanches e Maryana Tavares, sob orientação do professor do Departamento de Engenharia de Produção Fábio Borges, buscaram entender quais as necessidades e barreiras encontradas durante o processo de ensino de pessoas com deficiência visual.

O levantamento apontou dificuldade de encontrar brinquedos inclusivos. Até mesmo os educativos não eram completos. Quando identificados, os brinquedos inclusivos apresentaram elevado custo em comparação a produtos similares e direcionados para pessoas que enxergam normalmente.

O professor Fábio Borges destaca que o dispositivo é ao mesmo tempo um brinquedo e uma ferramenta, unindo diversão e aprendizagem, o que potencializa o desenvolvimento das crianças.

Para as crianças com deficiência visual, isso é muito mais gritante, porque elas não têm a interação que nós temos com o mundo. Então, a parte lúdica de perceber que eu estou aprendendo o Braille por meio de uma brincadeira, de um jogo, facilita não só a aprendizagem em si, mas o apego, o querer brincar para aprender”, conta o professor.

De acordo com os pesquisadores, o uso da tecnologia assistiva é de grande importância para promover a integração e a independência das pessoas com deficiências visuais. Tecnologia assistiva consiste em uma ampla gama de equipamentos, serviços, estratégias e práticas concebidas e aplicadas para minorar os problemas funcionais encontrados pelas pessoas com deficiências.

Maryana Tavares, uma das pesquisadoras que criou o dispositivo, ressalta a importância da invenção. “A ferramenta proposta traz o aspecto lúdico à aprendizagem do Braille, com o objetivo de torná-la simples, divertida e possível de ser compartilhada com outras crianças”.

Para ela, além da aprendizagem divertida, a ferramenta pode proporcionar interação entre as crianças usuárias e, consequentemente, mais inclusão e integração à sociedade, valores que compõem o cerne da tecnologia assistiva.

O estudo foi realizado considerando dados do Censo Demográfico 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que apontavam que 21,8% da população paraibana possui alguma dificuldade visual, mesmo com auxílio de óculos e lentes de contato. Isso equivale a 823 mil pessoas, das quais 142.196 possuem deficiência severa e 8.477 são cegas.

Fonte: Portal T5

Painel online – Tratado de Marraqueche e a acessibilidade de livros

Participantes:

Thiago Oliveira, Coordenador-Geral de Regulação, Negociação e Análise, da Secretaria de Direitos Autorais e Propriedade Intelectual do Ministério da Cidadania;

Carlos Ferrari, Secretário de Tecnologia e Acesso à Informação da ULAC – União Latino-americana de Cegos e parte das Diretorias do Comitê Brasileiro de Organizações Representativas das Pessoas com Deficiência e da Organização Nacional de Cegos do Brasil;

Moises Bauer, Assessor Jurídico do Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul, atualmente lotado no Centro de Apoio Operacional dos Direitos Humanos;

Alexandre Munck, Superintendente executivo da Fundação Dorina Nowill para Cegos e membro do Grupo de Trabalho pela regulamentação do Tratado de Marraqueche.

Mediação: Ezequiel Mariano, da Rede de Leitura Inclusiva.

Fonte: Fundacao Dorina Nowill

10 autoras para conhecer a literatura da Amazônia hoje

Texto por Fred Di Giacomo

A escritora Márcia Kambeba
Imagem: Márcia Kambeba/Acervo pessoal

Na última coluna, a “Arte fora dos centros” conversou com a pesquisadora paraense Suelen Silva sobre sua atuação na área de descentralização da cultura, tanto na Amazônia, onde viveu a maior parte da vida, quanto na Alemanha, onde mora hoje. Na mesma semana, a editora Monomito, fundada pela amazonense Adriana Chaves e o paraense Toni Moraes anunciou que está procurando textos inéditos escritos por mulheres cis e trans paraenses, ou que vivem no Pará. O projeto vai se chamar “Trama das Águas: Literatura contemporânea produzida por mulheres no e do Pará.”. Quem tem interesse em se inscrever pode ler o regulamento aqui.

O Pará faz parte da Amazônia Legal, área que engloba os sete estados da região norte, o Mato Grosso e o oeste do Maranhão. Embalados pela entrevista com a Suelen e o anúncio de “Trama das Águas”, listamos 10 autoras para conhecer a literatura da Amazônia hoje.

A escritora e jornalista Gabriela Sobral Imagem: Diva Nassar/Divulgação.

Gabriela Sobral

De Belém, Gabriela Sobral é escritora e jornalista. Seu primeiro livro de poesias, “Caranguejo”, foi lançado pela Editora Patuá (2017). Mediou o clube literário Leia Mulheres, na cidade de Belém e realizou o projeto “Imaginárias”, premiado pela Fundação Cultural do Pará (2016).

 

 

 

A escritora Roberta Tavares Imagem: Roberta Tavares/Arquivo pessoal.

Roberta Tavares

Poeta e ativista cultural, Roberta Tavares co-organiza o “Sarau do Povo da Noite”. Vive em Belém, mas suas raízes mais profundas estão no interior da Amazônia, nas áreas quilombolas do baixo rio Bujaru, na margem do igarapé Cravo. Como poeta, publicou o zine “Mulheres de Fogo” e tem um livro na gaveta esperando publicação.

 

A escritora Lia Minapoty Imagem: Lia Minapoty/Facebook.

Lia Minapoty Aripunãguá

Nascida na aldeia Yãbetue’y, nas margens do rio Abacaxi, a escritora amazonense Lia Minapoty é uma das jovens lideranças do povo maraguá. Autora de “Com a noite veio o sono” (Leya) e “A árvores carne e outros sonhos” (Tordesilhinhas), também participou de “Nós: uma antologia de literatura indígena” (Cia das Letras).

 

 

A escritora Márcia Kambeba Imagem: Márcia Kambeba/Facebook.

Márcia Kambeba

Nascida na aldeia Belém do Solimões, no Alto Solimões, estado do Amazonas, Márcia Wayna Kambeba é mestre em geografia, poeta, música e escritora. Autora dos livros “Ay Kakyri Tama – Eu moro na cidade” (Pólen) e “O lugar do saber” (Casa Leiria).

 

 

 

A escritora Mayara La-Rocque Imagem: Mayara La-Rocque/Arquivo pessoal.

Mayara La-Rocque

Mayara La-Rocque é escritora formada em Letras pela UFPA. Colaborou com a revista literária “KamikASES”, e ganhou a quarta edição do prêmio PROEX da UFPA, em 2015, na categoria contos. Produziu o livro artesanal “Atravessa a Tua Viagem” e publicou a plaquete literária “Uma Luminária Pensa no Céu” (Edições do Escriba).

 

 

 

 

A escritora Rafaela Oliveira Imagem: Milena Maia/Divulgação.

Rafaela Oliveira

A paraense Rafaela Oliveira tem 19 anos e é escritora, dançarina e cantora. Atada às artes desde a infância, descobriu na palavra sua brincadeira favorita: a poesia. Atualmente é graduanda do curso de Letras na UFPA.

 

 

A escritora Julie Dorrico Imagem: Julie Dorrico/Arquivo pessoal.

Julie Dorrico

A autora de “Eu sou macuxi e outras histórias” (Caos e Letras) nasceu em Guajará-Mirim, oeste de Rondônia. É doutoranda em letras e pesquisadora de literatura indígena, co-organizadora de “Literatura indígena brasileira contemporânea: criação, crítica e recepção” (Ed. Fi, 2018) e criadora do projeto #LeiaMulheresIndígenas.

 

 

A escritora Bruna Guerreiro Imagem: Emerson Pardo/Divulgação.

Bruna Guerreiro

Bruna Guerreiro publicou seu primeiro livro, em 2013. É formada em História, tradutora e professora de francês. Nasceu em Belém e, entre romances, novelas e contos, tem mais de quinze títulos publicados, como “Os Livros de Ventura”, “Catarina” e “No Parque da Cidade”.

 

 

 

A escritora Paloma Franca Amorim Imagem: Luiza Saad/Divulgação.

Paloma Franca Amorim

Paloma Franca Amorim é autora de “Eu preferia ter perdido um olho” (Editora Alameda). Nasceu em Belém do Pará, em 1987, e mudou-se aos 18 anos para a cidade de São Paulo onde vive desde então. Além de escritora, é ilustradora e professora de teatro formada pela Universidade de São Paulo.

 

 

A escritora Monique Malcher Imagem: Monique Malcher/Arquivo pessoal.

Monique Malcher

Monique Malcher é escritora e colagista nascida em Santarém, interior do Pará, mas viveu grande parte da vida em Belém. “Flor de Gume” (Pólen Livros), com edição de Jarid Arraes, é seu livro de estreia. Acredita que a literatura é um dos caminhos possíveis para aguentar o caos e matar a saudade do que ainda não veio.

 

 

 

Fonte: ECOA Por um mundo melhor

Elas são crianças, negras e agitam a internet falando sobre livros

Ele tem 12 anos e é um dos grandes influenciadores do Instagram.

Adriel, um menino baiano e negro viu sua vida transformada da noite para o dia por conta de um ato de racismo.

Sua conta na rede social Instagram estava tímida e graças a ação dos seus seguidores, os milhares de compartilhamentos fez com que instagrammers renomados chegassem até ele e se tornassem parte da sua rede.

“É muita gente querendo o seu bem. E uma das melhores coisas é que você vai poder compartilhar o seu amor pelos livros para mais de 500 mil pessoas. Que outras crianças tomem você como exemplo e entendam o poder de transformação da leitura! A leitura é uma ferramenta incrível de empatia, Adriel, e você já aprendeu muito bem isso”, postou Pedro Pacífico (o @book.ster).

Tá ficando profissa!

No seu perfil do “insta” está escrito: “De Salvador para o mundo” e o jovem Adriel já ganhou uma assessoria, inclusive da sua mãe, para monitorar a conta e assim ele pode se dedicar mais à leitura.

Acervo pessoal do Instagram

Além disso, algumas celebridades como Gisele Bündchen enviaram elogios e mensagens de apoio.

Assistir aos seus vídeos no youtube é uma experiência gratificante.

Ele é uma simpatia em pessoa e as críticas literárias são apresentadas de forma bem espontânea e divertida. E ele não se intimida com alguns dos “tijolaços” que ele tem que ler, afinal, ler é a paixão da sua vida.

Para curtir e seguir as dicas literárias do Adriel, aqui vão os links:

https://www.instagram.com/livrosdodrii/

https://www.youtube.com/channel/UCM4QTjdg3G_rAEEVf0ijJEw

Denúncias de casos de injúria racial pela internet podem ser realizadas pelo Disk 100, serviço do Governo Federal que recebe denúncias de violação de direitos humanos. A denúncia também pode ser feita em delegacias comuns e especializadas em crimes raciais e delitos de intolerância.

Booktubers engajadas

Helena e Eduarda Ferreira são irmãs gêmeas que moraram no Morro da Providência, a primeira favela do Rio de Janeiro.

Um cenário marcado pela violência, que as obrigava ficar em casa.

O legal desta história é que a reclusão compulsória se transformou num grande projeto de estímulo à leitura e em 2015 elas criaram o “Pretinhas Leitoras”.

A explicação do nome não poderia ser mais clara e direta: “Porque a gente é preta e a gente lê”- diz Helena

As rodas de leitura com as crianças do Morro da Providência aconteciam na própria casa e se tornou a grande opção cultural contrapondo a escassez de tudo na favela.

Em 2018 o projeto deu um salto e elas criaram o canal no youtube “Pretinhas Leitoras”, que tem mais de 20 mil inscritos.

Mesmo com todo o poder de alcance da internet, estas meninas não abrem mão do contato olho no olho nos encontros mensais que realizam no Morro da Providência com as crianças para falar de livros e do enfrentamento do racismo nas escolas.

“Antigamente a gente não se aceitava como era por causa do nosso cabelo e nossa cor”, conta Eduarda, cuja biblioteca pessoal possui títulos como “Solta os cabelos”, ” Meu crespo é de rainha” e “Amoras”.

Para ela, que pretende fazer doutorado em literatura negra, os livros são uma forma de “incentivar pessoas negras a se amarem através de outras histórias.”

Helena também pretende seguir a carreira de professora e sonha com uma vida diferente para as crianças da região.

“Quero que elas tenham sonhos que possam realizar, que acessem a biblioteca e que tenham um lugar que possam se sentir seguras, sem tiroteio e violências.” – afirma.

Foto: acervo pessoal

Mãe e camerawoman

Elen Ferreira, a mãe das meninas, é professora dos primeiros anos da educação básica e pesquisadora sobre infância.

Ela diz que suas filhas não são excepcionais, apenas tiveram acesso e estímulo, mesmo morando numa comunidade que sequer tem pontos de cultura como uma biblioteca ou teatro.

“Nós temos crianças fadadas ao encarceramento domiciliar sem cometer delito nenhum. O país prepara infâncias negras e pobres para ficarem enclausuradas desde a mais tenra idade.”- afirma

Aos olhos da grande maioria dos moradores de comunidades, o sonho de trilhar uma carreira acadêmica, transformam Helena e Eduarda em “meninas prodígio”, mas para sua mãe são sonhos naturais, que toda criança poderia ter.

Elen também contribui para o canal dando ideias e filmando os vídeos com um celular. Apesar de um “certo sofrimento” pelos recursos técnicos escassos, os vídeos são postados e rendem centenas de comentários positivos.

“ Este projeto traz um senso de responsabilidade social muito grande na vida das minhas filhas e isto pra mim é extremamente importante.” – diz Elen

Conheça mais sobre estas “booktubers” aqui.

Fonte: Revista Ecos da Paz

Indígena adota a batida do rap para falar da resistência de seu povo

MC Kunumi lançou ‘Guerreiro da floresta’ nas plataformas digitais. Aos 14, ele protestou na abertura da Copa do Mundo no Brasil

Texto por Estado de Minas

MC Kunumi em cena do clipe Xondoro ka’aguy reguá (Guerreiro da floresta), que está disponível nas plataformas digitais (foto: Klaus Mitteldorf/Divulgação)

Selecionado para representar os povos indígenas na abertura da Copa do Mundo de 2014, em São Paulo, Werá Jeguaka Mirim, da aldeia Krukutu, na região de Parelheiros, extremo Sul da cidade, caminhou sobre o gramado da Arena Corinthians para soltar uma das três pombas da paz antes do início da partida entre os times do Brasil e da Croácia.

Na saída do campo, porém, ele, então com 13 anos, quebrou o protocolo e abriu uma faixa vermelha pedindo pela demarcação das terras indígenas.

Seis anos após o protesto, que repercutiu internacionalmente, a causa defendida por esses povos segue sem avanços significativos. E Werá, hoje aos 19, faz uso da música e da literatura para dar visibilidade à realidade de seu povo.

”É um costume na nossa aldeia ir à noite na casa de reza, fumar o nosso cachimbo e entoar cânticos pedindo força”, conta. ”Nós, os guaranis, temos uma ligação muito forte com a música, e isso foi o que me levou a gostar de rap. Nas minhas músicas e na literatura nativa que produzo, escrevo sobre o meu povo e a nossa luta.”

Para apresentar as rimas do que chama de rap indígena, ele assume o nome artístico Kunumi MC – uma derivação de ”curumim” (criança, em tupi-guarani) –, ou seja, “jovem MC”.

Em seu trabalho mais recente, Xondaro ka’aguy reguá (Guerreiro da floresta), disponível nas plataformas digitais, ele retrata a realidade dos povos indígenas desde a invasão dos portugueses até o presente momento.

”A música fala sobre um guerreiro que nasceu das águas e veio para libertar os indígenas e lutar por eles. É uma maneira de dizer que surgiu um MC indígena. Mas também não falo só de mim. A todo momento está surgindo um indígena para falar sobre o seu povo. Já faz tempo que muitas pessoas querem ajudar o indígena, mas por que um indígena não pode ajudar seu próprio povo?”, questiona.

O artista tem também um EP e um álbum lançados e já gravou com Criolo (foto: Fotos: Acervo pessoal MC Kunumi)

Cantada em guarani e com produção assinada por Fadel Dabien, a música tem sonoridade contemporânea, com referências ao reggaeton e à trap music, e traz samples de violino indígena, com um resultado alinhado com a estética futurista.

”Nela, tento mostrar que dá para colocar elementos indígenas em um rap. Não basta cantar em guarani, é importante mostrar elementos nativos”, comenta Kunumi.

”Antigamente, na floresta, havia muitas frutas para comer/ Mas os brancos vieram e destruíram tudo o que Deus criou”, canta ele, em um dos versos. ”Nativos e originários dessa terra, Brasil/ Desde mil e quinhentos vivemos em guerra/ Nosso povo foi oprimido e dizimado por não aceitar ser escravizado”, prossegue a letra.

Para ele, a solução para o aquecimento global – um dos temas abordados em Guerreiro da floresta – está nas mãos dos povos indígenas. ”A única saída que enxergo é a preservação das florestas, o que só vai acontecer se mais terras indígenas forem demarcadas. Para nós, o progresso está na floresta e a preservação dela é o verdadeiro enriquecimento”, afirma.

Dirigido por  Bruno Silva e Gabe Maruyama, da Angry Films, o videoclipe da canção, com cenas gravadas na tribo Krukuto e na Avenida Paulista, em São Paulo, é um convite à reflexão. Para além da beleza estética das imagens, que trazem Kunumi MC como o guerreiro da floresta dotado de poderes sobrenaturais, o vídeo representa uma nova geração de indígenas que usam a educação, a arte e a tecnologia para defender e proteger suas terras.

CRÉDITO

Representando os povos indígenas, Werá Jeguaka Mirim (hoje Kunumi MC) protestou pela demarcação de terras na Copa do Mundo de 2014

Representando os povos indígenas, Werá Jeguaka Mirim (hoje Kunumi MC) protestou pela demarcação de terras na Copa do Mundo de 2014

‘Hoje o indígena tem a liberdade de usar uma arte para lutar. Muita coisa indígena foi roubada e patenteada sem que recebêssemos o devido crédito. Então, a gente não vai virar branco porque estamos usando coisas que não são do índio. A internet, por exemplo, está a nosso serviço para lutar e eu uso a literatura, a música e o rap para defender o meu povo e divulgar as nossas causas”, comenta.

Além de Xondaro Ka’aguy Reguá (Guerreiro da floresta), Kunumi MC tem outros dois registros de estúdio: o EP My blood is red (2017) e o álbum Todo dia é dia de índio (2018). Como rapper, ele ainda colaborou com Criolo na música Demarcação já – Terra, ar, mar; e com Souto MC e Bia Ferreira na canção Festa e fartura. Em 2014, Kunumi publicou dois livros: Contos dos curumins guaranis (FTD) e Kunumi guarani (Panda Books).

”Acredito que minha música é muito importante para a sociedade entender que nós, os indígenas, estamos resistindo, mas também precisamos de ajuda. A nossa luta é a luta pela terra e pela floresta. Pela preservação da natureza”, afirma. ”E a minha literatura é uma forma de preservar as histórias do meu povo.”

Isolado na aldeia, ele mostra preocupação com o avanço da pandemia. Entretanto, afirma que esse é um obstáculo que se soma a outros. ”Hoje, o Brasil encara dois problemas: o coronavírus e o governo atual. Essa doença pode exterminar o nosso povo, mas sabemos que o governo também pode fazer isso, e de uma forma muito mais rápida.”

”Então, o que a gente tem feito é intensificar o uso de nossos remédios, que funcionam como forma de prevenção ao vírus. Eles possuem propriedades curativas, e a gente acredita muito neles. Quanto à luta, continuamos resistindo dentro da aldeia e divulgando a nossa causa na internet. Não temos tempo de descansar ou parar.”

Raoni acusa Bolsonaro de se aproveitar da pandemia

O novo coronavírus, que atinge mortalmente o Brasil, não poupa os indígenas da Amazônia. Seu porta-voz emblemático, o cacique Raoni, de 90 anos, acusa o presidente Jair Bolsonaro de querer “se aproveitar” para eliminar seu povo.

De origem kayapó, Raoni menciona “a precariedade do atendimento da saúde” ao seu povo, cujo índice de  mortalidade é duas vezes maior que o do restante da população. O cacique está confinado na aldeia de Metuktire, no Mato Grosso. “Só vou sair da aldeia quando normalizar tudo”, disse, em entrevista por chamada de vídeo.

A ONG francesa Planète Amazone (Planeta Amazônia) promoveu uma campanha de arrecadação para assegurar o confinamento das comunidades indígenas. Mas 10 toneladas de alimentos básicos e produtos de higiene destinadas aos kayapós permaneceram bloqueadas durante três semanas, segundo a Planète Amazone, cujo presidente, Gert-Peter Bruch, denunciou “um excesso criminoso de burocracia”. Com a falta de produtos, os indígenas precisam ir até as cidades se abastecer.

Da mesma forma, o fornecimento de medicamentos pelas ONGs a indígenas foi complicado por uma circular de Brasília, em 20 de maio. Segundo a Associação de Povos Indígenas do Brasil (APIB), ao menos 211 indígenas morreram de COVID-19, num total de 2.178 contágios.

A pandemia impediu Raoni de ir a Brasília para defender outra causa essencial dos indígenas: a delimitação de suas terras. O cacique queria se reunir com o presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai).

Uma instrução normativa editada recentemente pela Funai autoriza com efeito imediato o desmonte de 237 terras indígenas que não tinham sido ainda delimitadas por decreto presidencial. Trata-se de terras do tamanho do território de Portugal, que podem ser ocupadas e desmembradas.

“Não! Isso não pode acontecer! Nossa terra não pode ser ocupada pelos invasores”, diz o cacique, referindo-se a fazendeiros, madeireiros e garimpeiros ilegais. “Ele (Bolsonaro), como presidente, tem que demarcar as terras que ainda não foram demarcadas para que meu povo possa ali viver e se sentir bem.” (AFP)

Fonte: Jornal Estado de Minas

Calendário literário adere ao mês LGBT

Editoras ampliam no mês de junho a divulgação de obras cuja temática corrobora a luta pela igualdade nos direitos civis e o combate ao preconceito

Texto por Pedro Galvão

Se no Brasil junho sempre foi o mês das fogueiras, quadrilhas e bandeirolas, as cores do arco-íris vêm ganhando mais força a cada ano nessa altura do calendário, com as campanhas a favor dos direitos e do orgulho LGBT. Tudo começou com um episódio conhecido como Rebelião de Stonewall, ocorrida em 1969.

Em 28 de junho daquele ano, frequentadores do bar Stonewall Inn, em Nova York, resistiram a uma invasão violenta e discriminatória da polícia, desencadeando manifestações a favor da diversidade sexual e contra o preconceito sofrido por esses indivíduos em todo o planeta.

Essa luta vem ganhando novas páginas na literatura, com a temática LGBT ocupando uma vistosa fatia do trabalho de editoras. Em novembro do ano passado, a norte-americana Casey McQuiston lançou Vermelho, branco & sangue azul, seu primeiro romance. Trata-se de uma história de amor fictícia entre o filho da presidente dos EUA e o príncipe da Inglaterra. Chegou a figurar em 15º lugar na lista de mais vendidos do New York Times e foi escolhido pelo site Goodreads como o melhor de 2019 nas categorias romance e livro de estreia. Nas últimas semanas, esse e outros títulos ganharam destaque especial no mercado editorial.

No Brasil, o portal de comercialização de livros Estante Virtual promoveu a campanha Mês do Orgulho: 25 livros, autores e histórias LGBTQIA+ e diz ter notado efeito nas vendas. Segundo a empresa, os livros de ficção sobre essa temática cujas vendas mais se destacaram foram Com amor, Simon (2015), de Becky Albertalli, adaptado para o cinema em 2018, e a fantasia A menina submersa (2015), de Caitlín R. Kiernan.

Entre os de não ficção, os destaques foram Devassos no paraíso, de João Silvério Trevisan (2000), que apresenta um panorama histórico da causa LGBT no Brasil, Foucault e a teoria queer (2017), de Tamsin Spargo, com viés filosófico e teórico, e o livro reportagem Ricardo e Vânia (2019), de Chico Felitti.

A Estante Virtual diz que o objetivo da campanha realizada em junho é “destacar uma série de histórias e personagens que vivem sentimentos de discriminação, isolamento e até depressão relacionados ao preconceito e homofobia”, sob a justificativa de que “os livros podem contribuir para a construção de uma sociedade melhor, seja ao permitir que qualquer pessoa possa ter contato com histórias que fogem da sua própria realidade, como para encorajar quem se reconhece em uma personagem”. O texto foi divulgado pelo site ao anunciar a campanha.

A TAG Experiências Literárias também endossa esses objetivos em sua prática de curadoria oferecida aos assinantes. Além de procurar incluir títulos nas seleções enviadas aos clientes, a empresa usa as redes sociais para divulgar obras atuais e mais antigas sobre o tema.

“Entendemos que não é só enviando livros que construímos essa representatividade, mas também falando e dando visibilidade para autores e outros títulos que promovam esse debate”, afirma Marília Fernandes, líder de relacionamento da TAG. Tudo nela brilha e queima (2017), de Ryane Leão; O quarto de Giovanni (1956), de James Baldwin; e Viagem solitária (2011), autobiografia de João W. Nery (1950 – 2018), psicólogo e escritor, conhecido como primeiro homem trans a realizar a cirurgia de redesignação sexual no Brasil, em 1977, são algumas das obras citadas em uma ação no Instagram.

DESCONTO

A Editora Unesp foi outra a se mobilizar, por meio da campanha Combate à Homofobia 30%, conferindo esse desconto na compra de publicações relacionadas ao assunto. Destaque para a reedição de Além do carnaval: a homossexualidade masculina no Brasil do século XX, originalmente lançado em 1999, e republicado no ano passado pela Unesp. O livro do historiador norte-americano James Green, especializado em estudos latino-americanos e ativista dos direitos LGBT, chegou a se esgotar por duas vezes no estoque da editora neste mês de junho.

“Uma editora universitária tem obrigação de intervir na conjuntura nacional, propiciando instrumentos de aperfeiçoamento do debate. Fazemos isso nessa questão (LGBT), que é absolutamente central no panorama político brasileiro, e também em outras, seja no próprio catálogo editorial, contemplando a temática, como em iniciativas livreiras, como essa”, afirma o diretor-presidente da Fundação Editora da Unesp, Jézio Hernani Bomfim Gutierre.

Ele reconhece que, muitas vezes, o livro “é um produto caro para o consumidor final”, por isso esse tipo de ação é necessária para “difundir e ser o mais universal possível em relação a esse conhecimento”. Gutierre afirma também que pode “estar sendo ingênuo, mas o objetivo é também contribuir para que o preconceito decorrente da ignorância e da falta das informações presentes nesses livros seja mitigado com essa bibliografia”.

TRILOGIA

 O escritor mineiro Aliel Paione vem aproveitando o mês de junho para divulgar o lançamento de Sol & sombras, segundo título da trilogia iniciada em 2018, com Sol & sonhos em Copacabana (editora Pandorga). Embora o protagonista seja um homem heterossexual com história de amor dividida entre mãe e filha, o autor deposita em outro personagem angústias e anseios por uma sociedade menos preconceituosa.

“O principal é João Antunes, que, no Brasil dos anos 1920, sai do Rio Grande do Sul e vai para Goiás em busca de ouro. Lá conhece Marcus, que é homossexual e com quem constrói uma relação muito importante, que lhe permite ter um novo balizamento e entendimento das coisas”, comenta o autor. Segundo ele, a inspiração para esses personagem veio de sua própria experiência.

“Quando eu era criança, no interior de Minas, me intrigava a situação de exclusão e isolamento que homossexuais viviam nas pequenas cidades, sempre alvos de piadas, deboches, comentários preconceituosos e até de violência. Isso me chocava. Esse personagem mostra um pouco desse sofrimento e dessa solidão. Procurei humanizar isso, o Marcus é um homem de posses, culto, com várias qualidades, mas, em Cavalcante, vivia isolado”, diz o escritor, nascido em Varginha.

Paione lamenta que o preconceito ainda seja latente nos dias de hoje. “Infelizmente, no Brasil, ainda estamos muito atrasados nesse aspecto. E a literatura é fundamental, porque ela dá uma visão maior para as pessoas.”

Diversidade no audiovisual

Além do mercado literário, o orgulho LGBT é destaque também no universo do audiovisual. A HBO selecionou filmes, séries e documentários, disponíveis no serviço sob demanda HBO GO, que mostram histórias de inclusão e diversidade. São 11 produções originais da emissora, com destaque para a série nacional Todxs nós, protagonizada por Rafa (Clara Gallo), jovem pansexual e não binárie, que decide deixar a família no interior e mudar-se para a capital paulista.

A National Geographic aproveitará o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA (28 de junho) para realizar sua Marcha virtual. Trata-se de um grande desfile com vídeos enviados pelo público via Twitter. Além disso, a programação da emissora terá uma maratona com séries e documentários de temática LGBT, como Explorer investigation: Intolerância LGBTI , O que nos define?, Transgêneros e um episódio de Explorer 2.0 sobre a comunidade gay na Índia.

O mês também terá a estreia, nas plataformas digitais, do documentário Indianara, sobre a ativista transsexual brasileira Indianara Siqueira, dirigido pela francesa Aude Chevalier-Beaumel e pelo brasileiro Marcelo Barbosa. O filme esteve na seleção oficial de Cannes no ano passado e chega aos serviços de streaming iTunes, Google Play, NOW, Looke, Vivo Play e Amazon na próxima quinta-feira (25).

Fonte: Estado de Minas

A LITERATURA DE MULHERES PERIFÉRICAS

Conversamos com nove escritoras e poetas que usam a palavra como arma para transformar olhares e construir novas narrativas na literatura brasileira

Texto por Carolina Delboni

“Digam ao povo brasileiro que meu sonho era ser escritora, mas eu não tinha dinheiro para pagar uma editora”. A frase é de Carolina Maria de Jesus, escritora, negra, favelada e catadora de papel. Ela viveu às margens do seu tempo, mas não foi a única e nem a última. A literatura está cheia de textos produzidos por mulheres periféricas. Não são conhecidas pela grande mídia, procuradas pelas grandes editoras nem têm uma orla de seguidores nas redes sociais. São mulheres que vivem na periferia, da sociedade e na própria geografia da cidade. Muitas, não por acaso, são negras.

A arte salva e não há literatura que não seja capaz de ser ferramenta de transformação social. Não à toa, essas mulheres poetizaram a própria existência – para existir. Mulheres que encontraram moradia na escrita. Existir é exercício diário no mundo, mas existir na própria periferia do mundo é um trabalho muito mais árduo. Demanda doses extras de oxigênio, que é outra coisa que parece andar em falta. Mas, enquanto o mundo entra em colapso, são exatamente as mulheres periféricas que nos lembram de que é preciso peito pra viver – ou sobreviver.

Carolina Maria de Jesus Crédito: Reprodução/Acervo Instituto Moreira Salles

Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de JesusCrédito: Reprodução/Acervo Instituto Moreira Salles

Carolina Maria de Jesus poetizou sua existência. Aos 33 anos, desempregada e grávida, mudou-se de Minas para a favela do Canindé, na zona norte da capital paulista. Trabalhava como catadora de papel e, nas horas vagas, registrava o cotidiano da favela em cadernos que encontrava no lixo que recolhia. Um destes diários deu origem a seu primeiro livro, Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada, publicado em 1960. A obra virou best-seller.

Muitas outras poetizam diariamente a mulher periférica brasileira. Elas afloram, na sociedade, uma possibilidade de literatura. Entre livros, publicações acadêmicas, redes sociais, coletivos, saraus, o que for. Mulheres que ampliam olhares para um lugar onde a sociedade não está acostumada a olhar. De onde isolamento social é justificativa pra nascer projeto coletivo. De onde pandemia impulsiona cultura. Porque a literatura de mulheres periféricas salva.

A Tpm conversou com nove escritoras e poetas que usam as palavras para transformar olhares e construir novas narrativas na literatura brasileira.

Lu Ain-Zaila

Começou a escrever em 2015, quando se deu conta de que só ela poderia preencher o vazio que sentia. Moradora de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, Lu Ain-Zaila escreve literatura afrofuturista, movimento que levou aos centros acadêmicos.

A escrita de Lu Ain-Zaila reconhece os lugares periféricos, as pessoas e suas realidades

“Ser uma mulher negra escrevendo é libertador. Sair do chão periférico, que é continuamente desacreditado em ter poder, é incrível. Sou a primeira mulher negra na história da literatura nacional a escrever uma ficção afrofuturista com uma mulher negra protagonista e tenho 3 livros autopublicados, mescla de literatura afrofuturista e periférica. É um caminho que a periferia entende como a melhor forma de contar suas histórias. Investi salário, seguro-desemprego, fiz financiamento coletivo e apenas a minha última obra (2019) está numa editora do gênero. Afrofuturismo é um caminho de projeção negra estética-política anterior ao nome, que surgiu em 1994. Veio dos EUA, onde se debatia inicialmente a lacuna das produções negras na ficção cultuada na cultura pop. O racismo pauta o desinteresse em projetar pessoas negras no futuro, mas o movimento está combatendo e mudando isso.

Minha escrita reconhece os lugares periféricos, as pessoas e suas realidades. Quando uma empregada doméstica muda o mundo no seu contexto, isso é muito forte para quem lê. Passamos a acreditar nesses lugares sociais como dignos de promover mudanças para além do literário. Vejo a força de uma heroína em quem estuda ou lê em pé no transporte. Essas são as marcas da minha literatura. O que estamos vivendo toca a minha literatura futura e a resistência à racialização dos prontuários cabe perfeitamente numa história. O direito-privilégio de ficar em casa tem exacerbado e exposto vários problemas que já nos eram fisicamente mortais antes. Essas palavras precisam ser escritas.

Os encontros literários on-line são a minha forma de intervenção. As ações culturais são mais que espaços de promoção física de cultura. São receitas sobre fazer acontecer em alguma outra periferia. E é inegável o fortalecimento político e coletivo que essas ações promovem ao nos fazer crer que temos lugar no mundo. Estou escrevendo meu próximo livro e não sei como farei tudo isso em termos monetários, mas vou. Estou viva, compreendo o jogo racial desta sociedade sobre mim e busco garantir que, para a próxima geração, será um pouco ou muito diferente”.

Dinha Maria Nilda

Nascida em Milagres, Ceará, e moradora do Parque Bristol, em São Paulo, ela acaba de ser contemplada no edital de Literatura “Arte como Respiro”, do Itaú Cultural. O trabalho de Dinha foi um dos 200 escolhidos, entre os mais de 12 mil inscritos pelo Brasil.

Dinha Maria Nilda no Evento Parada Poética, em Nova Odessa, organizado pelo poeta e rapper Renan InquéritoCrédito: Marcio Salata

“Comecei escrever aos 12 anos porque queria ter um diário. Como não tinha dinheiro pra comprar um com chave, resolvi escrever nos cadernos velhos que sobravam da escola. Criei códigos, que depois foram se tornando metáforas, capazes de ‘trancar’ os significados. Aos poucos, minha escrita foi migrando da prosa de um diário adolescente para a poesia da mulher adulta de hoje. Escrevo literatura brasileira feminina e negroperiférica. Não é uma escolha, a princípio se trata de lugar de fala mesmo. Gosto e valorizo esse lugar, pois ele compõe boa parte da minha identidade e se relaciona com minhas lutas pessoais.

Minhas poesias são publicadas por uma editora independente de mulheres ‘fazedoras’ de livros, as Edições Me Parió Revolução. Torço para que minha literatura seja ferramenta social e escrevo conscientemente com a intenção de causar mudanças. Se percebo que um poema está muito ‘bonito’, mas politicamente incoerente, trabalho nele até que ética e estética façam jus uma à outra. Do contrário, não seria poesia. A literatura tem me distraído das minhas próprias dores (de classe, de gênero, de raça), me ajudado a organizar o caos e travar batalhas necessárias: quando leio, eu fujo, quando escrevo, enfrento. São duas estratégias de enfrentamento distintas, mas muito eficientes pra não enlouquecer na quarentena.

Tenho participado de web saraus, lives literárias e feito videopoemas. Fazer doer pra aliviar a dor. Destruir pra reconstruir. Mapear para subverter os caminhos. Escrever é dolorido, mas também é um ato libertador. E desejo um mundo em que minha identidade de escritora periférica não esteja atrelada a situações de violências cotidianas e à desigualdade econômica. Um mundo em que adjetivos de raça, classe, gênero e orientação sexual não precisem acompanhar a palavra literatura”.

Laura Beatriz

Mineira de Contagem, Laura descobriu na palavra sua arma de defesa e usa cada vírgula do texto pra despertar sentimento.

Laura Beatriz começou o projeto Dandara: a face escondida de toda mulher para mostrar quem é a mãe e guerreira conhecida apenas como esposa de Zumbi

“No início, buscava manter as escritas escondidas porque, de alguma forma, elas falam sobre mim, minhas visões e meus sentimentos. Percebo que os jovens negros, na maioria das vezes, não entendem o porquê de terem a sua cor marginalizada. Notei que as pessoas possuem certa rigidez a assuntos ligados à comunidade, mas percebi que, ao tocar nos pontos sensíveis, era possível ter mais discussões e mudanças. Foi quando comecei o projeto Dandara: a face escondida de toda mulher. É onde revelo as diversas facetas femininas, o sentimento de abandono paternal, a solidão da mulher, a criminalidade, prostituição, abuso infantil. O nome Dandara faz menção à esposa de Zumbi. Alguns escritores limitam seu papel como se ela só exercesse o de cônjuge, mas ela foi responsável por ajudar em diversas táticas de sobrevivência e é forte se dizer que ela ocupava espaço de mãe, esposa e guerreira. Digo, com toda certeza, que toda mulher carrega em si um pouco de Dandara.

O ambiente escolar é um grande reprodutor de comportamentos racistas. As crianças negras periféricas são alvos de piadas racistas e até exclusão por parte dos outros alunos. Escrevo contos, poemas, poesias e me atrevi escrever romances que ainda são guardados a sete chaves. Nada adiantaria falar sobre temas periféricos e a comunidade ter dificuldades para se enxergar naquele personagem. Não escrevo para mim, e sim para que a dor, que de alguma forma é silenciada, possa ter voz e gritar pedindo liberdade. As Negras Crônicas são publicadas por uma editora carioca e meus artigos por editora mineira. Ainda há uma dificuldade para se conseguir um espaço de disseminação. Tenho me valido da literatura como forma de manter a saúde mental e encorajando a lutar com a palavra em punho”.

Nina Rizzi

Ainda que tenha nascido em Campinas (SP), morado quase toda infância na zona rural e ter sofrido uma influência enorme dessa geografia, é em Fortaleza que Nina se sente mais pertencente.

Nina Rizzi no Pretarau – Sarau das Pretas, coletivo de mulheres negras poetas e slammers que surgiu em 2019Crédito: Mariana Botelho

“A infância implica diretamente as minhas primeiras escritas. Brincava muito sozinha nos pastos, rios e com os animais da fazenda aonde meus pais eram caseiros. Como não tinha colegas, quando precisava conversar pegava lá umas folhas de papel e escrevia, escrevia, escrevia, contando coisas, segredos, sonhos, medos… E com a descoberta da poesia entendi que essa escrita podia ultrapassar o diário, que hoje ainda escrevo. Foi com poemas que aprendi que poesia não é uma coisa que está distante de nós – guardada em livros inalcançáveis que ninguém entende –, mas que pode ser feita com o prosaico, e matéria de poesia é tudo, é o mundo, são as pessoas, é a vida, sou eu! Tenho 6 livros publicados por editoras independentes e 2 obras traduzidas. Em meus poemas, quando escrevo sobre amor ou erotismo, é um gesto político. Uma mulher falar sobre seus desejos, quando tantas outras foram proibidas de aprender a escrever para não escrever cartinhas a pretendentes, é um ato político.

Participo em Fortaleza do sarau da B1 e do Pretarau – Sarau das Pretas, um coletivo de mulheres negras poetas e slammers que surgiu em 2019 da necessidade de ter um espaço voltado para a celebração de nossos poemas. Somos em 11 mulheres hoje. Fazemos ações formativas, rodas de conversas, oficinas e debates para jovens mulheres escritoras. O principal valor e a missão é protagonizar mulheres poetas negras, especialmente as pretas que vivem e resistem na periferia. Literatura salva!

São inúmeras as pessoas que, ao começar a ler, escrever, recitar, participar de um sarau, mudam o seu olhar, suas referências e seus heróis. Percebe as cadeias que lhe prendem, se movimenta e movimenta o mundo consigo. Não são raras as pessoas que começaram a participar do sarau, fazer seus versos e viram pra si um futuro melhor que o pré-estabelecido por jornais sensacionalistas. Quero para a nossa literatura que nos libertemos das gavetas: que nunca mais engavetemos nossos poemas, nossos textos. Que tenhamos a certeza que o que escrevemos é, sim, literatura! E vamos publicar, quer o cânone, a grande imprensa, a crítica, as grandes casas editoriais ou não. Nossas vozes importam!”.

Lilia Guerra

Começou a escrever na infância, mas foi só quando soube a identidade e o paradeiro do pai que colocou pro mundo o que, até então, era dela. Essa história se transformou no primeiro livro de Lilia, “Amor Avenida”.

A escritora Lilia Guerra transforma sua realidade em literatura, uma ferramenta de alcance e de mudança

“Aos dez anos, me mudei para o Conjunto Habitacional Cidade Tiradentes, na periferia de São Paulo, onde moro até hoje. Escrevo sobre esse cotidiano. Sobre as dificuldades com transporte, moradia, emprego, as ruas com iluminação deficiente, a fila do posto de saúde… Passaram-se mais de três décadas e pouca coisa mudou. Trabalho com saúde pública. As experiências que vivo atuando também resultam nos textos em que procuro expor a realidade. Uma maneira de tentar fazer com que o leitor consiga vivenciar e refletir.

Mas meu maior desejo mesmo é despertar o hábito e o prazer da literatura num público que, em geral, não é estimulado. Minha literatura é uma ferramenta de alcance, senão de mudança. Minha voz é a realidade que enfrento todos os dias. A marca que tento imprimir ilumina os perfis dessa gente que passa despercebida, mas que não apenas sofre. O povo que se transforma em personagem quando escrevo ama, sente ciúme, se diverte, pratica esporte, desenvolve habilidades.

Eu libertei meus arquivos na quarentena como forma de intervenção artística. A literatura tem sido o meu apoio. Trabalho num setor essencial, enfermagem. Não dá pra ficar em casa. Na minha bolsa nunca falta um livro. No ônibus, no trem, na hora dos intervalos no trabalho. Ler um trecho revigora, restaura as forças. Alterno a leitura com a escrita. Anoto coisas que tenho visto, ouvido, sentido. Fazer isso ajuda. Tem dias em que me sinto enfraquecida, mas sei que os leitores estão ali, aguardando a publicação. Isso me fortalece”.

Elizandra Souza

Começou escrevendo diários na adolescência até que, em 2001, resolveu poetizar. Criada no interior da Bahia, Elizandra voltou para São Paulo, sua cidade natal, e entrou no time de escritores do Fanzine Mjiba no bairro do Grajaú.

Elizandra Souza criou a editora Mjiba e luta para que mulheres negras possam mostrar seus trabalhos

“Em 2004 conheci o Sarau da Cooperifa, do qual faço parte. Lá é meu santuário, minha referência literária. Frequentava todas as quartas-feiras e passei a escrever mais para não repetir poemas. Costumo dizer que é uma gentileza recitar um poema, já que recebemos, em uma única noite, mais de 50 poemas. A maior parte da minha produção e o reconhecimento está na poesia, onde eu me sinto segura, confortável, potente. Tenho dois livros autorais publicados e, recentemente, publiquei o primeiro de prosa. Sou ativista das lutas relacionadas a gênero e raça/etnia. Militante para a difusão da literatura negra feminina, sempre penso em projetos que possam agregar mais escritoras negras, pois em muitas ações culturais as mulheres negras são invisibilizadas. Agindo em coletivo, podemos conquistar mais oportunidades. Um dos meus princípios é transformar mesas e encontros literários, que mais de uma escritora negra possa estar na mesa.

A publicação em livro ainda válida se você é ou não uma escritora. É como se fosse um certificado, mas eu acredito que a palavra é livre. Os saraus e os slams são baseados na oralidade e na performance. Criei um coletivo, que é a editora Mjiba, palavra que significa jovem mulher negra. A princípio era um festival de arte negra protagonizado somente por mulheres negras, que acontecia no CEU Três Lagos, região do Grajaú. Paramos um pouco quando entrei na universidade – sou formada em jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, pelo Prouni, com cotas raciais. Me sinto engajada e todas as minhas ações são para que as iniciativas sejam vistas e que mulheres negras possam partilhar desse espaço de fruição e de convites para mostrar seus trabalhos. Criei um projeto no Instagram, o @literaturanegrafeminina, e abri um chamado para que as seguidoras pudessem enviar suas poesias de autocuidado. Recebemos 40 textos. Um poema por dia”.

Mika Andrade

Nascida em Quixeramobim, interior do Ceará, hoje mora em Fortaleza. Mika começou a escrever na adolescência com diários, sempre para fugir da solidão. Era tudo sem pretensão.

Mika Andrade publica poemas no Instagram, em seu blog e em portais de literatura, zines e antologias

“Escrevo sobre o que me atravessa da literatura marginal à erótica. Pra ter voz e para desabafar sobre o que me angustia. Minha voz é o registro das minhas experiências, das situações que me atravessam. Falo pouco, então escrevo. Publico poemas no Instagram e textos mais longos no meu blog. Estou em dois coletivos, Bora Cronicar e Pretarau, e tenho publicações também em portais de literatura, zines e antologias. Sou autora das zines Alguns Versos Pervertidos e Outros Indecorosos e Devoção e de dois livros de poemas. No ano passado saiu O Olho de Lilith, uma antologia de poemas eróticos escritos por poetas cearenses organizada por mim.

A gente é negligenciado pelo Estado. Tem que resistir e passar por cima do sistema idealizado e programado para nos esmagar. Tem que confrontar o restante da sociedade e a violência institucionalizada por ela. É preciso se impor diariamente e mostrar o significado da nossa existência, e isso faço com a literatura. Minha escrita é o lar dos abandonados, dos esquecidos. Agora e sempre. Minha vontade é que nossa trajetória seja contada nas escolas como forma de ensino e inspiração para as garotas, que autoras negras e periféricas como Carolina Maria de Jesus se tornem referências e sejam estudadas e admiradas. Que a gente tenha nosso trabalho reconhecido e pago, pois só visibilidade não paga conta e nem mata fome de ninguém”.

Bruna Mitrano

Na infância ela só conhecia um livro: a Bíblia. Começou a escrever bem mais tarde, quando surgiram os blogs. Desde que se conhece por gente, Bruna mora na Favela do Sapo, em Senador Camará, Rio de Janeiro, área considerada “de risco” pela Prefeitura por causa da forte presença do poder paralelo.

Para a escritora Bruna Miltrano, toda literatura é ferramenta de transformação social Crédito: Alberto Pucheu

“A minha avó era lavadeira, analfabeta. A minha mãe até ontem vendia água e suco no sinal de trânsito. Não tive incentivo à leitura. Usei o blog para expurgo e abracei uma escrita do surto, meio esquizo. Alguém que me lia – havia uma troca bacana entre os blogueiros – disse “isso não é loucura, é poesia” e eu acreditei. Demorei, no entanto, a ter coragem para escrever em versos. Eu pensava que, se quebrasse linhas – algo aparentemente simples, mas que, na minha visão de quem morava onde Escritores com E maiúsculo nunca pisaram, separava os pobres mortais dos deuses poetas –, estaria invadindo um espaço que não era meu. E não era mesmo. Eu tive que chutar a porta. No Brasil, muito do que deveria ser direito de todos (educação, cultura, etc.) é privilégio de poucos. Na literatura, ou melhor, na cena literária, não é diferente. Em 2016, graças à editora Patuá, publiquei o livro Não, que teve uma boa repercussão e foi adquirido por bibliotecas públicas nos EUA. As publicações mais recentes estão na revistas Piauí, Cult e Palavra.

Toda literatura é ferramenta de transformação social. Toda escrita é política, porque é um lugar de voz. E a minha não só é política como é panfletária. Escrevo na e sobre a periferia, inclusive a do corpo, como território e, portanto, espaço de exclusão. Não escrevo para uma crítica especializada, mas para a Dona Teresa, analfabeta, que vive de restos de feira; para o Zé Formiga, analfabeto, catador de latinhas; para a Dona Neia, analfabeta, que trabalha no cafezal. Desejo o diálogo direto. Não acredito na divisão entre artista e público. Somos todos ‘público’. A minha escrita é ferramenta de transformação social porque não poderia deixar de ser. Porque o meu corpo é. A poesia, para além dos poemas, está nas imagens, nos sons, no toque, nas coisas e no próprio corpo, no reconhecimento de uma geografia íntima, enfim. O confinamento, para mim, tem sido um período de introspecção.

Tem muita coisa engasgada, muita coisa que precisa ser gritada ainda. Ainda que eu esteja produzindo pouco, a poesia, há muito, se fundiu ao meu ser social. Toda a minha ação é poética e toda a minha poética é ação. Nos últimos anos, li, declamei e expus poemas em vários eventos culturais na comunidade em que vivo. A forma mais eficaz de violência é o silenciamento. E este predomina nas favelas. Cabe a nós, artistas periféricas (os), lutar para desbancar a narrativa hegemônica e construir a nossa própria. Meu desejo é que a literatura ‘periférica’ não seja periférica, seja literatura”.

Luna

Escrevia diários quando pequena para contar o que acontecia na escola. As conversas eram com ela mesma. Mas foi pela escrita que conseguiu se fortalecer. Moradora de Recife, em Pernambuco, Luna combina sua origem sertaneja com a ancestralidade afro indígena e faz poesia.

Luna lançou seu primeiro livro aos 26 anos. Aquenda – O Amor Às Vezes É Isso foi indicado ao Prêmio Jabuti em 2019Crédito: Rennan Peixe

“Na adolescência, conheci o grupo Cordel de Fogo e fui participar, declamando poesias no Sertão do Pajeú, interior de Pernambuco, por volta dos 15, 16 anos. Uma região conhecida pela tradição da cantoria de viola e pela poesia falada e improvisada. Só próximo dos meus 20 anos é que passei a assinar minhas recitações, recitar poemas autorais. Não me sentia confiante num ambiente majoritariamente masculino. Comecei declamando literatura de cordel, depois passei a escrever meus cordéis, décimas, sonetos. Enquanto amigas e amigos iam para festas, boates, bares, eu ia atrás de microfone pra dizer poemas. E foi com o projeto Agente da Palavra que eu entendi o poder da poesia. Esse projeto me levou a várias comunidades periféricas das cidades do interior para declamar nas ruas, calçadas. Já disse em salão de beleza, supermercado, igreja, clínica de reabilitação, hospitais. Já entrei na casa de muita gente que eu nem conhecia pra dizer poesia. Também em escolas, colônias penitenciárias. Esse projeto me fez entender que poesia é a vida e se tornou minha forma de abraçar e amar as pessoas. De me comunicar e de existir. A partir daí eu tive certeza que a minha vida tinha sentido, tinha seta e direção.

Lancei meu primeiro livro, Aquenda – O Amor Às Vezes É Isso (finalista do Prêmio Jabuti 2019), aos 26 anos, pelo selo LIVRE (SP), de Marcelino Freire e Vanderley Mendonça. Minha poesia foi tomando forma e corpo nesse lugar que sempre foi a rua e isso me ajudou a entender como a estrutura hegemônica opera, como nos subalternizou e continua nos subalternizando. Consequentemente se tornou engajada, minha forma de fazer militância, de ajudar e de fazer ‘vingança’ também por tudo que passamos há tantos séculos nesse país. Falo da ancestralidade, da nossa história silenciada e invisibilizada nesse Brasil. Também quando falo para a branquitude em grandes festivais literários. Estou o tempo inteiro fomentando nosso discurso contra-hegemônico.

E agora estou com o projeto ‘Meu mundo quarto’ e proponho uma intervenção: me conta a tua história que eu te escrevo um poema. Nesse momento de pandemia e isolamento, muitas pessoas vêm sofrendo diversos transtornos emocionais e sabemos que o silêncio adoece, mas a escuta cura. Portanto, como uma forma de acolher afetivamente as pessoas e o que elas têm sentido nesse momento, tenho marcado horários para conversas e a partir disso tenho transformado os depoimentos recebidos em poemas. Acredito na poesia como cura”.

Fonte: Revista TRIP

Biblioteca solidária: pessoas em situação de rua têm acesso a literatura em Florianópolis

Texto por Redação

Foto: Leonardo Souza/PMF

O serviço de abrigo provisório e temporário municipal Passarela da Cidadania, da Prefeitura de Florianópolis, atende em conjunto com voluntários do Somar Floripa e coletivos organizados denominado “Rede com a Rua” em média, nesta Pandemia, 300 pessoas diariamente. Além das 4 refeições diárias, pernoite, e higiene pessoal, o espaço oferece também uma pequena biblioteca para quem está acolhido. Os livros, que chegam por meio de doações, servem de combustível para amenizar os dias de isolamento por conta do novo Coronavírus.

Michele dos Santos tem 44 anos e está em situação de rua desde março. Ela utiliza os livros oferecidos na Passarela para conhecer mais sobre leis, e assuntos de espiritualidade. “Eu gosto muito de ler livros espíritas, livros sobre leis, eu gosto de tudo. É muito bom até para passar o tempo aqui”, comenta.

A população em geral, pode contribuir também com essa ação, doando livros, a entrega pode ser diretamente na Passarela da Cidadania, na parte inferior a Passarela do Samba Nego Quirido, no Centro de Florianópolis.

Mais de 250 refeições diárias

O abrigo da Prefeitura de Florianópolis, Passarela da Cidadania, oferece diariamente mais de 250 refeições diárias para pessoas em situação de rua da capital. O número foi ampliado desde o início da pandemia de Covid-19, graças à parceria entre voluntários da Rede Solidária Somar Floripa e união de entidades da sociedade civil intitulada “Rede com a rua”. A aplicação garante alimentação e isolamento para este público.

Elvis Torres hoje é colaborador do espaço, mas, já esteve em situação de rua. O cubano chegou na cidade, onde ficou em situação de rua no começo de março, e após se voluntariar no espaço foi contratado pela entidade que atua no local, a Associação Braços Abertos. “Eu gosto daqui porque sempre há comida, de manhã, tarde, noite, sempre temos algo para comer. Estou feliz de estar em Florianópolis e recomeçar”, comenta Elvis.

O cardápio oferecido no espaço é elaborado por uma profissional de nutrição, que inclui todas as proteínas e vitaminas necessárias para os acolhidos na Passarela. Semanalmente, as composições são alteradas, sempre de maneira que supra as necessidades nutricionais.

Livres da Covid-19

Segundo a Prefeitura de Florianópolis, até o momento nenhuma pessoa em situação de rua na capital teve diagnóstico positivo para o novo coronavírus. O dado é o resultado do isolamento proposto na Passarela e de um hotel no centro da cidade onde os pacientes com suspeita ficam isolados e fazem o teste para a doença caso seja preciso.

Fonte: Imagem da Ilha

Literatura LGBTQIA+: “Sendo um autor Queer, do Norte, este é um espaço que preciso reivindicar”, diz Andrew Oliveira

Em entrevista a GQ Brasil, o escritor de “Vazio da Forma”, livro recém lançado que aborda questões como depressão, paternidade e aceitação, afirma: “Precisamos de narrativas que saiam da caixinha que nos colocaram onde só podemos falar de nossas sexualidades ou identidades de gênero. Não somos apenas essa única história: o sofrimento referente a isso”

Texto por Ademir Correa

Andrew Oliveira: “Eu não saí ileso de nenhum tipo de violência verbal ou física. E, atrelada à violência estrutural externa, desde cedo somos ensinados a nos odiar, então criamos a violência interna, feito uma simbiose. Homem gay já é um indivíduo que tem muito ódio de si mesmo acumulado. Homem gay negro e/ou indígena tem isso em dobro; e o afeminado em triplo” (Foto: Divulgação)

GQ Brasil: Como vê a importância da representação LGBTQIA+ na literatura?

Andrew Oliveira: Acredito que precisamos urgentemente – para ontem – de mais e mais narrativas que saiam do velho parâmetro cis-heteronormativo que, sabemos, nos inunda e nos sufoca em suas mídias, não dando qualquer espaço para mostrar a diversidade de gênero, sexualidade e cor que no mundo existe. Para você ver, apenas um pouco do que nós, autores LGBTQIA+ (sobretudo nós, os de cor), conseguimos mostrar, já causa um alvoroço, um pandemônio de exaltações. É para isso que estamos aqui. E mais ainda, precisamos de narrativas LGBTQs que saiam, também, da caixinha que nos colocaram onde só podemos falar de nossas sexualidades ou identidades de gênero. Não somos apenas essa única história: o sofrimento referente a isso. É claro, a minha sexualidade ditou absolutamente tudo que permeia a minha vida, e em muitas ocasiões na infância e adolescência o preconceito retirou o meu senso de valor próprio, mas sempre tentei demonstrar que sou outras personas além de “por quem eu me atraio” ou “o sofrimento que passei por conta de minha orientação sexual”. Tudo o que escrevo tenta fugir disso, mas sem me esquecer das agruras da realidade. Ela está sempre lá. Sendo um autor Queer, do Norte do país, mestiço de pai indígena e mãe negra – ou afro-indígena, se assim preferir –, sinto que tenho uma responsabilidade imensa a cumprir, um espaço que preciso reivindicar para mostrar o meu trabalho.

GQ Brasil: A questão de depressão – presente em Vazio da Forma (Skull Editora) – é um alerta para o problema na população LGBTQIA+ especificamente?

Andrew Oliveira: Bem, falando de uma perspectiva pessoal – e porque não me cabe falar das outras letras da sigla –, uma procedência de situações na minha juventude culminaram na depressão que teria na fase adulta, muitas delas por conta da minha sexualidade e de como ela me foi apresentada: como uma sujeira, algo oculto, só feito nas sombras, em segredo, motivo de piada, de deboche, de sarcasmo, de assassinato. Mais ainda, de que homens gays eram seres promíscuos, criaturas que só se importavam com o sexo, uma maneira de nos bestializar. Em Macapá, uma cidade pequena e afundada em antigos preconceitos, cresci com a consciência de que, se eu me assumisse verbalmente, meu tempo estaria contado. Nas minhas primeiras infâncias, sempre ouvia um relato de um estupro corretivo feito contra alguma moça, ou sabia de casos de crianças da minha idade, meninos principalmente que, se fossem considerados afeminados, eram rechaçados. Eu, particularmente, não saí ileso de nenhum tipo de violência verbal ou física. E, atrelada à violência estrutural externa, desde cedo somos ensinados a nos odiar, então criamos a violência interna, feito uma simbiose. Homem gay já é um indivíduo que tem muito ódio de si mesmo acumulado – por conta do que ouve, do que vive, do que lhe fazem, do que lhe é imposto a ser –, homem gay negro e/ou indígena tem isso em dobro, e o afeminado em triplo. Junte tudo isso às exigências patriarcais do que um homem deve ser: forte, másculo, alcoólatra, rude, sem qualquer sinal de “fraquezas” que geralmente são gestos e tons atribuídos aos símbolos femininos. O machismo infecta o homem gay de outra maneira, como um Cavalo de Tróia: ele cria uma autorrepulsa. E essa autorrepulsa que ensinam acaba com a saúde mental de qualquer ser humano, retira a humanidade do indivíduo e o fragiliza de muitas maneiras. Isso se reflete na vida afetiva e sexual, nas inúmeras muralhas que criamos ao nosso redor e, por fim, adoecemos. A gente só entende, muito depois, que só vai conseguir seguir em frente quando aprende a se amar e a respeitar nossa própria essência.

Andrew Oliveira: “O machismo infecta o homem gay de outra maneira, como um Cavalo de Tróia: ele cria uma autorrepulsa, e essa autorrepulsa que ensinam acaba com a saúde mental de qualquer ser humano, retira a humanidade do indivíduo e o fragiliza de muitas maneiras” (Foto: Divulgação)

GQ Brasil: E como foi lidar com este problema no livro – já que você como autor também passou por ele?

Andrew Oliveira: Vazio da Forma foi a minha maneira de me provar que eu era capaz de dar voz a uma potência que, durante muito tempo, a depressão emudeceu. A impressão que tenho é a de que, antes de chegar nesse livro, fiquei quatro anos escrevendo a mesma história, o mesmo parágrafo, preso nessa sala vazia, sem som, sem senso nem dissenso, que a depressão me colocava. Tinha me esquecido como que se criava, como que se chegava na maquinação exata de uma história bem elaborada. Só vazava palavras que nasciam desse piche, e as colocava em texto. Não sentia que tinha um corpo, que era alguém. Com Vazio da Forma eu acordava já me colocando na pele de Frey [o personagem principal]. Era organizado, havia uma missão a ser cumprida, horários, leituras, referências. Foi como se tivesse alguém para partilhar a mesma sensação de ter vivido como um espectro, um ser ausente de si, como a miragem de um rastro. Então quando terminava um capítulo, me retirava de meu protagonista e pensava: “Bem, eu sou este aqui agora”. Precisava me lembrar de que eu era eu, e Frey era Frey.  E, também, foi a primeira vez que senti que poderia ser alguém que prescindisse do estatuto da depressão, que não se desfragmentasse mais para caber no mundo sem leis das enfermidades mentais, embora estivesse, na época, ainda me recuperando delas. Tinha o meu próprio mundo para cuidar, mesmo que haja uma ponte entre esses mundos, por onde um transfere os conhecimentos para o outro. Porém, há de se ter muito cuidado, pois já passei muitos anos escrevendo para me machucar. Com esse livro, quis chegar na catarse da transmutação, mas não sem antes passar pelo umbral do esvaziamento de significados.

Capa de “Vazio da Forma”, de Andrew Oliveira. “Com esse livro, quis chegar na catarse da transmutação, mas não sem antes passar pelo umbral do esvaziamento de significados”, diz o autor (Foto: Divulgação)

GQ Brasil: Você retratou um homem LGBTQIA+ que é pai. Temos muitas representações LGBTQIA+ que não incluem este recorte, e nem o etário, dos personagens….

Andrew Oliveira: O Frey e o Jacinto conseguiram a guarda da Lírio ainda novos, e isso se reflete em como os dois tinham esse anseio de reconstruir uma vida e, no processo, tentar esquecer das agruras do passado. Eles tomaram uma decisão que muitas pessoas da minha geração tomam: a de seguir com a vida – às vezes criando uma nova – e não dar peso aos fatos passados, situações que, mais tarde, acabam nos assombrando de uma maneira ou de outra (se não lidamos com elas). Muito do livro, submerso em toda a sua espiritualidade, é sobre as feridas da nossa criança interior. Então em vários momentos o Frey retorna à sua infância e adolescência para vasculhar e tentar entender por que ele se encontra, novamente, depressivo. E, às vezes, soa infantil, birrento, coisas que no decorrer da narrativa ele mesmo admite. A história brinca com essa dinâmica de sua idade real, sua idade mental e a maneira com que Frey acessa suas várias versões de idades distintas. Ele é pai de uma menina que chegou a ele traumatizada, mas ele mesmo tem dentro de si uma criança muito arisca e solitária. Acho que a gente só consegue amadurecer quando dá atenção para nossa criança interior. É um trabalho constante e diário, amá-la e repará-la, passar pomada em suas feridas.

GQ Brasil: Andrew, que outras obras que retratam realidades da população LGBTQIA+ chamam a sua atenção?

Andrew Oliveira: Eu vou te passar uma lista meio eclética, que contém drama, suspense, fantasia dark e um livro jornalístico/biográfico, mas em todos existem representações Queers que muito me impactaram: Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu. Bom Crioulo, do Adolfo Caminha. Chore Para o Céu, da norte-americana Anne Rice. O Retrato de Dorian Gray e Balada do Cárcere de Reading, de Oscar Wilde. Conversas com Almodóvar, de Frederic Strauss e Pedro Almodóvar. Sarah, da JT Leroy. A Menina Submersa, da Caitlín R. Kiernan. E Sal, da Letícia Wierzchowski, uma obra que me reverberou muito antes d’eu conceber Vazio da Forma.

Fonte: Revista GQ

Biblioteconomia negra no Brasil: por Franciéle Silva, ganhadora do primeiro lugar do GT6 do Enancib 2019

Texto por Patrícia Osandón – Núcleo de Comunicação Social do Ibict

A partir de inquietações sobre a ausência das questões étnico-raciais dentro dos cursos de Biblioteconomia no Brasil, Franciéle Carneiro Garcês da Silva lançou um questionamento: como promover a inserção da temática africana e afro-brasileira no ensino de Biblioteconomia? O questionamento vem acompanhando os estudos de Franciele desde a graduação, realizada na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).

Após a graduação, Franciéle Silva prosseguiu os estudos e tornou-se mestre pelo Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação (PPGCI), desenvolvido por meio de convênio entre a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict). Atualmente, a pesquisadora é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Os estudos de Franciéle Silva foram reconhecidos durante a 20ª edição do Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (Enancib), principal evento da área no Brasil, que aconteceu em 2019. A comunicação “Biblioteconomia negra brasileira: caminhos, lutas e transformação”, orientada pelo professor Gustavo Saldanha (PPGCI/Ibict/UFRJ), conquistou o primeiro lugar do GT6 (Informação, Educação e Trabalho).

Em entrevista para o site do Ibict, a pesquisadora conta sobre a importância da presença das questões étnico-raciais nos cursos de Biblioteconomia e detalha sua história com a Ciência da Informação. Confira!

Ibict: Conte um pouco da sua trajetória e o que motivou seu estudo?

Franciéle Silva: Eu sou uma mulher negra. Venho do estado do Rio Grande do Sul, da zona rural, lá no extremo sul do país. Como mulher negra, eu sempre passei por muitas situações de racismo dentro das minhas relações não só familiares, mas também de trabalho e nos estudos. Em 2013, ingressei na graduação no curso de Biblioteconomia da Universidade do Estado de Santa Catarina, quando passei a participar do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB), onde aprendi muitas coisas relacionada às questões étnico-raciais.

Foram quatro anos de formação nas questões étnico-raciais, mas percebi que no meu curso isso não era uma coisa que prevalecia. Nós não tínhamos abordagens das questões étnico-raciais nas disciplinas e foi isso que me levou a fazer o primeiro estudo da minha carreira, que foi meu trabalho de conclusão de curso. Nesse trabalho de conclusão, eu entrevistei docentes buscando entender qual era a importância da inserção das questões étnico-raciais para eles, além da história e da cultura afro-brasileira na formação bibliotecária, e se tinham conhecimento de instrumentos normativos sobre isso.

Tenho o entendimento de que o preconceito nasce de um pré-conceito criado a partir daquilo que a gente tem da história que as pessoas contam, da classificação que as pessoas fazem. A gente precisa formar pessoas para entender que todo mundo faz parte do grupo de seres humanos. Somos diferentes e diversos, então cada um tem uma característica, um fenótipo, um pertencimento étnico-racial.

A partir da graduação, eu consegui então ter uma análise local do que os professores consideravam importante e da intersecção entre questões étnico-raciais e o ensino. Quando fui analisar a estrutura do curso, ele não tinha disciplinas específicas sobre isso, mesmo os professores considerando isso muito importante. Eles desconheciam os instrumentos normativos e uma parte dos entrevistados justificou também que, por serem disciplinas mais tecnológicas, não era possível inserir as questões étnico-raciais.

Então, a partir daí, foi possível ter uma percepção maior de como a docência está construída e que, muitas vezes, ela pode sim perpetuar alguns preconceitos. Porque se não se aborda isso dentro da formação, como é que você vai conscientizar os estudantes sobre como olhar para aquela comunidade que vem desde a pós-abolição sofrendo com várias desigualdades?

Ibict: Depois da graduação, quais foram os próximos passos na sua pesquisa com a Biblioteconomia e as questões étnico-raciais?

Franciéle Silva: No mestrado, a partir desse recorte local, eu ampliei a pesquisa. No PPGCI/Ibict/UFRJ, eu tive a sorte de contar com a orientação do professor Gustavo Saldanha e foi partir daí que ele me mostrou algumas outras concepções teóricas, alguns outros movimentos. Conheci o movimento da Black Librarianship, dos Estados Unidos.

Como nos Estados Unidos as pessoas afro-americanas tiveram um período de segregação racial, no qual muitas pessoas não conseguiram acessar as bibliotecas, elas começaram a lutar para serem graduadas em Biblioteconomia, para estarem nesses espaços como bibliotecários* e para levarem informação às populações afro-americanas e transformarem a sociedade por meio do acesso à biblioteca, à leitura e ao livro.

Ibict: Qual a importância de discutir sobre a Biblioteconomia negra brasileira?

Franciéle Silva: Hoje, o meu intuito é que as pessoas negras sejam também reconhecidas como produtoras de conhecimento, como pessoas que estão refletindo, pesquisando e publicando dentro da área não só com viés étnico-racial, mas sobre todas as outras áreas que compõem a Biblioteconomia. Muitas vezes, se você pergunta para as pessoas se elas conhecem um intelectual bibliotecário negro, a maioria não conhece. Então, o intuito de fortalecer esse movimento da Biblioteconomia negra é mostrar quem produz conhecimento e projetos e quem faz ações dentro da biblioteca com viés étnico-racial, refletindo como tornar aquela biblioteca um lugar de representatividade dessa população.

É preciso mudar a biblioteca como sendo um lugar da elite e para elite, ou seja, somente quem faz parte da elite é que deveria estar nesse espaço. A biblioteca deve acolher a todas as pessoas e representá-las. Então, nesse sentido, a Biblioteconomia vem para demonstrar que existem ações, pesquisas e intelectuais dentro do Brasil que estão refletindo sobre questões étnico-raciais e que também há pessoas negras que estão fazendo pesquisas, mas não só pesquisas. A gente também está atuando em prol da questão das políticas de cotas – há pessoas que estão dentro de vários movimentos civis, em todos os espaços. Então, acredito que estudar a Biblioteconomia Negra e promover a sua visibilidade seria uma forma de reconhecer aquelas pessoas que muitas vezes estão “invisibilizadas” porque são bibliotecárias negras.

Ibict: Como pensar uma Biblioteconomia Negra partindo do princípio que a história das produções intelectuais (e da administração dessas produções) foi, em grande parte, construída por homens brancos?

Franciéle Silva: O intuito de reconhecer e de pensar a Biblioteconomia Negra é mostrar que essa intelectualidade existe e que, sim, há uma epistemicídio, que é a supressão, a invisibilidade desse conhecimento que é produzido por pessoas negras. Hoje, nós temos uma gama de livros que têm sido elaborados e produzidos por bibliotecários negros e pensados sobre as questões étnico-raciais. Reconhecer que esses bibliotecários negros estão contribuindo para a construção de uma Biblioteconomia diversa, representativa, antirracista, afro-diaspórica, é importante para desconstruir esse pensamento de que somente o homem branco produz ciência.

A gente tem que desconstruir essa questão relacionada de ver o homem branco nesse lugar de cientista e descolonizar essa Biblioteconomia que ainda é eurocentrada e americanizada. Ou seja, a gente só olha para fora e tenta colocar aquilo que eles produzem dentro do Brasil sem pensar outras realidades que fazem parte do contexto brasileiro e que são muito específicas. Por exemplo, a gente tem que pensar que hoje nós temos alguns impeditivos que fazem com que a população negra ainda esteja em um espaço de desigualdade, tanto educacional quanto financeiro e político.

Quantos de nós estamos representados dentro do Congresso Nacional ou de outros espaços? Quando a gente analisa essa representatividade dessa população, ela não está lá nesses passos de tomada de decisão e de poder, inclusive na ciência. Quando a gente vai olhar palestras, publicações de livros, a maioria dessas publicações é feita por pessoas brancas e quando nós reivindicamos o nosso lugar, o nosso protagonismo, nós somos até taxados de pessoas radicais, mas o movimento da Biblioteconomia Negra não exclui a produção científica feita por pessoas não negras. Ao contrário, é parte dessa produção científica que também está refletindo sobre questões fundamentais para a humanidade.

Ibict: Quais os caminhos para ampliar discussões democráticas sobre racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância?

Franciéle Silva: Para mudar a situação que nós temos hoje – infelizmente muito negativa de muitos retrocessos dentro das políticas públicas, é preciso formar pessoas. Os cursos de Biblioteconomia devem ser modificados para a inserção das questões étnico-raciais, e outras também, como as de gênero, por exemplo. Como é que a gente vai capacitar bibliotecários para serem sensíveis a essas causas se dentro dos nossos meios, os nossos profissionais que estão formando pessoas não estão conscientes de que isso é importante?

Muitas vezes, os docentes também podem propagar um pensamento meritocrático, ou seja, é como se colocasse população negra e branca no mesmo lugar, quando a gente sabe que não é isso: a população negra está em desigualdade desde que o país começou. Os profissionais que formam os bibliotecários têm uma responsabilidade muito forte nesse sentido.

O professor tem que lutar para ter questões relacionadas às humanidades dentro dos projetos político-pedagógicos. Deve fazer parte da nossa profissão, da nossa consciência ético-política enquanto profissionais. Nós temos que trazer representatividade e ajudar na criação de identidade dessas populações, do conhecimento dos aspectos sócio-históricos que nos construíram enquanto população brasileira e, principalmente, mostrar o outro lado que não esse que é hegemônico.

Para ler o trabalho “Biblioteconomia negra brasileira: caminhos, lutas e transformação”, clique aqui.

* Nesta entrevista, quando ler a palavra “bibliotecário”, leia-se bibliotecário ou bibliotecária.

Fonte: IBICT

Clara Stanton Jones, a primeira bibliotecária afro-americana presidenta da American Library Association

Texto por Franciéle Carneiro Garcês da Silva

Como estudiosa da Biblioteconomia Negra Americana e Brasileira, tenho encontrado várias pessoas bibliotecárias que ainda não possuem suas contribuições e produções profissional e intelectual (re)conhecidas na Biblioteconomia brasileira. Sendo assim, tomei como missão visibilizar as epistemologias, ações e contribuições desses bibliotecários e bibliotecárias dentro do território brasileiro, em especial, no ensino de Biblioteconomia do país.

Quando estudamos na graduação em Biblioteconomia sobre a American Library Association (ALA), dificilmente (para não dizer nunca) somos apresentados às bibliotecárias e aos bibliotecários negros que contribuíram para o desenvolvimento de bibliotecas e da Biblioteconomia americana. Ademais, muitos de nós até hoje não conhecíamos o movimento realizado pelos bibliotecários e bibliotecárias afro-americanos para a criação de bibliotecas para a população negra durante o período de segregação racial nos Estados Unidos, nem sobre formação de pessoas negras em Biblioteconomia e sequer sobre as ações implementadas para a luta antirracista e antissexista dentro da ALA.

Hoje, venho apresentar Clara Stanton Jones, ativista social, líder visionária, bibliotecária pioneira no campo de serviços de referências em bibliotecas comunitárias e primeira presidenta negra da ALA. Clara graduou-se em Biblioteconomia pela Universidade de Michigan e, por mais de 40 anos, fez parte do movimento pelo oferecimento de bibliotecas para a comunidade afro-americana.

Clara Staton Jones, primeira presidenta negra da American Library Association (ALA) . Fonte: Site da Universidade de Michigan ( https://www.si.umich.edu/about-umsi/news/trailblazing-librarian-u-m-alumna-clara-stanton-jones-elected-michigan-women%E2%80%99s-hall-fame)

Como pioneira, alcançou distinção como a primeira mulher negra e bibliotecária a chefiar a Biblioteca Pública de Detroit, bem como a primeira a dirigir uma importante biblioteca pública e urbana nos EUA. No entanto, Clara Jones enfrentou o racismo e a discriminação como bibliotecária negra atuante em bibliotecas públicas. Em um dos casos, após ser nomeada diretora da Biblioteca de Detroit, mais de 80 membros brancos do Conselho da Biblioteca protestaram contra a sua nomeação e, inclusive, Clara enfrentou petições que tentavam negar suas qualificações para a posse do cargo. Nessa biblioteca, Clara Jones criou um sistema de referência comunitária que passou a ser utilizado por diversas bibliotecas estadunidenses e que até hoje é usado para coleta, organização e fornecimento de informações práticas visando resolver problemas cotidianos das comunidades.

Clara Jones, em frente à principal biblioteca do sistema público de Detroit.
Fonte: Publicação Ebony, Nov/1971.

Apesar das barreiras raciais enfrentadas, na década de 1970, Clara Stanton Jones se tornou a primeira mulher negra e bibliotecária a ser a presidenta da ALA. Com o objetivo de enfrentar o racismo e o sexismo através da Associação, Clara aprovou a Resolução de Conscientização sobre o Racismo e Sexismo da ALA, visto que para esta bibliotecária negra, os Estados Unidos falharam em proporcionar igualdade às minorias étnico-raciais e às mulheres. Além disso – após diversos episódios considerados racistas – , a ALA se comprometeu a abordar o racismo e o sexismo dentro da profissão, adotando a Resolução como programa de ação para combate ao racismo e ao sexismo dentro da Biblioteconomia. Clara Jones tornou-se um membro ativo da Black Caucus da ALA, auxiliando na promoção da justiça, dos direitos humanos, da liberdade intelectual e do combate ao racismo e ao sexismo na profissão.

Clara Stanton Jones, diretora da Biblioteca Pública de Detroit de 1970 a 1978. Fonte: Detroit Public Library, Digital Collections. Em: https://digitalcollections.detroitpubliclibrary.org/islandora/object/islandora%3A145304 .

Referências:

SILVA, Franciéle Carneiro Garcês da. Clara Stanton Jones e sua contribuição para a Biblioteconomia Negra Americana. In: Silva, Franciéle Carneiro Garcês da. (org.). Mulheres Negras na Biblioteconomia. Florianópolis: Rocha, 2019. (Selo Nyota). Disponível em: http://bit.do/mulheresnegras Acesso em: 21 mar. 2020.

SILVA, Franciéle Carneiro Garcês da. Representações sociais acerca das culturas africana e afro-brasileira na educação em Biblioteconomia no Brasil. 2019. 521 f. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) – Universidade Federal do Rio de Janeiro/Escola de Comunicação, Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Rio de Janeiro, 2019. Disponível em: http://bit.do/francielecgarces Acesso em: 21 mar. 2020.

Fonte: Mulheres na Ciência

Conheça iniciativas que buscam maior representatividade negra na literatura

Autores e personagens negros foram historicamente invisibilizados e estereotipado na literatura. Mais recentemente, pesquisas, perfis em redes sociais e editoras buscam revelar essa lacuna

Texto por Valentine Herold

Livros escritos por autoras e autores negros foram historicamente invisibilizados e vêm ganhando um pouco mais de atenção de grandes editoras nos últimos anos – FOTO: DIVULGAÇÃO

O tempo é de pluralidade e de quebra de paradigmas, não adianta querer negar ou voltar atrás. Movimentos crescentes, liderados por minorias historicamente invisibilidades, vêm ganhando espaço no campo cultural e mostrando a urgente necessidade de ressignificar padrões comportamentais e estéticos seculares. Na literatura não é diferente: clubes de leituras, editoras e projetos popularizados através das redes sociais apontam a imensa lacuna no mercado tradicional de publicações de autoras e autores negros.

Uma pesquisa do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília (UnB) vem colhendo informações dos romances publicados pelas maiores editoras brasileiras desde 2003 com o objetivo de traçar o perfil do romancista e do romance nacional. E os números não negam a realidade do racismo estrutural do país.

Os resultados mais recentes são da segunda fase da pesquisa, divulgada em 2018, que analisou livros lançados entre 2005 e 2014 e não diferem muitos daquelas colhidos na análise de romances lançados entre 1990 e 2004, na primeira fase da pesquisa. Apenas 2,5% dos autores são não-brancos e 6,3% dos personagens são declaradamente negros, 6,9% mestiços e apenas 1,1% indígena, contra 77,9% de personagens brancos.

Dados que, infelizmente, não surpreendem quem está a par da dinâmica das relações raciais na sociedade brasileira, mas que contradizem os resultados do último censo realizado pelo IBGE em 2018, em que cerca de 55% da população se declarou como não branca (pretos e pardos).

A falta de representatividade negra por si só não é o único problema na produção literária. Historicamente, assim como em outras tantas linguagens artísticas, personagens negros foram estereotipados. Pobre e criminosos quando homens, donas de casa ou personagens extremamente sexualizadas quando mulheres. “É a mulher que existe na narrativa para satisfazer os desejos dos homens, sempre muito provocadora, mas nunca a mulher com quem eles casam”, avalia a doutoranda em Teoria Literária pela UFPE, Adriana Minervina da Silva.

Atualmente ela analisa a construção da subjetividade feminina na obra Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, mas há anos se dedica a pesquisar a representação da mulher negra na literatura brasileira. “É muito importante termos autoras e autores negros que publicam e trazem protagonistas negros em suas obras”, afirma. Para Adriana, é preciso ainda que escritores negros do passado que nunca tiveram sua obra legitimada sejam agora redescobertos e publicados. “É um debate que vai muito da discussão do que é uma obra canônica.”

 

POETA A Pernambucana Bell Puã começou no slam e agora também publica sua poesia -DIVULGAÇÃO
EDITORA Vagner Amaro é co-fundador da Malê, que publica desde 2016 autores negros – DIVULGAÇÃO/Francisco Jorge
PESQUISA Adriana Minervina é doutoranda em Teoria da Literária na UFPE e se debruça sobre a obra Um Defeiro de Cor – DIVULGAÇÃO
REDES SOCIAS Maria Ferreira mantém o perfil Impressões de Maria, em que resenha livros com enfoque em raça e gênero – DIVULGAÇÃO

Representatividade e a “escrevivência”

A expectativa para muitos leitores e profissionais do livro é que as iniciativas mais recentes de valorização de autores negros, potencializadas após 2014, reflitam na próxima fase da pesquisa da UnB. Mas, independentemente de dados, há uma percepção empírica de mudança gradual que vem acontecendo por fora das grandes editoras, no mercado mais independente do setor literário, como é o caso da editora Malê.

Fundada no Rio de Janeiro em 2016, a Malê publica autores negros brasileiros e de outros países, como Angola, Moçambique, Senegal e República do Congo, tanto de literatura infantil, juvenil quanto adulta. Vagner Amaro, co-fundador e editor, avalia como o crescimento da Malê pode refletir positivamente nos catálogos de outras editoras. “Em menos de um ano, por exemplo, colocamos no mercado três títulos da escritora Conceição Evaristo. Em um mesmo período em que houve uma ampliação da visibilidade da escritora, isso dá sinais para o mercado. A mudança ainda que tímida, não se deu como uma forma de atender às reivindicações dos autores negros, ela se deu porque a partir do trabalho de editoras como a Malê, outras editoras médias e maiores passaram a dar mais atenção para estes autores”, reflete.

Um ponto de convergência entre iniciativas como a pesquisa de Adriana, a Malê e todos os outros necessários movimentos de valorização de autores negros pode ser traçado a partir do termo “escrevivência”, desenvolvido pela própria Conceição Evaristo. A palavra é usada para denominar uma escrita que nasce da vivência do cotidiano e da memória dos próprios escritores e que se comunica com a vida de tantos leitores. Uma perspectiva individual que carrega simbolismos, dores e sonhos universais.

Para Vagner, esse conceito entretanto se desvencilha do que se entende por autoficção. “Ele dialoga com o conceito de literatura negro-brasileira. Acho renovador, uma vez que as narrativas da literatura brasileira estiveram por muito tempo fortemente ‘umbilica is’. Talvez no futuro pesquisadores vão colocar escrevivência em diálogo com os estudos culturais e com as relações entre pós-colonialismo e literatura, ou até, já estejam fazendo isso”, aponta.

Além de publicar livros, a Malê também atua como agenciadora literária, possui um canal no YouTube, uma revista digital gratuita e um prêmio anual. A última edição, de 2019, contemplou quatro categorias e uma delas – Jovens escritor@s negr@s: Conto e Crônica – foi vencida pela pernambucana Bell Puã com o livro Mama Áfica é Mar Solteira, que será lançado este ano.

Conhecida por fazer parte do Slam das Minas de Pernambuco e por ter representado o Brasil em uma competição internacional de slam na França, ela passou da poesia oral para a escrita de forma muito natural. “Minha experiência na literatura começou, claro, antes de tudo como leitora. Como escritora foi primeiro através do slam, eu nem pensava em publicar, mas tive grandes oportunidades e os caminhos foram se abrindo”, lembra.

Na sua formação de leitora durante a adolescência, autores negros não eram maioria das referências. Mas durante seu processo de identificação como mulher negra, Bell passou a também procurar mais leituras representativas e traz hoje temáticas relacionadas a questões de gênero e raça em sua produção. “Eu consigo falar de muitas coisas, de tudo que eu quiser falar. Mas sem dúvidas esses temas estão comigo, mesmo que de maneira subjetiva. Estão comigo da melhor e da pior forma possível e é importante que eu fale sobre eles sempre que possível”, avalia.

Na busca por livros escritos por autores negros, muitos leitores procuram blogs, perfis nas redes sociais ou “booktubers” cujo foco seja justamente este. A baiana Maria Ferreira é, além de graduada em Letras, dona do perfil do Instagram e do blog Impressões de Maria, que mantém desde 2013, quando estava no último ano do Ensino Médio. Inicialmente, ela resenhava livros sem recorte definido, mas com o passar dos anos suas leituras acompanharam seu próprio processo de amadurecimento enquanto mulher negra.

“Acredito que o trabalho desenvolvido pelos blogs e canais literários ajudam a dar mais visibilidade e fazer com que mais pessoas conheçam e se interessem por essas obras”, diz. Através do perfil na rede social, Maria criou uma rede de leitores interessados em ampliar seus repertórios a partir de sua curadoria e resenhas.

“Diante do atual cenário sociopolítico, a busca por livros que abordem a temática do racismo e desigualdade de gênero é um caminho para que haja mudanças estruturais. Só a partir do momento que se entende o funcionamento do sistema, é que se pode alterar esse sistema, essa estrutura, principalmente sabendo qual lugar ocupamos nessa realidade”, conclui Maria.

Confira 10 livros, entre clássicos e contemporâneos, que abordam o racismo:

MARIA FIRMINA DOS REIS Publicado em 1859, Úrsula é considerado o primeiro romance escrito por uma mulher no Brasil. Maria Firmina dos Reis, negra e maranhense, retrata a história de amor entre Úrsula e Tancredo ao mesmo tempo em que tece fortes críticas à sociedade escravocrata. Ter dado voz a personagens escravizados foi um macro à época. – DIVULGAÇÃO/EDITORA TAVERNA
ANA MARIA GONÇALVES Com quase mil páginas, Ana Maria Gonçalves conta a emocionante história de Kehinde, natural do Benin, que, ainda jovem foi escravizada e levada ao Brasil. Se passa, portanto, no início do século 20, mas foi lançado em 2006. Depois de muito tempo a protagonista consegue voltar à Áfricae, já idosa e cega, decide voltar ao Brasil em busca de seu filho. – DIVULGAÇÃO/EDITORA RECORD
NEI LOPES Escritor e compositor, Nei Lopes coloca em pauta o racismo brasileiro no Rio de Janeiro dos anos 1950 através da vida de diversos personagens. É uma viagem por uma década importante para a afirmação da negritude brasileira, publicada em 2015. – DIVULGAÇÃO/EDITORA RECORD
CAROLINA MARIA DE JESUS Esta é a única obra de não-ficção da lista. Lançado em 1960, este livro é o diário da autora, uma mineira radicada em São Paulo que teve pouco acesso aos estudos formais. Através do cotidiano de Maria Carolina de Jesus, é possível entender mais do tecido social da vida em uma comunidade. – DIVULGAÇÃO/EDITORA ÁTICA
PAUL BEATTY Vencedor do Man Booker Prize de 2016, este romance retrada a vida de um jovem negro que, após perder o pai (um sociólogo polêmico) morto pela polícia, decide reinstaurar a segregação racial. Nesta tentativa, ele é levado a julgamento na Suprema Corte dos Estados Unidos. – DIVULGAÇÃO/TODAVIA
HARPER LEE Também lançado em 1960, mas nos Estados Unidos, este romance conta a história de um homem negro acusado de estrupar uma mulher branca na década de 1930 e de como foi julgado a partir de uma sociedade racista. Além de ter vencido o Pulitzer, o livro foi adaptado para os cinemas em 1962 (o filme venceu três categorias do Oscar) – DIVULGAÇÃO/JOSÉ OLYMPO
TONI MORRISON Escrito no início dos anos 1960, O Olho Mais Azul foi lançado em 1970 por Toni Morrison, a primeira mulher negra a ganhar o Nobel de Literatura, em 1993. É a emocionante história de uma família negra e pobre americana, os Breddlove, e como cada integrante sofre com o racismo estrutural na década de 1940, tempo em que é ambientado o livro. – DIVULGAÇÃO/TAG LIVROS
CONCEIÇÃO EVARISTO A pobreza e a violência urbana da quais parte da população negra brasileira é vítima são retratadas nos 15 conto deste livro, com muitas mulheres protagonistas. Foi lançado em 2014 por Conceição Evaristo, um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea. – DIVULGAÇÃO
RALPH ELLISON O romance Homem Invisível é um clássico da literatura norte-americana. Lançado em 1952, retrata a mudança de um jovem begro do Sul para Nova York no início do século 20. Sua cor o torna invisível e, entre fracassos e decepções, a vida do portagonista é uma grande analogia à situação dos negros nos EUA. – DIVULGAÇÃO/JOSÉ OLYMPO
CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE Fenômeno da literatura mundial, a autora nigeriana lançou este que é seu quarto livro em 2013. A protagonista do romance é Ifemelu, uma jovem que emigra para os Estados Unidos com o intuito de cursar faculdade e fugir do regime repressor da Nigéria. Quinze anos depois, ela volta a seu país e reencontra o amor de sua joventude. – DIVULGAÇÃO/COMPANHIA DAS LETRAS

Fonte: JC

Papa nomeia mulheres para Biblioteca Apostólica Vaticana e para Autoridade de Informação Financeira

Biblioteca foi criada há mais de 500 anos e possuiu mais de 80 mil manuscritos. Já a Autoridade de Informação Financeira é instituição da Santa Sé que atua na luta contra a lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo.

Papa Francisco em imagem de arquivo — Foto: Reprodução/AP

O Papa Francisco nomeou nesta sexta-feira (12) duas mulheres para funções de liderança no Vaticano para a chefia da Biblioteca Apostólica Vaticana e para Autoridade de Informação Financeira (AIF).

Drª. Raffaella Vincenti assumirá a chefia da Biblioteca Apostólica Vaticana, onde já atuava como secretária. A biblioteca foi criada há mais de 500 anos e possuiu mais de 80 mil manuscritos.

Antonella Sciarrone Alibrandi, de 55 anos, assumirá a Autoridade de Informação Financeira, que é instituição da Santa Sé que atua na luta contra a lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo. Atualmente, ele ocupa cargo de pró-reitora vigária da Universidade Católica do Sagrado Coração, na Itália.

Autoridade de Informação Financeira faz parte do Grupo Egmont, que atualmente reúne as unidades de informações financeiras de 152 países e jurisdições. Nesse fórum, os países trocam de informações e tratam de boas práticas de colaboração internacional.

Em julho de 2019, o Papa Francisco nomeou uma brasileira, Cristiane Murray, para atuar como sua vice-porta-voz.

Fonte: G1

Marvel libera gratuitamente HQs em inglês criadas por artistas negros

Entre as edições disponíveis estão “Pantera Negra” e “Deathlok”
Imagem: Divulgação

Texto por UOL, em São Paulo

A Marvel liberou hoje o download gratuito de várias histórias em quadrinhos criadas por escritores e artistas negros. As revistas estarão disponíveis até o fim de junho e apenas em inglês.

“Vozes negras de criadores e personagens são uma parte entrelaçada a história da Marvel. Essas histórias em quadrinhos visam celebrar seus legados, desde décadas atrás ou mesmo este ano”, informou a editora.

Entre as edições disponíveis estão “Marvel’s Voice”, de 2020, “Ironhearth”, de 2018, “Pantera Negra”, de 1998, e “Deathlok”, de 1991.

Para acessar os quadrinhos, baixe o aplicativo “Marvel Unlimited”, disponível para Android e IOs. Clique em “Free Comics” na tela inicial e escolhas suas edições. Nenhuma informação de pagamento ou assinatura necessária, basta escolher e iniciar a leitura.

No Instagram, a editora disse que “este mês, a Marvel Unlimited tem uma seleção digital gratuita de quadrinhos liderados por criadores negros, destacando o trabalho de incríveis escritores e artistas negros”.

Fonte: Livros e HQs – UOL

Deficientes visuais relatam dificuldades com acessibilidade na internet, essencial neste período de isolamento

Navegar pelas redes sociais, acessar serviços e fazer uma compra, por exemplo, podem ser tarefas muito difíceis para essas pessoas, devido à falta de acessibilidade de páginas e sites.

Texto por Beatriz Andreoli e Cassio Andrade, Bom Dia Diário

Pessoas com deficiência visual têm dificuldades no mundo on-line

A internet tem sido uma grande aliada das pessoas neste período de isolamento social causado pela pandemia do novo coronavírus. Porém, nem todo o conteúdo on-line está disponível para usuários com deficiência visual, que, por conta disso, precisam buscar adaptações para também se inserirem nesse universo.

Para muitas pessoas, o mecanismo em uma rede social, por exemplo, é bem simples: basta arrastar a tela e, com dois toques, você consegue curtir uma foto. Atualmente, são muitas as pessoas conectadas em todo o planeta, mas muitas delas ainda encontram dificuldades de acessibilidade na internet.

“O contato para nós também está sendo pela internet. Nós precisamos do acesso remoto a outros espaços, serviços, produtos para podermos conciliar a questão do isolamento social e das relações sociais que precisamos estabelecer. Então a fuga tem sido a internet mesmo, mas a acessibilidade deixa muito a desejar em nosso acesso e em nosso pertencimento a esses espaços”, disse Luciane Maria Molina Barbosa, que é professora de audiodescrição.

Na pandemia, a rede social é, para muitos, a única maneira de conversar com outras pessoas. Não só isso, mas para consumir também.

“Esses dias mesmo fui ligar para uma perfumaria e não conseguia ter acesso ao telefone que estava na imagem. Eu comentei na postagem se poderiam me passar o número, e a mesma perfumaria respondeu que estava na imagem e que era só ver. Então as pessoas não têm muita consciência de que pessoas com deficiência visual também consomem informação, produtos, serviços, e que as mídias precisam estar preparadas. Não basta apenas a tecnologia”, relatou Luciane.

Áudio auxilia Luciane a ter acesso às informações presentes nas redes sociais — Foto: Reprodução/TV Diário

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, no mundo, são 39 milhões de pessoas com algum grau de deficiência visual. Só no Brasil, são 6,5 milhões.

A grande reclamação dessas pessoas é que elas se sentem invisíveis. Por mais que a tecnologia e a inteligência artificial ajudem, elas não conseguem enxergar, com a mesma riqueza de detalhes, as fotos e os vídeos publicados nas redes sociais.

Algumas empresas têm adotado ferramentas para melhorar essa situação, e existe a famosa #PraCegoVer, por meio da qual é feita a descrição de uma foto, por exemplo, para que as pessoas com deficiência visual saibam, com detalhes, o que ela contém.

Edgar Jacques é consultor em audiodescrição e conta que nem sempre um site que é acessível é adaptado para um deficiente visual.

“As plataformas têm duas grandes dificuldades. Elas têm que ter o produto com acessibilidade, que é um filme, por exemplo, com audiodescrição. Mas, para você chegar nele, a plataforma em si precisa ser acessível. O leitor de tela tem que ser capaz de identificar cada passo do seu caminho até o produto. E, dentro do produto, tem que ser possível que a pessoa com deficiência consiga modificar o áudio, a legenda. Ela tem que ter todo o controle disponível para essa tecnologia, que é o leitor de tela”.

Marcos Rodrigues da Conceição também é deficiente visual e ainda está na fase inicial do contato com a tecnologia. Por enquanto, ele precisa da ajuda da filha ou da sobrinha para fazer algumas coisas. “Faltam lugares que nos ajudem a aprender. Aqui no Alto Tietê, são poucos lugares que têm associação que possam ensinar, por exemplo”.

Para avaliar a acessibilidade de sites brasileiros, o “Movimento Web para Todos” pesquisou 14 milhões de sites e mostrou que apenas 0,74% são totalmente acessíveis. Entre as falhas mais comuns estão os links. Entre os portais avaliados, 83,56% tinham esse tipo de problema em 2019. Neste ano, o número subiu para 93,65%.

“Eu imagino que a acessibilidade na internet, assim como no cinema, no teatro, na televisão, vai passar a ser vista como um direito essencial para aquele setor quando as empresas passarem a ver as pessoas com deficiência como consumidoras, quando tiverem ali em seus estudos, em seus planejamentos a pessoa com deficiência visual como uma consumidora em potencial”, opinou Edgar.

Fonte: G1

Racismo e literatura: Escritoras dão voz à herança africana no Brasil

Texto por Jovem Pan

A poetisa Dinha é uma das autoras negras brasileiras que refletem, por meio de suas obras, os impactos do racismo silenciado no país

O Brasil é o país com o maior número de afrodescendentes no mundo. No entanto, sua herança africana tem sido oficialmente relegada há décadas, e o racismo, silenciado.

Hoje, várias autoras brasileiras estão buscando mudar esse quadro, desde escritoras de ficção consagradas, como Conceição Evaristo, passando pela poetisa underground Dinha, à contadora de histórias infantis Avani Souza Silva. Dar voz à cultura africana no Brasil e combater a discriminação racial é o compromisso literário dessas mulheres.

Negra e periférica

Dinha – apelido da escritora Maria Nilda de Carvalho Mota – define-se como uma “mulher negra e periférica” que encontrou na literatura um refúgio onde “ninguém pode calar” sua voz.

Sua poesia, segundo suas próprias palavras, é um alto-falante para justificar a história do povo afro-brasileiro, condenado ao “silêncio” e reduzido à “escravidão” em um país de 210 milhões de habitantes, onde mais da metade da população é negra.

Dinha passou boa parte de seus 42 anos denunciando “um genocídio contra a população negra”. Enquanto estudava Letras na Universidade de São Paulo (USP), Dinha fez parte de movimentos sociais ligados à cultura hip hop na periferia de São Paulo e encontrou uma situação “horrível” e “vergonhosa” em relação à falta de estudos sobre literatura africana e afro-brasileira no currículo da faculdade.

A consciência desse déficit a marcou para sempre. “Sei que escrever não é suficiente, mas é uma parte importante da formação do imaginário social”, disse.

Em seu último livro de poemas, “Maria do povo” (Edições Me Parió Revolução, 2019), ela quis homenagear “pessoas comuns”, sem deixar de lado questões de gênero, raça e classe, que são sempre pontos fundamentais em sua obra.

Em 2015, ela publicou um livro que a colocou no radar da poesia independente e a tornou uma referência no movimento negro: “Zero a Zero: 15 poemas contra o genocídio da população negra”, no qual denuncia a violência machista e policial.

Segundo a poetisa, as primeiras conquistas na luta contra o racismo foram deixar de lado “a visão eurocêntrica” e deixar de “resumir a escravidão” à história dos povos africanos e seus descendentes “no Brasil e no mundo”.

Contos africanos

Avani Souza Silva, 67 anos, é autora de “A África recontada para crianças” (Martin Claret Editora, 2020).

O livro ilustrado, que acaba de ser lançado, traz fábulas contadas nos cinco países africanos de língua portuguesa (Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné Bissau, Moçambique e Angola) com o objetivo de trazer à população brasileira a cultura africana “que sempre foi esquecida” no Brasil.

Um exemplo é o “Ti Lobo”, de Cabo Verde, muito diferente do animal feroz pintado em fábulas europeias. Esse lobo africano alimenta-se de figos e é uma figura alegórica da seca e da fome que assolou o arquipélago durante gerações.

“A formação étnica do povo brasileiro é composta por três povos: o europeu, o africano e o indígena”, mas, em contraste, nas escolas do país “a história e a literatura da Europa sempre foram estudadas”, afirmou ela. Por outro lado, acrescentou, “basta olhar para os brasileiros” para perceber que “o brasileiro é negro” e “africano”.

Avani contou ainda que, antes de chegar à USP, onde se formou em Letras Clássicas e Vernáculas, “não tinha contato com o continente africano” e “sequer lido nenhum autor africano”, algo comum entre “a maioria do povo brasileiro”.

No entanto, ela acredita que, nos últimos anos, o Brasil deu um “grande passo” após aprovar duas leis, em 2003 e 2008, que tornaram obrigatório o ensino de história e cultura africana e indígena nos programas de educação básica do país.

Apesar de ainda ser uma realidade “muito incipiente” nas escolas brasileiras, que carecem de material didático e investimento na formação de professores, ela se mostra convicta da necessidade de divulgar as culturas africanas e indígenas para combater o racismo.

“Respeitá-la (literatura africana), amá-la, perceber a identidade cultural que temos com alguns países africanos é muito importante” para “ter mais tolerância”, declarou.

De empregada doméstica a escritora premiada

Afrobrasilidade, raça, gênero e classe também são temas que preencheram as páginas da obra de Conceição Evaristo, ex-empregada doméstica que se tornou um ícone do movimento negro no Brasil antes mesmo de receber o prêmio Jabuti em 2019.

Entre suas obras mais conhecidas está o romance “Ponciá Viencio” (Mazza, 2003), onde a escritora narra a trajetória de vida de uma jovem negra e pobre mulher em busca de sua identidade.

“Faço parte de uma geração que, na escrita, busca muito a afirmação de uma identidade negra” e “conta com orgulho essa identidade”, disse a escritora, de 74 anos, em entrevista ao centro Itaú Cultural.

Através da literatura, ela pretende revelar sua “subjetividade como mulher negra na sociedade brasileira” e “lutar para criar textos que se distanciem da literatura que nos estereotipa”.

Ao criar “outro imaginário” que se distancia da “ideologia que a sociedade” tem da população negra, a escritora defende que a principal função de sua obra é atuar como “vigilante”.

*Com EFE

Fonte: Jovem Pan

Os autores negros como maiores representantes da literatura brasileira

Vagner Amaro
Imagem: Francisco Jorge

Texto por Rodrigo Casarin

Em novembro do ano passado, publiquei uma entrevista com Vagner Amaro sobre o trabalho que e o editor faz à frente da Malê, casa especializada em literatura afro-brasileira. Na ocasião, ele comentou como encara a história dos nossos escritores negros: “Esta trajetória não acontece na literatura brasileira, esta trajetória é a literatura brasileira, se iniciando com o negro Teixeira e Sousa, primeiro romancista brasileiro, com a negra Maria Firmina dos Reis, primeira romancista brasileira, passando pelo negro Paula Brito, importantíssimo editor brasileiro do século 19, passando pelo negro Machado de Assis, maior escritor brasileiro…”.

Com os embates antirracistas tomando as ruas do mundo, voltei a conversar com Vagner para nos aprofundarmos nesse ponto: a presença de autores negros ao longo da história literária nacional. O editor lembra do “Panorama Editorial da Literatura Afro-Brasileira Através dos Gêneros Romance e Conto”, estudo feito pelos pesquisadores Luiz Henrique Silva de Oliveira e Fabiane Cristine Rodrigues, para indicar números que espantam e ao mesmo tempo escancaram o racismo sistêmico: entre 1859 e 2016 foram publicados comente 61 romances de autores negros, enquanto entre 1839 e 2016 saíram apenas 88 livros de contos de autores negros. A pesquisa pode ser lida aqui.

Vagner aponta que essa estrutura racista produz silenciamentos e foi pouco discutida ao longo do tempo, mas começou a ser desfeita com a chamada geração Cadernos Negros, referência à clássica publicação de poetas afro-brasileiros lançada em 1977. Apesar das adversidades, ele ressalta: enxerga a literatura negra brasileira como a mais representativa de nosso país: “Na maioria dos casos, ela é mais brasileira do que todo o resto que é produzido. Isso no sentido de ser feita por representantes literários descendentes dos povos que mais marcaram a cultura brasileira, com suas visões de mundo, tecnologias, línguas, ritmos e tantos outros conhecimentos. coletividade e em grandes temas. Mais brasileira porque o Brasil é um país de pobres e boa parte dos escritores negros foram e, ou, são pobres – o que vem garantindo possibilidades mais interessantes de representação do pobre, do povo, assim como do outro que é o rico. A cultura brasileira, como a entendemos hoje, é essencialmente negra. Então, quanto mais negra for a nossa literatura, mais brasileira ela será”.

Para o editor, essa visão se estende a todos os autores que fazem uso da cultura negra nacional em seus textos. E, olhando para um dos maiores fenômenos recentes de nossa literatura, diz encarar o crescente sucesso de Conceição Evaristo menos como um descobrimento da autora e mais como um reconhecimento de leitores que se enxergam na obra da mineira. “É o Brasil que lê literatura, recompondo seu espelho e voltando a se enxergar”.

Guia de leitura

Também retomei o papo com Vagner porque, na última ocasião, uma pergunta tinha ficado de fora da edição da entrevista devido ao tamanho e à complexidade da resposta. Estava claro que o tema da questão mereceria ser tratado com calma em outra oportunidade. Quis saber dele o seguinte: Para quem quiser mergulhar na história da literatura negra, quais são os títulos e autores que você considera fundamentais? Seria possível falar numa espécie de cânone literário negro?

O editor dispensou a ideia canônica; não ajudaria a compreender a situação da autoria negra no Brasil. Preferiu falar na trajetória desses escritores, como lembrei há pouco. E deu muitas dicas. Para começar, recomendou quatro livros para quem deseja refletir: “Literatura Negro-brasileira”, de Cuti (Selo Negro), “Brasil Autorrevelado”, de Miriam Alves (Nandyala), “Literatura Afro-brasileira: 100 Autores do Século 18 ao 21”, de Eduardo de Assis Duarte (Pallas), e “Negrismo”, de Luiz Henrique Silva de Oliveira (Mazza). Além disso, deixou uma lista para quem quiser se aprofundar nesse universo:

“A Cor da Demanda”, de Éle Semog (Malê).

“A Lei do Santo”, de Muniz Sodré (Malê).

“Carro do Êxito”, de Oswaldo de Camargo (Córrego).

“Casa de Alvenaria”, de Carolina Maria de Jesus (Lebooks).

Clara dos Anjos, de Lima Barreto (Penguin/ Companhia das Letras).

“Com A Palavra Luiz Gama” (Imprensa Oficial).

“Contos Escolhidos”, de Cuti (Malê).

“Correntezas e Outros Estudos Marinhos”, de Lívia Natália (Ogum’s Toques Negros).

“Enquanto os Dentes”, de Carlos Eduardo Pereira (Todavia).

“Estação Terminal”, de Sacolinha (Nankin).

“Estela sem Deus”, de Jefferson Tenório (Zouk).

“Gosto de Amora”, de Mário Medeiros (Malê).

“Insubmissas Lágrimas de Mulheres”, de Conceição Evaristo (Malê).

“Leite do Peito”, de Geni Guimarães (Mazza).

“Maréia”, de Miriam Alves (Malê).

“Não Pararei de Gritar”, de Carlos de Assumpção (Companhia das Letras).

“Mural de Ventos”, de Salgado Maranhão (José Olympio).

“Negra Nua Crua”, de Mel Duarte (Ijumaa).

“O Caçador Cibernético da Rua Treze”, de Fábio Kabral (Malê).

“O Crime do Cais do Valongo”, de Eliana Alves Cruz (Malê).

“Oliveira Silveira: Obra Reunida” (Corag).

“Poemas Antológicos de Solano Trindade” (Nova Alexandria).

“Sobre-viventes”, de Cidinha da Silva (Pallas).

“Terra Negra”, de Cristiane Sobral (Malê).

“Úrsula”, de Maria Firmina dos Reis (Fora do Ar).

“Vozes Guardadas”, de Elisa Lucinda (Record).

“Zanga”, de Davi Nunes (Segundo Selo).

Fonte: Página Cinco – UOL

Live “Bibliotecas prisionais: a realidade do livro e da leitura nas prisões de Portugal”

Nossa Comissão Brasileira de Bibliotecas Prisionais (CBBP) promove nesta webinar uma conversa com a bibliotecária portuguesa Maria José Vitorino, que é mestre em Ciências da Educação e coordena inúmeros projetos de leitura em bibliotecas escolares e prisionais. A mediação fica por conta de Catia Lindemann, Presidente da CBBP.

A (falta de) diversidade no mercado editorial brasileiro

Texto por Talita Facchini 

O Podcast do PublishNews conversou com Vagner Amaro, editor da Malê, sobre a presença de autores e editores negros no mercado editorial brasileiro e em eventos literários e sobre importância dos livros abordarem a cultura afro-brasileira

No dia 25 de maio, o afro-americano George Floyd morreu nos EUA depois que o policial Derek Chauvin, se ajoelhou sobre seu pescoço por sete minutos enquanto ele estava deitado de bruços. Esse triste episódio desencadeou inúmeras manifestações em diversos países e levantou mais uma vez a questão do racismo, assunto que nunca deveria ter saído de pauta.

Trazendo o tema para o mercado editorial, em 2014, dos livros publicados apenas 2,5% dos autores não eram brancos. Dos personagens retratados nos romances apenas 6,9% eram negros e só 4,5% eram protagonistas. Neste mesmo ano, segundo o IBGE os negros representavam 54% da população brasileira. Uma fotografia da força de trabalho da indústria do livro pode ser bem parecida com esta: a maioria dos trabalhadores de editoras e livrarias é composta por pessoas brancas. Para conversar sobre o assunto, o podcast desta semana ouviu Vagner Amaro, fundador da editora Malê.

Inaugurada em 2016, a Malê busca dar visibilidade a autores africanos e afro-brasileiros e desde então, algumas coisas mudaram no cenário editorial brasileiro. “A Malê surge em 2016, em um momento que outras vozes também estavam se colocando em relação a essa desigualdade tão grande no mercado editorial, então é o trabalho da Malê, junto com o trabalho de outras pequenas editoras que foram surgindo”, contou Vagner. “Em um certo momento, um grupo de intelectuais negros resolveu intensificar esse debate em relação a desigualdade e eu acho que de fato surgiu efeito”, definiu.

Para Vagner, um dos grandes problemas do que ele definiu como um “sistema literário da autoria negra” é que os livros não circulavam. “Eles não estavam nas livrarias, não estavam sendo distribuídos, eles não participavam dessas reuniões de compras e não eram inscritos nos prêmios”, explicou, algo que mudou com o trabalho das editoras como a Malê nos últimos anos.

Sobre a falta de diversidade no mercado de trabalho, Amaro tocou num ponto importante. “Se a gente for pensar na quantidade de editores negros atuantes no Brasil, é um número muito reduzido, não chega a 10 editores”, alertou. “E esses editores que empreenderam as empresas onde trabalham, ou seja, eles não foram absorvidos pelo mercado”, algo que segundo ele só comprova essa desigualdade. “As pessoas que estão pensando o mercado editorial não são negras”, concluiu.

A inclusão dos autores negros nos eventos literários também foi tema da conversa. Amaro lembrou da importância que a Flip de 2017 teve para a Malê e para os autores negros e falou o que tanto mudou nos últimos anos nas feiras literárias com relação a presença de autores negros e de editoras que publicam autores negros. “O que eu comecei a observar, muito atento em relação a isso, é como se o evento, a Flip, tivesse comunicado algo que os curadores entenderam que era essencial e passaram colocar isso nas suas programações”, lembrou.

A conversa com Amaro rendeu: a importância dos livros infantis abordarem a cultura africana e afro-brasileira, os problemas estruturais do mercado, e outros temas relacionados foram discutidos a fundo.

E o que as editoras podem fazer para mudar o mercado, além de somente se posicionar nas redes sociais? “Contratem pessoas negras”, resumiu Amaro. “Contratem pessoas negras, investiguem, pesquisem sua equipe e contratem pessoas negras. Quem é que avalia originais dessa editora? Tem alguma pessoa negra ai? Contrate uma pessoa para essa equipe. Quantos editores existem nessa equipe? Tem alguma pessoa negra? Contrate uma pessoa. As livrarias: na sua equipe de gerentes da sua rede de livrarias, quantos negros são gerentes? Contrate negros para serem gerentes das livrarias. No corpo da CBL, quantos membros fazem parte? Contratem negros para isso. Quantos negros fazem parte do time que pensa a Bienal de São Paulo? Contrate negros”, finalizou.

O Podcast do PublishNews é um oferecimento da Metabooks, a mais completa e moderna plataforma de metadados para o mercado editorial brasileiro, da UmLivro, novo modelo de negócios para o mercado editorial: mais livros e mais vendas, e da Auti Books, dê ouvidos a sua imaginação, escute Audiobooks. Você também pode ouvir o programa pelo Spotify, iTunes, Google Podcasts, Overcast e YouTube.

Indicações

Pequeno manual antirracista (Companhia das Letras) – Djamila Ribeiro

Queer eye – Netflix

Pose – Netflix

Grupo de literatura contemporâneo

Portal Literafro UFMG

Biografia Carolina Maria de Jesus (Malê)

Hollywood – Netflix

Bucala David Nunes – Netflix

Eu não sou seu negro – Globosat

O quarto de Giovanni (Companhia das Letras) – James Baldwin

Fonte: PublishNews

“É preciso priorizar a acessibilidade para que mais pessoas e empresas tornem seus conteúdos acessíveis”, diz especialista

Isa Meirelles é criadora de conteúdos. Foto: Arquivo pessoal.

Isa Meirelles enxerga o mundo pela perspectiva de apenas um olho desde pequena e sempre foi bastante independente. Pra você entender o contexto: ela nasceu com glaucoma congênito nos dois olhos e, depois de algumas cirurgias e transplantes, conseguiu recuperar 100% do olho direito e perdeu a visão do esquerdo. Hoje é criadora e apoiadora de novas narrativas, como ela conta em seu site.

“Acredito que a gente não precisa dizer ok pra todos padrões que um dia alguém nos disse que eram corretos. A gente não precisa agradar a sociedade para ela nos incluir. Se você der uma fuçada nas minhas redes, vai descobrir que eu não acredito nas heroínas como salvação do mundo. Aposto que o mundo está carente de líderes que empoderem pessoas ao seu redor”, afirma.

Isa nasceu em São José dos Campos (SP) e vive na capital paulista desde 2012, ano em que começou a cursar a faculdade de Relações Públicas na Escola de Comunicações e Artes da USP. “Foi o lugar que fiquei para trabalhar e que virou a cidade do meu coração!”, diz.

A aproximação dela com a acessibilidade aconteceu após sua formatura, quando iniciou seu trabalho em um grande banco e conviveu com várias pessoas com diferentes deficiências. “Nessa época, percebi as enormes barreiras de acessibilidade que existiam dentro e fora do ambiente de trabalho, principalmente em relação à comunicação. Foi aí que percebi minha limitação, enquanto comunicadora, para incluir pessoas com deficiência nos processos comunicativos. Eu não havia aprendido sobre acessibilidade na comunicação, sequer considerado a possibilidade de existência das pessoas com deficiência como seres comunicantes”, confessa.

Sempre criativa e dinâmica, a criadora de conteúdos transita em diversos ambientes e usa bastante as suas redes por uma comunicação cada vez mais acessível. Hoje, ela é também uma das embaixadoras do Movimento Web para Todos, engajada em diversos projetos. Entre eles, é uma das fundadoras do coletivo “Quem São Elas?”, uma comunidade que busca soluções para uma moda e beleza mais diversa e representativa e da @redesign, uma plataforma de Design Inclusivo. 

Conversamos com Isa sobre acessibilidade digital, seus desafios como pessoa com baixa visão, dúvidas frequentes sobre o assunto e as barreiras que fazem parte da rotina como profissional que luta para que ela seja aplicada nas empresas e na sociedade em geral.

Movimento Web para Todos – Como é a sua relação com o tema acessibilidade digital? A partir de quando começou a se atentar para ele, a trabalhar e a ser ativista na área?

Isa Meirelles – Depois que detectei minha falha em comunicar com acessibilidade com os diversos públicos, fui atrás de tudo relacionado à acessibilidade e suas relações com comunicação. Fiz curso de moda inclusiva, audiodescrição, curadoria e expografia acessíveis e tecnologias acessíveis. Foi nesse contexto que conheci a acessibilidade digital por meio do Movimento Web Para Todos, que me abriu o horizonte sobre a enorme exclusão tecnológica da sociedade e como a própria tecnologia possuía os recursos para a inclusão de todas as pessoas, independentemente de suas deficiências.

Percebi que faltavam informações de forma ampla, as pessoas perto de mim sequer sabiam da existência desse universo da acessibilidade, e eu precisava fazer algo. Foi então que eu comecei a usar minhas redes sociais, principalmente meu perfil no Instagram (@isa.meirelles) para divulgar e incentivar as pessoas a conhecer a acessibilidade digital e praticá-la.

Movimento Web para Todos – Quais são as dúvidas mais frequentes que recebe quando o assunto é acessibilidade digital?

Isa – Primeiro de tudo, o pessoal quer saber o que é acessibilidade. Então é preciso dar uma contextualizada no tema para as pessoas. As dúvidas mais comuns são em torno das redes sociais, como usar a hashtag #PraCegoVer, como colocar texto alternativo, e também existem muitas dúvidas sobre como as pessoas cegas, por exemplo, acessam esses conteúdos. Daí eu tento explicar sobre o uso das tecnologias assistivas, como o leitor de telas.

Movimento Web para Todos – Como você lida com a baixa visão? Quais desafios você encontra na web, em relação às barreiras de navegação?

Isa – Como eu tenho o olho direito funcionando 100%, quando uso óculos de grau, claro, tenho poucas barreiras de navegação hoje em dia. Antigamente era beeem mais complicado porque eram poucos sites que possuíam a lupa de zoom. Hoje ainda tenho dificuldades com sites com letras pequenas e com pouco contraste –  é uma realidade que existe bastante, infelizmente.

Movimento Web para Todos – O que é preciso fazer hoje para que mais pessoas e empresas tornem seus conteúdos acessíveis?

Isa – Primeiro de tudo, priorizar o assunto. Ainda é muito difícil defender a importância e o impacto da acessibilidade para a sociedade de uma forma ampla, porque a desculpa mais comum é sempre: não me relaciono com pessoas com deficiência ou não tenho clientes/ funcionários com deficiência. Por que gastar com acessibilidade?

Essa é a mentalidade que a gente tem que transformar: trocar “gasto” por “investimento”. Mesmo porque acessibilidade é prevista na Lei Brasileira de Inclusão (LBI). Então, além de tudo, é uma obrigação legal.

Nosso trabalho como criadores de conteúdo e influenciadores sobre o tema é transformar esse pensamento e fazer a acessibilidade digital ser uma realidade no Brasil e no mundo.

Movimento Web para Todos – Você trabalha bastante a sua própria comunicação para conscientizar outros comunicadores com a comunicação acessível e inclusiva. Como é esse processo, os desafios e a importância de atuar nesse tema? 

Isa – Tem vezes (muitas vezes) que eu desanimo (risos), porque você tem que bater na tecla o tempo todo e justificar a importância, mas acredito que é o único caminho possível –  o da divulgação e da educação pra gente formar cada vez mais comunicadores conscientes da acessibilidade. E nós estamos evoluindo. Vejo muitos jovens, os famosos geração Z, que têm outra postura diante do assunto e se interessam pelo tema. Além de tudo, as redes sociais favoreceram muito esse processo, pois possibilitam que as pessoas tenham mais contato com a diversidade e também com a acessibilidade.

Movimento Web para Todos –  O que você diria pra quem está começando a se atentar para isso? Como ser um comunicador mais ativo nesse sentido e quebrar as barreiras de se expor?

Isa – Não tenha medo de começar. Esse é o conselho que de primeiro eu dou para as pessoas, porque acredito muito que o que realmente importa é a intenção de querer ser mais acessível pra gente evoluir no tema e a acessibilidade digital se transformar em uma prática no país.

Algumas dicas práticas que costumo orientar: comece a descrever as imagens nas redes sociais, use legendas quando puder, opte sempre por fontes maiores e com contraste com o fundo e, quando tiver dúvida, pergunte para as pessoas se aquele conteúdo é acessível, como ele pode ser melhorado. Eu sou uma grande incentivadora de primeiros passos, pois é melhor fazer uma pequena ação do que não fazer nada.

Fonte: Movimento Web Para Todos

Revista do Senado abre seleção de artigos sobre equidade e acessibilidade

Texto por Comunicação Interna

Os autores devem enviar os textos até 28 agosto e artigos serão publicados na primeira edição de 2021
Agência Senad
Fonte: Agência Senado

A Revista de Informação Legislativa (RIL), editada pelo Senado, iniciou segunda-feira (1º) chamada especial de artigos sobre equidade de gênero, equidade de raça e acessibilidade. Os autores devem enviar os textos até 28 agosto para o e-mail ril@senado.leg.br. Informações completas sobre a chamada estão disponíveis em www.senado.leg.br/ril/como-publicar.

Publicada ininterruptamente desde 1964 para divulgação de artigos inéditos de direito, ciência política e relações internacionais, a RIL é avaliada pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) como A2 — a segunda melhor nota — na área do direito.

​Segundo o chefe do Serviço de Publicações Técnico Legislativas, Raphael Melleiro, o tema da chamada levou em conta o inciso IV do artigo 3º da Constituição Federal, segundo o qual a promoção do bem de todos, “sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”, é um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil.

— A missão da revista é contribuir para a análise dos grandes temas em discussão na sociedade brasileira e, consequentemente, em debate no Congresso Nacional. Em nosso planejamento editorial, consideramos o tema equidade e inclusão muito oportuno, tanto pela relevância para a sociedade, quanto por estar alinhado com as inciativas da direção da Casa.

Os artigos selecionados serão publicados na primeira edição da RIL em 2021. Como a chamada é para uma edição regular da revista, os requisitos para a submissão de textos incluem titulação mínima, que exige dos autores e coautores dos artigos pelo menos o mestrado concluído, ressalta Raphael. Os artigos aprovados pelos pareceristas, mas não selecionados para essa edição, poderão ser publicados em edições posteriores da revista, após consulta aos autores.

Fonte: Agência Senado

Por uma biblioteconomia decolonial

Texto por Ueliton dos Santos Alves

A proposta desse texto é contribuir com a discussão das teorias decoloniais dentro do campo da Ciência da Informação e Biblioteconomia, na figura da professora doutora Maria Aparecida Moura peço a benção e licença a todas/os que vieram antes, e também a todas/os que agora estão propondo esse debate1.

Figura 1 Joaquín Torres-García – América Invertida.1943

Para pensar decolonialidade é preciso antes conhecer o que é colonialidade. Segundo Aníbal Quijano (2014), a colonialidade trata sobre a constituição de um padrão de poder que não se restringe às questões formais de exploração ou dominação colonial, trata-se de uma ideia que envolve também as diversas formas pelas quais as relações intersubjetivas se articulam a partir de posições de domínio e subalternidade. A colonialidade pode então, ser lida como uma prática que através da ciência moderna/colonial produziu um modelo único, universal e objetivo tendo como referência a Europa.

Um pouco da história dos Estudos Decoloniais

Na década de setenta, formava-se no sul asiático o Grupo de Estudos Subalternos, cujo principal projeto era analisar criticamente a historiografia da Índia feita por ocidentais europeus e também a historiografia eurocêntrica produzida por indianos. A partir dos movimentos insurgentes dos intelectuais indianos desdobra-se nos países que compõem o bloco chamado de Latino Americano um manifesto que apontava para a necessidade de uma releitura das narrativas nacionais, capaz de detectar a ausência de representações da ação e de narrativas das comunidades subalternas, destacadamente ameríndias e de matriz africana.

Figura 2″E para salvar o país, Cristo é ex-militar” (2018), Maxwell Alexandre

É nesse contexto que se dá a constituição do Grupo Modernidade/Colonialidade no final dos anos 1990, que atualmente leva o nome de Modernidade/Colonialidade/Decolonialidade (CMD). Segundo Arturo Escobar (2003), o CMD tem como principal força orientadora uma reflexão continuada sobre a realidade cultural e política latino-americana, incluindo o conhecimento subalternizado dos grupos locais. Para o autor, trata-se de um movimento teórico-metodológico que acabou dando origem à escola de pensamento latino-americana denominada de Estudos Decoloniais, e que alguns autores também chamam de Giro Decolonial (BALESTRIN, 2013)

A prática bibliotecária e a decolonialidade

Quando se discute sobre a função da bibliotecária/o, existe um papel central no desenvolvimento de suas atividades, independente de qual área vai escolher atuar. Ao fazer a escolha para o curso na Universidade de São Paulo, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP-USP) me deparei com a seguinte definição:

O curso está inserido na área de Ciências Sociais Aplicadas e visa formar profissionais da informação aptos para atuarem de forma crítica, ética e humanista nos diversos segmentos do mercado no que concerne ao planejamento, execução e avaliação de atividades inerentes à implantação, gerência e desenvolvimento de unidades de informação, bem como a compreensão dos processos socioculturais relacionados à produção, circulação e apropriação da informação. Para tanto, o profissional formado no curso torna-se apto a aplicar conceitos e práticas na gestão, armazenamento, organização, distribuição e preservação da informação. (BIBLIOTECONOMIA E CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 2020, grifo nosso)

Ao me deparar com a possibilidade de ser um profissional que atuaria de forma crítica, ética e humanista, senti que essa poderia ser a profissão para minha vida, mas ao longo do meu contato com a academia e com minha área de atuação, senti que o aspecto que mais teria que desenvolver, era senso crítico. Na medida em que desenvolvi minha consciência social e racial, tudo isso enquanto me “formava”, e depois quando passei a atuar como bibliotecário, foi possível notar que infelizmente o campo profissional ao qual tinha escolhido, ainda tinha essas discussões como fator secundário, uma vez que, toda sua base epistemológica se estruturava a partir de uma visão eurocêntrica.

Ao identificar a isso, instalou-se uma contradição que me fez repensar enquanto profissional: estaria eu, perpetuando uma narrativa única baseada em ideias opressoras? Como romper com essa lógica?

Tais questionamentos me levam de encontro as teorias decoloniais, ao entender sua proposta passo a pensar na possibilidade de aplicá-la em minha prática bibliotecária. O exercício de relacionar as teorias decoloniais com a área da Biblioteconomia e Ciência da Informação me reconectou com a descrição que me fez sentir estar escolhendo a profissão certa. A decolonialidade me apresentou a necessidade de romper com uma narrativa única, a partir disso, repenso toda a narrativa da história de organização e disponibilização do conhecimento.

Figura 3Foto retirada da página do Slam da Guilhermina no facebook

É a partir desse novo olhar que os convido a pensar como os slams, que são batalhas de poesia falada, podem ser considerados manifestações artísticas culturais para incorporar a nova ideia de conhecimento disponível em uma biblioteca, considero-o a materialização da fusão entre a biblioteca e a tradição da oralidade, os slamers através de suas performances, mixam o ato de informar com a arte de contar história, resultando em uma junção que promove um novo cenário cultural, que ainda tem espaço para crescimento, que movimenta e altera uma visão restrita do que é conhecimento2.

Atividades como o slam exemplificam as diversas outras que podem ser vistas como parte do acervo de uma unidade de informação, é uma prática que surge de maneira orgânica que na maioria das vezes ocorre em espaços abertos, como praças, mas que pode ser adotada como uma tática para trazer novos conhecimentos e consulentes para biblioteca.

Uma biblioteca ao abrir seu espaço para movimentos que surgem do público estão rompendo com uma lógica colonial de enxergar a periferia como um espaço que necessita acessar a cultura que vem da academia, que na atualidade é considerada o centro do da produção de conhecimento, aderir atividades como o slam é reconhecer que a periferia é capaz de produzir sua própria epistemologia.

Autores que fundamentam os estudos decoloniais apresentam pesquisas que demonstram que a produção e o controle de informação são instrumentos fortalecedores de uma sociedade baseada na colonialidade. Para Anibal Quijano, um grande intelectual da teoria decolonial, “A colonialidade se reproduz em uma tripla dimensão: a do poder, do saber e do ser.” O monopólio sobre determinados conhecimentos possibilita a constituição de uma narrativa única, tal narrativa pode ser usada para justificar atrocidades como a colonização de outros povos. Esse tipo de monopólio, Quijano vai chamar de colonialidade do saber, que na interpretação de Santos (2007), em linhas gerais é uma narrativa que:

Portanto, excluiu outros saberes e outras formas de interpretar o mundo, desautorizando epistemologias da periferia do ocidente. Tal colonialidade do saber é representada na geopolítica do conhecimento, a partir da qual a razão, a verdade e a ciência são atributos possíveis nas – e das – metrópoles, cabendo aos territórios (ex) coloniais e seus sujeitos o status de objetos, classificados como populares, leigos, naturais, ignorantes, sem lei (SANTOS, 2007, p.72).

Usando do poder de controlar o saber é que surge o terceiro elemento operante, a colonialidade do ser, que é a capacidade de destituição da existência, da condição de humanidade dos outros, dos povos não europeus, é a exterioridade negada. A partir dessa tríade – a colonialidade do poder, do saber e do ser – fundamenta teorias que atribuem quem são e como devem viver cada povo.

A biblioteca como instrumento da decolonialidade

Os três conceitos utilizados pela colonialidade para se estabelecer, são conceitos muito presentes dentro da atuação profissional da área da informação, pois já que a informação é poder, e que as bibliotecas são importantes instrumentos na construção do saber, logo tratam-se de espaços que possibilitam a transformação do ser, sendo assim pode-se dizer que a biblioteconomia sempre teve uma função decolonial, só esteve e ainda está um pouco distante dela.

A partir dessa lógica, bibliotecárias/os nos seus mais diversos campos de atuação tem o compromisso e a responsabilidade com o combate a colonialidade, bibliotecas em suas diferentes tipologias tem como missão romperem com a concentração e controle do conhecimento, suas/seus profissionais devem oferecer condições tanto físicas quanto epistemológicas que permitam aos consulentes construírem com as informações disponibilizadas o seu conhecimento e sua subjetividade, o caráter pedagógico de uma biblioteca resulta em pessoas emancipadas, sendo assim, o trabalho e a existência de bibliotecas são ferramentas fundamentais para a luta decolonial.

Figura 4 Dois títulos que contribuem com o pensamento decolonial dentro da biblioteconomia – Jornal empoderado

Ao longo da história da literatura, muitos autores negros não foram identificados e retratados como negros, se é verdade que a cor do autor não importa para o leitor, por que embranqueceram esses autores? Por que ainda hoje é tão difícil ver editoras que possuem em seus catálogos uma política de paridade de gênero e de raça? O que sustenta a exotização de autoras e autores marginalizadas/os, que muitas vezes têm suas obras compradas apenas por curiosidade, simples e puramente para entender o que escritores “marginais” criam. Carolina Maria de Jesus, por exemplo, teve um número expressivo de vendas na sua primeira obra, as demais obras não fizeram tanto sucesso, e isso se atribui a que, não foi por perda de qualidade literária, mas sim, porque o efeito racista e classista fez com que a curiosidade fosse diminuindo.

No momento em que a palavra representatividade destaca-se em diversas discussões, é preciso ter cuidado para não confundir representatividade com representação, o fato de corpos marginalizados aparecerem em determinados espaços, não quer dizer que eles estão alí com a intenção de levantar uma discussão sobre sua condição de sujeito marginalizado, por exemplo: Se a Tia Anastácia é quem trabalha na cozinha do Sitio do Pica-Pau Amarelo e desenvolve todas as receitas, por que a Dona Benta é quem dá nome a farinha e os livros?

Percebam que nos momentos de valorização dos saberes, quem ganha destaque são os corpos normatizados, os corpos marginalizados estão sempre ligados ao instinto e trabalho físico. Ter a Tia Anastácia presente no texto não a torna sinônimo de representatividade, por vezes, características atribuídas a ela apenas reforçam um imaginário estereotipado que cumpre com o modelo de subalternidade estabelecido pela lógica colonial. A Tia Anastácia ao invés de ter suas características físicas ressaltadas, poderia protagonizar situações que a humanizasse e demonstrasse o seu intelecto.

Quando uma biblioteca começa a enxergar situações como essa, suas/seus profissionais entendem que para de fato cumprir com o seu juramento profissional, precisam adotar políticas que auxiliem na decolonização de seus acervos e de seu espaço, possibilitando assim, que os exemplos apresentados não voltem a se repetir, que autoras e autores marginalizados sejam reconhecidos pelo valor do seu trabalho e não pela sua condição, que corpos marginalizados não sejam usados como atrativos que reforçam uma narrativa de subserviência colonial.

Em suma, pensar uma biblioteca decolonial é produzir um diagnóstico e um prognóstico afastado e não reivindicado pelo mainstream do pós-colonialismo, envolvendo diversas dimensões relacionadas a colonialidade do poder, saber e ser. Cabe ressaltar que não se trata de eliminação ou interdição de determinados saberes, o processo de decolonização não deve ser confundido com a rejeição da criação humana realizada pelo norte global e associado com aquilo que seria genuinamente criado no sul, no que pese práticas, experiências, pensamentos, conceitos e teorias.

Nesse cenário as/os profissionais da informação têm a oportunidade e o dever social de combater essa lógica, cabe a essa/esse profissional contribuir na missão de combate a colonialidade do saber. Embora atuem em diferentes espaços informacionais, há um ponto que os interseccionam, a busca incansável pela democratização das mais variadas informações, dos conhecimentos e dos saberes. Quando o pensamento decolonial lido como contraponto é ampliado para a biblioteconomia, que é uma ciência social aplicada, demonstra que existe uma necessidade de repensar a área, de suas práticas e de sua teorização, para dar espaço aos saberes e práticas não canonizados.

Notas

1 Assistam à aula: O papel da biblioteconomia na redução das desigualdades – Epistemicidio, subalternidade e a naturalização do privilégio – https://www.youtube.com/watch?v=ZEcD1aSLD_0

2  Idealizado por Emerson Alcalde, o Slam da Guilhermina surgiu em 2012 junto com Vander Che e depois completado com Cristina Assunção e Uilian Chapéu. O projeto fomenta a literatura na periferia da zona leste de São Paulo por meio da poetry slam, ou poesia falada. O movimento abre espaço para diferentes vertentes da poesia, mas o que mais é recitado são poesias de resistência. Textos autorais de poetas marginais que vivem na periferia. “A poesia que se faz nos slams, batalhas de poesia, e saraus de periferia são poesias marginais, pois estão tanto a margem do mercado editorial quanto da sociedade”, explica Emerson. Disponível em: https://medium.com/@cari./um-grito-de-resist%C3%AAncia-slam-da-guilhermina-a84c109778b5

Referências bibliográficas

BALLESTRIN, Luciana. América Latina e o giro decolonial. Revista Brasileira de Ciência Política, Brasília, n. 11, p.89-117, ago. 2013. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbcpol/n11/04.pdf>. Acesso em: 08 ago. 2019.

BIBLIOTECONOMIA E CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO.: Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto – Universidade de São Paulo, 2020. Disponível em: https://sites.usp.br/calourofilo/cursos/biblioteconomia-e-ciencia-da-informacao/. Acesso em: 8 maio 2020.

DUSSEL, Enrique. 1492. El encubrimiento del outro. Hacia El origen Del mito de La modernidad. La Paz: Plural Editores, 1994.

ESCOBAR, Arthuro. Mundos y conocimientos de otro modo: el programa de investigación modernidad/colonialidad latinoamericano. Tabula Rasa, nº 1, Bogotá, Colombia, 2003, pp.58-86.

MIGNOLO, Walter Postoccidentalismo: el argumento desde América Latina, In: CASTRO-GÓMEZ, Santiago & MENDIETA, Eduardo (coords.). Teorías sin disciplina: latinoamericanismo, poscolonialidad y globalización en debate. México: Miguel Ángel Porrúa. 1998. Disponível em: < https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000186&pid=S0103-3352201300020000400028&lng=en> Acesso em: 19 de ago. 2019.

QUIJANO, Anibal. La tensión del pensamiento latino americano [1986]. In: ___. Cuestiones y horizontes: de la dependencia histórico-estructural a la colonialidad/descolonialidad del poder. Buenos Aires: Clacso, 2014a. p.697-704. Disponivel em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_nlinks&pid=S0103-4014201800030039100032&lng=en. Acesso em: 19 de ago. 2019.

Figuras

Figura 1: https://universes.art/de/specials/2016/space-to-dream/torres-garcia-zoom

Figura 2: https://www.sp-arte.com/editorial/o-que-e-a-arte-decolonial/

Figura 3: https://www.facebook.com/photo/?fbid=2414781865298658&set=a.2414775781965933

Figura 4: http://jornalempoderado.com.br/ler-e-o-melhor-caminho/

Vídeo

Maria Aparecida Moura – https://www.youtube.com/watch?v=ZEcD1aSLD_0

*Ueliton dos Santos Alves é Bacharel em Ciências da Informação, da Documentação e Biblioteconomia pela USP- Ribeirão Preto. Entende-se como um Bibliotecário agitador cultural. Trabalha na SP Escola de Teatro onde coordena uma biblioteca especializada em teatro, arte e cultura. Atua em uma proposta decolonial para o acervo, buscando por novos referenciais e narrativas que ajudem a descontruir uma visão eurocêntrica das artes. Com as provocações que surgiram a partir do fortalecimento de sua consciência racial e pelas demandas apresentadas em seu espaço de atuação profissional, passa a buscar referências decolonizadoras para pensar o campo da Biblioteconomia.

DIANTE DA PANDEMIA DO COVID19, DEGASE ESTIMULA JOVENS A PRÁTICA DA LEITURA

Texto por Paulo Araújo

Foto: Divulgação

Instituição capacita agentes de leitura para atuarem nos espaços socioeducativos

Nesse período de isolamento, a comunidade socioeducativa tem se debruçado sobre os mais variados projetos que sejam viáveis de implementar no sistema. Um dos mais eficientes, que garantem os protocolos preventivos à Covid-19, é a oferta de obras literárias aos adolescentes. No Centro de Atendimento Intensivo (CAI) Belford Roxo, o CAI Baixada, a bibliotecária Simone Barros tem aproveitado ainda mais o espaço de leitura reinaugurado esse ano com as mediações de leitura para os internos, que podem ser seguidas de debates sobre o texto lido em rodas de conversas ou mesmo estimular a criação de desenhos ou outros textos.

Já em Volta Redonda, os agentes Jorge Luís e André Peixoto implementaram no Centro de Socioeducação Irmã Asunción de La Gandara Ustara (Cense Ialgu) uma ação que incentiva o hábito da leitura no s jovens. “Independentemente da função que se exerce nessa comunidade é dever de todos zelar pela garantia dos direitos”, afirmam eles.

Na opinião do diretor-geral do Departamento Geral de Gestão Socioeducativa (Degase), Márcio Rocha, salas de leitura trazem a perspectiva de despertar nos adolescentes o interesse pelo conhecimento de algo novo. “Assim como a pandemia é algo incomum para nossas gerações, ler passou a ser uma prática exercida por poucos. Ter um espaço para a prática da leitura nesse momento de distanciamento entre as pessoas passou a ser algo muito importante”, salientou.

As atividades de estímulo à leitura dão continuidade ao trabalho desenvolvido nas salas de leitura no Cense Dom Bosco, EJLA e Cense Ilha, PACGC, Cense Volta Redonda e GCA, Cense Friburgo, Criaad São Gonçalo e Criaad Ilha, Cecel e Cai Belford Roxo. Onze unidades que foram inauguradas ou revitalizadas nos últimos meses, em parceria com a Secretaria de Estado de Educação (Seeduc) e a Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec).

Empréstimo de livros nas unidades da capital

Adolescentes que estão em unidades na cidade do Rio podem solicitar à Divisão de Pedagogia (Diped) e à Biblioteca Claudio Tourinho Saraiva, na Ilha do Governador, o empréstimo de livros nas unidades, com o objetivo de lhes oferecer mais opções de atividades culturais durante este período de pandemia, quando há menor oferta de atividades.

“Estimular o gosto pela leitura é muito importante em qualquer fase da vida, no sentido em que ajuda a despertar a criatividade, aumentar o vocabulário, e melhorar a escrita, sobretudo na adolescência, que se trata de uma fase de transformação da vida em que a dificuldade de nomear o que se sente pode vir acompanhado de uma agressividade incontrolada e ou uma enfermidade”, explica Lilian Casimiro, uma das bibliotecárias da equipe.

Em sua opinião, em contextos de privação de liberdade, a atividade se torna essencial. “Além da leitura contribuir na redução do estresse e ansiedade, atua também como uma atividade de cultura e lazer para os adolescentes, principalmente nesses tempos de isolamento social”, conclui Lilian Casimiro.

Danielle Torres, também bibliotecária, enfatiza que a experiência de leitura é rica sob diversos aspectos: “sobretudo na abordagem de saúde mental, a atividade ajuda a amenizar o medo e a insegurança, sentimentos tão presentes em tempos de pandemia”, salientou, acrescentando que o servidor também pode manter o hábito de ler ou aproveitar o momento para começar. “ Criamos um ponto de leitura da biblioteca na recepção da Escola de Gestão Socioeducativa Paulo Freire”.

Formação de agentes facilitadores

A Biblioteca Degase não apenas oferece as obras, mas também disponibiliza uma formação de agentes facilitadores para atuarem em atividades culturais com uso dos recursos literários. Mesmo nesse momento de trabalho remoto, o operador socioeducativo interessado – seja ele agente, técnico, gestor ou voluntário – pode contar com essa ferramenta de capacitação à distância.

A Biblioteca preparou material e orientação a quem se dispuser a atuar nos ambientes de ressocialização; basta entrar em contato pelo e-mail biblioteca@novodegase.rj.gov.br e solicitar o material, que também conta com acompanhamento técnico. Essa capacitação, através da Escola de Gestão Socioeducativa Paulo Freire (ESGSE), certifica com horas para fim de progressão funcional.

Fonte: SOLIDÁRIO

Na Amazônia, as bibliotecas estão sendo incendiadas

A penetração do coronavírus ao longo do rio Tapajós, no Pará, está matando os anciãos dos povos tradicionais. Com eles, a doença leva embora história e memória

Texto por Bruna Rocha e Rosamaria Loures, em El País

“Saiba que no meu país, toda vez que um velho morre, uma biblioteca é incendiada”, disse o grande intelectual malinês Amadou Hampaté Bâ em 1962. A frase foi dita em resposta a um senador norte-americano que acusava africanos de serem “ingratos, analfabetos e ignorantes” em sessão do Conselho Executivo da UNESCO.

A formulação de Hampaté Bâ nos ajuda a compreender a importância do ancião para sociedades orais, que transmitem seu conhecimento e história a partir da palavra falada. O provérbio se aplica perfeitamente aos povos da floresta da Amazônia —sejam indígenas, ribeirinhos ou quilombolas— bem como todos os povos e comunidades tradicionais pelo Brasil que têm em seus velhos fontes de conhecimento, autoridade moral, orientação política e espiritual. São justamente esses alicerces que, por pertencerem ao principal grupo de risco da covid-19, estão entre os primeiros a morrer. E em série: estamos assistindo a um genocídio em tempo real.

Nos últimos dias, temos seguidamente recebido notícias que indicam a penetração do coronavírus ao longo do rio Tapajós, no oeste do Pará, inclusive no seu médio e alto curso, onde vive grande parte do povo Munduruku e os ribeirinhos de Montanha e Mangabal, que se autodenominam beiradeiros. Seis velhos Munduruku já faleceram. Jerônimo Manhuary (86 anos) em 10 de maio; Angélico Yori (76 anos) em 22 de maio; Raimundo Dace (70 anos) em 26 de maio; Vicente Saw (71 anos) em 1º de junho; Amâncio Ikõ (60 anos) em 02 de junho e Acelino Dace (77 anos) em 03 de junho.

A morte destes anciãos vai muito além da tragédia local e familiar. Como destacado em uma carta das Associações Munduruku: “Também nos preocupamos com a perda da nossa história, guardada e transmitida por nossos velhos, sábios e pajés, para quem o vírus é mais perigoso.” Os anciãos dessas comunidades representam seus repositórios de conhecimento sobre o território, a história do grupo, a fabricação de objetos e alimentos específicos, dentre outros.

Acabamos de saber que uma das principais referências para o povo Munduruku do médio Tapajós, Amâncio Ikõ Munduruku, não resistiu e faleceu hoje, 02 de junho. Estava desde sábado em uma UTI em Belém, sedado e intubado, respirando com auxílio de ventilação mecânica. Nascido em 1960 no alto rio Tapajós, chegou com a família em Itaituba no início da década de 1970. Sua história se mistura com a de Itaituba, que à época tinha apenas uma rua. Em ironia amarga, a família escolheu o local que se tornaria a Praia do Mangue por ele ser suficientemente próximo a um posto médico que poderia atender sua mãe. Além da luta pela saúde, a vida de Amâncio se caracterizou também pela luta por educação diferenciada, pelo território e pela identidade. Amâncio brigou pelo direito dos Munduruku poderem registrar seus nomes originais, e não nomes de brancos como obrigavam os cartórios, em suas carteiras de identidade. Com apoio de parceiros, fundou a Associação Pariri em 1996, que segue sendo fundamental na luta por direitos. Foi ele, ainda, que aconselhou o cacique Juarez Saw, que também deixou o alto Tapajós, a retomar parte do território ancestral Munduruku que hoje é a Terra Indígena Sawre Muybu/Daje Kapap Eïpi. “Meu pai é um grande guerreiro”, ressalta um de seus filhos, Ikõ Biatpu Munduruku. Ikõ temia que seu pai, como seu avô, morresse sozinho em Belém.

Apenas após grande insistência da família que Amâncio foi levado à Unidade de Pronto Atendimento de ambulância. Antes saudável, seu quadro se agravou rapidamente, apresentando insuficiência respiratória aguda, queda na saturação de oxigênio e comprometimento do pulmão. Como Itaituba, cidade de mais de 100 mil habitantes, possui apenas quatro leitos de UTI e todos estavam ocupados, uma solicitação de remoção aérea foi feita no dia 27 de maio. Amâncio apenas realizaria a viagem no dia 30, após ter sido intubado e reanimado manualmente até atingir um nível de saturação mínimo para poder sobreviver à viagem. Em áudio circulado pelo WhatsApp, uma médica intensivista que o atendeu denuncia a falta de equipamentos, insumos e materiais básicos. Em suas redes sociais, a assessoria de comunicação da Prefeitura do Município de Itaituba oferece outra versão, alegando que uma UTI aérea foi “imediatamente” disponibilizada para Amâncio, e que a solicitação de leito em Belém foi realizada pela Secretaria Municipal de Saúde de Itaituba, ignorando a articulação fundamental da COIAB –Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira– para que isso ocorresse.

No alto Tapajós, a grande penetração do garimpo de ouro pode ser diretamente relacionada à rápida disseminação da covid-19. No dia 21 de maio, após uma reunião na aldeia Jacarezinho em que se discutiu a legalização do garimpo em terra indígena, os garimpeiros encorajaram Mundurukus de diversas aldeias próximas à cidade, inclusive crianças, a irem à cidade de Jacareacanga participar de uma carreata a favor do garimpo, contrariando os conselhos do pessoal da vigilância sanitária e do Distrito Sanitário Especial Indígena Tapajós. Isto contribuiu de forma decisiva para levar o vírus às aldeias, explicando porque o cacique Vicente, que sequer havia saído de sua aldeia, Sai Cinza, foi morto pela covid-19. Dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) registraram que, em abril de 2020, a TI Munduruku figurou como a terra indígena mais desmatada do país, desmatamento esse intimamente associado ao avanço do garimpo.

Dispneico, com saturação de oxigênio em cerca de 60%, Martinho Borõ Munduruku está internado em isolamento no Hospital Municipal de Jacareacanga (onde não há leito de UTI). Nascido em 1943, morador da aldeia Caroçal Rio das Tropas e antigo cacique, é considerado um dos primeiros professores Munduruku, que alfabetizou muitas crianças e lutou pela educação e saúde. Grande historiador, conhece os cânticos Munduruku, e participava das assembleias promovidas pelo povo Munduruku, assim como de ações autônomas de fiscalização do território. Sempre preocupado em “contar as histórias dos antepassados para que as crianças saibam as histórias dos nossos avós,” trabalhou como relator da História dos Antigos Munduruku (1977-1979). Há mais de uma semana Martinho, que é diabético, começou a apresentar sintomas. Segundo relatos, o médico do Serviço Especial de Saúde Indígena que se encontrava na aldeia teria dito a quem apresenta sintomas parecidos com os da covid-19 que estariam com virose. Já com dificuldade de respirar, Martinho foi removido de avião até o hospital de Jacareacanga apenas na última sexta, 29 de maio. Lá, começou a ser tratado com hidroxicloroquina, o que piorou seu estado de saúde. Endossada pela Secretaria de Saúde do Pará, a aplicação deste tratamento pode ser feito mesmo em pacientes “no início de sintomas.” Considerando o quadro descrito pelo seu sobrinho, Jair Boro, que ao chegar em Jacareacanga o tio mal conseguia falar e a alta probabilidade de sua acompanhante não dominar a língua portuguesa, é de se perguntar até onde o “consentimento” dado pelo tratamento, tão enfatizado pelo Ministério da Saúde, seria válido.

Em Montanha e Mangabal, após uma grande luta contra grileiros que tentaram os expulsar violentamente de sua terra e que, em peças judiciais, os tacham de invasores, os beiradeiros tiveram uma parte de seu território histórico contemplado por um Projeto de Assentamento Agroextrativista em 2013. A decisão histórica foi embasada por amplo espectro de provas que incluíam registros feitos por viajantes desde o século XIX, antigos registros de batismo – e, fundamentalmente, pela memória coletiva do grupo, transmitida pelos mais velhos e alicerçada em marcos da paisagem. Uma das principais matriarcas dessa comunidade, Odila Braga dos Anjos forneceu relatos, fotografias e documentos que seriam fundamentais ao processo. Nascida em 1937 na localidade de Lajinha, dona Diloca, como é conhecida, tem onze irmãos e teve dez filhos no beiradão do Tapajós. É uma fonte de conhecimento sobre a história do grupo e sua intricada rede de parentesco. Agora, sua hipertensão preocupa filhos e netos mais do que nunca. Garimpeiros vivem aportando no porto da comunidade Sapucaia, onde vive dona Odila, para acessar a bica d’água que sai do morro. Não se sabe se andam armados. É possível que estejam contaminados. Conforme relatado por moradores do território, há confirmações de garimpeiros contaminados, com um caso que agora se encontra em uma UTI na cidade de Santarém.

Nos últimos 500 anos, a invasão dos territórios indígenas sempre veio acompanhada de surtos epidêmicos. A diferença agora se dá pela dimensão da degradação ambiental, sem igual, e pela rapidez do alastramento do vírus. Essa degradação está desfigurando paisagens que serviam como referências de memória para os povos da floresta que vivem no Tapajós. A chegada da covid-19 no médio e alto Tapajós agora aprofunda a degradação das singulares história e tradição destes territórios.

Uma comparação com a destruição ao patrimônio histórico e cultural gerada pelo incêndio do Museu Nacional em setembro de 2018 é possível, mas nem isso poderá abranger o abalo desestruturante e irreversível que está em curso para os povos da floresta, que frequentemente apresentam altos índices de comorbidades resultantes de processos desordenados de contato com a sociedade industrial, que incluem mudanças abruptas da dieta, atividades laborais insalubres e precariedade do atendimento à saúde.

Na ausência de equipamentos médicos para todos, basear a escolha sobre quem vive e quem morre a partir de parâmetros de idade, como tem sido discutido em contextos urbanos, ignora a centralidade dos anciãos para os povos da floresta. Jair Boro Munduruku, primeiro arqueólogo Munduruku formado pela Universidade Federal do Oeste do Pará, escreveu: “Os nossos anciãos têm grande conhecimento. Contam sobre acontecimentos envolvendo o nosso povo, sobre como as coisas eram feitas e porquê, assim como o que não poderia ser feito.” Foi o conhecimento dos anciãos que garantiu o reconhecimento territorial de diferentes povos da floresta, e que os informa sobre suas raízes. E não apenas eles: cada vez mais, pesquisadores de diferentes áreas têm consultado os anciãos locais sobre flora, fauna, história e um universo de informações. Agora, estas bibliotecas estão sendo incendiadas.

*Bruna Rocha é arqueóloga pela Universidade Federal do Oeste do Pará.

Rosamaria Loures é doutoranda em Antropologia na Universidade de Brasília.

Cacique Vicente Saw, morto em primeiro de junho por covid-19, cumprimenta o então Cacique Geral do povo Munduruku, Biboi, ao lado do futuro (e atual Cacique Geral, Arnaldo), em sua aldeia em fevereiro de 2013.VINICIUS HONORATO

Fonte: Blog Combate Racismo Ambiental

BIBLIOTECONOMIA NEGRA BRASILEIRA

A trajetória, a ideia da pesquisa, os resultados e as percepções sobre a questão

 Texto por Franciéle Garcês

Desde a graduação tenho estudado e refletido sobre a inserção das culturas africana e afro-brasileira na biblioteconomia. Atuei como bolsista no Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da Universidade do Estado de Santa Catarina (NEAB/UDESC), o qual me inseriu no mundo de intelectuais negras(os) e suas contribuições para a discussão sobre as relações étnico-raciais, estudos descoloniais, epistemologias não-hegemônicas, entre outras perspectivas antirracistas. Dentro do meu curso, a discussão sobre as populações negras, suas necessidades de informação para transformação social, política e educacional, assim como o estudo de intelectuais negras(os) da biblioteconomia era algo limitado.

Meu trabalho de conclusão de curso, orientado pela professora Daniella Pizarro, me permitiu fazer um estudo da inserção da questão étnico-racial no ensino de biblioteconomia daquela instituição, a partir das percepções docentes. De posse dos resultados da pesquisa e com todo o trabalho realizado pelo NEAB/UDESC durante anos, assim como as pesquisas voltadas para as discussões étnico-raciais feitas pelas bibliotecárias negras Graziela dos Santos Lima, Sandra Fontes e Andreia Sousa da Silva – que, como eu, atuaram como bolsistas do NEAB/UDESC – além do trabalho da professora Daniella Pizarro junto ao Departamento, foi introduzida a disciplina de Relações étnico-raciais durante a reformulação do currículo de biblioteconomia. Inclusive, a Andreia Sousa da Silva foi aprovada como professora assistente para atuar nesta disciplina, o que foi um grande ganho para o curso.

Posteriormente, na dissertação, o intuito foi ampliar em nível nacional a análise da introdução das culturas africanas e afro-brasileiras nos cursos de biblioteconomia brasileiros. Assim, fui aprovada no mestrado em ciência da informação, do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT/UFRJ) e, neste programa, fui orientada pelo professor Gustavo Saldanha, o qual incentivou que eu fosse o mais longe possível dentro da pesquisa em busca de perspectivas contra-hegemônicas e voltadas para às problemáticas sociais na Biblioteconomia.

Foi também o professor Gustavo que comentou sobre a Black Librarianship Americana como um movimento internacional dessas perspectivas e incentivou que eu explorasse os aspectos históricos, teóricos e os protagonistas desse movimento. Estudando sobre tal movimento dos Estados Unidos, descobri uma infinidade de bibliografias, intelectuais, eventos e ações dentro do movimento associativo e da área que demonstraram o percurso em prol do acesso de pessoas afro-americanas à formação em biblioteconomia, às bibliotecas e informação durante o período de segregação.

A partir daí, voltamos nosso olhar para o contexto brasileiro e nos perguntamos se existia uma Biblioteconomia Negra Brasileira (BNB). Elaborei um formulário para encontrar bibliotecárias(os) negras(os) pelo país e o lancei nas mídias sociais. O retorno foi muito positivo, pois descobri várias pessoas negras bibliotecárias, muitas ainda desconhecidas para mim.

Com uma ampla coleta de dados, desde eventos até os currículos lattes de bibliotecárias(os) negras(os), foi possível comprovar a existência da Biblioteconomia Negra Brasileira a partir do movimento reflexivo que discute a formação na área, a atuação bibliotecária de profissionais negras(os), presença e atuação no movimento associativo e a produção científica realizada por bibliotecários negras(os) e não-negras(os) sobre questões étnico-raciais.

Dentre os dados, encontramos o primeiro livro que aborda sobre o negro, o qual foi elaborado e publicado em 1988 pela Biblioteca Nacional e se chama “Para uma história do negro no Brasil”. Encontramos também a atuação de bibliotecárias(os) negras(os) dentro de associações profissionais, FEBAB, conselhos federal e regionais da área. No Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB), hoje, estamos no terceiro presidente do CFB bibliotecário negro, o professor Marcos Miranda. Dentre as primeiras graduações de pessoas negras em biblioteconomia encontramos a Regina Tonini, que por muitos anos foi bibliotecária da Petrobrás. Na docência, a professora Maria Aparecida Moura como primeira professora e bibliotecária negra titular da Escola de Ciência da Informação e com importante produção científica e atuação profissional em prol de causas antirracistas e das ações afirmativas dentro da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Os eventos científicos como o Painel Biblioteconomia em Santa Catarina, o Congresso Brasileiro de Biblioteconomia, Documentação e Ciência da Informação (CBBD), em Santa Catarina, Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (ENANCIB), também contaram com apresentações de trabalhos e palestras que tinham o recorte étnico-racial. Importante frisar que houve um aprofundamento na produção científica e em estudos de pós-graduação no campo, a partir da implementação da Lei de Diretrizes e Base da Educação Brasileira (LDB) e da Lei nº 10.639/2003, que trouxeram a obrigatoriedade do ensino de história e cultura negras nas redes de ensino brasileiras.

Com a análise do currículo lattes e com os dados do mapeamento, verificamos que existem bibliotecárias(os) negras(os) que realizam ações enfoque étnico-racial dentro das bibliotecas brasileiras, mesmo que muitos não divulguem essas ações via produção científica. Assim, englobando tudo isso criamos a Cronologia da Biblioteconomia Negra Brasileira – publicada nos anexos da dissertação.

A pesquisa demonstrou que há tempos a questão étnico-racial tem sido abordada, refletida e discutida dentro do campo biblioteconômico-informacional, em especial por pessoas bibliotecárias negras. Ou seja, esse movimento da Biblioteconomia Negra não é novo – vide a Black Librarianship Americana que tem sua existência datada desde 1808 -, o que ainda existe é um discurso de que são discussões e pesquisas inaugurais, quando na verdade bibliotecárias(os) negras(os) já estão pensando a formação bibliotecária (que ainda possui um viés eurocentrado e norteamericanizado, em grande parte fora das realidades do nosso país); o racismo presente nas relações; a branquitude presente nas práticas profissionais e na docência, responsabilidade ético-política para a cidadania etc. E mais importante: estão buscando soluções para resolver esses problemas.

Dentre os pontos positivos tenho percebido a ampliação do movimento de bibliotecárias(os) negras(os) pelo país. Atualmente temos o Coletivo Nacional de Bibliotecárias(os) Negras(os), cuja criação aconteceu a partir da união das pessoas autoras da obra coletiva “Bibliotecárias(os) Negras(os): ação, pesquisa e atuação política”, publicada pela Associação Catarinense de Bibliotecários em 2018. Há também a formação de Coletivos Regionais, como o Coletivo de Bibliotecárias(os) Negras(os) de São Paulo e outros ainda em construção.

Além disso, a criação do Encontro Nacional de Bibliotecárias(os) Negras(os) e Antirracistas, cuja a primeira edição foi realizado no ano passado, agregou pessoas bibliotecárias negras e não-negras para discussão de diversas ações de engajamento em prol de melhores condições de emprego e trabalho, acesso à educação e à capacitação, desconstrução do racismo institucional e estrutural, além de ações voltadas para o fortalecimento identitário das populações de origem africana em bibliotecas e unidades de informação.

No entanto, apesar da existência da Biblioteconomia Negra Brasileira, quando chegamos à formação bibliotecária, esse movimento ainda é desconhecido, assim como é incipiente a introdução das culturas africanas e afro-brasileiras nos currículos dos cursos presenciais de biblioteconomia brasileiros. Na pesquisa, identificamos 16 disciplinas sobre as questões étnico-raciais em mais de 2.200 analisadas. Ainda, nas entrevistas com docentes vimos que mesmo considerando importante as temáticas, percebemos que muitos ainda desconhecem intelectuais negras(os) da biblioteconomia, pesquisas e projetos sobre essas questões, assim como poucos introduzem essas discussões em sala de aula.

A falta de formação para uma biblioteconomia antirracista e afrodiaspórica traz essas e outras consequências, especialmente em uma sociedade como a brasileira, onde a branquitude e o racismo são estruturantes e estruturadores das relações sociais, trabalhistas, políticas e econômicas; e o mito da democracia racial e a meritocracia são utilizados como justificativas frente às desigualdades presentes na sociedade.

Somente com uma transformação curricular dos cursos que promova conhecimento sobre aspectos sociohistóricos de construção do país e percepção crítica sobre manutenção das desigualdades e opressões sofridas pelas populações negras – que são deixadas à margem para exploração de uma sociedade capitalista – é que poderemos formar profissionais com consciência ético-política, comprometidos com a diversidade e sensibilizados para questões sociais e étnico-raciais. O que se espera é o enfretamento dos obstáculos supracitados para a construção de uma Biblioteconomia brasileira com um currículo antirracista, que contemple epistemologias diversas e perspectivas coletivas de construção cidadã de uma sociedade.

Mapeamento de bibliotecárias(os) negras(os)

Na esteira desse debate e dessas pesquisas, estamos realizando o mapeamento de bibliotecáras(os) negras(os). O intuito é conhecer e visibilizar a todas as pessoas negras da biblioteconomia no doutorado. Quero me aprofundar nas epistemologias negro-africanas da biblioteconomia e no pensamento de bibliotecárias(os) negras(os) para visibilizá-los como intelectuais e colaboradoras(es) da construção da nossa profissão em todos os setores, desde o ensino até a atuação. Para colaborar com a pesquisa, as pesquisas podem acessar o link do mapeamento clicando aqui. Os livros sobre e por bibliotecári@s negr@s podem ser baixados aqui.

Fonte: REVISTA BIBLIOO

Acessibilidade: a defesa do consumidor para todos

 

O tratamento diferenciado se dá por separações afirmativas; A lei 13.146/14 estabeleceu direitos a pessoas com deficiência

Texto por Fernando Capez

Marcelo Camargo/Agência Brasil
O defesa do consumidor é para todos

O consumidor é considerado por lei a parte vulnerável na relação de consumo (CDC, art. 4º, I), já que o fornecedor tem superioridade técnica (conhecimento do produto ou serviço), econômica (maior estrutura financeira), jurídica (melhor aparato para defesa jurídica) e política (mais influência).

A vulnerabilidade é presumida e não admite prova em contrário. Por essa razão, o Código de Defesa do Consumidor protege o consumidor e lhe concede prerrogativas para compensar sua menor força, como a inversão do ônus da prova (CDC, art. 6º, VIII).

Existem graus de vulnerabilidade, havendo consumidores ainda mais fragilizados (hipervulneráveis), merecedores de proteção especial. O tratamento privilegiado visa a conferir-lhes paridade de armas com o fornecedor.

O tratamento diferenciado se dá por meio da chamada discriminação positiva ou separação afirmativa. Como exemplos dessa política podemos citar a Lei 13.146/14, que estabeleceu para pessoas com deficiência, preferência de assentos (art. 44, §§ 1º, 2º e 3º), vagas especiais para automóveis (art. 47) e atendimento preferencial (art. 30, I).

Discriminação positiva é a implementação de políticas públicas para minimizar a desigualdade existente, por meio das chamadas affirmative actions (ações afirmativas ou políticas inclusivas), criadas pela legislação norte-americana no governo Kennedy, para combater a discriminação (racial, religiosa e por origem) e fortalecer a luta pelos direitos civis.

Como exemplos de ações afirmativas na legislação brasileira, temos o art. 37, VIII, da Constituição Federal, que reserva percentual dos cargos e empregos públicos para pessoas portadoras com deficiência e a Lei 8.213/91, estabelecendo cotas para pessoas com deficiência no corpo funcional das empresas.

O PROCON-SP, por meio da Escola de Proteção e Defesa do Consumidor (EPDC), tem desenvolvido ações para beneficiar consumidores com deficiência, em cumprimento à Constituição Federal, que impõe atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência (CF, art. 208, III).

Essa categoria de hipervulneráveis enfrenta dificuldades nas relações de consumo. Uma simples ida ao supermercado ou compra pela internet pode se transformar em um desafio.

Nossa Constituição considerou garantia fundamental a proteção ao consumidor (CF, art. 5º, XXXII), determinou a criação do Código de Defesa do Consumidor (ADCT, art. 48) e exigiu do Estado a inclusão das pessoas com deficiência (CF, 23, II e 24, XIV).

Além do CDC, foi criado o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/15), conhecido como Lei Brasileira de Inclusão , que foi inspirado no Protocolo da Convenção da ONU sobre Direitos das Pessoas com Deficiência (Tratado de Nova Iorque, de 2006).

Esse Tratado foi incorporado ao nosso ordenamento com força de emenda constitucional, tendo sido aprovado pelas duas Casas do Congresso Nacional pelo quórum qualificado de 3/5 de seus membros, em dois turnos de votação (CF, art. 5º, § 3º).

A Lei Brasileira de Inclusão estabeleceu a educação e a informação como direitos fundamentais da pessoa com deficiência, bem como a garantia de acesso à informação e à sua respectiva comunicação.

Definiu ainda, deficiência como todo impedimento de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, de caráter duradouro que impeça a pessoa de participar na sociedade em igualdade de condições aos demais.

O PROCON-SP considera necessário eliminar barreiras e garantir acessibilidade aos deficientes e, para tanto, investe na digitalização das reclamações e processos sancionatórios.

Nos congressos e palestras realizados em 2019, disponibilizou fones de ouvido e intérpretes de libras. Divulga também cartilhas online e gratuitas sobre os direitos específicos das pessoas com deficiência.

Respeitando a diversidade, com olhar inclusivo e acolhedor, será possível avançar na construção de uma sociedade menos injusta e mais inclusiva.

Fonte: iG – Brasil Econômico

 

Biblioteca é contemplada com equipamentos para acessibilidade

Texto por Anderson Mendes

Biblioteca Municipal conta atualmente conta com cerca de 29 mil títulos. Foto: Divulgação

A Biblioteca Municipal, através da Secretaria de Cultura e Turismo, será contemplada com equipamentos de tecnologia assistida, voltados para uso do público com deficiência visual.

A conquista chega por intermédio do concurso “São Paulo + Inclusão Bibliotecas” responsável por selecionar projetos de bibliotecas públicas interessadas em receber os equipamentos, ligado ao governo estadual, e que contou com a participação de Mogi Mirim.

O município conquistou a terceira colocação no concurso, que premiou somente dez cidades de todo o Estado de São Paulo. A Biblioteca receberá nos próximos meses kits com scanner leitor, linha braile e computador.

O concurso é promovido pela Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência, através de convênio firmado com o Fundo de Interesses Difusos (FID) da Secretaria de Justiça e Cidadania.

As cidades interessadas deveriam elaborar um projeto indicando como pretendiam aprimorar os serviços bibliotecários para as pessoas com deficiência e qual estratégia seria utilizada para divulgação das novas ações para a comunidade cega.

Um dos objetivos é garantir o acesso desse público, equiparando as oportunidades das pessoas com e sem deficiência aos bens culturais. No Estado, os equipamentos já estão instalados em bibliotecas de 62 municípios.

O município se inscreveu em fevereiro para o programa, que era um desejo nosso enquanto secretaria. É mais uma conquista importante para a Biblioteca Municipal de Mogi Mirim, estamos colaborando para a inclusão e acessibilidade, oferecendo a Cultura para todo o público”, festejou o secretário de Cultura e Turismo, Marquinhos Dias.

Não foi divulgado prazo para a chegada do equipamento à Biblioteca, que atualmente conta com cerca de 29 mil títulos.

O espaço permanece fechado ao público, em razão da pandemia do novo coronavírus (Covid-19). (Da Redação)

Fonte: O Popular

Leitores: Leitura, bibliotecas escolares e alunos com diversidade funcional. Que relação?

A sociedade exige cada vez mais que a escola desenvolva competências nos alunos, no sentido destes mesmos serem agentes transformadores da realidade envolvente.

Texto por António José Alves Oliveira

A sociedade exige cada vez mais que a escola desenvolva competências nos alunos, no sentido destes mesmos serem agentes transformadores da realidade envolvente. A prestação de um ensino de qualidade tem sido uma preocupação de todos os intervenientes no processo educativo, que não pode, nem deve, ser separada de um princípio assente na igualdade de oportunidades para todos.

A educação de crianças com diversidade funcional nas turmas regulares veio provocar mudanças profundas no sistema educativo, partindo de alterações legislativas, organizativas e em mudanças das práticas educativas. O conceito de escola inclusiva baseia-se numa premissa: a de uma educação para todos, promovendo o respeito pelas diferenças e percursos individuais, devendo toda a comunidade escolar estar empenhada no processo de ensino e aprendizagem de todos os alunos. 

Uma abordagem inclusiva requer uma filosofia organizacional que vise o desenvolvimento de metodologias/estratégias diferenciadas, trabalho cooperativo/colaborativo entre professores, técnicos e famílias, medidas educativas adequadas e ajustadas aos alunos, recursos humanos e tecnológicos que lhes permitam melhorar o seu potencial humano. A questão da diversidade funcional no âmbito da Educação Especial tornou-se num princípio crucial do ponto de vista da equidade educativa e da coesão social. A elaboração de uma resposta coerente, integrada e sistemática a esta problemática, exige que se conheça as diferentes problemáticas educacionais.

Sendo hoje o Mundo uma aldeia global, onde a informação percorre os mais recônditos cantos do planeta a uma velocidade outrora impensável, os meios tecnológicos de divulgação são progressivamente mais diversificados e eficazes para os seus utilizadores. Perante este facto, a escola, sendo a instituição melhor capacitada para o papel de educar/formar os indivíduos que compõem a sociedade em que vivemos, deve estar preparada para conseguir acompanhar esse desenvolvimento acelerado do conhecimento e ser capaz de motivar todos os alunos, com ou sem dificuldades permanentes de aprendizagem e participação, durante toda a sua escolarização.

O aluno quando comunica através da linguagem verbal ou escrita, desenvolve situações de diálogo, revela as suas vivências, confronta as suas opiniões, aperfeiçoa o ato de falar, ler e escrever. 

Numa época em que o tema da literacia assume uma importância fulcral no desenvolvimento das sociedades contemporâneas, a experiência da leitura está interligada, não só no saber fazer implícito nas exigências profissionais a que os indivíduos estão sujeitos, mas também melhoria da sua qualidade de vida, quando pensamos que a leitura pode proporcionar-nos prazer, conforto e estimulação intelectual. 

A biblioteca escolar é um elemento da organização do estabelecimento escolar. Portanto, pode constituir-se como um pólo de renovação pedagógica, de comunicação, de animação cultural, de estimulação do conhecimento e de desenvolvimento do pensamento crítico dos alunos. É neste cenário que a diferenciação pedagógica surge como um elemento fundamental no trabalho da biblioteca escolar, no que respeita à promoção de competências de leitura em alunos com diversidade funcional. 

A criação ou transformação das bibliotecas escolares em bibliotecas inclusivas será, inequivocamente, um modo de rentabilizar a documentação disponível em proveito da maximização das competências académicas dos alunos,  com resultados que se tornarão evidentes no desenvolvimento da inclusão laboral dos cidadãos com diferenças ao nível cognitivo, visual, auditivo ou motor.

É possível estimular a leitura dos alunos com diversidade funcional através da biblioteca da escola ou de uma qualquer biblioteca pública, desde que se tenha em conta a forma como o seu utilizador acede à mesma. Basta implementar algumas das tecnologias de apoio disponíveis atualmente, por exemplo: livros em áudio, com pictogramas,  filmes legendados ou com interprete de Língua Gestual Portuguesa, digitalizadores de texto, lupas digitais, etc.)

O professor-bibliotecário é aquele que pode abrir as portas da leitura a alunos com desvantagem intelectual, e frequentemente, social e económica. Mas dar o mesmo a todos no espaço da biblioteca da escola, não é respeitar a individualidade  ou responder às  necessidades educativas de cada aluno; é antes, promover a infoexclusão, algo que a escola inclusiva tem de erradicar, se quer ser verdadeiramente democrática.

Portanto, o professor-bibliotecário assume um papel vital, provavelmente ainda subvalorizado, na preparação e inclusão dos indivíduos no mundo que os rodeia. Mas a biblioteca não se resume apenas às funções de pesquisa documental, empréstimo de livros, ocupação de tempos livres, animação ou difusão de trabalhos. Através de diferentes formas de dinamização e estimulação de hábitos de leitura, a biblioteca está a desempenhar uma função de promoção da cultura e da inclusão social das pessoas com limitações na actividade e participação, de modo a que estas possam aceder ao conhecimento em igualdade de oportunidades, mas melhorando as suas condições e, assim, alcançarem um verdadeiro gosto pela leitura. A valorização crescente das necessidades especiais dos utilizadores das bibliotecas, parece estar a contribuir progressivamente para mudanças legislativas e alterações no funcionamento das bibliotecas públicas, que esperamos terem vindo para ficar.

Fonte: Reconquista

Menos de 1% dos sites brasileiros são totalmente acessíveis, aponta pesquisa

Levantamento analisou aspectos como imagens, links e presença de marcadores de formulários para ajudar o acesso de deficientes auditivos, visuais ou motores

Texto por Bruna Arimathea*

Um levantamento do Movimento Web para Todos e da BigDataCorp indicou que apenas 0,74% dos sites brasileiros foram aprovados em todos os testes de acessibilidade para pessoas com algum tipo de deficiência, como visual, auditiva ou motora. A pesquisa incluiu 14,65 milhões de sites ativos no País.

Em estimativa, o Movimento Web para Todos afirma que atualmente, o Brasil possui mais de 45 milhões de pessoas que precisam de alguma adaptação nos sites para consumirem conteúdos na internet. Em tempos de pandemia de coronavírus, onde a informação é rapidamente atualizada nas redes, muitas dessas pessoas podem ficar sem acesso, à margem da falta de ajustes de veículos na rede.

Os critérios avaliados na pesquisa seguem os mesmos aplicados anteriormente, em setembro de 2019. Entre eles estão verificações de formulário em aqueles sites que possuem campos de preenchimento de dados, imagens, links e validação do World Wide Web Consortium (W3C), entidade referência de padrões a serem seguidos na web. Cerca de 68,8% dos sites brasileiros foram submetidos aos testes propostos.

Mesmo com a pequena porcentagem — 0,74% — os números indicam melhora de pelo menos 20% desde o último levantamento. Ainda, no ano passado, 5,60% dos sites falharam em todos os testes, enquanto neste ano, o número caiu para 0,01% de sites falhando em todos os testes aplicados.

Segundo os organizadores do estudo, sites que não passam no teste ainda podem oferecer adaptações para deficientes, a validação apenas certifica uma maior probabilidade navegação e experiência do usuário. Reinaldo Ferraz, especialista em Desenvolvimento Web do W3C Brasil, explica que apesar de não ser um verificador de acessibilidade, a conformidade com o teste ajuda a eliminar barreiras, obrigando o site a ter descrição de imagens e marcador de formulários, por exemplo.

Governo também teve melhora

Nos sites governamentais, o levantamento indicou uma melhora em relação ao ano passado. No primeiro estudo, apenas 0,34% dos sites não apresentavam algum tipo de problema, enquanto neste ano, 3,29% não apresentam falhas na avaliação. Por segmento, os que mais apresentam problemas na acessibilidade são blogs, seguidos por e-commerce, sites corporativos, de notícias e educacionais.

“Parece que está existindo certo esforço. Eles não cobrem todos os quesitos, porém a quantidade de sites falhando em todos os testes é muito menor que no ano passado. Mas o fato é que ainda temos 99,26% dos sites com pelo menos um problema a ser solucionado em termos de acessibilidade”, explicou o presidente executivo da BigDataCorp, Thoran Rodrigues, durante teleconferência realizada com jornalistas.

*É estagiária, sob supervisão do editor Bruno Capelas

Fonte: Terra

Ibermuseus apresenta dois importantes recursos para o setor neste Dia Internacional dos Museus

Uma Ferramenta de Autodiagnóstico em Acessibilidade e um Centro de Documentação foram criados para promover a igualdade, a diversidade e a inclusão, e para apoiar a gestão dos museus.

Partindo da premissa de que os museus devem ser instituições abertas, democráticas e inclusivas para todas as pessoas, o Programa Ibermuseus, por meio de seu Observatório Ibero-americano de Museus, apresenta uma ferramenta que facilita o diagnóstico da acessibilidade das instituições museológicas.

Como resultado de uma estreita colaboração com a Direção-Geral do Património Cultural de Portugal, nasce a Ferramenta de Autodiagnóstico em Acessibilidade do Ibermuseos, um recurso on-line que permite aos museus conhecer o grau de acessibilidade de sua sede, localização, exposições, comunicação, consultoria, capacitações, emprego, avaliação e gestão.

Depois de responder a um grupo de perguntas simples, a instituição conhecerá sua situação por meio de um resumo dos resultados e uma representação gráfica deles, que pode ser baixada em vários formatos. O recurso também possui um glossário e uma seção para disseminar boas práticas.

Ao mesmo tempo, a ferramenta também apoiará o desenho de políticas públicas, uma vez que facilita aos órgãos de gestão dos museus dos países membros do Ibermuseus o acesso a relatórios globais sobre as instituições de cada país.

Além deste importante recurso, o Centro de Documentação Ibermuseus – CDI disponibiliza ao público mais de 200 publicações de países da região.

O CDI contempla uma grande diversidade de temas relacionados ao universo dos museus, como Acessibilidade, Comunicação, Conservação, Restauração, Curadoria, Educação, Estatística, Estudos de Público, Gestão, Inventário, Legislação, Memória, Museografia, Museologia, Patrimônio, Sustentabilidade, Tráfico Ilícito, entre outros.

Os visitantes podem filtrar sua pesquisa por país, ano, tema ou tipo de documento. No CDI encontra-se uma série de estudos, guias, manuais, reflexões, catálogos, revistas, publicações do Ibermuseus, recomendações e declarações históricas da museologia ibero-americana.

A apresentação pública desses dois recursos ocorre em um momento de fechamento temporário das instituições e adoção do trabalho remoto por muitos técnicos de museus. Dessa forma, muitos profissionais poderão de casa trabalhar na implementação de medidas acessíveis em suas instituições ou na expansão de seu conhecimento por meio de publicações que são referências na região.

Acesse:

Ferramenta de Autodiagnóstico da Acessibilidade

Centro de Documentação Ibermuseos

Juntos somos mais fortes – Museus pela igualdade

Fonte: Ibermuseos

“Existe um interesse crescente na biblioteconomia pela questão LGBT”

O bibliotecário da Universidade Federal do Maranhão e doutor em Políticas Públicas, Carlos Wellington Martins, fala, entre outras coisas, sobre o Dia Internacional de Luta contra a LGBTfobia, celebrada neste 17 de maio

Texto por Chico de Paulo

Neste domingo (17) é comemorado o Dia Internacional de Luta contra a LGBTfobia, uma data para celebrar a diversidade contra todos os tipos de preconceito, sobretudo no Brasil, considerado um dos países que mais discrimina e mata pessoas LGBTs no mundo.

A data coincide com o dia em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou o termo “homossexualismo” de sua Classificação Internacional de Doenças (CID), isso em 1990, informa o bibliotecário da Universidade Federal do Maranhão e doutor em Políticas Públicas, Carlos Wellington Martins.

“Só para atestar o atraso no avanço das pautas que tratam de orientações sexuais e identidades de gênero, apenas em 1990 a homossexualidade foi despatologizada e somente em 2019 a transexualidade deixa de ser considerada um transtorno mental”, explica Carlos.

Mas apesar dos avanços, o bibliotecário destaca que atualmente as pessoas estão menos reticentes em revelar seu preconceito e em alguns casos, de forma violenta e agressiva, seja verbal ou física, fato que se liga ao momento político que vivemos.

“O chefe do executivo já demonstrou em várias ocasiões (antes e depois de eleito) que não governa para a população LGBTQIA+ e que as demandas desse segmento sequer serão trabalhadas durante a sua gestão e ao proferir palavras de cunho lgbtfóbico chancela a violência que cada vez cresce no país”, critica.

Sobre as bibliotecárias e os bibliotecários, Carlos destaca que estas(es) têm um papel importante na construção dessa sociedade pautada em uma cultura de paz, respeito e tolerância, haja vista, as(os) profissionais atuarem em espaços culturais e educacionais que possibilitam a realização de um trabalho de base.

Nesta entrevista à Biblioo, Carlos destaca que o Brasil sempre figurou na lista de países que mais mata LGBTQIA+ no mundo, ocupando em muitos anos a primeira posição na perpetração de violência contra este grupo social. Confira a entrevista!

NO 17 DE MAIO SE CELEBRA O DIA INTERNACIONAL CONTRA A LGBTFOBIA. QUAL O SIGNIFICADO DESSA DATA PARA NÓS BRASILEIROS?

O dia 17/05 é uma data simbólica para a população de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Transgêneros, Queers, Intersexuais, Agêneros, Assexuais (LGBTQIA+) e demais identidades de gênero e orientações sexuais  por fazer menção a data em que a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou o termo “homossexualismo” de sua Classificação Internacional de Doenças (CID), isso em 1990, e, dessa forma, a despatologizou e tornou equivocado e obsoleto a utilização do termo com o sufixo ismo.

A data atua como um momento de reflexão e ação para que se possa criar uma cultura de paz, acabando com a violência contra LGBTQIA+, principalmente em um país que ainda insiste em uma cultura lgbtfóbica. Só para atestar o atraso no avanço das pautas que tratam de orientações sexuais e identidades de gênero, apenas em 1990 a homossexualidade foi despatologizada e somente em 2019 a transexualidade deixa de ser considerada um transtorno mental, no entanto, integra agora o capítulo sobre “condições relacionadas à saúde sexual” como uma incongruência de gênero. Ou seja, há muito ainda a se fazer no campo de informação, conscientização e políticas públicas

NOS ÚLTIMOS ANOS SE VIU EXPLODIR NO BRASIL A VIOLÊNCIA CONTRA A POPULAÇÃO LGBT. A QUE VOCÊ ATRIBUI ESSE FATO?

O Brasil sempre figurou na lista de países que mais mata LGBTQIA+ no mundo, ocupando em muitos anos a primeira posição, contrastando com a imagem de país acolhedor e libertário. Segundo dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), em 2019, a cada 26 horas um LGBTQIA+ é assassinado ou cometeu suicídio por conta da violência perpetrada, isso mesmo com a criminalização da LGBTfobia realizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) que evidencia que em conjunto com a lei outras medidas devem ser tomadas.

Como exemplo temos as campanhas de conscientização mais incisivas com a sociedade em geral, capacitação e treinamento para com os órgãos que atuam no recebimento da denúncia e na efetivação da investigação como delegacias, defensorias, ministério público e demais agentes, vale ressaltar que essa violência tem raiz cultural que precisa ser combatida, também, pelo viés educacional com a discussão de gênero, diversidade e sexualidade nos espaços educacionais.

EM QUE MEDIDA ESSA ONDA DE VIOLÊNCIA CONTRA A POPULAÇÃO LGBT TEM RELAÇÃO COM O MOMENTO POLÍTICO QUE VIVEMOS?

Além do patriarcado, do machismo e da masculinidade tóxica enraizada na sociedade brasileira, testemunhamos o crescimento de uma onda conservadora e reacionária que se materializa no estímulo ao ódio às minorias políticas, no esvaziamento do debate sobre as questões desta população, bem como influi na invisibilidade desses sujeitos sociais no cenário político.

O que se percebe, atualmente, é que as pessoas estão menos reticentes em revelar seu preconceito e em alguns casos, de forma violenta e agressiva seja verbal ou física. O chefe do executivo já demonstrou em várias ocasiões (antes e depois de eleito) que não governa para a população LGBTQIA+ e que as demandas desse segmento sequer serão trabalhadas durante a sua gestão e ao proferir palavras de cunho lgbtfóbico chancela a violência que cada vez cresce no país.

QUAL É OU QUAL DEVERIA SER O PAPEL DOS PROFISSIONAIS DA INFORMAÇÃO, ESPECIALMENTE OS BIBLIOTECÁRIOS, EM RELAÇÃO A ESSA QUESTÃO?

Nesse tocante as bibliotecárias e bibliotecários tem um papel importante  na construção dessa sociedade pautada em uma cultura de paz, respeito e tolerância, haja vista, as profissionais atuarem em espaços culturais e educacionais que possibilitam a realização de um trabalho de base não só possibilitando o acesso a informação, mas bem como permitir que estes espaços possibilitem a construção de conhecimento por parte de todos os sujeitos sociais envolvidos no processo.

Para tanto ações culturais que tenham os LGBTQIA+ como protagonistas, produção de material informativo, um acervo afinado com as demandas dessa população e uma atitude mais cidadã com as questões que envolvam os direitos de uma sociedade mais plural e diversa são necessárias e coaduna com o juramento que a área faz quando frisa a dignidade humana. Vale pontuar que existem algumas iniciativas e ações efetivadas por profissionais em algumas regiões do país mas que por vários motivos não são publicizadas e conhecidas por grande parte dos colegas.

QUE AÇÕES ESTÃO EM CURSO NO BRASIL HOJE ENVOLVENDO A BIBLIOTECONOMIA E QUESTÃO LGBT QUE VOCÊ DESTACARIA?

Apesar de ainda haver um silenciamento e uma posição periférica da discussão das demandas sociais LGBTQIA+ na biblioteconomia, vemos o avanço em alguns aspectos como o crescente interesse de discentes, docentes, técnicos em realizar pesquisas acerca da temática com a socialização destes estudos em eventos na área, mas ainda são em número bastante pequeno, tanto que a primeira publicação a contar com textos escritos por profissionais da Ciência da Informação (CI) que são LGBTQIA+ e abordam sobre a temática referente às suas orientações sexuais e identidades de gênero ocorreu somente em 2019 pelo selo Nyota sob o título “Do invisível ao visível: saberes e fazeres das questões LGBTQIA+ na Ciência da Informação”.

Qualquer consulta aos Projetos Políticos Pedagógicos (PPPs) dos cursos de biblioteconomia revela que grande parte deles não possuem em sua matriz curricular disciplinas que tratem de gênero, sexualidade e diversidade o que aponta uma lacuna gritante na formação deste profissional. Uma ação salutar é a criação do Grupo de Trabalho (GT) “Bibliotecas pela Diversidade e Enfoque de Gênero” (GT-BDEG), pela Federação de Associação de Associações de Bibliotecários, Cientistas da Informação e Instituições (FEBAB).

Esse grupo se propõe a: 1) Criar um documento norteador de ações e orientações de atendimento baseadas nas leis vigentes nos níveis municipal, estadual e federal; 2) Compilar todas as ações e experiências promovidas pelas bibliotecas em todo o Brasil em um documento para publicação; 3) Criar bibliografia básica de literatura LGBTQIA+; 4) Realizar relatórios anuais para consulta pública para entender a relação da comunidade com a biblioteca, especialmente a biblioteca pública; 5) Promover palestras, cursos e ações voluntárias em conjunto as associações estaduais filiadas à FEBAB, escolas de biblioteconomia e ONGs. Esperamos que seja o fortalecimento do debate e da ação entre a Biblioteconomia e as demandas sociais LGBTQIA+.

Fonte: Biblioo

Direitos da criança e literatura infantil são temas da Biblio Live amanhã

Nesta terça-feira, 19 de maio, às 20h, o Canal Cultura Abraça Campinas transmite mais um encontro “Biblio Live” sobre Literatura – e agora com o recorte infantil. O cenário desse vasto universo, os direitos da criança, as brincadeiras, e as ações da Biblioteca Infantil Monteiro Lobato estarão na roda de conversa.

Segundo a coordenadora das Bibliotecas Públicas da Secretaria de Cultura de Campinas, Renata Alexsandra, o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, lembrado nesta segunda, 18 de maio, será tema de destaque.

A live reunirá, além de Renata Alexsandra (também integrante do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente – CMCA), João Henrique, bibliotecário da Biblioteca Infantil Monteiro Lobato; Flávia Guimarães, pedagoga, projetista educacional, terapeuta social e conselheira do Cultura no Conselho da Criança e do Adolescente; e o pedagogo e contador de histórias, Ulisses Junior.

O público poderá interagir com perguntas.

Serviço

Biblio Live

Papo sobre Literatura Infantil e Brincadeiras como um Direito da Criança

Quando: 19/05, terça, às 20h

Canal  Cultura Abraça Campinas: youtube.com/CulturaAbraçaCampinas

Fonte: Campinas.sp.gov

Página reúne iniciativas do Senado em favor da responsabilidade social

O Senado lançou uma página na internet que reúne as iniciativas da Casa na área da responsabilidade social, com informações sobre acessibilidade, equidade de gênero e raça e sustentabilidade. A iniciativa é da Secretaria do Comitê de Internet em parceria com a Diretoria-Geral e do Núcleo de Coordenação de Ações Socioambientais (NCas), que será responsável pela gestão dos conteúdos do site.

Para o coordenador do NCas, Humberto Formiga, a organização de novas iniciativas e informações, antes dispersas, agora estão reunidas em um formato amigável e acessível para o cidadão.

Acessibilidade

O site mostra que as primeiras iniciativas para promover a acessibilidade foram adotadas há mais de 20 anos, a exemplo da impressão de obras em braile. Em 2005, o Senado criou o Programa de Valorização das Pessoas com Deficiência. Cinco anos depois, o Projeto Integrar permitiu que os espaços físicos da Casa fossem adaptados para ficar mais acessíveis.

Desde 2016, está em vigor o Plano de Acessibilidade, que garantiu, por exemplo, carros e vans adaptados, sinalização tátil de piso e vagas especiais de estacionamento, além da aquisição de triciclos e cadeiras de rodas. Na internet, o portal do Senado busca ser acessível. Além disso, a Casa tem promovido cursos de capacitação para atender os visitantes e as quase 200 pessoas com deficiência que integram o corpo funcional.

Equidade

Na área de equidade, o objetivo do Senado é garantir tratamento e oportunidades iguais para todos, sem preconceito de origem, raça, gênero, cor e outras formas de discriminação. Diretora-geral do Senado, Ilana Trombka, afirma no vídeo publicado na nova página que o Senado sempre quis ser um modelo para todo o país. E cita a criação, em 2015, do Comitê de Gênero e Raça.

Entre as ações do comitê está o Programa de Assistência à Mãe Nutriz, que garante às mães de bebê de até 15 meses uma jornada de trabalho de seis horas, e o programa que reserva 2% das vagas de trabalho terceirizado no Senado a mulheres vítimas de violência doméstica. A página cita ainda a campanha contra o assédio moral e sexual.

Desde 2011, o Senado mantém o Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça. E em 2019, foi lançado o Plano de Equidade de Gênero e Raça, que ampliou as ações em favor da igualdade de oportunidades para colaboradoras e colaboradores.

Sustentabilidade

Um dos destaques da página de responsabilidade social é o Plano de Gestão de Logística Sustentável, ferramenta de planejamento de práticas de sustentabilidade e racionalização dos gastos e processos administrativos. Outra iniciativa é o programa de visitação ao Viveiro do Senado. E há a Feira Orgânica, realizada semanalmente sem nenhum gasto para a Casa.

Quanto às boas práticas, foi criado o Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos, que garantiu a distribuição de coletores em todo o Senado para separação dos resíduos e destinação correta dos materiais recicláveis. E uma unidade de coleta — o Ecoponto — abriga contêineres para coleta de eletroeletrônicos.

Outra iniciativa é a Rede Legislativo Sustentável, que prevê a cooperação entre instituições com o objetivo de promover o intercâmbio de práticas e o desenvolvimento de ações voltadas para uma gestão pública sustentável. Integram a parceria com o Senado, o Tribunal de Contas da União e a Câmara dos Deputados, além de assembleias legislativas.

Fonte: Agência Senado

A regulamentação do Tratado de Marraqueche está em consulta pública

Texto da Comissão Brasileira de Direitos de Autor e Acesso Aberto

Está em consulta pública o texto do Decreto que regulamentará o Tratado de Marraqueche no Brasil. Esse Tratado, assinado em 2013 e promulgado no Brasil em 2018 (Decreto n. 9.522/2018), deixou algumas possibilidades abertas para a livre escolha dos países signatários e, por causa disso, o Decreto de regulamentação que está em consulta pública é crucial, já que é por meio dele que o Estado Brasileiro irá fazer importantes escolhas, adaptando o Tratado à realidade nacional.

Trata-se, portanto, de um momento singular para todos os profissionais da informação preocupados com o debate sobre políticas públicas de acessibilidade onde terão a oportunidade de participar da discussão do instrumento legal mais relevante na promoção do acesso ao conteúdo de qualquer obra publicada para pessoas cegas, com deficiência visual ou com outras dificuldades (por ex., pessoas com tetraplegia ou dislexia).

O Tratado impõe uma nova Limitação ao Direito Autoral, por meio da criação de um Direito para as pessoas cegas, com deficiência visual ou com outras dificuldades que as impeçam de utilizar plenamente uma obra publicada. Sem necessidade de autorização prévia e sem necessidade de pagamento aos titulares de qualquer obra, os beneficiários e/ou as entidades autorizadas poderão reproduzi-las mesmo que estejam protegidas por direitos autorais, sempre com o intuito de convertê-las em um formato acessível que melhor atenda às necessidades do usuário. Além disso, as entidades autorizadas poderão promover o trânsito transfronteiriço de obras que já estejam convertidas para formatos acessíveis em outros países, facilitando ainda mais o acesso.

As bibliotecas são descritas no Decreto como um exemplo de entidade autorizada e poderão se cadastrar para atuarem como intermediárias do beneficiário no exercício pleno de seu direito. Cadastrada, a biblioteca poderá:

  • solicitar uma cópia de alguma obra que tenha sido convertida para formato acessível por outras entidades autorizadas. Isso contribuirá para o acesso dos beneficiários (pessoas cegas, com deficiência visual e com outras dificuldades), mesmo se a biblioteca não for especializada em obras em formatos acessíveis.

  • atuar diretamente na conversão de obras para o formato acessível, criando um acervo próprio e amparando outras entidades autorizadas na promoção do acesso dos beneficiários.

Os profissionais da informação, especialmente os bibliotecários, passarão a lidar diretamente com esses usuários, auxiliando-os no uso das obras em formatos acessíveis, garantindo o acesso a obras já acessíveis mesmo que disponíveis fora de seu acervo e/ou contribuindo para a conversão, para o formato acessível, das obras que estejam em seu acervo. Desse modo, enquanto gestores de entidades autorizadas, os bibliotecários e demais profissionais da informação também serão afetados pela regulamentação do Tratado, motivo mais que suficiente para que participemos do debate.

A redação deste Decreto ora em consulta pública, foi previamente debatida por um Grupo de Trabalho organizado pela Secretaria de Direitos Autorais e Propriedade Intelectual (SDAPI) nos meses de outubro a dezembro de 2019. Dentre os participantes, estavam presentes especialistas e entidades públicas e privadas representando a própria Secretaria, editoras, associações e institutos envolvidos com pessoas cegas e a FEBAB representando o segmento bibliotecas.

A FEBAB, presente por membros da Comissão Brasileira de Direitos de Autor e Acesso Aberto (Sueli Mara S. P. Ferreira e Walter Ellen do Couto), reafirmou o seu compromisso em defesa das bibliotecas, dos usuários de bibliotecas e demais instituições de informação, se posicionando para fazer cumprir sua missão de promover o acesso amplo e irrestrito a todos.

Reafirmou-se nosso respeito aos Direito dos Autores e dos titulares das obras que estejam em domínio privado, mas relembrando sempre que os usuários (denominados beneficiários no Decreto) dessas obras também possuem direitos. Os Direitos dos Usuários limitam intrínseca e extrinsecamente o Direito dos Autores, fazendo a relação dos usuários e dos criadores ser mais equilibrada. Isso ocorre em função do interesse coletivo da sociedade, que é a promoção da cultura e das ciências e não o seu impedimento por meio de um suposto direito absoluto. Não há direitos absolutos em nosso ordenamento jurídico, o que também se aplica aos direitos dos autores, limitados pelos direitos dos usuários. O caso do acesso de pessoas cegas, deficientes visuais e com outras dificuldades de leitura é um exemplo clássico de direito de usuário que limita o direito do autor.

Muitos pontos do Decreto foram pacificados na fase preliminar de debates, porém outros pontos se tornaram naturalmente objeto de controvérsia, dada a realidade de cada parte interessada. A Consulta Pública servirá, principalmente, para que os cidadãos se posicionem em relação a esses pontos. A FEBAB gostaria de convidar os bibliotecários, profissionais da informação e demais interessados a opinar na consulta pública, principalmente em relação aos pontos que considera mais relevantes, como em relação à cláusula de disponibilidade comercial.

Por que a FEBAB é veementemente contra a “cláusula de disponibilidade comercial”?

cláusula de disponibilidade comercial é a possibilidade de os países signatários do Tratado de Marraqueche condicionarem a sua aplicação para obras que ainda não estejam disponíveis comercialmente em formato acessível e em condições razoáveis.

Desse modo, se a entidade autorizada quiser converter uma obra para o formato acessível para atender a um beneficiário, precisará consultar algum catálogo nacional (contendo a descrição de todas as obras disponíveis no país) para saber se a referida obra já está sendo comercializada naquele formato e em condições razoáveis de acesso. Se estiver disponível comercialmente, o usuário não poderá utilizar o direito que o Tratado lhe garante, pois a cláusula de disponibilidade comercial irá impedi-lo.

Esta previsão está no Art. 4°, item 4, do Tratado de Marraqueche, e, se aplicada, funciona como uma “limitação da limitação”, pois estabeleceria limites para um direito do usuário beneficiário (como as pessoas cegas e os deficientes visuais) em função dos direitos dos autores; ainda que o direito do beneficiário tenha sido originalmente criado no Tratado exatamente para estabelecer um limite extrínseco aos direitos do autor. Há vários motivos para sermos contrários à adição desta cláusula, dentro os quais, destacam-se:

1 – Dificuldade de definir universalmente o que é uma “obra em formato acessível”.

O Tratado estabelece que o beneficiário deve ter plenos direitos de acesso às obras publicadas e que a condição desse acesso seja similar à condição de acesso das pessoas sem deficiência e/ou outras dificuldades. A cláusula da disponibilidade comercial dificultaria a individualização do atendimento aos beneficiários, que, por serem de espectro muito amplo, possuem necessidades diversas. Assim, a existência de uma obra em um formato acessível específico que atenda apenas parcialmente o beneficiário poderia justificar de maneira prejudicial e errônea a não conversão da obra para um formato plenamente acessível que atendesse integralmente aquele beneficiário individualizado. Imagine-se a seguinte situação: uma editora disponibiliza comercialmente uma obra e diz que ela é acessível para pessoas com autismo e dislexia; no entanto, o bibliotecário, ao cotejar a obra com um usuário autista que possui dificuldade de leitura constata que aquela obra não atende às especificidades do usuário – o autismo ocorre um espectro muito variável. A situação gera uma insegurança jurídica para os bibliotecários: quem irá definir quando uma obra está ou não em formato acessível compatível com a necessidade do usuário, a entidade autorizada que lida diretamente com o usuário ou o titular do direito de autor? Entendemos que a mera possibilidade de litígio desestimularia algumas entidades autorizadas a realizarem a conversão da obra, prejudicando injustificadamente os legítimos direitos dos beneficiários do Tratado.

2 – Dificuldade de definir o que seriam as “condições razoáveis de acesso”.

A cláusula diz que a disponibilidade comercial só ocorreria se a obra estivesse disponível em formato acessível e em condições razoáveis de acesso. Novamente, a mera dúvida sobre o que é essa “condição razoável” de acesso e quem iria defini-la gera insegurança para as entidades autorizadas, desestimulando a sua atuação como intermediárias do direito dos beneficiários. Muitas obras em formatos acessíveis dependem de aparatos tecnológicos para o seu uso, o que também configuraria hipótese condicional de razoabilidade de acesso, porque a mera disponibilidade da obra para a venda não significa que o beneficiário poderá utilizá-la, caso não tenha o recurso tecnológico que as bibliotecas possuem. Se uma editora que comercializa a obra alegar que ela está disponível em condições razoáveis, mas a entidade autorizada (como uma biblioteca) entender que as condições, para o seu usuário, não são razoáveis, quem irá decidir quem está certo? Provavelmente a questão iria para a justiça, o que, por si só, desestimularia as bibliotecas no atendimento pleno dos beneficiários.

– O espírito do Tratado não é a formação de um mercado, mas a garantia de um direito.

Argumenta-se que esta cláusula é importante para fomentar o mercado editorial das obras acessíveis no Brasil, o que justificaria a sua adição. A FEBAB lembra que o Tratado de Marraqueche não tem o objetivo de fomentar um mercado editorial, mas sim estabelecer um direito ao usuário com dificuldade e/ou deficiência visual. Entendemos, portanto, que não é o local e nem o momento de debater o fomento ao mercado editorial de obras acessíveis, mas sim o de garantir o direito dos usuários (no caso, os beneficiários já mencionados) de acessarem essas obras independentemente de autorização prévia dos titulares.

4 – A cláusula geraria insegurança no principal avanço do Tratado, que é o intercâmbio transfronteiriço.

Não está claro como essa cláusula afetaria o intercâmbio das obras entre as entidades autorizadas de diferentes países. Por exemplo, se uma obra estiver comercialmente disponível em formato acessível no Brasil, isso poderá impedir as entidades autorizadas nacionais de realizarem intercâmbio dessa mesma obra em formato acessível que tenha sido adaptada fora do país, onde eventualmente não há essa cláusula? Se a resposta for positiva, as entidades autorizadas nacionais perderiam muito ao terem o direito de realização do intercâmbio transfronteiriço limitado, porque ele é um dos principais avanços do Tratado, especialmente para as bibliotecas, tradicionais gestoras de grandes acervos.

5 – A ausência da cláusula não afeta a Regra dos Três Passos da Convenção de Berna.

Como o próprio Tratado estabelece na Nota de Rodapé n. 5, a cláusula de disponibilidade comercial não pressupõe alinhamento direto com a regra dos Três Passos da Convenção de Berna. Esta regra estabelece os mínimos convencionais para os países criarem limitações aos direitos autorais. A FEBAB entende que, mesmo na interpretação direta das Regras, a ausência da cláusula é autorizada por elas. Segundo as Regras, a limitação ao direito autoral só é legítima:

  1. a) em certos casos especiais. A FEBAB entende, seguindo teoria jurídica consagrada, que em nosso sistema legal (romano-germânico) a inclusão da limitação apenas para o caso das pessoas que possuem dificuldades de acesso aos textos em condições idênticas às pessoas que não possuem nenhuma deficiência já atende a esse critério, pois se configura como um caso especial.

  2. b) se não afetar a exploração normal da obra. Entendemos que as medidas adotadas pelas entidades autorizadas para controlar o acesso das obras apenas para os beneficiários que possuem o direito, conforme consta no próprio Decreto, já atenderá a esse requisito, pois não permitirá a circulação ampla da obra e, portanto, não afetará a sua exploração normal. Não se deve confundir o uso de um direito do usuário com uma violação do direito do autor que atrapalha o titular em sua exploração. Ademais, na maior parte dos casos, a exploração normal da obra está ligada ao formato convencional, que é o mercado de atuação principal das editoras. As pessoas cegas e com outras deficiências visuais não podem esperar a formação de um mercado editorial, que ainda é inexistente ou muito tímido, para ter o seu direito garantido.

  3. c) se não causar prejuízo injustificado aos interesses legítimos do autor. Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que esta regra não diz que os titulares são imunes a qualquer prejuízo; subentende-se que os titulares podem sim ter algum prejuízo pelo eventual exercício do direito dos usuários, contanto que esse prejuízo não seja injustificável. A FEBAB entende que o acesso amplo e irrestrito das pessoas cegas, dos deficientes visuais e das pessoas com outras dificuldades de leitura seja condição mais do que justificável para a implementação de uma limitação ao direito do autor.

Comissão Brasileira de Direitos Autorais e Acesso Aberto da FEBAB convida a todos os profissionais da informação e demais cidadãos interessados a participarem da consulta pública sobre o Decreto de regulamentação do Tratado de Marraqueche. É necessário o preenchimento do cadastro para incluir quaisquer contribuições:

cultura.gov.br/secult-abre-consulta-publica-para-regulamentacao-do-tratado-de-marraqueche/

Informe-se mais sobre o Tratado de Marraqueche:

PLANTÃO DE DÚVIDAScbda3@febab.org.br

Fonte: FEBAB

Primeiro Doutorado sobre Bibliotecas Prisionais

Texto por Catia Lindemann

No Brasil, a criação de Bibliotecas Prisionais é legitimada por meio da Lei de Execuções Penais (LEP – Lei Federal nº 7.210 de 11 de Julho de 1984) que diz em seu art. 21, Capítulo V, que:

“Cada estabelecimento penal deve ser dotado de uma biblioteca, para uso de todas as categorias de reclusos, provida de livros instrutivos, recreativos e didáticos”.

Quatro anos mais tarde, o direito a informação é assegurado a todo e qualquer cidadão, conforme a Constituição Brasileira de 1988, prescrito no Artigo 5º, inciso XIV, o que solidifica ainda mais a LEP das Bibliotecas Prisionais, corroborando para que todo o individuo brasileiro, inclusive os encarcerados, tenham acesso à informação. Passadas mais de três décadas, em 2017, a Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários, Cientistas da Informação e Instituições (FEBAB) deu voz e representatividade para as unidades de informação no cárcere, ao montar a primeira Comissão Brasileira de Bibliotecas Prisionais (CBBP). Foram trinta e três anos de negligenciamento biblioteconômico e, não obstante ao descaso do governo, apenas agora temos a primeira Tese, no Brasil, sobre a temática.

O Doutor – Ciro Monteiro é Agente Penitenciário, foi Diretor substituto do setor educacional do Centro de Progressão Penitenciária (CPP) de Jardinópolis (SP); Formado em História (UNESP), Biblioteconomia (USP), Mestre em Ciência da Informação (UNESP) e Doutor em Ciência da Informação (UNESP). Ele também faz parte da CBBP, convite que lhe foi feito ainda dentro do “Primeiro Fórum Brasileiro de Bibliotecas Prisionais”, ano passado. Sua linha de pesquisa partiu da sua própria experiência com os livros e a leitura intramuros das prisões e abarcou justamente os espaços de leitura na prisão. A Tese foi defendida no final do ano passado, 19 de novembro. Segundo o próprio Ciro, é preciso refletir sobre as possibilidades de atuação do bibliotecário no interior do cárcere.

E ele conta um pouco se sua trajetória:

Fui funcionário da prisão por 10 anos, atuando diariamente como mediador de leitura, estruturação de bibliotecas e projetos de incentivo à leitura e produção do conhecimento. A prisão é também nosso espaço de atuação. Deixo um trechinho do meu diário de campo para despertar curiosidade em vocês:

“Hoje algo que emociona qualquer pessoa vinculada à ideia de educação como forma de transformação da humanidade, tomou conta do meu ser. Era final do dia e ainda faltava coletar assinatura dos presos em documento que autorizava o setor de educação a publicar suas poesias para o evento Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, o qual a unidade foi convidada a participar e levar a produção de poesia dos educandos feitas por meio do projeto Rompendo as grades com poesia”. 

A ideia, discorre Ciro, era fazer um varal de poesia com as melhores poesias que foram depositadas na “caixa de poesia” para serem expostas no evento.

Fui até o pavilhão onde estavam todos os presos soltos e falei o nome de quais educandos tiveram a poesia selecionada. A reação foi impressionante. O caminho do educando até chegar para assinar o documento que estava em minha mão na porta do pavilhão, lembrava a passagem de um astro de futebol. Os demais reclusos gritavam, batiam palmas e passavam a mão na cabeça do contemplado. Toda essa glória por conta da produção de conhecimento é o que mais satisfaz o coração de um educador”. 

Atualmente, Ciro é coordenador da  Biblioteca Pública Sinhá Junqueira, de Ribeirão Preto (SP. Ele pediu exoneração do Sistema Penitenciário para se voltar exclusivamente nos fazeres bibliotecários dedicados ao social, com atividade totalmente inclusivas. “Aqui fizemos chá das pretas, rodas de preconceitos na literatura e conferência sobre pessoas com deficiência…”, relata Ciro.

Em março deste ano, Ciro organizou um evento em comemoração ao dia do bibliotecário, 12 de março: “Livro, Leitura e Biblioteca na Prisão”. Levou para ministrar fala, um egresso do sistema prisional e o atual monitor (reeducando) da sala de leitura do Centro de Progressão Penitenciária (CPP) de Jardinópolis (SP), Florindo Cassimiro Junior.

Florindo Cassimiro Junior

“Ele é um monitor excelente, que faz um ótimo trabalho”, afirma Ciro, acrescentando que o reeducando atualmente cursa graduação de Biblioteconomia (secundarista) na modalidade Ensino a Distância (EAD).

Para grande parte dos bibliotecários, a Biblioteconomia Social é redundância, afinal, a Biblioteconomia por si só é social. No entanto, embora tenha nascido completamente humanista e com viés erudito, pós o tecnicismo Deweyniano, que visava apenas a organização das obras do conhecimento, nós perdemos a nossa nascente, para não dizer a identidade. Simplificando, no sentido figurado, seria como alguém dizer seu nome sem citar o sobrenome. Ora, quantas pessoas de mesmo nome têm por aí? Então é necessário inserir o sobrenome, para então dar a origem evolutiva de nossa história. Da mesma forma acontece com a Biblioteconomia. Atribuindo o “Social”, conotamos a essência, almejando exclusivamente mostrar que a técnica bibliotecária não pode ser avessa ao social e sim parceira, andando lado a lado. Não exercemos, em tese, nossa aplicabilidade bibliotecária para os pares e sim para o leitor. Eis a base da Biblioteconomia Social: um fazer bibliotecário voltado ao povo e pelo povo, principalmente aos excluídos da sociedade, às comunidades em vulnerabilidade social. E este é o trabalho do Ciro Monteiro que nos enche tanto de orgulho e admiração.

E sim, a representatividade das Bibliotecas Prisionais tem um “Doutô SimSenhô “. Orgulho define. Inspiremo-nos!

Apenados utilizando a Biblioteca Prisional

Fonte: Biblioteconomia Social

Por que devemos participar da consulta pública sobre o Tratado de Marraqueche no Brasil?

Nossa Comissão Brasileira de Direitos de Autor e Acesso Aberto apresenta neste webinar a importância de participarmos da consulta pública sobre o Decreto de regulamentação do Tratado de Marraqueche.

Nossos convidados são:

  • Dra. Sueli Mara Soares Pinto Ferreira: Professora Titular da Universidade de São Paulo (USP), Coordenadora da Divisão V Regiões África e Oceania, África, América Latina e Caribe da IFLA, Membro do Conselho Administrativo da IFLA (2017-2021). Coordenadora da Comissão Brasileira de Direitos Autorais e Acesso Aberto da FEBAB desde 2016.

  • Dr. Allan Rocha de Souza: Professor e Pesquisador em direito civil, direitos autorais e propriedade intelectual no curso de Graduação em Direito (ITR-UFRRJ). Pesquisador visitante da Oxford Intellectual Property Research Center, Faculty of Law, Oxford University. Advogado e Consultor Jurídico com atuação profissional e acadêmica nas áreas de Direito Civil, Direitos Autorais, Direitos Culturais e Propriedade Intelectual. Consultor em Direitos Autorais da Fiocruz, UNESCO, OMPI e Governo Federal (Ministério da Cultura, Ministério da Saúde, Fiocruz). Membro da Comissão de Direitos Autorais da OAB-RJ.

  • Walter Couto: Doutorando em Ciência da Informação pela ECA USP, tendo como áreas de especialidade a Comunicação Científica (editoração científica, escrita científica, autoria científica, plágio acadêmico, acesso aberto) e o Direito dos Usuários das obras protegidas por Direitos Autorais (licenças públicas, limitações, fair use, compartilhamento de arquivos).

Fonte: FEBAB

VAZIOS NAS ESTANTES: REFLEXÕES SOBRE AS AUSÊNCIAS NOS ACERVOS DE BIBLIOTECAS E ESPAÇOS DE LEITURA

Terça-feira, 5 de maio de 2020, às 19h. Atividade realizada online

A ideia do encontro é destacar a importância que os profissionais da área da cultura e educação, especialmente bibliotecários e auxiliares, têm no processo de desconstrução/descolonização de acervos onde, geralmente, a presença masculina, branca, acadêmica e canônica é predominante, e onde a produção literária feminina, sobretudo de mulheres negras e indígenas, é muito escassa.

Faça sua inscrição online, neste link, a partir de 25/4/2020, até o preenchimento das vagas. O encontro será ministrado a distância, em plataforma online. O acesso ao ambiente em que serão realizadas as aulas será enviado para o e-mail cadastrado na ficha de inscrição.

Dayane Teixeira é graduada em Letras pela Universidade Paulista, tem cursos de extensão/especialização em História da Arte, Literatura, Museologia. Trabalha no Museu Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, desenvolvendo trabalhos junto ao acervo da biblioteca Espaço da Palavra e de Haroldo de Campos. Atua como pesquisadora independente com foco em África/Africanidades, Literatura indígena e temas correlatos, sobretudo na área da Literatura e Artes Visuais.

Imagem: foto de Dayane Teixeira

Fonte: Casa das Rosas

Acessibilidade e empatia: acadêmicos vivenciam dificuldades enfrentadas por deficientes físicos

Atividade realizada pelo curso de Design destaca a importância de desenvolver projetos que sejam acessíveis

Texto por Filipe Gabriel

Empatia é um exercício que deveria ser realizado todos os dias, mas, muitas vezes, acaba sendo substituído por outras prioridades do cotidiano. Pensando nisso, o curso de Design da Faculdade Satc, realiza, todos os anos, uma atividade que estimula a capacidade dos alunos de se colocarem no lugar de quem tem algum tipo de deficiência física. A ideia é fazer com que eles sintam na pele as dificuldades enfrentadas por pessoas que não conseguem enxergar, ou que perderam o movimento de alguma parte do corpo.

A atividade é, praticamente, a mesma realizada por toda a sociedade nos últimos dias devido a pandemia do coronavírus: sair da zona de conforto e se adaptar a uma nova realidade. A diferença é que, no projeto, a realidade é a de portadores de necessidades especiais. Conforme o professor Davi Denardi, os alunos vendam os olhos ou amarram uma das mãos e devem realizar práticas que estão acostumados no dia a da.

Nos anos anteriores, o projeto ocorria nos pátios da Satc, onde os alunos vendavam os olhos e se locomoviam em uma cadeira de rodas. Por conta da quarentena, a atividade foi adaptada e realizada em casa. “Para simular a cegueira, pedimos para eles vendarem os olhos e fazerem tarefas básicas, como manda uma mensagem no celular, trocar de roupa ou pentear o cabelo”, explica o professor.

Já para compreender a realidade de pessoas que sofreram uma amputação, os acadêmicos imobilizaram uma das mãos e tentaram fazer sanduíches, lavar a louça e botar em prática hábitos de higiene pessoal. “Depois disso, durante a aula virtual, nós discutimos a experiência e debatemos sobre a importância de irmos além de nossas realidades. Muitos deles, não conseguiram finalizar tarefas simples, como fritar um ovo, por exemplo”, destaca.

Experiência desafiadora

A atividade está inclusa nos ensinamentos de Design Universal, que visa estudar a projeção de produtos com ênfase na acessibilidade. Para a acadêmica Isadora Varela, foi algo diferente de tudo o que ela já havia vivenciado. “Foi uma atividade educativa e ao mesmo tempo desafiadora. Até gerou mais admiração pelas pessoas que precisam passar por isso no dia a dia”, conta. Segundo ela, a partir desta prática, gerou-se também uma preocupação maior com a questão da inclusão.

Para nós, como designers, pensar na usabilidade das coisas é um ponto crucial. No fim, a gente acaba precisando dessas experiências sem nem perceber, pois elas nos fazem pessoas melhores e mais compreensivas”, completa Isadora. Outra discussão levantada pelos participantes do projeto, foi sobre as dificuldades enfrentadas para o uso da tecnologia. Segundo o acadêmico Weslei Ferreira, enviar mensagens pelo celular sem enxergar foi uma missão praticamente impossível.

A experiência durou apenas algumas horas, mas foi suficiente para que eles percebessem a necessidade de produzir materiais gráficos e produtos em geral pensando em todos os públicos. “A gente fez isso dentro de casa, então todo mundo já tinha uma ideia de como era o local e os objetos mais ou menos. Para um deficiente visual que está em um lugar desconhecido e sem poder contar com um ambiente acessível, a situação fica ainda pior”, afirma Ferreira.

Fonte: SATC

Literatura antirracista para crianças e jovens

Texto: Vitor Taveira

Projeto idealizado por quilombola capixaba, Pretaria lança projeto Blackids, clube de leitura por assinatura para público infanto-juvenil
Nascida na comunidade quilombola de Angelim, em Conceição da Barra, Mirtes dos Santos é CEO da startup Pretaria

Primeiro clube de leitura por assinatura com foco na literatura antirracista do Brasil, o Pretaria BlackBooks foi idealizado e é comandado por Mirtes dos Santos, uma capixaba de origem quilombola que é mestre em Direito e Sociologia. O projeto acaba de apresentar mais uma novidade: o Blackids, um box infanto-juvenil, com foco na valorização da identidade negra e da representatividade para crianças e adolescente.

Para os assinantes, o box trará a cada mês livros infanto-juvenis que abordem direta ou indiretamente as questões étnico-raciais, além de outros brindes. Segundo Mirtes, o objetivo é orientar pais, mães e responsáveis sobre a importância de incentivar a leitura de literatura antirracista para crianças e adolescentes, sejam elas negras ou não.

“A obra escolhida é uma surpresa que virá de encontro com as motivações do projeto de estimular o leitor para uma formação social livre de preconceitos e fortalecer as publicações de editoras e autores negros brasileiros”, disse. A curadoria é feita por mulheres negras por meio de um grupo composto por ativistas, intelectuais, escritoras e pesquisadoras convidadas.

O projeto oferece planos com pagamento mensal, semestral ou anual tanto para o público adulto como para o infanto-juvenil e com entregas para todo o Brasil. Entre as propostas do projeto está o trabalho com algumas editoras especializadas e que não costumam ter espaço nas grandes livrarias, como Cora, Crivo, Malê, Nandyala e Perspectiva.

Enquanto o número de vendas em livraria tem caído, os clubes de assinatura apresentam um crescimento significativo nos últimos anos, segundo a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABCcomm), despontando como uma nova tendência no mercado editorial. A Câmara Brasileira do Livro (CBL), estima a existência de 25 clubes de assinatura de livros no Brasil, totalizando 2 milhões de assinantes. Destes, a Pretaria é o primeiro e único até o momento que apresenta como foco a questão étnico-racial.

O grupo editorial Pretaria foi lançado em 25 de julho de 2015, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. No ano passado, a partir de uma campanha de financiamento coletivo, deu o pontapé para o início do projeto do clube de leitura, que agora ganha um novo plano para contemplar também o público mais jovem.

Além de Mirtes, o grupo tem como co-fundadora e diretora de tecnologia da informação Neide Sellin, e a atriz e escritora Suely Bispo.

Para mais informações, o e-mail para contato é pretaria.ed@gmail.com, além da página oficial e em redes sociais como Facebook e Instagram.

Fonte: Século Diário

Rhaiane Leal analisa obra do autor do ‘Sítio do Pica Pau Amarelo’ e comenta sobre o racismo e elitismo inseridos em sua criação literária

Jeca Tatu é um dos personagens mais famosos de Monteiro Lobato que cria a imagem do trabalhador do campo como um ‘homem atrasado’ em sua narrativa
Foto: Divulgação

Texto: Rennan Rebello

Em tempos de isolamento social por conta da pandemia do novo coronavírus (covid-19), a literatura tornou-se, mais uma vez, uma boa companhia durante momentos de tédios causados pela restrição de sair de casa. Além de ser um bom passatempo, os livros também são alicerces de informação para reflexão do atual momento e de uma projeção de sociedade.

Desta forma, a análise de obras se faz necessária a fim de manter diálogo com outros leitores (cidadãos) para a interpretação dos escritos e trajetória de determinados autores. Em São Gonçalo, o trabalho literário do consagrado escritor paulista Monteiro Lobato (1882-1948), um dos ícones do segmento infanto-juvenil no Brasil, foi analisado pela professora de História e revisora de textos, Rhaiane Leal, 25, ainda durante sua graduação na Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FFP/UERJ), no bairro do Patronato.

A análise culminou em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) intitulado como: “Urupês e ideias de Jeca Tatu: Monteiro Lobato e o projeto de identidade nacional no início do século XX” e na dissertação “Nacionalismo militante: uma análise da correspondência de Monteiro Lobato e Artur Neiva (1918-1942)”, no Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio. Neste último trabalho, a pesquisadora encontrou elementos racistas no trabalho do autor do livro ‘O Sítio do Pica Pau Amarelo’.

“Durante a minha monografia eu abordei o Monteiro Lobato por uma perspectiva literária. Seus contos no início do século XX tinham um perfil muito voltado para queixas. Tanto que o seu primeiro de livro, o ‘Velha Praga, de 1914, onde ele reclamava das queimadas do ‘caipira’ no campo, onde adotava o discurso de reclamar sempre do homem do campo com a imagem de atrasado por meio do personagem ‘Jeca’ Tatu’. O Monteiro Lobtato era latifundiário e tinha fazenda no interior de São Paulo e dialogava politicamente com a classe média branca e elitista do país. No entanto, ele criticava o culto ao estilo francês e defendia que o Brasil precisava mudar neste aspecto. Já na minha dissertação, analisei 180 cartas que ele trocou com Arthur Neiva (político brasileiro e ex-secretário de Interior do Estado de São Paulo)e pude analisar o Monteiro Lobato não apenas como um homem das letras mas também como um político. Ele se engajou pela causa do petróleo e a metalurgia além de analisá-lo como empresário. Monteiro Lobato  passou a escrever livros para crianças porque percebeu que era lucrativo mas escasso no mercado”, explicou Rhaiane que teve experiências em sua infância e seu trabalho como agente de leitura como influências para sua pesquisa acadêmica referente ao escritor de Taubaté.

“O Monteiro Lobato sempre esteve presente na minha infância. Eu conheci sua obra através da TV Globo, em 2002, e me encantei com a fantasia em torno do ‘Sítio do Pica Pau Amarelo’. E eu associava ao bairro aonde morava em São Gonçalo, no Arsenal, que era bastante arborizado e tinha um campo de futebol, e minha casa apesar de simples era grande e arejada. E eu acabava associando ao sítio com minha residência. Passaram-se os anos e entre os anos de 2014 e 2015 tive o prazer de ser agente de leitura para trabalhar nas escolas municipais de São Gonçalo e passei a ser contadora de histórias e preferi trabalhar com crianças. Após este período, tive como legado o acesso aos livros e durante a graduação tive uma disciplina chamada ‘Teoria da História’ e conheci o trabalho do historiador Robert Darnton e ele retratava como o conto da ‘Chapeuzinho Vermelho’ e da ‘Cinderela’ eram usados pelos antigos regimes e trabalhado com os camponeses na França e na antiga região da Prússia (atual Alemanha) e percebi como a literatura servia de pano político. Como eu não sabia falar muito francês e queria abordar o Brasil, resolvi adotar o Monteiro Lobato, que é considerado o pai da literatura infantil mas na minha pesquisa utilizei os contos adultos que ele escreveu onde abordava questões políticas e sociais”, acrescentou a pesquisadora. Quanto a polêmica referente ao racismo inserido em representações de personagens na narrativa de Monteiro Lobato, que era ligado a movimento de eugenia no Brasil, Rhaiane analisou esta temática para a reportagem de O SÃO GONÇALO.

“Na questão social, na minha dissertação, também percebi que Monteiro Lobato era um intelectual que atuava em rede e tinha diversos tipos de contatos, tendo vínculos com médicos, cientistas e políticos da época. Ele também era um influenciador destas redes pois estava sempre escrevendo e publicando. Desta forma descobri a sua participação na Sociedade Eugênica de São Paulo. Sobre a acusação de Monteiro Lobato como racista, para mim não se trata de uma acusação e sim uma afirmação, uma vez que desde 1990 há trabalhos acadêmicos na plataforma da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) que já abordaram o racismo de Monteiro Lobato em suas obras. Na minha concepção, o Movimento Negro não o acusa de racismo mas sim afirma algo que já é algo incontestável. A carta que ele enviou à Artur Neiva em 10 de abril de 1928, da qual analisei, é o ápice desta constatação pois ele coloca seu apoio à Ku Klux Klan (grupo terrorista e racista criado nos Estados Unidos). Além disso, Monteiro Lobato representa o universo africano e negro de forma preconceituosa e estereotipada em suas obras”, pontuou a professora, que também explica a importância do estudo crítico  das obras de Monteiro Lobato e da reivindicação por outras narrativas.

“A questão não é tirar o peso do autor Monteiro Lobato em relação as obras em sua vida mas sim, fazer uma reflexão dos personagens negros, sobretudo a Tia Nastácia que é a sua personagem negra mais famosa. E ele a coloca como ‘negra beiçuda’, ‘macaca de carvão’, ‘negra do Congo’ e ignorante.  Na verdade, o Movimento Negro questiona a subalternização do passado colonial e defende novas formas de representações literárias para este mundo lúdico da mulher negra e do negro em geral pois temos o personagem do Saci (Pererê). Será que são estas referências que temos que ter para as crianças negras? Até quando a reprodução da mulher negra será justificada pelo contexto história? Este período não é uma maneira de passar a mão no autor. É importante entender a sua obra como fonte. Na sala de aula, eu vou usar esta obra de 1933 para compreender política, economia e a sociedade e como os homens pensavam mas nunca para dizer que aquilo condiz com o que pensamos hoje. Portanto, o professor precisa ser a ferramenta principal para que os alunos tenham um olhar crítico para qualquer tipo de documento. É importante sempre circunstancializar “, finalizou.

Recentemente a pesquisadora concedeu entrevista, de forma remota, ao programa ‘Aulas com Filatelia’ com Heitor Fernandes na Web Rádio Censura Livre, de São Gonçalo. Escute, abaixo.

Fonte: O São Gonçalo

Encontro online do WPT incentiva produção de conteúdo acessível

Especialistas participam do terceiro meet up virtual do Movimento Web para Todos. Imagem: Reprodução YouTube Movimento Web para Todos.

Formar cada vez mais criadores de conteúdos acessíveis faz parte do nosso trabalho diário com o Movimento Web para Todos. Seguindo esse nosso propósito, ontem (23/04), realizamos o terceiro meet up online e gratuito incrível com muita interação no chat e dicas relevantes dos especialistas. O tema foi: “Acessibilidade digital: como produzir conteúdo para ampliar a sua audiência?”

O encontro aconteceu no nosso canal no YouTube com a presença de João Bezerra Leite, embaixador do WPT, que foi nosso mediador; Edney Souza, Diretor Acadêmico na Digital House Brasil; Simone Freire, idealizadora do WPT; Isadora Meirelles, criadora de conteúdo acessível; Rafael Kiso, Fundador e CMO da mLabs. A live contou também com a tradução em Libras, em tempo real, pela intérprete Paloma Bueno.

Falamos de tendências, dicas práticas e ferramentas para que produtores de conteúdo digital possam ampliar sua audiência eliminando pequenas barreiras que vão beneficiar todo mundo!

DESTAQUES E DICAS

Destacamos alguns trechos do bate-papo para você saber um pouco como foi.  

Escrever pensando em todo mundo 

Quando você trabalha com acessibilidade, você entende que está trabalhando com a essência do jornalismo. A informação tem que estar ali para todo mundo. O objetivo é fazer a informação chegar para um maior número de pessoas. Quando você tem consciência disso, você faz um texto acessível. Assim, você facilita o uso do avatar de Libras, tudo fica mais fácil, até mesmo para uma ferramenta que vai ler aquele áudio”, enfatizou Simone Freire. 

Produzir conteúdo pensando nos cinco sentidos humanos de recepção de informação 

Eu incentivo as pessoas a usarem os cinco sentidos porque costumamos concentrar a maioria da produção de conteúdo apenas na visão. Então, por que não começar a colocar um player de áudio para fazer a leitura do áudio? Isso traz humanização da marca para o conteúdo. Eu enxergo de um olho só. Pra mim, o áudio é muito melhor. É enxergar a comunicação inclusiva como forma de inovar e também pra ir além dos sentidos”, disse Isa Meirelles.

Importância de incluir acessibilidade na grade curricular dos cursos técnicos, universidades e escolas

Falamos de acessibilidade em diferentes níveis: na interface, no dashboard, nos controles do aplicativo, na linguagem de um chatbot ou de um texto ser inclusivo. Temos diversidade, acessibilidade e inclusão na nossa filosofia. A pauta da acessibilidade faz parte da nossa rotina dos cursos da Digital House”, afirmou Edney Souza. 

Mudança de mentalidade e inclusão de pessoa com deficiência na equipe

Acredito que colocar a acessibilidade em prática é muito mais uma mudança de mentalidade. Tem muitas ações simples, como criar um texto alternativo, que você pode aplicar rapidamente. Se fizer um site acessível, seguindo os guidelines do W3C, seu site vai ser melhor ranqueado, vai ter melhor desempenho, reduzir custos de manutenção. É transformar a cultura da empresa. Uma das recomendações é ter alguém com deficiência no time. Isso faz com que você pense em acessibilidade o dia inteiro”, contou Rafael Kiso. 

Quer saber mais e acompanhar tudo o que aconteceu no nosso meet up? Assista ao vídeo completo!

Semana que vem tem mais! Na quinta-feira (30/04), teremos mais um meet up. A temática do encontro vai ser: “O que não pode faltar na hora de construir ambientes digitais mais inclusivos?”. Em breve, divulgaremos o link para inscrição.

Fonte: Web para todos

Quando o direito de acesso à comunicação é tirado de pessoas com deficiência auditiva e visual

Dados do Censo do IBGE apontam que cerca de 24% da população brasileira se autodeclara como pessoa com algum tipo de deficiência

Texto por Liliane Rocha

Foto: Camilo Freedman/APHOTOGRAFIA/Getty Images

Neste mês, tivemos duas datas muito importantes que nos ajudam a refletir sobre a importância do diálogo. Ainda mais relevante é analisar como fazemos para dialogar, nos comunicar, trocar ideias com todas e todos, sem distinção.

A primeira data foi o Dia Nacional do Sistema Braille, celebrado em 8 de abril, que nos remete a pessoas cegas ou com baixa visão. E a segunda, o Dia Nacional da Língua Brasileira de Sinais Libras, em 24 de abril, que nos remete a pessoas surdas ou com baixa audição. Dados do Censo do IBGE (2010) apontam que cerca de 24% da população brasileira se autodeclara como pessoa com algum tipo de deficiência, ou 7%, considerando um refinamento deste estudo, no qual foram especificadas somente deficiências mais severas.

Ainda segundo o IBGE, há no país mais de 6,5 milhões de pessoas com alguma deficiência visual. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que, se houvesse um número maior de ações efetivas de prevenção e tratamento, a maioria dos casos poderia ter sido evitada.

Já o estudo do Instituto Locomotiva, realizado em parceria com a Semana da Acessibilidade Surda (SAS) em 2019, aponta que cerca de 10 milhões de brasileiros são pessoas com deficiência auditiva, e desse total 2,3 milhões são surdas.

Estamos falando de milhões de brasileiros que têm o direito de ter acesso a conteúdos, por leitura em braille, áudio leitura ou língua dos sinais, à educação, e principalmente ao emprego. Vamos lembrar aqui novamente que, desde 1991, temos uma legislação no Brasil que nos diz que empresas com mais de 1001 funcionários, mencionando apenas as grandes companhias, devem ter 5% de pessoas com deficiência em seu quadro de profissionais.

Se a comunicação é uma limitação para os profissionais que apresentam esses dois tipos de deficiência, como as áreas de recursos humanos vão chegar até eles? Como irão divulgar as vagas? E, principalmente, como farão um processo seletivo justo e correto quando essa pessoa chegar até a empresa?

Veja, as iniciativas a serem tomadas são simples, mas precisamos nos adaptar. Sim, nós pessoas sem deficiência precisamos nos adaptar. Parar de cobrar uma mudança do outro, ou falar que o outro precisa mudar. As pessoas com deficiência não precisam mudar, quem precisa mudar somos nós. E a sociedade.

Divulgar as vagas somente em meios impressos não é suficiente, vamos divulgar nas rádios também. Vamos tornar os nossos sites acessíveis, com sistema de som e áudio. E que tal incluir Libras em nossos eventos? Vamos divulgar as nossas vagas em instituições que atuem com pessoas com deficiência, vamos contratar especialistas que estudaram sobre esse tema.

Por exemplo, o Brasil tem duas línguas oficiais, e uma delas é a Libras. Por que então não estudamos para ter conceitos básicos dessa língua desde o ensino primário? Até o século 15 XV, acreditava-se que pessoas surdas eram incomunicáveis. O francês Charles-Michel foi quem criou, na metade do século XVIII, o sistema de sinais para alfabetizá-las.

No Brasil, a luta pela educação das pessoas surdas começou em 1857, após a vinda do francês, Eduard Huet, que era surdo, para a fundação da primeira escola para surdos, hoje conhecida como Instituto Nacional de Educação dos Surdos (INES). Em 1966, o americano Orin Cornett deu mais uma importante contribuição para o desenvolvimento da língua, unindo a utilização dos sinais com a leitura labial. Todas as línguas de sinais utilizadas atualmente no mundo derivam do alfabeto manual francês, mas apresentam pequenas variações em função da gramática local.

Ainda assim, infelizmente parece que até hoje algumas empresas e pessoas acreditam que pessoas com deficiência auditiva continuam incomunicáveis.

A Lei N° 10.436/02, que dispõe sobre Libras e a reconhece como segunda língua oficial do Brasil, prevê o seu uso em ambientes públicos e privados, com o objetivo de proporcionar acessibilidade e visibilidade à comunidade de surdos.

O Braille, por sua vez, sistema criado e adaptado para a comunicação de pessoas com deficiência visual, existe há quase 200 anos. Este modo de escrita e leitura em relevo foi desenvolvido inicialmente pelo francês Louis Braille, em 1837.

Como podem dois sistemas de comunicação para pessoas com deficiência existirem há cerca de 200 e 300 anos e ainda serem, em 2020, um tabu para a sociedade? Como é possível não garantirmos que as informações relevantes estejam disponíveis e acessíveis a todos? Como é possível até hoje impormos a limitação a determinados grupos sociais nos processos seletivos, com base em nosso desconhecimento sobre o tema?

Essas datas nos dão a oportunidade de refletirmos sobre a construção de “novas” empresas, uma nova sociedade mais inclusiva para todos. Como disse certa vez a Mariana Rosa, do Diário da Mãe de Alice: “Pessoas não são deficientes. Deficientes são as estruturas sociais, a arquitetura o sistema de ensino e trabalho que não estão acessíveis para todos”.

Ou como disse Benedita Casé Zerbini, filha de Regina Casé, em uma rede social, revelando que é uma pessoa com deficiência auditiva para apoiar outras pessoas surdas: “Não sabia até onde eu chegaria, como iria me virar, estudar, me formar, trabalhar, casar, ter filho […], busquem reabilitação auditiva e vejam que é possível, sim, ir muito mais longe do que a gente imagina”.

Sim, as pessoas surdas e cegas podem ir muito além das barreiras impostas pela sociedade, mas é inegável que para isso precisam de líderes e gestores que estejam abertos para as suas habilidades. Mais do que estar aberto à inclusão desses profissionais, o verdadeiro líder permite que esses profissionais se desenvolvam e cresçam dentro de suas empresas.

*Liliane Rocha CEO e Fundadora da Gestão Kairós, consultoria especializada em Sustentabilidade e Diversidade, autora do livro Como ser um líder Inclusivo e premiada com o 101 Top Global Diversity and Inclusion Leaders.

Fonte: Época Negócios

UFC disponibiliza site com jogos e conteúdos educacionais para alfabetização de crianças

Projeto deve ser expandido para atender o público jovem e adulto.  

Foto: Reprodução

Em tempos de pandemia novo coronavírus, a tecnologia desponta como aliada da educação. Para ajudar na alfabetização de crianças, a Universidade Federal do Ceará (UFC) disponibilizou a ferramenta “Luz do Saber”, um site com conteúdos didáticos e lúdicos para os anos iniciais do ensino fundamental. 

Usada anteriormente em algumas escolas como apoio para aulas, agora a plataforma digital pode ser acessada gratuitamente em qualquer lugar. Além de jogos, e atividades lúdicas, o Luz do Saber oferta biblioteca digital com mais de 30 livros didáticos. A expectativa é de que o acervo seja ampliado, em breve, com cerca de 200 obras da coleção Prosa e Poesia, do Programa Alfabetização na Idade Certa (PAIC), da Seduc.

O projeto é uma iniciativa da universidade, por meio do Laboratório de Mídias Educacionais do Instituto UFC Virtual, do Governo do Estado e da Prefeitura de Fortaleza que planejam expandir a ferramenta digital para outros públicos. “No momento, estamos ampliando o projeto para a versão apropriada para educação de jovens e adultos, sempre em parceria com a SEDUC”, explica, jorge Lira, pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UFC e coordenador do Programa Cientista-Chefe.

Conheça o site

Fonte: Diário do Nordeste

Contação de histórias com acessibilidade para crianças

 Os vídeos têm tradução em Libras e audiodescrição (Foto: Amanda Vieira/JP)

Além de se informar para proteger-se do novo coronavírus, as pessoas com deficiência também precisam de lazer durante a quarentena. Mas a falta de acessibilidade é persistente. Para quebrar essa barreira, a equipe piracicabana Encanto Produções e Eventos pensou em uma forma de levar o “mundo mágico” das princesas para todas as crianças pelos vídeos em seu canal no YouTube. A primeira produção disponível para os pequenos é a história da Bela e Cinderela, que conta com tradução em Libras (Língua Brasileira de Sinais), legendas e audiodescrição.

“Assim que surgiu uma oportunidade de gravarmos, nosso primeiro pensamento foi: ‘como podemos fazer com que esse conteúdo esteja de fato disponível para todas as crianças?’”, lembra Giulia Sbrissa, produtora artística. “Iniciamos os nossos estudos e preparativos para produzirmos, além de vídeos comuns, vídeos que podem ser assistidos e compreendidos por cada criança, dentro de suas particularidades”, conta.

A equipe visa continuar a produção com acessibilidade para o YouTube e levá- -las, após a quarentena, para os eventos presenciais. “Nosso principal objetivo é levar carinho, diversão e entretenimento de qualidade para dentro de cada casa, para cada família, principalmente neste momento tão vulnerável”, enfatiza Giulia.

De acordo com Leonardo Moraes, produtor cultural e diretor, a equipe recebeu apoio da intérprete de Libras Beatriz Turetta, também coordenadora do grupo Libras Piracicaba e Região, e a intérprete que aparece nos vídeos é Shalimar Laureano, que tem direito a uma fantasia e senta- -se ao lado das princesas durante a contação de histórias. “[A Beatriz] nos instruiu com vários tópicos sobre como realizar essas gravações de forma correta, porque além da nossa intenção de acertar, é necessário que as atividades sejam feitas de uma maneira que o público que está recebendo consiga compreender e usufruir desse material”, avalia Moraes.

Para Beatriz, a intérprete ocupar o mesmo espaço que as princesas ocupam é “uma conquista” para a área. “Não tenho palavras, [eles] foram muito sensíveis à necessidade das crianças, não só das surdas, mas se preocuparam se ia ser acessível para as crianças cegas”, avalia Beatriz.

Conforme conta Cristiane Sbrissa, administradora da equipe, eles se atentam à recepção do público para aprimorar a acessibilidade nos próximos vídeos.“Estamos recebendo muitas mensagens de carinho de diversas famílias e profissionais que estão felizes e tocados pelo resultado dessa primeira produção, assim como diversos feedbacks de profissionais de todo o Brasil que estão nos ajudando a ajustar alguns detalhes técnicos para as próximas gravações”, afirma Cristiane.

Andressa Mota

Fonte: Jornal de Piracicaba

Leia mulheres: clube do livro em Florianópolis dá visibilidade à literatura feminina

Projeto mundial tem grupo fixo na Capital catarinense; participantes fazem reuniões virtuais em meio à pandemia do coronavírus

Texto Catarina Duarte

Lançado em 1977, o ‘Seminário dos ratos’, de Lygia Fagundes Telles, é o livro do mês de abril do Leia Mulheres Florianópolis. O clube de leitura, que completou quatro anos em março, é dedicado exclusivamente à literatura feminina.

O projeto surgiu em 2014 com a escritora Joanna Walsh. Por meio da #readwomen2014, a britânica propôs que naquele ano apenas autoras fossem lidas por seus seguidores. A ideia era dar visibilidade às mulheres dentro do mercado editorial.

A pesquisa Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, vinculada à Unb (Universidade de Brasília), mostrou que entre 1965 e 2014, mais de 70% dos livros publicados por grandes editoras foram escritos por homens.

No Brasil, o Leia Mulheres passou a ocupar livrarias e espaços culturais no ano seguinte. Os clubes se espalharam por diversas capitais brasileiras, chegando a Florianópolis em 2016.

Os encontros, que já reuniram dezenas de participantes, acontecem no último sábado de cada mês na BU (Biblioteca Universitária) da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Não há restrição quanto à participação de homens no clube, mas as mediadoras dos debates são sempre mulheres. Assim, explica uma das fundadora do grupo na Capital, o espaço tem garantias de que a discussão abordará o universo feminino.

Por meio do clube é que as pessoas acabam percebendo como não é habitual ler autoras. Eu mesma percebi que na minha biblioteca só tinham livros escritos por homens. Isso mudou bastantes depois do Leia”, comenta Liandra Schug.

Graduanda do curso de Letras Português, Liandra fundou o grupo com uma colega um ano após entrar na universidade. Desde então, media os debates mensais, que têm público de cerca de 20 pessoas.

Discussões virtuais

Com o avanço do coronavírus em Santa Catarina, as reuniões do Leia Mulheres passaram a ser virtuais. A primeira em meio à pandemia acontece neste sábado (25).

O calendário com as obras também sofreu alterações, substituindo obras com edições limitadas ou de acesso mais difícil por livros online, por exemplo.

Até o fim do ano, obras de Cora Coralina, Ana Miranda e Ayobami Adebayo devem ser lidas pelas participantes do grupo.

Para participar do Leia Mulheres Florianópolis basta entrar em um grupo que as administradoras mantêm no Facebook. Não há restrições de idade ou gênero.

Fonte: ND+

A cultura do índio no acervo de Obras raras da Biblioteca Nacional

Em 1940, no México, acontece o primeiro Congresso Indigenista Interamericano que propôs aos países da América Latina a data de 19 de abril para comemorar o Dia do Índio. Após publicação do Decreto-lei nº5.540, de 2 de junho de 1943, assinado pelo então Presidente Getúlio Vargas, a celebração ocorre pela primeira vez no Brasil em 1944, através de solenidades, festividades e atividades educativas que promovem a divulgação da cultura indígena.

Na imagem, vê-se a figura do Capitão Manuel Arepquembe, chefe dos índios Coroados (Kaingang) do aldeamento de São Pedro de Alcântara.Na imagem, vê-se a figura do Capitão Manuel Arepquembe, chefe dos índios Coroados (Kaingang) do aldeamento de São Pedro de Alcântara.

Segundo a FUNAI (Fundação Nacional do Índio), o desdobramento da lei abrange as políticas de “proteção territorial e de conservação da biodiversidade das terras indígenas por meio da execução de planos anuais de gestão ambiental, do acompanhamento de processos de licenciamento ambiental e ações coordenadas de fiscalização e monitoramento”.  A questão da terra e a luta pela preservação e legitimidade constitui uma das maiores chagas carregadas pelos povos originários.  Os efeitos da colonização na América portuguesa são sentidos até hoje, principalmente no que diz respeito à dizimação de etnias múltiplas e às tentativas de homogeneização de suas matrizes identitárias. No entanto, a história nos conta que as relações entre colonos e indígenas também foram marcadas por negociações e movimentos de resistência.

Na imagem vê-se a figura do Capitão Manuel Arepquembe, chefe dos índios Coroados (Kaingang) do aldeamento de São Pedro de Alcântara. Oriundo da região dos sertões de Guarapava, Manuel Arepquembe permanecera no aldeamento de São Jeronimo na província do Paraná até 1868, quando se mudou para o aldeamento de São Pedro de Alcântara. O aldeamento contava com cerca de 10.000 indígenas e configurava como núcleo central da operação dos missionários, pois fazia a ligação das províncias de São Paulo ao Paraná. A região também confluía o trânsito e a permanência de diferentes grupos indígenas, com destaque aos Kaingang e Guaranis- Kaiowá.  As ordenações religiosas instaladas na região sul do país resultavam do Decreto instaurado por D. Pedro II que autorizava a vinda de missionários da Ordem Menor dos Capuchinhos da Itália para administrar e organizar os aldeamentos indígenas.

Com objetivo de empregar indígenas, concedendo soldos, trabalho na lavoura e manufatura em pequenas empresas de destilaria, pólvora etc., a ideia consistia em facilitar a apropriação de terras por parte de missionários e colonos. Ao passo que a empresa missionária avançava, os aldeamentos eram tomados pela prática da colonização militar. A titulação de indígenas a postos militares era tida como contrapartida estratégica para a dominação de suas terras. Não à toa é concedida à Manuel Arepquembe a alcunha de Capitão dos Coroados.

Durante a estada do cacique e capitão Manuel no aldeamento de São Jeronimo, Frei Luís de Cemitille, diretor daquela missão relatava a dificuldade em catequisar o cacique, que não fazia o sinal da cruz e mantinha relação providencial com o aldeamento no intuito de ter acesso às provisões, especialmente armas e ferramentas.  O clima de tensão e expectativas revelava as práticas de negociação entre os missionários e os indígenas, indicando o grau de civilidade a que deixavam submeter. Os ritos católicos concorriam com algumas garantias, de propriedade, inclusive. Relações monogâmicas eram ponto de desacordo, a exemplo da preferência do cacique Manuel em manter suas quatro mulheres, sinal de poder e força conforme a estrutura social dos Kaingang.

Em 1872, o frei Timóteo de Castelnuovo relatava a homenagem que os Coroados renderam à Manuel Arepquembe, assassinado durante uma emboscada em Botucatu, província de São Paulo. Na ocasião, o cacique retornava de viagem da casa do Barão de Antonina, após acerto sobre nova empreitada de ampliação do aldeamento de São Pedro de Alcântara com apoio dos Coroados. O ritual funerário típico daquele grupo fora executado conforme suas tradições. O relato do frei demonstrava o ato como manifesto de preservação de suas origens, mas ao mesmo tempo revelava a incompreensão do clérigo ao avaliar a conduta insubordinada e não condizente com princípios de civilidade.

O desenho aquarelado de autoria do alemão Franz Keller computa como mais um dos testemunhos, entre os membros das famosas expedições cientificas, realizadas ao longo do século XIX no Brasil. Ainda que sob uma visão eurocêntrica, etnólogos, naturalistas e artistas revelavam pelas telas e relatos de viagem, preciosos registros sobre a organização das tribos indígenas. Mas, eram através dos documentos administrativos, produzidos pelas ordens missionárias quanto ao empreendimento e organização dos aldeamentos que percebemos os entraves e as formas de resistências dos grupos indígenas para preservação de sua cultura e rendição de suas terras.

(Tatiane Cova)

Na divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional, encontram-se algumas obras referentes ao índio e sua cultura:

ANCHIETA, José de, Santo, 1534-1597. Arte de grammatica da lingoa mais usada na Costa do Brasil. Feito pelo padre Joseph de Anchieta… Em Coimbra [Portugal]: Per Antonio de Mariz, 1595. [2], 58 f.: brasão; 16 cm (4to).

É a primeira gramática missionária portuguesa sobre as línguas indígenas faladas no Brasil que se publicou no século XVI (em língua tupi). Este trabalho, valioso por si só, é extremamente raro.

Entre os romances indianistas, se destaca Iracema: a lenda do Ceará, de José de Alencar e a Confederação dos Tamoyos, de Domingos José Gonçalves de Magalhães.

Com o subtítulo Lenda do Ceará, Iracema é um dos livros mais republicados da literatura brasileira. Sua primeira edição é de 1865 e a segunda, revista, de 1870. Nos cem anos seguintes, serão feitas, só no Brasil, 113 edições, confirmando a percepção de Machado de Assis que, num texto de primeira hora, reconheceu a novidade e importância da obra, afirmando que o futuro a teria por obra-prima. Merecem especial atenção, nesse livro, o trabalho de linguagem centrado na comparação da personagem título com elementos da natureza brasileira, a profusão de notas nas quais se desenvolve uma das ideias centrais do romance: a utilização poética dos nomes indígenas. Notável ainda o fato de a narrativa estar envolvida por uma carta do autor, na qual ele apresenta a obra como parte de um projeto de construção da literatura nacional. Excepcional interesse oferece também o pós-escrito, em que Alencar rebate críticas e discute questões ligadas à elaboração de uma língua literária nacional. (Resumo elaborado por Paulo Franchetti, biblioteca Brasiliana Mindlin). Iracema faz parte da tríade dos romances indianistas, juntamente com O Guarani e Ubirajara.

.“A Confederação dos Tamoyos” é uma obra importante porque, além de seu caráter histórico e de expor um evento pouco abordado na literatura brasileira, revela ainda a importância dos índios na história do Brasil. O livro é rico em descrições sobre os costumes dos índios do século XVI, muitos dos quais em concordância com os relatos expostos na Carta de Pero Vaz de Caminha, como: o uso de penas e pinturas no corpo para ornamento, a igualdade entre os indígenas de uma tribo, a não prática da propriedade privada e o detalhamento das aldeias onde habitavam (Stéfanie Rigamonti Blog. Dica de livro/resenha: A Confederação dos Tamoios – Gonçalves de Magalhães.

Fonte: Biblioteca Nacional

Como criar sites acessíveis

Desenvolvedores precisam colocar a acessibilidade na rotina de trabalho. Imagem de Free-Photos por Pixabay

Um site acessível é aquele que é bom para todo mundo! E pra isso acontecer, é preciso fazer com que a  acessibilidade seja incorporada na rotina do desenvolvimento para eliminar barreiras de navegação e incluir todas as pessoas. Na prática, é essencial considerar quatro frentes na hora de pensar a acessibilidade do seu projeto: planejamento, conteúdo, design e desenvolvimento. 

Gosto de comparar acessibilidade web com a arquitetônica. É muito mais fácil, simples e rápido se implementar quando pensada no início do projeto. Após finalizado, vai ter refação de trabalho, levar mais tempo e custar mais caro”, explica Reinaldo Ferraz, especialista em desenvolvimento web do W3C Brasil.

Separamos, abaixo, três links para mostrar que, com planejamento, vontade e conscientização, é totalmente possível fazer um site acessível desde o começo. Eles serão de grande utilidade para você nessa jornada inclusiva.

Parte 1: planejamento e conteúdo

Parte 2: design

Parte 3: desenvolvimento

Além desses conteúdos, é possível encontrar muitos outros materiais de referência, dicas, artigos e ferramentas em nossa biblioteca virtual. E, em nossa área de Educação, estão disponíveis também uma seleção de melhores práticas e exemplos de códigos acessíveis. 

Fonte: Web para todos

Arquivo Público lança conteúdo infantil para download durante isolamento em Alagoas

Arquivo Público lança conteúdo infantil para download durante isoamento em Alagoas — Foto: Divulgação
Arquivo Público lança conteúdo infantil para download durante isoamento em Alagoas — Foto: Divulgação

Para entreter e educar as crianças durante o período de isolamento social, o Arquivo Público de Alagoas (APA), está disponibilizando um material didático e atrativo para download de forma gratuita. A Iniciativa faz parte das atividades que compõe o “Suquinho de Memória”, parceria com o Programa Criança Alagoana (Cria), que desperta no público infantil o interesse pela cultura alagoana.

Clique aqui e acesse o conteúdo do Arquivo Público

Os conteúdos que estão disponíveis são: o Calendário Cultural 2020, desenhos para colorir e joguinhos temáticos da Iara e a Turma do Guerreirinho, que podem ser encontrados nas páginas oficiais e redes sociais do Arquivo Público de Alagoas, do Gabinete Civil e do Relu/Ufal.

A outra novidade que o APA traz, é o lançamento do mascote Moacirzinho, em homenagem ao historiador Moacir Medeiros de Sant’ana. O mascote está presente no Calendário Cultural 2020, com personagens mirins do folclore regional, que foram criados pelo grupo de estudos Representações do Lugar (Relu), da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), e com o apoio da Imprensa Oficial Graciliano Ramos.

Segundo a superintendente do Arquivo Público, Wilma Nóbrega, a criação desse material didático aproxima o público infanto-juvenil da educação patrimonial e do contexto histórico e cultural do estado.

O Moacirzinho é uma homenagem que o Gabinete Civil faz, por meio do APA, ao professor Moacir Sant’ana, o primeiro diretor do Arquivo Público de Alagoas, que é pesquisador, escritor, nomeado historiador por notório saber na área, e que deixou seu legado na preservação da história de Alagoas”, disse Wilma.

De acordo com professora de arquitetura, Adriana Capretz, que coordenou a publicação, os outros personagens que estão no calendário representam os folguedos e figuras importantes de Alagoas.

As escolhas dos nomes Branquinha e Theo para os mascotes coincidem com a escolha dos nomes dos meus filhos, Branca, que é um nome muito presente nos lugares de Alagoas, e Theo – em homenagem a Theo Brandão”, informou a professora.

Arquivo Pública disponibiliza conteúdo infantil durante isolamento social — Foto: Divulgação
Arquivo Público disponibiliza conteúdo infantil durante isolamento social — Foto: Divulgação

Conheça os outros personagens que representam um folguedo

  • Guerreirinho – Guerreiro

  • Branquinha – Branca que é um nome muito presente nos lugares de Alagoas (roupa de festa junina)

  • Theo – homenagem a Theo Brandão (veste roupa de festa junina)

  • Iara – rainha das águas doces e salgadas (veste roupa do Coco de Roda)

  • Raimundo – personagem do livro Terra dos Meninos Pelados, de Graciliano Ramos, (veste roupa de Coco de Roda)

  • Aurélio – homenagem a Aurélio Buarque de Holanda (Chegança, veste roupa de marujo )

  • Martinha – referência à rainha Marta do futebol (veste roupa do Toré)

  • Diana – personagem do pastoril, conciliadora do cordão vermelho e do azul (veste roupa de Pastoril)

  • Dandara – em homenagem à Dandara, esposa de Zumbi dos Palmares (com vestimenta do Baianal)

  • Nise – homenagem à Nise da Silveira (roupa do Samba de Matuto)

  • Jorginho – homenagem a Jorge de Lima (roupa de Reisado)

  • La Ursa – urso de carnaval que também é muito presente no folclore em Alagoas

  • Bumba – o boi também está muito presente na cultura de Alagoas, então foi criado o Boi, no caso ele se chama Bumba.

Fonte: G1 Alagoas

Coronavírus: cegos, surdos e pessoas com outras deficiências criam rotinas de cuidados para usar as mãos durante a pandemia

Por EPTV 1

Pessoas com diversos tipos de deficiência relatam dificuldades para se proteger da Covid-19

Pessoas com diversos tipos de deficiência relatam dificuldades para se proteger da Covid-19

Acostumados a usar os braços e as mãos na locomoção, seja com a ajuda de uma bengala ou de terceiros, cegos, deficientes visuais, surdos, deficientes auditivos e cadeirantes precisaram mudar a rotina de cuidados e de higienização por conta da pandemia do novo coronavírus. Em Campinas (SP) o apoio no ombro de outras pessoas passou a ser uma opção quando é necessário sair de casa.

“O cego está acostumado a ser conduzido por uma pessoa segurando no antebraço dessa pessoa. Agora que nós temos a orientação de quando fomos espirrar e tossir cobrir com o antebraço, isso não é mais possível. Agora, a orientação é para que segure no ombro do acompanhante”, afirma a especialista em diversidade e acessibilidade Nilza Montanari.

O analista de sistemas Thiago Magalhães é deficiente visual e trabalha de casa. Ele tem dividido mais as tarefas com a esposa, antes ele saía mais para ir ao mercado e à padaria, por exemplo.

“Higienizar a bengala, coisa que a gente fazia raramente, agora a gente tem que fazer toda vez que chega em casa”, conta.

14/04: Homem com deficiência visual precisa higienizar a bengala várias vezes ao dia para se prevenir contra o coronavírus. — Foto: Reprodução/EPTV

14/04: Homem com deficiência visual precisa higienizar a bengala várias vezes ao dia para se prevenir contra o coronavírus. — Foto: Reprodução/EPTV

No caso dos cadeirantes, a cadeira de rodas precisa ser higienizada muitas vezes ao dia. Nilza pede que a solidariedade em tempos de pandemia se estenda a quem se deparar na rua com pessoas com deficiência, e se lembre de protegê-las.

“”Ajudando sempre, mas mantendo a segurança sua e da pessoa que você está ajudando”, explica.

14/04: Cadeirantes precisam higienizar a cadeira de rodas várias vezes ao dia por causa do novo coronavírus. — Foto: Reprodução/EPTV

14/04: Cadeirantes precisam higienizar a cadeira de rodas várias vezes ao dia por causa do novo coronavírus. — Foto: Reprodução/EPTV

Dicas de prevenção contra o coronavírus — Foto: Arte/G1

Dicas de prevenção contra o coronavírus — Foto: Arte/G1

Fonte: G1

Dorinateca tem clássicos acessíveis grátis na internet

Localizada na Vila Clementino, a Fundação Dorina Nowill surgiu há 70 mais anos como a Fundação para o Livro do Cego no Brasil. Hoje, a instituição atende deficientes visuais em vários trabalhos profissionalizantes, educativos e de consultoria para implementação de acessibilidade, mas continua editando audiolivros e livros em braille distribuídos para todo país.

Agora, em tempos de pandemia e crianças fora da escola, a instituição sugere aos pais e mães de crianças com deficiência visual para que acessem a Dorinateca, uma biblioteca virtual gratuita, que conta com vários clássicos da literatura infantil e que representam uma ótima opção de entretenimento para os pequenos. O site dispõe de um vasto acervo com opções de livros acessíveis nos formatos falado, digital acessível e braille para impressão.

“Entre os diversos gêneros que temos disponíveis, estão os clássicos que toda criança gosta. Desde contos de fada, como da Branca de Neve até aventuras como as de Robin Hood, que sempre estiveram no imaginário infantil e são atemporais”, explica Kely Magalhães, gerente de Serviços de Apoio à Inclusão da Fundação Dorina.

A gestora também reforça a importância do acesso aos formatos acessíveis de leitura para as crianças cegas e com baixa visão. “Ler proporciona condições de acesso à formação educacional e cultural, além de ampliar as possibilidades de trilhar um futuro mais independente, de maneira autônoma e plenamente cidadã”, afirma.

A Fundação Dorina já distribuiu 3.000 unidades da Coleção Clássicos para diversas escolas e bibliotecas do país, beneficiando pelo menos 30.000 crianças.

Entre os títulos disponíveis, há Bela Adormecida, de Simone Bibian; Branca de Neve, de Jacira Fagundes; Chapeuzinho Vermelho, de André Luiz P. Alves; Cinderela, de Anna Claudia Ramos; João e Maria, de Roberto de Carvalho; Os três porquinhos, da Editora Globo; Peter Pan, de Julio Lira; Pinóquio, de Viviane Brasil e Mary Aparecida Marques; Rapunzel, de Regina Drummond; Robin Hood, de Maurício Veneza

A Fundação fica na Rua Doutor Diogo de Faria, 558 • Vila Clementino

Fone: (11) 5087-0999

Site: fundacaodorina.org.br

Biblioteca virtual: dorinateca.org.br

Fonte: Jornal São Paulo Zona Sul

Coronavírus: um guia para todos verem

Luiz Alexandre Souza Ventura

Descrição da imagem #pracegover: Foto de smartphone sobre uma mesa, ao lado de um óculos de sol. Na tela do smartphone, a home do site ‘ParaTodosVerem Coronavírus’. Crédito: blog Vencer Limites.

Um empreendedor social e um programador, ambos de Curitiba (PR),lançaram nesta semana uma plataforma de acesso gratuito com informações atualizadas em tempo real sobre o coronavírus. O principal diferencial do site é que ele tem encontrado muitas barreiras para acompanhar a cobertura da pandemia.

O ‘Guia PraTodosVerem sobre o Coronavírus’ entrou no ar nesta segunda-feira, 30, no link guiapratodosverem.com.br.

Toda a construção da página, desde a primeira concepção, foi pensada para acesso por pessoas com deficiência visual em smartphones, notebooks ou computadores desktop. A navegação é inteira adaptada para os leitores de tela de todos os sistemas – Talk Back, no Android; Voiceover, no IOS/Aple, e o Narrador, do Windows –, tem botões de acessibilidade para constraste e aumento de texto, além de conteúdos acessíveis como audiolivros e audiodescrição de filmes.

O projeto surgiu há poucos dias, durante o período de distanciamento social que o mundo inteiro está enfrentando junto. Quem teve a ideia foi João Pedro Novochadlo, de 28 anos, empreendedor social na área de tecnologia para pessoas com deficiência visual e co-fundador do Veever. Ele entrou em contato com o amigo Mateus Silva, de 22 anos, que é programador, e eles construíram a plataforma juntos.

A página tem informações gerais sobre a covid-19, como sintomas, prevenção e perguntas frequentes, tudo coletado diretamente do Ministério da Saúde. Também está conectado ao sistema criado pela Microsoft que recebe dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) em tempo real, com estatísticas do Brasil e do mundo.

Além disso, mostra reportagens publicadas nos principais portais da grande imprensa do Brasil. Nesta quarta-feira, 1, foi incluida uma área somente de boas notícias.

“É uma plataforma centralizada de informações sobre o coronavírus. Não produzimos nenhum conteúdo”, explica João Pedro Novochadlo. “Além das notícias e dados, listamos diversos audiolivros publicados no YouTube e temos uma parceria com a Superplayer, que tem várias playlists de música”, diz Novochadlo.

Fonte: Estadão

Informações essenciais sobre novo coronavírus não chegam para os surdos

Língua Brasileira de Sinais (Libras) é reconhecida oficialmente no Brasil, mas a comunidade surda ainda não recebe informações básicas sobre a covid-19 - Reprodução

 

Língua Brasileira de Sinais (Libras) é reconhecida oficialmente no Brasil, mas a comunidade surda ainda não
recebe informações básicas sobre a covid-19Imagem: Reprodução 

Marie Declercq

Apesar da Língua Brasileira de Sinais (Libras) ter sido oficialmente reconhecida em 2002 como um meio legal de comunicação e expressão, grande parte das pessoas surdas ou com deficiência auditiva do Brasil não têm acesso a informações corretas sobre o novo coronavírus e suas medidas de prevenção. Essa demografia, também impactada pelas medidas de distanciamento social para evitar o contágio, conta com poucos canais de comunicação dispostos a repassar adequadamente as noticias sobre a pandemia. Por conta disso, informações básicas como a forma correta de lavar as mãos, a importância do isolamento e outras medidas não chegam até a comunidade.

Segundo o IBGE de 2010, 9,7 milhões de brasileiros são surdos ou possuem deficiência auditiva. Ao contrário do que se pode imaginar, nem todos os surdos dominam a língua portuguesa. A língua de sinais possui morfologia, sintaxe e regras gramaticais próprias — o que a qualifica não como muleta da língua falada, mas como um idioma completamente independente. Por conta disso, nem sempre um texto escrito será o suficiente para os surdos, muitos dos quais têm a Libras como língua materna. É como se uma pessoa ouvinte cuja língua materna é o português tentasse ler um texto em inglês sem dominar o idioma. Assim, reportagens escritas ou o closed caption da televisão não contemplam todo surdo no Brasil.

“Um número expressivo de surdos brasileiros não falam português, e eles vão receber essas informações [sobre o Sars-Cov-2] por meio da própria família, que trarão informações picadas, ou por meio de outros surdos”, explica Lúcio Cruz Silveira Amorim, professor do núcleo de Libras e Educação Especial da Faculdade de Educação na UFU (Universidade Federal de Uberlândia). “Recebi as notícias pela internet, mas não entendi muito bem o que estava sendo dito. Precisei ler dez vezes, e mesmo depois de ler não achei que fosse uma coisa relevante.”

Amorim, como muitos outros surdos da comunidade que leem o português escrito, se dispõe a esclarecer dúvidas sobre termos médicos e outras questões surgidas com a pandemia, mas alerta para o grande volume de conteúdos não confiáveis que chegam até a comunidade. “São informações enviesadas, erradas e achismos sobre uma questão muito grave”, explica.

Pronunciamentos oficiais nem sempre são compreensíveis

Nos últimos anos, se tornou obrigatório: todo pronunciamento oficial do poder público precisa de tradução simultânea em Libras. Para os ouvintes, a mera presença de um intérprete parece resolver a questão, porém, para os surdos, nem sempre essa presença é aproveitada como deveria. Em diversas ocasiões — como nas coletivas de imprensa do governador de São Paulo, João Doria — é possível perceber que há um intérprete presente. No entanto, poucas emissoras brasileiras (exceto as obrigadas a isso, por serem estatais) se preocupam em manter o intérprete enquadrado em cena para transmitir também em língua de sinais. No fim das contas, os surdos consideram que a obrigatoriedade acaba sendo tratada como “perfumaria”.

Na semana passada, o governador do Espírito Santo fez um pronunciamento por meio da sua página oficial do Facebook para explicar as medidas tomadas no estado em relação ao novo coronavírus. Tinha a seu lado uma intérprete de Libras que, segundo muitos internautas surdos, não estava traduzindo corretamente e, ao ser questionada, alegou estar fazendo um trabalho voluntário.

Também pelo Facebook, Fernando Parente Jr, presidente da Febrapils (Federação Brasileira das Associações dos Profissionais Tradutores e Intérpretes e Guia-Intérpretes de Língua de Sinais) criticou o desempenho da suposta intérprete.

Na posse do presidente da República em janeiro de 2019, a primeira-dama Michelle Bolsonaro discursou em Libras para chamar atenção aos direitos dos surdos e de pessoas com deficiência auditiva. A própria primeira-dama atuava como intérprete nos cultos ministrados no Ministério dos Surdos e Mudos da Igreja Batista Atitude, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Carro chefe das atividades da primeira-dama, a questão da inclusão das Libras no país pouco avançou para incluir a comunidade surda no acesso às informações de interesse público.

Thyago de Souza Santos, tradutor e intérprete de Libras, ajuda a traduzir reportagens em português escrito para a língua de sinais. Imagem: Arquivo pessoal.

Para Thyago de Souza Santos, tradutor intérprete de Língua de Sinais/Português TILSP, a abordagem do Governo Federal ao tratar a profissão como voluntariado complica a convocação de profissionais com proficiência e capacitados na língua de sinais, como no caso do Espírito Santo. “Ano passado, uma campanha feita pelo governo federal incentivou o trabalho voluntário de intérpretes de Libras, então é como se fôssemos missionários de igreja. Nossa trabalho não é visto como profissão, mas como assistencialismo. Nenhum desses veículos de informação destina verbas para acessibilidade, porque você encontra alguém disposto a fazer o trabalho de forma voluntária. Por amor, digamos assim”, explica. A falta de um órgão fiscalizador do trabalho dos intérpretes também contribui para que a tradução do português para a língua de sinais não seja padronizada em todos os pronunciamentos e meios de comunicação.

A falta de qualidade nas interpretações não para por aí. “Algumas emissoras disponibilizaram janelas com interpretação em Libras, mas não consegui entender nada do que estava sendo traduzido. Eram péssimos profissionais. Entendi melhor o que estava sendo dito em língua portuguesa”, conta Heloise Gripp, professora de Libras na Faculdade de Libras Letras da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Gripp pertence à segunda geração de uma família de surdos e possui proficiência em língua portuguesa e língua de sinais.

Imagem: Arquivo pessoal

Por conta disso, é ela que mantém a família informada sobre as precauções para se prevenir da covid-19. Para a professora, muitas vezes os intérpretes escolhidos não possuem um nível equivalente de formação e proficiência e, assim, as informações se perdem. “Como em várias ocasiões é necessário um revezamento entre intérpretes, às vezes você está vendo um profissional fazer uma interpretação muito boa e em seguida entra outro, de um nível diferente. Isso faz com que se perca o que está sendo passado”, conta.

“Os surdos ficam aquém das informações que são passadas”

Os desencontros de medidas e informações entre Governo Federal e Ministério da Saúde, somadas à enxurrada de informações não confiáveis compartilhadas pelas redes sociais, são suficientes para confundir muitos ouvintes. No caso da comunidade surda, os pronunciamentos oficiais, mesmo com falhas de tradução, são um dos poucos meios de obter informações.

Claudia Hayakawa, guia turística, costuma checar a veracidade das notícias usando a internet, mas percebeu que muitos surdos idosos minimizaram o impacto do Sars-Cov-2 no Brasil após o pronunciamento presidencial feito no dia 24 de março, quando Bolsonaro disse que o país deveria voltar ao normal o mais rápido possível. “As pessoas surdas têm ficado em casa, mas isso acabou causando uma questão séria na comunidade, porque alguns passaram a descartar as recomendações contra o contágio. Alguns surdos também têm saído por conta do trabalho, porque não foram dispensados”, conta Hayawaka. “É muito importante para nós ter acesso linguístico e medidas para favorecer esse acesso. Sem isso, sempre ficaremos aquém das informações não só no caso das notícias, mas em todos os aspectos”, afirma.

Imagem: Arquivo pessoal

Como nem todo surdo consegue entender toda a terminologia médica usada para falar da covid-19, muitos ainda não adotaram o isolamento porque simplesmente não lhes foi explicada a importância desta medida. “A maioria dos surdos nasce em famílias de ouvintes, que não aprendem língua de sinais. Por isso, muitas crianças surdas não ficam sabendo o motivo de não estarem indo para a escola. Alguns ficam em casa, mas outros não fazem quarentena por não entenderem o que está acontecendo”, reclama Lucio Amorim.

Ruídos

O acesso prejudicado a informações sobre saúde não reflete apenas uma falta de iniciativa do poder público em valorizar intérpretes e pensar meios eficazes de traduzir a língua portuguesa para a Libras, mas também evidencia problemas na própria educação brasileira ao atender os alunos surdos. Para Nubia Garcia Vianna, fonoaudióloga, sanitarista, doutora em Saúde Pública e professora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), isso dificulta o aprendizado da língua portuguesa, seja falada ou escrita, pelos surdos. A negligência também prejudica o aprendizado de Libras das crianças surdas por falta de contato prematuro com outros membros da comunidade.

A consequência da falta de comunicação em Libras é uma ausência de informações básicas, especialmente no tocante à saúde, muito antes da chegada da pandemia ao Brasil. “Infelizmente, os surdos não têm acesso às coisas mais simples e básicas da nossa vida diária. Se, para nós, é óbvio que usar camisinha previne infecções sexualmente transmissíveis, não é para todo surdo que isso está claro, porque faltam informações. Essa precariedade vai das coisas mais simples às mais complexas. Quando a pandemia começou a estourar no Brasil, tive acesso a vídeos gravados por surdos falando que não deveríamos nos preocupar. A informação vem truncada, e isso causa um grande ruído na comunicação”, aponta Vianna.

A ajuda vem da própria comunidade

Com um intérprete, Vianna ajudou a produzir um vídeo em Libras para passar informações e cuidados sobre o novo coronavírus publicado na página de Pedro Tourinho, médico sanitarista e vereador de Campinas eleito pelo PT (Partido dos Trabalhadores). Algumas associações também se dispuseram a tentar criar canais seguros para a divulgação de dados corretos sobre a pandemia. Nas redes sociais e em grupos fechados, surdos com profiência em português e intérpretes estão gravando por conta própria vídeos com reportagens traduzidas para língua de sinais. Um desses grupos, o Central Libras/Coronavírus, conta com mais de sete mil membros.

“[A existência desse grupo] me deixou extremamente contente, e convidei vários surdos a participarem para terem acesso às informações em língua de sinais”, conta Heloise Gripp. “Eu mesma me prontifiquei a ajudar na tradução, porque tinha muita dificuldade com as informações truncadas e incompletas que chegavam até mim, exigindo um esforço muito grande de compilação. O grupo tem todas as informações, facilitando a compreensão, e vemos todos unidos em prol de uma causa maior: fazer com que os surdos tenham acesso à informação”, afirma.

Nas últimas semanas, a fonoaudióloga se deparou com diversos vídeos enviados por surdos da comunidade, disseminando notícias falsas sobre a covid-19 e questionando a taxa de letalidade e de contágio da doença. A pandemia trouxe dificuldades e desafios para toda a sociedade, mas sem conteúdos informativos produzidos e pensados para a compreensão dos surdos proficientes em Libras, a comunidade depende de poucas iniciativas para se proteger.

Fonte: UOL

Coronavírus: Secretaria Nacional publica cartilha para pessoas com deficiência

Luiz Alexandre Souza Ventura

Descrição da imagem #pracegover: Desenho com quatro figuras representando as pessoas com deficiência. Crédito: Reprodução.

Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (SNDPD), subpasta do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos (MMFDH), publicou nesta semana na internet uma cartilha com orientações sobre o coronavírus e a pandemia da covid-19 (clique aqui para acessar). O guia foi desenvolvido na plataforma Sway, da Microsoft, que gera apresentações interativas para publica na web e nas redes sociais.

A página tem recursos completos de acessibilidade e vídeos com tradução de todo conteúdo em Libras, a Língua Brasileira de Sinais.

São informações sobre o vírus, formas de transmissão, os principais sintomas e as diversas maneiras de garantir a prevenção. O site também indica as precauções que cuidadores, atendentes pessoais e equipes de home care precisam ter quando chegarem a rua, antes de qualquer contato com os atendidos, orientando a respeito das medidas a serem adotadas com casos suspeitos.

Além disso, tem explicações importantes a respeito de doenças raras e apresenta orientações para aspectos específicos das várias deficiências – auditivas, físicas, intelectuais e visuais -, inclusive a surdocegueira.

Um detalhe importante é que o sistema permite fazer download do guia completo em arquivo PDF.

Na semana passada, a Organização das Nações Unidas fez um alerta mundial sobre o abandono das pessoas com deficiência durante a pandemia.

No texto publicado em vários idiomas, a relatora especial da ONU sobre os direitos das pessoas com deficiência, Catalina Devandas, afirmou que “pouco foi feito para fornecer as orientações e apoios necessários às pessoas com deficiência para protegê-las durante a atual pandemia do COVID-19, apesar de muitas delas pertencerem ao grupo de alto risco”.

E todo o planeta, conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de casos confirmados ultrapassa 509 mil e mais de 23 mil pessoas morreram por causa do coronavírus.

No Brasil, o Ministério da Saúde confirmou, até agora, 92 mortes e 3.417 casos, em todas as unidades federativas.

Fonte: Estadão

“A literatura tem permitido que crianças negras se valorizem como tal”

Autora de livros infantis sobre racismo e direitos humanos, Kiusam de Oliveira é também professora e se inspirou em sua própria experiência com o preconceito para escrever histórias

Marília Marasciulo

Kiusam de Oliveira escreve livros infantis sobre temas como racismo e empoderamento (Foto: Reprodução/Facebook)

A autora de livros infantis Kiusam de Oliveira, 54 anos, abraçou uma causa nada simples: tratar de temas espinhosos como racismo e direitos humanos de uma forma que crianças compreendam, se identifiquem e, o mais importante, se encantem. Para isso, buscou na sua própria experiência e vivência como estudante e professora negra a inspiração para histórias que hoje são tidas como referência na educação infantil.

Nascida em Santo André, na Grande São Paulo, Oliveira é filha de uma tricoteira que sempre priorizou a educação. “Minha mãe, mesmo muito pobre, primava pelos estudos e dizia: ‘nós vamos dividir um ovo em quatro partes, mas você vai ter uma educação de qualidade’”, lembra a autora. Aos 14 anos, começou a cursar Magistério de 2º Grau, seguiu na Pedagogia, obteve especialização em deficiência intelectual, mestrado em Psicologia Escolar e doutorado em Educação.

Mas, além da carreira no magistério, e também por influência da mãe, Oliveira sempre gostou de escrever. “Ela fazia capangas [tipo de bolsa] e colocava dentro dos bolsos cadernetinhas com lápis pequenos e me dizia para escrever”, lembra a autora. Foi em algumas destas centenas de cadernetas — ela conta mais de 150 — que a autora encontrou as temáticas para suas histórias.

Em 2009, lançou seu primeiro livro: Omo-Oba: Histórias de Princesas, no qual contos e mitos de orixás femininos ganharam forma de princesas. Em 2013, publicou seu maior sucesso, O Mundo no Black Power de Tayó, em que questiona estereótipos racistas a partir do empoderamento de uma menina negra de 6 anos de idade. No ano seguinte, com O Mar que Banha a Ilha de Goré, a autora se aprofundou ainda mais nos temas, usando a viagem da protagonista, uma menina de 9 anos, para o Senegal, para abordar a história do tráfico de seres humanos escravizados durante a colonização europeia das Américas.

Agora, ela se prepara para lançar dois novos títulos em abril: O Mundo de Tayó em Quadrinhos e O mundo no Black Power de Akin, uma esperada versão de Tayó para meninos. “Entendo que essa literatura que eu faço, que chamo de literatura infantil negro-brasileira do encantamento, ajuda a criança negra a se reencontrar, a trazer esse encantamento ou reencantamento para seu corpo”, diz a autora. A seguir, ela fala mais sobre infância, racismo e educação:

Você sofreu os preconceitos que combate hoje durante a sua infância em Santo André?
Conheci as marcas do racismo em uma escola de freiras perto de casa, para onde fui quando estava próxima de completar 6 anos. Vou contar uma situação que foi muito marcante, para que as pessoas consigam compreender as marcas da violência na vida da gente. Eu não conseguia segurar meu xixi, e tinha uma necessidade ir ao banheiro imediatamente, com um atestado para isso. Um dia minha professora faltou e veio a diretora, ela era muito temida por nós. Ela dizia: “eu sou uma alemã de 2 metros de altura e vocês vão ter que me engolir.” Dava pavor.

Eu senti vontade de fazer xixi, levantei e pedi autorização para ir ao banheiro. Ela não autorizou, pediu para eu sentar novamente, e quando eu abri a perna para me movimentar e retornar à minha carteira, fiz xixi ali. Ela se levantou, agarrou a minha orelha, foi me arrastando, me levou ao banheiro, tirou minha roupa, abriu o chuveiro e me jogou embaixo da água fria. Comecei a chorar muito, gritava, porque tinha esperança da minha mãe me ouvir da nossa casa. Nisso ela pegou um tufo de papel higiênico e colocou dentro da minha boca. Aquilo rasgou minha gengiva, eu me lembro da água caindo com sangue. Aí ela saiu. Quando voltou, estava com todos os alunos da minha sala. As crianças começaram a rir e a gritar: “a macaca tá pelada, a macaca tá pelada!”.

Aí ela disse assim: “olhem bem para o que vocês estão vendo, é assim que todo preto deve ser tratado”. Isso pra mim foi muito marcante, porque minha mãe falava em casa sobre o racismo, e eu não entendia, eu era uma criança. Fui entender nesse dia.

Como essas vivências influenciaram sua escolha pela carreira no magistério?
Quando fui fazer uma habilitação na USP, na década de 1990, na área de deficiência intelectual, conheci grupos de estudos de formação de professores. E nesses grupos estudavam memórias que a gente tinha enquanto estudantes de pedagogia, e que a gente carregava na prática do magistério. Foi nele que consegui me lembrar de uma agressão racista de um professor de geografia. Hoje posso dizer que minha escolha de atuar como professora vem dessa potência de entender o quanto um professor e uma professora são capazes de determinar a vida de um estudante.

E depois de tantos anos, acha que a situação nas escolas melhorou?
A educação ganhou um novo corpo a partir da Lei Federal 10639, de 2003, que obriga o ensino da história da África nas escolas brasileiras. Foi tão importante que conseguiu alterar a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Ela obrigou professores e profissionais da educação a olharem para a diversidade de uma outra forma, que valoriza, compreende e respeita. E pensar em projetos e ações a partir das falas e dos comportamentos das crianças, jovens e adultos em sala de aula.

Falo desta lei sempre com muita cerimônia, muito respeito, porque pra mim é uma lei revolucionária que alterou o padrão da educação brasileira desde a sua criação. Ela é tão revolucionária que não foca somente no espaço da sala de aula, ela obriga os profissionais da educação a se verem e se olharem. Nós precisamos nos olhar e refletir sobre a educação que tivemos: o que a vó falava sobre negros dentro de casa, a mãe, o pai, os filhos… que cenas racistas você viu quando foi para o mercado, como se portou, o que sentiu. É preciso olhar para isso.

Por que educar os professores faz parte da luta contra o racismo?
Trabalhei com formação de professores nos últimos 20 anos no Brasil inteiro, e as professoras adoram contar esse mesmo caso, o do aluno que reclama: “professora, fulana está me chamando de negrinha.” E eu pergunto: “e aí, qual foi a sua resposta?”. Elas costumam responder: “ué, eu falei, você não é negrinha mesmo?” E ainda complementam: “por que o próprio negro é racista?” Esse é um estereótipo para cima do negro.

Um estereótipo recorrente e reforçado na sala de aula.
Primeiro, vou dizer o seguinte: nao tem como negro ser racista, assim como não tem homem ser feminista, mulher machista. O que tem de possibilidade é no máximo reproduzirmos a forma com a qual somos tratados. Então, se eu recebo práticas racistas, e sou chamada de negrinha o tempo todo e passo a minha infância passando por situações violentas e de exclusão, uma hora eu vou querer não ser mais quem eu sou, vou me negar. Em algum momento dessa negação, vou preferir achar que tenho forças para alterar minha forma de ser e me tornar parecida com quem eu quero ser, que é uma pessoa branca. Vou alisar meu cabelo, vou usar certo tipo de roupa, tentar ser discreta nas cores (que é outro estereótipo). Mas isso não quer dizer que a pessoa está sendo racista, porque o conceito de racismo está atrelado a poder, poder real e concreto, coisa que o negro não tem.

De onde veio a inspiração para criar suas histórias?
Escrevo desde criança. Minha mãe era crocheteira e tricoteira, ela fazia capangas, e colocava dentro dos bolsos cadernetinhas com lápis pequenos e me dizia para escrever. Antes eu fazia garatujas, bolinhas, linhas. Com o tempo, aprendi a ler e a escrever, e aí comecei a trabalhar as letras dentro do modelo formal de escrita. Assim registrei as coisas. O incrível é que minha mãe guardou todas as minhas cadernetinhas. Tenho mais de 150 com histórias escritas, é um material que tem uma potência gigantesca com a forma que eu pensava, e há textos focados na questão racial desde a infância. Infelizmente, é uma questão que permanece, o corpo da criança negra é marcado pelo racismo. Todas as histórias que escrevo são reais. São experiências vistas, vividas, ouvidas por mim enquanto professora e como negra.

Como as crianças reagem aos seus livros?
Tem um vídeo que mostra um grupo de professoras trabalhando com o primeiro livro que eu lancei, Omo-Oba: Histórias de Princesas, e é notório perceber como as crianças receberam o livro naquela época. Foi muito surpreendente, porque elas olhavam e diziam que aquelas princesas eram falsas, de mentira, mas o mais comum era ouvir delas o que eram feias porque são pretas. Havia uma rejeição por parte de crianças negras e não negras. O livro foi lançado em 2009, e de lá para cá, especialmente nos últimos cinco anos, tenho percebido pelas cartas que recebo dos leitores que as crianças escolhem uma princesa e dizem “eu me pareço com tal”. É isso, porque nessa história eu trabalhei arquétipos femininos, então as crianças vão se identificando com aquilo para além da aparência.

Por que é tão importante trabalhar a identidade na literatura infantil?
Quando conto a história da Tayó, do meu livro O Mundo no Black Power de Tayó, muitas crianças de 5, 6 anos, verbalizam ali, no coletivo, “nossa, eu sou igual a Tayó, então eu sou negra?”. Tayó é uma personagem superempoderada, que se sabe linda porque se vê pelos olhos da mãe dela. Isso é o encantamento, ela nao se sabia negra, mas que bom que com 5, 6, 7 anos ela está tendo condições pela literatura hoje de se entender, se reconhecer e se valorizar enquanto negra. Dei aula até o ano passado na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), e recebia jovens com 25 anos, que relatavam que tinham acabado de se descobrir como negras.

Trecho de O Mundo de Tayó, de Kiusam de Oliveira (Foto: Divulgação)

Há alguns elementos recorrentes nas suas histórias, como a ancestralidade e o cabelo black power. Por que escolheu trabalhar com eles?
Esses são os elementos que faltam na literatura brasileira focada para os públicos infantil e juvenil. São elementos que os autores sempre tiveram grandes problemas para trabalhar. Ancestralidade é algo que é fundamental para qualquer origem étnico-racial, é um assunto visceral para todos e todas nós.

Para além disso, parto do princípio de que a África é o berço da humanidade, como cientistas já comprovaram há alguns anos. Para mim é o seguinte: independentemente da cor da pele, todos nós remontamos à África, então ancestralidade está em nós, acreditando nela ou não, basta olhar o legado de todas as pessoas que vieram antes da gente. Cabelo black power é recorrente, porque tanto no meio negro e no meio não negro ele continua a ser um assunto central. O cabelo crespo não é visto como bonito, como higiênico, como esteticamente coerente ou positivo.

Vivemos hoje em uma época de revisionismo e negacionismo histórico. Por que desconstruir o racismo é algo que ainda gera tantos embates e retrocessos?
Nós retornamos para um Brasil saído do… Eu ia usar a expressão colonialismo, mas nem vou, porque acho que ainda vivemos o colonialismo, a colonialidade está presente, e nós do movimento negro sempre pontuamos isso. O que acontece hoje é que está explícito. Como nós temos autoridades que não se furtam em demonstrar o seu racismo, por que os cidadãos comuns vão se furtar? Então quando temos um governo que coloca políticos todos alinhados em um mesmo pensamento de exclusão da população preta e desprezo pelo pobre, é isso que nós vamos ter: retrocesso. Não que esse retrocesso de práticas e pensamentos não existisse, ele sempre existiu, mas as pessoas eram mais discretas, se preocupavam com a forma como iam agir. Então é esse Brasil que estamos vivendo, capaz de olhar para mim, uma pessoa de 54 anos, e atirar uma pedra simplesmente porque estou com uma roupa branca.

Ao mesmo tempo, temos visto o tema entrar um pouco mais em pauta, aparecendo por exemplo no Oscar deste ano, cujo vencedor foi um curta justamente sobre black power. Que outros avanços você vê neste sentido?
O primeiro avanço que eu elencaria é toda a movimentação que os negros e negras estão conseguindo fazer nas redes sociais. As redes sociais se tornaram grandes plataformas de visibilidade coletiva. A gente consegue expor as práticas racistas, chamar as pessoas para o debate, com elas é impossível alguma pessoa dizer que o racismo não existe. Isso para mim é revolucionário. Outro espaço é a universidade, que vem sendo acessada por negros e negras. Isso é algo impagável, com o qual eu há 15 anos eu sonhava, mas não imaginava que alcançaríamos tanto.

Como seus livros podem transformar a relação de toda a sociedade com a cultura negra e africana?
Entendo que essa literatura que eu faço ajuda a criança negra a se reencontrar, a trazer esse encantamento ou reencantamento para seu corpo. Eu, por exemplo, era uma criança amada dentro da minha casa e na minha família, todos meu achavam linda, diziam que eu tinha olhos lindos, nariz lindo, boca linda. Mas cheguei na escola e conheci uma negação para meu ser e minha existência, e passei a não gostar mais de mim, a querer ser diferente para poder ser tratada com maior respeito. Então, neste caso, é um reencantamento. Para aquelas crianças que cresceram em lares onde pais e mães também viveram de forma visceral o racismo desse país, sem ter alguém para orientá-las de que “isso que fizeram com você é racismo, não aceite”, aí o primeiro momento é o encantamento de se entender como negra. Nós vivemos um tempo em que a literatura tem favorecido e proporcionado momentos dignos para que as crianças negras se reconheçam e se valorizem como tal. E isso é incrível.

Fonte: GALILEU

Fundação Dorina Nowill disponibiliza livros infantis acessíveis para cegos

Em meio ao isolamento social provocado pela pandemia do novo coronavírus, livros para crianças com deficiência visual estão disponíveis pela biblioteca virtual

A Fundação Dorina Nowill para Cegos disponibilizou livros infantis acessíveis gratuitamente no acervo de sua biblioteca digital, a Dorinateca.

Editoras, escritores e livrarias vêm tomando medidas para tornar disponíveis livros, e-books e audiolivros para as pessoas que estarão isoladas durante a pandemia de coronavírus, mas o acesso a obras acessíveis para cegos ainda é limitado.

Como as aulas foram temporariamente suspensas por todo o Brasil, esse acervo poderá ser acessado por crianças com deficiências visuais que não terão acesso a livros acessíveis por meio das escolas.

“Entre os diversos gêneros que temos disponíveis, estão os clássicos que toda criança gosta. Desde contos de fada, como da Branca de Neve até aventuras como as de Robin Hood, que sempre estiveram no imaginário infantil e são atemporais”, explica Kely Magalhães, gerente de Serviços de Apoio à Inclusão da Fundação Dorina.

Confira a lista dos títulos da Coleção Clássicos disponibilizados virtualmente:

  • Bela Adormecida, de Simone Bibian

  • Branca de Neve, de Jacira Fagundes

  • Chapeuzinho Vermelho, de André Luiz P. Alves

  • Cinderela, de Anna Claudia Ramos

  • João e Maria, de Roberto de Carvalho

  • Os três porquinhos, da Editora Globo

  • Peter Pan, de Julio Lira

  • Pinóquio, de Viviane Brasil e Mary Aparecida Marques

  • Rapunzel, de Regina Drummond

  • Robin Hood, de Maurício Veneza

Fonte: Terra

Vídeos em libras sobre o coronavírus ajudam a atender pessoas com deficiência auditiva

Secretaria Extraordinária da Pessoa com Deficiência defende visitas domiciliares e elabora material especial em tempo de Covid-19

Texto por Lúcio Flávio

Na luta contra o coronavírus, todos os vídeos elaborados para o público especial devem ter legendas e uma janela com tradutor em libras | Foto: Divulgação

Os cuidados com a higienização diante da pandemia que assola o mundo nos últimos dias têm sido ampliados para contemplar uma parte especial da sociedade: os cidadãos que convivem com qualquer tipo de deficiência. A Secretaria Extraordinária da Pessoa com Deficiência, órgão subordinado à Casa Civil, está atenta e empreende várias ações destinadas a esse público.

Destacam-se, como alvo desse trabalho, os deficientes auditivos – que fazem das mãos sua principal ferramenta de comunicação com o mundo exterior – , cadeirantes e usuários de muletas e bengalas. Lavar bem as mãos com água e sabão ou esterilizá-las com álcool em gel são algumas das medidas preventivas, mas essas pessoas demandam e merecem mais atenção.

Trata-se de uma parcela da sociedade muito especial. Antes de qualquer vídeo sobre os cuidados sobre o coronavírus, é preciso alertá-las [as pessoas com deficiência] sobre o porquê de elas terem que tomar esses cuidados”, alerta a secretária da pasta, Roseane Estrela, a Rosinha, como gosta de ser chamada. Ela defende que todos os vídeos produzidos para esse público devem ter legendas e uma janela com tradutor em libras, a língua brasileira dos sinais. “Isso já é lei no Brasil desde 2015”, destaca, referindo-se à Lei nº 13.146.

Atualmente há mais de 600 mil pessoas com qualquer tipo de deficiência no Distrito Federal. A grande maioria, informa Roseana, se encontra abaixo da renda da pobreza e com grande dificuldade de locomoção. “São pessoas que se encaixam no grupo de risco e que por isso deveriam ser dispensadas ou pelo menos atuar em regime de teletrabalho”, sugere.

Esse foi um dos assuntos da conversa que Roseane teve recentemente com o novo secretário de Saúde, Francisco Araújo. Na ocasião, ela aproveitou para sugerir outras propostas para o titular da pasta, entre elas, uma de caráter emergencial, em tempos de coronavírus, como a criação de um “protocolo especial de atendimento domiciliar” para deficientes físicos.

Vai funcionar da seguinte maneira: a pessoa suspeita entrará em contato com a gente, que encaminhará uma equipe até à casa dela”, antecipa. “Estamos aguardando uma resposta da Secretaria[de Saúde] para as próximas semanas, para a aprovação desse procedimento.”

Assista, abaixo, a dois vídeos sobre cuidados com o coronavírus, produzidos com acompanhamento em tempo real de um intérprete de libras.

Vídeo 1:


Vídeo 2:

Fonte: Agência Brasília

Coronavírus: isolamento reforça importância da acessibilidade digital

Texto por Luiz Alexandre Souza Ventura

Pessoas em todo o mundo estão recolhidas dentro de casa e a internet se tornou a principal ferramenta para acesso a serviços, compras e notícias. Para a população com deficiência e os idosos, a falta de recursos assistivos nos websites cria barreiras de navegação que dificultam a prevenção e impedem a leitura de informações fundamentais sobre a pandemia. Brasil tem 14 milhões de páginas na internet, mas somente 0,7% com acessibilidade para pessoas com deficiências.

Descrição da imagem #pracegover: Foto distante de um computador e um smartphone sobre uma mesa de madeira. Crédito: blog Vencer Limites.

A recomendação é ficar em casa e manter a higiene constante. Para usar os serviços públicos, fazer compras, acompanhar as notícias e se manter bem informado sobre o avanço da pandemia do coronavírus, a internet é uma ferramenta fundamental.

Apesar da quantidade de informações diárias sobre o esforço mundial para conter a doença, há uma parcela do público que não consegue acompanhar as atualizações por conta própria. O motivo é a ausência de recursos de acessibilidade digital nos websites.

No Brasil, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), 57% dos cidadãos com deficiência usam com frequência a internet. Dados do World Wide Web Consortium Escritório Brasil (W3C Brasil) mostram que nosso País tem aproximadamente 14 milhões de websites, mas somente 100 mil com algum tipo de acessibilidade.

Isso representa 0,7% de páginas que podem ser acessadas por pessoas com deficiência, principalmente deficiências severas, além dos indivíduos com pouca prática no uso da tecnologia, grupo no qual estão muitos idosos que vivem sozinhos.

Em todo o mundo, são 1,8 bilhão de páginas na web. Em 2018, a quantidade de pessoas que acessaram a internet diariamente chegou a 3,5 bilhões, mais da metade da população no planeta.

Na situação atual, com o confinamento imposto pelas autoridades em vários países para impedir que o coronavírus se alastre e cause colapso nos sistemas de saúde e na economia, o número diário de internautas, provavelmente, aumentou bastante.

De acordo com a empresa eSSENTIAL Accessibility, especializada em consultoria e serviços de acessibilidade digital, pessoas com deficiência movimentam em todo o mundo aproximadamente US$ 4 trilhões por ano. No Brasil, esse montante chega a R$ 22 bilhões.

Somente em nosso País, o setor de tecnologia assistiva faturou R$ 5,5 bilhões em 2017, segundo dados do Grupo Cipa Fiera Milano, responsável pela REATECH (Feira Internacional de Tecnologias de Reabilitação, Inclusão e Acessibilidade).

Considerando o número de cidadãos brasileiros com deficiência e também pessoas com dislexia, daltonismo e idosos, a quantidade de usuários da internet que precisam da acessibilidade pode chegar a 30,2 milhões, conforme dados do IBGE (PNAD Contínua 2018).

Tudo na internet – Explicações detalhadas sobre a acessibilidade digital e sua importância para a inclusão socioeconômica estão disponíveis. O movimento Web Para Todos é um exemplo. A página do governo federal também tem informações sobre o tema.

Fonte: Blog Vencer Limites

A invisibilidade dos arquivos femininos: entrevista com Luciana Heymann

De acordo com pesquisadora, “o menor número de arquivos de mulheres nas instituições de memória reflete a desigualdade de oportunidades que tem marcado a sociedade brasileira, responsável por reservar mais e melhores lugares para os homens”.

Cristiane d’Avila entrevista Luciana Quillet Heymann

Na apresentação do dossiê “Mulheres, arquivos e memórias”, publicado pela Revista do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), em março de 2018, as organizadoras apontam para a invisibilidade feminina nos arquivos públicos, nacionais e internacionais. Para além da presença ou ausência de mulheres na historiografia, o texto de apresentação do dossiê indica algo importante: não há apenas lacunas em narrativas sobre mulheres, mas uma imensa ausência de fontes sobre ou produzidas por elas.

Os arquivos são instituições que expressam relações de poder. Silêncio e invisibilidade não são elementos neutros na construção de suas fontes e fundos. A partir deles podemos perceber questões como a negociação entre memória e esquecimento, o direito ao uso e à privacidade de dados pessoais e a luta por reconhecimento e prevalência de desejos e interesses. Em momento no qual vozes femininas são caladas, muitas vezes à força e violentamente, há que se ressaltar a importância dos processos de arquivamento de suas experiências como sujeitos históricos e o papel das instituições de memória.

Luciana Heymann (Fiocruz). Foto: Vinícius Pequeno, DAD/COC/Fiocruz.
Luciana Heymann (Fiocruz). Foto: Vinícius Pequeno, DAD/COC/Fiocruz.

Para se ter uma percepção do contexto aqui referido, dos 305 arquivos pessoais custodiados pelo Arquivo Nacional (AN), no Rio de Janeiro, apenas 26 são de mulheres. Na Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, dos 88 arquivos pessoais sob a guarda do Departamento de Arquivo e Documentação, apenas seis (6) são de sujeitos femininos – os nomes e um pequeno resumo de cada um estão ao final do artigo.

Para falar sobre o tema, entrevistei Luciana Quillet Heymann, historiadora, doutora em Sociologia e pesquisadora do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz. Segundo explica a historiadora, “o menor número de arquivos de mulheres nas instituições de memória reflete a desigualdade de oportunidades que tem marcado a sociedade brasileira, responsável por reservar mais e melhores lugares para os homens”.

A que você atribui a baixa representatividades das mulheres nos arquivos?

Em primeiro lugar, creio que essa baixa representatividade espelha a presença minoritária das mulheres na vida pública. Essa presença vem aumentando, mas ainda está longe de uma situação paritária. Prova disso é que está para ser votado um projeto de Lei (PL 2.235/2019) que prevê a reserva de ao menos 30% das cadeiras de Deputado Federal, Deputado Estadual, Deputado Distrital e Vereador para mulheres. Não tenho dados sobre outros campos de atuação, mas o que se observa, em geral, é tanto uma menor presença feminina como mulheres em cargos de menor prestígio em relação aos ocupados por homens.

Como você avalia a situação das mulheres em arquivos de instituições de memória e científicas?

O menor número de arquivos de mulheres nas instituições de memória reflete a desigualdade de oportunidades que tem marcado a sociedade brasileira, responsável por reservar mais e melhores lugares para os homens (e aqui não estou me detendo na enorme desigualdade que atinge negros e negras, fazendo com que a representatividade das mulheres negras seja infinitamente menor do que a das mulheres brancas). Embora haja sinais de que essa situação está mudando, o número de mulheres em cargos políticos ou na liderança de grupos de pesquisa, ao menos nas ciências biomédicas, segue sendo bem menor, o que explica que homens sejam franca maioria como titulares de arquivos em instituições o Arquivo Nacional e a Casa de Oswaldo Cruz. Até as instituições voltadas para o campo literário, onde poderíamos imaginar uma situação mais paritária, a presença masculina é bem mais expressiva (basta consultar o Guia de Acervo do Arquivo Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa).

Há outros fatores no âmbito dos arquivos que fomentam essa situação?

Essa baixa representatividade também espelha as políticas de aquisição de acervo nas instituições, que naturalmente priorizam titulares que tiveram atuação destacada nos seus respectivos campos de atuação. A desatenção com relação a essa situação, porém, colabora para a reprodução da invisibilidade das mulheres.  Se pensarmos que tais espaços estão inseridos nas dinâmicas de poder, produzindo hierarquias e definido condições de acesso às fontes históricas, fica claro que é preciso assumir uma postura crítica com relação à disparidade entre homens e mulheres nos acervos institucionais.

O que poderia ser feito para reverter esse quadro?

Vejo como caminho para reverter a baixa representatividade das mulheres em instituições arquivística uma política ativa de prospecção de arquivos de mulheres que possam ser incorporados. Devem ser arquivos compatíveis com a linha de acervo de cada instituição, já que é importante manter coerência na constituição dos acervos, mas privilegiar arquivos de mulheres é uma forma de ativismo diante da invisibilidade da atuação feminina em diferentes áreas da vida social. Trata-se de uma ação que, a médio prazo, resultará em acervos mais plurais e representativos e, por isso mesmo, mais atraentes para diferentes públicos. Isso sem falar na possibilidade de criar espaços de arquivamento voltados, especificamente, para arquivos de e sobre mulheres.

Pode sugerir uma ação?

Uma possibilidade seria investir na história arquivística dos arquivos de titulares homens, já que muitos foram reunidos, organizados e preservados por mulheres (esposas, filhas, secretárias). Há muitos casos que documentam esse “cuidado feminino”, responsável, muitas vezes, pela própria existência dos documentos. Jogar luz sobre essa atuação teria como resultado não apenas dar visibilidade a essas “guardiãs da memória”, mas denunciar a própria subalternidade feminina nos âmbitos privado e público.

Outra possibilidade seria desenvolver projetos que prospectassem, nos arquivos existentes, a presença de mulheres. Missivistas mulheres presentes nos arquivos pessoais de homens, mas também personagens femininas cuja atuação esteja documentada em arquivos institucionais.

Os arquivos da casa Oswaldo Cruz
Alda Lima Falcão (1925-)

Doação feita por Valéria Lima Falcão em 2013.

Nasceu em 27 de março de 1925, em Aracati (CE), filha de João Barbosa Lima e Raimunda Pereira Lima. Sua trajetória profissional, iniciada em 1939, aos 14 anos, esteve ligada a instituições da área da saúde pública. Primeiramente atuou no Serviço de Malária do Nordeste (1939-1942), depois no Serviço Nacional de Malária (1942-1956), e posteriormente no Instituto Nacional de Endemias Rurais (1956-1975), que a partir de 1976 passou a fazer parte da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Nessa instituição foi pesquisadora e chefe do Laboratório de Leishmanioses do Centro de Pesquisas René Rachou, como também curadora da Coleção de Flebotomíneos. Em 1958 fez o curso de especialização em entomologia médica da Faculdade de Higiene e Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Aposentou-se em 1994, mas permaneceu desenvolvendo seus trabalhos sobre sistemática de flebotomíneos. Em 2007 recebeu o título de pesquisadora emérita da Fiocruz.

Fonte: http://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/alda-falcao

Dely Noronha de Bragança Magalhães Pinto (1942-)

Nasceu em 24 de novembro de 1942, no Rio de Janeiro, filha de Décio Noronha e Ottilia Noronha. No pré-vestibular para medicina, conheceu o professor Fritz de Lauro, médico aposentado e futuro padrinho de formatura do Curso de História Natural, e que teve grande influência em sua trajetória profissional. Foi nas aulas deste professor que desenvolveu seu interesse pela biologia. Em 1963 ingressou no Curso de História Natural da Faculdade Nacional de Filosofia, da Universidade do Brasil, concluindo-o em 1968. Ainda em 1963, iniciou seu trabalho como estagiária no Instituto Oswaldo Cruz (IOC), graças à influência de Domingos Arthur Machado Filho, que havia sido seu professor no científico. No IOC trabalhou inicialmente na Seção de Bacteriologia e, depois, na Coleção de Diptera, com Lauro Travassos. A contratação definitiva como pesquisadora do IOC se deu em 1983, quando por um breve período passou a se dedicar ao estudo dos moluscos. À época, foi responsável por amplas modificações nas instalações do Laboratório de Esquistossomose Experimental do Departamento de Helmintologia, como a implantação do sistema de água corrente para os aquários de moluscos. Em 1989 assumiu a curadoria da Coleção Helmintológica, cargo que ocupou até 2007, mesmo após a sua aposentadoria em 1996.

Fonte: http://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/dely-noronha

Dyrce Lacombe de Almeida (1932-)

Doação feita pela própria pesquisadora em 2013.

Nasceu em 16 de março de 1932, no Rio de Janeiro, filha de Luís Lacombe e Maria Franco da Cunha. Em 1955 graduou-se em história natural pela Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) da Universidade do Brasil. Ainda estudante, trabalhou na faculdade como assistente de Olympio da Fonseca Filho e participou do curso de extensão universitária em zoologia ministrado por Newton Dias dos Santos, do Museu Nacional. Em 1952 fez o Curso de Entomologia Geral do IOC com Rudolf Barth. A partir desse momento, como bolsista da instituição, iniciou uma frutífera carreira de pesquisa junto ao pesquisador, trabalhando com anatomia e histologia de insetos, principalmente barbeiros. Aposentou-se em 1991, mas permaneceu no IOC desenvolvendo suas pesquisas sobre cracas, embiópteros e histologia de barbeiros.

Fonte: http://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/dyrce-lacombe

Elizabeth Rachel Leeds (1942-)

Doação feita pela própria Elizabeth Rachel Leeds em 2007.
Nasceu em 30 de agosto de 1942, em Worcester (Massachusetts, Estados Unidos). Formada em ciência política pela Universidade de Boston, foi voluntária do Peace Corps Volunteers e colaboradora do antropólogo Anthony Leeds, com quem se casou em 1967, em suas pesquisas sobre favelas, iniciadas em 1965. Sua dissertação de mestrado foi defendida na Universidade do Texas e sua tese de doutorado, no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Além das favelas, pesquisou a imigração em Portugal, direitos humanos e políticas de segurança pública no Brasil. De 1989 a 1997 foi diretora executiva do Centro de Estudos Internacionais no MIT. É co-fundadora e presidente honorária do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, iniciado em 2005.

Fonte: http://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/fundo-elizabeth-leeds

Hortênsia Hurpia de Hollanda  (1917-2011)

Doação feita por Virgínia Torres Schall em 2013.

Nasceu em 26 de maio de 1917, em Corumbá (MS), filha de Horácio Hurpia Filho e Olívia Bacchi Hurpia. Em 1941 formou-se em língua e literatura anglo-germânica pela Faculdade Nacional de Filosofia e, em 1949, concluiu o curso de nutrição pela Universidade do Brasil. Especializou-se em saúde pública e educação em saúde na Universidade do Chile em 1950. Dois anos depois obteve o título de mestre em saúde pública e educação na Universidade da Califórnia, em Berkeley, Estados Unidos. De 1949 a 1955 foi assistente técnica da Divisão de Educação Sanitária do Serviço Especial de Saúde Pública. A partir de 1954 atuou no Departamento Nacional de Endemias Rurais, onde formulou e coordenou, em caráter pioneiro, programas de educação em saúde, em perspectiva multiprofissional, integrando as áreas de epidemiologia, psicologia, educação, ciências sociais e clínica médica. Morreu em 5 de maio de 2011, em Votuporanga (SP).

Fonte: http://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/hortensia-de-hollanda

Maria Cristina Fernandes de Mello (1950-)

Os documentos foram doados pela titular à COC /Fiocruz em 2011, por intermédio do arquiteto Renato Gama-Rosa, do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH/COC).

Nasceu em 21 de setembro de 1950, em São Paulo. Graduou-se em 1974 pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em 1976 ingressou, por concurso público, na Universidade Federal Fluminense (UFF), como professora do curso de Teoria e História da Arquitetura. No mesmo ano ingressou na Universidade Gama Filho, onde permaneceu até 1979 como professora de Desenho. Cursou o doutorado em Restauração de Monumentos entre 1982 e 1988 na Scuela de Specializzacione da Universidade de Roma, tendo defendido a tese “Le torri del Padiglione Moresco nella Fondazione Oswaldo Cruz a Rio de Janeiro”. Em 1986 foi contratada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a convite de Sérgio Arouca, para projetar e coordenar a obra de restauração do Pavilhão do Relógio. Posteriormente, também coordenou as obras de restauração dos prédios que constituem o Núcleo Arquitetônico Histórico de Manguinhos. Em agosto de 1989 foi instituído o Departamento de Patrimônio Histórico da Casa de Oswaldo Cruz, do qual foi a primeira chefe. Em 1990 tornou-se servidora pública nesta instituição.

Fonte: http://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/maria-cristina-de-mello

Sarah Hawker Costa (1949-)

Nasceu em 4 de junho de 1949, em Londres, filha de Albert Arthur Hawker e Rosamund Ann Maurenn Hawker. Sua formação acadêmica foi realizada na Inglaterra, onde obteve os títulos de bacharel em ciências pela Universidade de Surrey (1971), de mestre em demografia médica pela Universidade de Londres (1972) e de doutora em saúde pública pela Universidade de Oxford (1995), com a apresentação da tese “The determinants and consequences of induced abortion in Rio de Janeiro, Brazil”. Foi professora e pesquisadora titular do Departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos da Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz. Atuou também como assessora de programas na Fundação Ford no Brasil, na área de saúde reprodutiva.

Fonte: http://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/fundo-sarah-hawker

Virginia Maria de Niemeyer Portocarrero (1927-)

A coleta dos documentos foi realizada entre 2008 e 2010, através de contato da titular com a equipe do DAD/COC e com a intermediação de Margarida Maria Rocha Bernardes. A assinatura do Termo de Doação ocorreu em 2010.

Nasceu em 23 de outubro de 1917, no Rio de Janeiro, filha de Tito Portocarrero e Dinah de Niemeyer Portocarrero. Formou-se bacharel em ciências e letras pelo Colégio Pedro II da avenida Marechal Floriano, no centro do Rio de Janeiro, e mais tarde realizou o Curso de Aperfeiçoamento e Arte Decorativa da Escola Politécnica Nacional de Engenharia, adquirindo formação de decoradora, professora de desenho e desenhista. Ao ler uma matéria no jornal “O Globo”, na qual o governo solicitava voluntários para a Segunda Guerra Mundial, inscreveu-se sem o conhecimento da família e foi selecionada. Ficou à disposição do Primeiro Escalão da Força Expedicionária Brasileira, cujo contingente total era de 25.334 cidadãos, sendo 67 enfermeiras. Em 7 de julho de 1944 seguiu para Nápoles, Itália, como integrante do 2º Grupo (General Diretor de Saúde Marques Porto). Após quase um ano de trabalho voluntário na guerra, regressou ao Brasil em 7 de julho de 1945. Em 1957, as enfermeiras “febianas” foram incorporadas ao Exército Brasileiro. Voltou ao serviço ativo do Exército como 2º tenente e passou a atuar como enfermeira na Policlínica Central do Exército. Passou para a reserva em 25 de setembro de 1962 como 1º tenente e foi promovida a capitão em 1963.

Fonte: http://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/virginia-portocarrero

Referências bibliográficas

SIMIONI, A. P.; ELEUTÉRIO, M. DE L. Apresentação do Dossiê Mulheres, arquivos e memórias. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 71, p. 19-27, 12 dez. 2018.

VASSALLO, Jaqueline. “Mujeres y patrimônio cultural: el desafio de preservar lo que se invisibiliza”. In: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 71, p. 80-94, dez. 2018.

Cristiane d’Avila é jornalista, doutora em Letras pela PUC-Rio, Tecnologista em Saúde Pública da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), onde atua no Departamento de Arquivo e Documentação. Mestre em Comunicação Social e Especialista em Comunicação e Imagem pela PUC-Rio. É organizadora do livro “Cartas de João do Rio a João de Barros e Carlos Malheiro Dias”, publicado pela Funarte em 2013, e autora do livro “João do Rio a caminho da Atlântida”, publicado em 2015 com apoio da Faperj. Colabora mensalmente com o Café História com textos sobre História das Ciências e da Saúde.

Como citar este artigo

HEYMANN, Luciana Quillet. A invisibilidade dos arquivos femininos: entrevista com Luciana Quillet Heymann (Entrevista feita por Cristiane d’Avila). In: Café História – história feita com cliques. Publicado em 16 de março de 2020. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/entrevista-com-luciana-heymann/. ISSN: 2674-5917

Fonte: Café História

Pesquisador da UFG desenvolve mapas com língua de sinais para ajudar surdos

Por Vanessa Chaves, G1 GO

Estudantes surdos enfrentam dificuldades na leitura de mapas tradicionais, em Goiânia — Foto: Pedro Moreira/Arquivo Pessoal

Estudantes surdos enfrentam dificuldades na leitura de mapas tradicionais, em Goiânia — Foto: Pedro Moreira/Arquivo Pessoal

Um pesquisador da Universidade Federal de Goiás (UFG) desenvolveu mapas adaptados com a língua brasileira de sinais (libras). Eles podem auxiliar no ensino de cartografia na escola e até mesmo na locomoção de surdos pela cidade.

“A primeira pessoa que testou o mapa foi minha mãe, que é surda, e foi uma felicidade enorme. Eu vi a expressão no rosto dela, de que ela leu e entendeu o mapa, foi bacana demais, foi incrível”, disse o professor de geografia Pedro Moreira.

O projeto foi desenvolvido em 2016, durante o doutorado do pesquisador. Segundo ele, os mapas são usados em diversos locais e situações, como em pontos de ônibus, shoppings e aplicativos de transporte, mas, geralmente, não estão em libras.

“Meus pais são surdos. Alguns primos e tios também são. Sou professor de geografia e também tenho alunos surdos. Eu sempre via uma dificuldade muito grande deles em entender mapas, por um motivo simples, os mapas não têm linguagem em libras”, afirma Pedro.

Mapas

Ele desenvolveu o mapa-múndi e um mapa da população do Centro-Oeste. As adaptações são no título, legenda, escala, orientação, que indica a direção, e as coordenadas geográficas, que informam latitude e longitude.

O projeto saiu do papel em abril de 2019. Para garantir que os surdos pudessem ler os mapas de forma mais completa, o pesquisador também usou a datilologia, que é um sistema de representação das letras do alfabeto, e a visografia, uma representação gráfica da língua de sinais.

O pesquisador disse que o próximo projeto será o desenvolvimento de um atlas, com mais possibilidades de sinais e espaços para a compreensão de pessoas surdas. Ele destacou que o resultado da pesquisa foi gratificante, tanto pelo lado pessoal quanto pelo profissional.

“Ver meus pais e meus alunos lendo o mapa foi gratificante demais. Lembrei de quando eles não conseguiam ler, Hoje isso não existe mais. Eu, como professor, posso dar um mapa aos meus alunos surdos e eles conseguem entender, assim como os outros alunos. É uma possibilidade de inclusão imensa”, conta o professor.

Além dos mapas didáticos desenvolvidos, Moreira desenvolve mapas de inclusão em linguagem de sinais para shoppings, empresas de ônibus e até para aplicativos.

Mapa desenvolvido com linguagem de sinais para surdos, em Goiânia — Foto: Pedro Moreira/Arquivo Pessoal

Mapa desenvolvido com linguagem de sinais para surdos, em Goiânia — Foto: Pedro Moreira/Arquivo Pessoal

Fonte: G1 Goiás

ENTRETENIMENTOLivros contam de forma lúdica como é viver sem ouvir

Os livros são mesmo um universo fantástico. Além de nos proporcionar viajar através das páginas, enriquecer nosso vocabulário e trazer aprendizado, ainda trabalha a inclusão para diminuir o preconceito.

Autora Lak Lobato
Divulgação Autora Lak Lobato

Já escrevi aqui na coluna algumas vezes sobre a Fundação Dorina Nowill , que faz um trabalho maravilhoso de inclusão com pessoas cegas ou de baixa visão e de como a literatura em braile ainda precisa de espaço e oportunidades. Mas confesso que ainda não tinha dado conta sobre as pessoas com deficiência auditiva. Até essa semana, quando recebi três livros especiais.

Escute como um surdo; Lalá é assim: Diferente, igual a mim; E não é que eu ouvi? são os livros da autora carioca Lak Lobato , que ficou 22 anos sem audição e após participar do programa de implante coclear do Hospital das Clínicas (SP), e passar dois anos com incertezas, decidiu fazer o implante para reencontrar a trilha sonora da sua vida.

Lak faz parte do grupo com deficiência auditiva chamado de surdos oralizados, que não fazem uso da língua de sinais (LIBRAS) e são usuários de tecnologias auditivas.

Em 2014 lançou seu primeiro livro chamado “ Desculpe, não ouvi! ”, que conta a história de uma garota que perde e recupera a audição e em 2017 lançou “ E não é que eu ouvi? ”, segundo livro da carreira e primeiro voltado para o mundo infantil.

A importância de se trabalhar temas como esse na literatura é principalmente para trazer a representatividade para esses leitores que, em muitos casos, têm a autoestima baixa por usarem algum aparelho auditivo.

E foi justamente pensando nisso que nasceu o “ Escute como um surdo ”, livro que também visa, segundo a própria autora, empoderar o deficiente auditivo e adaptá-lo à condição de usar o aparelho com orgulho de si e como uma demonstração de coragem.

E você pode achar que falar sobre esse tema não tem importância, mas quanto mais esclarecimento pudermos ter sobre esse e outros assuntos, mais conseguiremos diminuir o preconceito e de quebra aumentar a inclusão.

A literatura inclusiva não deve se ater apenas a instituições ou pessoas engajadas, deve estar nas livrarias, em feiras literárias, em escolas como paradidáticos e onde mais pudermos divulgar. É apenas com informação que se desconstrói e elimina o preconceito.

Fonte: O Documento

Clássico da literatura infanto-juvenil, “O Pequeno Príncipe” ganha versão em braille

O livro “O Pequeno Príncipe”, do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, é um dos grandes clássicos da literatura-infanto juvenil mundial com traduções para mais de 360 idiomas e dialetos. E em 2014 essa obra também ganhou uma versão inclusiva escrita em braille, publicada pelo artista e deficiente visual Claude Garrandes, com o apoio da Fundação da Juventude Antoine de Saint-Exupéry. No entanto, a versão em braille foi produzida com edição limitada, tornando-se um objeto raro.

Infelizmente, a oferta de livros em braille ainda é limitada e de difícil acesso para a população. Mas existem instituições que trabalham nessa área com o intuito de promover a inclusão de deficientes visuais no mundo literário, como é o caso da Fundação Dorina Nowill para Cegos e o Instituto Benjamin Constant.

Fundação Dorina Nowill para Cegos

A Fundação Dorina Nowill para Cegos produz anualmente milhares de páginas em braille de livros didático-pedagógicos, paradidáticos, literários e obras específicas solicitadas pelas pessoas com deficiência visual. Os livros são distribuídos gratuitamente em escolas, bibliotecas, associações e organizações que possuem esse cunho social. Além dos livros em braille também são feitas versões audio descritivas e digitais.

Para quem tiver o interesse nas obras, a fundação disponibiliza o empréstimo de mais de 1600 títulos falados por meio da Biblioteca Circulante do Livro Falado. Para solicitar o empréstimo, é necessário preencher um ficha de cadastro escolhendo de 15 a 20 títulos de interesse disponíveis no acervo, que também podem ser alterados posteriormente. Cada pessoa pode retirar até três livros por vez e permanecer com eles por até 60 dias.

Os empréstimos podem ser feitos por correio ou pessoalmente, a biblioteca fica localizada na Rua Dr. Diogo de Faria, 558 – Vila Clementino – SP, e o horário de atendimento é de segunda a sexta, das 8h às 17h. Para mais informações, entre em contato pelo e-mail biblioteca@fundacaodorina.org.br ou  pelo telefone (11) 5087-0991.

Instituto Benjamin Constant

O Instituto Benjamin Constant, localizado no Rio de Janeiro, produz obras didáticas e paradidáticas com o objetivo de suprir a necessidade de escolas públicas, bibliotecas públicas e instituições sem fins lucrativos que atuam nesse setor.

Para fazer a solicitação das obras o responsável pela instituição deve assinar os livros desejados na listagem de livros em braille e preencher a solicitação para recebimento de livros em braille disponíveis no site do Benjamin Constant, além de informar o nome completo do aluno, data de nascimento e nível de escolaridade.

Cada instituição pode solicitar até 50 títulos e as solicitações devem ser encaminhadas para o e-mail dib@ibc.gov.br ou pelos correios aos cuidados da Divisão de Imprensa Braille (DIB).

Fonte: São Paulo para Crianças

Mulheres estão no centro da programação de março na Biblioteca de São Paulo

Texto por Geyse Garcia

Este mês, a Biblioteca de São Paulo, instituição da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo, gerida pela Organização Social SP Leituras (entre as 100 Melhores ONGs do Brasil, pelo segundo ano consecutivo), traz uma programação repleta de oficinas, clubes de leitura e outras atividades voltadas para as mulheres. No dia 8, comemora-se o Dia Internacional da Mulher e nada mais justo e necessário do que colocá-la no centro da programação, seja como tema, seja como público-alvo.

A programação do “Leitura ao pé do ouvido”, em que frequentadores da biblioteca são convidados a ouvir a leitura de trechos de livros, traz três escritoras mulheres dos quatro previstos: a americana Angela Davis e as brasileiras Aline Bei e Jarid Arraes. Todas as sextas, das 16h30 às 17h. Veja as obras que serão lidas na programação abaixo.

A cordelista cearense Jarid Arraes também será convidada do “Segundas Intenções” deste mês, no sábado, 28, das 11h às 13h. A autora do premiado “Redemoinho em dia quente”, vencedor do APCA de Literatura na categoria contos, e dos livros “Um buraco com meu nome”, “As lendas de dandara” e “Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis” vai falar sobre sua carreira e obra. A mediação será do jornalista Manuel da Costa Pinto.

Na “Oficina de poesia para mulheres” – a poeta, tradutora, editora e curadora literária Lubi Prates parte do gênero para pensar o lugar social determinado para os corpos de mulheres cis e transgênero. Além do gênero, serão considerados outros marcadores sociais, como raça, classe e outros elementos que contribuem para a construção pessoal e são importantes para se alcançar uma dimensão poética. Os encontros, para pessoas maiores de 16 anos, acontecerá no sábado e domingo, 14 e 15, das 10h às 12h. Veja abaixo como fazer as inscrições.

DICA

A dica do mês é o programa “Vespertino”, uma realização do Secs Santana, que inicia a série “Presença Negra na Música Erudita”, com quatro concertos dedicados a compositoras e compositores negros de todo o mundo. O pianista Hercules Gomes apresenta, no primeiro recital, um repertório voltado para música brasileira, abrangendo desde o período colonial, com o Padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), até os dias atuais, com Laércio de Freitas, Moacir Santos e composições próprias, passando pelo período da formação da música brasileira, com Joaquim Callado, Patápio Silva e Pixinguinha. Será no domingo, 29, das 15h às 16h.

Sobre a BSP

A biblioteca tem programação que atende públicos de diferentes faixas etárias e interesses diversos. Com oficinas, contações de histórias, cursos e atividades como xadrez e yoga, o equipamento vai além do acervo, promovendo, sobretudo, o compartilhamento de experiências e saberes. Inaugurada em fevereiro de 2010, a BSP foi inspirada na Biblioteca de Santiago, no Chile, faz parte do SisEB (Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas de São Paulo) e totaliza 40 mil itens (livros, DVDs, CDs, além de jogos) no acervo. Pessoas com deficiência possuem acesso integral a todos os ambientes e podem utilizar o conjunto de audiolivros, livros em Braille e demais equipamentos de acessibilidade.

CONFIRA A PROGRAMAÇÃO DE MARÇO NA BSP:

INFANTIL

Hora do conto” – Contação de histórias da literatura infantojuvenil, para aguçar o hábito da leitura e a imaginação das crianças. Com equipe BSP. Não é necessário inscrição.

Sextas-feiras, às 15 horas

Dia 6 – “O pássaro lapão”, de Pedro Bandeira
Dia 13 – “O cabrito que era cachorro”, de Cris Miguel e Sérgio Serrano
Dia 20 – “Bruxas enfeitiçadas”, de John Patience
Dia 27 – “As cabras”, de Cris Miguel e Sérgio Serrano

Sábados e domingos, às 16 horas.

Dia 1º – “Villa-Lobos – o maestro”, de Lucia Fidalgo. Com a Cia. Três Lunas
Dia 7 – “Procura-se: Carlinhos Coelho, o ladrão de livros”, de Emily Mackenzie. Com Recantação
Dia 8 – “As antiprincesas”, de Juana Azurduy. Com a Cia. Luarnoar
Dia 14 – “A Saga do balão”, baseado em poemas de Manuel Bandeira. Com o Grupo #BoraLê (Interpretação em Libras)
Dia 15 – “Mortina: uma história que vai fazer você morrer… de rir”, de Barbara Cantini. Com Paula Dugaich
Dia 21 – “Sementes de papel”, de  Bea e Silvia Gil. Com Irene Tanabe
Dia 22 – “Um dia, um rio”, de Leo Cunha. Com a Cia. Hespérides
Dia 28 – “Babuxa”, de Almir Correia. Com Marina Bastos
Dia 29 – “O colecionador de águas”, de Elaine Pasquali Cavion. Com a Cia.Cantando Cont

Lê no Ninho” – Atividade de estímulo e iniciação à leitura para crianças entre 6 meses e 4 anos, realizada com livros lúdicos, tablets, contação de histórias e músicas. Pais e responsáveis podem, ao fim emprestar os kits utilizados, com dois livrinhos e um fantoche, e reproduzir a experiência em casa. Sábados e Domingos, das 11h às 11h45. (nos dias 8 e 22, a atividade acontece no Parque da Juventude, dentro do programa Domingo no Parque). Com equipe BSP. Vagas limitadas, preenchidas por ordem de chegada.

Brincando e Aprendendo” – Programa que reúne intervenções, jogos teatrais, atividades rítmicas e brincadeiras educativas. A partir de 7 anos. Com equipe BSP. Vagas limitadas, preenchidas por ordem de chegada.

Quartas-feiras, das 15h às 16 horas.

Dia 4 – Corrida de bexigas
Dia 11 – Desafio: castelo de copos
Dia 18 – Estoura balões: Dia da Poesia
Dia 25 – Futebol

Pintando o 7” – Atividades para pintar, desenhar, colar e criar, inspiradas em temas literários, ecológicos e culturais, desenvolvendo assim as capacidades artísticas e criativas das crianças. A partir de 6 anos. Com equipe BSP. Vagas limitadas, preenchidas por ordem de chegada.

Quintas-feiras, das 15h às 16h.

Dias 5  e 12 – Atividades paralelas à “Exposição Invenções Gráficas na Ilustração”
Dia 19 – Confecção de foguetes
Dia 26 – Confecção de animais de papel

TODOS OS PÚBLICOS

Exposição Invenções Gráficas na Ilustração Ibero-americana – Criada a partir do Catálogo Ibero-América Ilustra (publicação realizada anualmente desde 2010 pela Fundação SM em parceria com a FIL Guadalajara – Feira Internacional do Livro de Guadalajara), a exposição tem curadoria do ilustrador Fernando Vilela, foi concebida e apresentada em 2019 no Instituto Tomie Ohtake. Visitação: terça a domingo, das 9h30 às 18h30. Até 29 de março. Parceria: Instituto Tomie Ohtake, Fundação SM e Biblioteca de São Paulo.

Jogos Sensoriais” – Divertida experiência lúdica que estimula as habilidades sensoriais e a memória, com jogos e brincadeiras para pessoas com e sem deficiência. Terças-feiras, , das 15h às 16. A partir de 11 anos. Com equipe BSP. Vagas limitadas, preenchidas por ordem de chegada.

Domingo no Parque” – Espaço de leitura para toda a família com sessões de contação de histórias, no Parque da Juventude. Não é necessário inscrição. Em caso de chuva, a atividade será realizada dentro da Biblioteca.

Dia 8

11h às 11h45 – Sessões do programa Lê no ninho. Com a equipe BSP
12h às 16h – Espaço de leitura para toda a família com sessões de contação de histórias. Com a Trupe Pitirilo

Dia 22

11h às 11h45 – Sessões do programa Lê no ninho. Com a equipe BSP.
12h às 16h – Espaço de leitura para toda a família com sessões de contação de histórias. Com Os Fabulistas

Jogos para Todos! Oficina de xadrez”: Os participantes aprendem as regras, os movimentos das peças e algumas táticas do xadrez, além de disputar partidas. Pessoas com deficiência visual dispõem de tabuleiros adaptados. Sábados, das 11h às 13h.  Com a FOX – Formação e Orientação de Xadrez. Vagas limitadas, preenchidas por ordem de chegada.

Leitura ao pé do ouvido” – Frequentadores da biblioteca são convidados a ouvir a leitura de trechos de livros, podendo conhecer assim novos autores, títulos e assuntos. Com equipe BSP. Não é necessário inscrição.

Sextas-feiras, das 16h30 às 17h

Dia 6 – “Mulheres, cultura e política”, de Angela Davis
Dia 13 – “O peso do pássaro morto”, de Aline Bei, e “Identidades”, de Felipe Franco Munhoz
Dia 20 – “O caçador de pipas”, Khaled Hosseini
Dia 27 – Aquecimento Segundas Intenções: “Um buraco com meu nome”, de Jarid Arraes

Sala de videogames” – A BSP oferece aos seus frequentadores mais uma opção de diversão, uma sala equipada com videogame, com os jogos mais legais do momento. De terça a sexta, das 9h30 às 18h. Aos sábados e domingos, das 10h às 18h. Vagas limitadas, preenchidas por ordem de chegada.

BSP até você – Projeto aproximação” – Toda semana, um grupo de funcionários realiza atividades recreativas e culturais, na quadra esportiva da Comunidade Zaki Narchi, com as crianças que ali moram. Quartas-feiras, das 10h30 às 11h30. Não é necessário inscrição.

JOVEM

Luau BSP” – O programa apresenta aos jovens temas relacionados à música, literatura, poesia, atualidade e espaço para apresentações artísticas. Com equipe BSP. A partir de 13 anos. Quintas-feiras, das 12h30 às 13h30. Não é necessário inscrição.

ADULTO

Oficina de poesia para mulheres” – Oficina de escrita poética para mulheres, cis e trans, que parte do gênero para pensar o lugar social determinado para estes corpos. Com Lubi Prates, poeta, tradutora, editora e curadora literária. A partir dos 16 anos. Sábado e Domingo, 14 e 15, das 10h às 12h. Inscrições a partir das 10h do dia 3 de março, pelo link www.bsp.org.br/inscricao

Narração de histórias e imagem narrativa” – Nesta oficina, os alunos são iniciados na arte da narrativa oral, formando uma roda de histórias. Na segunda parte, os participantes criarão uma narrativa ilustrada, utilizando desenho e colagem para criar um livro coletivo. Stela Barbieri é autora de 24 livros infanto juvenis. Como artista expôs no Brasil e exterior e tem obras nas coleções do Centro Cultural São Paulo em outros museus. É assessora de artes da educação infantil e ensino fundamental na escola Vera Cruz  e atualmente faz parte do conselho da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Fernando Vilela publicou mais de 90 livros ilustrados em dez países, dentre os quais 20 são de sua autoria. Realizou diversas exposições no Brasil e no exterior e possui obras em importantes coleções, como a do Museum of Modern Art (MoMA) de Nova York e da Pinacoteca do Estado de São Paulo. A partir de 16 anos. Sábado, 21, das 14h às 17h30. Inscrições a partir das 10h do dia 21 de fevereiro, pelo link www.bsp.org.br/inscricao

Clube de Leitura 6.0” – Destinado ao público com mais de 60 anos, os encontros terão leituras e discussões de livros lidos por meio de tablets fornecidos pelo projeto. Em seguida, acontecem as rodas de conversa com sessões de biblioterapia. Uma iniciativa da Fundação Observatório do Livro e da Leitura, com apoio da SP Leituras. A partir de 60 anos. Terças-feiras, do dia 17 de março a 22 de dezembro, das 14h às 16h. Observação: não é necessário ter tablet. Inscrições a partir das 10h do dia 5 de março, pelo link www.bvl.org.br/inscricao, diretamente no balcão de atendimento da biblioteca ou pelo telefone (11) 2089-0800. Formação de turma com mínimo de 10 participantes.

Compartilhando saberes: Yoga” – Em ambiente aconchegante e inspirador você poderá desfrutar desta prática milenar, que promove o bem-estar e a melhora da qualidade de vida. As aulas de Hatha Yoga serão direcionadas com posturas e técnicas simples, que podem ser praticadas por qualquer pessoa, e contemplam o trabalho dinâmico do corpo (alongamento – fortalecimento muscular – equilíbrio), a concentração na respiração e o relaxamento. Recomenda-se que os praticantes ingiram apenas alimentos leves antes da aula e usem roupas confortáveis. Com Amanda Velloso. Sábados, 14, 21 e 28, das 10h às 11h30. Vagas limitadas, preenchidas por ordem de chegada.

Sarau na BSP: Literatura, canto e poesia”. Com o Grupo de Poetas Cantores e Declamadores Independentes de São Paulo. Domingo, 15, das 14h30 às 16h30.
Coordenação de Terezinha Rocha. Não é necessário inscrição.

Clube de Leitura” – A obra a ser discutida este mês é “1984”, de George Orwell”. Todos os meses a BSP seleciona um livro e propõe a discussão de detalhes da história com os leitores da obra, incentivando assim o encontro de pessoas, o debate literário e o hábito da leitura. Com equipe BSP. Quinta-feira, 19, das 15h às 17h. Não é necessário inscrição.

Segundas Intenções” – Bate-papo com a cearense Jarid Arraes, cordelista, poeta e autora do premiado “Redemoinho em dia quente”, vencedor do APCA de Literatura na categoria contos, e dos livros “Um buraco com meu nome”, “As lendas de dandara” e “Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis”. Mediação de Manuel da Costa Pinto. Sábado, 28 de março, das 11h às 13h. Não é necessário inscrição. Estudantes universitários podem pedir certificado de participação.

Vespertino” – A série “Presença Negra na Música Erudita” apresenta no primeiro semestre de 2020 compositoras e compositores negros de todo o mundo. O pianista Hercules Gomes apresenta, no primeiro de quatro concertos, um repertório voltado para música brasileira, abrangendo desde o período colonial, com o Padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), até os dias atuais, com Laércio de Freitas, Moacir Santos e composições próprias, passando pelo período da formação da música brasileira, com Joaquim Callado, Patápio Silva e Pixinguinha. Domingo, 29, das 15h às 16h. Não é necessário inscrição. Realização Sesc Santana.

Curso de Libras – Módulo básico” – Indicado para quem deseja iniciar o estudo da Língua Brasileira de Sinais, com o objetivo de ampliar as possibilidades de comunicação e interação social e profissional com surdos. Aulas ministradas com professor ouvinte e surdo, metodologia bilingue Libras-português. Com Thalita Passos e Luana Milani. A partir de 16 anos. Quartas e sextas-feiras, entre os dias 4 e 25, das 14h às 17h30. Inscrições pelo link www.bsp.org.br/inscricao

DE OLHO NAS INSCRIÇÕES

Curso de narração de narração de histórias” – O curso trabalha a potencialidade das narrativas de literatura oral e aspectos relativos à comunicação e expressão.  O conteúdo programático abordará os vários tipos de histórias – como lendas, mitos, fábulas, história de origem, contos de fadas, entre outros -, a relação com a música, técnicas como interpretação, oralidade e improvisação, e o papel do contador de histórias ao longo da história universal. A partir de 16 anos. Quartas-feiras, dias 1, 8, 15, 22, 29 de abril, e dias 6, 13 e 20 de maio, das 14h30 às 17h30. Realização: Arte Despertar em parceria com a Biblioteca de São Paulo. Iniciativa financiada via ProAC – ICMS. Inscrições a partir das 10h do dia 13 de março, pelo link www.bsp.org.br/inscricao

Serviço:

Biblioteca Parque Villa-Lobos

Av. Queiroz Filho, 1.205 – Alto de Pinheiros, São Paulo / SP.

Telefone: (11) 3024-2500.

Funcionamento: terça a domingo (fechado às segundas), das 9h30 às 18h30.

Todas as atividades são gratuitas.

www.bvl.org.br

Fonte: Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo

Biblioteca Cora Coralina e Casa de Cultura Itajaí recebem projeto de leitura digital para pessoas a partir de 60 anos

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A Biblioteca Pública Municipal Cora Coralina e a Casa de Cultura Itajaí, ambas de Campinas, recebem, até 4 de março, inscrições de interessados em participar do projeto “Clube de Leitura 6.0”. A iniciativa tem como objetivo oferecer leitura gratuita de livros digitais, rodas de conversas e sessões semanais de biblioterapia em grupo.

Os encontros serão de duas horas. Na primeira parte, as leituras, em voz alta ou individualmente, serão feitas nos tablets fornecidos pelo projeto, e na sequência, serão promovidas as rodas de conversa. Voluntários orientarão os participantes a manusear os aplicativos de leitura em tablets, celulares e computadores.

>> As inscrições são gratuitas, por ordem de chegada, para pessoas a partir de 60 anos. Caso exceda o número de dez vagas em cada unidade, os demais nomes serão colocados em lista de espera.

Encontros e Inscrições

>> Na Biblioteca Pública Municipal Cora Coralina, os encontros acontecerão às quintas, das 9h às 11h, a partir de 5 de março.

As inscrições poderão ser feitas pessoalmente na biblioteca (Espaço Cultural Maria Monteiro, Av. Cardeal Dom Agnelo Rossi, s/n – Vl Padre Anchieta), com Cleudiran Dias, pelo telefone (19) 3282.0024 ou ainda pelo e-mail biblioteca.coracoralina@campinas.sp.gov.br. Na inscrição deve constar o nome completo e o contato.

>> Na Casa de Cultura Itajaí, os encontros serão às quartas, das 14h às 16h, a partir de 4 de março.

Inscrições no próprio local, à Rua Benjamin Moloisi, nº 669 – Conjunto Habitacional Parque Itajaí, com Isabel ou Josefa, ou pelo telefone (19)3221.9312 ou ainda pelo e-mail casadeculturaitajai@campinas.sp.gov.br.

“Clube de Leitura 6.0” é um projeto do Observatório do Livro e da Leitura, de Ribeirão Preto. Em Campinas, tem o apoio da Coordenadoria Setorial de Bibliotecas e Coordenadoria de Ação Cultural da Secretaria Municipal de Cultura.

Fonte: Portal da RMC

“Museus para a igualdade: diversidade e inclusão”

ANA MODERNO

Com esta reflexão, reforça-se a importância dos museus e do seu papel de mediadores entre património cultural e as pessoas, envolvendo-as e intervindo na acção cívica.

O título deste texto poderia ter sido escolhido na sequência das manifestações racistas, em particular os recentes episódios vividos no futebol. Mas não.

Trata-se do tema que o ICOM (Conselho Internacional dos Museus) elegeu para a edição de 2020 do Dia Internacional dos Museus (18 de maio). Uma escolha bastante assertiva nos tempos que se vivem.

A opção por temáticas em torno da igualdade de direitos ou da sustentabilidade ambiental são cada vez mais considerados por estes organismos para reflexão e discussão. E não é a primeira vez que a urgência destes temas se traz para a mesa.

Recorde-se o cenário do pós-Segunda Guerra Mundial e a tentativa de reunificação das nações após as feridas deixadas pelo grande conflito.

A criação, mais tarde, da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), e, consequentemente, do ICOM, impunha-se no restabelecimento estruturado do património e criação de políticas internacionais para os museus.

Recordem-se, igualmente, as manifestações dos anos 60 do século XX e os movimentos de afirmação das minorias, que ditaram a mudança no pensamento museológico e guiaram os primeiros passos da Nova Museologia (menos elitista e mais participativa).

Aos museus passariam a caber outras funções para além das da preservação e exposição dos bens.

Exemplo disso é o acrescento da área da educação nos museus.

Na actualidade, as matérias em torno da igualdade, da inclusão e dos movimentos sociais (casos das migrações e dos refugiados) são discutidas e repensadas, cabendo aos museus e demais instituições culturais a participação no debate.

Com esta reflexão, reforça-se a importância dos museus e do seu papel de mediadores entre património cultural e as pessoas, envolvendo-as e intervindo na acção cívica.

São instituições “ao serviço da sociedade, que adquirem, conservam, investigam, comunicam e expõem o património material e imaterial da humanidade e do seu meio envolvente com fins de educação, estudo e deleite” (definição de museu pelo ICOM).

Fonte: Jornal de Leiria

A maior biblioteca da Turquia será totalmente adaptada para pessoas com deficiência

O edifício tem capacidade para 5.000 pessoas, estará aberto ao público 24 horas e terá 4 milhões de livros impressos.

A maior biblioteca da Turquia será totalmente adaptada para pessoas com deficiência

AA – A maior biblioteca da Turquia, inaugurada quinta-feira na capital, Ankara, terá 4 milhões de livros impressos e oferecerá serviços totalmente adaptados para pessoas com deficiência, desde o estacionamento até o interior da biblioteca.

O projeto da Biblioteca Nacional foi liderado pelo presidente turco Recep Tayyip Erdogan e foi realizado através de intensos esforços nos quais contribuíram os principais intelectuais, bibliotecários, ONGs e grupos turcos que representam os menos favorecidos.

“Turkcell (principal operadora de telefonia móvel da Turquia) preparou uma sala de tecnologia para usuários com deficiência visual. Além disso, o trabalho está sendo feito em outra sala de tecnologia da Turk Telecom (operadora de telefonia móvel) para usuários com deficiência visual e auditiva”, disse à Agência Anadolu Ayhan Tuglu, chefe do departamento de bibliotecas presidenciais.

” Nossa biblioteca é adaptado para pessoas com deficiência desde a primeira entrada para o interior da biblioteca. Carros para transporte de pessoas com deficiência estarão disponíveis. Um usuário de cadeira de rodas pode chegar facilmente à biblioteca”, disse Tuglu.

” A maior biblioteca da Turquia era a Biblioteca. National, que foi construída em 45.000 m2 (de terreno). A nova biblioteca tem 125.000 m2”, acrescentou Tuglu.

Milhões de livros impressos

A biblioteca é a maior da Turquia não apenas em termos de capacidade física, mas também em número de livros.

“Possui 4 milhões de livros impressos, mais de 120 milhões de edições eletrônicas e 550.000 livros eletrônicos e coleções raras”, disse Tuglu, que acrescentou que o arquivo de áudio da emissora nacional TRT, que tem 1,2 milhão de áudios , também estará disponível para os usuários.

Nas prateleiras, que se alinhadas cobririam cerca de 201 km, existem livros publicados em 134 idiomas diferentes e 120 milhões de artigos e relatórios.

Localizada dentro do complexo presidencial, a biblioteca tem capacidade para 5.000 pessoas e estará aberta ao público 24 horas por dia.

Tuglu disse que a nova biblioteca está decorada com motivos tradicionais seljúcidas, otomanos e contemporâneos.

Com suas ricas coleções de livros e serviços para visitantes, espera-se que a biblioteca se torne um centro de pesquisa de renome mundial.

Biblioteca infantil e juvenil

A Biblioteca Infantil Nasreddin Hodja estará disponível para visitantes de 5 a 10 anos, e aqueles de 10 a 15 anos poderão usar a Biblioteca da Juventude. Haverá também mini-bibliotecas separadas, focadas em multimídia, livros raros e pesquisa.

Os visitantes terão a oportunidade de aprender sobre a história clássica turca, graças aos departamentos sobre a história de Seljuks e Anatólia.

Sala Cihannuma

A biblioteca também possui uma sala especial chamada Cihannuma (atlas mundial). Existem 16 colunas na sala que representam os estados turcos que foram fundados ao longo da história.

O lounge está pronto para os visitantes com uma coleção de 200.000 livros em uma área de 3.500 m2.

Além disso, citações do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, sobre a importância da leitura e da escrita estão escritas na cúpula da sala.

Em colaboração com o Ministério das Relações Exteriores, dezenas de livros de todos os países onde a Turquia tem uma missão diplomática foram levados para a biblioteca. Esses livros estarão disponíveis na Biblioteca Mundial, localizada dentro do Cihannuma Hall.

Embaixadores e representantes de países como Uzbequistão, Chile, China, França e Bielorrússia visitaram pessoalmente o complexo presidencial e gentilmente doaram livros que mais tarde foram adicionados ao arquivo da biblioteca.

Em particular, o presidente francês Emmanuel Macron nomeou um enviado especial e disse que as bibliotecas nacionais turcas e francesas poderiam colaborar no campo da literatura.

A biblioteca também é projetada para ser um centro educacional ao longo da vida, onde visitantes, crianças ou adultos, podem receber cursos sobre inteligência artificial, segurança cibernética, realidade aumentada e codificação (AA)

Fonte: TRT

Jornada Leitura no Cárcere reúne 2,5 mil participantes em todo o país

FOTO: No Maranhão, participantes assistem à Jornada da Leitura no Cárcere – Claudia Gouveia / Justiça Presente

Despertar o interesse e estimular as pessoas em privação de liberdade para a leitura, enfatizando o poder dos livros na redução das penas e a importância da educação para o retorno à sociedade: esses foram os temas debatidos durante a Jornada Nacional da Leitura no Cárcere, evento transmitido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e constituído por palestras assistidas por mais de 2,5 mil pessoas em todos os estados do país, com mais de 7 mil visualizações registradas.

As palestras foram realizadas pela internet nos dias 5, 6 e 7 de fevereiro e estão disponíveis no canal do CNJ no YouTube. Com o apoio dos coordenadores estaduais do programa Justiça Presente, diversas salas coletivas presenciais foram organizadas no Amazonas, Amapá, Maranhão, Minas Gerais, Pará, Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rondônia, Santa Catarina e Tocantins. As salas tiveram a presença de magistrados, representantes do Executivo, do Ministério Público e da Defensoria Pública, servidores e outros entusiastas.

Em depoimentos comoventes, detentos com penas a cumprir, egressos do sistema penitenciário, juízes de varas de execução penal, escritores, professores, voluntários, editores de livros e profissionais do sistema de Justiça apresentaram experiências nas prisões que mostram como o acesso aos livros e o mergulho na leitura têm ajudado as pessoas privadas de liberdade.

A jornada é uma iniciativa do Observatório do Livro, apoiada pelo Programa Justiça Presente. O programa é parceria entre o CNJ, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e o Ministério da Justiça e da Segurança Pública e busca enfrentar problemas históricos no sistema prisional e socioeducativo do Brasil.

Jornada

Nas palavras do presidente do Observatório da Leitura, Galeno Amorim, “a Jornada Leitura no Cárcere é algo permanente”. Entusiasta da redução de pena pela leitura e responsável pela mediação nas palestras, Galeno explicou que a Jornada seguirá anualmente e que as experiências e informações transmitidas ficarão disponíveis de forma gratuita por meio dos vídeos das palestras. A meta é sensibilizar voluntários a criar clubes de leitura em presídios que ainda não contam com essa possibilidade para remição de pena.

Entre os módulos disponíveis no YouTube a partir do evento, o primeiro apresenta uma visão geral do tema, com a apresentação de projetos de leitura bem-sucedidos em prisões brasileiras, depoimentos de egressos do sistema prisional que tiveram redução da pena pela leitura e a visão de professores e escritores que são voluntários em clubes de livros no cárcere.

O segundo módulo traz o testemunho de pessoas privadas de liberdade que se tornaram leitores vorazes, de pessoas em privação de liberdade que tiveram livros publicados, de editores que colocaram seus serviços à disposição de pessoas presas para publicação de novas obras e de voluntários apaixonados por projetos de remição da pena pela leitura.

O terceiro e último módulo detalha as normas que garantem a redução do tempo de prisão por meio da leitura, aborda os desafios de fazer com que essa política ganhe escala nas prisões, orienta pessoas que desejam ser voluntárias e coloca a necessidade de uma maior parceria entre Judiciário e Executivo dos estados para que esse direito esteja disponível ao maior número possível de presos.

Ler reduz penas

A mobilização pelo estímulo à leitura ao longo do cumprimento da pena de privação de liberdade tem por base a Recomendação n. 44/2013 e a Resolução CNJ n. 307/2019, ambas do CNJ. A Recomendação orienta os tribunais a permitir que os detentos reduzam a pena por meio da leitura. Para cada livro lido, o detento tem quatro dias de redução do seu tempo na prisão, desde que apresente um resumo do livro em até 30 dias após a leitura.

Resolução CNJ n. 307/2019, por sua vez, instituiu uma Política de Atenção a Pessoas Egressas do sistema prisional e coloca a necessidade de ações para a reinserção social das pessoas privadas de liberdade. Com base nas regras da redução das penas por meio de ações educativas, a Jornada Leitura no Cárcere colocou o tema da remição pela leitura em discussão, mostrando clubes de livro em várias prisões.

No entanto, para que essas ações ganhem escala nas superlotadas unidades prisionais, a Jornada buscou orientar potenciais voluntários a organizar projetos que visem criar novos clubes de leituras e bibliotecas e ampliar o número de pessoas para a leitura das resenhas escritas pelos presos. A redução da pena por livro lido é aceita após o leitor preso apresentar um resumo do livro. Essa resenha deve ser validada para que o benefício seja concedido. Conforme as regras em vigor, cada detento pode ter até 48 dias de redução da pena por ano após a leitura de 12 livros.

Um dos suportes para a expansão dos clubes de leitura nas prisões e acesso mais amplo dos presos às bibliotecas é a maior aproximação entre o Judiciário e o Executivo nos estados. A finalidade é que representantes dos dois poderes busquem atuar de forma conjunta e complementar para tornar a remição da pena pela leitura uma política efetiva nas prisões.

Um dos desafios dos clubes de leitura das prisões é estimular a criação de grupos de voluntários para acompanhar os detentos, de forma que as resenhas escritas por eles sejam lidas e encaminhadas aos juízes de execução penal para a validação da remição da pena.

Luciana Otoni
Agência CNJ de Notícias

Fonte: CNJ

A acessibilidade em comunicação na prestação de serviços

Os serviços e equipamentos avançados de comunicação, como computadores, tablets, telefones celulares, etc. precisam estar acessíveis e utilizáveis por pessoas com deficiência. Para serem acessíveis, as principais funções de um produto ou serviço devem ser localizáveis, identificáveis e operáveis por indivíduos com habilidades variadas e todas as informações necessárias para operar e usar o produto ou serviço devem ter uma saída ou exibição acessível. Para serem utilizáveis, os indivíduos com deficiências devem ser capazes de aprender e operar os recursos do produto ou serviço, além de poder acessar informações e documentação do produto ou serviço, incluindo instruções e guias do usuário. Além disso, as empresas devem fornecer acesso a serviços de suporte, como linhas de suporte e bancos de dados de suporte técnico, call centers, centros de serviços, serviços de reparo e serviços de cobrança. Saiba quais são as diretrizes gerais a serem observadas para acessibilidade em comunicação na prestação de serviços, consideradas as diversas condições e percepção e cognição, com ou sem a ajuda de tecnologia assistiva ou outra que complemente necessidades individuais.acessibilidade2Hayrton Rodrigues do Prado Filho –Os serviços avançados de comunicação incluem o serviço de protocolo de voz sobre internet interconectado, como serviço de telefone residencial fornecido por um provedor de serviços de internet; serviço de VoIP não interconectado, como o uso de um computador para se comunicar com voz pela internet; serviço de mensagens eletrônicas, como mensagens de texto, mensagens instantâneas ou e-mail; serviços interoperáveis de videoconferência. O equipamento coberto por essas regras inclui computadores, laptops, tablets e telefones celulares usados para mensagens de texto, mensagens instantâneas e e-mail e qualquer outro tipo de dispositivo usado para serviços avançados de comunicação.

Se possível, os fabricantes devem garantir que as pessoas com deficiência tenham acesso ao hardware que produzem, bem como aos componentes de software que fornecem, como sistema operacional, interface do usuário, aplicativos e navegador da internet. As obrigações também se aplicam a quaisquer atualizações usadas para serviços avançados de comunicação.

Os fornecedores são responsáveis por tornar seus serviços de comunicação avançados acessíveis, incluindo os aplicativos de hardware ou software que eles fornecem. Os fabricantes podem aumentar a acessibilidade de seus produtos – e os fornecedores de seus serviços – ou confiar em outras empresas ou entidades para criar soluções e disponibilizá-las aos consumidores a um custo nominal.

Quando a acessibilidade não é viável, os fabricantes e fornecedores devem tornar seus equipamentos e serviços compatíveis com outros dispositivos de acessibilidade ou equipamento especializado, como telas Braille atualizáveis, dispositivos de sinalização visual e lupas, a menos que tal compatibilidade não seja possível. No Brasil, pode-se usar a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Fabricantes e fornecedores não são obrigados a tornar acessíveis todos os recursos e funções de todos os dispositivos ou serviços para todas as deficiências. Eles podem oferecer produtos e serviços com funções, recursos e preços variados, acessíveis a toda a gama de consumidores com diferentes tipos de deficiências.

Os fornecedores não devem remover ou impedir a transmissão de informações ou dados de acessibilidade, como tags e controles de navegação para tecnologias de leitor de tela que foram incorporadas ao conteúdo. Os navegadores da internet instalados pelos fabricantes em equipamentos usados para serviços avançados de comunicação devem ser acessíveis e utilizáveis por pessoas com deficiência, a menos que isso não seja possível. Os provedores de serviços de comunicação avançados têm a mesma obrigação se fornecerem ou exigirem a instalação e o uso de um navegador da internet como um componente subjacente de seu serviço.

NBR 15599 de 08/2008 – Acessibilidade – Comunicação na prestação de serviços fornece diretrizes gerais a serem observadas para acessibilidade em comunicação na prestação de serviços, consideradas as diversas condições de percepção e cognição, com ou sem a ajuda de tecnologia assistiva ou outra que complemente necessidades individuais. Esta norma, desenvolvida segundo os preceitos do Desenho Universal, se propõe a atender à maior gama possível de capacidades da população, para a emissão e recepção de mensagens. São também beneficiários da Acessibilidade em Comunicação na Prestação de Serviços os idosos que vão perdendo a visão e a audição com a idade, bem como as pessoas que não dominam o idioma português, sejam elas estrangeiras ou analfabetas.

Esta norma aplica-se às informações e troca de mensagens necessárias na prestação de serviços. Para tanto, está fundamentada no princípio da redundância que requer múltiplos meios de transmissão, vias alternativas e atalhos, para a recepção da mensagem. Esta norma de maneira alguma esgota as possibilidades de combinação dos diferentes tipos de comunicação – sonora, visual, tátil, olfativa e gustativa- úteis na prestação de serviços.

A comunicação permeia a prestação de serviços: sem comunicação não há prestação de serviços. Assim como ocorre na comunicação, também a prestação de serviços envolve pelo menos um prestador ou emissor e outro, usuário ou receptor. Desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, passando pela Constituição Federal, de 1988, continuando com o Programa Nacional dos Direitos Humanos, de 1996, e a Lei da Acessibilidade, de 19.12.2000, todos esses ditames, bem como seus desdobramentos e regulamentações, impõem que haja equidade de direitos e acessibilidade.

Esta norma fornece diretrizes que promovem a acessibilidade na prestação de serviços, contornando as barreiras de comunicação existentes, por meio do princípio da redundância. Destina-se ao uso pelos prestadores de serviço que buscam o atendimento à demanda das pessoas com dificuldades na comunicação, potencial mercado, e à legislação pertinente em vigor.

Nesta norma, a Seção 5 discrimina as diretrizes para um elenco, não exaustivo, de 12 tipos de serviços. A Seção 6 descreve as diretrizes para identificação da acessibilidade a pessoas com deficiência sensorial, por meio do uso de símbolos. A Seção 7 trata dos requisitos, atitudes e procedimentos para que a comunicação se faça eficaz, por meio de intermediários. Por meio de tabelas, esta norma relaciona recursos utilizados para acessibilidade em comunicação com respectivo público-alvo, permitindo ao projetista buscar melhor desempenho para atender ao usuário potencial.

Um desenho universal é a forma de conceber produtos, meios de comunicação, serviços e ambientes para serem utilizados por todas as pessoas, o maior tempo possível, sem a necessidade de adaptação, beneficiando pessoas de todas as idades e capacidades. O conceito de desenho universal tem como pressupostos: equiparação nas possibilidades de uso; flexibilidade no uso; uso simples e intuitivo; captação da informação; tolerância para o erro; e dimensão e espaço para uso e interação.

Toda informação deve ser prestada diretamente à pessoa com deficiência interessada, mesmo que a pergunta tenha vindo de seu acompanhante (guia intérprete, intérprete de Libras ou outro). As orientações devem ser dirigidas ao real solicitante, não ao intermediário ou acompanhante.

Os serviços para informação direta ao usuário, disponíveis em balcões, boxes, quiosques ou similares, localizados em ambientes com grande fluxo de público (embarque e desembarque de terminais de transporte, ou entrada e saída de feiras, exposições e eventos turísticos etc.), devem incluir o atendimento: na língua portuguesa, em locução clara e suficientemente articulada que permita a leitura orofacial, sendo a informação gentilmente repetida até que seja compreendida; em Libras, devidamente identificado com o Símbolo Internacional de Surdez , de acordo com a figura abaixo; em Libras tátil ou Libras em campo visual reduzido, por surdo-cego ou guia intérprete apto a informar sobre o entorno e o contexto, devidamente identificado com o símbolo de surdo-cegueira, de acordo com 6.1.4 Acessibilidade a pessoas surdo-cegas.

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As instituições públicas e empresas prestadoras ou concessionárias de serviços públicos devem divulgar amplamente os locais, dias e horários do serviço de informação, para orientação e instrução adequadas, especialmente destinado ao cidadão usuário de Libras. Toda informação visual em texto deve atender às necessárias condições para entendimento e legibilidade da redação, como especificado na NBR 9050:2004, 5.5.

Toda informação tátil deve atender às necessárias condições para entendimento, de acordo com a NBR 9050:2004, 5.6. Deve haver sinalização tátil no piso, como especificado na NBR 9050:2004, 5.14, para orientação até o local de atendimento. Toda informação sonora e verbal deve atender às condições para entendimento da oração, de acordo com a NBR 9050:2004, 5.7. Estas condições devem ser aplicadas às informações sonoras faladas, gravadas, digitalizadas ou sintetizadas.

Toda informação exibida pela TV deve contemplar as formas de comunicação visual e sonora. Por exemplo, voz para informações em texto e legenda em texto para informações orais. Informações essencialmente sonoras, como entrevistas disponíveis em arquivos de áudio, devem estar também disponíveis em texto, possibilitando sua edição em tipos ampliados, braille e caracteres em relevo.

Informações essencialmente visuais ou não textuais (gráficos, tabelas, imagens, legendas gráficas etc.) devem estar disponíveis nas versões: visual- com o conteúdo alternativo textual indispensável para a compreensão; sonora- por locução (uso da voz); tátil- em texturas diferenciadas, mapas táteis, caracteres em relevo, etc. Informações textuais constantes de material gráfico devem estar disponíveis nas versões: visual- com tipos ampliados; sonora- em meio magnético (fita k-7, disquetes, CO, etc.); tátil – braille e caracteres em relevo.

Quando em meio digital, as informações devem ser processáveis por sistemas de leitura e ampliação de tela e outros que a tecnologia permitir. Sistemas informatizados, para informação direta ao usuário, devem ter disponíveis: programa de ampliação de tela; sistema composto por leitor de tela, sintetizador de voz e display braille. Os painéis eletrônicos, monitores de vídeo ou qualquer dispositivo utilizado para transmitir informações textuais devem: estar associados a sinais de luz, para alertar pessoas com deficiência auditiva/surdez e surdo-cegos; estar sincronizados com informação sonora verbalizada, para atender às pessoas com deficiência visual.

A sinalização indicativa de atendimento prioritário ou uso preferencial deve indicar os beneficiários desse direito por meio de símbolos de acordo com a sinalização indicativa de atendimento prioritário ou uso preferencial deve indicar os beneficiários desse direito por meio de símbolos como o mostrado na figura abaixo. A sinalização de orientação e os procedimentos para utilização dos equipamentos de segurança e das facilidades existentes em situações de emergência devem estar de acordo com 5.12.2.5.

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Campanhas institucionais de prevenção de doenças e acidentes e de promoção da cidadania devem utilizar os recursos de acessibilidade em comunicação, com redundância, como mostrado no Anexo A. Todo atendimento direto ao público deve ser prestado por pessoas que tenham o domínio das necessidades das pessoas com deficiência e das especificidades dos surdos oralizados. Pelo menos um atendente deve ter articulação orofacial que permita a leitura labial.

Todo atendimento que disponha de intérprete de Libras deve: estar identificado com o símbolo internacional de surdez, de acordo com a figura acima; ter os locais, dias e horários do atendimento divulgados. É recomendado que empresas prestadoras ou concessionárias de serviços públicos tenham disponível atendimento por meio do teletouch, para o cidadão surdo-cego. Os serviços de atendimento ao público, seja via telefone, equipamento de autoatendimento ou internet, de empresas prestadoras ou concessionárias do serviço devem: propiciar tempo, segundo os critérios da usabilidade, para que as pessoas com deficiência possam utilizar esses serviços com autonomia; ter disponíveis, para consulta e resposta ao cidadão, múltiplos meios de comunicação: correio eletrônico, fax, telefone, TS, CAS, SISO, videofone, atendimento on-line via internet, etc.

Todo atendimento ao cidadão através de linha telefônica com TS deve estar identificado com o símbolo de telefone para surdo, de acordo com 6.2.2, na lista telefônica e em outros meios de divulgação. Os formulários impressos devem oferecer o recurso do “tipo ampliado” (para baixa visão). Os formulários digitais devem estar em formato que possa ser processado por sistemas de leitura e ampliação de tela.

A orientação para o preenchimento de formulários deve estar disponível nas formas visual, sonora e tátil (no próprio local ou via Internet) e, quando em formato digital, deve permitir o processamento por sistemas de leitura e ampliação de tela. Quando houver a possibilidade de preenchimento do formulário nas próprias empresas prestadoras ou concessionárias do serviço, os equipamentos devem dispor da tecnologia assistiva específica para que as pessoas com deficiência possam utilizá-los com autonomia. Por exemplo: teclados e mouses alternativos, ampliadores de tela, sistemas de inversão de cores e leitor de tela com síntese de voz, programa tradutor de texto para impressão em braille, entre outras.

Toda central de atendimento de serviços de emergência deve: receber ligações telefônicas provindas de TS e de telefones celulares com mensagem de texto; ter pessoal com noções de Libras e de Libras tátil, de modo a se comunicar e interagir com o usuário de Libras, em atendimento de emergência. Por exemplo: pedido de resgate ou ambulância. Para reclamação, consulta e resposta ao consumidor, devem estar disponíveis múltiplos meios de comunicação, como correio eletrônico, fax, telefone, TS, CAS ou SISO, Internet on fine ou outros, devidamente identificados no local do serviço e nos meios de divulgação, de acordo com a Seção 6.

Todo serviço de atendimento ao consumidor, via internet, deve estar em formato digital que possa ser processado por sistemas de leitura e ampliação de tela. Todo serviço de atendimento ao consumidor (serviços 0800 e 0300) com TS instalado deve estar sinalizado, com o símbolo internacional de telefone para surdo, de acordo com 6.2.2, no aparelho, na lista telefônica e em outros meios de divulgação.

Todo serviço de atendimento ao consumidor (serviço 0800) deve estar apto a fornecer informações e esclarecimentos, para pessoas com deficiência visual ou auditiva. Todo serviço de atendimento direto ao consumidor, por meio de funcionário com conhecimento de Libras, deve estar identificado e ser divulgado com o símbolo internacional de surdez, de acordo com 6.1.3. Os conteúdos de rótulos, manuais de utilização, bulas ou qualquer outro material em texto – contas, faturas e cobranças de cartão de crédito, multas, impostos, taxas e outros – devem estar disponíveis em braille, disquetes ou fitas k-7 ou outros meios eletrônicos (páginas na Internet, correio eletrônico etc.) em formato digital, que possam ser processados por sistemas de leitura e ampliação de tela.

Audiências jurídicas e processos judiciais, em geral, devem promover a explicitação dos termos de qualquer documento: em Libras, antes deste ser firmado por pessoa surda usuária de Libras; em Libras tátil, Tadoma, escrita na palma da mão ou alfabeto datilológico, conforme o uso preferencial, antes deste ser firmado por pessoa surdo-cega; em braille, antes deste ser firmado por pessoa cega, com baixa visão ou surdo-cega, usuária do sistema braille; em tipologia ampliada, seguindo a preferência de uso, antes de ser firmado por pessoa com baixa visão.

Os ambientes de ensino devem prover: mapas táteis, com a descrição de seus espaços (ver Tabela A.1 no Anexo A – disponível na norma); espaços construídos e sinalizados, como especificado na NBR 9050; salas de aula devidamente iluminadas; salas de aula com conforto acústico para viabilizar a comunicação, com ou sem amplificação sonora, como especificado nas NBR 10152 e NBR 12179; segurança e conforto ao aluno, inclusive nos brinquedos e mobiliário; alarmes sonoros e visuais como especificado na NBR 9050:2004, 5.15; sinalização luminosa intermitente (tipo flash), para avisos de: intervalo e de mudança de professor, na cor amarela; incêndio ou perigo, em vermelho e amarelo, com flashes mais acelerados.

Os estabelecimentos de saúde devem prover ambientes de uso público, construídos e sinalizados como especificado na NBR 9050 e mapas táteis com a descrição dos espaços (ver Tabela A.1 no Anexo A -disponível na norma). Hospitais, clínicas e demais instituições de assistência à saúde devem possibilitar a marcação de consultas e outras informações por múltiplos meios de comunicação, devidamente identificados na lista telefônica e em outros meios de divulgação: internet, correio eletrônico, fax, telefone, TS, videofone; CAS – Central de Atendimento ao Surdo; SISO- Serviço de Intermediação Surdo Ouvinte.

Agências de viagem e turismo, redes hoteleiras, locadoras de automóveis, restaurantes, pontos turísticos, postos de informações turísticas e demais prestadores de serviços turísticos (eventos, museus, teatros, etc.) devem dispor de meios de comunicação acessíveis a pessoas com deficiência sensorial, para consulta, reserva e resposta. Devem possibilitar no mínimo a comunicação visual e sonora, via voz (ver Tabelas A.2 e A.3 no Anexo A – disponíveis na norma).

As agências de turismo devem prestar informações sobre as condições de acessibilidade em comunicação, encontradas nos estabelecimentos de hospedagem e viagens de turismo. Todo serviço de atendimento e de informações prestado por empresas que atuem com o turismo, via internet, deve ser apresentado em formato digital que possa ser processado por sistema de leitura e ampliação de tela.

Os serviços de turismo devem prover treinamento de seus funcionários em Libras e Libras tátil. Todo serviço turístico e serviço de recepção e de guia turístico deve estar identificado e ser divulgado: com o símbolo internacional de surdez, de acordo com 6.1.3, quando viabilizado por meio de Libras; com o símbolo da surdo-cegueira, de acordo com 6.1.4, quando houver atendimento por meio de Libras tátil; com o símbolo internacional de pessoas com deficiência visual, de acordo com 6.1.2, quando forem viabilizadas informações por braille, tipologia ampliada, descrição em áudio (de imagens, sons e outras).

Para que o hóspede ou turista surdo ou surdo-cego usuário de LIBRAS possa identificar os funcionários com conhecimento de Libras, estes funcionários devem estar identificados com o símbolo internacional de surdez de acordo com 6.1.3. Para a eficaz emissão, captação e troca de mensagens na prestação de serviços, convém observar cuidadosamente o público-alvo, ter sensibilidade na escolha dos recursos de comunicação adequados e aplicar o princípio da redundância, não restringindo jamais a emissão da mensagem a um único tipo de comunicação.

A combinação dos diferentes tipos de comunicação – tátil, visual e sonora – possibilita atender à vasta gama de capacidades da população e contornar as barreiras à comunicação identificadas na prestação de serviços. Para prover acessibilidade em comunicação, importa saber ainda que: nem todos os cegos usam o sistema Braille, pois podem não dispor da sensibilidade tátil necessária; nem todos os surdos usam Libras; aqueles que têm surdez pós-linguística geralmente falam com desenvoltura, mas não ouvem -utilizam a leitura orofacial e/ou textual; alguns surdo-cegos possuem visão ou audição residual e muitos utilizam o olfato para identificar o que está acontecendo ao redor.

Fonte: Revista Digital AdNormas

‘A produção de autoria negra é muito maior do que o mercado editorial apresenta’

Quilombola capixaba, Mirtes dos Santos criou primeiro clube de leitura antirracista por assinatura do país

Texto por Vitor Taveira, do Século Diário

Mirtes dos Santos (Foto: Pedro Borges – Alma Preta)

Ativista do movimento negro, Mirtes dos Santos nasceu na comunidade quilombola de Angelim, em Conceição da Barra, norte do Estado. Mestre em Direito e Sociologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), ela acredita na importância no incentivo à leitura e valorização da literatura afro-brasileira e da diáspora africana como estratégia para combater o racismo e a discriminação em nossa sociedade.

Por isso ela criou o Pretaria BlackBooks, considerado o primeiro Clube de Leitura por Assinatura com foco nas questões étnico-raciais e no combate ao racismo. A cada mês os assinantes recebem um livro sugerido por uma equipe de curadoras. “Nosso trabalho é pioneiro e totalmente desenvolvido por mulheres negras, ativistas e pesquisadoras das literaturas e das relações étnico-raciais no Brasil e no mundo”, conta.

Confira a entrevista que ela deu ao Século Diário.

Por que surgiu a ideia de criar um clube de leitura antirracista?

Os clubes de leituras existentes não destacam a literatura produzida por escritores não brancos ou que tratam temáticas relacionadas às questões raciais, racismo e antirracismo, portanto, a Pretaria vem para para atender essa demanda urgente dos leitores e tornar-se o primeiro Clube de Leituras por Assinatura do Brasil do gênero especializado em literatura antirracista, voltado para a valorização da literatura afro-brasileira e da diáspora africana, através do incentivo à leitura e da capacitação dos leitores nas temáticas das relações étnico-raciais com foco na superação do racismo e da discriminação.

Como é o funcionamento do Pretaria?

Enviamos aos nossos assinantes do Clube de Leituras Pretaria BlackBooks todo mês, uma BlackBox com livros que fazem parte do nosso Programa de Formação Antirracista, contendo um livro, brindes e dicas de leitura focadas na conscientização, desconstrução e superação do racismo. Em parceria com autores e editoras, apresentamos aos nossos leitores obras e trabalhos artísticos que estão em consonância com os objetivos da Pretaria. E estamos abertos a novas parcerias.

Como é feita a seleção dos livros que são enviados aos sócios?

Nós temos um projeto pedagógico de formação antirracista, em que nosso grupo editorial, composto por uma curadoria técnica e convidadas, escolhe alguns dos principais livros que são indicados em cada BlackBox do mês. Estas obras possuem conteúdos que contribuem para o processo de conscientização, desconstrução e superação do racismo e preconceitos.

Como ser membro do Clube?

O assinante do Clube Pretaria BlackBooks acessa o site www.pretaria.com.br, escolhe um dos planos de assinaturas e recebe em casa uma Blackbox mensal contendo um livro, brindes e dicas de leitura. O prazo de adesão ao Clube é todo dia 20 do mês, escolhendo um dos planos de assinaturas na plataforma da Pretaria. O recebimento é no final de cada mês.

Que tipo de serviços são oferecidos?

O Clube de Leituras Pretaria BlackBooks é um serviço por assinaturas, nós disponibilizamos três planos que compreendemos como etapas no processo de formação antirracista. Cada BlackBox contém livros que parte desde a conscientização, desconstrução até a superação do racismo. Não estamos prometendo um milagre, mas sim um diálogo à sociedade brasileira para buscar a eliminação dos preconceitos e discriminações raciais por meio do incentivo à leitura.

Qual a importância da produção acadêmica e literária para o enfrentamento do racismo no Brasil e no mundo? Como a literatura se articula com o ativismo?

A partir de 1978, a produção literária afro-brasileira dinamiza-se bastante por conta da criação da série Cadernos Negros, que, publicando contos e poemas, tem se tornado o principal veículo de divulgação da escrita daqueles que resolvem colocar no papel suas experiências e visão de mundo. Além de proporcionar espaço para os criadores, a série, organizada pelo Quilombhoje, também vem se tornando um instrumento para o exercício das leis 10.639 e 11.645 [que tratam do ensino da história e cultura afro-brasileiras], pois se constitui numa fonte extremamente rica para veiculação da cultura, do pensamento e do modo de vida dos afro-brasileiros.

Essas obras dos escritores afro-brasileiros têm dificuldade de circular nos meios hegemônicos? Por quê?

Hoje já percebemos maior acesso dessas obras em espaços hegemônicos, como grandes editoras e eventos literários, mas os autores negros e negras no Brasil publicavam suas obras através de produções e editoras independentes, como os cadernos negros do Quilombohoje, que revela grandes nomes da literatura brasileira há mais de 40 anos. Um exemplo é a Conceição Evaristo, hoje uma das escritoras negras mais lembradas quando se fala de autoria negra, mas seus livros só foram conhecidos do grande público após seus 70 anos de idade, quando já eram conhecidos há tempos principalmente por grupos de militantes e pesquisadores das temática das diversidades.

Há um crescimento notável nos últimos anos das publicações de autores negros e negras no Brasil e dos livros com temática étnico-racial? A que atribui isso?

Sim, na verdade a produção de autoria negra é muito maior do que o mercado editorial ou as livrarias apresentam, porém, nos últimos anos alguns autores ganharam notoriedade na mídia ao denunciar a ausência destes em importantes eventos literários no Brasil como na Flip em 2018 [Feira Literária Internacional de Paraty, um dos mais importantes eventos de literatura do Brasil], assim como a reivindicação da inclusão de autores negros nos currículos escolares.

Que autores ou obras você recomenda para quem está querendo um primeiro contato com a literatura antirracista?

Indicamos na BlackBox de dezembro de 2019, em parceria com a Editora Nandyala, que inaugurou o nosso Programa de Formação Antirracista do Clube, a importante obra teórica Racismo & Sociedade (2012), do escritor cubano Carlos Moore, pela editora Nandyala. A obra do autor possibilita ao leitor uma compreensão das raízes epistemológicas do racismo na história da humanidade. Já na BlackBox de janeiro 2020, em parceria com a Editora Letramento, disponibilizamos aos nossos leitores o mais novo lançamento no Brasil, a versão em português do Best-Seller Por que não converso mais com pessoas brancas sobre raça (2019), da premiada jornalista britânica Reni Eddo-Lodge. Eddo-Loge já escreveu para o New York Times, The Voice, Daily, Telegraph, Guardian, Independent, Stylist, The Pool, Dazed and Confused e New Humanist, mas este é seu primeiro livro.

Fonte: Geledés

Governo Doria cria comissão para analisar escolha de livros para presidiários de SP

FOLHAPRESS

Rogério Gentile E Guilherme Seto

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A gestão João Doria (PSDB) decidiu criar uma comissão para avaliação dos livros disponibilizados aos detentos do estado de São Paulo pelo programa Remição em Rede. A decisão foi tomada nesta quinta-feira (13) após reunião entre membros da administração estadual e as entidades responsáveis pelo projeto.

A Folha de S.Paulo revelou que a administração Doria havia vetado uma lista de livros do projeto que continha autores consagrados como o colombiano Gabriel García Márquez, o franco-argelino Albert Camus, o cubano Leonardo Padura e a norte-americana Harper Lee, entre outros.

O governo do estado negou, em um primeiro momento, que tenha havido censura. No entanto, posteriormente, por meio de nota, disse que a Funap (órgão do governo responsável por desenvolver programas sociais nos presídios) determinou nesta quinta (13) que o programa inclua a lista de livros indicada inicialmente pelo projeto.

O Remição em Rede é administrado com a participação da empresa Jnana Consultoria (da educadora Janine Durand), do grupo Mulheres do Brasil, e das editoras Record, Planeta, Todavia e Boitempo.

Na mesma nota, a administração estadual afirma que “foi definida a criação de uma equipe multidisciplinar composta por integrantes da Funap, da Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) e do Mulheres do Brasil para tratar do processo de escolha de obras e da metodologia de condução dos clubes de leitura.”

Até então, não havia essa análise prévia da lista de livros por parte do governo do estado. O pacote era elaborado pelo grupo que criou o Remição em Rede, que informava os livros que seriam enviados e os remetia para a Funap.

O Remição em Rede implementou clubes de leitura em dez penitenciárias na gestão Márcio França (PSB). Na primeira fase do projeto, de setembro de 2018 a agosto de 2019, houve participação de 200 presos.

Além de estimular a leitura, o programa contribui para a chamada remição da pena, que consiste na possibilidade de o presidiário abreviar o tempo de cumprimento de sua pena por meio do estudo.

Cada livro lido pode diminuir a pena em quatro dias. O preso pode ler 12 livros por ano e conseguir com isso até 48 dias de remição da pena. Para isso, ele também precisa escrever uma resenha, que é encaminhada ao juiz regional para que seja efetivada a diminuição da pena.

Em julho de 2019, o governo do estado renovou o programa Remição em Rede por mais 12 meses. O objetivo era ampliar o alcance para 400 presos, incluindo mais dez presídios.

No mês seguinte, as quatro editoras participantes doaram 240 exemplares de 12 títulos, que seriam acrescentados à biblioteca circulante já existente.

Os livros, no entanto, não foram remetidos pela Funap aos presídios. Em dezembro, as organizadoras do projeto solicitaram uma reunião com a fundação, órgão do governo responsável por desenvolver programas sociais nos presídios, para entender o que estava acontecendo.

“Nos avisaram ali que a lista de livros havia sido riscada na íntegra pelo diretor executivo da instituição, o coronel Henrique Pereira de Souza Neto”, afirma a educadora Janine Durand, articuladora do projeto, que tem custo zero para o poder público.

“Depois falaram que o problema estava concentrado em três obras, mas não nos informaram em quais”, afirma. “Essa situação toda nos deixou estupefatos.”

Em razão dos protestos contra a censura, disse Janine, a Funap pediu o envio de uma mensagem de texto com uma justificativa para a escolha de cada um dos livros, o que ocorreu na mesma semana.

A resposta veio no dia 3 de dezembro. Reginaldo Caetano da Silva, superintendente da diretoria de atendimento e promoção humana da Funap, declarou que a justificativa seria encaminhada à chefia de gabinete da instituição.

No texto, o diretor afirma que havia sido indicado “um título que, diante das novas propostas da gestão atual, não atende ao que se espera para a população atendida pela Funap.”

Ele não indica no e-mail qual é a obra censurada. A Funap também não revelou à Folha qual seria o livro, e tampouco o especificou na reunião desta quinta-feira (13).

Doze livros formam a lista: “As Cartas Que Não Chegaram”, de Maurício Rosencof; “Vá, Coloque Um Vigia”, de Harper Lee; “Crônica De Uma Morte Anunciada”, de Gabriel Garcia Márquez; “O Estrangeiro”, de Albert Camus; “O Fim de Eddy”, de Édouard Louis; “O Amor Que Sinto Agora”, de Leila Ferreira; “Bonsai”, de Alejandro Zambra; “Caderno de Memórias Coloniais”, de Isabela Figueiredo; “O Quarto Branco”, de Gabriela Aguerre; “Enquanto Os Dentes”, de Carlos Eduardo Pereira; “Cabo de Guerra”, de Ivone Benedetti; e “Paisagem de Outono”, de Leonardo Padura.

Os livros compõem um amplo leque de temas e pode ser difícil apontar os conteúdos que teriam desagradado a direção do órgão do governo do estado.

O romance “Cabo de Guerra”, da editora Boitempo, tem como narrador da história um agente de governo infiltrado nos grupos de esquerda durante a ditadura militar brasileira.

Crítica do livro publicada na Folha de S.Paulo aponta que “o que mais atordoa [no livro] não é a brutalidade dos militares, mas a passividade do protagonista. A ausência de culpa sobre os atos que levam à morte de diversas pessoas é transtornante”.

Padura é um dos mais importantes escritores cubanos de sua geração, para citar outro possível óbice para os avaliadores da Funap. “Paisagem de Outono”, da Boitempo, faz parte da tetralogia “Estações Havana”, na qual as investigações criminais do protagonista Mario Conde são utilizadas por Padura para desvelar sua visão sobre a sociedade de Cuba.

“O Fim de Eddy”, da editora Tusquets, é o relato de um processo de formação “marcado pela descoberta sofrida da homossexualidade num ambiente social asfixiante, no qual a fome e a miséria moldavam o cotidiano das pessoas”, segundo análise publicada na Folha de S.Paulo.

Em dezembro, diante da medida adotada pelo governo, as organizadoras do projeto solicitaram a devolução dos livros doados.

“Agradecemos a colaboração e permanecemos à disposição para qualquer outro esclarecimento”, respondeu a Funap na mensagem em que comunicou a restituição.

OUTRO LADO

Em nota da terça-feira (11), a gestão Doria afirmou que “não faz juízo de valor dos livros” e ressaltou que “não há nenhum tipo de censura ou veto a livros”.

Nesta quinta (13), disse que o Remição em Rede vai contribuir com o programa Lendo a Liberdade, da Funap, “que disponibiliza 650 mil livros para leitura espontânea, sem vinculação com remição de pena,  em 206 salas de leitura nas unidades prisionais.”

O trabalho resultou, informa o governo do estado, no “empréstimo no empréstimo de quase 612 mil obras aos reeducandos, além de 18 mil atendimentos nos Clubes de Leitura.”

TENDÊNCIA

A medida do governo paulista encaixa-se em contexto mais amplo de censura a obras artísticas no Brasil.

No começo do mês, a Secretaria de Educação de Rondônia distribuiu um memorando e uma lista de livros para serem recolhidos das escolas por conterem o que foi definido como “conteúdos inadequados” a crianças e adolescente. A pasta voltou atrás após questionamentos à medida.

A lista das obras censuradas incluía 43 títulos, de autores como Caio Fernando Abreu, Carlos Heitor Cony, Euclides da Cunha, Ferreira Gullar, Nelson Rodrigues, Rubem Fonseca, Franz Kafka, Mário de Andrade e Machado de Assis.

No ano passado, diversos espetáculos foram atacados ou censurados pelo governo federal, sob comando de Jair Bolsonaro, ou por algum de seus órgãos.

Parte deles, como o músico Arnaldo Antunes, a peça “Res Publica 2023”, pôsteres de filmes nacionais que estavam nos corredores e no site da Ancine (Agência Nacional de Cinema) e o longa-metragem “Bruna Surfistinha”, foi reunida em festival contra a censura promovido pela Prefeitura de São Paulo em janeiro de 2020

Fonte: GaúchaZH

Projeto incentiva idosos de Santo André a praticarem hábito da leitura

Realizado por meio de parceria da Prefeitura com o Governo do Estado, Clube de Leitura 6.0 promove envelhecimento ativo e saudável

Texto por Daniele Vieira

Prefeitura de Santo André lançou o projeto Clube de Leitura 6.0
Crédito: Alex Cavanha/PSA

A Prefeitura de Santo André lançou nesta quarta-feira (12) o projeto Clube de Leitura 6.0. A iniciativa visa incentivar o hábito de ler em munícipes da terceira idade, promovendo assim um envelhecimento ativo e saudável.

O projeto é realizado em parceria com o Fundo Estadual do Idoso, vinculado ao Governo do Estado de São Paulo, e oferece leitura gratuita de livros digitais, rodas de conversas e sessões semanais de biblioterapia em grupo.

A iniciativa é realizada em 18 cidades paulistas e Santo André é o primeiro município do ABC a contar com o programa. Cada clube de leitura possui, em média, dez membros, que se reúnem uma vez por semana para ler e falar sobre o livro lido. Os encontros, de duas horas, são sempre no mesmo lugar e horário.

Na primeira parte, as leituras, em voz alta ou individualmente, são feitas nos tablets fornecidos pelo projeto. Em seguida, acontecem as rodas de conversa com sessões de biblioterapia. Voluntários ensinam os idosos a manusear os aplicativos de leitura em tablets, celulares e computadores.

O lançamento do projeto contou com a presença do prefeito Paulo Serra, que aproveitou a ocasião para anunciar que o Crisa (Centro de Referência do Idoso de Santo André) vai passar a funcionar em um novo espaço.

“É importante a gente dividir com vocês que vamos ter um novo Centro de Referência do Idoso de Santo André. Assinamos um contrato com o Tênis Clube e no mês de abril, aniversário da cidade, quem vai ganhar o presente é a nossa melhor idade, com a belíssima estrutura do Tênis Clube, e a ampliação dos trabalhos realizados no Crisa”, comentou o prefeito.

O Clube de Leitura 6.0 é uma iniciativa do Observatório do Livro e da Leitura, uma fundação privada com sede em Ribeirão Preto, selecionada em edital para captar recursos pelo Fundo do Idoso do Estado de São Paulo.

“A importância do projeto é muito grande, porque a gente trabalha com a longevidade, buscamos isso para a nossa população, quando fazemos isso criamos um novo desafio, que é como envelhecer com saúde. O projeto vai nesta direção porque, através destes clubes de leitura, conseguimos ter uma escuta empática, socialização e a possibilidade muitas vezes, através das histórias dos livros, de lidar com a vida de outra maneira”, afirmou o secretário de Cidadania e Assistência Social, Marcelo Delsir.

Interessados em se inscrever devem entrar em contato com o Crisa, no telefone 4992-8132, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, ou nos Cras (Centros de Referência de Assistência Social) Utinga, Vila Luzita, Alzira Franco ou Ana Maria.

Relação dos Cras participantes:

Cras Vila Luzita

Estrada do Pedroso, 236 – Vila Luzita

Telefone: 4455-8527

Cras Utinga

Av. Utinga, 1971 – Vila Metalúrgica

Telefone: 4994-4766

Cras Alzira Franco

Rua Amapola, s/n – Jardim Alzira Franco

Telefone: 4437-2932

Cras Ana Maria

Praça Venâncio Neto – Avenida Nestor de Barros, s/n – Jardim Ana Maria

Telefone: Não disponível

Fonte: Portal ABCdoABC

Governo de SP censura livros de projeto de leitura para presidiários, diz articuladora

Governo de SP é acusado de vetar distribuição de livros para presos

A Fundação “Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel” (Funap), vinculada à Secretaria Estadual da Administração Penitenciária (SAP), vetou uma lista de 11 obras literárias de uma iniciativa de estímulo à leitura que funcionava em penitenciárias do estado de São Paulo, segundo a articuladora do projeto. Na relação, havia títulos como “Crônica de uma morte anunciada”, do colombiano Gabriel García Márquez, “O estrangeiro”, de Albert Camus, e “Inverno”, de Leonardo Padura.

Procurada, a Funap nega a censura. Está marcada para a tarde desta quinta-feira (13), na sede do órgão, no Centro da capital paulista, na qual se discutirá a inclusão dos livros nos projetos de leitura frequentado pelos presos paulistas (leia mais abaixo).

A relação dos livros foi feita pelo projeto Remição em Rede, que realizou, entre setembro de 2018 e agosto de 2019, uma atividade de incentivo à leitura com um grupo de 200 presos. Cada livro lido pode diminuir a pena em quatro dias. O detento pode ler 12 livros por ano e conseguir com isso até 48 dias de remição da pena.

De acordo com Janine Durand, educadora e articuladora do projeto Remição em Rede, em julho de 2019, a Funap renovou a parceria para executar o programa de incentivo à leitura por mais 12 meses.

Segundo Janine, um mês depois, o projeto entregou à Funap 240 exemplares, 20 de cada um dos 11 títulos, para serem incorporados a uma biblioteca circulante já existente no sistema prisional. Compõem a relação as seguintes obras:

  • “As cartas que não chegaram”, de Maurício Rosencof
  • “Vá coloque um vigia”, de Harper Lee
  • “Crônicas de uma morte anunciada”, de Gabriel Garcia Marques
  • “O estrangeiro”, de Albert Camus
  • “O fim de Eddy”, de Édouard Louis
  • “O amor que sinto agora”, de Leila Ferreira
  • “Bonsai”, de Alejandro Zambra
  • “Caderno de Memórias Coloniais”, de Isabela Figueiredo
  • “O quarto branco”, de Gabriela Aguerre
  • “Enquanto os dentes”, de Carlos Eduardo Pereira
  • “Cabo de Guerra”, de Ivone Benedetti
  • “Inverno”, Leonardo Padura

Todos eles foram doados por quatro editoras: Recordo, Todavia, Companhia das Letras e Boitempo.

No entanto, segundo Janine, esses livros nunca saíram da Funap. “Desde a entrega dos livros, não tivemos nenhum retorno sobre a retomada do projeto”, explica a articuladora do Remição em Rede.

No dia 25 de novembro de 2019, Janine conta ter participado de uma reunião na Funap, ocasião em que quis esclarecer sobre a não retomada do projeto. Ela diz ter ouvido a seguinte sugestão feita por Reginaldo Caetano da Silva, superintendente da diretoria de atendimento e promoção humana da Funap: “[A relação dos 11 livros sugeridos] Não são títulos muito adequados aos presos, vocês têm livros mais para autoajuda?”.

Janine diz ter ficado perplexa com o que ouviu. Nessa reunião, conta ter se negado a alterar a relação dos títulos. “Nosso trabalho é feito por voluntários, a Funap tem mediadores que nós formamos, articulamos clubes de leitura. A elaboração da lista de livros não é aleatória, escolhemos autores consagrados, de vários países. A ideia é incentivar a leitura de obras literárias, e fazer com que os presos tenham uma cidadania plena, não trabalhamos com autoajuda nesse projeto”, explica a educadora.

Janine conta ainda que, para retomar o projeto com aqueles 11 títulos, a Funap solicitou uma justificativa por escrito para que cada uma das obras fosse utilizada pelo projeto. “Prometeram nos responder dois dias depois de enviar as justificativas. Fizemos isso e não tivemos nenhum retorno.”

Como não obteve resposta da SAP, Janine diz ter sido obrigada a pegar os livros de volta, no dia 27 de dezembro. “A gente escuta falar de censura, mas, quando ela se materializa na sua frente, é muito chocante.”

O que diz o governo

A Fundação “Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel”- Funap disse por meio de nota que “o programa “Lendo a Liberdade” disponibiliza 650 mil títulos em 206 salas de leitura mantidas pela Fundação nas Unidades Prisionais, o que resultou, em 2019, no empréstimo de quase 612 mil obras aos reeducandos, além de 18 mil atendimentos nos Clubes de Leitura”. “Trata-se de programa prioritário, como estratégia de reintegração social e, por tal motivo, sua expansão no sistema penitenciário paulista recebe permanente incentivo.”

Ainda de acordo com a nota da Funap, “dos títulos disponíveis, 115 são indicados para a atividade específica de remição de pena pela leitura, pelo qual o preso pode diminuir sua pena”. “São obras dos mais diversos gêneros literários, origens e matizes ideológicos. Entre os autores, estão George Orwell, Franz Kafka, Gabriel Garcia Márquez, Ernest Hemingway, Mia Couto, José Saramago, Machado de Assis, Jorge Amado, Luiz Ruffato, Marcelo Rubens Paiva, Marçal Aquino, Fernando Moraes, Patrícia Campos Mello, Aldous Huxley, Jack London, Ian McEwan e J.M. Coetze. O programa faz um rodízio de títulos e é possível que os livros sugeridos entrem futuramente para remição pela leitura. Por isso, não há nenhum tipo de censura ou veto a livros.

O projeto “Remição em Rede” é apenas uma pequena parte de todo um trabalho desenvolvido. Será realizada uma reunião nesta quinta com a colaboradora que sugeriu as obras para debater a inclusão das publicações.”

Fonte: G1 São Paulo

TJ-SP anula lei estadual que previa remição da pena por meio de leitura

Texto por Tábata Viapiana

Viola a competência privativa da União a lei estadual que cria uma modalidade de remição da pena. Assim entendeu o Órgão Especial do Tribunal de Justiça de São Paulo ao declarar a inconstitucionalidade da Lei Estadual 16.648/2018, que institui nos presídios paulistas a possibilidade de remição da pena de presos que leiam ao menos um livro por mês.

TJ-SP anulou lei estadual que previa remição da pena por meio da leitura

A ação direta de inconstitucionalidade foi movida pela Procuradoria-Geral de Justiça contra o governador do Estado e o presidente da Assembleia Legislativa. A decisão no Órgão Especial se deu por unanimidade.

“Não se está a criticar o instituto da remição da pena pela leitura, mas a discutir se o ente federativo (Estado) poderia (ou não) criá-lo e regulamentá-lo, por veículo legislativo próprio. A norma jurídica em tela tem por assunto-chave a remição da pena, instituto pertencente às searas do direito penal e do direito processual penal (execução penal)”, disse o relator, desembargador Beretta da Silveira, que completou: “A definição e regulamentação desse instituto somente poderia dar-se por meio de lei federal”.

O desembargador também afirmou que houve “flagrante invasão da iniciativa privativa do chefe do Poder Executivo”. A lei impugnada é de iniciativa parlamentar e, segundo Beretta da Silveira, “não apenas determinou a criação de novo órgão administrativo na unidade carcerária, mas também lhe atribuiu funções específicas no controle e avaliação das atividades de leitura e correção das resenhas a serem ulteriormente apresentadas pelos presos”, o que só pode ser feito por iniciativa do Executivo.

Neste caso, conforme o relator, houve violação aos artigos 24, § 2º, e 47, inciso XIX, alínea a, da Constituição do Estado – e, por reflexo, violação aos artigos 61, § 1º, inciso II, e 84, inciso VI, ambos da Constituição da República.

Fonte: Consultor Jurídico

Mil e uma possibilidades de leitura

PUBLISHNEWS, TALITA FACCHIN

O Podcast do PublishNews recebeu Pedro Miliet, consultor em tecnologia digital em acessibilidade, para falar sobre o mercado de livros acessíveis

Em um país com mais de 6,5 milhões de pessoas com alguma deficiência visual, a acessibilidade na leitura é um assunto de extrema importância. Para entender mais sobre o papel do livro acessível no mercado editorial, o Podcast do PublishNews conversou com Pedro Miliet, consultor em tecnologia digital em acessibilidade, hoje vinculado ao Consórcio Daisy.

Quando falamos sobre livros acessíveis, o que logo vem na memória é o livro em braile, mas existem vários outros formatos disponíveis e o investimento para ajudar o deficiente visual é o que não falta. “Nos últimos 20 anos nós tivemos uma evolução no campo da tecnologia para o deficiente visual que mudou completamente a vida das pessoas”, contou.

O crescimento do mercado de audiolivros, o incentivo dos governos ao redor do mundo e os reflexos da Lei Brasileira de Inclusão (LBI) também pautaram a conversa. Pedro explicou de maneira didática como a Lei interfere no mercado. “Em primeiro lugar ela estabelece a obrigatoriedade de oferecer um formato acessível sempre que uma pessoa com deficiência quiser comprar”, explicou, enumerando ainda outras especificidades da Lei e o que precisa ser melhorado. “O que falta aqui, é a comunicação e a informação para a pessoa com deficiência visual desse Brasil enorme, ter consciência dos direitos que ela tem”, declarou lembrando ainda que outro ponto a ser considerado é o alto índice de desemprego da pessoa com deficiência visual.

Pedro Miliet

Pedro Miliet

Além da LBI, para Pedro, do ponto de vista de compromisso com a produção de livros acessíveis, o mercado brasileiro está muito adiante da maior parte do mundo. “Essa obrigatoriedade do livro em formato Daisy e depois em formato ePUB do PNLD é uma revolução em termos de acessibilidade relativamente ao mundo. Não há, acredito, outro país no mundo que tenha esse tipo de exigência com relação ao mercado editorial”, declarou.

Novas maneiras de ler, os desafios de se fazer um livro acessível, a evolução da qualidade das vozes, os avanços no campo da interatividade e nas ferramentas de leitura, a criação de avatares mais interativos, a importância dos metadados e para onde caminha o mercado dos livros acessíveis também fizeram parte da conversa.

O Podcast do PublishNews é um oferecimento da Metabooks, a mais completa e moderna plataforma de metadados para o mercado editorial brasileiro, da UmLivro, novo modelo de negócios para o mercado editorial: mais livros e mais vendas, e da Auti Books, dê ouvidos a sua imaginação, escute Audiobooks. Você também pode ouvir o programa pelo SpotifyiTunesGoogle PodcastsOvercast e YouTube.

Fonte: PUBLISHNEWS

Louis Braille: um benfeitor da humanidade

Por Davi Lago

Leroy Eims disse que “um líder é aquele que vê mais do que os outros, que vê mais longe do que os outros e que vê antes dos outros”. Podemos afirmar, então, que um dos maiores visionários de todos os tempos foi um deficiente visual chamado Louis Braille (1809-1852). Sua trajetória no século 19 é uma luz para este distópico início de século 21.

Braille perdeu a visão após um acidente na infância: aos três anos de idade feriu o olho esquerdo na loja de selas e arreios de seu pai na cidade de Coupvray, distrito de Seine-et-Marne, na França. O machucado severo infeccionou e alcançou o outro olho. As privações ocasionadas pela cegueira não impediram Louis Braille de se destacar ainda na infância: foi um jovem assíduo na igreja local e proativo na escola, a ponto de se tornar líder de turma. Com a articulação do padre Jacques Palluy, amigo da família Braille e grande incentivador, Louis ganhou financiamento para estudar no Institut Royal des Jeunes Aveugles de Paris (Instituto Real de Jovens Cegos de Paris). Nesta escola, Louis Braille entrou para a história da civilização ao elaborar seu método de leitura para cegos.

Aluno cego lê texto em braile — Foto: TV Globo/Reprodução
Aluno cego lê texto em braile — Foto: TV Globo/Reprodução

O método Braille não partiu do nada, mas dos métodos iniciais de leitura tátil, também conhecidos como anagliptografia. As primeiras tentativas foram realizadas pelo fundador do instituto, Valentin Haüy: ele percebeu que as folhas impressas na gráfica exibiam no verso todas as letras em relevo, porém invertidas. Haüy aplicou essa ideia de “letras em relevo” para alfabetizar alunos cegos através do tato. Outro passo foi dado pelo militar francês Charles Barbier cujo objetivo era criar um sistema para mensagens noturnas em campos de batalha. Barbier não trabalhou com letras em relevo, apenas com pontos. Neste sistema, havia “grupos de doze pontos” que formavam uma letra. O problema é que os métodos de Haüy e Barbier eram lentos e ineficientes. Foi então que Louis Braille, ainda muito jovem, entre 15 e 16 anos, testou e apresentou seu próprio sistema de leitura palpável, reduzindo cada letra para apenas “seis pontos” (a cédula braille é composta de seis pontos dispostos em duas colunas – cada coluna com três pontos; conforme a posição dos pontos marcados forma-se uma letra, número ou sinal; em cada cédula são possíveis 63 combinações diferentes). O método funcionou: a velocidade e fluência da leitura aumentaram consideravelmente. A utilidade prática do sistema foi logo comprovada e já em 1830 aplicada na escrita escolar especial. O próprio Louis tornou-se professor. O novo método possibilitou o acesso dos cegos à grande parte da educação que antes lhes era inacessível.

No curso do século 19 ocorreram desafios na implementação do braille como a resistência de alguns educadores e os altos custos para a produção do material adaptado. Contudo, aqueles que resistiram foram completamente vencidos. Pouco a pouco o método conquistou autoridades mundo à fora. Uma das primeiras nações a demonstrar interesse foi o Brasil. Conforme a pesquisadora Pamela Lorimer afirmou em sua tese de doutorado sobre a evolução do método Braille pela Universidade de Birmingham: “uma apreciação mais ampla ocorreu em 1854, quando o Imperador do Brasil encomendou uma cartilha portuguesa e pagou por um novo e completo conjunto de tipos para esse fim (uma cópia é exibida no museu Coupvray)”. Na Alemanha, o método foi adotado no ensino para cegos em 1879 e assim sucessivamente pelos países da Europa, América e demais continentes. A Unesco estabeleceu em 1951 o código internacional do braille e fundou o Conselho Mundial Braille padronizando a escrita para cegos mundialmente.

Em 1952, no centenário da morte de Braille, as autoridades francesas exumaram seus ossos e o acolheram no Panthéon – onde estão sepultados os maiores heróis da nação. Braille é considerado hoje um benfeitor da humanidade. Seu nome foi incorporado à diversos idiomas e dicionários – incluindo o português como a palavra “braile”. Na computação, a linguagem braile é considerada a primeira forma de linguagem binária da era moderna. No direito, em todo o mundo há leis estabelecendo o sistema braile como forma de integração cidadã dos deficientes visuais. No Brasil, por exemplo, é obrigatório linguagem braile em elevadores e caixas de remédio. Desde o Decreto nº 5.296 de 2004 o braile passou a ser um direito do cidadão.

*Davi Lago é paulistano, professor e pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da PUC-SP.

Fonte: G1

Reinaldo quer bibliotecas com visão artificial para deficientes

Por Graciela Zabotto/politica@webdiario.com.br
barueri

Reinaldo quer que bibliotecas com visão artificial para deficientes (Foto: Divulgação)

O vereador Reinaldo Campos (Podemos) apresentou na Câmara de Barueri uma Indicação solicitando ao prefeito Rubens Furlan (PSDB) a possibilidade de implantar dispositivos de inteligência e visão artificial para deficientes visuais nas bibliotecas da cidade. Segundo ele, essa é uma oportunidade de oferecer independência às pessoas com deficiência visual, déficit de leitura, dislexia e síndrome de down. O aparelho fotografa, escaneia e transforma instantaneamente textos de qualquer superfície em áudio.

“Isto acontece com livros, jornais, revistas, placas de rua, cardápios de restaurantes, nomes de lojas, mensagens do celular, folhetos, etc”, explicou o autor da solicitação. “Ter a oportunidade de oferecer nas bibliotecas municipais uma alternativa para que pessoas com problemas visuais tenham acesso aos livros, com capacidade de leitura, é sem dúvida algo que não pode ser ignorado”, completou Reinaldo.

Fonte: Webdiario

Audiodescrição: recurso essencial de acessibilidade

 Anaísa Raquel – audiodescritora

A audiodescrição é o recurso de acessibilidade que permite à pessoa com deficiência visual o pleno acesso a manifestações artísticas e culturais. O recurso permite que a pessoa com deficiência visual usufrua, de forma autónoma, do conhecimento de aspectos visuais que não adquire de outra forma. É, assim, uma tradução intersemiótica (a tradução de um signo visual para um signo verbal) de uma enorme responsabilidade que deve ser exercida de forma séria e profissional.

Na minha opinião, a audiodescrição deve ser o mais objectiva possível e nela não devem existir opiniões do audiodescritor acerca das obras. Há que considerar as obras tal como se deparam àqueles que delas têm a vivência e as apreciam.

(Martin Heidegger, em “A Origem da obra de Arte”)

Inserir opinião ou subjectividade numa audiodescrição é retirar o poder à pessoa com deficiência visual de usufruir e pensar, por si só, o objecto artístico.

Em todos os juízos pelos quais declaramos algo belo não permitimos a ninguém ser de outra opinião, sem com isso fundarmos nosso juízo sobre conceitos, mas somente sobre nosso sentimento; o qual, pois, colocamos a fundamento, não como sentimento privado, mas como um sentimento comunitário.

(Kant, em “A crítica da faculdade de juízo”)

Seguindo a linha de alguns filósofos, acredito que a audiodescrição deve somente centrar-se na audiodescrição concisa, simples e objectiva da obra, suas dimensões, cores, formatos, local onde está inserida e outras informações que iríamos receber somente através do sentido da visão. O pleno acesso à cultura é também isso: a possibilidade de se criar uma opinião individual e autónoma sobre aquilo que observamos.

Centremo-nos na experiência artística e cultural: museu ou espaço museológico.

Vamos colocar-nos no lugar do outro, fechar os olhos e visitar um museu, sem companhia e sem estarmos integrados numa visita guiada. Como sabemos onde se encontra a bilheteira? Como nos deslocamos até à entrada do espaço de exposição? Como sabemos onde estão expostas as peças? Como lemos as legendas? Como “vemos” as peças?

No caso dos museus que ainda não pensaram nas questões da acessibilidade a pessoas com deficiência visual, a verdade é que uma visita autónoma para este público não é possível. Talvez por isso oiçamos muitas vezes depoimentos como: “Mas eles não vêem.” ou “Nunca aqui entrou uma pessoa com deficiência visual.”

No entanto, já muitos espaços museológicos perceberam que, se implementarem recursos de acessibilidade, o número de visitas incrementa com estes novos públicos. Público, esse, que até então não se sentia bem-vindo e que, agora, por conta destes recursos, já tem curiosidade de visitar museus e participar mais na actividade artística, de forma autónoma. Contribuindo, assim, para o incremento da sua educação e presença nas actividades sociais e culturais que temos para oferecer.

Irei referir algumas vezes a palavra “autonomia”. A meu ver, é isso que se pretende, uma maior autonomia no acesso às artes.

Até há poucos anos, o que acontecia quando chegava uma pessoa com deficiência visual a uma bilheteira? Começava o exercício de “desenrascar”. O museu, de forma célere, mas sob pressão, tinha de arranjar uma solução para que a pessoa não se sentisse excluída. Então, muitas vezes, era pedido a alguém do serviço educativo que fizesse uma visita personalizada e adaptada com a ferramentas de que dispusesse. Esta boa vontade é de louvar. Mas será realmente a solução? A pessoa com deficiência visual deverá depender da boa vontade? Ou deverá ter o direito a ter acesso à mesma experiência que o restante publico? É responsabilidade da pessoa com deficiência ter de se fazer acompanhar por um amigo ou familiar para que essa pessoa lhe passe as informações básicas expostas? Ou é responsabilidade do museu estar munido de todos os recursos para providenciar a todo o seu público a mesma visita? Quererá o museu incrementar o seu público e incluir nele a possibilidade da diversidade, a possibilidade da acessibilidade?

Sabemos dos constrangimentos financeiros mas sabemos também que quando há vontade existem inúmeras opções de se iniciar o processo de mudança.

Então, façamos o exercício de nos colocarmos no lugar do outro e pensemos sobre o assunto. Gostaríamos de nos sentir excluídos de uma visita ao museu? Visita essa que deve ser prazerosa e uma actividade que se pretende regular? Acredito que ninguém deva ser excluído quando existem soluções. Iniciemos, então, este processo de mudança com vista à inclusão e equidade.

Existem inúmeros recursos de acessibilidade que devem caminhar juntos. Mas irei centrar-me na audiodescrição.

Como implementar o recurso de audiodescrição em espaços museológicos com exposições permanentes?

Muitos museus apostam na tecnologia e nos aparelhos de audio e videoguia (O videoguia é extremamente útil para a inclusão da Língua Gestual Portuguesa para as pessoas com deficiência auditiva). Nestes casos aquilo que defendemos é que se acrescente uma segunda faixa de som, para além do audioguia geral, com o recurso de audiodescrição.

Nas informações gerais do audioguia o museu explana acerca dele, sua construção, sua origem, seu propósito, acerca de cada peça ou conjunto de peças, suas histórias e curiosidades, proveniência, e outras informações úteis que se devem receber aquando a visita a um museu. Na faixa de audiodescrição o público ficará a saber exactamente como é a arquitectura do museu e / ou sala, como é a peça, onde ela está exposta, suas dimensões e formas, cores e outras informações visuais. Com a junção do audioguia geral e da audiodescrição o público com deficiência visual sairá da visita com a informação equiparada à do restante público.

Chegará inserir a audiodescrição no aparelho de audioguia? Não. Concerteza que não. Devemos pensar também em colocar piso podo-táctil para facilitar a locomoção de forma autónoma, devemos pensar em inserir tabelas em braille e permitir que algumas obras possam ser tacteadas e/ou produzir réplicas da obra (no caso de esculturas ou obras tridimensionais) ou impressões em relevo (no caso de obras planas como pinturas ou gravuras) para serem tacteadas.

Como implementar o recurso de audiodescrição em espaços museológicos com exposições temporárias?

Muitos espaços museológicos contam com exposições temporárias, que mudam a cada trimestre ou quadrimestre. Neste caso, o museu pode optar por adquirir os aparelhos de audioguia e a cada nova exposição serão inseridas as novas faixas de audioguia geral e de audiodescrição. Ou o museu pode optar por visitas presencias com audiodescrição. Nestas visitas nós trabalhamos sempre com o serviço educativo e temos vindo a comprovar que este é o formato de visita mais completa.

Recordemo-nos que a audiodescrição só audiodescreve a obra. Ela não explana acerca da obra. Assim, a visita inicia-se com a audiodescrição de cada obra seleccionada e, após a audiodescrição, o serviço educativo fará a sua parte, a de se debruçar sobre a obra e comunicar o que pretende sobre ela. Também, sempre que possível, usamos as impressões em alto-relevo e tacteamos as obras passíveis de ser tacteadas. No caso de se tactear a obra usamos umas luvas de espessura fina que previnem a contaminação da gordura dos dedos na obra.

Nestas visitas acontece o audiodescritor ter, também, como função a de guiar a pessoa com deficiência visual pelo espaço e colocá-la de frente para a obra, substituindo, assim, o piso podo-táctil. Refira-se, no entanto, que esta substituição só acontece em visita guiada presencial. Excluindo as marcações para visita guiada com o recurso, o museu não tem disponível nem a audiodescrição nem a plena locomoção no espaço.

Nos últimos anos trabalhámos com as duas formas de implementação do recurso de audiodescrição em museus: a inserção da audiodescrição numa faixa secundária de audio nos aparelhos de audioguia e a visita guiada presencial com audiodescrição.

Cada museu é um museu e a proposta de implementar o recurso de audiodescrição deve ser pensada, ponderada. Devemos estudar as melhores soluções em equipa, junto da equipa do museu, da equipa de audiodescrição e de uma equipa de pessoas com deficiência visual.

Nunca chegaremos a agradar a todos. Mas podemos trabalhar para incluir o maior número de pessoas possível na experiência de visitar um museu.

Fonte: PATRIMONIO.PT 

A revolução da representatividade no mundo dos quadrinhos

Isabella Botelho

No Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos, saiba mais sobre a representatividade na arte

“Eu só quero que vocês saibam que a Marvel sempre foi e sempre será um reflexo do mundo que vemos da nossa janela. Esse mundo pode mudar e evoluir, mas uma coisa que nunca irá mudar é o jeito que contamos nossas histórias de heroísmo. Essas histórias tem espaço para todos, independentemente de seu gênero, religião ou cor da sua pele”, afirmou Stan Lee em um vídeo de outubro de 2017. A mensagem do autor e executivo da Marvel, morto em outubro de 2017, foi um tipo de resposta aos fãs que protestavam contra o crescente espaço dado a temas como inclusão e diversidade nos quadrinhos da editora.

Para o bem ou para o mal, o universo da cultura pop está em constante mudança. Por conta disso, o surgimento de algumas polêmicas é parte natural desse processo. Essa situação ocorre por vários motivos como, por exemplo, a dificuldade do público em aceitar algo diferente do tradicional. Um dos primeiros temas a serem abordados e que gerou polêmica para os fãs de quadrinhos foi a representatividade feminina.

Segundo a pesquisa Geek Power 2020, realizada pelo Omelete Company em parceria com a Mindminers, 63% da comunidade geek é composta por homens. Esse resultado aponta para uma velha afirmação de que o universo geek é machista, o que justifica a atitude reacionária de alguns ao verem minorias serem representadas nos quadrinhos. No entanto, a representatividade não parece ser uma brisa passageira, ela veio para ficar e tem tomado cada vez mais espaço.

Cultura e nacionalidade

Tanto a Marvel quanto a DC apostam em personagens provenientes de diferentes partes do mundo. Isso ajuda a trazer à tona diferentes culturas que não são retratadas costumeiramente, como é o caso do povo romani, por exemplo.

Na Marvel, temos a Feiticeira Escarlate como representante dos romani, assim como seu irmão, Mercúrio. A dupla também tem uma origem judia por serem filhos de Magneto. A Ásia também está bem representada com Blindspot (chinês), Armor (japonesa) e Amadeus Cho (coreano). A América Latina é o continente de origem de diversos personagens como Ventania (venezuelana), Motoqueiro Fantasma (mexicano), Inferno (colombiano) e Mancha Solar (brasileiro). A representatividade africana fica por conta de Tempestade (queniana) e Pantera Negra. Cheyenne e Apache dão voz à cultura indígena.

Já na DC, o Asa Noturna representa o povo romani. O Lanterna Verde, por sua vez, um dos personagens mais famosos da editora, é afro-americano. Miranda Tate é descendente de chineses e árabes. Batwoman representa a comunidade judaica. Atom (chinês), Katana (japonesa) e Linda Park (coreana) são os personagens de origem asiática.

Sexualidade e identidade de gênero

Representar diferentes sexualidades tem sido um tanto quanto recente por parte da indústria das HQs, no entanto, aos poucos as empresas conseguiram inserir personagens que representam a realidade da comunidade LGBTQI+. No caso da Marvel, a bissexualidade é representada por Daken, filho de Wolverine. Seus poderes envolvem ferormônios e sedução, os quais ele já usou para despertar o interesse de homens e mulheres. Wiccano, filho da Feiticeira Escarlate, e Teddy Altman, filho do Capitão Marvel, são referência na Marvel quando se trata de homossexualidade. Eles têm um relacionamento e já até mencionaram noivado. No entanto, o primeiro e até hoje principal personagem gay da Marvel foi o Estrela Polar, criado na década de 70. Deadpool, um dos principais personagens da editora é pansexual e também se enquadra na comunidade.

A DC não fica atrás e também aposta muito na diversidade. A editora aborda a assexualidade, falta de atração sexual por qualquer pessoa, através da personagem Tremor. Já a intersexualidade, variação de caracteres sexuais que inclui cromossomos ou órgãos genitais que dificultam a identificação de um indivíduo como totalmente feminino ou masculino, é representada pelo Cavaleiro Brilhante. A editora também criou Lee Serrano, um personagem não-binário, que não se identifica nem como homem e nem como mulher.

Doença e deficiência 

Na Marvel, o Gavião Arqueiro traz a representatividade aos deficientes auditivos. Já Mercúrio é portador de transtorno de personalidade limítrofe, um padrão de comportamento anormal caracterizado pela instabilidade nos relacionamentos interpessoais. Um personagem bem famoso é o Demolidor, que é deficiente visual. Já na DC, a representatividade dos deficientes auditivos cabe ao Flautista, enquanto o Doutor Meia-Noite representa os deficientes visuais. Além, é claro, da Bat-Girl, que combate o crime em uma cadeira de rodas.

Fonte: Mercadizar

I Workshop “Acessibilidade em Bibliotecas para Pessoas com Deficiência Visual”

 

Na semana do dia do bibliotecário (12 de março), a Divisão de Pós-Graduação e Pesquisa, por meio de sua Biblioteca Especializada José Álvares de Azevedo (BEJAA), oferecerá o I Workshop de “Acessibilidade em Bibliotecas para Pessoas com Deficiência Visual”. Serão oferecidas 20 vagas para bibliotecários, estudantes de biblioteconomia e funcionários de bibliotecas em geral, preenchidas por ordem de chegadas das inscrições.

O evento pretende ser um espaço para, sob a luz da legislação vigente, discutir os principais avanços e desafios na implantação de unidades de informação acessíveis no país. Ao longo das discussões, os ministrantes apresentarão aos participantes os principais recursos de acessibilidade disponíveis para usuários com deficiência visual, além de noções de Orientação e Mobilidade e orientações gerais para o relacionamento e o atendimento de pessoas com deficiência visual em bibliotecas.

As inscrições são realizadas por meio do link: https://docs.google.com/forms/d/1I0vFOre20FgdJ8giT_DvvVC5b1GI7kP3V0_BhI2Xvqk/viewform?edit_requested=true

Para mais informações, acesse: https://drive.google.com/file/d/1EEnQs1T2wWEamJ0hMso0wlBRCiYEuzUR/view?usp=sharing

O Workshop é gratuito e com certificação.

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As fontes de informação, de diversas instituições pelo mundo, reunem centenas de milhares de publicações, a maioria das quais avaliadas por especialistas da área

Saiba como você pode tornar a web mais acessível

Ariel Bentes

Conheça a “Cartilha de Acessibilidade na Web” da W3C Brasil e saiba como proporcionar uma internet mais acessível

O Google Chrome anunciou que fará descrições de imagens que não possuem rótulo de identificação, possibilitando que deficientes visuais ao usarem leitores de tela ouçam uma descrição da imagem que está sendo apresentada na tela do computador ou smartphone.

(Arte: Mercadizar)

Apesar desta iniciativa, inúmeros sites no Brasil e no mundo ainda não proporcionam acessibilidades para pessoas que são portadoras de alguma deficiência. De acordo com o manifesto do movimento “Web para Todos”, a acessibilidade digital “é uma série de recursos que possibilita a navegação, a compreensão e a interação de qualquer pessoa na web (independentemente de suas dificuldades), sem ajuda de ninguém”.

Pensando nisso, em novembro de 2014 a World Wide Web Consortium (W3C Brasil), grupo que desenvolve padrões para a web, com o apoio do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) e do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (Nic.br), lançou o primeiro fascículo (publicação editada em cadernos) da “Cartilha de Acessibilidade na Web”, que tem como objetivo explicar como funciona a web e orientar os cidadãos sobre a importância de se preocupar e investir nesta área.

Segundo o fascículo 3 da cartilha denominado, “Conhecendo o público-alvo da acessibilidade na Web”, a tecnologia assistiva são produtos, equipamentos ou serviços que promovem a funcionalidade de algo para pessoas com deficiência, sendo um dos principais meios de inclusão desses cidadãos na web. Além disso, você, comunicador, pode tomar algumas medidas em seu trabalho que também proporcionem essa acessibilidade como, por exemplo, incluir textos alternativos nas imagens do perfil do Instagram e Facebook.

Deficientes visuais fazem a sua leitura na web por meio de leitores de tela, mas essa tecnologia não consegue ler imagens e gráficos. Desde de 2018, o Instagram lançou uma opção dentro da própria plataforma que possibilita que seus usuários adicionem textos alternativos nas imagens do seu perfil. Além disso, você pode aderir em posts do Facebook e do Twitter a hashtag #PraCegoVer, descrevendo cores, frases e elementos que estão presentes na publicação.

Em casos de vídeo nos stories, também é possível escrever de forma resumida ou na íntegra o que está sendo dito. Visando incluir deficientes auditivos, faça um texto claro e objetivo e o inclua nas laterais dos stories. Uma outra alternativa é sempre incluir legendas em português nos vídeos do Youtube, Instagram e outras plataformas.

Abaixo, conheça seis leitores de tela e veja como eles funcionam:

Jaws: leitor de tela pago para Windows

Virtual Vision: leitor de tela pago para Windows

NVDA: leitor de tela gratuito para Windows

Window-Eyes: software pago para Windows

Orca: leitor de tela gratuito para Linux

VoiceOver: leitor de tela para IOS que acompanha os dispositivos da Apple

segundo fascículo da cartilha, “Benefícios, Legislação e Diretrizes de Acessibilidade na Web” pontua alguns benefícios que iniciativas de acessibilidade podem trazer para a sua empresa:

Melhoria da imagem da empresa e fortalecimento da marca

Empresas com responsabilidade social possuem uma boa imagem perante ao público. Quando um site se torna acessível, se estabelece um valor agregado a marca e possibilita que mais pessoas com deficiência tenham conhecimento sobre a sua empresa.

Fidelização de usuários e clientes 

As pessoas que têm dificuldades para acessar a web, devido algum tipo de deficiência, tornam-se clientes fiéis e visitantes frequentes dos sites que lhes oferecem facilidade de acessos.

O que evitar:

Páginas na web com excesso de elementos: os usuários de leitores de telas, por exemplo, só podem começar a ler uma página quando o último elemento for carregado. Logo, as barreiras de acesso são prejudicadas pela desorganização e repetição de itens numa mesma página.

Texto alinhados à esquerda e à direita: Isso cria espaços irregulares entre as palavras, podendo dificultar a leitura para muitas pessoas. Os espaços irregulares criam falsas pausas na leitura, o que é um problema para pessoas com dificuldade de compreensão.

Texto e links pequenos: Todos os textos de uma página devem ter um tamanho suficiente para permitir a boa leitura pela maioria das pessoas. Além disso, deve ser possível aumentar o tamanho de todos os textos utilizando os recursos do navegador. Pessoas com deficiência física enfrentam dificuldades em comandos com pouco espaço para seleção.

Cuidado no uso das cores: Evite usar somente cores para transmitir uma mensagem aos usuários. Por exemplo, ao indicar que algo está certo ou errado em um formulário, além do verde e do vermelho, inclua símbolos e rótulos que indiquem esta informação, viabilizando uma melhor leitura para pessoas daltônicas.

Para Tim Berners-Lee, fundador da World Wide Web, o poder da web está em sua universalidade. Além disso, de acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Brasil, 45 milhões de pessoas declaram ter alguma deficiência no país, representando 23,9% da população. Dessa forma, é necessário entender que a acessibilidade na web é uma questão de boa prática e você precisa fazer parte dos profissionais que conhecem e querem proporcionar a acessibilidade.

*Informações da “Cartilha de Acessibilidade na Web”.

Fonte: Mercadizar.com

Primeiro Dicionário Jurídico de LIBRAS do Brasil está online

TRADUÇÃO LIBRAS  Já está disponível no site do Poder Judiciário de Santa Catarina o primeiro Dicionário Jurídico de Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) do Brasil, fruto de uma parceria entre a Fundação Catarinense de Educação Especial (FCEE) e o Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC). O acesso ao Dicionário ocorre através de uma plataforma online no site do TJSC contendo vídeos com traduções em LIBRAS de termos jurídicos básicos e pode ser acessado clicando neste link ou diretamente no site do TJSC nos perfis Cidadão, Advogado e Servidor.

Desde que a proposta de colaboração entre as duas instituições teve início, em agosto de 2015, a FCEE, através do Centro de Capacitação de Profissionais de educação e de Atendimento às Pessoas com Surdez (CAS), passou a realizar pesquisas junto à comunidade surda brasileira para a definição e/ou criação dos sinais em LIBRAS que integrariam o dicionário.

No dia 16 de outubro de 2017, no auditório da FCEE, ocorreu uma cerimônia em que as duas instituições assinaram o convênio que deu início à produção do dicionário. Os vídeos que compõem o Dicionário foram produzidos e gravados pela equipe do CAS entre 2017 e 2019.

A FCEE, através do CAS, é responsável por promover a acessibilidade e a difusão da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), garantindo assim o acesso às informações e a participação efetiva dos surdos na sociedade preservando seus direitos.

Fonte: FCEE – Fundação Catarinense de Educação Especial

IBM é premiada com óculos que exibe texto para deficiente auditivo

Texto por Redação Hypeness

Até 2050, o número de pessoas que sofrem com surdez e problemas de audição no mundo pode aumentar de 466 milhões para 900 milhões, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Para atender esta demanda, Leoncio Huamán Peredo, da International Business Machines Corporation (IBM), utilizou a inteligência artificial de IBM Watson para desenvolver Vision D, um óculos que permite às pessoas com deficiência auditiva visualizar em texto o que está dizendo seu interlocutor, sem perder o contato visual e sem necessidade de usar linguagem de sinais. Demais, né?

A invenção foi batizada de Vision D e consiste em um pequeno visor que se adere a qualquer par de óculos e permite projetar as frases e palavras em tempo real graças ao serviço Watson Speech to Text que roda na nuvem pública da IBM.

O dispositivo utiliza algoritmos de deep learning da IBM para gerar o texto por meio da comunicação por cabo a um microprocessador, sendo projetado em uma tela dentro do bloqueio do sistema ótico, que pode ser colocada em quaisquer óculos.

“Na minha vida, tanto acadêmica como profissional, participo de muitos grupos de trabalho e congressos com uma grande diversidade de talentos. Em alguma dessas oportunidades me chamou a atenção a dificuldade que tinham os participantes com deficiência auditiva para poder manter o mesmo nível de interação nas conversas e apresentações. Isso foi o que me motivou a criar uma ferramenta que possa ajudar na inclusão dessas pessoas, para que suas limitações auditivas não sejam um obstáculo em suas vidas”, diz Leoncio Huamán.

Ele conta ainda que, durante os testes e desenvolvimento da Vision D, trabalhou com a Associação de Jovens e Adolescentes Surdos do Peru, o que me permitiu desenvolver uma ferramenta capaz de atender realmente às suas necessidades.

Ao usar Vision D, uma pessoa com deficiência auditiva pode acompanhar mais facilmente qualquer conversa sem perder o contato visual com as pessoas, que podem ou não saber linguagem de sinais. Além disso, pelo uso de mensagem de texto ser tão frequente entre a comunidade com problemas de audição, os usuários de Vision D também podem optar por receber o texto de seus interlocutores através de mensagens.

O código de programação de Vison D está à disposição da comunidade de desenvolvedores em open source, para que possam melhorar ergonomicamente o modelo da tela, receber atualizações e propostas para potencializar as capacidades do visor.

Leoncio foi reconhecido com o prestigioso prêmio ‘Inovadores com menos de 35 anos’ concedido pelo MIT Technology Review, do Instituto Tecnológico de Massachusetts. O prêmio reconhece sua contribuição em questões humanitárias, tendo usado a tecnologia para solucionar problemas causados pela deficiência, através de uma solução econômica para as pessoas com perda auditiva parcial ou total.

“Estou muito feliz em receber este prêmio que me permitirá melhorar o Vision D em benefício das pessoas com problemas auditivos que não contam com recursos para comprar um implante coclear ou contratar um intérprete de linguagem de sinais”, concluiu Leoncio Huamán.

Sobre os prêmios Innovators Under 35

Criada em 1999, ‘Innovators Under 35’ é a maior comunidade mundial de inovadores, pioneiros e agentes de mudança social no mundo. Seu objetivo é descobrir e apresentar tecnologias as mais criativas, inspiradoras e revolucionárias, assim como os jovens que as possibilitam.

Na América Latina, a comunidade já conta com mais de 250 jovens. Inovators Under 35 LATAM é a plataforma mais potente para promover os jovens que trabalham em tecnologias que serão motores de mudança para o bem-estar e a economia.

O programa conecta as mentes mais brilhantes com especialistas de alto nível nacional e internacional que contribuem para o desenvolvimento e transformação de suas ideias em empresas de sucesso. O evento de premiação acontecerá no dia 30 de janeiro de 2020, quando os 35 inovadores menores de 35 anos viajarão para a Cidade do México para receberem o prêmio. A cada ano, a convocatória é organizada pelo MIT TR e a consultora de inovação Opinnon.

Fonte: Hypeness

Biblioteca em SP promove a inclusão de pessoas em situação de rua

Estima-se que entre 20% e 25% do público da Biblioteca de São Paulo seja composto por pessoas em situação de vulnerabilidade. A maioria vai ao local para acessar computadores e ler jornais e revistas

Imagem ilustrativa

Diogo Rossali, 33, costuma ir à Biblioteca de São Paulo (BSP), localizada no Parque da Juventude, em Santana, na Zona Norte da cidade, sempre que tem tempo livre.

O hábito de leitura de Diogo pode ser considerado incomum. Ao contrário da maioria dos brasileiros, ele lê mais de um livro por semana e raramente é intimidado pelo número de páginas.

Natural do Rio Grande do Sul, Diogo chegou a São Paulo há um ano e meio, sem conhecer nada nem alguém que o apoiasse. Assim, acabou indo para o Centro de Acolhida Zachi Narchi.

Por estar próximo da biblioteca, a assistente social do albergue indicou o local para Diogo, que desde então realiza visitas frequentes ao espaço.

“Pra mim, a biblioteca é como a minha segunda casa. Eu passo o dia inteiro aqui, e isso me distrai dos meus problemas. Quando eu tô aqui, com um livro para ler, eu esqueço e consigo me distanciar. Sem o livro tudo volta”.

Diogo abandonou sua casa no Rio Grande do Sul devido a problemas familiares. “Eu praticamente fugi de lá. Estava com depressão”.

Rossali lê, em média, um livro de 300 páginas em dois dias. Sem restrições de gênero ou autor, é através do título que ele escolhe o que lerá.

“Tenho muitos livros favoritos que descobri aqui. Mas meu favorito é As Crônicas dos Mortos, do Rodrigo de Oliveira. Me fez querer comprar a série toda”, conta com um sorriso no rosto.

O período mais longo que Diogo ficou longe da biblioteca foi quando trabalhou no McDonald’s. “Por seis meses, não deu pra vir. Folgava só nas segundas-feiras, e aí a Biblioteca estava fechada”.

Desempregado, Diogo segue na busca por uma oportunidade de trabalho. “Mas é aquela história, quando percebem que é de albergue já olham diferente”.

Apesar dos desafios, Diogo enxerga a biblioteca como seu porto seguro. “Gosto daqui. Me traz uma paz como a que eu tinha em casa, perto da natureza. Sinto saudades, mas não dá para voltar”.

A construção de laços

A história de Diogo acabou se entrelaçando com a de Wellington Custodio, atendente da BSP. Devido à situação de vulnerabilidade, Diogo acabou perdendo um dos livros que pegou emprestado.

No entanto, ele não informou a nenhum dos funcionários do espaço, pois não teria como repor o material. Wellington percebeu que Diogo frequentava a BSP quase que diariamente e não levava nenhum livro.

“Resolvi me aproximar dele. Começamos a conversar e questionei o porquê de ele não levar nenhum livro. Então ele contou. Expliquei que não tinha problema, e liberamos o cadastro”.

Depois disso, as conversas se tornaram mais frequentes, e se estabeleceu uma relação de confiança entre eles.

“Com o tempo, vamos os conhecendo melhor e acabamos criando um vínculo também. Eles chegam e perguntamos como eles estão, e eles também querem saber sobre nós”, comenta o atendente.

Wellington nunca havia interagido frequentemente com pessoas em situação de vulnerabilidade, e logo foi aprendendo que o diálogo é fundamental para a aproximação.

“Boa parte deste público tem uma resistência. Eles ficam meio fechados no início, mas, quando você quebra essa barreira, eles percebem que a biblioteca é um espaço deles também”.

Há 7 anos na biblioteca, Wellington já abordou e ouviu as histórias de muitas pessoas, mas teve uma que o marcou especialmente.

“Esse é um público que precisa de um espaço de escuta, em que possa falar e ser ouvido. Eles são carentes deste espaço”.

A equipe notou que um dos frequentadores estava dormindo no espaço e, ao abordá-lo, descobriu que o albergue em que ele estava na região foi fechado, e ele não conseguia dormir na rua, devido à insegurança.

“Eu nunca tinha conversando com ele antes, mas ele frequentava o espaço havia bastante tempo. Ele falou para mim que sabia que o espaço não era para dormir, mas que ele estava sem opção enquanto aguardava surgir uma nova vaga no albergue”.

Wellington esclareceu que não haveria problema. “Ele sumiu por um tempo, mas algumas semanas atrás ele voltou, e falou que conseguiu a vaga no albergue e estava trabalhando. É bom quando eles voltam só para nos contar coisas assim”.

A biblioteca como um espaço de inclusão

Diariamente, antes de a Biblioteca de São Paulo abrir, forma-se uma fila do lado de fora. A fila tem, principalmente, pessoas em situação de rua – albergadas ou não – que querem garantir uma vaga para usar o computador.

“Temos um número limitado de computadores, então eles retiram uma ficha e os que não conseguem assim que chegam precisam esperar”, conta a superintendente da BSP, Sueli Motta.

Todos os usuários têm direito a duas horas diárias nos computadores. Alguns utilizam o tempo para falar com os familiares, enviar currículos ou para assistir a filmes e vídeos no Youtube.

“A proposta da biblioteca, quando ela foi inaugurada ainda em 2010, era atuar pela inclusão. Então não segmentamos os grupos. Temos um olhar de acolhimento para as pessoas em situação de vulnerabilidade”, explica Sueli.

Inspirada em modelos observados na Colômbia e no Chile, a BSP funciona como uma “biblioteca viva”, ou seja, que preza pela interação e o acesso à cultura.

Esse modelo é aplicado tanto na BSP quanto na Biblioteca Parque Villa-Lobos (BVL), na Zona Oeste da cidade. Ambas são administradas pela organização sem fins lucrativos SP Leituras.

“Aqui em Santana, a biblioteca acabou sendo abraçada e ocupada pela comunidade ao redor. Estamos em um parque e próximos do Centro. É um local de fácil acesso e que acolhe essas pessoas”, aponta Motta.

Ao longo dos anos de funcionamento, a equipe da biblioteca foi trabalhando para atender as necessidades do público em situação de vulnerabilidade social.

A interação possibilitou o surgimento de oficinas de montagem de currículo, auxílio para preencher formulários online de vagas e até atividades de escuta.

Através da área de serviço social da SP Leituras, funcionários realizam mensalmente uma atividade de acolhimento.

“Chamamos pessoas que estão na fila para utilizar os computadores ou em outros espaços das bibliotecas para formar uma roda e compartilhar suas histórias por meio de dinâmicas”, conta a assistente social da SP Leituras Maria Eulália Borges.

Ela ressalta que as dinâmicas são abertas para todos os usuários, mas há uma busca por pessoas em situação de vulnerabilidade.

“Esse é um público que precisa de um espaço de escuta, em que possa falar e ser ouvido. Eles são carentes deste espaço”.

Além dos computadores, a maioria do público em situação de vulnerabilidade costuma utilizar o espaço para ler jornais, revistas ou quadrinhos.

“Eles participam muito, leem muito e já nos disseram que a biblioteca ajuda a mantê-los longe da rua, das drogas”, Conta Maria Eulália.

O objetivo do espaço é integrar todos os públicos, promovendo o diálogo entre grupos distintos. A assistente social cita o exemplo de uma participação em um ‘Luau’, espécie de sarau que ocorre às quintas-feiras na BSP.

“Há algum tempo, uma pessoa em situação de rua participou de um ‘Luau’, e ele foi lá e cantou uma música que o marcou muito. Agora ele vem toda semana para participar e se junta com o pessoal da ETEC aqui do lado”.

A equipe da SP Leituras estima que entre 20% e 25% de seu público seja composto por pessoas em situação de vulnerabilidade.

“Não temos como ter um controle efetivo. A pessoa precisa da carteirinha apenas para o empréstimo do livro. Ela pode, tranquilamente, se quiser, passar pelo espaço, sentar e apenas ler”, conta a superintendente da biblioteca, Sueli Motta.

Ela ainda aponta que entre os que fazem a carteirinha para ser tornarem sócios, há os que costumam evitar dar o endereço do albergue ou contar que estão na rua.

“Aqui eles não se sentem discriminados. Se precisam de orientação para algum serviço, nós oferecemos. O espaço é deles também”.

Serviço

A Biblioteca de São Paulo e a Biblioteca Parque Villa-Lobos funcionam de terça a domingo, das 9h30 às 18h30.

Fonte: Observatório do 3° Setor

Governo de SP abre concurso para acessibilizar bibliotecas públicas

Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência recebe projetos até dia 30

Do Portal do Governo

Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência recebe até o dia 30 deste mês projetos de bibliotecas públicas do Estado de São Paulo interessadas em acessibilizar seus acervos. As selecionadas vão receber equipamentos de tecnologia assistiva capazes de assegurar o acesso à leitura para pessoas com deficiência visual.A ação faz parte do programa São Paulo + Inclusão Bibliotecas, que tem como parceiro o Fundo de Interesse Difusos (FID) da Secretaria da Justiça e Cidadania. Juntas, as secretarias já entregaram equipamentos para mais de 60 bibliotecas públicas.

Os interessados em participar devem indicar em formulário específico como pretendem aprimorar os serviços bibliotecários para as pessoas com deficiência e qual estratégia será utilizada para divulgação dos novos serviços com foco no público com deficiência visual.

As bibliotecas vencedoras receberão kits compostos pelos seguintes equipamentos: scanner leitor de mesa, linha braile e computador.

O formulário deve ser preenchido no link http://bibliotecas.sedpcd.sp.gov.br e as propostas, os anexos digitalizados e assinados, devem ser enviados para o e-mail spmaisinclusaobibliotecas@sedpcd.sp.gov.br ou encaminhados pelo correio.

Biblioteca Municipal conta com acervo para pessoa com deficiência visual

Interessados podem ler no local ou realizar empréstimos do material

A Biblioteca Pública Municipal Professor Tobias Rodrigues conta com um acervo 451 obras destinadas a pessoas com deficiências visuais, sendo composto por livros em Braille e audiolivros.

Os interessados podem ler no local ou realizar empréstimos mediante ao cadastro. A biblioteca se situa na avenida Tamoios, 1.685; e atende de segunda à sexta-feira das 7 às 17 horas.

Atualmente, o acervo em Braille conta com 240 exemplares, que são facilmente encontrados no saguão da biblioteca. Além destes, ainda há 211 obras em e-books/audiolivros, que podem ser encontradas em CDs expostos no final da sala de estudos.

De acordo com o bibliotecário Tarciso Vieira Mendes, as obras do acervo destinado a pessoas com deficiência visual seguem as mesmas regras de empréstimos dos demais exemplares, sendo necessário o cadastro.

“Para se tornar um usuário cadastrado da biblioteca e realizar o empréstimo das obras, basta comparecer ao local munido de documento com foto e comprovante de residência. Para cadastro de menores de 16 anos é exigida a presença do responsável legal. A partir deste cadastro, o usuário receberá uma carteirinha, que permitirá a realização de empréstimos”, informou.

A bibliotecária Valentina Terezinha Machado destacou que cada usuário cadastrado pode levar até três itens (entre livros, audiolivros ou DVDs) em empréstimos que podem durar até sete dias (DVDs podem ser emprestados por até três dias); e pode ser renovado se estiver dentro do prazo e se o material não estiver reservado à outra pessoa.

Ela ressalta que os empréstimos devem ser feitos com a apresentação da carteirinha.

“Os livros deste acervo ficam logo na entrada da biblioteca, facilitando o acesso e localização das obras. Este espaço foi criado em 2014, reunindo doações da população e da fundação ‘Dorina Nowil para Cegos’. Atualmente, o acervo é composto por obras de literatura clássica de escritores estrangeiros e nacionais”, disse.

O secretário municipal de Cultura, Duda Gimenez, salientou a importância de oferecer alternativas para o acesso democrático à cultura. Ele também destacou que a inclusão possibilita que pessoas com deficiências tenham oportunidades de contato com a cultura e arte.

“O acesso à cultura e às artes devem ser o mais democrático possível, pois estes elementos são fundamentais para o crescimento e desenvolvimento da sociedade. Este acervo já tem mais de 5 anos e conta com centenas de exemplares que podem ser lidos, estudados e emprestados, fomentando a inclusão de pessoas com deficiência visual no acesso a obras clássicas de literatura”, apontou.

“Sabemos que a inclusão e a cultura é um dos pilares para o progresso da sociedade. A presença de livros destinados a deficientes visuais demonstra que nossa biblioteca apresenta recursos para os diversos públicos da nossa cidade. Convido a população para conhecer e usufruir dos recursos oferecidos pela Biblioteca Pública Municipal”, destacou.

O prefeito Caio Aoqui enfatizou a importância de Tupã contar com um acervo com acessibilidade e convidou a população para conferir as obras da Biblioteca Municipal.

Recursos oferecidos pela biblioteca

A biblioteca conta com acervo de livros infantis; estante com os títulos recomendados e destaques, além dos principais jornais locais e nacionais e revistas. Além do saguão, há também uma sala de leitura no interior da biblioteca.

As instalações ainda oferecem outros recursos para pesquisas, como internet via wifi para os usuários realizarem buscas e estudos, e o Acessa Livre, onde há computadores em que os usuários podem usar por até 1 hora, podendo se estender por mais tempo caso não haja fila de espera.

Atualmente a biblioteca conta com mais de 10 mil usuários cadastrados e um acervo com 32.733 obras, sendo estas: 822 DVDs, 240 livros em Braille, 211 e-books/audiolivros e 31.460 livros. Além de acesso a revistas, jornais e os principais periódicos locais, e nacionais.

A consulta aos itens presentes no acervo pode ser feita clicando aqui.

Fonte: Tupãense Notícias

Tecnologia da Informação como propulsora para Acessibilidade

O que define a palavra acessibilidade? Se não uma via de duas mãos, aonde cada um pode ir e voltar por ela. Pensar em acessibilidade é aceitar que o mundo pode ser igual para todos. Mas quando falamos de igualdades em um mundo contemporâneo, surge a palavra “utopia”, e como Eduardo Galeano definiria a utopia é a mesma forma que defino e penso sobre a acessibilidade. “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”. A acessibilidade se encontra no mesmo padrão, não só como uma utopia que nos faça andar, mas que também não deixe nosso lado humano inerte perante as nossas capacidades de fazermos um mundo diferente.

Acessibilidade é uma das formas de andarmos em um movimento contínuo para o caminho do horizonte, do futuro, e principalmente, de um universo aonde as pessoas com deficiência (PCD), os estrangeiros, as pessoas leigas de tecnologia, possam encontrar nessa palavra um alicerce para poderem também usufruírem dos benefícios da tecnologia. Quando pensamos nessa via de duas mãos, não podemos deixar de acreditar que a acessibilidade não é somente uma ação voltada a um grupo, a uma minoria, mas sim um movimento que nos gira para o caminho de nos encontrarmos no mesmo ponto no final de tudo.

Pensando no retrato contemporâneo do Brasil, hoje segundo o censo do IBGE 2010, existem mais de 45 milhões de pessoas com alguma “necessidade especial”. Esses números equivalem a população da Argentina, ou da Espanha, ou a um quarto da população brasileira que muitas vezes é negligenciada. Ao falarmos em âmbito global de acessibilidade ainda inserimos os idosos, os estrangeiros, entre outras pessoas, que contém algum tipo de limitação com objetos na realidade, ou no mundo virtual.

Falar sobre acessibilidade não é apenas tornar-se locutor de um discurso repetitivo, cansativo, ou idealista de um mundo que muitos não pensam que exista. Falar de acessibilidade é usar a frase de Heidegger “vir a ser”, criar a palavra alemã dazein (existência) dentro de si mesmo para compreender e poder habitar esse universo particular de cada um.

Pensando em um mundo digital acessível hoje, temos as diretrizes de base da WCAG 2.1 como a forma de programar e construirmos; sites, aplicativos, tecnologias que sejam adaptadas ao mundo acessível para todos os sujeitos. A criação da WCAG (Web Content Accessibility Guidelines) se fez necessária quando a W3C percebeu a necessidade de padronizar questões de acessibilidades dentro das páginas web. A WCAG, não visa apenas criar padrões de acessibilidade para pessoas com necessidades especiais, mas sim para pessoas que necessitam de um mundo digital mais fácil de ser acessado. Logo, a WCAG com o seu desenvolvimento pensa em pessoas com autismo, TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), pessoas com necessidades especiais, estrangeiros, idosos, pessoas leigas no mundo das tecnologias, etc. Por isso, a acessibilidade é uma mão de duas vias, pois por muito tempo a palavra “acessibilidade” era usada somente para as pessoas com alguma limitação física, diferente de como ela é visualizada hoje, que é para todos poderem acessar as mesmas informações, os mesmos prazeres, as mesmas situações e as mesmas experiências.

O trabalho de acessibilidade no mundo digital é analisar os sites, os aplicativos, as tecnologias e ver se elas são baseadas nas diretrizes da WCAG e se as mesmas seguem os níveis de critério de acessibilidade A, AA e AAA. Baseadas nos 4 (quatro) princípios que são eles; perceptivo, operável, compreensível e robusto. Nesse ponto, os Q.A de acessibilidade visam analisar se um site e/ou um aplicativo está seguindo essas normas supracitadas. No ponto perceptivo são analisadas as informações que são percebidas pelas pessoas com necessidades especiais, se há alguma diferença entre o que uma pessoa percebe, e como ela será transmitida para a pessoa com necessidade de acessibilidade. O ponto operacional está ligado a como a pessoa poderá operar dentro dessas tecnologias caso necessite do uso de tecnologias assistivas para obter informações. O compreensível está ligado a forma que os textos estão sendo passados para o usuário. E o robusto está ligado a forma de programação dos códigos e o quanto eles estão adaptados para o uso de tecnologias assistivas.

Nesse caso, o Q.A de acessibilidade, irá analisar por exemplo; se não existem indicativos de click na imagem ao lado para acessar o conteúdo; ou click aqui nessa imagem para continuar; click na flecha ao lado (e ser só um ícone). Caso exista uma informação desse gênero, é observado um bug no campo de acessibilidade, pois pessoas com dificuldades visuais não irão perceber essa informação. Da mesma forma caso contenha dentro da página, ou dos aplicativos, partes que não são navegáveis por teclado, dessa forma o sujeito não consegue operar dentro da página e obter as informações. Outro ponto, são as mensagens “click aqui para acessar” formatação em modelo de um texto e um link abaixo. Pessoas com autismo poderão clicar no local indicado e não usarão o link que está abaixo, ou que se encontra ao lado, por não compreenderem o significado da informação. Outro exemplo é o texto “seu dinheiro voando do seu bolso para a sua carteira”, esse tipo de texto figurativo pode ser prejudicial para pessoas com autismo, pois trazem um significado para aquela pessoa da qual ela não consegue compreender com as suas limitações cognitivas. Citamos; o autista acreditará que o dinheiro dele realmente irá voar do seu bolso para a sua carteira. Outro ponto a ser analisado é em relação a como os códigos são escritos; se cabeçalhos são formatados como cabeçalhos; links como links; botões como botões; se o wai-aria (Web Acessibility Initiative) é usado da forma correta para fornecer acessibilidade para o site; se as normas da W3C para criação de sites são usadas ou se o HTML 5 está bem escrito sem erros de programação.

Nesse ponto, a acessibilidade vem com as boas práticas de criação de páginas web e aplicativos, afim dê fazer com que os programadores possam construir da forma mais simples possível, pois assim conseguirão tornar as informações acessíveis para alguém com alguma deficiência, ou pessoas idosas, estrangeiros, etc.

Hoje em dia existem várias formas de trabalhar com acessibilidade, desde trabalhos individuais até formatos de trabalhos em dupla, para poder auxiliar a pessoa com alguma necessidade especial dentro de seus testes. Atualmente trabalhamos com o formato de acessibilidade em duplas, sendo uma pessoa com limitações visuais e uma pessoa vidente (que enxerga) para auxiliar um indivíduo com partes do teste que podem acabar não sendo observadas pelo testador. Um desses exemplos, são os testes de contraste, para ver se as cores usadas dentro do aplicativo e/ou da página web, são compatíveis com as diretrizes de acessibilidade da WCAG. O vidente também é responsável por analisar e passar o conteúdo da página web, ou do aplicativo para o usuário com a limitação visual, para que ele possa testar se o software de tecnologia assistiva está informando-o sobre esses elementos dentro da página. Logo, o trabalho em companhia é efetuado para ajudar o desenvolvimento dos testes de uma forma mais adequada. Os videntes também usufruem de uma ferramenta “axe” para que possam analisar páginas web com uma certa agilidade “automação de análise de códigos” HTML para encontrar bugs. Mas a pessoa com dificuldades visuais também tem a obrigação de analisar os conteúdos e o código escrito para ver se ele está se adaptando a forma correta de escrita.

Na questão de abertura de bugs, hoje existem várias formas de abri-los. Entre elas, o uso da ferramenta “jira” para abrir, movimentar, fechar histórias, subtestes, abrir subbugs e criar uma interação entre o desenvolvedor e o analista. A ferramenta é usada por pessoas com dificuldades visuais, contendo uma usabilidade pelos leitores de tela, podendo assim facilitar o contato entre o profissional e o desenvolvedor, para conseguir agilizar os processos. Também existem formas de planilhas para criar os bugs e enviar para os “Devs”, para que os mesmos possam usá-las como suporte de correção dos bugs de acessibilidade. Na abertura de um bug a funcionalidade é a mesma que um Q.A funcional, deve descrever o título para aquele bug, criar uma descrição sobre como o comportamento acontece para que o desenvolvedor possa simular e compreender também o defeito.

Muitas vezes quando falamos de acessibilidade digital, de testes de acessibilidade as pessoas pensam que o teste é o mesmo que o funcional, ou que se testa da mesma forma. Nesse pensamento há uma crença disfuncional, a qual se pensa que acessibilidade está nos mesmos padrões de testes funcionais. Entretanto, as normas da WCAG, não seguem um padrão de testes funcionais, mas sim uma análise sobre o quanto um site está sendo acessível para as pessoas.

Como todas as áreas a acessibilidade digital também passa pelo mesmo dilema de automação. Hoje existem muitos Q.A de acessibilidade que acreditam, que pode existir uma forma de automação digital, enquanto no outro campo, a briga se mantém sobre a questão da validação dos testes, que são diferentes das validações hoje obtidas pela automação. Hoje a automação tem a visão de construir robôs que possam simular a experiência do usuário dentro dos sites, afim dê comprovar se as funcionalidades da página estão corretas. Todavia, a análise de acessibilidade não segue o padrão de validar a funcionalidade, mas sim, se um link está com descrição, se um botão flutuante é acessível a um usuário de leitor de tela, analisar se o usuário consegue navegar por dentro da página sem ser prejudicado e se consegue ter as informações que o outro está obtendo. Logo, a automação em acessibilidade, é um campo vasto, pensativo, questionável, por não se enquadrar no contexto em que vivemos sobre a automação.

Mas de outra forma, a automação nos últimos tempos vem ganhando seu espaço dentro do mundo da acessibilidade com ferramentas que fazem a validação de códigos HTML, para informar se um site está seguindo os padrões. Podemos citar como exemplo de ferramentas; o Google “ligthhouse”, além do “axe” que vão analisar e validar os códigos dentro da página web. No mundo mobile são poucas as formas de conseguir criar uma automação, pela questão da validação de códigos.

Por outras vias, com o advento do uso do python dentro do Brasil, um Q.A de acessibilidade criou uma biblioteca de automação chamada “Yris” que trabalha com a análise de códigos, a validação do leitor de telas, a validação da experiência e o funcionamento de um ciclo dentro das páginas web. Essa ferramenta se encontra em desenvolvimento, mas promete uma grande mudança no mundo dos testes de acessibilidade digital, pois ela tem como foco analisar a experiência do usuário e não só a questão da usabilidade do site. A biblioteca de automação criada em python, hoje, já consegue fornecer alguns feedbacks voltados a testes visuais e não visuais de acessibilidade.

Observamos que a caminhada pela nossa “utopia” cada dia se encontra mais avante, pois como as tecnologias se desenvolvem, muitas vezes elas não são pensadas nas pessoas com alguma limitação de acesso as mesmas. Por isso, acredito que a acessibilidade é um caminhar infinito, pois quando se pensa que o mundo é acessível, é quando nos acomodamos sobre o que realmente é acessibilidade no dia-a-dia. Não podemos deixar com que o mundo dessas 45 milhões de pessoas no Brasil seja um retrato esquecido dentro da história, mas temos que sim nos tornarmos sujeitos responsáveis por esse fenômeno de mudança.

Parafraseando Rubem Alves com a metáfora de Søren Kierkegaard “não podemos deixar com que a acessibilidade se torne a história do dançarino que acreditava que voava, mas que somente pulava muito alto”. Na história, o dançarino pulava em alturas inimagináveis, e arrancava aplausos da plateia, mas todos riam quando ele falava que voava, pois ele não voava, mas sim apenas conseguia pular muito alto. Não podemos deixar com que a acessibilidade se torne essa metáfora, quando falarmos que o mundo é um lugar acessível, e os outros que necessitam darem risada do que é dito. Pelo contrário, não podemos imaginar o que não existe, mas sim temos que dar o nosso melhor e acreditar que a acessibilidade é uma ação dinâmica e que precisa estar em movimento, pois a tecnologia sempre se encontra em mudança, e a acessibilidade digital deve sempre andar ao lado dessas inovações.

Giovanne Bertotti, analista de Testes na Yaman e psicólogo clínico no Espaço Catarse

Fonte: TI Inside

Conheça 5 bibliotecas acessíveis no Brasil

A Biblioteca Estadual Benedito Leite, em São Luís (MA), é a segunda biblioteca mais antiga do Brasil. Dona de um amplo acervo de manuscritos, obras raras e jornais maranhenses, a biblioteca, além de tudo, é acessível: grande parte de sua coleção foi digitalizada, com muitas obras em braile; seu piso é tátil e o prédio conta com diversos recursos tecnológicos assistivos.

53% das bibliotecas públicas brasileiras conta com recursos de acessibilidade, segundo a Pesquisa Nacional de Acessibilidade em Bibliotecas Públicas da organização Mais Diferenças, publicada em 2015. O estudo diagnostica a dificuldade das instituições de adquirir tecnologia assistiva, reformar sua estrutura ou ainda capacitar os funcionários.

Livros em braille, mobiliário acessível e funcionários capacitados são alguns dos requisitos para tornar as bibliotecas acessíveis / Crédito: Fundação Dorina Nowill

“Tem todo um conjunto de aspectos para que uma biblioteca seja considerada inclusiva, e, só quando ela é o é, pode ser considerada pública, para todas e todos. Para além da questão arquitetônica, quando uma pessoa com deficiência entra no prédio, ela encontra livros acessíveis, funcionários capacitados? Uma pessoa surda consegue se comunicar, a contação de histórias funciona para uma pessoa cega?”, questiona Wagner Santana, coordenador técnico da Mais Diferenças.

Uma série de marcos legais garante que espaços culturais como bibliotecas devem ser acessíveis para todos, seja no ingresso, na permanência ou no aproveitamento de seus equipamentos. Uma delas é a Lei 10.098/2000, conhecida como a Lei da Promoção de Acessibilidade.

O Portal Aprendiz selecionou 5 bibliotecas acessíveis que redesenharam suas atividades para torná-las mais inclusivas; adaptar o acervo ou paramentar seus funcionários na língua de sinais são apenas alguns dos exemplos do que é possível para tornar as bibliotecas espaços de convívio igualitário.

Biblioteca Parque Villa-Lobos (SP)

Referência em acessibilidade na capital paulista, a Biblioteca Parque Villa-Lobos foi desenhada para ser inteiramente inclusiva: seu mobiliário, seus espaços de acesso comum, banheiros e dependência são totalmente acessíveis. Para além da arquitetura, seu acervo está em braile, com audiolivros e computadores modificados. A biblioteca é uma das parceiras da Fundação Dorina Nowill.

Biblioteca Pública Estadual do Amazonas (AM)

Com mais de 100 anos e localizada no centro histórico de Manaus, a Biblioteca foi reformada para garantir o acesso inclusivo de seus frequentadores e frequentadoras: escritas de sinais e em braile estão dispostas ao longo dos andares da biblioteca, além de facilidades tecnológicas como lupas especiais ou folheadores automáticos. Romances de Carolina de Jesus e Jorge Amado, bem como obras raras amazonenses também se tornaram acessíveis.

Biblioteca Estadual do Amazonas modificou sua estrutura para se tornar acessível / Crédito: Casa do Braille

Com mais de 50 anos de atuação, o Setor Braille da Biblioteca Estadual de Minas Gerais é uma referência em acessibilidade no país. Mais de 1.600 obras compõem o acervo, que também conta com exposições mediadas para o público com deficiência visual e o Cine Braille, que é a exibição de filmes acessíveis.

Em parceria com o extinto Ministério da Cultura (MinC), a Mais Diferenças trabalhou na implementação de acessibilidade em 10 bibliotecas estaduais em todo o Brasil no programa Acessibilidade em Bibliotecas Públicas. Confira o trabalho desenvolvido no site da organização.

Biblioteca Pública Estadual Dr. Isaias Paim (MS)

Responsável por um acervo de livros braile, com audiodescrição, e uma coleção de filmes acessíveis, a biblioteca espraia suas práticas de acessibilidade para o território; ela promove atividades em escolas públicas, levando seus objetos e acervo. Também recebe em seus centros de formação educadores interessados em expandir suas práticas inclusivas.

Biblioteca Estadual Benedito Leite (MA)

Uma das primeiras bibliotecas públicas a digitalizar a maior parte de obras raras, a biblioteca é uma referência em acessibilidade. Seus funcionários receberam um curso técnico em comunicação básica de libras e cursos de políticas públicas de acessibilidade. A biblioteca ainda conta com diversos recursos tecnológicos assistivos, como impressora braille, lupa eletrônica e livros em libras.

Fonte: Portal Aprendiz

Biblioteca virtual da Pearson fica acessível para cegos

Plataforma tem mais de 3 milhões de usuários e 8 mil títulos disponíveis em diferentes áreas

A Pearson, uma dos maiores grupo de de educação do mundo, atualizou e tornou sua biblioteca virtual acessível para pessoas com deficiência visual. O acervo conta com mais de 8 mil títulos.

A atualização ainda é aliada no combate às fake news, já que permite compartilhar citações e trechos dos livros digitais em conversas de WhatsApp e postagens no Twitter e no Facebook.

Crédito: Zlikovec/iStock – Plataforma tem mais de 3 milhões de usuários e 8 mil títulos disponíveis, de diferentes áreas

O acervo de e-books disponíveis para mais de 3 milhões de assinantes inclui novas soluções de estímulo à leitura, como o acompanhamento de metas para páginas lidas por dia, semana ou mês. A atualização ainda conta com o Cartão de Estudo que marca conceitos e até mesmo cria jogos de perguntas e respostas.

“Todos os usuários podem criar games para eles próprios. A gamificação em conteúdos educacionais é uma forma de reter o conhecimento”, conta Rafael Furtado, vice-presidente de ensino superior do grupo no Brasil.

Atualmente, a biblioteca abriga 26 editoras, em diversas áreas de conhecimento. Mais do que disponibilizar os livros digitais, os parceiros também poderão incluir na nela novos conteúdos como resenhas e dicas.

A solução da Pearson está presente em mais de 400 instituições de ensino superior.

Lançada há quase 15 anos, a biblioteca virtual é ideal para aqueles que estão constantemente buscando se desenvolver.educação.

Disponível em: https://catracalivre.com.br/quem-inova/biblioteca-virtual-da-pearson-fica-acessivel-para-cegos/ . Acesso em: 8 jan. 2020.

Fonte: Mundo Bibliotecário

Acessibilidade Digital: por que o futuro tem tudo a ver com inclusão?

Marcelo Pires, sócio-diretor da Neotix Transformação Digital

Texto por Marcelo Pires

Imagine que você é uma mãe com uma criança de colo e precisa pagar uma fatura do banco. Assim que abre o aplicativo pelo celular, a ferramenta exige que você vire o aparelho na diagonal. Difícil, não? Agora, pense que seu smartphone está com a tela rachada e você precisa clicar em um botão bem onde está a falha. Podemos ir além: e se você perdesse a visão de um dia para o outro e precisasse de um leitor de telas para utilizar o computador?

Falar em acessibilidade significa ter empatia, colocar-se no lugar do outro – não como um gesto de bondade, mas reconhecendo no outro alguém como você, que precisa se comunicar, estar conectado com o mundo e ter as mesmas oportunidades. E mesmo sabendo que, uma em cada sete pessoas no mundo possui algum grau de deficiência, acessibilidade digital não é só para esse grupo de pessoas, como você já deve ter percebido.

O artigo 63 da Lei Brasileira de Inclusão, instituída em julho de 2015, diz que os sites devem ser acessíveis para todos. Entretanto, um levantamento realizado pela BigData Corp, empresa especializada em Big Data, e o Movimento Web Para Todos (MWPT), apenas 1% dos domínios que estão ativos no Brasil são compreensíveis para grupos com deficiência.

Mesmo com essa obrigatoriedade, boa parte das empresas ainda é resistente à implementação de projetos de acessibilidade. Os motivos são variados, mas, de modo geral, existe um consenso de que essa tarefa é mais difícil (e cara!) do que é realmente. Na verdade, se apenas seguirmos os princípios básicos da programação, já estaremos bem adiantados, mas há algumas diretrizes em que podemos nos basear, como é o caso das WCAG (Web Content Accessibility Guidelines).

Quer um bom exemplo de tecnologia inclusiva e que pode inspirar muitos projetos? O YouTube Kids. Com interfaces conversacionais, imagens de fácil identificação e mecanismos de busca intuitivos, até uma criança que ainda não aprendeu a ler sabe procurar e encontrar o que quer na plataforma.

É importante lembrar que o conceito de acessibilidade deve fazer parte de todo o planejamento de conteúdo e programação em todos os canais de comunicação que a companhia irá disponibilizar. Não adianta pensar no assunto somente na fase final, exigindo uma reformulação de diversos setores.

Outra medida simples é elaboração das heading titles, que hierarquizam as informações. Mesmo para quem não possui nenhuma deficiência, a hierarquização da informação permite compreender o conteúdo de uma maneira mais fácil. Para deficientes visuais, por outro lado, isso ajuda os leitores de tela. Com uma simples alteração na programação, é possível incluir a descrição do link no próprio link, como por exemplo “clique aqui para fazer o download do e-book”. Pense no quanto você estará facilitando a vida de quem navega pelo seu site. Além de, claro, isso ser ótimo para dar mais relevância para o seu site nas ferramentas de busca.

Não se esqueça de que há potenciais consumidores atrás das telas que esperam ter a melhor experiência no seu site. Torná-lo mais acessí