Tipografias

História da tipografia franciscana em Jerusalém em mostra online

Capela da Ascensão no Monte das Oliveiras, Jerusalém (AFP or licensors)

O objetivo da iniciativa é de apresentar alguns dos textos que fizeram parte da biblioteca da oficina franciscana de tipografia, agora conservados no fundo “Franciscan Printing Press” da Biblioteca Geral de Custódia da Terra Santa em Jerusalém.

“A pequena biblioteca do tipógrafo. Livros, prontuários e manuais das prateleiras da tipografia franciscana de Jerusalém” é a mostra digital disponível na Biblioteca da Custódia da Terra Santa, desde terça-feira, 19.

Em exibição, manuais e prontuários que serviam ao trabalho da Franciscan Printing Press, criada em 1847 pelos Frades Franciscanos Menores da Custódia.

Trata-se de obras indispensáveis ​​para os monges-tipógrafos, que diariamente se deparavam com problemas técnicos e gráficos, como a manutenção das máquinas ou mesmo a dificuldade em encontrar caracteres.

O itinerário da exposição, relata a Custódia da Terra Santa, está dividido em sete seções: após uma introdução histórica e um texto de Steinberg, que descreve os eventos de difusão da imprensa, é possível admirar manuais tipográficos, textos sobre impressoras, esboços e amostras, livros sobre gráfica e encadernação.

Organizada por Pierfilippo Saviotti, a exposição faz parte do projeto “Livros Pontes de Paz” do Centro de Pesquisa Europeu “Livro-Editora-Biblioteca” e da Universidade Católica do Sagrado Coração de Milão, em colaboração com a ONG Pro Terra Sancta e a Biblioteca Geral de Custódia da Terra Santa.

O objetivo da iniciativa é de apresentar alguns dos textos que fizeram parte da biblioteca da oficina franciscana de tipografia, agora conservados no fundo “Franciscan Printing Press” da Biblioteca Geral de Custódia da Terra Santa em Jerusalém.

A tipografia franciscana nasceu oficialmente em 14 de julho de 1864, graças ao apoio do padre Sebastian Frötschner e fr. Barnaba Rufinatscha, enviados pelo Comissariado da Terra Santa de Viena. Eram os tempos do Império Otomano e os franciscanos tinham necessidade de uma gráfica própria para difundir sem nenhum tipo de dificuldade gramáticas ou catequeses dirigidas ao povo local, em um contexto não cristão.

A “tipografia dos PP. Franciscanos” tinha sede no Convento de São Salvador, mudando posteriormente seu nome para” Franciscan Printing Press” e mudando-se para a Betfage, onde está localizada até hoje. Outra sede, a “Edições Terra Santa” está localizado em Milão. (TC)

Fonte: Vatican News

O naturalista pioneiro que saiu na defesa das florestas

A história de Frei Veloso, missionário, tipógrafo e cientista, é contada em novo livro da Editora da USP

Texto por Leila Kiyomura

Gravura em água forte de João José Jorge no livro impresso pela Tipografia do Arco do Cego, dirigida por Frei Veloso – Reprodução/livro Frei Veloso e a Tipografia do Arco do Cego

A importância do naturalista e franciscano José Mariano da Conceição Veloso na história luso-brasileira e das suas múltiplas funções no campo dos estudos científicos e editoriais em prol do estudo da botânica está no livro Frei Veloso e a Tipografia do Arco do Cego, lançamento da Editora da USP (Edusp). Organizado por Ermelinda Moutinho Pataca e Fernando José Luna, leva o leitor a conhecer as reflexões e o trabalho do mineiro de São João del-Rei, que nasceu em 1742. Passados 208 anos de sua morte, o leitor se depara com um pesquisador dos tempos de hoje, que transita por várias áreas do conhecimento para defender a conservação das “matas brasílicas” em um recado para o rei dom João VI.

Frei José Mariano da Conceição Veloso é bastante conhecido por seus estudos botânicos, especialmente pela elaboração da Flora Fluminense e, nos últimos anos, também como diretor da Tipografia do Arco do Cego, em Lisboa”, explicam os organizadores Ermelinda e Luna na introdução do livro. “Além dessas funções, o frade franciscano exerceu diversas atividades a serviço do Estado, que revelam suas múltiplas habilidades e o importante papel político que exerceu junto à Corte de Lisboa.”

O projeto do livro surgiu de dois seminários e uma exposição, em 2011, para homenagear Frei Veloso nos 200 anos de sua morte. Uma programação que foi elaborada por grupos de pesquisadores do Rio de Janeiro e São Paulo na Pinacoteca do Estado de São Paulo e no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. “Este livro apresenta os resultados desses eventos que divulgaram as diversas facetas do personagem, reveladas em diálogos interdisciplinares de pesquisadores estrangeiros e brasileiros que se dedicam ao entendimento das políticas econômicas e sociais associadas às artes, às ciências e à história editorial no período”, observam os organizadores.

Naturalista e pesquisador, Frei Veloso estudou as plantas das matas brasileiras – Reprodução/livro Frei Veloso e a Tipografia do Arco do Cego

Sem livros não há instrução”, afirmou Frei Veloso

Duas espécies de falsas quinas, do livro Quinografia Portuguesa, de Frei Veloso – Reprodução/livro Frei Veloso e a Tipografia do Arco do Cego

Frei Veloso e a Tipografia do Arco do Cego, que chega em boa hora, é um convite à leitura, em tempos de urgência de estudos sobre a identificação de plantas e sobre o futuro de nossas florestas”, observa Alda Heizer, pesquisadora convidada do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, que assina a orelha do livro. “Além disso, a publicação ressalta uma grande preocupação de Veloso: ‘Sem livros não há instrução’, afirmação que demonstra, de forma definitiva, a atualidade de sua obra e atuação.”

Dividido em quatro partes, os artigos compõem a trajetória do naturalista em suas diversas funções. Os organizadores Ermelinda Moutinho Pataca e Fernando José Luna esclarecem: “Na primeira parte, tratamos do contexto histórico e social, demarcando a complementaridade entre as políticas econômicas e a formação da elite ilustrada luso-brasileira. Em um segundo momento, pensamos na atuação de Frei Veloso nas ciências e no fomento às artes, demarcando aproximações entre a história da arte e da ciência. Em seguida, desvelamos o perfil do frei Veloso editor, especialmente por meio da criação da Tipografia Calcográfica, Tipoplástica e Livraria do Arco do Cego, e debatemos a história do livro e da imprensa. Por fim, abordamos a circulação dos saberes na atuação de Veloso como tradutor e mediador cultural.”

Recado ao rei dom João VI

Mas eu, Senhor, que nasci no Brasil, e que nele estive mais de 40 anos, que vi e pisei três das suas mais notáveis capitanias, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e o governo do Espírito Santo, não posso ser insensível à acertada resolução de Vossa Alteza, quando promove a conservação das brasílicas matas: portanto devo pôr na presença de Vossa Alteza as reflexões a que me obrigam as minhas viagens botânicas.”

Nessa epígrafe, que está em sua obra O Fazendeiro do Brazil, de 1798, frei José Mariano da Conceição Veloso se apresenta ao rei dom João VI. “Buscamos aqui compreender a formação e atuação de Frei Veloso como naturalista, viajante e missionário franciscano no período em que esteve no Brasil, de 1742 a 1790, quando formou seu imaginário brasileiro e criou novas concepções teóricas, metodologias de viagens científicas e técnicas de história natural”, esclarece Ermelinda Moutinho Pataca, que é professora da Faculdade de Educação da USP.

A professora ressalta que os interesses de Frei Veloso não se restringiam ao estudo das plantas. “Pesquisou também os animais, preparando coleções de insetos, conchas, peixes e animais marinhos, quando a expedição percorreu a costa da capitania. Essas coleções, dispostas em 70 caixas, permaneceram com o naturalista no Rio de Janeiro e só foram para Lisboa em sua companhia, em 1790, quando o frade se mudou para o reino acompanhando Luís de Vasconcelos e Souza.”

Uma tipografia que imprimia obras selecionadas

O livro sobre Frei Veloso lançado pela Editora da USP (Edusp) – Foto: Reprodução

A atuação editorial de Frei Veloso é destacada no título do livro. “Era tipografia, pois se tratava de uma gráfica que imprimia obras selecionadas”, esclarece a pesquisadora Edna Lúcia Oliveira da Cunha Lima em seu artigo. “Nela funcionava uma calcografia, ou seja, uma oficina de gravação em metal, na qual trabalhavam gravadores responsáveis pela ilustração dos livros e pela formação de outros gravadores. Completava o quadro de técnicas gráficas a fabricação de tipos móveis a cargo da tipoplastia, o último adendo ao já longo nome da oficina. Todos esses setores estavam a serviço da editora, que fazia traduções e editava textos literários, científicos e técnicos.”

Edna explica que o objetivo da editora era imprimir obras de divulgação técnica e científica. “Foi um projeto iluminista que promoveu em Portugal ações para ampliar o conhecimento de novos métodos e técnicas de exploração de minas, para plantio e aproveitamento de produtos naturais como o tabaco e o bicho-da-seda, tratamento de doenças tropicais, textos sobre matemática, filosofia, literatura, manuais de gravura em metal, enfim, uma plêiade de informações sobre os mais diversos assuntos, a maioria em traduções do francês e do inglês, abordados por estudantes e profissionais brasileiros residentes em Portugal.”

O diretor da tipografia era Frei Veloso e quase todos os colaboradores eram brasileiros de Minas Gerais. “Foi uma atividade extraordinária, pois conseguiu publicar mais de 80 títulos de 1799 a 1801, quando a casa foi incorporada à Imprensa Nacional lisboeta.”

Frei Veloso e a Tipografia do Arco do Cego, de Ermelinda Moutinho Pataca e Fernando José Luna (organizadores), Editora da USP (Edusp), 448 páginas, R$ 60,00.

Fonte: Jornal da USP

Exposição Elvino Pocai: poeta das artes gráficas

A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP recebe de 7 de maio a 21 de agosto a exposição Elvino Pocai: Poeta das Artes Gráficas. “A memória de Pocai e de seus livros se misturam com a história gráfico-editorial brasileira”, diz a pesquisadora Cristiane Tonon Silvestrin, que divide a curadoria da mostra com o professor Plinio Martins Filho.

O público, além de conhecer a trajetória do tipógrafo, poderá ver um recorte de como se apresentava o mercado editorial da época. Assim, a mostra busca ampliar a visão dos visitantes ao colocá-los em perspectiva histórica com os meios de produção da arte tipográfica, método de impressão que sobreviveu por mais de quatrocentos anos.

“A maioria das obras são provenientes do acervo de unidades da USP, o que enriquece a exposição, pois será possível o contato com trabalhos de várias áreas do saber, além de aproximar o visitante do patrimônio da USP sob um recorte editorial”, afirma Cristiane.

Uma das obras mais importantes da exposição, Há uma Gota de Sangue em Cada Poema, 1917, trata-se do livro de estreia de Mário de Andrade, que à época o assinou como Mário Sobral. São treze poemas ilustrados por gotas de sangue em um vermelho vivo.

Esse recurso gráfico foi ideia de Elvino Pocai, segundo as palavras do próprio poeta no jornal Diário Nacional de 29 outubro de 1929: “E como o vício dos versos continuasse, um dia de 1917 resolvi publicar o meu primeiro livro. Fui à tipografia Pocai e às audácias tipográficas do meu amigo Paternostro eu devi todos os pingos de tinta vermelha que simbolizam gotas de sangue em cada poema”.

Sobre Elvino Pocai

Elvino Pocai produziu numa época em que não eram claras ainda as definições conceituais de designer, impressor ou artista gráfico, mas foi um mestre da tipografia que contribuiu para o desenvolvimento das artes gráficas brasileiras na primeira metade do século XX. Apesar de ter nascido na Itália, foi em São Paulo que aprendeu os ofícios de tipógrafo e editor.

Os editores que tinham mais esmero nas edições, com um melhor apuro gráfico, eram os que se destacavam no mercado. Eles não viam o livro apenas como um objeto de consumo, mas também como um objeto de fruição estética para o leitor. Normalmente tinham como referência visual toda a história do livro e das artes, levando em conta edições bem projetadas, ilustradas e acabadas, feitas por mestres gráficos. Nesse contexto e por seu maior desenvolvimento à época, o mercado editorial paulistano foi modelo para o restante do Brasil.

Pocai figurou entre esses hábeis artífices e exerceu um trabalho meticuloso nas obras que imprimia em sua gráfica. Ele mesmo cuidava e criava as vinhetas e as diagramações, ou convocava artistas como Antônio Paim Vieira (1895-1988) para criar para suas brochuras.

Em vida, Elvino Pocai foi muito reconhecido pelo mercado e também pela crítica. Na exposição é possível comprovar a recepção de Pocai no meio editorial, por exemplo, a partir de trechos destacados de periódicos da época. Esses trechos jornalísticos acompanham as obras nas mesas da mostra.

Tal era sua importância na época que o escritor, editor e crítico literário Edgard Cavalheiro (1911-1958) – considerado um dos mais importantes biógrafos de Monteiro Lobato pontuou, dias após a morte do tipógrafo, em sua coluna A Semana e os Livros, no jornal O Estado de S. Paulo:

Pocai era um impressor sui generis. Não se limitava a imprimir. Enfeitava as brochuras com vinhetas, capitulares, aberturas ou fechos de capítulos, com paciência de artista autêntico, de puro artesão. Não admitia o mínimo deslize gráfico. Qualquer manchinha que maculasse o papel, punha-o nervoso, desolado. Preferia inutilizar páginas e mais páginas já prontas, a expor uma mercadoria defeituosa. A marca “Pocai” devia significar, sempre, perfeição. A partir do momento em que recebia os originais, até o empacotamento dos volumes, tudo era acompanhado de muito perto por ele. Os autores podiam dormir sossegados. Pocai faria sempre o melhor. Adorava imprimir trabalhos históricos ou poesia, pois lhe ofereciam melhores oportunidades para decorá-los. (Edgard Cavalheiro, “Pocai: O Artista do Livro” Estado de S. Paulo. São Paulo, 22 dez. 1956. Suplemento Literário A Semana e os Livros).

Serviço

Exposição Elvino Pocai: Poeta das Artes Gráficas

Abertura | 07 de maio – das 16:30 às 18:30h

Visitação| De 8 de maio a 21 de Agosto – das 8h30 às 18h30 (segunda a sexta-feira).

Onde | Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) – Sala Multiuso

Rua da Biblioteca, 21, Cidade Universitária, Butantã, São Paulo – SP

O local possui acessibilidade para cadeirantes.

Quanto | Gratuito

Agendamento de Monitoria | educativo@bbm.usp.br

 

Pesquisa e Inovação Pesquisadora mexicana fala na UFMG sobre o impacto da tipografia na escrita indígena

Além de conferência, Marina Garone vai ministrar minicurso e participará do lançamento da rede latinoamericana de cultura gráfica

O Programa Cátedras Fundep/Ieat recebe, em abril, a professora Marina Garone Gravier, da Universidade Nacional Autônoma do México. Anfitrionada pela professora Ana Utsch, da Escola de Belas Artes, ela permanece na UFMG por uma semana.

A pesquisadora participará de quatro eventos na Universidade. O
primeiro deles será um minicurso de bibliologia no dia 1º de abril, das 14h às
18h, no Laboratório de Conservação-Restauração de Documentos Gráficos e
Fílmicos (LaGrafi), da Escola de Belas Artes. As inscrições devem ser
feitas por meio de correio eletrônico: museuvivomemoriagrafica@gmail. No dia 2, Marina Gravier vai ministrar a conferência Línguas indígenas e tipografia: um desafio para a edição colonial, a partir das 15h, no auditório 1007 da Faculdade de Letras. As inscrições, gratuitas, podem ser feitas por meio de formulário eletrônico. A conferência será em espanhol, sem tradução simultânea.

Estratégias e códigos textuais
A arte da tipografia chega ao Novo Mundo para viabilizar a produção, principalmente de livros em inúmeros idiomas indígenas das Américas. Para publicar essas obras, foi necessário levar a cabo uma série de estratégias técnicas –materiais e mecânicas – e estabelecer códigos textuais. “O trabalho editorial gerou vários processos conceituais, técnicos e econômicos que tiveram impacto direto na consolidação da matéria escrita e da produção impressa de obras em línguas indígenas”, afirma Marina Gravier, que, em sua conferência, vai apresentar casos e evidências visuais de livros impressos durante o período colonial para ilustrar o impacto que a imprensa teve na consolidação das formas escritas das línguas nativas da América.

Marina Garone:
Marina Garone: tipografia e línguas indígenasArquivo pessoal

Marina Gravier participa, no dia 3, a partir das 14h, do lançamento da Rede Latinoamericana de Cultura Gráfica, no Auditório Professor Luiz Bicalho, da Fafich. No mesmo local, a partir das 17h, ela vai falar sobre La importancia del diseño gráfico y la cultura visual en la historia de la edición. Sua estada será encerrada no dia 4, com a participação na mesa-redonda Perspectivas para os estudos editoriais na América Latina, às 15h, no auditório 2001 da Faculdade de Letras. As atividades, gratuitas, não exigem inscrição.

Trajetória
Marina Garone Gravier é doutora em História da Arte, pesquisadora do Instituto de Investigaciones e uma das coordenadoras, junto com a professora Ana Utsch, da UFMG, da Rede Latino-americana de Cultura Gráfica. Delegada da Society for the History of Authorship, Reading and Publishing (Sharp), trabalha com história do livro e da cultura gráfica no México e na América Latina e as relações entre artes gráficas e gênero.

Essa é a segunda visita da professora à UFMG. Em 2014, ela participou do Fórum Patrimônio Gráfico em Movimento, evento bianual realizado em Diamantina. Desde então, tem participado de uma série de colaborações materializadas em publicações e organização de seminários, entre outros iniciativas. Mais recentemente, em 2017, participou da criação da Red Latinoamericana de Cultura Gráfica. A rede é resultado da cooperação da Universidade Nacional Autônoma do México com a UFMG no campo dos estudos sobre a história do livro e a cultura escrita.

Mais informações podem ser encontradas no site do Ieat.

Fonte: UFMG

Na contramão da tecnologia, tipógrafo é exemplo de amor pela profissão

Neste Dia do Trabalhador, a reportagem de O TEMPO conheceu a ‘Tipografia do Matias’, como é conhecida a fábrica, que fica em uma casa, no bairro Santa Efigênia

Matias mesmo faz os consertos das máquinas para o trabalho | Foto: Douglas Magno / O Tempo

O último dos moicanos”. É assim que Ademir Matias de Almeida, de 69 anos, se autodefine. Em meio a máquinas que já saíram de linha, o senhor simpático de barba e cabelos brancos brinca com o fato de ser um dos últimos tipógrafo em exercício de Belo Horizonte.

Neste Dia do Trabalhador, a reportagem de O TEMPO conheceu a “Tipografia do Matias”, como é conhecida a fábrica, que fica em uma casa, no bairro Santa Efigênia, na região Centro-Sul da capital mineira.

Veja o vídeo com o tipógrafo:

Eu sou o bêbado que anda na contramão e pensa: está todo mundo voltando da festa”, brinca Matias ao explicar sobre ainda trabalhar com tipografia em um universo completamente digital.

Antes mesmo do sol nascer, às 4h30, ele já abre as gavetas de  madeiras com os vários tipos – letras ou fontes usadas na tipografia – os separa com cuidado, espera a máquina esquentar e começa a “bater” as letras contra o papel.

Antigamente eu fazia notas fiscais, talões de rifa e lembranças de luto, atualmente eu faço mais convites de casamento, cartões de visita, cartazes e livro. Mudou mais nos últimos 5 do que nos últimos 50 anos”, afirma. 

No extenso galpão, Matias trabalha a maior parte do tempo sozinho e às vezes conta com a ajuda da mulher Eliane Guerra, de 67 anos. Ele lembra que nem sempre foi assim, a fábrica já contou com muitos funcionários, desde que foi aberta, em 1958. Instalada na rua Padre Manoel Rodrigues, a tipografia foi herdada dos pais de Matias.

Eu nasci e cresci aqui, mas foi com 10 anos que eu comecei a mexer nas máquinas, antes disso era trabalho infantil, não é? Hoje as pessoas começam a trabalhar com mais idade, mas naquele tempo com 10 anos eu já estava na tipografia”, diz o tipógrafo em gargalhadas.

Matias diz que, mesmo com toda a modernidade gráfica, ele nunca pensou em mudar de profissão. “Dizem que se você coloca um sapo na água quente ele pula na hora, mas se você o coloca na água fria, ela gosta, de repente a água vai ficando morninha e ele vai gostando e fica lá. Eu sou igual esse sapo com a tipografia. Eu sempre falo essa história do sapo, ninguém nunca contestou, então deve ser verdade, né?!”, conclui ainda com muito bom humor.

A vocação acabou não passando para as duas filhas, uma é economista e a outra trabalha na área de informática, mas mesmo assim o tipógrafo luta para não deixar o ofício morrer. Ele ministra workshops para jovens, que acabaram sendo chamados carinhosamente de “filhos de tipógrafo”.

Foi por meio desses jovens que a reportagem chegou até Matias. No início ele relutou dizendo que estava muito ocupado com um trabalho para o dia seguinte, mas acabou nos recebendo.

Para iniciar a conversa, precisávamos só esperar o momento em que a máquina iria esquentar e ele não poderia realizar o trabalho. Nesse meio tempo ele conseguiria nos falar com calma da sua paixão. A conversa descontraída terminou com Matias nos presenteando mais que com sua história aqui descrita, mas também com textos que tratam da tipografia, claro, tipografados por ele.

OS FILHOS DE TIPÓGRAFO E A BIOGRAFIA NÃO AUTORIZADA

Com o crédito de “filhos de tipógrafo”, os designers gráficos Vitor Paiva, 26, e Gabriel Nascimento, 27, do coletivo 62 Pontos, absorvem os ensinamentos de Matias e tentam manter viva a tipografia. Em um ateliê, também no bairro Santa Efigênia, bem pertinho da fábrica de Matias, eles desenvolvem uma série de trabalhos ligados a tipografia.

Para o Matias a tipografia é um trabalho que deve ser o mais perto da perfeição. Ele é minucioso, qualquer diferença que dá de uma impressão para a outra já o incomoda. Antes de imprimir ele mede tudo certinho para ficar igual a matriz. Já nós temos a tipografia como arte. Se uma impressão sai diferente da outra a gente gosta, essas falhas nos são interessante”, explica Nascimento.

Um dos trabalhos realizados no ateliê é justamente um livro sobre o tipógrafo que será lançado no próximo sábado (5), data em que Matias completa 70 anos. Intitulado “A Fantástica Tipografia do Companheiro Matias”, o livro conta um pouco da história do tutor dos designers. “Nós apelidamos a obra de biografia não autorizada do Matias, por que nós não fomos minuciosos como ele. Cada livro tem um detalhe de impressão diferente e ele não aprova essas falhas”, brinca Paiva.

O livro conta com frases do tipógrafo que divertem os designers. Foram impressos também alguns objetos que fazem parte da história do tipógrafo como vinis, pneus e réguas. Apesar da brincadeira de livro não autorizado, Matias gostou da homenagem e em um vídeo feito pelo 62 pontos ele diz: “Tira a bunda grande ou pequena da cadeira e vem para o lançamento”, convida o tipógrafo.

CURIOSIDADES

Tipografia. Foi inventada por Johannes Gutenberg, no século XV, e na época foi considerada uma grande inovação tecnológica.

Pontos. A tipografia tem uma medida própria que é chamada de pontos. Tudo que tem 62 pontos e ⅔ é passível de impressão. Por isso é possível imprimir pneus e vinis.

Tipos. Os tipos podem ser tanto de madeira quanto de chumbo. Eses últimos são bem pesados. Alguns tipos são mais raros que outros. Tanto que na tipografia do Matias só ele pode colocar as mãos em algumas letrinhas.

Texto por Natália Oliveira

Fonte: O Tempo