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Literatura Infantil

Ícones da literatura infantil invadem o Metrô de SP

As aventuras de Narizinho, Emília e Pedrinho podem ser ouvidas gratuitamente pelos usuários da linha metroviária e por todas as pessoas cadastradas no aplicativo da Tocalivros

Crédito: Divulgação/Tocalivros

Uma menina de oito anos, de nariz arrebitado, que adora jabuticaba e tem como melhor amiga uma boneca de pano falante e divertida. No mês das crianças, nada mais justo do que os personagens mais icônicos da literatura infantil brasileira ganhar os vagões do Metrô de São Paulo. Pó de Pirlimpimpim, de Monteiro Lobato, é o audiolivro gratuito de outubro que compõe o projeto entre a Tocalivros Social, por meio do Clube Digital de Leitura, e a Linha da Cultura do Metrô de São Paulo.

As aventuras de Narizinho, Emília e Pedrinho para desvendar os mistérios do pó de pirlimpimpim podem ser baixadas gratuitamente em audiolivro. Basta fazer um cadastro na plataforma da Tocalivros e resgatar o cupom SERCRIANCA clicando aqui ou apontar a câmera do seu smartphone para o QRCode nos cartazes presentes nas estações da linha 4 amarela da ViaQuatro, que se conecta com as estações do Metrô.

Além dos usuários do Metrô, o audiolivro está disponível para qualquer pessoa cadastrada no aplicativo. Uma ótima oportunidade de aproveitar o Dia das Crianças com muita cultura e entretenimento com os pequenos. 

Leia a matéria completa pulicada pelo ABC do ABC

Dupla de escritoras lança o livro infantil “Que História é Essa?”

Novidade será apresentada em live, nesta segunda

Clarissa Padovani Mussoi e Cintia Rezzadori assinam a obra Foto: Reprodução

Texto por Siliane Vieira

A dupla de escritoras Clarissa Padovani Mussoi (carioca radicada em Caxias) e Cintia Rezzadori (farroupilhense radicada em Santa Catarina), aproveitaram o Dia das Crianças para lançar ao mundo uma novidade dedicada aos pequenos. É o e-book Que História é Essa?, divertida história sobre uma traça que tenta mostrar para um rato as confusões que ele arruma dentro de uma biblioteca. As ilustrações são assinadas por Gloria Brandão.

O lançamento oficial será por meio de live, às 20h desta segunda (12), no www.youtube.com/crb8sp. O e-book pode ser adquirido pelo site da Amazon, ao valor de R$ 16,78. As autoras planejam que Que História é Essa? ganhe formato físico ainda neste mês. Para mais tarde, a ideia é oferecer ainda versões do livro em inglês e italiano.

Fonte: Pioneiro

A literatura infantil no desenvolvimento das crianças

Liu Oubinã é escritora infnato-juvenil

Texto por Eliana Oubiña

As histórias infantis fazem parte das nossas vidas desde os tempos antigos, nos quais elas eram contadas oralmente e passadas de geração em geração. No séc. XVI, surgiram os livros impressos, a partir da imprensa de Gutenberg. Contudo, os primeiros livros para crianças foram produzidos ao final do século XVII, pois antes disso, não se escrevia para elas. Produções literárias para essa faixa etária diferenciada, com interesses próprios e necessitando de formação específica só surgiram em meados da Idade Média, com a emergência de uma nova noção de família, centrada em núcleos unicelulares (pai, mãe e filhos).

Hoje sabemos o quanto a literatura tem a capacidade de alimentar a alma, por isso, é tão importante para as relações pessoais, que haja o compartilhamento da leitura, onde se dá a comunicação de afeto entre pais e filhos. Nesse momento é necessário criar um ambiente adequado e tranquilo; estabelecer um horário; se possível, ter uma variedade de narrativas e; contá-las de uma forma criativa para que a criança e o adulto descubram o leitor que há em todos. Assim tornamos o hábito da leitura algo prazeroso e divertido, que ficará registrado na memória das crianças. Além disso, esse exercício ajuda no desenvolvimento psicológico, amplia o vocabulário e a criatividade, desenvolvendo a linguagem e o pensamento, trabalhando atenção e socialização e tudo isso acontece a partir do momento que ele percebe a si e ao outro, através da leitura.

Leia a matéria completa em A Tarde

LIVRO INFANTIL INÉDITO RESGATA MEMORÁVEIS HISTÓRIAS DA CULTURA DE POVOS AFRICANOS

Obra A África recontada para crianças, de Avani Souza Silva apresenta os contos e fábulas mais famosos de países que falam a língua portuguesa

Texto Victória Gearini

Imagem meramente ilustrativa – Divulgação / Pixabay

Lançado em abril deste ano, o livro A África recontada para crianças, da escritora Avani Souza Silva, constrói uma narrativa cultural com as histórias mais famosas contadas nos países africanos, onde a língua portuguesa é predominante.

Capa da obra A África recontada para crianças (2020) / Crédito: Divulgação / Martin Claret

A brilhante obra, publicada pela editora Martin Claret, tem como ilustradora das imagens Lila Cruz, que por meio de traços belos e caprichados explicita o discursivo linguístico apresentado no decorrer da leitura

O leitor tem diante de si uma obra singular no mercado editorial brasileiro. Esta analogia de contos tradicionais e fábulas recria, com esmero e criatividade, uma fatia importante e representativa das narrativas orais e infantis de países africanos, todos eles pertencentes à uma comunidade da língua portuguesa”, escreveu no prefácio da obra, Marana Borges, jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela Universidade de Lisboa.

Bem humoradas, as narrativas deste livro envolvem lobos, coelhos, leões, e claro, muitas aventuras. Músicas, gastronomia, adivinhas e vestimentas são alguns dos elementos que compõem a cultura de povos africanos, que são minuciosamente apresentados nesta formidável obra.

Acesse a matéria completa em Aventuras na História

Literatura infantil e protagonismo feminino: elas como personagens principais

Texto por Redação

Pedagoga destaca a importância do incentivo à leitura de livros infantis protagonizados por personagens femininas e indica 5 títulos que desenvolvem nas crianças valores e virtudes importantes, como ser guerreira, destemida, curiosa, questionadora e forte. Confira!

Desde sempre os livros são poderosas ferramentas para que o ser humano conheça mais sobre ele mesmo e o mundo ao seu redor. Por isso, a literatura infantil contribui de forma significativa para o desenvolvimento do autoconhecimento, senso crítico, valores morais e virtudes; ou seja, atua na formação da identidade e influencia nas relações com o todo.

Com as crianças isso não é diferente! De acordo com Claudia Onofre, pedagoga e consultora educacional da plataforma Dentro da História, é neste contexto que o hábito de ler se torna ainda mais importante. ‘’A leitura na infância é essencial, pois é a fase onde a criança está construindo o seu ‘’eu’’, formando seus valores, identificando suas virtudes, aprendendo o que é o certo ou errado e como o mundo funciona para assim moldar suas condutas. É neste momento que a criança desenvolve características importantíssimas para o sucesso na vida adulta e em suas relações, seja no âmbito acadêmico, profissional ou pessoal’’, explica.

Nesse cenário é possível compreender quão relevante é mostrar para meninos e meninas o significado dos movimentos atuais, incluindo o cenário onde a mulher luta cada vez mais por espaço e tem cada vez mais voz para ser quem ela quiser, onde quiser. A partir disso, a educadora listou 3 motivos que reforçam a importância da literatura infantil onde ‘Elas’ são as protagonistas.

Acesse a matéria completa em  Embarque na viagem e compreenda a importância da literatura infantil e a representatividade das personagens femininas nela. 

‘O livro de ouro dos contos de fadas’ reúne clássicos da literatura

A edição tem tradução assinada por Monteiro Lobato

O livro reúne alguns dos famosos textos desses mestres em uma edição cuidadosa | Foto: Divulgação

Charles Perrault, Hans Christian Andersen e os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm se tornaram nomes de referência para a literatura infantojuvenil em todo o mundo e criaram histórias que encantam ainda hoje nosso imaginário popular. O livro de ouro dos contos de fadas, da Nova Fronteira, reúne alguns dos famosos textos desses mestres em uma edição cuidadosa, que promete fazer a alegria de leitores de todas as faixas etárias.

Para evidenciar a universalidade e atemporalidade dessas narrativas, artistas brasileiros contemporâneos foram convidados a preparar ilustrações inéditas para o livro, que ganhou ares de item de colecionador. Alexandre Camanho foi o escolhido para transformar em imagens as cenas pungentes de Perrault; Lelis, com suas aquarelas, deu forma ao universo de Andersen; e Renato Moriconi emprestou seus traços aos personagens sombrios dos Grimm. 

Acesse a matéria completa publicada no Em Tempo e conheça mais sobre o livro “O Livro de ouro dos contos de fadas”.

Livros infantis se equilibram entre literatura e educação para falar de assédio sexual

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A escritora Penélope Martins queria que a protagonista de seu livro “Minha Vida Não É Cor de Rosa” passasse pelas experiências habituais das adolescentes. A descoberta da autonomia, o primeiro namorado, a mudança de escola -o primeiro assédio.

Ainda nas primeiras páginas do livro, a garota de 14 anos é abordada por um homem que, dentro de um carro, finge que vai pedir informação e mostra a ela suas partes íntimas.

“Na primeira vez em que fui vítima desse tipo de situação, eu tinha uns nove anos”, diz a autora. “E, se converso sobre esse tema com qualquer grupo, metade das mulheres levanta a mão para dizer ‘eu também, eu também’.”

O livro, que foi premiado pela Biblioteca Nacional no ano passado, é um dos que abraçam o desafio de falar sobre assédio sexual a um público jovem, em um país onde, a cada 15 minutos, uma criança ou adolescente é vítima de violência sexual, segundo dados da Childhood Brasil.

É uma tendência que vem com o avanço do movimento MeToo -vale lembrar que a expressão surgiu numa corrente que buscava escancarar como o abuso é recorrente na vida das mulheres desde a infância e, muitas vezes, fica encoberto em silêncio.

Enquanto a obra de Martins é direcionada a adolescentes, há outras que buscam abordar a questão para crianças. Um deles é “Leila”, do escritor Tino Freitas e da ilustradora Thais Beltrame e que teve colaboração de Elvira Vigna nos primeiros estágios de concepção.

Acesse a matéria completa publicada pelo GaúchaZH e conheça outros livros infantis que tratam do assédio sexual. 

Global Digital Library, una biblioteca digital para llevar libros a todos los niños del mundo

Más de 600 millones de niños no saben leer a pesar de haber asistido a la escuela. Una de las principales razones es que no tienen acceso a recursos de lectura de calidad para esos primeros grados. La biblioteca digital Global Digital Library recoge más de 4.000 libros gratis en 50 idiomas, y los pone a disposición de todo el mundo en la web, en el móvil y para su impresión.

Global Book Alliance está detrás de esta biblioteca digital mundial. Su objetivo es proporcionar acceso a recursos de lectura gratuitos y de alta calidad para los primeros grados en idiomas que los niños utilizan y comprenden. Para finales de 2020 quieren proporcionar recursos de lectura en 100 idiomas, aunque recientemente la Agencia Noruega para la Cooperación al Desarrollo ha anunciado que llegarán a 250 idiomas en un año, siendo su objetivo final el ofrecer libros gratuitos a todos los niños del mundo para el 2030. Por cierto, comentar que la plataforma facilita la traducción y localización de recursos en más de 300 idiomas.

Global Book Alliance es un esfuerzo internacional en el que participan múltiples interesados que trabajan para transformar el desarrollo, la adquisición y la distribución de libros a fin de garantizar que ningún niño se quede sin libros. La misión de la Alianza Mundial del Libro es garantizar que los niños de todo el mundo dispongan de los libros y el material didáctico que necesitan para aprender a leer y leer para aprender.

Además del acceso vía web (ya sea a través un ordenador, tablet o smartphone) a libros e incluso juegos, me gustaría destacar el repositorio de la Global Digital Library en el que hay más de 500 archivos de libros listos para imprimir. Estos archivos incluyen las portadas y contraportadas y todas las páginas interiores con ilustraciones de alta resolución. Actualmente este repositorio está en 23 idiomas, incluidos los idiomas utilizados en varios países de África y Asica, además de su idioma puente, el inglés.

Respositorio para la impresión de libros de la Global Digital Library

Todos los contenidos de esta biblioteca digital están bajo alguna licencia Creative Commons, siendo las principales CC BY y CC BY-SA. Estas licencias impulsan la innovación y la creatividad, incluyendo la reutilización comercial. Además, apoyan firmemente el objetivo general de la Global Digital Library de compartir, traducir y contextualizar los materiales educativos de lectura para los primeros grados, los libros de texto abiertos y los recursos educativos abiertos.

Tres cosas para terminar: (1) Es un magnífico recurso a tener en cuenta para proporcionar lecturas a los peques de la casa, del colegio o de la biblioteca. (2) Muchos libros de esta biblioteca digital son utilizados en la aplicación para aprender a leer que Google ha lanzado: Read Along. (3) He echado en falta los libros con letras en mayúscula para esas primeras lecturas que hacen los peques cuando están aprendiendo a leer.

Fonte: Julián Marquina

Literatura infantil: o mundo de faz de conta

A importância da literatura se dá porque as crianças começam a formar sua leitura de mundo e despertar para rabiscos, traços e desenhos desde muito cedo, conforme as oportunidades que lhe são oferecidas. O meio no qual a criança vive, ou seja, a oportunidade oferecida pela família como pela escola com os livros de literatura infantil, muito contribuem para seu desenvolvimento. Nesse sentido, uma criança que desde cedo escuta estórias contadas pelos seus pais, certamente será um adulto leitor acostumado ao hábito de leitura, terá prazer em ler, sua imaginação e criatividade serão estimuladas a expressar ideias. É bom ressaltar ainda que a literatura infantil oportuniza situações, nas quais as crianças podem interagir em seu processo de construção do conhecimento possibilitando, assim, o seu desenvolvimento e aprendizagem. Além disso, o universo da leitura não deve ser compreendido somente como recurso à alfabetização, mas também, como um instrumento que permite a interpretação e a compreensão daquilo que se lê.

Baseado em Paulo Freire (1997), nós educadores devemos estimular e propiciar ao alcance das crianças os livros infantis, os contos, as poesias, os mitos, as lendas, as fábulas, permitindo-lhes penetrar em seu universo mágico dos sonhos. É o caminho não apenas de sua descoberta, mas também um dos mais completos meios de enriquecimento e desenvolvimento de sua personalidade.

Dessa forma, diferentes habilidades são afloradas por meio da literatura, entre elas a linguagem, contribuindo para a ampliação do vocabulário e incentivando a criatividade e a vivência de mundo do faz conta. Faz-se necessário reconhecer a importância da Literatura Infantil e incentivar a formação do hábito de leitura na idade em que todos os hábitos se formam, isto é, na infância. Neste sentido, a Literatura Infantil é um caminho que leva a criança a desenvolver a imaginação, emoções e sentimentos de forma prazerosa e significativa, haja vista, que nessa fase, a linguagem é a habilidade que as crianças mais desenvolvem, sendo que a interlocução com o adulto favorece esse processo, principalmente quando mediado pela literatura, oferecendo contato com a língua escrita, já que linguagem cotidiana dá acesso à norma padrão da língua.

Ler, contar e ouvir histórias são atividades pelas quais a criança pode conhecer diferentes formas de falar, viver, pensar e agir, além do universo de valores, costumes e comportamentos de sua e de outras culturas situadas em tempos e espaços diversos. Sendo a leitura o caminho mais importante para chegar ao conhecimento, é fundamental que a criança se familiarize com os livros desde o primeiro ano de vida.

Todo bebê nasce apto à fala, um processo natural do desenvolvimento humano, no entanto ninguém nasce leitor. Para que isso aconteça é preciso incentivar o gosto pela leitura desde a creche. Vale destacar que a Educação Infantil tem a responsabilidade de resgatar e organizar o repertório das histórias que as crianças ouvem em casa e nos ambientes que frequentam, uma vez que essas histórias se constituem em rica fonte de informação sobre as diversas formas culturais de lidar com as emoções e com as questões éticas, contribuindo para a construção da subjetividade e da sensibilidade delas.

Sendo assim, ter o acesso à boa leitura é dispor de informação cultural que alimenta a imaginação e desperta o prazer pela leitura. A literatura é essencial ao homem e também à sua formação, pois promove o contato dele com alguma espécie de fabulação.

Torna-se necessário oferecer às crianças oportunidades de leitura de forma convidativa e prazerosa, sendo que neste sentido, a literatura infantil deve desempenhar um importante papel que é o de conduzir as crianças não só à aprendizagem contribuindo para uma escrita sistematizada, mas também oportunizar o desenvolvimento da reflexão e criticidade no aluno, além de permitir que se realize a leitura com fruição, isto é que se sinta prazer ao estar lendo.

Conclui-se diante do exposto acima que é fundamental que cada criança tenha o gosto e o prazer pela leitura, pois essa é uma dimensão essencial na vida de qualquer ser humano. Quando lemos estamos exercitando a mente e aguçando nossa inteligência.

(*) Carla Andressa Santos Muniz, Maria do Carmo Ferreira dos Santos Silva e Josiane de Lana C. Nascimento são professoras da Educação Infantil na UMEI Monteiro Lobato.

Fonte: A Tribuna

“Biblio Live: literatura infantil e brincadeiras como um direito da criança”

Com mediação da coordenadora de Bibliotecas da Secretaria de Cultura de Campinas, Renata Alexsandra, o bate-papo contará com a participação da Biblioteca Pública Infantil Monteiro Lobato e de amigos. Na pauta, trocas de ideias e de experiências sobre importância da literatura infantil e das brincadeiras como direitos essenciais da infância

Fonte: Cultura Abraça Campinas

Direitos da criança e literatura infantil são temas da Biblio Live amanhã

Nesta terça-feira, 19 de maio, às 20h, o Canal Cultura Abraça Campinas transmite mais um encontro “Biblio Live” sobre Literatura – e agora com o recorte infantil. O cenário desse vasto universo, os direitos da criança, as brincadeiras, e as ações da Biblioteca Infantil Monteiro Lobato estarão na roda de conversa.

Segundo a coordenadora das Bibliotecas Públicas da Secretaria de Cultura de Campinas, Renata Alexsandra, o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, lembrado nesta segunda, 18 de maio, será tema de destaque.

A live reunirá, além de Renata Alexsandra (também integrante do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente – CMCA), João Henrique, bibliotecário da Biblioteca Infantil Monteiro Lobato; Flávia Guimarães, pedagoga, projetista educacional, terapeuta social e conselheira do Cultura no Conselho da Criança e do Adolescente; e o pedagogo e contador de histórias, Ulisses Junior.

O público poderá interagir com perguntas.

Serviço

Biblio Live

Papo sobre Literatura Infantil e Brincadeiras como um Direito da Criança

Quando: 19/05, terça, às 20h

Canal  Cultura Abraça Campinas: youtube.com/CulturaAbraçaCampinas

Fonte: Campinas.sp.gov

SESI-SP EDITORA LANÇA COLEÇÃO MONTEIRO LOBATO COM EXCLUSIVIDADE NA VERSÃO EM E-BOOK

Projeto gráfico é da premiada designer Raquel Matsushita; ilustrações são de artistas do Brasil, de Portugal e da ArgentinaA SESI-SP Editora lança a Coleção Monteiro Lobato com exclusividade na versão em e-book. Os primeiros títulos que chegam ao mercado, por meio de uma parceria com a Amazon Brasil, e que já estão em pré-venda, são: Aventuras de Hans Staden, O poço do Visconde, A reforma da natureza, Reinações de Narizinho (vol.1 e vol.2), Viagem ao céu, O saci e Dom Quixote das crianças.

Além disso, multiplicidade de leituras possíveis e tratamento estético são os diferenciais da Coleção Monteiro Lobato preparada pela SESI-SP Editora. Para tanto, o projeto gráfico foi desenvolvido pela premiada e experiente designer Raquel Matsushita. Outro ponto de destaque são as ilustrações feitas por grandes artistas, que contribuem para a leitura infantojuvenil e que apresentam um novo olhar para personagens que continuam a encantar e surpreender os leitores brasileiros de diversas gerações.

Além de ilustradores brasileiros, como Psonha e Eloar Guazzelli, esta coleção tem a participação de ilustradores de Portugal e da Argentina, os quais proporcionam um novo olhar sobre a obra de Monteiro Lobato, já que não haviam sido expostos anteriormente ao imaginário do autor.

Entretanto, Jorge Mateus, José Saraiva, David Penela e Cátia Vidinhas são os ilustradores portugueses que dão vida às obras O poço do Visconde, A reforma da Natureza, Viagem no céu e O saci, respectivamente. Já Anabella López, ilustradora argentina, do título Aventuras de Hans Staden.

Fonte: ABC Repórter 

Coleção de livros digitais homenageia profissionais da saúde

Novo título ‘Super protetores’ é apresentado na coleção literária do Itaú Unibanco

(foto: Itaú Unibanco/Divulgação)

A coleção digital Leia para uma Criança apresenta um novo título infantil. Homenageando os profissionais de saúde, o livro Super protetores busca mostrar a importância dos profissionais da área de saúde na atual situação do país, retratados como os “super-heróis modernos”. Escrito por Jessé Andarilho e com ilustrações de Ivy Nunes, o título se junta a outros 15 livros.

“Em um momento de tantas dúvidas e, no qual as crianças estão fora de sua rotina, longe da escola, professores e amigos, é importante que elas possam entender de alguma forma o que está acontecendo. Falar dos médicos e dos demais profissionais que estão trabalhando com tanta dedicação nos permite levar o tema ao público infantil de forma lúdica, ao mesmo tempo que fazemos uma merecida homenagem”, diz Juliana Cury, superintendente de marketing institucional do Itaú.

Completando 10 anos em 2020, o programa faz parte da ação de incentivo à leitura na primeira infância do Itaú Unibanco e da Fundação Itaú Social. A coleção digital conta com 16 livros e autores renomados como Conceição Evaristo e Fernando Veríssimo. O conteúdo está disponível e pode ser acessado no site e via WhatsApp, enviando uma mensagem para o número (11) 98151-1078. Em formato PDF, os conteúdos podem ser compartilhados com outros contatos e acessados de qualquer smartphone.

Fonte: Correio Braziliense

Rhaiane Leal analisa obra do autor do ‘Sítio do Pica Pau Amarelo’ e comenta sobre o racismo e elitismo inseridos em sua criação literária

Jeca Tatu é um dos personagens mais famosos de Monteiro Lobato que cria a imagem do trabalhador do campo como um ‘homem atrasado’ em sua narrativa
Foto: Divulgação

Texto: Rennan Rebello

Em tempos de isolamento social por conta da pandemia do novo coronavírus (covid-19), a literatura tornou-se, mais uma vez, uma boa companhia durante momentos de tédios causados pela restrição de sair de casa. Além de ser um bom passatempo, os livros também são alicerces de informação para reflexão do atual momento e de uma projeção de sociedade.

Desta forma, a análise de obras se faz necessária a fim de manter diálogo com outros leitores (cidadãos) para a interpretação dos escritos e trajetória de determinados autores. Em São Gonçalo, o trabalho literário do consagrado escritor paulista Monteiro Lobato (1882-1948), um dos ícones do segmento infanto-juvenil no Brasil, foi analisado pela professora de História e revisora de textos, Rhaiane Leal, 25, ainda durante sua graduação na Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FFP/UERJ), no bairro do Patronato.

A análise culminou em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) intitulado como: “Urupês e ideias de Jeca Tatu: Monteiro Lobato e o projeto de identidade nacional no início do século XX” e na dissertação “Nacionalismo militante: uma análise da correspondência de Monteiro Lobato e Artur Neiva (1918-1942)”, no Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio. Neste último trabalho, a pesquisadora encontrou elementos racistas no trabalho do autor do livro ‘O Sítio do Pica Pau Amarelo’.

“Durante a minha monografia eu abordei o Monteiro Lobato por uma perspectiva literária. Seus contos no início do século XX tinham um perfil muito voltado para queixas. Tanto que o seu primeiro de livro, o ‘Velha Praga, de 1914, onde ele reclamava das queimadas do ‘caipira’ no campo, onde adotava o discurso de reclamar sempre do homem do campo com a imagem de atrasado por meio do personagem ‘Jeca’ Tatu’. O Monteiro Lobtato era latifundiário e tinha fazenda no interior de São Paulo e dialogava politicamente com a classe média branca e elitista do país. No entanto, ele criticava o culto ao estilo francês e defendia que o Brasil precisava mudar neste aspecto. Já na minha dissertação, analisei 180 cartas que ele trocou com Arthur Neiva (político brasileiro e ex-secretário de Interior do Estado de São Paulo)e pude analisar o Monteiro Lobato não apenas como um homem das letras mas também como um político. Ele se engajou pela causa do petróleo e a metalurgia além de analisá-lo como empresário. Monteiro Lobato  passou a escrever livros para crianças porque percebeu que era lucrativo mas escasso no mercado”, explicou Rhaiane que teve experiências em sua infância e seu trabalho como agente de leitura como influências para sua pesquisa acadêmica referente ao escritor de Taubaté.

“O Monteiro Lobato sempre esteve presente na minha infância. Eu conheci sua obra através da TV Globo, em 2002, e me encantei com a fantasia em torno do ‘Sítio do Pica Pau Amarelo’. E eu associava ao bairro aonde morava em São Gonçalo, no Arsenal, que era bastante arborizado e tinha um campo de futebol, e minha casa apesar de simples era grande e arejada. E eu acabava associando ao sítio com minha residência. Passaram-se os anos e entre os anos de 2014 e 2015 tive o prazer de ser agente de leitura para trabalhar nas escolas municipais de São Gonçalo e passei a ser contadora de histórias e preferi trabalhar com crianças. Após este período, tive como legado o acesso aos livros e durante a graduação tive uma disciplina chamada ‘Teoria da História’ e conheci o trabalho do historiador Robert Darnton e ele retratava como o conto da ‘Chapeuzinho Vermelho’ e da ‘Cinderela’ eram usados pelos antigos regimes e trabalhado com os camponeses na França e na antiga região da Prússia (atual Alemanha) e percebi como a literatura servia de pano político. Como eu não sabia falar muito francês e queria abordar o Brasil, resolvi adotar o Monteiro Lobato, que é considerado o pai da literatura infantil mas na minha pesquisa utilizei os contos adultos que ele escreveu onde abordava questões políticas e sociais”, acrescentou a pesquisadora. Quanto a polêmica referente ao racismo inserido em representações de personagens na narrativa de Monteiro Lobato, que era ligado a movimento de eugenia no Brasil, Rhaiane analisou esta temática para a reportagem de O SÃO GONÇALO.

“Na questão social, na minha dissertação, também percebi que Monteiro Lobato era um intelectual que atuava em rede e tinha diversos tipos de contatos, tendo vínculos com médicos, cientistas e políticos da época. Ele também era um influenciador destas redes pois estava sempre escrevendo e publicando. Desta forma descobri a sua participação na Sociedade Eugênica de São Paulo. Sobre a acusação de Monteiro Lobato como racista, para mim não se trata de uma acusação e sim uma afirmação, uma vez que desde 1990 há trabalhos acadêmicos na plataforma da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) que já abordaram o racismo de Monteiro Lobato em suas obras. Na minha concepção, o Movimento Negro não o acusa de racismo mas sim afirma algo que já é algo incontestável. A carta que ele enviou à Artur Neiva em 10 de abril de 1928, da qual analisei, é o ápice desta constatação pois ele coloca seu apoio à Ku Klux Klan (grupo terrorista e racista criado nos Estados Unidos). Além disso, Monteiro Lobato representa o universo africano e negro de forma preconceituosa e estereotipada em suas obras”, pontuou a professora, que também explica a importância do estudo crítico  das obras de Monteiro Lobato e da reivindicação por outras narrativas.

“A questão não é tirar o peso do autor Monteiro Lobato em relação as obras em sua vida mas sim, fazer uma reflexão dos personagens negros, sobretudo a Tia Nastácia que é a sua personagem negra mais famosa. E ele a coloca como ‘negra beiçuda’, ‘macaca de carvão’, ‘negra do Congo’ e ignorante.  Na verdade, o Movimento Negro questiona a subalternização do passado colonial e defende novas formas de representações literárias para este mundo lúdico da mulher negra e do negro em geral pois temos o personagem do Saci (Pererê). Será que são estas referências que temos que ter para as crianças negras? Até quando a reprodução da mulher negra será justificada pelo contexto história? Este período não é uma maneira de passar a mão no autor. É importante entender a sua obra como fonte. Na sala de aula, eu vou usar esta obra de 1933 para compreender política, economia e a sociedade e como os homens pensavam mas nunca para dizer que aquilo condiz com o que pensamos hoje. Portanto, o professor precisa ser a ferramenta principal para que os alunos tenham um olhar crítico para qualquer tipo de documento. É importante sempre circunstancializar “, finalizou.

Recentemente a pesquisadora concedeu entrevista, de forma remota, ao programa ‘Aulas com Filatelia’ com Heitor Fernandes na Web Rádio Censura Livre, de São Gonçalo. Escute, abaixo.

Fonte: O São Gonçalo

Bibliotecária Suzana Mafra comenta importância do Dia Nacional do Livro Infantil

Texto por Jaison Lorenceti

Bibliotecária Suzana Mafra

Neste sábado, 18, comemora-se o Dia Nacional do Livro Infantil e Dia de Monteiro Lobato. A data também é reservada para o Dia do Amigo. Num universo tão amplo de possibilidades, o livro é sempre uma boa companhia, principalmente em tempos de pandemia.

O distanciamento social criou desafios para superar aspectos da quarentena. No caso das crianças, a suspensão das atividades escolares e dos centros de educação infantil, fez quem os pais e tutores responsáveis tenham que inovar na hora de brincar e lidar com o ensino dos menores.

A bibliotecária brusquense, Suzana Mafra, concedeu entrevista ao vivo no Programa Da Hora para comentar sobre a importância da leitura ao público infantil.

Este é um período diferente que a gente vive, inédito; estamos invadidos por diversas mídias e também pode ser aproveitado para novos conhecimentos e hoje pela data eu recomendo a leitura do Monteiro Lobato”, destacou.

Suzana enfatizou que o conhecimento do público em geral das obras de Lobato é muito ligado aos conteúdos televisivos, com releituras da obra do escritor, considerado o maior autor nacional da literatura infantil. Porém, Suzana recomenda o toque e o envolvimento das crianças com os livros.

Ainda sim recomendo aos pais e a famílias que busquem pelo menos um livro do Lobato, e apresentem aos seus filhos. Ele foi um autor que viveu bastante e teve tempo de rever em vida toda a sua obra – principalmente a infantil”, destacou.

De acordo com a escritora, o acesso das obras é possível através da internet e na própria Biblioteca Pública Ary Cabral.

O Dia de Monteiro Lobato, também conhecido como Dia Nacional do Livro Infantil

Como estaria Monteiro Lobato, com este coração enorme pelo Brasil e pelas crianças no dia de hoje, diante deste tempo; ele foi um amigo do nosso país e teria muito o que dizer neste momento”, ressaltou.

Sobre o contato com a leitura, Suzana comentou que é importante inserir na vida dos filhos e utilizar de momentos distintos para apresentar obras literárias, que ajudam no desenvolvimento das crianças.

Vejo que os pais buscam orientar os filhos, mas o sistema, como está estruturado, essa velocidade toda, fica um pouco complicado, porém, é preciso apresentar a leitura pois a criança vai absorver aquilo que ela está pronta (os pais e professores são pontes) ”, explicou.

Segundo Monteiro Lobato: “Um país se faz com homens e livros.”

Sobre o catálogo de obras literárias infantis, Suzana chamou atenção para obras que tenham conteúdo didático.

Nós vivemos um momento de editoras de livros nunca vistos, somos tentados a comprar pela capa (o design evoluiu), então penso que livro é investimento e acho que a criança menor brinca, hoje é um objeto de decoração e não mais aquele objeto de guardar. Não deve ser mais um bem permanente e sim consumido, estar próximo”, ponderou.

Suzana Mafra é autora de livros infantis, poeta e bibliotecária

Suzana é autora dos livros Borboletras: poemas curtos que voam, pela Editora da UFSC, e e50 crônicas escolhidas, ambos pela Design Editora. Em 2010, ganhou o Primeiro lugar no concurso OFF FLIP poesia e recebeu menção honrosa no Prêmio Hernâni Cidade, de Portugal. Atua como bibliotecária na Biblioteca Pública de Brusque, onde desenvolve projetos de incentivo à leitura. Para as crianças, publicou o livro O Anjo Avoado, em parceria com a ilustradora Márcia Cardeal, pela editora Nova Letra.

Fonte: Rádio Diplomata

Doutor em literatura fala da importância de Monteiro Lobato

No Dia Nacional do Livro Infantil, o professor da UFSCar, Wilson Alves Bezerra, também dá dicas de livros para desfrutar na quarentena; confira

Texto por Flávio Mesquita

Sítio do Picapau Amarelo. Foto ilustrativa/ Arquivo

18 de abril de 1882. Esta foi a data de nascimento de um dos maiores escritores brasileiros, aquele que tem até hoje as obras infantis mais vendidas e com dezenas de adaptações para o cinema e para a televisão.

Nós estamos falando, é claro, de Monteiro Lobato. Dentre as várias obras, o Sítio do Picapau Amarelo foi a grande marca das obras infantis, publicada inicialmente em 1920, no livro “a menina do narizinho arrebitado”.

Segundo o professor do departamento de letras da UFSCar e doutor em literatura, Wilson Alves Bezerra, Lobato é o grande ícone da literatura infantil brasileira. “Monteiro Lobato é uma figura central da cultura brasileira. Ali na virada do século XIX para o século XX, ele foi pioneiro da indústria editorial, ele tinha a editora do Brasil. Ele foi um grande difusor da cultura com a revista do Brasil. E ele foi o nosso primeiro grande autor de livros infantis, com a Emília, com o Sítio do Picapau Amarelo. Então, ele é uma figura chave, uma figura inescapável da nossa cultura. Acho muito merecido que o nascimento dele seja o dia do livro infantil”, disse Bezerra.

Embora a importância de Monteiro Lobato seja inegável para a literatura infantil, nos últimos anos, suas obras foram questionadas quanto a referências racistas. Wilson Bezerra diz que é importante compreender o contexto em que a obras foram produzidas. “A gente tem percebido cada vez mais que existem aspectos do preconceito racial, do racismo, contra os negros na literatura dele. O que a gente faz diante disso? Vamos expurgar o Monteiro Lobato da história literária brasileira? Evidentemente que não. A gente tem que entender que o Lobato é um filho das elites brasileiras da virada do século XIX, ele nasceu em 1882 durante a escravidão no Brasil. O racismo faz parte do caldo cultural no qual ele se formou”, disse.

Monteiro Lobato

Como estamos falando em Dia Nacional do Livro Infantil, o professor traz algumas dicas de leituras nesse momento de quarentena. “Eu pensei em um livro de uma autora chamada Bianca Santana, chamado ‘Quando eu me descobri negra’, são pequenos relatos dessa autora contando como crianças que não são brancas, que não tem esse biótico caucasiano, como é que elas sofrem”, recomendou o professor.  

“Outro livro que eu acho bem bonito é o livro do Drauzio Varella, chamado ‘Nas ruas do Braz’, ele conta as memórias da infância dele, chegando sozinho ali nesse bairro italiano do Braz”, concluiu Bezerra.

Além dessas dicas do professor Wilson Bezerra, quem quiser conferir as obras de Monteiro Lobato, é só acessar a biblioteca digital nacional do Rio de Janeiro. Todas as obras do autor estão disponíveis para leitura. É só acessar http://bndigital.bn.gov.br.  

Quem prefere as adaptações infantis para o cinema, é só procurar pelas obras na cinemateca brasileira, em cinemateca.org.br.

Fonte: ACidadeON/São Carlos

Grupo da FURG lança canal no Youtube para leitura de livros e histórias infantis

Ação visa o promover a formação de leitores no período de isolamento social

por Júlia Sassi

O Grupo de Estudo e Pesquisa em Alfabetização e Letramento (Geali), coordenado pelas professoras Gabriela Medeiros e Silvana Zasso, do Instituto de Educação (IE) da FURG, divulga a criação de um canal no Youtube para leitura de livros de histórias infantis.

Desde 2017 o grupo, que realiza ações de ensino, pesquisa e extensão, desenvolve o projeto “Histórias que Navegam”, que promove o incentivo à leitura em espaços escolares e não escolares. Neste momento de isolamento social, a proposta é compartilhar a leitura de livros de histórias infantis por professoras e estudantes de graduação e pós-graduação.

Com o canal, o Geali busca incentivar o gosto pela leitura, especialmente neste momento em que as crianças estão sem frequentar a escola, devido a pandemia mundial do Coronavírus (Covid-19).

Fonte: FURG

Ilustradores brasileiros se unem para explicar coronavírus aos pequenos

Criado em tempo recorde pela educadora Mônica Correia Baptista em conjunto com onze ilustradores, livro explica com delicadeza o que é o coronavírus e como as crianças podem se cuidar

ISABELLA VON HAYDIN COM VANESSA LIMA, DO HOME OFFICE

Carta às meninas e aos meninos em tempos de COVID-19 (Foto: Divulgação)
Carta às meninas e aos meninos em tempos de COVID-19 (Foto: Divulgação)

Com os impactos do coronavírus, muitos pais se perguntam: como falar com as crianças sobre o que está acontecendo? Quais palavras usar para explicar que, devido a uma pandemia, não se pode mais ir à escola e nem visitar os amigos e os avós? Para ajudar, ilustradores brasileiros se reuniram e criaram o livro Carta às meninas e aos meninos em tempos de Covid-19.

Arquitetada pela pedagoga Mônica Correia Baptista, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a obra foi inspirada na Carta para los niños y ninãs en este momento de crisis, feito pela educadora chilena Isidora Lobo e pela ilustradora Carla Infante para instruir os pequenos de forma delicada sobre o que estava acontecendo por lá em 2019, quando medidas econômicas do governo geraram uma onda de protestos no país. “Esta carta tinha me tocado muito pelo carinho, pela potência da linguagem para quem precisa de uma mediação para compreender. Até que veio a tragédia do coronavírus e, na minha vivência como mãe, tia e avó, pensei em como é difícil para as crianças verem essa situação e compreenderem. Então, me inspirei nela”, diz a educadora.

Em formato de carta, a narrativa conta de forma delicada o que vem acontecendo no mundo, o que é o coronavírus e o que as crianças podem fazer para se proteger. As páginas trazem até dicas para o novo cotidiano. O intuito do projeto é ter uma distribuição gratuíta para atingir o máximo de pessoas possível. A obra está disponível em PDF e pode ser vista e compartilhada aqui. A ideia é criar também versões em inglês, espanhol e também com audiodescrição, para acolher também crianças deficientes visuais.

Ilustração de Alexandre Rampazo (Foto: Divulgação)
Ilustração de Alexandre Rampazo (Foto: Divulgação)

A obra conta com a participação de onze ilustradores, cada um responsável por uma página. Chama atenção também o tempo recorde em que foi produzida: menos de 5 dias. Alexandre Rampazo [vencedor do Troféu Monteiro Lobato de Literatura Infantil de 2019, concedido por CRESCER], responsável pela figura da super-heroína, conta que pensou na imaginação alimentando o real.

Mônica também atua no Fórum Mineiro de Educação Infantil (FMEI) e no Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação e Infância (NEPEI) e conta que os órgãos estão sempre muito atentos para levar em conta o protagonismo infantil. “As crianças não são sujeitos passivos e submissos, que só veem o mundo pela tradução. Essa concepção de infância nos obriga a pensar em produtos culturais que visam esse protagonismo, essa inteligência. Então trazemos a verdade, não escondemos que é um momento difícil. Elas percebem com muita força”, completa.

Fonte: Revista Crescer

Coronavírus: lançado e-book de história em quadrinhos para público infantil

“Falamos da pandemia de uma maneira lúdica”, diz Eduardo Jara, coordenador do programa de extensão Esag Kids

Fonte: ND+

“A literatura tem permitido que crianças negras se valorizem como tal”

Autora de livros infantis sobre racismo e direitos humanos, Kiusam de Oliveira é também professora e se inspirou em sua própria experiência com o preconceito para escrever histórias

Marília Marasciulo

Kiusam de Oliveira escreve livros infantis sobre temas como racismo e empoderamento (Foto: Reprodução/Facebook)

A autora de livros infantis Kiusam de Oliveira, 54 anos, abraçou uma causa nada simples: tratar de temas espinhosos como racismo e direitos humanos de uma forma que crianças compreendam, se identifiquem e, o mais importante, se encantem. Para isso, buscou na sua própria experiência e vivência como estudante e professora negra a inspiração para histórias que hoje são tidas como referência na educação infantil.

Nascida em Santo André, na Grande São Paulo, Oliveira é filha de uma tricoteira que sempre priorizou a educação. “Minha mãe, mesmo muito pobre, primava pelos estudos e dizia: ‘nós vamos dividir um ovo em quatro partes, mas você vai ter uma educação de qualidade’”, lembra a autora. Aos 14 anos, começou a cursar Magistério de 2º Grau, seguiu na Pedagogia, obteve especialização em deficiência intelectual, mestrado em Psicologia Escolar e doutorado em Educação.

Mas, além da carreira no magistério, e também por influência da mãe, Oliveira sempre gostou de escrever. “Ela fazia capangas [tipo de bolsa] e colocava dentro dos bolsos cadernetinhas com lápis pequenos e me dizia para escrever”, lembra a autora. Foi em algumas destas centenas de cadernetas — ela conta mais de 150 — que a autora encontrou as temáticas para suas histórias.

Em 2009, lançou seu primeiro livro: Omo-Oba: Histórias de Princesas, no qual contos e mitos de orixás femininos ganharam forma de princesas. Em 2013, publicou seu maior sucesso, O Mundo no Black Power de Tayó, em que questiona estereótipos racistas a partir do empoderamento de uma menina negra de 6 anos de idade. No ano seguinte, com O Mar que Banha a Ilha de Goré, a autora se aprofundou ainda mais nos temas, usando a viagem da protagonista, uma menina de 9 anos, para o Senegal, para abordar a história do tráfico de seres humanos escravizados durante a colonização europeia das Américas.

Agora, ela se prepara para lançar dois novos títulos em abril: O Mundo de Tayó em Quadrinhos e O mundo no Black Power de Akin, uma esperada versão de Tayó para meninos. “Entendo que essa literatura que eu faço, que chamo de literatura infantil negro-brasileira do encantamento, ajuda a criança negra a se reencontrar, a trazer esse encantamento ou reencantamento para seu corpo”, diz a autora. A seguir, ela fala mais sobre infância, racismo e educação:

Você sofreu os preconceitos que combate hoje durante a sua infância em Santo André?
Conheci as marcas do racismo em uma escola de freiras perto de casa, para onde fui quando estava próxima de completar 6 anos. Vou contar uma situação que foi muito marcante, para que as pessoas consigam compreender as marcas da violência na vida da gente. Eu não conseguia segurar meu xixi, e tinha uma necessidade ir ao banheiro imediatamente, com um atestado para isso. Um dia minha professora faltou e veio a diretora, ela era muito temida por nós. Ela dizia: “eu sou uma alemã de 2 metros de altura e vocês vão ter que me engolir.” Dava pavor.

Eu senti vontade de fazer xixi, levantei e pedi autorização para ir ao banheiro. Ela não autorizou, pediu para eu sentar novamente, e quando eu abri a perna para me movimentar e retornar à minha carteira, fiz xixi ali. Ela se levantou, agarrou a minha orelha, foi me arrastando, me levou ao banheiro, tirou minha roupa, abriu o chuveiro e me jogou embaixo da água fria. Comecei a chorar muito, gritava, porque tinha esperança da minha mãe me ouvir da nossa casa. Nisso ela pegou um tufo de papel higiênico e colocou dentro da minha boca. Aquilo rasgou minha gengiva, eu me lembro da água caindo com sangue. Aí ela saiu. Quando voltou, estava com todos os alunos da minha sala. As crianças começaram a rir e a gritar: “a macaca tá pelada, a macaca tá pelada!”.

Aí ela disse assim: “olhem bem para o que vocês estão vendo, é assim que todo preto deve ser tratado”. Isso pra mim foi muito marcante, porque minha mãe falava em casa sobre o racismo, e eu não entendia, eu era uma criança. Fui entender nesse dia.

Como essas vivências influenciaram sua escolha pela carreira no magistério?
Quando fui fazer uma habilitação na USP, na década de 1990, na área de deficiência intelectual, conheci grupos de estudos de formação de professores. E nesses grupos estudavam memórias que a gente tinha enquanto estudantes de pedagogia, e que a gente carregava na prática do magistério. Foi nele que consegui me lembrar de uma agressão racista de um professor de geografia. Hoje posso dizer que minha escolha de atuar como professora vem dessa potência de entender o quanto um professor e uma professora são capazes de determinar a vida de um estudante.

E depois de tantos anos, acha que a situação nas escolas melhorou?
A educação ganhou um novo corpo a partir da Lei Federal 10639, de 2003, que obriga o ensino da história da África nas escolas brasileiras. Foi tão importante que conseguiu alterar a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Ela obrigou professores e profissionais da educação a olharem para a diversidade de uma outra forma, que valoriza, compreende e respeita. E pensar em projetos e ações a partir das falas e dos comportamentos das crianças, jovens e adultos em sala de aula.

Falo desta lei sempre com muita cerimônia, muito respeito, porque pra mim é uma lei revolucionária que alterou o padrão da educação brasileira desde a sua criação. Ela é tão revolucionária que não foca somente no espaço da sala de aula, ela obriga os profissionais da educação a se verem e se olharem. Nós precisamos nos olhar e refletir sobre a educação que tivemos: o que a vó falava sobre negros dentro de casa, a mãe, o pai, os filhos… que cenas racistas você viu quando foi para o mercado, como se portou, o que sentiu. É preciso olhar para isso.

Por que educar os professores faz parte da luta contra o racismo?
Trabalhei com formação de professores nos últimos 20 anos no Brasil inteiro, e as professoras adoram contar esse mesmo caso, o do aluno que reclama: “professora, fulana está me chamando de negrinha.” E eu pergunto: “e aí, qual foi a sua resposta?”. Elas costumam responder: “ué, eu falei, você não é negrinha mesmo?” E ainda complementam: “por que o próprio negro é racista?” Esse é um estereótipo para cima do negro.

Um estereótipo recorrente e reforçado na sala de aula.
Primeiro, vou dizer o seguinte: nao tem como negro ser racista, assim como não tem homem ser feminista, mulher machista. O que tem de possibilidade é no máximo reproduzirmos a forma com a qual somos tratados. Então, se eu recebo práticas racistas, e sou chamada de negrinha o tempo todo e passo a minha infância passando por situações violentas e de exclusão, uma hora eu vou querer não ser mais quem eu sou, vou me negar. Em algum momento dessa negação, vou preferir achar que tenho forças para alterar minha forma de ser e me tornar parecida com quem eu quero ser, que é uma pessoa branca. Vou alisar meu cabelo, vou usar certo tipo de roupa, tentar ser discreta nas cores (que é outro estereótipo). Mas isso não quer dizer que a pessoa está sendo racista, porque o conceito de racismo está atrelado a poder, poder real e concreto, coisa que o negro não tem.

De onde veio a inspiração para criar suas histórias?
Escrevo desde criança. Minha mãe era crocheteira e tricoteira, ela fazia capangas, e colocava dentro dos bolsos cadernetinhas com lápis pequenos e me dizia para escrever. Antes eu fazia garatujas, bolinhas, linhas. Com o tempo, aprendi a ler e a escrever, e aí comecei a trabalhar as letras dentro do modelo formal de escrita. Assim registrei as coisas. O incrível é que minha mãe guardou todas as minhas cadernetinhas. Tenho mais de 150 com histórias escritas, é um material que tem uma potência gigantesca com a forma que eu pensava, e há textos focados na questão racial desde a infância. Infelizmente, é uma questão que permanece, o corpo da criança negra é marcado pelo racismo. Todas as histórias que escrevo são reais. São experiências vistas, vividas, ouvidas por mim enquanto professora e como negra.

Como as crianças reagem aos seus livros?
Tem um vídeo que mostra um grupo de professoras trabalhando com o primeiro livro que eu lancei, Omo-Oba: Histórias de Princesas, e é notório perceber como as crianças receberam o livro naquela época. Foi muito surpreendente, porque elas olhavam e diziam que aquelas princesas eram falsas, de mentira, mas o mais comum era ouvir delas o que eram feias porque são pretas. Havia uma rejeição por parte de crianças negras e não negras. O livro foi lançado em 2009, e de lá para cá, especialmente nos últimos cinco anos, tenho percebido pelas cartas que recebo dos leitores que as crianças escolhem uma princesa e dizem “eu me pareço com tal”. É isso, porque nessa história eu trabalhei arquétipos femininos, então as crianças vão se identificando com aquilo para além da aparência.

Por que é tão importante trabalhar a identidade na literatura infantil?
Quando conto a história da Tayó, do meu livro O Mundo no Black Power de Tayó, muitas crianças de 5, 6 anos, verbalizam ali, no coletivo, “nossa, eu sou igual a Tayó, então eu sou negra?”. Tayó é uma personagem superempoderada, que se sabe linda porque se vê pelos olhos da mãe dela. Isso é o encantamento, ela nao se sabia negra, mas que bom que com 5, 6, 7 anos ela está tendo condições pela literatura hoje de se entender, se reconhecer e se valorizar enquanto negra. Dei aula até o ano passado na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), e recebia jovens com 25 anos, que relatavam que tinham acabado de se descobrir como negras.

Trecho de O Mundo de Tayó, de Kiusam de Oliveira (Foto: Divulgação)

Há alguns elementos recorrentes nas suas histórias, como a ancestralidade e o cabelo black power. Por que escolheu trabalhar com eles?
Esses são os elementos que faltam na literatura brasileira focada para os públicos infantil e juvenil. São elementos que os autores sempre tiveram grandes problemas para trabalhar. Ancestralidade é algo que é fundamental para qualquer origem étnico-racial, é um assunto visceral para todos e todas nós.

Para além disso, parto do princípio de que a África é o berço da humanidade, como cientistas já comprovaram há alguns anos. Para mim é o seguinte: independentemente da cor da pele, todos nós remontamos à África, então ancestralidade está em nós, acreditando nela ou não, basta olhar o legado de todas as pessoas que vieram antes da gente. Cabelo black power é recorrente, porque tanto no meio negro e no meio não negro ele continua a ser um assunto central. O cabelo crespo não é visto como bonito, como higiênico, como esteticamente coerente ou positivo.

Vivemos hoje em uma época de revisionismo e negacionismo histórico. Por que desconstruir o racismo é algo que ainda gera tantos embates e retrocessos?
Nós retornamos para um Brasil saído do… Eu ia usar a expressão colonialismo, mas nem vou, porque acho que ainda vivemos o colonialismo, a colonialidade está presente, e nós do movimento negro sempre pontuamos isso. O que acontece hoje é que está explícito. Como nós temos autoridades que não se furtam em demonstrar o seu racismo, por que os cidadãos comuns vão se furtar? Então quando temos um governo que coloca políticos todos alinhados em um mesmo pensamento de exclusão da população preta e desprezo pelo pobre, é isso que nós vamos ter: retrocesso. Não que esse retrocesso de práticas e pensamentos não existisse, ele sempre existiu, mas as pessoas eram mais discretas, se preocupavam com a forma como iam agir. Então é esse Brasil que estamos vivendo, capaz de olhar para mim, uma pessoa de 54 anos, e atirar uma pedra simplesmente porque estou com uma roupa branca.

Ao mesmo tempo, temos visto o tema entrar um pouco mais em pauta, aparecendo por exemplo no Oscar deste ano, cujo vencedor foi um curta justamente sobre black power. Que outros avanços você vê neste sentido?
O primeiro avanço que eu elencaria é toda a movimentação que os negros e negras estão conseguindo fazer nas redes sociais. As redes sociais se tornaram grandes plataformas de visibilidade coletiva. A gente consegue expor as práticas racistas, chamar as pessoas para o debate, com elas é impossível alguma pessoa dizer que o racismo não existe. Isso para mim é revolucionário. Outro espaço é a universidade, que vem sendo acessada por negros e negras. Isso é algo impagável, com o qual eu há 15 anos eu sonhava, mas não imaginava que alcançaríamos tanto.

Como seus livros podem transformar a relação de toda a sociedade com a cultura negra e africana?
Entendo que essa literatura que eu faço ajuda a criança negra a se reencontrar, a trazer esse encantamento ou reencantamento para seu corpo. Eu, por exemplo, era uma criança amada dentro da minha casa e na minha família, todos meu achavam linda, diziam que eu tinha olhos lindos, nariz lindo, boca linda. Mas cheguei na escola e conheci uma negação para meu ser e minha existência, e passei a não gostar mais de mim, a querer ser diferente para poder ser tratada com maior respeito. Então, neste caso, é um reencantamento. Para aquelas crianças que cresceram em lares onde pais e mães também viveram de forma visceral o racismo desse país, sem ter alguém para orientá-las de que “isso que fizeram com você é racismo, não aceite”, aí o primeiro momento é o encantamento de se entender como negra. Nós vivemos um tempo em que a literatura tem favorecido e proporcionado momentos dignos para que as crianças negras se reconheçam e se valorizem como tal. E isso é incrível.

Fonte: GALILEU

Maurice Sendak: El significado de la ilustración en los libros para niños

Maurice Bernard Sendak (10 de junio de 1928, Brooklyn, Nueva York – 8 de mayo de 2012,  Connecticut). Ilustrador y escritor de literatura infantil estadounidense.

Entrevista realizada por Walter Lorraine, editor jefe de la línea infantil Houghton-Mifflin en junio de 1977 y publicada en un número especial del Wilson Library Bulletin sobre “El Arte del libro Ilustrado”; traducida y reproducida en el Nº 1 (Caracas, junio de 1980) de la revista Parapara, publicación editada por el Banco del Libro (Sección Venezolana de IBBY), el Proyecto Interamericano de Literatura Infantil (PILI) y el Instituto Autónomo Biblioteca Nacional de Venezuela.

¿Qué piensa Usted de las funciones de la ilustración, en un libro?

Puede ser una mera decoración o un expansión del texto. Es la versión del texto hecha por el ilustrador, es su propia interpretación. Es la razón por la cual uno es socio activo en el libro y no un mero eco del autor. Ser ilustrador es ser un participante, es ser alguien que tiene la misma importancia, al expresarse, que el autor del libro, y, ocasionalmente, más importancia que éste, pero ciertamente nunca es ser el eco del escritor.

¿Considera Usted que hay diferentes categorías de ilustración?

Podría inventar categorías pero hablaré sólo acerca de la que me interesa y hago bien: ilustración interpretativa. Esta supone un trabajo vigoroso con el escritor. A veces sucede que uno mismo es el escritor; entonces trabaja con uno mismo. En este caso la dificultad, la tensión y la alegría de este trabajo consiste en el equilibrio entre texto e imagen. No se debe hacer jamás la misma cosa, no debe jamás ilustrarse exactamente lo que está escrito. Debe dejarse espacio en el texto para que la ilustración cumpla su función. Luego, se puede regresar a las palabras y entonces dan lo mejor de sí y la imagen cobra toda su dimensión.

¿Cómo definiría Usted un libro ilustrado?

Un libro ilustrado no es sólo lo que piensa la mayoría: una cosa con muchas imágenes, fácil de leer a los niños pequeños. Para mí es una cosa condenadamente difícil de hacer, muy similar a una complicada forma poética. A algunos poetas les gusta realmente entrar en formas difíciles, porque éste es el mayor reto en poesía. Pienso que un libro ilustrado es una de esas bellas y desafiantes formas que tanto exigen dado que se necesita dominar continuamente la situación, para, finalmente, lograr algo que parece tan fácil de hacer: combinar —si es posible, sin costuras—texto e ilustración.

Es como un poema, no deben percibirse las costuras, los empastes. Debe sentirse la obra como una entidad completa y total… Un libro ilustrado debe tener, cuando está terminado, ese aspecto de inconsútil. Si se ve una puntada, Usted pierde el juego. Yo no conozco otra forma de ilustrar que sea más interesante.

Los cuentos de hadas de los hermanos Grimm no son, obviamente, un material para libro ilustrado, pero ellos permiten ilustraciones interpretativas. Las ilustraciones tienen tanto que decir como el texto, el truco es decir la misma cosa pero en diversa forma. No es bueno ser un ilustrador que dice mucho de lo que hay en su mente, si esto no tiene nada que ver con el texto. Sin embargo, decir la misma cosa que el relato pero en una forma muy personal enriquece el sentido del cuento original, contribuye a dar dimensión al relato.

¿Hay un estilo de escribir particular que estimula un buen libro ilustrado?

No puede ser la forma pedante de escribir donde cada clavo esta clavado y cada hecho es obvio. Para mi gusto tiene que ser ambiguo, debe permitir que muchos significados brillen a través de él. No debe ser un texto pesado de manipular, que dice que Juanito va de la derecha a la izquierda, porque el ilustrador entonces no tiene otra alternativa sino que Juanito vaya de derecha a izquierda. El texto debe ser menos preciso, menos obvio, Puede establecer hechos, pero hechos que permitan al artista mover los personajes en cualquier dirección.

¿Cree Usted que falta talento en el área del libro ilustrado hoy en día?

Eso pensé yo por largo tiempo. Pensé que, histórica y socialmente, había una tierra estéril donde el suelo creativo no era fértil. Pero desde que estoy enseñando sé que esto no es verdad. Créanme, no veo muchas personas brillantes, pero veo algunas con mucho talento, y puedo decir sin miedo a equivocarme, que un pequeño número de mis mejores alumnos, está casi listo para ser publicado, Ellos tienen un enfoque ético hacia el libro ilustrado, un enfoque serio y vital y eso me hace comprender que mi opinión anterior sobre la falta de talento, era falsa.

Si los talentos están a nuestro alrededor y nadie los usa, ¿cuál es el problema? Me parece que falla el sistema. Si Usted habla con los editores cada uno de ellos le dirá: “Siempre buscamos gente nueva”. Pero yo me pregunto por qué no los están editando. He visto, con total imparcialidad, algunos libros de personas nuevas pero muy pocos están siendo editados. He tenido gran dificultad para colocar a algunos de mis dotados alumnos. ¿Cuál es el riesgo? Me parece que los editores son menos ambiciosos de lo que eran antes y, en general, menos valientes, menos dispuestos a enfrentar el peligro. Si Usted dice esto en voz alta tendrá la respuesta: “Pero estamos editando la obra de los jóvenes”. ¿Dónde lo están haciendo?

Sospecho que los editores temen tomar riesgos. Antes se arriesgaron, nada de eso sucede ahora. Tengo casi 50 años y cuando miro a mi alrededor veo jóvenes luchando contra montañas. Cuando yo era joven, en la década de los años 50, nos dieron todo el estímulo del mundo.

¿Piensa Usted que los críticos debieran apreciar de manera diferente las ilustraciones de los libros ilustrados?

Pienso que ellos deberían intentar entender la significación del libro ilustrado. Hay un fino misterio en esta difícil forma, un misterio que es asunto del artista. Un serio trabajo artístico no es nunca sólo una cosa. Lo que objeto es que los libros ilustrados son juzgados desde un punto de vista pedante, particular, frente a su relación con los niños y yo insisto que cualquier obra artística seria es mucho más que eso.

Pienso que cuando las personas están reseñando nuestros libros ocurre una colisión inevitable con los prejuicios concernientes a los niños.

Hay toda una teoría relativa a la infancia de la cual todos parten y cuando se trata de un libro ilustrado tratan de descubrir si se han seguido las “reglas” acerca de lo que se supone es correcto y saludable para los niños. Esto entra en conflicto, todo el tiempo, con esas cosas que son misteriosas. Los niños no necesitan de un enfoque pedante de los libros. Los niños son mucho más universales en sus gustos y pueden tolerar ambigüedades, peculiaridades y cosas ilógicas. Llegan a su inconsciente y las enfrentan lo mejor que pueden.

La ansiedad proviene de los adultos que sienten que el libro debe acatar un conjunto ritual de ideas acerca de la infancia, y se sienten inquietos si este acatamiento no se cumple. Un conflicto muy importante se suscita porque el artista no tiene en cuenta reglas específicas. El artista tiene que ser un poquito desconcertante, un poquito salvaje y un poquito desordenado. Este es el arte de un artista. Pero los artistas tienen dificultades porque se involucran en uno de los negocios más estirados, más rectos: el negocio de la infancia.

Muchas personas están empeñadas en proteger a los niños de lo que creen peligroso. El artista genuino tiene la misma preocupación. A pesar de esto su obra puede no responder a lo que los especialistas manifiestan que es correcto para los niños. El artista pone elementos en su obra que vienen de lo más profundo de sí mismo. Los toma de una vena peculiar de su infancia, siempre abierta y viva. Este es un don especial. El comprende que los niños saben más de lo que la gente supone. Los niños están dispuestos a enfrentarse con temas dudosos que los adultos quisieran que no conocieran.

Si un libro no sigue el trayecto de lo que el especialista considera correcto, es un mal libro para niños. De manera que los que hacemos libros ilustrados somos condenados más fácilmente que otros artistas creadores porque tratamos con sujetos tan delicados: los niños. Nosotros debemos proteger a los niños y sin embargo no están protegidos de otras cosas. No están protegidos de la terrible televisión. Nadie los protege de la vida porque es imposible hacerlo. Todo lo que tratamos de hacer seriamente es hablarles acerca de la vida ¿Qué hay de malo en esto? Y, de todas maneras, ya saben de la vida.

¿Qué elementos componen un buen libro para niños?

El elemento básico es la honestidad. Sobre cualquier texto que se trabaje, sea realista, fantástico o de ciencia ficción, debe comenzarse con una base de honestidad. Se debe decir la verdad al niño acerca del tema tanto como sea posible, sin mitigar esta verdad. Hay que reconocer que los niños son personas pequeñas y valientes que se enfrentan cada día a una multitud de problemas, tal como los adultos; que no están preparados para muchas cosas y que la mayoría anhela encontrar un poco de verdad en alguna parte.

Si este es el punto de partida, después puede procederse en la forma que se desee y echar el cuento de la manera que se quiera. Si es una amarga píldora que los niños no quieren tragar hay que darles la oportunidad de decir no. No se puede ser guardián de los niños ni decidir lo que los niños podrán o no leer ¿Por qué se mantiene a los niños en ghettos? ¿Por qué hay guardianes frente a las puertas diciéndoles qué es correcto y qué no lo es? Nosotros, adultos, tenemos la posibilidad de elegir, para leer, lo que nos gusta. ¿Por qué no les damos a los niños la misma oportunidad?

Fonte: cuentibujos

Biblioteca Municipal: literatura infantil, infanto-juvenil, romances e obras para vestibulares estão disponíveis

109 novos livros entraram no acervo da Biblioteca Municipal Martinico Prado neste mês. Entre as temáticas disponíveis para empréstimos estão literaturas infantis e infanto-juvenis, romances nacionais e estrangeiros, jornalismo, games, história, política, religião, poesia e obras exigidas nos vestibulares da Fuvest/USP e da Unicamp.

Entre as novidades estão “Nove Noites”, de Bernardo Carvalho (obra exigida na Fusvest/USP); “Os olhos do dragão”, do norte-americano Stephen King; “A Guerra dos Tronos”, de George R. R. Martin, obra que foi a base do seriado produzido pelo canal HBO; “Um tesouro de contos de fadas” com inúmeros textos infantis clássicos; “Uma casa para o Sr. Biswas”, do ganhador do Prêmio Nobel de Literatura Vidiadhar Naipaul; “Clarice: uma vida que se conta”, de Nádia Batella Gotlib, biografia da escritora Clarice Lispector;  “O livro das religiões”, de Victor Hellern, Henry Notaker e Jostein Gaarder; “Jogada Final”, de Rezendeevil; “Golda”, de Elinor Burkett, sobre a ex-primeira-ministra de Israel; “A teus pés”, de Ana Cristina César (obra exigida na Unicamp); “Monstros microscópicos” de Nick Arnold; e “A jangada de pedra”, do autor laureado português José Saramago. (Clique aqui e acesse o catálogo do mês de março).

Quero emprestar um livro. Como eu faço?

Emprestar livros da Biblioteca Municipal é muito fácil. Basta realizar cadastro no local, das 8h às 17h, de segunda a sexta-feira, apresentar comprovante de residência (contas da Elektro ou do Saema), CPF (Cadastro de Pessoa Física), RG (Carteira de Identidade) e pagar taxa única de R$ 8,55.  Com o cadastro, o usuário recebe uma carteirinha que possibilita acesso aos serviços. Menores de idade devem estar acompanhados dos responsáveis.

Os empréstimos de livros são válidos por 15 dias, sendo a renovação realizada pessoalmente ou pelo telefone 3551-1534. No site da Prefeitura de Araras (www.araras.sp.gov.br), há possibilidade de consultar o acervo do local, clicando no ícone “Biblioteca Municipal”. São mais de 35 mil exemplares à disposição dos leitores.

A Biblioteca Municipal Martinico Prado fica na Rua. Dr. Armando Sales de Oliveira, s/nº, Centro.

Fonte: Notícias de Araras

‘Caça às bruxas’ de Damares provoca autocensura no mercado literário infantil

Declarações de autoridades como a ministra demonizam seres imaginários como dragões e duendes e marcam tabus nas obras para crianças

Ilustração do livro 'Carona na Vassoura', editado no Brasil pela Brinque-Book.
Ilustração do livro ‘Carona na Vassoura’, editado no Brasil pela Brinque-Book.

"Nem os homens foram feitos para mandar... Nem as mulheres nasceram para obedecer". Ilustração do livro 'As mulheres e os homens', de Luci Gutiérrez.

Desde então, surgiram mais casos de reclamações contra obras infantis com tais elementos, conforme relatam diferentes editoras, escritores, educadores e ilustradores de livros infantis —mais um fator que se soma a iniciativas de caça aos livros como a da Secretaria da Educação de Rondônia, que determinou, ainda que não tenha sido efetivado, o recolhimento de 43 obras, como Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, ou Macunaíma, de Mario de Andrade. “A autocensura já acontece. Já tem editores falando que é melhor não publicar obras infantis com essas temáticas. Dizem: ‘Vamos fazer algo mais leve”, conta Rios, que também é presidente da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil (AEILIJ).

O Governo brasileiro tem o maior programa de compra e distribuição de livros didáticos e literários do mundo —de acordo com números do Ministério da Educação (MEC), são comprados, anualmente, 120 milhões de livros didáticos e mais de 30 milhões de obras de literatura—. “Com um Executivo apoiado por grupos neo-pentecostais, eles querem produzir seu próprio material. O editor que quiser publicar uma obra com bruxas vai pensar 30 vezes antes de fazê-lo, porque sabe que ele não será comprado pelo poder público”, argumenta a escritora. Em agosto do ano passado, o MEC congelou 348 milhões de reais que seriam usados na compra de livros para escolas.

Em fevereiro de 2019, na esteira das polêmicas declarações de Damares Alves, a Leiturinha, maior clube de literatura infantil do país, com 170.000 assinantes, publicou um edital em que não aceitava obras com “seres mágicos, como bruxas, fadas e duendes” e, depois da má repercussão nas redes sociais, voltou atrás. “Foi um equívoco”, reafirmou à reportagem Fernando Collaço, chefe de comunicação da PlayKids, responsável pela Leiturinha. “Nenhum assunto deve ser tabu na literatura. Respeitamos posições políticas e religiosas, mas nosso desafio é conciliá-las com o trabalho de curadoria”, acrescentou. Apesar do episódio, Collaço conta que as reclamações que recebem dos assinantes têm mais a ver com o formato das obras do que com o conteúdo. “As queixas são sobre livros com muito texto para determinada idade, ou porque esperavam um livro mais colorido, ou um livro feito pano, com menos história e mais interatividade”, exemplifica.

Na Companhia das Letrinhas e no clube Expresso Letrinhas —selos infantis da Cia. das Letras— há reclamações de livros sobre bruxas, principalmente por parte de colégios confessionais, segundo informam autores da casa (que preferiram não se identificar), mas a editora declinou comentar os casos.

Renata Nakano, editora e idealizadora do Clube Quindim, comenta que a censura aos seres imaginários sempre existiu no mercado editorial. “Algumas editoras nunca publicaram essas histórias porque as escolas mais ortodoxas não adotam esses livros. Se você quer atingir um público amplo, a praxe é não escrever narrativas com esses elementos. Hoje, no entanto, existe uma autocensura maior”, diz. Nakano conta que “sempre tem um ou outro cancelamento” de assinatura no clube por conta de obras com seres fantásticos ou temas considerados inapropriados.

Rosana Rios menciona o caso de uma mãe que queimou o livro da colega da filha porque teria “demônios” dentro dele. “Em todos os casos que vi, as pessoas sequer leem. Olham uma frase ou uma página e decidem condenar a obra”, lamenta. “Para eles, bruxas e dragões são demônios, quando, na verdade, os contos de fadas são contos folclóricos, vêm da mitologia e mantiveram os elementos fantásticos dela. Resgatar essas histórias é enriquecedor”.

“Ideologia de gênero” e pedagogia

Para além da caça às bruxas, dragões, fadas e duendes, entra na roda a chamada “ideologia de gênero”. No último mês, os assinantes do Clube Quindim receberam o livro Banho!, de Mariana Massarani. A obra, protagonizada por crianças indígenas (apesar de não tratar dessa temática), conta a história de uma mãe que tenta dar banho nos quatro filhos de vez. No banheiro, esse momento vira uma viagem pela imaginação dos pequenos, que passeiam por diversos elementos da natureza brasileira e veem, por exemplo, botos e sucuris. “Recebemos reclamações que consideraram a obra pornografia infantil, já que os personagens aparecem pelados”, conta Nakano.

Ilustração de Mariana Massarani para o livro infantil 'Banho!'.
Ilustração de Mariana Massarani para o livro infantil ‘Banho!’.

Em agosto de 2019, o vereador Clayton Silva (PSC) da cidade de Limeira, no interior de São Paulo, solicitou à Secretaria Municipal de Educação a retirada do livro A bolsa amarela, publicado em 1976 por Lygia Bojunga e considerado um clássico da literatura infantil, porque, segundo ele, a obra “aborda ideologia de gênero”. O livro conta a história de Raquel, uma menina que entra em conflito ao reprimir —e guardar em sua bolsa amarela— três grandes vontades: a de crescer, a de ser menino e a de ser escritora. Após receber uma carta assinada pela AEILIJ, a Secretaria de Educação declinou o pedido do vereador.

A psicóloga Clarissa de Franco, que tem pesquisado os efeitos da retórica conservadora na educação infantil, explica que essas tentativas de censura vêm da ideia de que as crianças são propriedade do Estado. “Há uma confusão entre o que é público e o que é privado. Enquanto o público preza pela pluralidade, os conservadores suplantam isso pelos valores familiares do privado. No atual momento do Brasil, essas famílias religiosas encontraram espaço para fazer valer sua postura em diversos âmbitos”, diz. A literatura infantil seria só um deles.

“Os seres fantásticos são vistos como ameaça porque esses grupos [religiosos] têm um grande apego à literalidade da Bíblia, e aí o simbólico, que é um elemento estrutural da psique, perde espaço. O simbólico está tanto em uma placa de trânsito quanto em um conto de fadas. São elementos que ampliam a concepção de mundo e enriquecem o pensamento e as relações humanas”, explica a especialista.

Psicólogos e pedagogos argumentam que os seres fantásticos remetem aos arquétipos comportamentais trabalhados por psicanalistas como Sigmund Freud e Carl Jung. “São elementos importantes que as crianças têm para lidar com suas questões interiores. Retirar esses elementos das histórias é retirar a possibilidade de o leitor encontrar uma ressonância com sua própria realidade. As histórias fantásticas não estão aí para dizer que dragões existem, mas para mostrar que os dragões podem ser vencidos”, diz Rosana Rios.

A bruxa, por exemplo, é o arquétipo da dificuldade, conforme explica Illan Brenman, psicólogo e autor de literatura infantojuvenil. “Boas histórias precisam mostrar para a criança como é o mundo real através de símbolos que ela entenda. É como uma vacina literária, com anticorpos simbólicos. Os livros pegam um pouco do veneno do mundo —morte, dor, solidão, ciúmes— para ajudá-las a lidar com diferentes situações e sentimentos”, diz ele. Isso ajuda a preparar a criança, por exemplo, para a morte de um parente ou os ciúmes com a chegada de um novo filho. “Aí ela vai entender que a bruxa ou o dragão representam essas dificuldades da vida. Privá-la disso é estrangular a imaginação infantil. Quando você priva a criança do simbólico, sobra angústia, indisciplina e revolta. As histórias fora de perigo deixam as crianças desprotegidas e despreparadas”, afirma Brenman.

Renata Nakano argumenta que a censura sobre determinados temas na literatura infantil não é razoável no mundo digital, em que as crianças podem acessar, sozinhas, conteúdos delicados, inclusive sobre sexualidade ou violência, sem o intermédio dos familiares. “A literatura permite que o leitor vivencie novas experiências, preparando-o para lidar com elas e com os sentimentos que elas despertam e ela não pode ser neutra. A literatura incomoda, te tira da zona de conforto. Os contos de fadas são tradição da literatura infantil e tratam de temas universais, intrínsecos à condição humana. A bruxa de João e Maria, por exemplo, não simboliza apenas o mal. Ela pode representar a descoberta de um mundo novo, a saciação da fome…”. Nakano aponta ainda os estudos que mostram que a literatura é a única narrativa capaz de gerar empatia.

“A literatura, quando realmente livre, questiona justamente essas regras, instiga a criança a pensar”, diz a editora, que adianta que a próxima obra do Clube Quindim será precisamente uma antologia dos contos de fadas em quadrinhos. Há de se ver quais serão as reações.

Fonte: EL PAÍS

Aplicativo identifica árvores com histórias de autores da literatura infantojuvenil

Narrados por grandes cantores, o app reconecta a sociedade com a natureza com as explicações dessas espécies.

Imagem de celular com aplicativo Natu Contos e do lado esquerdo escrito o texto: Natu Contos - Uma experiência literária com as árvores da Mata Atlântica.
A ideia é democratizar gratuitamente o aplicativo para contribuir como material educativo e acessível a diferentes públicos. (crédito da imagem: divulgação)

O aplicativo educacional Natu Contos ajuda o usuário a identificar cinco espécies nativas da Mata Atlântica, como: embaúba, ipê-amarelo, jequitibá, pau-brasil e pau-ferro. Tudo isso de um jeito bem diferente. Em parceria com a Fundação SOS Mata Atlântica, oferece uma aventura literária em parques e praças, em que adultos e crianças podem descobrir contos produzidos por autores da literatura infantojuvenil e narrados por grandes cantores brasileiros.

No final do ano passado, conseguiu R$ 17.415 no financiamento coletivo na plataforma Catarse para alcançar mais pessoas ao desenvolver versão para Android. Com sua meta estendida, pretende promover um novo vínculo afetivo e memorável entre árvores e os cidadãos de Belo Horizonte (MG), Curitiba (PR) e Recife (PE).

Já disponível gratuitamente na plataforma IOS, agora o aplicativo precisava da ajuda do público para o desenvolvimento do designer para Android (meta de R$ 18.522,00). Estima-se que até julho de 2020, ele já esteja disponível nesta plataforma.

A plataforma Natu Contos traz árvores mapeadas em parques e praças das cidades de São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Uberaba (MG). Quando uma árvore é encontrada, um vídeo animado apresenta e, depois, um conto fica disponível para o adulto ler/ouvir com a criança embaixo da sua copa. Uma vez coletadas, as histórias e as fichas técnicas de cada árvore vão para uma biblioteca e podem ser relidas e ouvidas quantas vezes quiser, em qualquer lugar.

Em Amélia e seu Ipê-amarelo, de autoria de Índigo com narração de Tiê, por exemplo, Amélia que tinha tudo amarelo, até seu cabelo, adorava um eucalipto, mas não ligava para um ipê-amarelo que tinha em seu sítio. Quando ele floresceu na primavera, isso mudou. Já em Árvore de Estimação, de Tiago de Melo Andrade e narração de Lenine, uma menina fica triste por ter perdido o gramado e a sombra fresca de sua árvore de estimação queimada em um incêndio, onde ela tinha seu balanço. Em À procura do Pau-Brasil, de Andrea Pelagagi com narração de Fernanda Takai, um irmão e uma irmã tentam de todas as formas descobrir se a árvore que eles acharam era mesmo a espécie que deu nome ao nosso país.

Mais informações sobre o aplicativo também no Instagram e Facebook. Site: http://www.natucontos.com/

Fonte: setor3

Assédio na mira da literatura infantil

Assédio na mira da literatura infantil

Livros abordam o assédio, uma das muitas questões delicadas e difíceis de se tratar, em especial com crianças e adolescentes

Texto por Estadão Conteúdo

Reprodução
Minha Vida Não É Cor-de-Rosa conquistou o primeiro lugar na categoria juvenil do Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional

Olívia é adolescente e vai sozinha de ônibus para a escola. Um dia, no caminho que faz a pé até o ponto, ela para por um instante para dar informações a um motorista. O homem abre a porta do carro, e a garota percebe que ele está sem a calça. Chocada, Olívia sai correndo. E se cala.

Leila, a baleia, adora vestir biquíni e nadar por aí com seus longos cabelos. Vira e mexe, encontra em suas andanças pelo mar seu vizinho Barão, o polvo. Ele lhe rouba um beijo, a segue, a incomoda. Sussurra frases em seu ouvido, lhe promete coisas, mexe na alça do seu top. Leila também se cala.

Olívia e baleia são, respectivamente, personagens de Minha Vida Não É Cor-de-Rosa, de Penélope Martins (Editora do Brasil), e Leila, de Tino Freitas e Thais Beltrame, livros que abordam o assédio, uma das muitas questões delicadas e difíceis de se tratar, em especial com crianças e adolescentes.

Em novembro, Minha Vida Não É Cor-de-Rosa conquistou o primeiro lugar na categoria juvenil do Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional, um dos mais prestigiados do País.

Nos dois casos, os autores acertam em cheio: conseguem tratar com leveza de um tema duro, respeitando o nível de compreensão do leitor para o qual se dirige. E vão além. Não tratam apenas de assédio – falam também de amizade e confiança. E podem abrir as portas para conversas em casa e onde mais se fizer necessário

Em Minha Vida Não É Cor-de-Rosa, Penélope se debruça sobre questões comuns da adolescência – o primeiro beijo, o primeiro namorado, a briga com a melhor amiga -, sem perder de vista o contexto das redes sociais, e chega a temas mais espinhosos, como o assédio a meninas e meninos. O livro é indicado pela editora para leitores a partir dos 14 anos.

Na história, a personagem principal – cujo nome só é revelado no fim da história, porque pode ser Olívia, mas pode ser o de qualquer menina – mora com os pais, com quem tem uma boa relação É independente, responsável e gosta de ouvir músicas “antigas”, como Caetano Veloso e Rita Lee. Mas, mesmo com toda abertura que tem em casa e com as amigas, não consegue contar para ninguém quando é vítima de assédio no meio da rua.

“É um livro absolutamente ficcional, mas, de um modo geral, é muito próximo da minha adolescência. Vivi duas situações de assédio quando era muito novinha. Eu tinha 11 anos, morava em um bairro distante, na periferia de São Bernardo, e ia para a escola de ônibus de linha”, conta Penélope. “Eu me senti culpada, envergonhada e, para a época, tive uma conversa ampla com meus pais. Minha família tinha uma certa liberdade para tratar de determinados assuntos, mas em outros aspectos não se afastava de uma família conservadora.”

No livro, Olívia também acaba conseguindo falar sobre o que viveu, o que alivia sua dor. E quando sofre uma segunda situação de assédio, consegue reagir e é acolhida.

Palavras e imagens. Indicado pela editora para leitores a partir de 8 anos, Leila é um livro ilustrado, desses em que imagens e texto se relacionam para contar a história. No projeto gráfico, Thais trabalha com a página dupla, tanto na horizontal quanto na vertical, como se não houvesse margem separando o lado esquerdo do direito.

Nas sucessivas abordagens do vizinho, Leila quer pedir socorro, mas não consegue. E certa hora, em que estão apenas os dois, Barão corta os cabelos que a baleia tanto amava. “Eu gosto assim, pequena”, ele diz. “Pequena, o que aconteceu aqui será nosso segredo! Não diga a ninguém!”

Leila mergulha então numa tristeza profunda e desiste de nadar. O luto e o resgate da baleia com a ajuda de amigos marinhos são narrados por meio de uma sequência de três páginas duplas verticais sem texto. Aqui, o leitor tem de girar o livro – da horizontal para a vertical – para fazer a leitura das imagens, e é esse movimento que dá profundidade ao mar, que faz o leitor sentir a queda e a tristeza profunda de Leila.

Ainda presa em uma profusão de sentimentos, a baleia encontra novamente Barão. E consegue falar tudo o que queria ter dito. É por meio da fala que Leila se liberta.

“O livro deixa clara a importância da voz. É preciso nos conhecermos, ouvirmos nossa própria voz”, diz Tino, que conta que a vontade de escrever sobre assédio surgiu após a visita a uma escola, em que teve a sensação de que uma das crianças sofria violência.

No livro, as ilustrações são como uma lente fotográfica, e Thais se aproveita de ângulos inusitados. Ora Leila nada no imenso mar, ora surge dentro do olho do Barão, pequena e frágil, ora o vizinho aparece imenso, ora vemos apenas um de seus tentáculos. É pelas imagens que descobrimos, por exemplo, o tamanho do Barão e como Leila se sente diminuída com a violência.

MINHA VIDA NÃO É COR-DE-ROSA

Autora: Penélope Martins

Editora: Editora do Brasil (136 págs.,R$ 50)

LEILA

Autores: Tino Freitas e Thais Beltrame

Editora: Abacatte (52 págs., R$ 44)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Fonte: CORREIO

BIBLIOTECÁRIA DESENVOLVE APLICATIVO DE LEITURA PARA CRIANÇAS QUE USA FERRAMENTAS DE INTERAÇÃO

Chamado de TecTeca , o aplicativo integra o Programa “Inova Maranhão”, da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI), do governo daquele estado

Mercado editorial investe em livros que ensinam cidadania às crianças

Títulos evitam levantar bandeiras, mas tratam de dilemas políticos de forma lúdica

O brasileiro 'Quem manda aqui? - um livro sobre política para crianças' teve seus direitos de publicação vendidos para 14 países Foto: Reprodução
O brasileiro ‘Quem manda aqui? – um livro sobre política para crianças’ teve seus direitos de publicação vendidos para 14 paísesFoto: ReproduçãoRuan de Sousa Gabriel – O Globo
Capa do livro
Capa do livro “Eleição dos bichos”, publicado pela Companhia das Letras Foto: Divulgação

A Companhia das Letrinhas já havia publicado outro livro do quarteto: “Quem manda aqui?”, que explica às crianças como funcionam as estruturas de poder e que ganhou uma edição espanhola e outra chilena. Ambos os livros nasceram de discussões e oficinas sobre democracia realizadas com crianças.

— Não é fácil vender direitos de publicação de livro infantil, ainda mais para países tão diferentes, mas esses livros falam de temas importantíssimos nesta época em que a democracia está ameaçada em vários países — diz Mell Brites, editora-executiva do Grupo Companhia das Letras. — Queremos publicar mais livros sobre política e temas como gênero, preconceito e refugiados para crianças. Precisamos conversar com as novas gerações se quisermos mudanças efetivas. É a única solução.

Desde a eleição de Donald Trump, as livrarias foram invadidas por títulos que tentam explicar a ascensão populista, como “O povo contra a democracia”, de Yascha Mounk, e “Como as democracias morrem”, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Paralelamente, a oferta de títulos infantis que discutem temas como democracia e como lidar com a diferença também aumentou.

— Questões como feminismo, raça, classes sociais e meio ambiente ganharam espaço e a necessidade de debatê-las influencia também a produção literária voltada ao público infantil — diz Ana Tavares, gerente editorial da Zahar, editora que publicou biografias de líderes como Nelson Mandela, Rosa Parks e Malala Yousafzai para pequenos leitores. — Pais e responsáveis preocupados com o futuro da democracia tendem a incentivar crianças a buscar leituras mais críticas sobre o que estamos vivendo.

Lições de democracia

Assim como as obras que explicam a confusão política para os adultos, os títulos que dão lições de democracia às crianças vendem bem. Os quatro livros da coleção “Livros para o amanhã”, publicado pelo Boitatá, selo infantil da Boitempo, venderam mais de 35 mil exemplares desde o final de 2015. A coleção têm títulos como “O que são classes sociais?” e “A democracia pode ser assim”.

— Política também é coisa de criança — afirma Ivana Jinkings, diretora da Boitempo. — Os livros do Boitatá buscam responder a uma forte demanda que percebemos de pais e educadores quando encontram material de apoio adequado para explicar às crianças conceitos como “democracia”, “impeachment” e “corrupção”. As crianças veem tudo isso na TV e na internet e querem participar.

Capa do livro
Capa do livro “Meu crespo é de rainha”, de bell hooks, publicado pelo Boitatá, selo infantil da Boitempo Foto: Divulgação

O Boitatá publicou livros infantis e pensadores como a feminista negra americana Bell Hooks (“Meu crespo é de rainha”) e o italiano Antonio Gramsci (“O rato e a montanha”). Lançou também “O Capital para crianças”, Joan R. Riera, no qual o Vovô Carlos conta aos netinhos a história do operário Frederico, que não entendia por que não conseguia comprar na feira as meias que ele próprio produzia na fábrica. Só este ano, “O Capital para crianças” vendeu mais de 4,3 mil exemplares.

— Não são livros que levantam bandeiras, mas que tratam de política, filosofia, meio ambiente e diversidade de forma lúdica e delicada — diz Ivana. — Queremos livros que apontem formas diversas de ver e organizar o mundo, com o cuidado de não serem esquemáticos, dogmáticos ou totalizantes.

Turminha da liberdade

Giuliano Miotto, autor dos livros da Turminha da Liberdade, publicados pelo Instituto Liberdade e Justiça, também afirma tentar desviar do dogmatismo ao adaptar, para crianças, as ideias de pensadores liberais como o austríaco Ludwig von Mises e a russo-americana Ayn Rand.

— Meu objetivo não é ensinar valores de direita ou esquerda, mas universais, como responsabilidade individual, autoestima e produtividade — diz. — Responsabilidade individual para aprender a arrumar o quarto e cumprir suas tarefas; autoestima porque um povo sem autoestima empreende pouco; e que produtividade não é só ganhar dinheiro, mas ser útil, produzir algo de valor.

Os dois livros da Turminha da Liberdade — “Anya e o mistério do sumiço do cãozinho Galt” e “Antônio e o segredo do universo em breves lições” — foram financiadas coletivamente e podem ser comprados pela internet por R$ 42 (frete incluso). No primeiro livro, um cãozinho se revolta contra o autoritarismo de um rei que roubava os bens dos outros. No segundo, um vendedor de churros ensina as vantagens da livre iniciativa a um menino.

— Queremos que esses valores impactem positivamente a vida das crianças e também o debate político, que anda muito pobre: ou é “Lula preso” ou é “Lula livre” — afirma Miotto.

Para Maria Amélia Dalvi Salgueiro, professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), a assimilação dos valores democráticos pelos pequenos leitores depende não só das historinhas que os livros contam, mas também do adulto que lê com a criança.

— Obras podem ser lidas politicamente a depender o mediador. O sentido de um texto é produzido no exercício de leitura. Até o livro mais progressista pode ser lido acriticamente — explica. — Só conseguimos formar leitores críticos quando instigamos suas dúvidas, acolhemos suas perguntas e os incentivamos questionar a realidade.

Fonte: Blog do Flávio Chaves

A negritude em primeiro plano nos livros infantojuvenis

Livros infantojuvenis destacam personagens negros com o objetivo de representar e levar o debate sobre as singularidades de raça e seus questionamentos à infância

Texto por Adriana Izel

Chris Donizete levou para o livro vivências da mãe e da avó
(foto: Denadai Comunicação/Divulgação)

Mesmo que ainda de forma tímida, a literatura infantojuvenil tem aberto espaço para representar uma parcela da população que costuma ficar de fora do protagonismo: os negros. Nos últimos anos, cresceu o número de livros em que crianças negras fazem parte do ponto principal das tramas. Essa diversidade nas páginas é um resultado da abrangência do tema e de uma representação da realidade, já que o Brasil é um país com mais da metade da população declarada não branca, ou seja, formada por pardos e pretos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Introduzir a representação e o debate sobre questões ligadas à negritude logo na infância é um dos fatores apontados como primordiais para a luta contra o racismo. “As crianças não nascem com preconceitos ou juízos de valores. Elas adquirem com o tempo, repetem o comportamento das pessoas com as quais convivem e da sociedade que as cercam e, em determinado momento da infância, se tornam preconceituosas. E não estamos falando só do preconceito racial. Sabemos que os pais desempenham um papel essencial na criação de uma sociedade igualitária ao educarem os filhos para que não sejam perpetuadores de preconceitos. Na verdade, precisamos exercitar o não preconceito”, avalia a escritora Chris Donizete.

A jornalista e publisher da Soul Editora é a autora do livro MaríLia — A menina que não sabia que era preta, obra lançada neste ano que aborda o racismo na infância por meio da história da protagonista, uma garota que sofre preconceito de uma colega por conta da cor da pele. A menina a separa dos demais amigos por ser “pretinha”. “O livro abrange não só discussões sobre preconceito racial, mas também que tenhamos atitudes mais respeitosas com todos. Empatia para respeitar as diferenças que encontraremos no decorrer do caminho da vida: cor da pele, estruturas genéticas (peso, altura, tipo de cabelo, etc.), nacionalidade, religião, orientação sexual”, revela.

Inspirado nas vivências

A ideia de escrever o material veio da vivência da mãe e da avó de Chris Donizete, Maria e Lia, respectivamente, daí, inclusive, vem o nome da protagonista da história, uma junção que presta  homenagem às matriarcas. “O livro nasceu do relatos delas a respeito de situações, nas quais foram muito discriminadas e maltratadas. A primeira descoberta do preconceito foi na rua de casa e, posteriormente, na escola. Claro que não faltaram momentos na adolescência, na época do namoro ou ainda quando buscavam emprego. Mas algo que marcou muito foi minha mãe se descobrindo negra, sendo atacada por outra criança. O impacto de saber que sua cor não era aceita e ela nem tinha ideia do que ainda passaria. Minha mãe é de 1945, portanto imagine quanta coisa ela não passou”, afirma a autora.

Em MaríLia – A menina que não sabia que era preta, Chris Donizete adota uma linguagem simples, mas esclarecedora e positiva. “Foi totalmente pensada para agradar às crianças. O formato de rima, além de facilitar a leitura, ajuda muito o aprendizado daqueles que estão em processo de alfabetização. As ilustradoras (Fabiana Costa e Gabriela Hirota) foram fundamentais para dar vida aos personagens. A ideia é de que pais e professores, ao lerem a obra para seus filhos e alunos, tenham a consciência de que o racismo existe, mas que pode e deve ser combatido. Toda hora é hora de falar sobre a dor do outro. Que pais e mães negros possam empoderar seus filhos para que saibam combater e argumentar o racismo. É inadmissível, principalmente nos dias atuais, que a cor da pele de uma pessoa possa ser essa grande barreira. As crianças pretas devem sentir orgulho de sua cor, ancestralidade, traços e isso deve se iniciar no lar, para que possam se impor diante de situações racistas. Que todos saibam que racismo é crime”, completa.

A saga de MaríLia teve início neste ano em A menina que não sabia que era preta, mas ganhará novos desdobramentos. Ao Correio, Chris Donizete adiantou que, a partir de 2020, serão lançados mais volumes: MaríLia e Caju, que abordará a amizade com um menino ruivo; MaríLia e os amiguinhos bolivianos, história ambientada em uma sala de aula sobre as barreiras culturais envolvendo alunos bolivianos; MaríLia em Minha avó virou estrelinha, sobre a perda de um ente querido; MaríLia em Não compre, adote!, com ensinamentos sobre o universo da adoção de cães e gatos; e MaríLia e os monstros, que se destrincha sobre a depressão infantil. “Ela será a voz para aqueles que não têm. Os temas são os mais diversos, sempre voltados ao universo infantil”, acrescenta.

Professora Sinara Rúbia apresenta uma princesa negra e guerreira
(foto: Arquivo pessoal)

Novos olhares

Também foi neste ano que a professora Sinara Rúbia publicou o livro Alafiá, a princesa guerreira, pela Nia Produções Literárias. A obra nasceu da elaboração de uma monografia no curso de letras da Universidade Estácio de Sá (Unesca), em Petrópolis (RJ), iniciada após a procura — sem sucesso — da autora por referências na cultura negra para apresentar a filha de 3 anos. “Comecei a procurar personagens e referenciais dentro da literatura. Entendi a escassez e praticamente ausência de personagens negros com referenciais positivos e saudáveis. Quando tinha, eram sempre estereotipados e narrados de uma outra forma a partir do racismo”, explica em entrevista à Agência Brasil.

A partir desses questionamentos, surgiu Alafiá, a princesa guerreira. Num formato de conto de fadas tradicional, o livro retrata a aventura dessa princesa negra que foi escravizada no período da colonização brasileira e se tornou numa guerreira e quilombola. A história passa lições de resistência e resiliência. Para a criação do conto de Alafiá, Sinara entrevistou meninas negras entre 5 e 12 anos que integravam o sistema público de ensino de Petrópolis, com o objetivo de fazer uma representação mais real.

Conhecido como o “livreiro do Alemão”, Otávio Júnior é o autor de duas obras infantis em que o olhar negro e periférico são pontos-chaves. O primeiro deles é Da minha janela, com ilustrações de Vanina Starkoff e grafites do Atelier das Palavras — Associação Meninas e Mulheres do Morro. No livro, o autor compartilha as paisagens vistas por um jovem negro da favela, desde as mazelas — “Da minha janela escuto sons que me deixam muito triste. Às vezes não posso ir para a escola, nem jogar bola lá fora” — até as pequenas alegrias — “A nossa brincadeira preferida é microfone sem fio, que vira funk, que vira rima e se transforma em poesia”.

“Da minha janela eu vejo milhares de histórias e desejo contá-las, ouvi-las e ajudar a serem contadas. Vivo para contar histórias, sobretudo da favela, que é um mundo dentro de algumas cidades, com sua língua, costumes, cultura e tradições. Fui salvo por um livro, pois acredito na força desse objeto mágico — e quero que a favela esteja imortalizada dentro dele”, explica o autor nas próprias páginas do livro sobre a motivação da história.

A outra obra com essa temática do autor é Grande circo favela, com ilustrações de Roberta Nunes. A história acompanha Ju, uma menina negra que se encanta com um palhaço e com a vida circense, dois elementos que ela nunca tinha tido acesso até então na periferia onde mora. A pequena ajuda o personagem a criar um picadeiro na favela, mesmo com todas as adversidades, como a falta de lona, cadeiras, pipoqueiro, baleiro e bilheteiro.

Marília — A menina que não sabia que era preta

De Chris Donizete. Ilustrações de Fabiana Costa e Gabriela Hirota. Editora Soul, 44 páginas. Preço médio: R$ 39,90.

Alafiá, a princesa guerreira

De Sinara Rúbia. Ilustrações de Valeria Felipe. Nia Produções Literárias. Informações para compra em https://www.facebook.com/NiaProducoesLiterarias/.

Da minha janela

De Otávio Júnior. Ilustrações de Vanina Starkoff. Companhia das Letrinhas, 48 páginas. Preço médio: R$ 34,90.

Grande circo favela

De Otávio Júnior. Ilustrações de Roberta Nunes. Estrela Cultural, 32 páginas. Preço médio: R$ 34,90.

Fonte: Correio Braziliense

Censura aos livros infantojuvenis

PUBLISHNEWS, PEDRO ALMEIDA

Recentemente, a escritora Luisa Geisler foi desconvidada de uma feira no interior gaúcho sob a alegação de que o seu novo livro contém ‘linguagem inadequada’. Em sua coluna, Pedro Almeida faz reflexões sobre o caso.

Desde que existe mercado editorial, há critérios rígidos para livros voltados para crianças e adolescentes em instituições educacionais: sendo o principal a orientação por faixa etária. E, pelo mercado, diferenciamos pelo meio principal de comercialização: se é livro cuja venda será feita em livrarias ou adotado por escolas e programas de governos. Há, nessas divisões, preceitos bastante ultrapassados e eles surgem e são mantidos especialmente pelas fontes oficiais, há décadas. Mas um caso ocorrido na semana passada, do desconvite de uma autora às vésperas de sua participação numa feira de literatura no Sul do país, reacendeu o debate sobre censura de livros em escolas. O que há de novo? Estamos diante de algum fenômeno novo? E o que podemos fazer a respeito?

Para falar sobre o assunto, primeiro preciso apresentar os diversos nichos do mercado de livros infantis e juvenis.

Você sabe qual é a diferença entre os romances para Jovens Adultos, conhecidos como YA (young adult), e os tradicionais livro juvenis?

Os bibliotecários no mundo e a maioria dos editores de livros dividem os livros de ficção em categorias de acordo com a idade. Os agrupamentos padrão para a maioria são:

Pré-leitor – do nascimento aos 5 anos

Infantil ou criança – de 5 a 12 anos

Juvenil ou midle grade – de 12 a 15 anos

Adolescente ou Young Adult (YA) ou Jovem adulto – de 15 a 20 anos.

Adulto jovem – de 20 a 30 anos

Adulto – mais de 30 anos

Esses critérios etários são baseados em vocabulário, interesses, tópicos, maturidade da linguagem e das experiências narradas. A diferença entre os livros juvenis e os jovens adultos (não confundir com adulto jovem!) estão nos temas, nos assuntos abordados, na linguagem e discussões mais explícitas, e também na abordagem sobre sexo, ou seja, no universo em que o leitor está inserido em seu dia a dia.

Enquanto nos Juvenis, via de regra, não deve haver menção ao uso de drogas, bebidas e temas fortes como morte, doença, suicídio, incesto e abusos, nos YA esses temas podem ser tratados e até é esperado que isso seja feito, pois fazem parte de seu cotidiano.

Há uma distinção clara também entre quem decide a compra de cada um

Os livros Juvenis, em geral, são comprados ou indicados por adultos, sejam pais (nas livrarias e pontos de varejo), professores e diretores (em escolas) ou técnicos e especialistas em pedagogia (em programas de governo). Já os livros YA são escolhidos e comprados pelos jovens, diretamente no varejo convencional, como livrarias.

A censura sobre livros YA nas escolas não começou hoje. Sempre ocorreu. Basta ver os critérios de escolhas dos programas públicos do livro, de leitura em sala de aula, etc. Para livros comprados com objetivos educacionais (em escolas, por professores, e em programas de governo, por técnicos), existe a necessidade de haver sempre um foco pedagógico, por exemplo, seguindo temas transversais orientados por cada faixa etária, como os editais públicos exigem.

Para simplificar, vamos lá:

Livros juvenis adotados em escolas e em programas públicos têm um caráter educativo. Há livros juvenis publicados especialmente para o varejo tradicional, sem objetivos de adoção pedagógica, mas no Brasil esse segmento ainda é muito restrito. Mas naqueles destinados especialmente às escolas, conter palavrões ou palavras chulas, cenas de sexo, doenças ou morte de forma realista é amplamente evitado desde sempre. Que professor quer ser acusado incitação ao ódio, violência ou exposição a palavras grosseiras, a cenas ou teor sexual ou dor ao oferecer uma leitura aos seus alunos?

Os livros YA já são completamente diferentes. A ideia não é ser pedagógico, mas sim realista, com uma linguagem mais informal para dialogar com o jovem, falar de coisas mais sérias, tristes também, de seu dia a dia, respeitando a maturidade do leitor dessa idade, que já pode lidar com esses temas sem a supervisão de um professor.

Vamos a exemplos de livros para jovens adultos:

A culpa é das estrelas (doença / câncer / morte), Jogos Vorazes (violência explícita / manipulação política), Se eu ficar (morte / perda), Juno (gravidez na adolescência), Os 13 porquês ( suicídio).

Agora vamos analisar uma lista de livros juvenis bem recomendados em escolas:

A coisa brutamontes – fala de morte, mas usando metáforas.

O cão e o curumin – traz uma história de amizade entre o cachorro e seu amigo.

O dia em que a minha vida mudou por causa de um pneu furado em Santa Rita do Passa Quatro – um livro que conta reflexões de uma menina sobre o crescer.

O menino que vendia palavras, de Ignácio de Loyola Brandão – uma história sobre o significado das palavras.

A menina que abraça o vento – conta a história de uma refugiada congolesa.

Tem sempre um diferente – história sobre o respeito à diversidade.

Diário de Pilar no Egito – livro de aventuras contemporâneo sobre viagens no estilo Julio Verne.

Com essa amostra, é possível ter uma medida do que acontece no mercado.

Decidi escrever isto depois da celeuma acerca da autora de YA ter sido desconvidada de última hora para uma feira de livros na cidade de Nova Hartz, no interior do Rio Grande do Sul. Acho ótimo o debate, mas precisamos dirigir a revolta para as causas reais. Não podemos transferir a responsabilidade do que aconteceu para o público, para as pessoas comuns, ou para a feira. Há uma engrenagem que decidiu isso muitas décadas atrás e continua decidindo o que crianças, sob o abrigo de uma escola, devem ler.

Outro dia publiquei um livro dirigido à faixa etária de 10 a 12 anos, e a profissional muito experiente, encarregada de fazer divulgação nas escolas, me disse que havia palavras lá que não poderiam constar em um livro adotado por escolas: cocô, pé no saco e uma outra bobagem.

Neste mês, um autor que publico e escreve thrillers de suspense, pôde ir a uma escola para falar na semana de literatura sobre ser escritor, mas não pôde sortear livros para as crianças. Os professores me explicaram que preferiram que os alunos interessados comprassem nas livrarias, com a concordância dos pais. Bastaria um pai de aluno incomodado por seu filho voltar para casa, com um livro que considerasse forte, para a direção da escola decidir acabar com a visita de autores semelhantes nas semanas de literatura.

O que podemos fazer?

Nós precisamos direcionar nossa indignação para os lugares certos: programas públicos de avaliação de obras, programas de incentivo à leitura, bibliotecas, professores, diretores de escolas e pais. Precisamos demonstrar aos pais que não é um livro com algumas palavras chulas que irá deformar o caráter de seus filhos, já que elas são ouvidas pelas crianças o tempo todo na TV e rádio, nos intervalos comerciais, no cinema, nas ruas, e na internet e redes sociais. Não seria especificamente no livro, que essas palavras, fariam o mal. E, mais importante, que livros apenas de “conto de fadas”, onde tudo é somente ou bom ou mal, sem muitos sobressaltos, não educam jovens para a maturidade. E talvez os tornem tolos, ingênuos e despreparados para o mundo real.

Mas somos nós, da imprensa, do mercado editorial, dos programas de bibliotecas e de livros paradidáticos, e de escolas privadas, que devemos dar o primeiro passo no sentido de mudar esse quadro. É arriscado, sabemos. Uma editora pioneira, ao fazer isso, pode ter seu livro rejeitado e sua edição trazer prejuízos; uma escola pode ser nomeada numa manchete negativa em um jornal; uma premiação de livro juvenil mais ousado pode sofrer ataques nas redes sociais, boicotes e até manifesto; uma feira do livro pode ser criticada. Sim, isso tudo pode acontecer. Na verdade, esse último caso acaba de acontecer. Só não podemos criticar um caso, como o da autora desconvidada da feira, sem compreender que o problema não é novo, porque não é justo. Cabe especialmente a quem tem informação fazer sua pequena parte para que isso mude. Já pararam para pensar que foram algumas pessoas ousadas que tentaram levar esse livro e essa autora ao evento e agora, todos nós, com a intenção de lutar pela liberdade, estamos justamente intimidando outras pessoas, curadores, professores a tentarem o mesmo feito? Criticar, apenas, não é o caminho.

Mas há outra questão me parece mais preocupante. Para um livro ser aceito com propósitos pedagógicos numa sala de aula, há tantos preceitos, recomendações sobre sutilezas, desde as imagens que se usa, paridade entre gêneros, raças, usos de vocabulários, lições educativas, etc. que uma questão muito relevante não é priorizada: estes livros agradam aos jovens em formação enquanto leitores? Ou não prendem a atenção deles, a ponto que raramente são recebidos com entusiasmo pelos jovens e apenas os alunos mais submissos, decoradores, obedientes, ou que entendem que, não importa sua opinião, sabem o que deve ser dito/respondido nas provas para serem aprovados. Se isso acontece é uma receita do fracasso: perdemos com a falta de interesse dos alunos pela leitura; perdemos por validar um processo que não é estimulante para a maioria dos alunos e perdemos por ensinar aos mais perspicazes que o cinismo é a boa aptidão para vencer no mundo. E continuaremos a culpar os motivos errados cada vez que um fato como este tornar a acontecer.

Fonte: PUBLISHNEWS

Livros infantojuvenis vão além do ‘era uma vez’

Trabalhos de Jacques Fux e Leo Cunha criam abordagens que aproximam a literatura de outras áreas, brincando com enigmas e os manuais

Por CARLOS ANDREI SIQUARA
Jacques Fux
“O Enigma do Infinito”, de Jacques Fux, é inspirado em “Alice no País das Maravilhas”, entre outras referências
Foto: Raquel Matsushita/Divulgação

Em um livro infantojuvenil cabe algo mais do que histórias curiosas sobre terras imaginárias ou aventuras em lugares distantes. Há também espaço para o jogo com conceitos matemáticos, filosóficos e até aproximações com o universo da alquimia e suas receitas mirabolantes. É o que demonstram os livros recentes “O Enigma do Infinito” e “O Livro Maluco das Poções Mágicas”, publicados, respectivamente, pelos escritores mineiros Jacques Fux e Leo Cunha.

O primeiro título marca a estreia de Fux, vencedor do prêmio São Paulo de Literatura 2013, nessa seara. Leitor voraz de narrativas infantis, ele conta que “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll (1832- 1898), é um dos seus livros preferidos e, certamente, foi um dos responsáveis por estimular sua escrita para além do público adulto.

“Vale lembrar que Carroll era matemático e que tanto em ‘Alice no País das Maravilhas’ quanto em ‘Alice Através do Espelho’ ele está tentando ensinar alguns princípios de lógica e matemática para Alice Lidell (1852-1934), a quem ele dedica os livros. Eu sempre gostei desse tipo de literatura, que é capaz de encantar adultos e crianças. E acho que meu livro tem muito a ver com Alice no sentido de também lidar com essa noção de enigma, o que pode estimular o leitor a solucioná-lo ao longo das páginas”, afirma Fux.

Também matemático, o escritor observa que “O Enigma do Infinito” é outro desdobramento de sua tese de doutorado, em que ele já aproximava a linguagem matemática da literária, a partir da análise da produção do argentino Jorge Luis Borges (1899) e do francês Georges Perec (1936- 1982).

Em vez de conceber uma história em torno da qual gravita todo o livro, seu trabalho mais recente desvela um conjunto de pequenas narrativas, que, por sua vez, oferecem diferentes vias de entrada.

“Acho que existem várias formas de leitura desse livro. Ele é para todas as idades e pode ser muito atrativo para jovens estudantes. Eles podem, a partir da leitura, dar conta de que a matemática não é algo assim tão difícil e que ela não está tão separada da literatura. Eu acho que ‘O Enigma do Infinito’ é um livro que buscar fazer as pazes entre essas duas áreas”, acredita Fux.

Ele também acrescenta que a obra provoca outros olhares para a noção de enigma, que, embora se aproxime da ideia de problema, tão cara à matemática, dentre outras áreas do pensamento, não deve ser compreendida como algo vinculado a um obstáculo imobilizante.

“Nós podemos pensar o enigma por meio de um viés literário, que está na literatura de Edgar Allan Poe (1809-1849) e Borges, por exemplo. A palavra ‘enigma’ também nos remete à Segunda Guerra e à máquina de codificação de Alan Turing (1912-1954). Ou seja, o enigma envolve um universo muito rico, que nos leva a pensar no poder da imaginação. Enquanto alguns enigmas vão sendo resolvidos, há outros novos que vão sendo criados”, reforça Fux.

Estreitar as fronteiras entre mundos aparentemente incompatíveis, pontua Fux, também tem sido uma das tarefas dos escritores contemporâneos, que, observa ele, têm chamado atenção para a artificialidade dessas separações.

“Durante alguns séculos do desenvolvimento do conhecimento, nós tivemos que nos especializar, e as áreas não conversavam. Esse foi um momento importante para a física, a matemática, a história, entre outras. Mas, atualmente, o escritor tem essa possibilidade de abraçar as diversas áreas, o que, para as crianças de hoje, pode representar um ganho e um salto na maneira de compreender o mundo no futuro”, pontua Fux.

Manuais. O veterano Leo Cunha, já contemplado com o Jabuti e o Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional, entre outros, sublinha que “O Livro Maluco das Poções Mágicas” brinca com o estilo dos manuais e traz uma lista de bebidas, como a “mate-mágica”, que “transforma nossa mente em uma máquina de calcular”. “Ideal para a época das provas”.

O título também é permeado de ambiguidades, que provocam o leitor a ter uma atenção redobrada com as relações entre palavra e imagem. “O texto diz que a personagem, por exemplo, encontra um baú enorme em determinado contexto maravilhoso, mas a imagem mostra outra coisa. Então, o livro estabelece jogos, e a ilustração amplia as possibilidades de leitura e não está ali apenas com uma função decorativa”, frisa Cunha.

Saiba mais

“Ada Batista, Cientista”, de Andrea Bety e David Roberts, inaugura a Coleção Jovens Pensadores (Intrínseca), que aproxima a literatura infantil de outras áreas.

Fonte: O TEMPO

A importância da leitura e literatura infantil na formação das crianças e jovens

(*) Marisalva Alves

(*) Cleilta Vieira

A infância é o melhor momento para o indivíduo iniciar sua emancipação mediante a função liberatória da palavra. É entre os oito e treze anos de idade que as crianças revelam maior interesse pela leitura. O estudioso Richard Bamberger reforça a idéia de que é importante habituar a criança às palavras. “Se conseguirmos fazer com que a criança tenha sistematicamente uma experiência positiva com a linguagem, estaremos promovendo o seu desenvolvimento como ser humano.”

Inúmeros pesquisadores têm-se empenhado em mostrar aos pais e professores a importância de se incluir o livro no dia-a-dia da criança. Bamberger afirma que, comparada ao cinema, ao rádio e à televisão, a leitura tem vantagens únicas. Em vez de precisar escolher entre uma variedade limitada, posta à sua disposição por cortesia do patrocinador comercial, ou entre os filmes disponíveis no momento, o leitor pode escolher entre os melhores escritos do presente e do passado. Lê onde e quando mais lhe convém, no ritmo que mais lhe agrada, podendo retardar ou apressar a leitura; interrompê-la, reler ou parar para refletir, a seu bel-prazer. Lê o que, quando, onde e como bem entender.

Essa flexibilidade garante o interesse continuo pela leitura, tanto em relação à educação quanto ao entretenimento.

O desenvolvimento de interesses e hábitos permanentes de leitura é um processo constante, que principia no lar, aperfeiçoa-se sistematicamente na escola e continua pela vida afora.

No caso dos bebês, que ainda estão em processo de desenvolvimento da visão, os contrastes são ótimas pedidas, pois atraem a atenção dos pequenos. Bem como os livros de pano, banho e interativos (com sons, por exemplo), que são perfeitos para os leitores de berço. Também é fundamental que o adulto responsável compreenda que mesmo que a criança ainda seja muito novinha, ela absorve muito na leitura compartilhada, principalmente o amor e o carinho deste momento. Descobrir estes sentimentos desde bebezinhos, poderá ser uma excelente conquista para toda a vida.

Diante disso, a escola busca conhecer e desenvolver na criança as competências da leitura e da escrita e como a literatura infantil pode influenciar de maneira positiva neste processo. Assim, Bakhtin (1992) expressa sobre a literatura infantil abordando que por ser um instrumento motivador e desafiador, ela é capaz de transformar o indivíduo em um sujeito ativo, responsável pela sua aprendizagem , que sabe compreender o contexto em que vive e modificá-lo de acordo com a sua necessidade.

Quanto mais cedo a criança tiver contato com os livros e perceber o prazer que a leitura produz, maior será a probabilidade dela tornar-se um adulto leitor. Da mesma forma através da leitura a criança adquire uma postura crítico-reflexiva, extremamente relevante à sua formação cognitiva.

Estratégias para o uso de textos infantis no aprendizado da leitura, interpretação e produção de textos também são exploradas com o intuito final de promover um ensino de qualidade, prazeroso e direcionado à criança. Somente desta forma, transformaremos o Brasil num país de leitores.

(*) Marisalva Alves da Silva e Cleilta Vieira dos Santos Silva são educadoras da rede de ensino de Rondonópolis

Fonte: A Tribuna MT

Literatura infantil negra: a importância da representatividade nos livros

Obras infantis com protagonistas negros e histórias que resgatam a ancestralidade africana fortalecem a construção das identidades em crianças afro-brasileiras

Texto por Daniel Medeiros

As irmãs gêmeas Helena e Eduarda Ferreira possuem um canal no YouTube com dicas de livros – Foto: Reprodução/Instagram

Na infância, o livro pode funcionar como uma porta de entrada para o autoconhecimento. Através das primeiras leituras, meninos e meninas são levados a um caminho de construção das próprias identidades, aprendendo sobre seu passado e desenvolvendo ideias. No entanto, não é tão fácil para todas as crianças se reconhecerem em muitas dessas histórias. Mesmo que o tema representatividade esteja em alta nos últimos tempos, a presença de protagonista negros na literatura infantil ainda não é expressiva.

Essa é uma realidade sentida pelas irmãs cariocas Eduarda e Helena Ferreira, de 10 anos. Leitoras vorazes desde que foram alfabetizadas, as gêmeas sabem bem o que é folhear as páginas de um livro e não encontrar personagens com os quais se identifiquem. Donas de um canal no YouTube, o Pretinhas Leitoras, elas tentam ajudar outras crianças com dicas de obras que leram e gostaram.

“A gente quase não encontra livros falando sobre pessoas pretas. Se a gente procurar uma história para ajudar numa situação de racismo, vai ser complicado achar”, lamenta Eduarda. “A história do nosso povo a escola não conta. Por isso, para que outras crianças possam crescer conhecendo a trajetória do nosso povo, foi que a gente criou o canal”, completa Helena. Moradoras do Morro da Providência, na Zona Central do Rio de Janeiro, elas contam ainda com páginas no Instagram e no Facebook.

Mas não é apenas no ambiente virtual que o projeto da duplinha é ativo. Na companhia da irmã caçula, Elisa, elas vêm participando de diversos eventos, como feiras literárias e rodas de leitura. “A gente oferece uma mediação do livro. As crianças podem conversar com a gente e nós tentamos responder as perguntas delas”, explica Eduarda. Para a mãe das garotas, a pedagoga Elen, o envolvimento que as filhas têm com a literatura deveria ser regra e não exceção. “Quando as crianças têm acesso aos livros, elas vão criando estratégias para se protegerem de eventuais violências e, no futuro, cobrarem medidas que as protejam”, defende.

A professora e pesquisadora Dayse Cabral, coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da Universidade Federal de Pernambuco (NEAB-UFPE), afirma que é fundamental apresentar para as crianças narrativas com protagonistas negros em situações de empoderamento. Segundo a especialista, se partirmos de uma observação histórica, a representação que a literatura brasileira faz dos negros tem sido em situações de subalternidade, escravidão e pobreza.

“Aos brancos sempre são dadas as representações de reis, rainhas, princesas, príncipes, heróis e heroínas. A criança negra cresce sem ter a oportunidade de se ver representada nesses papéis importantes. Isso representa um impacto para sua autoestima, autoconceito e compreensão de sua ancestralidade. Tem implicações sobre o desconhecimento sobre o legado africano e a afirmação do sua identidade racial”, afirma a educadora.

É visando transformar esse quadro que cada vez mais artistas negros com grande destaque midiático vêm lançando livros para os pequenos. Um exemplo é a atriz mexicana Lupita Nyong’o, estrela de filmes como “Nós” e “Pantera negra”. Sua primeira obra literária, “Sulwe” chegou ao Brasil em outubro. Em seu perfil no Instagram, ela afirmou que escreveu o livro “para encorajar as crianças (e todos realmente!) a amarem a pele em que estão e ver a beleza que irradia de dentro”. No Brasil, o ator e dramaturgo baiano Lázaro Ramos e o rapper Emicida também publicaram títulos para o público infantil, com foco em temas como a riqueza cultural afro-brasileira e o combate ao racismo.

Escritores como os citados anteriormente são capazes de dialogar com os leitores e gerar a tão procurada identificação, pois falam a partir de suas próprias vivências enquanto negros. Nos últimos anos, a quantidade de autores com esse perfil aumentou, mas a inserção de seus trabalhos nas editoras ainda enfrenta barreiras. “Observem as feiras de livros: ainda é um percentual muito pequeno da presença da literatura africana e afro-brasileira. Devemos romper com o perigo da história única, de contarmos apenas contos europeus e norte-americanos, de apresentarmos apenas para as crianças as princesas da Disney”, alerta Dayse Cabral.

Uma autora engajada

“A literatura que tem produzido revolução na última década entre negras e negros é aquela produzida por escritoras(es) negras(os), com consciência racial e do racismo no país, buscando valorizar o continente africano e as culturas afro-brasileiras”, afirma Kiusam de Oliveira. Ativista do movimento negro, a autora e educadora paulista é reconhecida por tratar de questões étnico-raciais em suas obras.

Com suas histórias, Kiusam oferece às crianças importantes ferramentas para lidar com o bullyng e o racismo. “O mundo no black power de Tayó”, por exemplo, fala de uma menina cheia de amor próprio e que não aceita quando os colegas de classe dizem que seu cabelo é ruim. A protagonista fez tanto sucesso entre os leitores que ganhou uma série de tirinhas, ilustradas por Amora Moreira.

Segundo a escritora, que também comanda sessões de contação de histórias, a reação dos pequenos ao descobrirem suas narrativas é de puro encantamento “Crianças negras soltam seus cabelos, os enfeitam e se empoderam, pois passam a acreditar que são belas e capazes de dar respostas estratégicas e inteligentes às discriminações racistas e sexistas vividas no cotidiano. E, isso é magnífico. Quando eu conto as histórias dos meus livros, percebo que as pessoas se emocionam e chegam a chorar por se sentirem representadas”, comenta.

Kiusam também faz questão de ressaltar as matrizes culturais e religiosas africanas em suas criações. Títulos como “Omo-Oba: histórias de princesas” e “O mar que banha a Ilha de Goré” resgata a riqueza dos mitos tornados invisíveis por séculos de colonização europeia. “Muito além de o Brasil necessitar de mais autores negros, se faz necessário que os mesmos não reproduzam a lógica dos cânones e sim que busquem compreender à fundo a ancestralidade africana, o que de fato ela nos deixa como legado para ser reatualizado e usado como fonte terapêutica e de resgate à vida”, arremata.

Dicas de livros infantis com protagonistas negros:

“Sulwe”, de Lupita Nyong’o (Rocco, 48 páginas)

Abordando a temática do colorismo, o livro conta a história de Sulwe, uma garota que se sente triste por ter a pele mais escura que a de seus familiares. Após uma jornada mágica, tudo muda e ela passa a entender que sua beleza é única.

“Sinto o que sinto: e a incrível história de Asta e Jaser”, de Lázaro Ramos (Carochinha, 48 páginas)

A trama acompanha Dan, personagem do Mundo Bita. Com dificuldades para identificar e nomear seus sentimentos, o menino aprende uma preciosa lição com seu avô e a história dos seus antepassados.

“Amoras”, de Emicida (Cia. das Letras, 44 páginas)

Baseada em uma música do rapper Emicida, o livro reproduz um diálogo entre o artista e sua filha. Os versos falam sobre negritude e representatividade, com referências a nomes como Zumbi dos Palmares e Martin Luther King.

“Omo-oba: histórias de princesas”, de Kiusam Oliveira (Mazza Edições, 48 páginas)

A oba reconta seis mitos africanos, divulgados nas comunidades de tradição ketu, pouco conhecidos pelo público em geral e que reforçam os diferentes modos de ser femininos.

“Obax”, de André Neves (Brinque-Book, 36 páginas)

Ambientado em uma aldeia africana, a história tem como protagonista uma menina cheia de criatividade e com nome de flor. Cansada de não ser ouvida, ele viaja em busca de provar suas histórias.

Fonte: Folha PE

Monteiro Lobato: como a literatura infantil e juvenil surgiu e deu certo

Soninha dos Santos

Especial para o Jornal Opção

Em 1921, José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948 — viveu 66 anos), inaugura com sua obra “Reinações de Narizinho”, publicada pela Editora Brasiliense, um mundo novo na história da literatura brasileira e que passaria, tempos depois, a ser vista, criticada e analisada como Literatura Infantil e Juvenil. Inaugura porque, até então, ela não existia no Brasil e nem tinha estatuto de arte; novo porque até essa data, final do século 19 e início do século 20, nenhum outro autor ou autora havia se embrenhado pelas intrincadas vias de acesso ao imaginário infantil.

Mas o que coloca Lobato nesse contexto inicial da LIJ? Comecemos então, pelo princípio, ou seja, o de como, quando e porque Lobato é colocado pela crítica e pelos estudiosos de sua obra, nesse lugar ganhando inclusive a patente de “pai” da LIJ brasileira.

“Reinações de Narizinho” surge em meio a uma virada de século, numa época em que a criança, usando palavras de Cora Coralina, “não valia mesmo nada” e “não era incômoda, pois nem mesmo tinha o valor de incomodar”. Falamos de um período histórico singular. Um período de mudanças sociais, políticas e econômicas significativas para a sociedade. A mulher começava a entrar no mercado de trabalho modificando drasticamente a rotina familiar; a educação infantil começa a ser questionada, estudada e os moldes tradicionais da família começam a mudar.

A mulher começa a deixar os afazeres domésticos para trabalhar fora e contribuir para o sustento da família e o tempo dedicado aos filhos diminui. A criança, até essa época como as frases de Cora bem definem, ainda não tinha seu status completamente definido. Era vista como um adulto em miniatura usada para o trabalho como adulto, mas recebendo como criança. Lobato descobriu essa criança, lhe deu vida e voz, resgatando-a por meio de sua obra, do mundo desumano, punitivo e desigual dos adultos. Como? Inicialmente, criando uma família diferente da família tradicional padrão; a casa onde as crianças moram é um sítio, lugar lindo e propício à fertilidade da imaginação das crianças; não há pai ou mãe “comandando” esse lar recém-criado; a adulta responsável é uma avó; não há referência aos pais de Narizinho. Pedrinho tem uma mãe, Antonica, que mora em São Paulo. Quem melhor do que uma avó para permitir que crianças brinquem e se divirtam como crianças de fato?

Dessa maneira, Lobato desenha um mundo novo. Nesse mundo, é permitido às crianças serem o que de melhor são: crianças. Seu livro inova em linguagem e gênero. Traz à tona um ser humano, criança, mas capaz de pensar, sonhar, sofrer e querer como qualquer outro ser humano. Uma criança que brinca, brinca muito e exercita seu melhor lado: o de ser criança sempre, mesmo ao crescer.

Soninha Santos, mestre em Literatura pela Universidade de Goiás, é professora e colaboradora do Jornal Opção.

Fonte: Jornal Opção

Diversidade: literatura infantil fortalece identidade de crianças afro-brasileiras

Mosaico Cultural

Katarine Flor


“Me dei conta que meninas como eu, cor de chocolate, podiam existir na literatura”

Com o livro infantil, as crianças têm o primeiro contato com a leitura. Por meio de histórias fantásticas, elas desenvolvem o senso crítico, a criatividade e o hábito de ler. Nesta reportagem, vamos conhecer duas pequenas leitoras, mas vou deixar que elas se apresentem:

– Meu Nome é Maria Flor. Eu tenho 10 anos. Eu gosto de culinária, de princesa e eu também gosto de livros que falam sobre biografia, livros como Zumbi e Bucala, que são livros africanos.

– Maria Alice, quatro. Eu gosto de livro de culinária… Eu gosto do livro da Iara!

Desde cedo, Maria Flor e Maria Alice tiveram acesso a livros que traziam personagens negros como protagonistas.

Entre as publicações preferidas de Maria Flor está ‘Zumbi, o pequeno guerreiro’, da editora Quilombhoje. Ela conta a história do líder do Quilombo dos Palmares. Usando livremente a imaginação, o autor Kayodê recria a infância do herói brasileiro, que Maria Flor já conhece de cor e salteado.

– Uma pessoa negra, que lutou a favor das pessoas. E ele queria contar essa história. E o desenho [mostra] como ele era quando criança.

Outro livro recomendado pela ávida leitora é ‘Bucala – a pequena princesa do Quilombo do Cabula’, de Davi Nunes, da editora Uirapuru. E a Flor, o que pensa a respeito?

– O da Bucala, eu acho que foi uma pessoa boa e gentil que fez.

Diferente de Flor e de Alice, na infância, a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, só tinha acesso à histórias inglesas e estadunidenses. Ela conta que foi uma leitora precoce, bem como uma escritora precoce:

– Quando comecei a escrever aos sete anos – contos a lápis com ilustrações de crayon – eu escrevia o mesmo tipo de história que eu lia. Todos os meus personagens eram brancos de olhos azuis, que brincavam na neve, comiam maçãs e falavam muito do clima, que lindo era quando o sol saia. 

A aparência física, os hábitos alimentares e culturais dos personagens que ilustravam as histórias  lidas e escritas pela pequena menina africana eram bastante diferentes das pessoas e do lugar onde ela vivia.

 – Não tinhamos neve, comíamos mangas e nunca falávamos do clima porque não era necessário.

Por apenas ler publicações de outros países, Chimamanda conta que estava convencida de que os livros, por natureza, deveriam ter personagens estrangeiros e narrar coisas com as quais ela não se identificava.

– Eu amava os livros ingleses e estadunidenses que lia. Despertaram minha imaginação e me abriram para novos mundos. As consequências involuntárias foram que eu não sabia que personagens como eu podiam existir na literatura. Descobrir escritores africanos me salvou de conhecer uma só história.

A partir dessa descoberta, a escritora africana diz que sua percepção sobre a literatura se transformou.

– Me dei conta que meninas como eu, com cor de chocolate, cujo cabelo crespo não se podia prender em rabos de cavalo, também podiam existir na literatura. Comecei a escrever sobre coisas que eu reconhecia.

Hoje, Chimamanda Adichie é uma das principais escritoras de literatura africana da atualidade. Autora de poemas, contos e romances, ela falou sobre “O perigo da história única” em um evento do  TEDx.

Os livros da autora já foram traduzidos para mais de 30 idiomas. A escritora africana venceu o prêmio de ficção do Baileys Women’s Prize de 2007 e o de “melhor dos melhores” da década do mesmo prêmio.

Assim como Chimamanda, a educadora brasileira Odara Dèlé fala sobre como é importante para as crianças negras se reconhecerem positivamente nos personagens dos livros que lêem.

– Para a menina ou menino negro se ver em uma obra é extremamente importante, ainda mais com atributos positivos. Muitas vezes, nos ambientes escolares, se ressaltam aspectos negativos da população africana e afro-brasileira. 

Odara Dèlé é autora de ‘Lukenya e seu poder poderoso’. O livro é escrito em português e em kimbundu, língua originária do território africano nas regiões da República do Congo e de Angola.

– Os leitores têm essa possibilidade de fazer esse fluxo transatlântico entre o continente africano e o americano através de um livro infanto-juvenil. 

Página a página, Lukenya leva o leitor a viver uma aventura em busca de um grande tesouro. O livro traz referências da cultura africana como a ancestralidade, a oralidade, a música e a filosofia. 

A ideia, diz Dèlé, é  fortalecer as identidades negras ainda na infância. Ela conta que muitas das palavras que nós usamos aqui no Brasil tiveram origem no  Kimbundu, e agora fazem parte da nossa herança cultural.

– As palavras mais usuais que nós usamos no nosso dia-a-dia é dengo, cafuné, caçula, moleque, quitanda… São palavras que usamos em nosso cotidiano e não temos essa percepção de que houve essa herança africana.

O Kimbubdu está entre as cerca de 2.092 línguas de origem africana. O Diego Barbosa é pesquisador. No artigo ‘Encontros e Confrontos Linguísticos: O Local e o Global na África’, ele conta que esse número corresponde a cerca de 30% de todas as línguas do mundo.

A escritora brasileira Odara Dèlé explica que a existência de livro infantis com protagonistas afro-brasileiros é importante não só para a construção e fortalecimento da identidade da criança negra como também para que as crianças brancas desenvolvam o sentimento de empatia e na noção de respeito às diferenças.

Edição: Geisa Marques

Fonte: Brasil de Fato

Livros expandem conhecimento das crianças, mas ainda são caros

Além de entreter e divertir, a prática melhora as habilidades sociais como como a concentração, o raciocínio lógico e o vocabulário

JOÃO FREITAS

Livros expandem conhecimento das crianças, mas ainda são caros

Ilustração

Imagine embarcar para uma outra realidade, conhecer personagens, lugares e histórias onde e quando quiser. Parece um truque de mágica, não é mesmo? Mas é exatamente isso que a leitura proporciona às pessoas. A prática, além de entreter e divertir, também expande conhecimentos e estimula a criatividade de crianças e adultos leitores.

Para os menores, a literatura possui uma importância ainda maior. Como estão em processo de crescimento, os livros contribuem positivamente para os pequenos no desenvolvimento de habilidades sociais, como a concentração, o raciocínio lógico, a imaginação, o vocabulário, entre outras.

Para falar sobre o tema, o Circuito Mato Grosso conversou com o historiador e produtor cultural Clóvis Matos. Ele, que é o idealizador do projeto Inclusão Literária, responsável pela entrega de livros nos locais mais isolados do Estado, destacou que a prática é essencial para formar cidadãos mais capacitados. “Toda a criança que tem o hábito de ler será uma pessoa diferenciada no futuro. A leitura faz com que as pessoas tenham maior capacidade de discutir e argumentar sobre diversos temas”.

No entanto, os negócios empresariais referentes ao mercado literário têm passado por sérios problemas. De acordo com um levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), diversos produtos como brinquedos e eletrônicos registrarão o melhor desempenho, nos últimos seis anos, nas vendas para o Dia das Crianças. Em contrapartida, o segmento de livrarias e papelarias sofrerá forte queda e vai faturar 4,1% menos que na mesma data em 2018.

O índice vai de encontro a outras estatísticas nada animadoras para os aficionados por leitura. Conforme dados do Ministério do Trabalho, 21.083 livrarias fecharam as portas na última década. Além do mais, 30% da população admite nunca ter comprado um livro, aponta um estudo da Pesquisa Retratos da Leitura.

Clóvis acredita que fatores operacionais, como o elevado custo de produção dos livros, ajudam a explicar os números negativos. “O livro é um objeto caro e, mesmo sendo de fundamental importância para o conhecimento, as pessoas não enxergam dessa forma. O papel utilizado para confeccioná-lo tem um custo altíssimo, pois é voltado apenas para a exportação, o que faz com que ele seja cotado em dólar. Embora tenhamos um mercado gráfico muito bom, o valor para produzi-lo é o que encarece”.

O historiador ressalta que a família deve estimular o hábito de ler, principalmente nas crianças e nos adolescentes “Essa prática deve ser incentivada primeiramente em casa. É muito difícil alguém se tornar um leitor sem ter um exemplo no convívio próximo. Se os pais cultivam esse hábito, o interesse da criança será um processo natural”. Segundo Clóvis, as escolas também são cruciais no processode propagação literária. Ele explica que as instituições de ensino devem ter um planejamento para impulsionar a adesão pelo hábito. “Ficar preso unicamente ao material didático faz com que a leitura se torne chata. A leitura é algo inteligente, é uma troca de conhecimentos. Chato é ficar burro”.

Ele fez críticas ao Poder Público e afirma que os governantes têm a obrigação de criar mecanismos com o objetivo de difundir a literatura na sociedade. “O brasileiro não tem muitos acessos à literatura. E não se trata de interesse, garanto. Quando entrego livros nas áreas mais isoladas, o povo fica muito contente e diz que gostaria de ler, mas que não as obras não chegam nesses lugares. O que percebo é que quanto mais longe eu vou, mais as pessoas querem livros. E isso é papel do Estado, que deveria fazer programas para fomentar a cultura para essas pessoas”, frisou.

Amor pela literatura

Reconhecido nacionalmente por ser um dos maiores incentivadores da causa, Clóvis contou que a sua paixão pela leitura surgiu na infância, quando ainda morava em Iporá, município localizado no oeste do Estado de Goiás.

“Comecei a ter gosto pelo hábito quando tinha oito anos de idade, lendo gibis. Minha família tinha um hotel na cidade, que era muito pequena e não tinha uma livraria sequer. Mas mesmo assim, nós recebíamos muitas pessoas que passavam pela região e algumas delas deixavam quadrinhos, revistas e almanaques que me despertavam muito interesse”.

“Na época, também fui muito influenciado por um grupo de estudantes da Universidade de Brasília, que se hospedavam no hotel da minha família. Eles sabiam do meu interesse por literatura e traziam diversos livros. Com onze anos, já tinha lido Cem Anos de Solidão, do Gabriel Garcia Marquez. Desde então, nunca mais parei”.

Inclusão Literária

Com o passar do tempo, o que era hobby se transformou em um ambicioso projeto de fomento à leitura em Mato Grosso – o “Inclusão Literária”. Em quase 14 anos da iniciativa, Clóvis já distribuiu cerca de 140 mil livros, de forma gratuita, para moradores de, aproximadamente, 180 localidades do Brasil.

Ele conta que a inspiração veio no período em que prestava serviços para uma livraria. “Eu trabalhava no departamento de marketing da empresa e criei espaços dentro da loja para que os leitores pudessem ter acesso a trechos de obras literárias. A intenção era fazer com que os clientes lessem algumas páginas e comprassem os livros. Porém, elas terminavam a leitura após frequentarem a livraria por alguns dias e não levavam nada [risos]”.

“Então, eu percebi que se as pessoas com total facilidade de acesso não tinham dinheiro para comprar os livros, imagina quem mora na zona rural ou nas pequenas cidades do interior, que não tem uma livraria ou biblioteca por perto. Foi aí que coloquei quase três mil livros da minha biblioteca pessoal dentro de caixas e fui distribuir em uma escola, no distrito da Varginha [em Santo Antônio do Leverger – 36 km da Capital]”.

A rotina e a entrega do homem de 65 anos também chamam a atenção. Ele revelou que fica menos da metade dos meses em casa. “Quando passo mais de 10 dias aqui, já começo a ficar fissurado, procurando algum lugar para levar o meu trabalho [risos]”. Mas não pense que o período em casa é marcado apenas por descanso. “Estou sempre em busca de donativos, selecionando e catalogando livros para a execução do projeto. É um trabalho contínuo, direta ou indiretamente”.

O custo anual do Inclusão Literária, segundo Matos, gira em torno de R$ 150 mil, contando os gastos com documentação, combustível e revisão dos veículos utilizados, alimentação, hospedagens e aquisição de novos livros. Para isso, ele conta com o apoio de patrocinadores, que ajudam a manter o projeto.

“Sou muito ajudado pela Energisa e pelo Shopping 3 Américas, que juntos cobrem 50% do projeto. Eu tenho que me virar para levantar mais fundos. Para isso, realizo eventos como feiras de livros, que são vendidos a preços populares. Contudo, é importante frisar que o objetivo é gerar renda para a manutenção do programa, que funciona a base de doações”.

A menos de três meses para a chegada do Natal, Clóvis se prepara para dar vida ao personagem mais famoso da época. O Papai Noel Pantaneiro, como é conhecido, conta que o ritmo de trabalho é intenso no fim do ano, mas que o resultado faz todo o empenho valer a pena.

“São 45 dias seguidos trabalhando como Papai Noel no shopping e nos meus projetos sociais. Nesse período, costumo receber muitos presentes doados pelas pessoas. Para se ter uma ideia, no ano passado entreguei quase 5 mil brinquedos e livros em mais de 40 comunidades do Pantanal. E a expectativa é ainda maior para esse ano”.

Clóvis Matos enfatiza que o Inclusão Literária e o Papai Noel Pantaneiro são projetos que o orgulham e que o motivam a seguir com as ações. “A maior felicidade é ver uma criança sorrir ao ganhar um presente ou ao pegar um livro. É um grande prazer ver as pessoas felizes e satisfeitas com o que eu faço. Trabalho por isso e pretendo continuar até quando a saúde permitir”.

Fonte: Circuito Mato Grosso

Os desafios de atrair as crianças para o universo da literatura

Com o mercado editorial em queda no Brasil, editoras e autores pensam em novas estratégias para conquistar os pequenos leitores

Por: Daniel Medeiros

Werika Júlia, de 13 anos, é apaixonada por livros Foto: Jose Britto/Folha de Pernambuco

O Dia das Crianças já chegou e com ele a dúvida sobre o que dar de presente para filhos, sobrinhos, netos ou afilhados. Brinquedo? Celular? Por que não um livro? Afinal de contas, na mesma data também é celebrado o Dia Nacional da Leitura, oportunidade de introduzir os pequenos ao universo da literatura. Especialistas em educação não cansam de defender a importância de cultivar o hábito de ler desde a infância, mas ao analisar o mercado editorial no país a constatação é de que os livros infantis ainda representam uma porção muito pequena do quantitativo de obras vendidas por ano. Correndo atrás do prejuízo, escritores e editoras lançam mão de múltiplas estratégias para atrair o leitor mirim, aliando novas tecnologias e uma dose de criatividade.

Para que se torne uma prática cotidiana entre meninos e meninas, o ato de ler um livro precisa ser visto como prazer e não uma obrigação. É o que defende a pedagoga Cristiane Soares, técnica do Programa Manuel Bandeira de Formação de Leitores, da Prefeitura do Recife, que trabalha a mediação de leitura por meio das bibliotecas. “A leitura é fundamental para a criação do imaginário. Por isso, o ideal é que a criança seja inserida nesse processo pelo viés do encantamento. O livro não deve ser encarado como apenas uma ferramenta para ela aprender algo, pois ele por si só tem um papel muito importante na formação das identidades”, defende.

Se o objetivo é despertar o fascínio no pequeno leitor, vale a pena estimular o lado lúdico que a literatura proporciona. Nesse sentido, uma das ferramentas mais antigas que a humanidade dispõe é a contação de histórias. Essa tradição milenar vem sendo resgatada nos últimos anos, seja em escolas, livrarias, feiras literárias, festivais ou centros culturais. Mas nem é preciso ser um profissional da educação para replicar o método. Um exemplo é Renato Oliveira, bacharel em ciências da computação e morador do estado de Goiás. A paixão por contar histórias para as duas filhas – uma de 6 e outra 4 anos de idade – fez com que ele criasse um aplicativo voltado para isso.

Disponível de forma gratuita, o “Contatória” oferece 14 contos narrados pelo próprio criador. “A minha proposta sempre foi criar uma ferramenta de auxílio para pais e mães. Gostava de criar histórias e contá-las para as minhas filhas na hora de dormir. Mas como todo mundo tem seu limite, às vezes eu ficava cansado. Comecei a gravar tudo e colocar os áudios para elas ouvirem. Deu muito certo comigo e achei que poderia dar com outras pessoas também”, relembra. “Comprar livros, lê-los para os filhos, sugerir que eles próprios contem histórias, mostrar as coisas que você descobriu com um livro: tudo isso motiva muito as crianças”, declara Renato.

Incentivar o gosto pela leitura é uma preocupação partilhada pela profissional autônoma Maria José. Na última quinta-feira, ela visitou a Bienal do Livro de Pernambuco, que está instalada do Centro de Convenções, ao lado do filho José Paulo, de 12 anos. “Desde quando ele tinha dois ou três anos de idade, eu já comprava coleções de fábulas e contos de fadas. Ele tem gavetas e mais gavetas cheias dessas obras em casa”, diz. Já a balconista Adriana da Silva, que também prestigiou o evento, nem precisou fazer muito esforço para convencer a filha, Werika Julia, 13, de que ler é bom. “Ela gosta muito de livros, desde que aprendeu a ler. É uma coisa que vem dela. Eu só tento incentivar e observar sempre o conteúdo do que ela está vendo”, conta. O pequeno João Miguel, 8, já é um leitor voraz, principalmente de gibis. “Foi ele que convenceu a família toda a vir para a Bienal”, confessa a mãe, Wedna Gomes.

Mercado em queda

Ainda que os leitores mirins não estejam extintos, o momento não é dos melhores para quem produz e comercializa livros para esse público. Refletindo a crise no mercado editorial, as vendas de obras de literatura infantil caíram nos últimos anos. Segundo a pesquisa anual divulgada pela Associação Nacional de Livrarias, o faturamento ligado às vendas de livros infantojuvenis em 2018 teve uma queda de 7% em relação ao ano interior. Ainda assim, o segmento representou 14,2% do faturamento total do setor livreiro.

Tentando driblar os desafios do mercado, editora de todo o país têm investido em soluções criativas para atrair não só as crianças, mas também seus pais. Uma iniciativa que está na moda é a dos livros personalizados. Empresas como a Sweet Books, do Rio de Janeiro, e a Dentro da História de São Paulo, trabalham com versões customizáveis de clássicos infantis e personagens que fazem sucesso com a criançada. Meninos e meninas são transformados em personagens de livros, como “O pequeno príncipe”, “Branca de Neve” e “Turma da Mônica”, através de um avatar que combina as características físicas do pequeno leitor ao traço original da obra escolhida. Tudo isso é feito por meio da internet e o exemplar é entregue na casa do cliente. Os clubes de assinatura representam outra inovação a qual os pais costumam recorrer. Por um preço fixo, os assinantes recebem kits com diferentes livros, além de outros brindes. A Taba, Leiturinha e Doce Leitura são exemplos de clubes que fornecem esse tipo de serviço.

A crise também não espantou os pernambucanos da Viu Cine, produtora responsável por animações como “Além da lenda” e “Pedrinho e a chuteira da sorte”. Através da criação de uma agência de licenciamento, a Viu Marcas, a empresa vem investindo em transportar os personagens conhecidos na TV e na internet para os livros. Até agora, já foram lançados cinco títulos da série “Além da lenda” e, até o próximo ano, esse número só deve aumentar.

“Eu não acredito nessa visão de que criança não gosta de ler. Estamos passando por um momento muito complicado e vemos como as pessoas da nossa geração têm dificuldade na interpretação de texto. Foi esse problema que deu margem às fake news, por exemplo. As pessoas não conseguem entender o que é dito e nem filtrar nada. Nós, como produtores de conteúdo, temos que incentivar as crianças a questionar, aprender e, a partir daí, surgir um cidadão melhor”, defende Bruno Antônio, coautor das obras. O “Além da lenda” surgiu como série de TV e deve ganhar um longa-metragem em agosto de 2020.

Para que os livros consigam prender a atenção do público tanto quanto a animação, os criadores apostam numa linguagem mais interativa. “Quando lançamos o primeiro título, decidimos colocar algumas brincadeiras para incentivar a criança. A cada capítulo, o leitor tem que resolver um pequeno desafio, que dá a ele algumas pistas para desvendar o caso no final da história. Isso também instiga a criança a querer ler cada vez mais”, explica Bruno, que ressalta a responsabilidade de escrever para quem ainda está em desenvolvimento. “Nós trabalhamos com o folclore brasileiro e algumas dessas lendas têm um conteúdo um pouco pesado. Tomamos todo o cuidado para que as histórias não sejam interpretadas de maneira negativa. Não devemos renegar nossas histórias do passado, mas podemos apresentá-las de um modo mais leve”, afirma.

Fonte: Folha PE

Mãe escreve livro e transforma filha com vitiligo em heroína: ‘É especial’

Por George Corrêa, G1 Santos

Mãe montou livro para ajudar filha a lidar melhor com o vitiligo. — Foto: Bia Bastos

Mãe montou livro para ajudar filha a lidar melhor com o vitiligo. — Foto: Bia Bastos

A designer gráfica Tatiane Santos de Oliveira usou a criatividade e fez um livro onde a filha Maria Luiza, de sete anos, é a grande heroína da história. O objetivo foi fazer com que Maria Luiza, que tem vitiligo, aprenda a lidar melhor com a doença que não tem cura. Moradora de Peruíbe, no litoral de São Paulo, Tatiane explica que a filha descobriu o vitiligo quando tinha três anos, logo depois que ela ficou grávida do segundo filho.

Depois do susto, a designer contou ao G1 que pensou em formas de deixar o assunto mais leve em casa. “A gente contornava as manchinhas com canetinhas, descobrindo formatos divertidos”, afirma. “Meu papel como mãe era deixá-la confortável e forte com a situação. Conforme ela foi crescendo, ela começou a gostar muito de livros. Fui procurar algum que tivesse um personagem com vitiligo e, na minha pesquisa, não achei nada”.

Como trabalha com diagramação, a designer relata que teve a ideia de fazer um livrinho para a filha: “A Menina Feita de Nuvens”. Ela fez o texto, as ilustrações e o projeto. Na publicação, Maria Luiza é uma heroína que tem um segredo e um poder especial. “Mostrei o livro para alguns amigos, que gostaram muito e me incentivaram a procurar uma editora”, explica. “A ideia ficou um ano parada, quando a Editora Estrela resolveu publicar. Então, posso dizer que isso tudo foi um acidente”, ri Tatiane.

O resultado foi acima do esperado. O livro entrou na Bienal do Livro de São Paulo de 2018 e Tatiane diz que recebe muitas mensagens pelas redes sociais, de pais que vivem a mesma situação. “É um retorno maravilhoso. A Maria Luiza gosta muito do livro, ela ama as manchinhas dela e lida muito bem com isso. Até meu filho mais novo faz manchinhas na perna dele. Ele mudou o olhar”. Ainda segundo Tatiane, os amigos da escola da filha, que leram o livro, ficaram olhando o próprio corpo para ver se tinham manchinhas também. “A própria criança quer levar o livro para a escola e mostrar que ela é especial”.

Atualmente, Tatiane diz que faz o possível para o livro chegar às escolas. “Visito algumas escolas para fazer a leitura do livro por minha conta mesmo e acabo deixando um livro na biblioteca para despertar o interesse para o assunto. A maioria das pessoas desconhecem essa doença, ainda existe muito preconceito, algumas pessoas acham que é contagioso”, explica.

Maria Luiza, de 7 anos, virou heroína no livro "A Menina Feita de Nuvens", criado pela mãe. — Foto: Arquivo pessoal
 Maria Luiza, de 7 anos, virou heroína no livro “A Menina Feita de Nuvens”, criado pela mãe. — Foto: Arquivo pessoal

Vitiligo

O médico Roberto Debski explicou ao G1 que o vitiligo é uma doença autoimune, onde as células de imunidade do corpo atacam os melanócitos, que produzem a melanina. A melanina é a responsável por dar cor à pele, pelos, cabelos, barbas, cílios e outros. Quando atacadas, deixam de produzir, surge a falta de pigmentação e as manchas aparecem.

Debski reforça que o vitiligo não é uma doença contagiosa. Pode ser causada por estresse, fatores hereditários ou excesso de luz solar. “Ela se manifesta na pele, em diversas regiões do corpo e, embora não tenha cura, possui tratamentos que buscam diminuir a incidência das manchas”, explica. Um dos mais utilizados é com radiação ultravioleta (UV), mas os resultados são pequenos, demoram e dependem muito de fatores individuais de cada paciente.

O médico ainda ressalta que o surgimento do vitiligo pode indicar a presença de outras doenças autoimunes. “É sempre indicado que o paciente faça exames para identificar outras possíveis doenças autoimunes. Quando a pessoa tem a predisposição ao vitiligo e ele se manifesta, pode estar com alguma outra coisa sem saber”, explica. Por não ser contagiosa, os efeitos mais significativos da doença são psicológicos. “Não traz riscos à vida, nem para a saúde. Mas às vezes o fator da aparência pode desencadear problemas como depressão ou ansiedade e o tratamento psicológico nesses casos é muito importante”, finaliza.

Maria Luiza faz desenhos com manchas provocadas pelo vitiligo. — Foto: Arquivo pessoal

Maria Luiza faz desenhos com manchas provocadas pelo vitiligo. — Foto: Arquivo pessoal

Fonte: G1 Santos

Literatura infantil é discutida em evento internacional na UFMG

Por Thaís Leocádio, G1 Minas

Evento na Faculdade de Educação da UFMG vai discutir literatura infantil entre os dias 1º e 4 de outubro — Foto: Foca Lisboa/Divulgação/UFMG

Evento na Faculdade de Educação da UFMG vai discutir literatura infantil entre os dias 1º e 4 de outubro — Foto: Foca Lisboa/Divulgação/UFMG

Começa, nesta terça-feira (1º), o XIII Jogo do Livro e III Seminário Latino-americano, na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A conferência de abertura do evento será ministrada pelo escritor Ilan Brenman, às 19h, no Auditório Neidson Rodrigues, no Campus Pampulha.

Entre os mais de 60 livros publicados por Ilan Brenman, estão “Até as princesas soltam pum”, “Telefone sem fio” e “O que cabe num livro”.

Até sexta-feira (4), serão realizados oficinas, palestras, mesas de discussão e bate-papos sobre literatura para crianças e jovens. Entre os convidados estão a ilustradora argentina Anabella López e o poeta e professor colombiano Alfredo Vanín.

O escritor de literatura infantil Ilan Brenman fará conferência de abertura do XIII Jogo do Livro — Foto: Reprodução/Rede Amazônica Acre

O escritor de literatura infantil Ilan Brenman fará conferência de abertura do XIII Jogo do Livro — Foto: Reprodução/Rede Amazônica Acre

 Com o tema “Acervos literários: formação, mediação e pesquisa”, o evento organizado pelo Grupo de Pesquisa do Letramento Literário (GPELL) vai discutir temas como a importância das bibliotecas e as relações entre a universidade e a educação básica.

Interessados devem se inscrever no momento do credenciamento, no saguão do auditório, a partir das 16h. Mais informações e a programação completa estão no site do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale).

Fonte: G1 Minas

Educadora de Porto Alegre é finalista em prêmio internacional com livro infantil adaptado para braile

Por Lilian Lima, G1 RS

Educadora conquistou o segundo lugar em etapa brasileira de concurso internacional — Foto: Jefferson Bernardes/PMPA

Educadora conquistou o segundo lugar em etapa brasileira de concurso internacional — Foto: Jefferson Bernardes/PMPA

Uma professora da Escola Municipal de Ensino Fundamental Dolores Caldas, do bairro Restinga, em Porto Alegre, foi indicada para participar de um prêmio internacional em Bruxelas, na Bélgica, em outubro, com um livro infantil adaptado para braile.

Creusa Fraga Marques garantiu presença após ganhar o segundo lugar no Concurso Nacional do Livro Tátil, entregue na noite desta terça-feira (17) no Rio de Janeiro. A etapa brasileira selecionou cinco obras para representar o país na Europa.

O concurso internacional Typhlo&Tactus estimula a produção de livros para crianças com deficiência visual e é promovido pela instituição de caridade francesa Les Doigts Qui Rêvent (Dedos que Sonham, em tradução livre).

Poesia em braile: saiba mais sobre a obra

A educadora foi reconhecida pela adaptação para o braile, aplicação de cor e texturização do livro “A vida do meu jeito. Não importa como!”, da escritora paranaense Léia Cassol. Creusa, que tem 22 anos de experiência como psicopedagoga, é especialista em Educação Especial e Deficiência Visual e está há oito anos na rede municipal.

“O papel da escola é produzir e fazer com que esse aluno tenha acesso à literatura, às diversas fontes de escrita. Esse prêmio pra mim diz muito, principalmente dentro da rede pública”, diz a professora ao G1.

Trabalho envolveu recortes, pesquisa de materiais, escolha de cores de contraste e criação de texturas. — Foto: Arquivo pessoal

Trabalho envolveu recortes, pesquisa de materiais, escolha de cores de contraste e criação de texturas. — Foto: Arquivo pessoal

O livro transcrito foi produzido pela professora para 14 alunos cegos ou com baixa visão que frequentam a Sala de Integração e Recursos Visuais (SIR) da escola. O núcleo é referência em suporte pedagógico para a inclusão de alunos com deficiência visual e atende escolas municipais das zonas Sul e Oeste da Capital.

“Esse livro foi pensando para uma menina que estuda aqui na escola. Ela tem 8 anos, está em processo de alfabetização. É uma menina que tem todas as condições cognitivas de ler e escrever em braile. A Ana Luiza é uma menina muito exigente. Ela quer sempre mais. Tu dá um livro e ela diz: ‘Nossa, esse livro é lindo. Qual o outro que tu tens?’ Então, a gente fica sempre em busca de algo novo para ela estudar”.

Foram duas semanas de um trabalho minucioso que envolveu recortes, pesquisa de materiais, escolha de cores de contraste e criação de texturas para a obra de literatura infantil.

“Eu gosto muito desse livro porque ele é uma poesia. A ilustração se deu em cima dessa poesia, página por página, tentando ser fiel à ilustração do livro. Esse foi o diferencial. Eu trabalho com uma colega que é cega e tudo que é produzido passa pela avaliação dela. Foi um trabalho muito artesanal”.

Com 24 páginas, é um poema que explora o valor e a felicidade nas coisas simples da vida, como banho de chuva, a beleza das flores e correr pela rua.

“O livro diz que tu tens que fazer as coisas do teu jeito, sem se importar com os outros e tem que ser feliz, sonhar. E é isso que a gente trabalha com o aluno que tem acesso a esse livro”.

“Eu gosto de levar para casa para ler com a mãe e os manos. É muito legal. Eu aprendi com ele”, conta a pequena Ana Luiza Pereira Pinheiro, aluna do 2º ano do Ensino Fundamental.

De acordo com a educadora, produzir a descrição fidedigna de um livro em imagens é extremamente desafiador e já faz parte dos atrativos da sala de inclusão.

“O desenvolvimento da autonomia depende do aluno, mas depende também do professor: da sua sensibilidade e afeto, do entendimento da diferença, do respeitar de abraçar. A gente precisa se debruçar sobre aquilo que o aluno é capaz de aprender naquele momento”, destaca a professora.

Ana Luiza, de 8 anos, é uma das alunas que participam da sala de inclusão. — Foto: Arquivo pessoal

Ana Luiza, de 8 anos, é uma das alunas que participam da sala de inclusão. — Foto: Arquivo pessoal

Fonte: G1 RS

A importância da leitura na infância

Ana Maria Machado festeja 50 anos de carreira com novas edições e homenagem

Estadão Conteúdo

Ana Maria Machado já foi jornalista, fez programa de rádio, foi dona de uma livraria. Entre uma função e outra, jamais deixou de escrever. Com 12 anos, teve uma redação escolar, “Arrastão”, publicada na revista Folclore. Profissionalmente, porém, sua estreia aconteceu em 1969, quando publicou histórias na revista infantil Recreio. Desde então, nessas cinco décadas de produção que comemora agora, já soma mais de cem livros publicados no Brasil e em mais de 17 países, entre obras para crianças, adultos e de não ficção, alcançando mais de 18 milhões de exemplares vendidos.

Para as crianças, Ana Maria destaca-se como criadora de um texto de rara musicalidade, além de um estilo leve e, ao mesmo tempo, denso – seu nome é uma das referências nacionais, ao lado de Ruth Rocha e Lygia Bojunga Nunes. Já sua literatura adulta é marcada por uma escrita apurada, desafiadora, denunciadora. Na verdade, tais frases poderiam ser invertidas, pois Ana Maria busca a cumplicidade do leitor, independente de sua idade.

Ganhou inúmeros prêmios, com destaque para o Hans Christian Andersen, em 2000, considerado o Nobel da literatura infantil mundial. Presidiu a Academia Brasileira de Letras por dois mandatos (2012 e 2013). Colecionou ainda dissabores, como ser obrigada a deixar o Brasil em 1970, quando se exilou na França. E foi lá que trabalhou com o sociólogo Roland Barthes, cuja orientação resultou em uma tese de doutorado que, por sua vez, foi editada em livro como “Recado do Nome” (1976), sobre a obra de Guimarães Rosa.

Ana Maria encontrou-se com a reportagem na sede da Editora Moderna, em São Paulo, que detém cerca de 60 de seus títulos para crianças – alguns já se tornaram clássicos, como “Bisa Bia, Bisa Biel” e “Era Uma Vez um Tirano”. Os festejos pelas cinco décadas de escrita profissional continuam com o lançamento, nesta semana, de uma edição comemorativa dos 20 anos de “Audácia Dessa Mulher” (Alfaguara), em que revisita Capitu, personagem de Machado de Assis. Ela ainda será homenageada na 19ª Bienal Internacional do Livro, que acontece no Rio, em agosto, e já prepara “Vestígios”, reunião de contos já publicados com inéditos. Aos 77 anos, mantém uma rotina artística ativa.

Antes de iniciar a carreira como escritora, você fez um curso de pintura, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, que te ajudou depois na escrita, não?

Com certeza. Fiz um curso de pintura no MAM com Aloizio Carvão, que foi muito importante: eu nunca tinha trabalhado com alguém que tivesse sido tão exigente, mas, ao mesmo tempo, que tivesse me dado tanta força, me preparando para a dureza de ser artista.

E como isso a levou para a escrita?

Foi algo inconsciente, sem sentir. O principal foi aprender a estar exposta à crítica permanente (apresentávamos nossos trabalhos aos membros do grupo), o que possibilitou o desenvolvimento da autocrítica como atitude de artista. Sempre escrevi, desde menina, mas não tinha pensado em transformar isso em uma profissão – levava minha carreira de pintora, fazendo exposições individuais e coletivas. Quando fui desafiada, comecei a escrever profissionalmente.

Foi nessa época, 1969, que a ditadura militar endureceu ainda mais. Você foi presa e, depois, obrigada a se exilar em Paris.

Não foi nada preparado: em dez dias, já estava em um navio cargueiro. E ainda tive de embarcar em um porto no Nordeste. Anos depois, escreveria sobre essa época no romance Tropical Sol da Liberdade.

Em Paris, você fez o curso de doutorado com Roland Barthes. Foi algo pensado?

Não. Soube que ele estava voltando de uma viagem ao exterior e abriria espaço para 20 pessoas como ouvintes de seu curso, em Paris. Eu me inscrevi e, depois de uma entrevista, ele me chamou para pertencer a esse grupo. Logo, ele passou a me orientar no doutorado, na pesquisa que eu já iniciara no Brasil, com o Afrânio Coutinho, sobre a importância do nome na obra de Guimarães Rosa.

Nesse período fora, você continuou colaborando com a Recreio. De alguma forma, o exílio marcou essas histórias?

Talvez. Hoje, vejo que Currupaco Papaco é uma história de exílio, pois mostra um papagaio que vive em um lugar frio, quase virando picolé, e com vontade de voltar para um lugar quente, onde tinha frutas, todo mundo era amigo.

Aliás, qual é o desafio hoje para se escrever para o público infantil? A tecnologia alterou alguma coisa?

Não acho que tenha mudado intrinsecamente, mas mudaram as circunstâncias da criança. Ou seja, mudaram a tecnologia, a velocidade, mudou também o tipo de tentação: agora não é mais quintal, subir em árvore, brincar com o cachorro andando na rua – agora é o joguinho. Mas o que mudou de fato são os adultos em volta da criança, que não dão mais exemplo de leitura. Isso é muito forte. Outra mudança importante diz respeito à preocupação dos adultos em volta da criança em relação à leitura: ora as crianças são cobradas para ler, ora os adultos desconfiam da leitura, temendo o conteúdo e vendo fantasma onde não existe.

Isso faz lembrar o caso de uma mãe que, no ano passado, postou que seu livro “O Menino que Espiava Pra Dentro”, de 1983, estaria incitando o suicídio entre as crianças, certo?

Sim, foi algo como um tsunami que, de tão absurdo, eu nem sabia como agir. E o assunto ainda rende, pois continuo recebendo ameaças.

A obra de Monteiro Lobato também sofreu acusações.

Quem lê Lobato sabe da existência de coisas que são criticáveis, erradas, desprezíveis, mas nada disso tira o que Lobato traz de bom. Quem leu sabe medir o que se deve jogar fora e o que é aproveitável.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Fonte: ISTOÉ

Terror para leitores destemidos

Walkiria Vieira – Grupo Folha

A jornalista e escritora paranaense Susan Cruz acaba de lançar sua nova obra “A Criança Invisível”, uma história de terror direcionada ao público infantil. A história narra a trajetória de uma menina que teme a sombra que habita sua casa, uma metáfora para a depressão da mãe. Aos poucos, a garotinha entende que ela precisa ajudar a mãe a se livrar dessa sombra. Para isso precisa enxergar-se novamente, porque sente que está desaparecendo.

De acordo com a escritora, trabalhar com a questão da criança invisível foi a maneira de mostrar o quanto de nós reflete-se no emocional das crianças. “Quando esse espelhamento é comprometido sobra um vazio, uma ausência da própria imagem como indivíduo”, afirma a autora que, para escrever, pesquisou profundamente o tema na psicologia. As ilustrações são da artista e tatuadora londrinense Paty Oliveira. O livro é publicado pela Luva Editora, do Rio de Janeiro, e marca a estreia do selo “Luvinha”, voltado para livros infantis.

A atração pelo gênero é observada por estudiosos e pesquisadores como um incentivo à leitura em razão da criação de uma atmosfera de suspense cuja explicação nada possui de sobrenatural, sendo essencialmente psicológica. “Nessa narrativa escrita em terceira pessoa utilizo recursos linguísticos para aproximar o leitor. Exemplo disso é a ausência de nomes nas personagens. “Achei interessante denominá-las apenas pelos substantivos “mãe” e “filha” para que as crianças possam imaginar qualquer pessoa dentro da história, inclusive a si mesmas em algumas situações”, comenta Susan.

Susan Cruz acaba de lançar 'A Criança Invisível”: segundo os pesquisadores, o terror atrai as crianças pelo clima de suspense
Susan Cruz acaba de lançar ‘A Criança Invisível”: segundo os pesquisadores, o terror atrai as crianças pelo clima de suspense | Ricardo Chicarelli 

De acordo com a bibliotecária Priscila de Jesus Apolinário Ribeiro, o interesse existe e o trabalho gráfico desenvolvido nas obras as torna ainda mais interessantes. “Tudo faz parte da leitura”, observa. No local onde trabalha, a Bibliotecária Pública Infantil de Londrina, há vários títulos disponíveis: “A Casa do Terror”, “Contos de Assombração”, “Contos de Imaginação e Mistério”, “Doze Horas de Terror”, “Fiquem Fora do Porão”, “Formaturas Infernais”, “Pânico no Acampamento”, “Terror na Biblioteca” e “Terror na Festa”, cita.

Um dos mais procurados na biblioteca infantil, que oferece empréstimos gratuitamente, chama-se “Sete Histórias Para Sacudir o Esqueleto”, de Angela Lago, Companhia das Letrinhas. Fantásticas e divertidas, as histórias encantam pela criatividade e humor. Casos de assombrações são recontados como nas narrativas mineiras – esqueletos desfilam pelas páginas e os cemitérios são cenários para defuntos falsos ou não, sonhos e muita imaginação. Obra também consagrada pelo público é “Duas Casas”, de Roseana Murray (Abacatte Editorial) na qual a separação dos pais é tratada de forma delicada e poética neste livro, que usa como gancho a existência de duas casas para sugerir o fim da relação e a divisão da família.

Terror em primeiro plano

Além dos livros, filmes e séries do gênero são cada vez mais prestigiados. Se antes as salas de cinema eram único lugar para a experiência, hoje os canais de assinatura oferecem títulos para todas as faixas etárias. No escuro da sala ou madrugada adentro no quarto, é o fã quem faz seus horários e investe na mania. Diante da tela, a identificação com os enredos é uma das explicações para o sucesso de público. “Uma Noite de Crime”, “Ánimas”, “O grito”, “Maggie – A Transformação” e “A Bruxa”, são exemplos.

Grande atrativo na plataforma da Netflix, a série “O Mundo Sombrio de Sabrina” se passa na cidade de Greendale, onde uma garota metade bruxa e metade mortal, ao completar 16 anos, terá de escolher entre o mundo mágico da família ou o mundo humano dos amigos. As cenas sombrias e elementos perturbadores se somam ao drama adolescente, com ensinamentos e reflexões, em meio às aventuras dos outros personagens da série. E conquista. “Black Sumer”, “Bates Motel” e “A Ordem” também estão na lista dos mais desejados e temidos.

Biblioteca é ponto de referência

No intervalo entre as aulas regulares e os cursos extras, a estudante do 9º ano do Ensino Fundamental, Yasmim Caroline Pontes, 13 anos, encontra na leitura, um momento para relaxar e divertir-se. Conserva pelos gibis grande admiração e sobre o gênero de terror, considera interessante. “Estimula a curiosidade e gosto de terror, principalmente dos filmes. Depois que assisti ‘It, A Coisa’, quis ler o livro também”, recorda. Além das obras paradidáticas, sugeridas pela escola, lê com gosto, por iniciativa. “O Mistério da Casa Verde”, de Moacyr Scliar, é uma sugestão da jovem leitora. Com suspense, aventura, amor e ação, o livro prende a atenção. “Eu me identifico com as personagens”. De acordo com sua mãe, a Técnica em Comunicação Zuleika Pontes, o hábito vem desde os primeiros anos de vida. “Também aproveita as obras de acesso online oferecidas pela biblioteca digital da escola e eu reconheço que a influenciei, pois também leio bastante”, comenta.

Yasmim Caroline Pontes, 13 anos, estudante: “Livros de terror me despertam a curiosidade”
Yasmim Caroline Pontes, 13 anos, estudante: “Livros de terror me despertam a curiosidade” | Walkiria Vieira

Frequentadora da biblioteca pública, Betânia Azevedo observa a filha Alice, de um ano e meio, descobrindo o universo da leitura. Os de capa dura e coloridos são os que mais atraem a atenção da pequena. “Eu comecei a vir para pegar livros para meu filho de 8 anos, o Guilherme. Estou empenhada a tirá-lo do celular e está funcionando. Tem semana que venho duas vezes”, diz. De prateleira em prateleira, Betânia conta que se esforça para surpreender o filho: “Guilherme gosta de aventura”.

Alice Azevedo, um ano e meio, já gosta de ler e sua referência é o irmão, Guilherme, de 8 anos
Alice Azevedo, um ano e meio, já gosta de ler e sua referência é o irmão, Guilherme, de 8 anos | Walkiria Vieira

Serviço:

“A Criança Invisível”, Susan Cruz

Preço: R$29,90

Livraria Curitiba, do Shopping Catuaí 3294-8300

LA Bella Maffia Tattos – Rua Benjamin Constant, 1777 – Fone: 3361-8554

Biblioteca Pública Infantil Londrina Monteiro Lobato

R. Maestro Egídio Camargo do Amaral, 1-87 – Centro

Funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 8 às 18 horas.

Mais informações: 3371-6603

Fonte: Folha de Londrina

Bartolomeu Campos de Queirós no Momento Literário

Katy Navarro fala sobre a vida e a obra deste escritor brasileiro

Um poeta e escritor que descobriu a magia das palavras ainda criança. É Bartolomeu Campos de Queirós. Nasceu em Minas Gerais em 25 de agosto de 1944. Perdeu a mãe quando tinha de 6 anos. Lembrava que a mãe era uma grande leitora e que ele lia os livros que ela lia. Só que a mãe ficou doente, com câncer e sofreu por muitos anos. Contava que ela cantava bonito. Era soprano. Quando a dor da doença era muito forte e a morfina não era suficiente, ela cantava mais. A voz atravessava a casa e o quintal. A família sabia que era o momento de mais dor.Bartolomeu Campos de Queirós, já adulto, um dia se deu conta que ele fez o mesmo com a escrita. Quando sentia dor, uma dor interior, escrevia. Dizia que o pai era caminhoneiro e viajava muito. Foi por isso que menino, passou, então, a ter uma forte influência do avô que morava em Pitangui, uma cidade perto de Papagaio.Bartolomeu Campos de Queirós contava que o avô praticamente o alfabetizou ensinando as letras do alfabeto que Bartolomeu achava que eram poucas, para o muito que ele, ainda menino, queria escrever. Na infância seu melhor exercício era pensar em uma palavra que ele não pudesse escrever. Acreditava que a palavra nunca escreve tudo que a emoção sente.

O menino que virou escritor construiu uma obra com 66 livros publicados. Alguns foram traduzidos para o inglês, o espanhol e dinamarquês. Entre eles “Os cavaleiros das sete luas”,“Ciganos”, “Para criar passarinho” e “Vermelho amargo”, este último para adultos.

Bartolomeu Campos de Queirós é considerado um dos principais autores da literatura infanto-juvenil brasileira. Para ele, o homem é feito do real e do ideal e a literatura quando aparece para as crianças, vem com esse diálogo da fantasia que seria o que existe de mais importante na construção do mundo. Afirmava que se existe o novo é porque ele foi fantasiado anteriormente. Então nós devemos à fantasia ao movimento do mundo com destaque para a educação que não pode existir unicamente para informar o que já foi feito, mas para abrir uma porta para fantasiar o futuro e transformar. Democratiza-se assim o poder de criar, imaginar, recriar e romper o limite do provável.

Bartolomeu Campos de Queirós cursou o Instituto de Pedagogia em Paris e participou de importantes projetos de leitura no Brasil. Foi presidente da Fundação Clóvis Salgado e do Palácio das Artes, ambos em Minas Gerais. É idealizador do Movimento por um Brasil Literário, do qual participou ativamente. Por suas realizações, recebeu condecorações no exterior e no Brasil. Recebeu os maiores prêmios da literatura brasileira, como o Jabuti. Definia literatura como uma conversa sobre as dúvidas e as delicadezas. Pensava que a literatura não é uma conversa crua como desejam as ciências exatas. A literatura é mais gentil. Trabalha com as inseguranças, com as faltas, que são coisas que nos unem.

Bartolomeu Campos de Queirós morreu em 16 de janeiro de 2012. Deixou seus livros e suas ideias. Entre elas a de que a gente só suporta o dia de hoje, porque a gente tem uma perspectiva do amanhã. Não há como viver sem fantasiar!

Fonte: Empresa Brasil de Comunicação

Ilustração e texto, num livro infantil, é como letra e música, defende Mauricio Negro em entrevista para a PNTV

PUBLISHNEWS, REDAÇÃO
O autor e ilustrador passou pela PublishNewsTV, falou sobre seus novos projetos e deu sua opinião sobre os mais diversos assuntos

A PublishNewsTV dessa semana recebeu o escritor e ilustrador Mauricio Negro. Diferente de muitas pessoas que estão sentindo na pele as consequências da crise do mercado livreiro, Mauricio garante que vive outro momento. “Nem sei o que estou fazendo aqui dando essa entrevista porque devia estar trabalhando”, brincou, dizendo ainda que nos dois últimos meses apareceram vários projetos para ocupar seu tempo. “Esses projetos têm vindo como uma luva, quando você chega nos 50 acontece essas coisas, começa a vir aqueles projetos que você sempre esperou e antes não veio”, comentou o ilustrador.O criador conta que começou sua carreira como designer gráfico produzindo diversos tipos de conteúdo, de capa de disco à campanha de outdoor, mas lembra que sua primeira encomenda foi justamente uma capa de livro. Depois de algum tempo, viu que trabalhar com livro era “mais legal” e passou também a escrever suas obras.

Sobre os novos projetos, ele comentou sobre a obra que homenageia o Brasil toca choro, série da TV Cultura que traça um panorama histórico do primeiro gênero da música urbana tipicamente brasileira. A obra será lançada este mês no Museu da Imagem e do Som (MIS). Outro livro que vem por aí é a antologia Nós, sobre a literatura indígena e que foi escrita por 10 autores de povos diferentes. O livro, ilustrado por Negro, sairá pela Companhia das Letrinhas.

A atual situação do mercado editorial também foi tema da conversa. Negro lembra que anos atrás tudo parecia mais fácil. “Tínhamos uma fartura de tudo, fartura de evento, de orçamento, era uma época muito boa”, comentou Mauricio, que ainda consegue ver o lado bom da crise. “A gente está sendo obrigado a se mexer”, analisou, contando que ele mesmo começou a fazer uma pós-graduação em gestão cultural para se atualizar.

Durante a conversa Negro contou ainda como se especializou na arte e cultura indígena – dando detalhes e apontando curiosidades sobre o assunto -, como acredita que a própria arte o escolheu, sobre as premiações de infantojuvenis, sobre lugar de fala e a questão dos direitos autorais para o ilustrador. “Vejo como uma questão em aberto para sempre, ela é imprecisa e uma conta que não fecha, que nem a questão da previdência”, brincou sobre o último assunto, que em sua opinião é um tema complexo e difícil de discutir.

No bate-papo descontraído, Mauricio Negro mostrou algumas de suas obras, conversou sobre outros temas e até entrou mais a fundo na expressão “não entendeu? Quer que eu desenhe?” explicando que muitas vezes o ilustrador desenha justamente para confundir, abrindo assim uma boa discussão sobre o tema.

No nosso programa mais curto, Talita Facchini continua com a arqueologia do PN e Luciana Melo mostrou um pouco da terceira edição da Feira Mística da editora Pensamento. Todos os nossos programas estão disponíveis no nosso canal no Youtube.

Fonte: PublishNews

O que as crianças perdem quando não há ogros, bruxas e princesas nas histórias infantis?

As narrativas para os pequenos estão mudando; como eles e a sociedade são afetados pelo processo?

cuentos niños

Texto por Eva Carnero

O pai, trabalhando / mãe, no lar/ tudo já está em seu posto / tudo já em seu lugar. Não parecem versos com os quais alguém gostaria de educar seus filhos, mas muitos pais que hoje defendem com firmeza os postulados feministas, para não dizer todos, provavelmente elogiaram a autora alguma vez. Sim, certamente todos eles o fizeram, pois a autora não é outra senão Gloria Fuertes, uma poetisa que se caracterizou pela identidade feminista e escreveu essas letras nos anos setenta, no livro El Hada Acamarelada. Cuentos em Verso (A Fada Melosa. Contos em Verso). São os mesmos versos que, curiosamente, faltavam em algumas versões publicadas em 2017, quando se comemorou seu centenário de nascimento. Segundo conta a professora de Educação Primária e Infantil da Universidade Internacional de La Rioja, Concepción María Jiménez, a estrofe não figurava em todas as novas edições, e poucas crianças lerão esses versos.

O caso exposto pela professora universitária dá uma medida de até que ponto existe um temor, uma atitude preventiva em relação ao conteúdo das histórias e — por uma justificável extensão — em relação a toda obra literária destinada às crianças. Para as tenras mentes infantis, as histórias podem se tornar exemplos perversos a imitar, podem ensinar modelos com os quais perpetuem atitudes inadequadas, prejudiciais à sociedade, quase imperdoáveis em casos extremos… Talvez seja assim, talvez não, mas não há dúvida de que as histórias exercem um efeito inegável na ideia da realidade desenvolvida pelas crianças. “São o caminho mais eficaz para responder ao que cada um sente, em que calçamos os sapatos do outro e que nos ajudam não apenas a nos conhecer e nos entender, mas também a reconhecer o mundo”, explica Jiménez.

As histórias devem ser realistas?

Quando você lê ao seu filho Chapeuzinho VermelhoCinderela ou Os Três Porquinhos não está apenas transmitindo uma história com a qual a criança se entretém, desfruta e viaja com imaginação. Além disso, e aqui está o mais interessante, você está mostrando a ele “o reflexo da vida, com a crueldade, a inveja, o egoísmo, a coragem, a generosidade e tudo que caracteriza o ser humano”, diz Jiménez. Tudo que é bom e tudo que é mau. “Talvez por isso, nas histórias, os personagens não sejam ambivalentes, isto é, não sejam bons e maus ao mesmo tempo como realmente são os seres humanos, o que ajuda as crianças a compreender mais facilmente a diferença entre a maldade e a bondade” reflete Jiménez.

E assim pensa a professora que as histórias deveriam ser, pois se não mostram a realidade como ela é perdem a capacidade de responder às perguntas que sempre acompanharam o ser humano, aquelas que giram em torno da tristeza, do amor, da inveja… Neste sentido, ela defende com firmeza os contos de fadas e sua linguagem simbólica, e contraria a opinião de que “esse tipo de relato narra histórias simplórias, onde não existem problemas e tudo é idealizado”. Segundo ela, “se olharmos para os contos de Andersen ou dos irmãos Grimm veremos muitas coisas que seriam perversas: bruxas, ogros, atrocidades, crimes… Existe muito drama e muito conflito, algo de que as crianças tendem a gostar”.

Mas o enfoque próprio dos contos tradicionais não costuma ser visto em muitas histórias infantis modernas nas quais, de acordo com Jiménez, “o que encontramos são instruções para administrar as emoções, para controlar os estereótipos e os gêneros, e para trabalhar os valores, quando, na verdade, o conto é algo íntimo, que cada pessoa interpreta de seu próprio interior”. A professora diz que direcionar esses sentimentos através da literatura é como fornecer uma receita para a vida. De acordo com ela, e por muito boas intenções que se tenham ao fazê-lo, algumas das histórias que se contam agora tratam sobre como devemos instruir a criança para que veja a vida de “forma bonita”, ou seja, como um lugar onde não existem decepções, conflitos ou dor: “Uma mentira que faz parte dessa nova política de não incomodar. Uma tarefa que fazem suprimindo o que é característico do conto tradicional, a transgressão, o simbolismo, a emoção, a ambiguidade…”

Uma maneira de entender que os outros pensam diferente

Além de mostrar à criança como é o mundo que a rodeia, cada história encerra uma mensagem única, “de forma simbólica, ensina a criança como lidar com as vicissitudes do dia a dia, aliviar os medos e enfrentar as ansiedades que certas incertezas podem provocar”, diz a professora. Neste caso é preciso levar em conta que o ensinamento que cada criança tira não é sempre o mesmo, pois cada um interpreta a história à sua maneira.

O cérebro de cada criança se forma a partir de suas próprias experiências, mas também observando os exemplos da vida dos adultos, assim como as histórias que lhe contam. Estas têm um peso muito importante, embora não chegue a ser determinante”, esclarece Moisés de la Serna, doutor em Psicologia, escritor e mestre em Neurociência. Outra função que a Neurologia atribui às histórias é ajudar a criança a entender as dimensões do tempo e do espaço. Através da estrutura sequencial do relato, o cérebro cria lembranças que registra em ordem cronológica, o que, em última instância, pressupõe a existência de um passado, um presente e um futuro. É uma estrutura simples, mas básica para a vida social.

Segundo de la Serna, as histórias oferecem outra qualidade interessante para o desenvolvimento emocional das crianças. O especialista vê nesse tipo de histórias “uma maneira de aprender a entender que os outros podem ter diferentes formas de pensar, intenções e motivações”. Assim, o psicólogo diz que “a criança aumenta suas habilidades sociais desenvolvendo o que é conhecido como teoria da mente, isto é, a capacidade de saber que os outros têm pensamentos diferentes dos que ela tem”. Muito próxima dessa ideia, a professora Jiménez relaciona outra capacidade mais com a leitura de histórias, a de ensinar a se colocar na pele do outro (algo que nem sempre é benéfico), “essa empatia tão necessária em nossos dias”. Todas essas qualidades podem ser encontradas em maior ou menor grau nas histórias de todas as épocas, embora seja verdade que com nuances significativas que variam com o momento histórico.

O que existe de ‘tóxico’ nas histórias?

Jiménez descreve uma evolução interessante desse tipo de histórias, com ênfase em alguns aspectos particularmente relevantes. Para começar, temos as “histórias com moral de Perrault, nas quais se percebe a crueldade e há inclusive finais dramáticos. Mais tarde, no século XIX, os irmãos Grimm publicaram essas mesmas histórias suavizando o final para evitar tanta ‘crueldade’. E no século XX, a Disney também transformou várias dessas histórias para levá-las ao cinema”, diz. E as mulheres sabem bem que o cinema nem sempre conta as coisas como são. Finalmente, a especialista acredita que, desde a década passada, muitas dessas histórias primigênias foram manipuladas ou adaptadas para responder a necessidades diferentes, para se adequarem à época atual.

A doutora em Pedagogia, professora da Universidade Rovira i Virgili, escritora e contadora de histórias Maria Concepción Torres acredita que “os elementos do conto tradicional ainda aparecem em muitas narrativas atuais, enquanto muitos deles tentam apresentar situações reais próximas do menino ou da menina, ou do jovem ao qual se dirige a história: suas vivências, suas preocupações… que não são as mesmas de 10 ou 20 anos atrás”. Daí a mudança de enfoque, que desafia a tradição e tem um reflexo tangível fora das páginas das histórias para crianças.

Por exemplo, uma escola em Barcelona decidiu retirar de sua biblioteca Chapeuzinho Vermelho e A Bela Adormecida, junto com outros 200 títulos (30% dos livros do jardim da infância) por conterem histórias “tóxicas” do ponto de vista de gênero. É uma decisão que convida os pais a considerar se devem ler essas histórias para seus filhos ou se isso ajudaria a perpetuar o machismo na sociedade. Em outras palavras, uma notícia que mostra a enorme importância atribuída aos contos infantis na formação da sociedade.

Mas os contos, como qualquer mensagem, não devem ser tirados do contexto. “As mensagens dessas histórias devem ser situadas no momento de sua criação para poder compreendê-las. Quando as transferimos para a nossa realidade é quando se faz essa análise de estereótipos sexistas”. Torres defende os contos tradicionais e considera que devem continuar sendo transmitidos para poder contrastar a história com a realidade e, assim, gerar um pensamento crítico. E isso, ironias da literatura, certamente ajuda a ser mais livre no mundo real.

Fonte: El País

Encontro com os escritores recebe Ana Maria Machado e Ruth Rocha

Em sua décima segunda edição, a série Encontro com os escritores recebe as premiadas autoras Ana Maria Machado e Ruth Rocha para um bate-papo com seus leitores sobre suas vidas e obras, com mediação da editora Lenice Bueno. O evento homenageia os 50 anos da revista Recreio, importante publicação infantil descontinuada em 2018 e conta com sessão de autógrafos das autoras. O encontro gratuito acontece em 11 de junho, das 19h às 21h, na sede da Universidade do Livro. É preciso inscrever-se previamente.

A série Encontro com os escritores consiste em um ciclo de conversas com autores renomados nos mais diversos segmentos, de romancistas e poetas a quadrinistas, biógrafos e divulgadores científicos. Os encontros anteriores foram com Luis Fernando Verissimo, Milton Hatoum, Laurentino Gomes, Laerte e Luis Gê, Ignácio de Loyola Brandão, Pedro Bandeira, Mary del Priore, Rodrigo Lacerd, Cristovão Tezza, Marina Colasanti e Maria Valéria Rezende.

Sobre as autoras – Ana Maria Machado nasceu no Rio de Janeiro em 1941. Com quase de 50 anos de carreira, Ana Maria tem mais de cem livros publicados no Brasil e em mais de 17 países, somando mais de 18 milhões de exemplares vendidos.  Ficou conhecida como escritora, tanto pelos livros voltados para adultos como aqueles voltados para crianças e jovens. Em 1993, tornou-se hors-concours dos prêmios da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Em 2000, ganhou o prêmio Hans Christian Andersen, considerado o prêmio Nobel da literatura infantil mundial. E em 2001, a Academia Brasileira de Letras lhe deu o maior prêmio literário nacional, o Machado de Assis, pelo conjunto da obra. Ocupa a cadeira número 1 da Academia Brasileira de Letras, que presidiu de 2011 a 2013.

Ruth Rocha é formada em Ciências Políticas e Sociais pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Entre 1957 e 1972 foi orientadora educacional do Colégio Rio Branco. Nessa época, começou a escrever sobre educação para a revista Cláudia. Nesse período, Sonia Robato, que dirigia a revista Recreio, fez um convite-desafio para Ruth: escrever uma história para crianças. Assim nasceu Romeu e Julieta, a primeira de uma série de narrativas publicadas na revista, que mais tarde Ruth veio a dirigir. A partir de 1973 trabalhou como editora e, em seguida, como coordenadora do departamento de publicações infantojuvenis da editora Abril. Palavras, muitas palavras, seu primeiro livro, saiu em 1976. Depois vieram Marcelo, Marmelo, Martelo — seu best-seller e um dos maiores sucessos editoriais do país, com mais de setenta edições e vinte milhões de exemplares vendidos —, O reizinho mandão — incluído na “Lista de Honra” do prêmio internacional Hans Christian Anderson —, Nicolau tinha uma ideia, Dois idiotas sentados cada qual no seu barril e Uma história de rabos presos, entre muitos outros. Em mais de cinquenta anos dedicados à literatura, a escritora tem mais duzentos títulos publicados e já foi traduzida para vinte e cinco idiomas. Ruth recebeu prêmios da Academia Brasileira de Letras, da Associação Paulista dos Críticos de Arte, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, além do prêmio Santista, da Fundação Bunge, o prêmio de Cultura da Fundação Conrad Wessel, a Comenda da Ordem do Mérito Cultural e oito prêmios Jabuti, da Câmera Brasileira de Letras. Em 2008, foi eleita membro da Academia Paulista de Letras.

Encontro com Ana Maria Machado e Ruth Rocha
Data: 11 de junho de 2019
Horário: das 19h às 21h
Inscrições: até às 16h do dia 11/06 ou enquanto houver vagas
Entrada gratuita
Inscrições: clique aqui
Local: Universidade do Livro |Praça da Sé, 108, 7º andar (esquina com Rua Benjamim Constant) | Estação Sé do Metrô | São Paulo (SP)

COMO AMPLIAR A LEITURA LITERÁRIA NAS ESCOLAS?

É possível ampliar a leitura literária nas escolas – e fora delas? Neste 1º de maio, Dia da Literatura Brasileira, Christine Castilho Fontelles propõe uma reflexão sobre o assunto. O artigo foi publicado originalmente no blog do Instituto Ecofuturo e no portal Promenino.

A literatura à deriva

Há alguns anos, assisti a uma saborosa palestra do escritor Cristovão Tezza, cujo tema era “A literatura à deriva”. Perguntado sobre como promover ampliação da leitura literária nas escolas – assunto que tem sido o fundamento do meu trabalho há mais de 15 anos -, ele falou sobre a polêmica envolvendo seu romance “Aventuras provisórias”, indicado para as escolas de Santa Catarina, que foi considerado inadequado por uma auxiliar pedagógica por conter linguagem chula, discurso ao qual se somou o de alguns pais de alunos – fenômeno fácil de reconhecer nos dias atuais, quando qualquer indício de oposição ao o que se quer é seguido por uma feroz caça às bruxas, que vai de impropérios disparados pelas redes sociais a agressões às vias de fato. O episódio o motivou a escrever em sua coluna na Gazeta do Povo, de Curitiba, um texto intitulado “Não me adotem”, publicado em 2009.

Segundo Tezza, há um certo antagonismo entre o conservadorismo propagado nas escolas e o caráter libertário da literatura. Literatura é vida real e texto de escola tem os contornos do socialmente correto – termo que uma querida amiga, Silvia Castrillón, prefere substituir por “moralmente hipócrita”. Ora, banir das escolas a reflexão e o debate sobre temas que são eminentemente humanos é retirar delas sua função de formar seres humanos integrais, aptos a viver em ambientes e situações que requererão dele conhecimentos, abertura e habilidades para um mundo cada vez mais multi e intercultural.

Eu não li o livro, mas assusta a forma como o fato veiculou: um fragmento da obra foi retirado do contexto da narrativa e linchado na praça pública das mídias, como se fosse, palavras do autor, um haikai.

Como se diz há muito tempo, não se julga um livro pela capa, embora ela possa, a capa, ser fator de escolha do livro, coisa que frequentador de livrarias e de antenadas bibliotecas conhece bem. E isso não é estratégia de país tido como pouco afeito à leitura – bibliotecas recém-abertas estão sendo fechadas Brasil adentro, como foi o caso das bibliotecas públicas no Rio de Janeiro, uma delas, a de Manguinhos, uma biblioteca Parque, inspirada no modelo da Colômbia, não por falta de leitor, mas por decisão da gestão pública sobre onde ela acha que é importante alocar recursos públicos. Recentemente estive num evento literário no Chile e conheci uma biblioteca em Copenhague que descarta anualmente 30% do seu acervo físico porque passa a ser encontrado em meio digital e, assim, conseguem ter espaço para expor os livros com as capas de frente, usando a estratégia para atrair leitores.

Foto: Valdecir Galor/SMCS – Agência de Notícias da Prefeitura de Curitiba

Para que serve, então, a literatura? Vejamos como é tratada nas escolas. As escolas levam seus alunos a exposições de arte e não aplicam questionário, ensinam música e, em vez de transformar o aprendido em prova, promovem uma bela apresentação, sugerem filmes como outra linguagem para compreender fatos históricos e trocar ideias, levam ao teatro para oferecer acesso à cultura e em todos os casos como experiência estética. Mas a literatura, não!, à leitura literária são levados para fazer prova de entendimento de texto, de conferência para provar que leram, quando não seus fragmentos de literatura são usados para o ensino de gramática. Dá para gostar? Dá para se envolver? Dá para querer mais? Está condenada a não “servir” para nada.

Se não é para proporcionar experiência ética e estética, que passa inevitavelmente pela escola. Se não é para nos humanizar na medida em que, como ensina Alberto Manguel, viabiliza nossas experiências no tempo e no espaço – uma vez que não podemos nos deslocar (ainda!) de volta ao passado ou visitar o futuro e nem estar pessoalmente em todos os lugares para provar das culturas e das geografias que banham este planeta! Que é, ou deveria ser, também missão realizada na escola.

Em “A literatura em perigo”, Tzvetan Todorov fala sobre a importância de romper as amarras burocráticas do ensino de literatura para que seja possível incursionar pelo que ela tem a dizer sobre o humano, para muito além das convenções sociais que sempre buscam silenciar tensões e distensões, colocando a sociedade no trilho do positivismo: ordem e progresso. Como se não falar do que aflige, encanta, amedronta, transcende, assombra, fosse garantia de uma vida plácida e sem conflitos.

Ainda outro dia tentaram banir das escolas brasileiras o livro de Monteiro Lobato, acusado de propagar o racismo, alegando que os professores não tinham condições de lidar em sala de aula com resquícios literais e literários de uma sociedade de passado escravocrata e presente acintosamente preconceituoso e racista. Assim condena-se um grande escritor e se assume a pouca intimidade e o despreparo de professores com o uso do texto literário como condenação e resultado de geração espontânea, no lugar de oferecer as condições necessárias para garantir uma formação leitora de qualidade para todos. E quem tem em mãos “Caçadas de Pedrinho”, edição atual, certamente encontra numa das primeiras páginas uma mensagem onde se diz que não se recomenda a caça de animais silvestres da fauna brasileira e aquela é apenas uma história de ficção!

Para que serve a literatura? Para nada, dizia o poeta e querido amigo Bartolomeu Campos de Queirós, querendo dizer para tudo, para tudo que pode nos humanizar. Ele, um raro ser, que era poesia em movimento, capaz de nos apresentar a dor e a ausência em finas fatias de tomate servidas nas páginas do desconcertante “Vermelho Amargo”.

O papel de um escritor não é dizer aquilo que todos somos capazes de dizer, mas sim aquilo que não somos capazes de dizer”, dizia a escritora Anaïs Nin. Pilhar esta experiência que a literatura, e só ela proporciona, é praticamente pilhar de crianças e jovens desde muito cedo percepção e consciência de que somos seres de narrativas, que escrevemos para dizer quem somos e nos conectar, de uma forma íntima, com a teia da vida. Para muito além dos limites de realidade traçados pela superficialidade ou banalidade dos textos que trafegam em larguíssima escala pelas mídias e redes sociais. Então, sim, nunca lemos tanto. Mas é preciso ler melhor, para melhor atendermos às demandas da vida e fazer deste lugar o melhor lugar do mundo para se viver, para todos!

E, para quem acha que a literatura é um luxo imaterial, fica a pergunta: como a matéria pode ter criado algo tão imaterial quanto a consciência? E para que serve mesmo a consciência?

Fonte: EU QUERO MINHA BIBLIOTECA

Dia Nacional do Livro Infantil: ‘O maravilhoso serve de contrapeso ao real’

Escritora e professora da UFRJ Georgina Martins estuda a fantasia na literatura

A escritora e professora da UFRJ Georgina Martins Foto: Acervo pessoal
A escritora e professora da UFRJ Georgina Martins Foto: Acervo pessoal

RIO — Um universo do qual a realidade não dá conta. Seres do folclore, objetos mágicos, lugares únicos. O maravilhoso na literatura é objeto de estudo da escritora, professora da UFRJ e especialista em teoria e crítica da literatura infantil e juvenil Georgina Martins .

Como nasceu a literatura do maravilhoso?

Qual seria a “função” dessa literatura?

O maravilhoso serve de contrapeso à banalidade e à regularidade do cotidiano, como disse o historiador francês Jacques le Goff; ou seja, os personagens e os objetos entram nas narrativas ficcionais e operam eventos espantosos no cotidiano: a abóbora é transformada em carruagem, tapetes voam, sapo vira príncipe, lâmpadas realizam desejos. O mundo fica de ponta-cabeça, e os personagens se apropriam daquilo que não podem ter na realidade.

Como localizar nas livrarias as nossas maravilhas literárias?

Procurando livros do Câmara Cascudo, livros sobre mitologia indígena, mitologia africana, lendas urbanas…

O que os pequenos leitores ganham quando apresentados à metalinguagem contida nas mitologias?

Prazer na leitura, com grande importância cultural. As histórias evocam comportamentos éticos, falam de valores morais, coragem, perseverança e solidariedade.

Fonte: https://oglobo.globo.com

No Dia Nacional da Literatura Infantil autores e ilustradores analisam sua importância

Livros com histórias e desenhos pensados para crianças e adolescentes conseguem alcançar aspectos linguísticos e estéticos, ajudando a formar cidadãos plenos e com capacidade crítica

Texto por Mariana Mesquita

Detalhe de ilustração de Rosinha
Foto: Reprodução

Desde 2002, a cada 18 de abril o Brasil comemora o Dia Nacional da Literatura Infantil. E, apesar da crise econômica estar afetando o mercado livreiro como um todo, sempre há motivos para celebrar o fato. “É como no dia do aniversário de alguém querido. A gente comemora a existência desse objeto. E comemorar o livro é comemorar as pessoas que ainda acreditam que ele é um portal de comunicação onde você consegue acessar afetos, memórias e senso crítico, também. Porque quando a gente lê, a gente pensa”, destaca Luciano Pontes.

Ele é autor e ilustrador de livros infantis – e também vem atuando como curador do Festival Internacional de Literatura Infantil de Garanhuns (Filig), que no ano passado realizou sua quarta edição. “É muito importante comemorar, porque – independentemente do tempo e do espaço – o livro é um dos produtos culturais mais importantes que existem, e quando é feito para as crianças isso assume uma importância ainda maior, porque é assim que se formam novos leitores”, reforça por sua vez Rosinha, premiada ilustradora e escritora do segmento.

Ainda menosprezado por algumas pessoas, que não enxergam a dimensão de sua importância e complexidade, os livros feitos para crianças e adolescentes vêm alcançando um patamar de excelência nas últimas décadas.

“Eu sou autor e ilustrador e meu primeiro livro infantil foi feito em parceria com o etnólogo Pierre Verger, na década de 1980, falando sobre lendas africanas. De lá para cá, a coisa se profissionalizou e melhorou bastante. Tivemos momentos de pico, como em 2014, quando Roger Mello tornou-se o primeiro ilustrador latinoamericano a receber o prêmio Hans Christian Andersen, o mais importante na área da literatura infantil”, relembra Enéas Guerra, que comanda em Salvador (BA) a editora Solisluna, detentora de um catálogo onde as obras infantojuvenis se destacam. 

Para Rosinha, vencedora de prêmios importantes como o Jabuti, o auge da produção para o setor, no Brasil, se deu após a criação de políticas públicas específicas, como o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE). Desenvolvido a partir de 1997, ainda durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, o programa tomou impulso nas gestões de Lula e Dilma Rousseff.

“No início, os livros eram em preto e branco, pequenos, e só quem vencia as concorrências eram as grandes editoras. Quando Lula entrou, houve uma democratização nesse processo. Começou a haver limite de títulos por editora, e só 10% das obras podia ser de livros estrangeiros, traduzidos. A produção foi incentivada. Foram realizadas feiras no Brasil inteiro, os autores e ilustradores passaram a ser reconhecidos e receber prêmios fora do País”, relata.

Rosinha, ilustradora e escritora – Crédito: Divulgação

“Nessa época, houve uma ampliação real dos acervos das bibliotecas das escolas públicas de todo o Brasil, e também uma qualidade maior no que estava sendo distribuído, porque tinha mais produção, mais oferta de obras entre as quais se escolher”, acrescenta Luciano Pontes.

Porém, na gestão de Michel Temer, diz Rosinha, o PNBE foi “completamente desvirtuado, enquanto política pública de acesso ao livro”. Apesar disso, em 2018 houve edital, seleção de livros e publicação em diário oficial de uma lista de obras que seriam distribuídas às escolas públicas.

“Só que a gente já está no quarto mês de 2019 e o governo de Jair Bolsonaro, até o momento, não resolveu essa questão nem está dando conta de se organizar para cumprir o que Temer havia deixado determinado”, critica ela, alertando para o fato de que várias editoras pequenas já fecharam as portas desde 2016. “São três anos em que a gente faz no máximo dois livros a cada ano, quando antes fazia de oito a dez. Vários autores e ilustradores vêm sendo obrigados a buscar outros trabalhos. Então, o momento é de muito receio em relação ao que vem pela frente”, lamenta.

Objetos para a alma

“O Nordeste tem excelentes autores, muita gente boa trabalhando em Pernambuco, no Ceará. Inclusive, enquanto fonte de inspiração o Nordeste é inesgotável, tanto que muitos autores de livros infantis do sul do País vêm se inspirar por aqui”, conta Enéas Guerra – ele mesmo, um paulista que se apaixonou pela Bahia e para lá se mudou, desde os anos 1970. “O livro faz parte da formação dos seres humanos, como cidadãos plenos. O livro tem essa tarefa, é capaz dessa magia”, ressalta. 

“Não é um objeto comestível, é algo feito para a alma. Não consumindo esse tipo de produto, a gente traz o diagnóstico de uma sociedade que está adoecendo”, destaca Luciano Pontes, para quem a boa literatura infantojuvenil consegue dialogar “com todas as infâncias”.

Detalhe de capa de livro da Solisluna – Crédito: Solisluna/Divulgação

“É muito importante ler a literatura direcionada a esse tipo de público, porque ela toca em aspectos linguísticos e estéticos. Ela não é só texto. Alia duas linguagens, a narrativa e a não-verbal, de maneira muito sofisticada. Quando pegamos um livro infantil, estamos diante de um artefato que é um conjunto artistíco, onde há um diálogo integrado”, descreve.

Para Luciano, é importante que se pense o livro nesse sentido. “É um projeto gráfico, tipográfico, estético, narrativo, construído em prol de um sentido, de uma história. E isso às vezes acontece de forma completamente diferente do que ocorre na obra de literatura dita adulta”, explica. Ele lamenta o fato de que ainda hoje, “independentemente do público, da inserção na escola e das políticas de governo, a literatura ainda é muito mal vista e pouco lida, especialmente a infantojuvenil”. “É a concretização da negação do direito à cultura. A literatura perpassa essa questão de não se ter resposta à necessidade humana de ter acesso à cultura”, finaliza. 

Legado polêmico de Lobato

Abril é um mês especial quando se fala em livros voltados para a infância. O Dia Internacional do Livro Infantil é comemorado no dia 2, em homenagem ao nascimento, em 1805, do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen (autor de clássicos como “A Pequena Sereia” e “O Patinho Feio”).

Mas, no Brasil, a data que ganhou mais destaque foi 18 de abril, dia do aniversário de Monteiro Lobato, criador de um dos maiores legados voltados para esse público. De sua imaginação, surgiram personagens que marcaram várias gerações de crianças, desde que seu primeiro livro infantil, “A menina do narizinho arrebitado”, foi publicado, em 1920. Nascido em 1882 e falecido em 1948, Lobato inseriu Narizinho, Pedrinho, Dona Benta, Tia Nastácia, Visconde de Sabugosa e, especialmente, Emília na memória afetiva brasileira. 

Quase um século depois dessa história ter começado, os direitos autorais do Sítio do Picapau Amarelo, junto com as demais obras de Monteiro Lobato, deixaram de ser protegidos (a lei diz que eles perduram por 70 anos após a morte do autor). Como agora são de domínio público, desde o dia 1º de janeiro qualquer editora pode publicar as histórias do “pai da literatura infantil brasileira” – sejam as histórias originais, sejam adaptações ou novos textos que remetam a ele e a seus personagens.

Detalhe de capa de livro da Solisluna – Crédito: Solisluna/Divulgação

Extremamente queridos do público, os personagens centenários também vêm precisando lidar com as mudanças culturais que afetam nossa sociedade. O autor vem sendo acusado de expressar ideias racistas em suas obras, especialmente quando se refere à famosa Tia Nastácia (constantemente menosprezada por Emília em suas características negras e pelo fato de não saber escrever).

Em 2010, o livro “Caçadas de Pedrinho”, de 1933, foi denunciado por militantes negros como sendo uma obra racista, levando o Conselho Nacional de Educação (CNE) a vetar a distribuição da obra nas escolas públicas brasileiras. Na sequência, em 2011, o Ministério da Educação (MEC) publicou um parecer contrário à proibição do livro, recomendando que a leitura seja feita aliada a uma política antirracista dentro do sistema de ensino e que as novas edições contenham uma nota técnica contextualizando o momento histórico em que o livro foi produzido.

Fonte: Folha PE

Literatura fantástica encanta até quem já nasceu com tablet

Dia Nacional do Livro Infantil é nesta sexta, data do nascimento de Monteiro Lobato

Ilustração de Samuel Casal Foto: Samuel Casal/Editora do Brasil

Texto por Roberta Pennafort e Karen Acioly

RIO — Monstros, fadas, bruxas, gigantes e personagens tradicionais do folclore brasileiro povoam a literatura infantil e juvenil desde antes de nossos bisavós virarem suas primeiras páginas. A chamada literatura do maravilhoso, habitada por estes e outros seres cujas existências não podem ser explicadas pela racionalidade adulta e carimbadas no imaginário das crianças pelos clássicos europeus, segue motivando lançamentos e debates, e encantando mesmo quem já vem ao mundo com um tablet no berço.

Neste Dia Nacional do Livro Infantil — a data é a do nascimento de Monteiro Lobato (1882-1948) —, o criador de Emília, Narizinho e Pedrinho é lembrado justamente por suas histórias fantásticas. À parte as controvérsias sobre o racismo que lhe entranha as narrativas, Lobato é marco da literatura maravilhosa brasileira, por ter trazido a gerações de leitores alegrias mitológicas como a Cuca, o Saci, a Curupira, entre outros tantos companheiros nossos existência afora.

Com ele, estão Câmara Cascudo (1898-1986), profundo entendedor das manifestações culturais nacionais, com seus recontos, Graciliano Ramos (“A terra dos meninos pelados”), Joel Rufino dos Santos (“O saci e o curupira”) e autores que se dedicam à literatura dos povos da floresta e das divindades da mitologia africana, como Kaká Werá, Daniel Mundukuru, Kiusam Oliveira, Sonia Rosa e Rogério Andrade Barbosa.

A escrita maravilhosa desembarcou no Ocidente nas versões pioneiras do italiano Giambatistta Basile, que abririam portas e janelas para Hans Christian Andersen e os Irmãos Grimm. No Brasil, depois de Lobato viriam os textos juvenis de ficção científica dos anos 1960, e os autores do apogeu da literatura infantil e juvenil, Sylvia Orthof, Fernanda Lopes de Almeida, Ana Maria Machado, Maria Clara Machado…

O maravilhoso é tudo aquilo que é sobrenatural e que, ainda assim, ninguém estranha. Um personagem sai voando, e tudo bem. O lobo mau come a avó inteira, e depois você a encontra abrindo a barriga dele — aponta Alexandre de Castro Gomes, autor de livros adotados em escolas, muitos deles sobre monstros e folclore, como “Quem matou saci?” (Escarlate), “Encontros folclóricos de Benito Folgaça” (Editora do Brasil) e “Condomínio dos monstros”(RHJ). — A literatura infantil se apropriou do maravilhoso e sabe utilizá-lo muito bem. A cabeça da criança tende a ser mais mágica.

Ilustração de Samuel Casal Foto: Samuel Casal/Editora do Brasil

No catálogo que levou neste mês à Feira literária de Bolonha, voltada à produção para este público, a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) destacou lançamentos nessa linha. Viajaram à Itália, por exemplo, “A avó amarela”(Oze), de Júlia Medeiros e Elisa Carareto, que tem dentes de porcelana e cozinha lembretes; “O búfalo que só queria ficar abraçado” (Carochinha), de Thais Laham Morello e Juliana Basile, cheio de afetos; a delicada “Casa de passarinho” (Positivo), de Ana Rosa Costa e Odilon Moraes, entre outras gemas verdes e amarelas.

Meu modo de trabalhar magia e o fantástico é em cima do real. Em “Pedro e a lua” (Jujuba), há um menino, uma pedra e uma tartaruga. A fantasia entra no momento em que a tartaruga é uma pedra e a pedra é um pedaço da lua — diz Odilon Moraes, aos 30 anos de ilustrações. — Não tem dragão, fada, duende, mas a possibilidade de dar outro sentido às coisas. A criança está muito mais no mundo concreto do que nós. Quer coisa mais fantasiosa do que o dinheiro do adulto, um pedaço de papel?

Ilustração de Samuel Casal Foto: Samuel Casal/Editora do Brasil

O número de títulos vem caindo a cada ano, na esteira da crise das editoras, ressalta Elizabeth Serra, à frente da FNLIJ. Mas o momento é áureo para a literatura infantil em termos das virtudes de texto e imagem.

O maravilhoso sempre existiu, e valorizamos os marcos, como “Flicts”, do Ziraldo, que está fazendo 50 anos e traz a originalidade da imagem e da ideia juntos. Melhor do que livro didático, só livro de literatura. A cultura da escrita é a da liberdade, da independência — diz Elizabeth.

Nesta quinta-feira, das 10h às 18h, na Biblioteca Parque Estadual, no Centro, a edição especial do evento “Conversa Literária” terá rodas de conversa atravessadas pelo mundo maravilhoso.

Existe uma censura atualmente nesse sentido. Editoras querem histórias do dia a dia da criança — critica a organizadora, Cintia Barreto. — Mas este universo é muito importante para a formação humana, leva o público infantil a outros mundos, ampliando seu repertório e potencial criativo. Viemos dessa tradição.

Fonte: O Globo

Capuchinho Vermelho e outros contos infantis vetados por serem sexistas

Escola de Barcelona decide afastar mais de 200 contos infantis da sua biblioteca por não acautelarem valores de género

O Capuchinho Vermelho, A Bela Adormecida ou até A Lenda de Sant Jordi, o santo padroeiro da Catalunha, já não podem ser lidos na Escola Tàber de Barcelona, instituição gerida pelo governo autónomo catalão. Uma revisão ao catálogo da biblioteca da escola levou a que esses e muitos outros contos infantis tenham passado a ser proibidos, por veicularem ideais considerados sexistas.

No total, foram mais de 200 os títulos retirados do catálogo infantil da biblioteca – destinado a crianças até aos seis anos, em idade pré-escolar -, num trabalho de revisão que contou com a ajuda dos próprios pais das crianças. Ou seja, cerca de 30% da coleção de livros para aquela faixa etária foi banida. Em 60% dos títulos, os problemas de género detetados foram considerados menos graves, enquanto somente 10% estavam escritos conforme uma perspetiva igualitária de género, de acordo com a comissão responsável pela revisão.

Em declarações à televisão municipal Betevé, uma das mães envolvidas no processo não quis confirmar os títulos vetados e desvalorizou a questão dos contos tradicionais, revelando tratarem-se de “uma minoria” entre os livros afastados. “Também foram vetados livros para aprender o abecedário, as cores, os hábitos, etc. A sociedade está a mudar e é mais sensível às questões de género, mas isso ainda não está a ser refletido nos contos”, disse Anna Tutzó.

A maior marca de sexismo encontrada, acrescentou, foi a associação de valores como a valentia e a competitividade ao sexo masculino. “Também em situações de violência, ainda que sejam pequenas travessuras, são sempre os meninos que as protagonizam contra as meninas, o que contribui para passar uma ideia de a quem é permitido ter atos violentos contra quem”, referiu, citada pelo El País.

A revisão dos catálogos da biblioteca infantil já foi entretanto anunciada também por outras escolas de Barcelona, avança o mesmo jornal.

Já em relação aos títulos existentes para a faixa etária a partir dos seis anos – ou seja, na escola primária -, Anna Tutzó, da comissão de revisão da Escola Tàber, diz que não planeiam vetar nenhum, porque a leitura já pode aí ser feita com “algum espírito crítico”. “Na primeira infância [pré-escolar], as crianças são esponjas que absorvem tudo. Na escola primária, os alunos já têm mais capacidade crítica e esses livros podem ser uma oportunidade para aprender, de forma a que eles mesmos saibam identificar esses elementos sexistas”.

Fonte: https://www.dn.pt

Parâmetros para a composição de um acervo em literatura infantil: o conto

Por Cristiane Mori

Dando início à série de posts sobre composição de acervo, a professora Cristiane Mori fala sobre os contos e indica o que não pode faltar numa biblioteca infantil

Este texto é o primeiro de uma série de textos que faremos aqui no Blog Singularidades, objetivando apresentar alguns parâmetros para a composição de um acervo de livros que potencialize o trabalho didático com a literatura infantil e contribua para a formação do leitor literário, a ampliação de seu repertório e o desenvolvimento de critérios de escolha que possam apoiar o mediador de leitura a empreender, gradativamente, uma curadoria. Começaremos com este item:

Contos

‘Contos’ é uma categoria que pode ser denominada ‘guarda-chuva’, uma vez que sempre há, especialmente no caso da literatura infanto-juvenil, um ‘sobrenome’ a completar e especificar de que conto se trata: de encantamento, de repetição, cumulativo, de esperteza (ou de enganação), de assombração, dentre outros.

Além disso, a expressão contos populares pode, em certa medida, ser aplicada à maioria desses contos listados – se não, a todos –, porque todos os contos nasceram na tradição popular, eram contados oralmente e foram passados de boca em boca até serem coletados e registrados.

Isso aconteceu com um conto como Chapeuzinho Vermelho e também com um conto de enganação, que tem Pedro Malasartes como personagem, ou com Cinderela. Nesse caso, costuma-se falar em contos de fadas, mas Câmara Cascudo (2006)[1] indica o emprego do termo mais amplo contos de encantamento ou maravilhosos, para designar aquele conjunto de contos que apresenta um elemento mágico.

Cascudo, a propósito, em suas incursões pelo Brasil, coletou e registrou centenas de contos e propôs uma classificação que inclui, ao lado dos contos de encantamento ou maravilhosos, também os contos humorísticos, contos de exemplo, contos religiosos, contos de animais, contos novelescos ou de amor e recompensa e os contos de fórmula ou acumulativos, que já mencionamos.

Quando se pretende organizar o acervo de uma biblioteca – seja escolar, de sala ou pessoal – é mister incluir as coletâneas de contos. O mercado editorial coloca à nossa disposição uma miríade de títulos, no entanto,  nem todas primam pela qualidade, seja dos textos seja das ilustrações.

Muitos não são fiéis às versões originais e apresentam adaptações que resultam em textos mal escritos e com enredos empobrecidos. Por isso, é fundamental conhecer aquelas coletâneas que buscaram ser fiéis aos textos originais, o que facilitará a escolha de qual coletânea comprar e/ou adotar na escola.

Contos populares clássicos

As coletâneas de contos de encantamento coletados e registrados por Charles Perrault e pelos Irmãos Jacob e Wilhem Grimm são presença obrigatória em qualquer biblioteca. Foram histórias contadas por adultos, camponeses que viviam na França nos séculos XVII e XVIII, que se transformaram nos contos que conhecemos e (re)contamos até hoje.

Vivendo os tempos de horror do reinado de Luís XIV, os camponeses sofriam toda sorte de privação e eram perseguidos, caso não seguissem o cristianismo. Os contos – ao lado de outras manifestações populares, como danças e canções – eram sua forma de manter viva as tradições pagãs e, principalmente, de retratarem os horrores que viviam e as soluções – que só poderiam ser mágicas – para suas infelicidades.

Era comum que esses camponeses trabalhassem como servos na casa dos burgueses e foi assim que os contos de sua tradição chegaram até nós, principalmente, pelas mãos de Charles Perrault.

De acordo com Darton (1986)[2] – historiador americano, especialista em história da França do século XVIII – Perrault provavelmente coletou a tradição oral do povo francês com a babá de seu filho. No entanto, ele modificou tudo, para que os sofisticados frequentadores dos salões apreciassem a sua primeira versão dos Contos de Mamãe Ganso, publicada pela primeira vez em 1697.

Assim, quando publicados, os contos não tinham mais todas aquelas tintas de incesto, canibalismo, sedução e outros elementos próprios à tradição popular; ao contrário, foram amenizados e ganharam, na pena de Perrault, uma perspectiva moralizante e pedagógica.

Chapeuzinho Vermelho, A Bela Adormecida, O Pequeno Polegar, Barba Azul, As Fadas, O Gato de Botas, Pele de Asno, Cinderela, Os Desejos Ridículos, Ríquete de Topete estão entre os contos que compõem a coletânea de Perrault que, para a maioria dos pesquisadores, inaugura a literatura infantil. E até hoje, mais de 320 anos depois, os contos de Perrault continuam a ser editados e a encantar crianças de todo o mundo, inclusive as nossas!

Na Alemanha, os irmãos Wilhelm e Jacob Grimm coletaram mais de 200 contos e, em 1802, reuniram-nos na coletânea Contos para o lar e as crianças. De acordo com Ana Maria Machado (2002)[3], o próprio título já mostrava que, diferentemente de Perrault, o livro não se destinava à leitura pela corte; seu objetivo era o de ‘preservar um patrimônio literário tradicional do povo alemão’ (p. 71), razão pela qual procuraram, em sua prosa, manter uma linguagem fiel àquela empregada pelos contadores populares.

Além de novas versões para os contos de Perrault, os irmãos Grimm deixaram como legado alguns dos clássicos preferidos pelas crianças (e pelos adultos, também), como Branca de Neve e João e Maria, dentre tantos outros.

Finalmente, encerrando uma espécie de trilogia dos contos de fadas, encontramos o dinamarquês Hans Christian Andersen. Entre 1835 e 1842, ele lançou seis volumes de contos para crianças.

Além de recontar contos populares, como haviam feito Perrault e os irmãos Grimm, Andersen criou novas histórias, as quais, segundo Machado (2002), seguiam ‘o modelo dos contos tradicionais, mas [traziam] sua marca individual e inconfundível – uma visão poética misturada com profunda melancolia’ (p. 72).

A importância da obra de Andersen é tamanha, que se comemora o Dia Internacional do Livro Infanto-Juvenil na data de seu aniversário – 2 de abril – e o mais importante prêmio para escritores do gênero tem seu nome. Seu legado inclui, dentre outras, histórias como O Patinho Feio, A Roupa Nova do Imperador, Polegarzinha, A Pequena Sereia e Soldadinho de Chumbo.

Ainda de acordo com Machado (2002), a escrita autoral de Andersen animou outros escritores a incursionarem no universo da literatura para crianças e alguns escritores já consagrados o fizeram, como Oscar Wilde – cujos contos O Rouxinol e a Rosa e O Gigante Egoísta são simplesmente imperdíveis – e Ítalo Calvino, que nos presenteou com as belíssimas Fábulas Italianas, uma coletânea de contos da tradição popular de seus país, a Itália.

A fim de conhecer toda a riqueza da obra desses autores, recomenda-se a leitura de:

– PERRAULT, Charles. Contos de Perrault. 4 ed. Rio de Janeiro: Villa Rica, 1994. (Coleção Grandes obras da cultura universal, 8).

– IRMÃOS GRIMM. Contos maravilhosos infantis e domésticos (1812 – 1815). Ilust. J. Borges. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

– ANDERSEN, Hans Christian. O Patinho Feio e outras histórias. Trad. Heloísa Jahn. São Paulo: Editora 34, 2017.

CALVINO, Italo. Fábulas italianas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. 

Contos populares brasileiros

A tradição popular europeia, representada nos contos de Perrault, Grimm e Andersen, chegou no Brasil, onde se mesclou à tradição oral africana e indígena e deu origem ao que se pode denominar tradição oral brasileira.

Para conhecê-la, recomenda-se especialmente os Contos Folclóricos Brasileiros, de Marco Haurélio (São Paulo: Paulus, 2010. Coleção Lendas e Contos), que segue a classificação proposta por Câmara Cascudo e traz exemplares para cada tipo de conto.

Histórias à brasileira: a Moura Torta e outras (Ilust. Odilon Moraes. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2002) inaugura uma série de 04 volumes, em que Ana Maria Machado retrata de forma bastante extensiva a nossa tradição popular. 

Contos cumulativos

São inúmeros os títulos disponíveis no mercado que trazem contos cumulativos ou acumulativos, ou seja, contos em que a estrutura do enredo se repete e, a cada ação, um novo elemento é introduzido e acrescentado aos anteriores.

A formiguinha e a neve, da tradição popular, ou A casa sonolenta (WOOD, Audrey. Ilust Don Wood. 16 ed. São Paulo, Ática, 2009. Coleção Abracadabra) são só alguns dos inúmeros exemplos.

Num bom acervo não pode faltar a Coleção Conta de novo, da editora FTD, de Ana Maria Machado, que conta com títulos como Ah, cambaxirra, se eu pudesse, O rei Bigodeira e sua banheira, O domador de monstros, Pimenta no cocoruto, Uma boa cantoria e O barbeiro e o coronel: 

Contos de esperteza ou de enganação

Aqui, recomendam-se, especialmente, as coletâneas que trazem as aventuras de Pedro Malasartes, como Malasartes: Histórias de um Camarada Chamado Pedro (PESSÔA, Augusto, Rio de Janeiro: Rocco, 2007. Coleção Na Boca do Povo).

Contos de assombração

Os contos de assombração também integram a tradição popular de muitos países e, no caso do Brasil, é de Ricardo Azevedo o título indicado: Contos de Enganar a Morte (São Paulo: Ática, 2003.

Contos populares do mundo

Assim como o Brasil, muitos países têm uma vasta tradição de contos populares e, atualmente, o mercado editorial coloca à nossa disposição inúmeras coletâneas que nos permitem entrar em contato com as tradições de vários lugares do mundo. Para a composição do acervo das bibliotecas – escolar, de sala ou pessoal – recomenda-se, especialmente:

– NEIL, Philip. Volta ao mundo em 52 histórias. Trad. Hildegard Feist. Ilust. Nilesh Mistry. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1998.

– HIRATSUKA, Lúcia. Contos da montanha. São Paulo: SM, 2005.

– E a coleção Histórias de outras terras, editada pela FTD, que, em cada volume, traz as histórias árabes, greco-romanas, africanas e russas, todas recontadas por Ana Maria Machado.

Tantos outros excelentes títulos poderiam ter sido mencionados, mas esses que recomendamos aqui já são, com certeza, o início de um acervo, cuja qualidade contribuirá para a formação pequenos (e grandes) leitores literários!

[1] CASCUDO, Câmara Luís da. Literatura oral no Brasil. 2 ed. São Paulo: Global, 2006.

[2] DARTON, Robert. O grande massacre de gatos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014.

[3] MACHADO, Ana Maria. Como e por que ler os clássicos universais desde cedo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

Fonte: blog.singularidades.com.br

Dia do Livro Infantil: escritor premiado fala sobre literatura no interior de SP

Por Ana Beatriz Serafim

Dia do Livro Infantil: escritor premiado fala sobre literatura no interior de SP — Foto: João Paulo Hergesel/Arquivo Pessoal
Dia do Livro Infantil: escritor premiado fala sobre literatura no interior de SP — Foto: João Paulo Hergesel/Arquivo Pessoal

De repente, o ventilador de teto vira uma hélice de helicóptero que sobrevoa um mundo encantado ou um poste de luz passa a ser um extraterrestre disfarçado, pronto para atacar. Da imaginação de João Paulo Hergesel histórias diversas se materializaram em 22 livros já publicados.

O escritor de 26 anos mora em Alumínio (SP) e é formado em licenciatura em letras, tem mestrado em comunicação e cultura e atualmente faz doutorado em comunicação. No Dia do Livro Infantil, comemorado em 2 de abril, João Paulo conta ao G1 sobre a carreira e revela que era a criança que gostava de inventar histórias.

“Eu olhava para as coisas e acreditava que elas eram mais do que aparentavam ser. Lembro que, no passado, eu imaginava diálogos entre a porta e a janela do meu quarto, sugeria ações humanas para os brinquedos, entre outras invencionices.”

Das publicações, João Paulo tem sete livros infantis e infanto-juvenis, cinco juvenis e cinco para o público adulto, além de cinco livros acadêmicos para a área de pesquisa do escritor. Para o escritor, as crianças formam o público mais receptivo à narrativa de histórias criativas, que beiram o fantástico.

“Quando, em encontros e bate-papos literários, falo de princesas malvadas, de vacas que cantam, de gatos que mergulham no fundo do mar, etc., sinto que o interesse é grande; então, fazer essa transição para a escrita se torna ainda mais prazerosa.”

João Paulo ainda explica que as histórias voltadas ao público infanto-juvenil trabalham tramas diferentes da literatura adulta. “As narrativas infantis contêm temáticas que dialogam diretamente com o contexto linguístico, histórico, social e cultural da criança.”

Escritor fala sobre literatura infantil no interior de SP — Foto: João Paulo Hergesel/Arquivo Pessoal
Escritor fala sobre literatura infantil no interior de SP — Foto: João Paulo Hergesel/Arquivo Pessoal
Para ele, o consumo desse tipo de história movimenta o lado cognitivo, psicológico, criativo e intelectivo do público.

Outra importância da literatura infantil é a representatividade que as histórias promovem nas crianças, fazendo com que elas se espelhem nos personagens e desenvolvam afeto. João explica que a ficção acaba sendo um reflexo encantado da realidade e permite que os jovens leitores se apropriem de características dos personagens para aplicá-las em seu dia a dia.

“Todo mundo pode ser um super-herói durante a leitura e, posteriormente, utilizar as virtudes heroicas na vida real. Eis, inclusive, a importância de disseminar mensagens positivas e benévolas nas histórias direcionadas a esse público.”

Viver de livros?

João Paulo Hergesel é premiado por publicações na literatura para crianças e adolescentes — Foto: João Paulo Hergesel/Arquivo Pessoal
João Paulo Hergesel é premiado por publicações na literatura para crianças e adolescentes — Foto: João Paulo Hergesel/Arquivo Pessoal

Na região de Sorocaba (SP), ele percebe ações que ajudam a promover a literatura destinada a crianças e adolescentes, como contação de histórias e bate-papos. Entretanto, a baixa frequência de público em eventos literários preocupa quem trabalha no setor.

“Por mais que sejam eventos gratuitos, intensamente divulgados em redes sociais e na imprensa, que recebam apoio informal de amigos e conhecidos, a adesão é escassa. Como consequência, torna-se difícil viver somente com a profissão de escritor; temos de desenvolver outras atividades para conseguirmos uma renda compatível com o custo de vida no Brasil.”

Mesmo assim, o jovem já recebeu prêmios pelas publicações na área infanto-juvenil. Uma das mais importantes foi o Prêmio Barco a Vapor (Fundação SM), em 2018, pelo livro “A vaca presepeira”.

Entre outras conquistas de João estão o Desafio dos Escritores (Câmara dos Deputados), que premiou o “Um gato caolho do rabo comprido”; o Concurso Monteiro Lobato (SESC-DF), que premiou o “Como calar a boca de um dragão?”; o Prêmio Ganymedes José (União Brasileira de Escritores), que premiou “Criaturas de linguagem” e o “Nectarinas”; e o Programa de Ação Cultural (Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo), que financiou o “Quem disse que não te entendo?”.

*Colaborou sob supervisão de Eduardo Ribeiro Jr./G1

Fonte: g1.globo.com

I Ciclo de Oficinas: Práticas de Leitura Literária na Escola

O I Ciclo de Oficinas Práticas de Leitura Literária na Escola, promovido pelo curso de pós-graduação Literatura para Crianças e Jovens, convida à reflexão de situações práticas da leitura literária em sala de aula, a partir de estudos provenientes da didática do ensino da literatura, da teoria e da crítica especializadas. Além disso, serão objeto de análise pesquisas recentes realizadas por alunas que concluíram o curso de pós-graduação no Instituto. O Ciclo de Oficinas representa uma oportunidade para a atualização dos conhecimentos necessários a todo educador preocupado em promover a formação de leitores de literatura críticos. É voltado para professores, coordenadores e diretores de Educação Infantil e Ensino Fundamental, bibliotecários, mediadores de leitura, editores e profissionais do livro para crianças e jovens.

Informações:

Dia 30 de março de 2019, das 09:00 às 17:30

Dia 27 de abril de 2019, das 09:00 às 17:30

Dia 18 de maio de 2019, das 09:00 às 17:30

Local:
Instituto Vera Cruz
Rua Baumann, 73, Vila Leopoldina – São Paulo/SP
Próximo à estação Imperatriz Leopoldina da CPTM

Mais informações e inscrições: https://site.veracruz.edu.br/instituto/eventos/i-ciclo-de-oficinas-praticas-de-leitura-literaria-na-escola/?fbclid=IwAR3_EyKs9Bc3oGRxFHcffigrQr7sNn1u_xbwV2e4mYEYIfCM_NaJ8Cfr3vk

Câmara aprova criação de prêmio de literatura infanto-juvenil

O Plenário aprovou há pouco a criação do Prêmio Monteiro Lobato de Literatura para a Infância e a Juventude. A medida está prevista no Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 859/17 e segue para análise do Senado.

O prêmio decorre de uma emenda ao Tratado de Amizade, Cooperação e Consulta firmado pelo governo brasileiro com Portugal. O texto adicional foi assinado em Salvador, na Bahia, em maio de 2017 e aguarda aprovação do Congresso Nacional.

A condecoração será concedida a cada dois anos a escritores e ilustradores de livros de literatura infanto-juvenil dos estados-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) – Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

O objetivo é homenagear autores de livros de língua portuguesa dedicados à infância e a juventude que contribuam com o patrimônio literário e artístico do idioma. O valor do prêmio será correspondente à soma das contribuições dos países membros do tratado – Brasil e Portugal.

José Bento Monteiro Lobato (1882-1948) foi um escritor, tradutor e editor brasileiro. Considerado o fundador da moderna literatura infantil no Brasil, Monteiro Lobato nasceu em Taubaté, interior de São Paulo, e ganhou popularidade com obras para crianças, a principal delas O Sítio do Picapau Amarelo – série de 23 volumes de literatura fantástica escrita entre 1920 e 1947. A série tem origem em um dos livros do escritor, Reinações de Narizinho, publicado em 1931.

ÍNTEGRA DA PROPOSTA:

Reportagem – Murilo Souza
Edição – Rachel Librelon

Fonte: Agência Câmara Notícias

CIÊNCIA, DIVERSÃO E LITERATURA EM TRÊS LIVROS DE UMA AUTORA CIENTISTA

ANA PAULA BOSSLER DA UFTM É UMA BIÓLOGA E ESPECIALISTA EM CIÊNCIA DIVERTIDA, CONFIRA DICAS DE LIVROS ESCRITOS PELA PROFESSORA

Sabia que ciência, diversão e literatura tem tudo a ver?

Uma cientista na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) escreve histórias legais para crianças. A professora Ana Paula Bossler é uma bióloga e especialista em ciência divertida, pois ensina os fenômenos científicos de um jeito descontraído. Selecionamos três livros da professora para ficar como #dicadodia para você que curte ciências e boas leituras.

1 – ERA UMA VEZ UMA FLORESTA PORTÁTIL

É a história do menino Raimundo que gosta muito do poeta Carlos Drumond de Andrade. Além disso, é apaixonado pela natureza e fica encantado com bichos grandes e pequenos. Ele se juntou ao amigo Fernando para montar uma floresta em miniatura.

Com garrafas de plástico cheias de terra montaram canteiros, uma belezura de ver! Qual será o destino das plantações feitas pelos meninos? Para saber é só ler…

 

 

2 – DE QUE COR É O LÁPIS COR DE PELE? OU O QUE MENINOS BORBOLETAS AMARELAS E BOLHAS DE SABÃO TÊM EM COMUM?

Alice chegou em casa com uma novidade da escola. Tinha um novo coleguinha na sala. O nome dele era Hermeto, em homenagem ao músico brasileiro Hermeto Pascoal. O menino era branco, branco, branco… albino! Alice não entendeu bem o que era ser albino, mas foi pesquisar.

O novo colega levou para a sala de aula muito aprendizado sobre sua pele clarinha, além de toda musicalidade sobre seu nome.  A turma aprendeu sobre cores, peles, melanina e diferenças. Quer aprender também? Para conhecer é só ler…

 

3 – MUITO POUCO

É muito ou é pouco?

“Uma tartaruga ter cem anos é pouco. Uma pessoa ter cem anos é muito”.

“Ter uma espinha no nariz é muito. Ter um único fio de cabelo na cabeça, é pouco”

“Um abraço apertado, um picolé bem gelado, um piquenique animado é muito pouco!”

“Quem quer brincar de muito pouco?” Para brincar é só ler…

Todos os livros são feitos em pareceria entre UFTM, CNPQ, Instituto TIM e Núcleo Experimental de Cinema e Animação, com produção da Editora Rolimã.

Fonte: Minas Faz Ciência

Empreendedora negra cria a maior distribuidora de livros no exterior, “Livros For Kids”

Com o propósito de promover a língua portuguesa e a cultura brasileira entre as famílias multiculturais que vivem no exterior, a empreendedora brasileira Vanessa Pfeil, que mora na Alemanha há 10 anos, criou a “Livros For Kids“, a maior distribuidora de livros em português brasileiro em toda ÁsiaEuropa e Estados Unidos. A empresa vende clássicos da literatura infantil.

Durante uma vinda ao Brasil, Vanessa comprou 200 livros infantis para os filhos. Após publicar em uma rede social alguns exemplares usados para venda e doação, recebeu diversas mensagens de pedidos, a ponto de ter o perfil bloqueado. A iniciativa teve muito sucesso e isso deu origem a Livros For Kids, que tem um grande acervo de clássicos infantis, um vasto material para alfabetização em português e muita informação sobre a cultura brasileira para crianças e jovens, de 0 a 17 anos.

Além do site, a empresa possui pontos de vendas fixos nos EUA e em todos os países da Europa e Ásia, resultado do crescimento em dois anos.

Nosso objetivo é ser um canal de difusão e promoção da língua portuguesa e da cultura brasileira, promovendo o Brasil de forma positiva para os estrangeiros. Oferecemos livros em português, com preços acessíveis, para que o maior número de famílias possa deixar o português como língua de herança para os seus filhos”, explica Vanessa.

Formada em administração, Vanessa afirma que o grande diferencial da Livros For Kids é ter valor do frete menor em relação às empresas que enviam livros em português para fora do Brasil. Isso porque a distribuidora tem representantes exclusivos nos países onde tem pontos de venda, tornando o frete local.

Nascida e criada na favela Nova Holanda, no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio de Janeiro, a empreendedora foi aluna do primeiro pré-vestibular comunitário da região. Seu projeto não só valoriza a educação e a cultura brasileira no exterior, como tem grandes responsabilidade com sua origem. Vanessa destina 10% de tudo que é vendido a três projetos sociais que envolvem educação no Brasil e na África: o FARO Maré: projeto de alfabetização de adultos; o pré-vestibular comunitário, no Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM); e o Instituto DORCAS, de alfabetização de mulheres adultas no Senegal, África.

Fonte: Mundo Negro

Leitura de ficção literária estimula a empatia em crianças

Pesquisadores da Escola de Pesquisas Sociais, de Nova York, descobriram que a leitura de histórias e contos de ficção podem estimular que adultos e crianças entendam o seu próximo ou, ainda, se coloquem no lugar dele. Essa habilidade, que seria denominada de empatia, possibilita e facilita as relações sociais para melhor compreender situações e ações do cotidiano. Durante os experimentos de leitura, a ficção literária foi a que mais estimulou o cérebro dos participantes.
Pelos resultados positivos, essa se tornou uma das práticas recomendadas por Celize Ogg Nascimento Domingos, coordenadora-pedagógica do Ensino Fundamental – Anos Iniciais do Colégio Marista Anjo da Guarda, em Curitiba (PR). Ela sugere que ler para os filhos, além de fortalecer a relação, permite que tanto adultos como crianças vivenciem situações inéditas. “Ao se colocar no lugar dos personagens é possível analisar a maneira como cada um reagiu a determinada situação, opinar sobre as atitudes positivas e questionar o que poderia fazer de diferente”, explica.

A coordenadora avalia também que o papel da família é fundamental no quesito empatia, por ser o primeiro vínculo social da criança. Depois, na escola, surgem outros desafios e é preciso que o aluno esteja equipado emocionalmente para poder lidar com as diferenças e estabelecer relações positivas e saudáveis. “Estimular a empatia é um trabalho de todos. Tanto em casa como na escola é preciso ensinar pelo exemplo e mostrar que nem sempre todos concordam ou têm a mesma opinião sobre os assuntos, mas que com compreensão é possível chegar a um caminho do meio”, analisa Celize. Além da leitura, ela dá outras dicas para ensinar e reforçar a habilidade da empatia nos pequenos (e também nos grandes, por que não?):

1. O dia a dia das famílias é cada vez mais agitado e acelerado, então é importante estabelecer um tempo para conversar com as crianças. Falar sobre situações do trabalho e da vida adulta mostra que os pais também têm dificuldades, tanto quanto os filhos, e o diálogo ajuda a superar essas questões. A hora do café da manhã ou após o almoço, por exemplo, podem ser bons momentos para criar essa rotina.
2. Lembre-se de estar totalmente presente nesses momentos. Dividir a atenção com o celular, tablet ou televisão mostra que você está apenas parcialmente presente e isso é um péssimo exemplo de empatia.
3. Em situações de conflito não basta apenas pedir desculpas da boca para fora. Estimule a criança a entender o sentimento do outro e perguntar como pode resolver a situação.
4. Da mesma forma, pedir desculpas quando errar com a criança é um bom exemplo e mostra que a comunicação está aberta. Conversar para entender o que houve e como a situação pode ser contornada é o próximo passo.
5. Atividades artísticas como aulas de música, pintura e dançar em dupla são bons exercícios para entender sentimentos próprios e do seu par, além de estimular vínculos afetivos, especialmente para crianças introspectivas.

Fonte: REVISTA NEWS

Estudo destaca editores de livros infantis

Trabalho de Conclusão de Curso elaborado na USP traz entrevistas com profissionais do livro infanto-juvenil

Um trabalho de conclusão de curso (TCC) apresentado neste mês na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP foi o tema da coluna Bibliomania, da professora Marisa Midori, que foi ao ar no dia 8 de fevereiro de 2019 pela Rádio USP (93,7 MHz). Intitulado Editores e Livros Infantis (1978-2018), o trabalho foi feito pela então aluna do curso de Editoração da ECA Isabella Mimura Sato, sob orientação do professor Edmir Perrotti.

Ouça no link acima a íntegra da coluna.

Fonte: Jornal da USP

Jean-Claude Alphen: livros ajudam a criança empreender a sua jornada particular pela vida

Jean-Claude Alphen: “livros para a infância podem ser literatura com um grande L!”
O entrevistado de hoje, Jean-Claude Alphen, já ilustrou mais de 100 livros e é autor de 30. Ele é brasileiro, carioca, mas foi criado na França, onde viveu até os 11 anos de idade. Voltou para o Brasil, formou-se em Publicidade e Marketing pela ESPM e também em Artes Plásticas na FAAP, trabalhou como ilustrador no Marco Zero e no Jornal da Tarde até se tornar ilustrador de literatura infantil, primeiro, dos principais autores brasileiros e mais tarde de seus próprios livros infantis. Atualmente, ele está no Canadá, preparando o lançamento de quatro de seus livros e onde vai trabalhar para as editoras locais em 2020. De imediato, lança a versão canadense de “Adélie”, um dos seus livros preferidos, pela Editora D’eux. Jean-Claude foi laureado por nove vezes, como autor, com o selo “Altamente Recomendável” da Fundação Nacional de Literatura Infantil e Juvenil.  Recebeu também o prêmio da Revista Crescer, o Prêmio literário Glória Pondé da Fundação Biblioteca Nacional e foi por cinco vezes o finalista do Prêmio Jabuti e vencedor em 2017 com “Adélia”..
Página de “Pinóquia”, livro do PNLD literário (Programa Nacional do Livro e Material Didático), escrito e ilustrado por Jean-Claude, lançamento da Melhoramentos Editora
Rosa Maria: Desde quando escreve e ilustra livros de literatura infantil?

Jean-Claude: Ilustro há 30 anos e escrevo há mais de 15. Mas publicar mesmo meus próprios livros para a infância só mesmo a partir de 2007.

RM: Como a literatura infantil entrou na sua vida?

JC: Eu comecei a ilustrar livros escolares e via que era bem legal ilustrar livros de literatura. Era o caminho natural. Ilustrei mais de 100 livros de todos os autores… Quase todos. E pensei que poderia também me arriscar como autor.

RM: Comente um pouco sobre a sua formação em literatura infantil.

JC: Sou autodidata. Nunca fiz curso de desenho nem de escrita. Gosto de pensar (mesmo que possa estar errado), que isso não me engessou. Eu ilustrava mãos de quatro dedos e me corrigiam nas editoras de livros didáticos. Isso faz um bom tempo. Aprendi muito com isso, mas também me engessou no meu traço. Hoje, faço mãos com 3, 4 dedos e ninguém percebe. O que vale mesmo é a narrativa visual casada com o texto. O resto é secundário.

RM: Vamos falar de números? Quantos livros já escreveu? Quantos livros já ilustrou? Quantos personagens já criou e quais são eles?

JC: Já ilustrei mais de 100 e escrevi 30 livros. Não dá pra falar de todos eles, mas gosto muito do “Otávio não é um porco-espinho” e de “Adélia”. São meus preferidos. Mas todos são meus filhos e gosto de cada um deles do jeito que são.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

RM: Quais são seus livros só de imagem e como analisa esse tipo de obra para crianças?

JC: Tenho alguns. É muito complicado publicar livros assim no Brasil. Normalmente naufragam. Tem que ter texto pra dar certo. Fiz um livro chamado “Escondida”, Edições SM, do qual gosto muito. Os animais estão na mira da extinção agora e era minha homenagem ao risco que correm. Fiz girafas, elefantes, guepardos… etc. Mas estão todos desenhados de forma acadêmica, bem realistas. E é um livro-imagem do qual me orgulho muito.

RM: Sua obra tem algum alinhamento político ou filosófico?

JC: Tem. Sou defensor ferrenho da ecologia e dos animais. Ilustro o que posso de natureza e de bichos. Se isso faltar, não estaremos mais num planeta habitável. Gosto também de abordar temas de psicologia nos meus livros. Tudo baseado na necessidade da criança empreender a sua jornada particular pela vida. Gosto de abordar, sobretudo, a questão da identidade, da fabricação da identidade na criança que vai influenciar e moldar o futuro adulto que ela será. Gosto de tocar no assunto da transformação, dessa metamorfose de criança em algo a mais. Não acredito que a criança suma. Num livro meu antigo eu dizia “adultos são crianças que cresceram pra cima…”e que muitos fazem de conta que não são mais crianças.”

Página do livro “Talvez eu seja um elefante”, Editora Melhoramentos

RM: Como tem sido o seu “diálogo” com as crianças?

JC: Vou para as escolas não tantas vezes como eu deveria, porque isso na verdade tem que ser feito a conta-gotas. Mas adoro ter este contato direto. Me transformo em um deles. Mas claro que tenho minha responsabilidade de autor adulto. Que sou. A criançada é toda igual: crianças de favelas ou dos bairros mais privilegiados. Depois, aí não é mais minha faixa etária. Trabalho livros para crianças até no máximo 10 anos. Já vi fotos de turmas de crianças de 10 anos que já se formaram e que disseram que lembram até hoje do dia em que fui à escola delas. Então, deve ter sido bom pra elas também, né?

RM: Certamente foi muito bom para elas, sim, Jean.  Como avalia o progresso da literatura infantil no Brasil?

JC: Não me sinto apto para avaliar o trabalho de outros colegas. Isso quem tem que fazer são os críticos.

RM: Quais são seus planos para 2019?

JC: Em 2019, estou meio que partindo pra um voo mais longe. Estou trabalhando para o Canadá. Vou ilustrar livros para uma editora de lá. E vendi livros da minha autoria também. Aqui está complicado publicar mais. O mercado está ruim e temo pelo futuro dos livros para a infância. Temo que possamos perder a liberdade essencial de falar, de expressar com liberdade o que queremos que as crianças leiam. Por isso, acho bom começar a publicar fora também. É uma consequência natural tentar ser reconhecido também fora do seu país. Obrigado pela oportunidade de falar com quem se interessa por literatura. Porque livros para a infância podem ser literatura com um grande L!

Coleção Salamandra assinada e ilustrada por Jean-Claude com a série “A outra história de” e outros livros de sua autoria

Fonte: Portal UAI

O VALOR DOS CONTOS DE FADAS E A IMPORTÂNCIA DE CONTAR HISTÓRIAS

O valor dos contos de fadas.
 
“A alma do ser humano tem uma necessidade inesgotável de que a substância contida nos contos de fada flua em suas veias, da mesma maneira que o corpo precisa de substâncias nutritivas fluindo dentro de si” – Rudolf Steiner-
 
Contar histórias é uma forma antiga de transmitir conhecimentos, valores, fantasias e memórias. Temos feito desde tempos imemoriais. O DNA humano é feito de histórias. Ao longo deste post, que acompanham com citações de figuras respeitáveis sobre os assim – chamados contos de fadas, vamos abordar o significado profundo que eles contêm, bem como o papel importante no desenvolvimento saudável da criança e da criança.
 
Era uma vez…

Uma história é uma recriação de imagens através de palavras. As crianças são especialmente sensíveis às histórias, porque vivem em um mundo em que as imagens exercem uma tremenda influência para elas.

Durante os primeiros sete anos de vida, a criança ainda não está familiarizada com o pensamento abstrato. A formação de imagens é a maneira pela qual ela se aproxima do mundo, desce sobre ele e é incorporada à existência terrena, um processo que acontece gradualmente.

As abstrações não têm (e não deveriam ter, porque não é o que você precisa naquele momento) influência em seus processos internos. As imagens, por outro lado, ajudam você a entender o mundo. A primavera é, no momento, apenas uma palavra abstrata e desprovida de significado profundo, enquanto a descrição de uma paisagem verde e florida com céu azul será traduzida em uma imagem que será mais útil para você.

A imaginação é a chave para o desenvolvimento harmonioso dos seres humanos, especialmente em seus estágios iniciais.
“Os contos de fada que me contaram na minha infância têm um significado mais profundo do que qualquer verdade que me ensinaram na vida” – Friedrich Schiller-
 
Como as imagens desempenham um papel tão importante no desenvolvimento de meninas e meninos, torná-las adequadas ao que precisam é uma tarefa que os contadores de histórias aperfeiçoaram, uma vez que os seres humanos são seres humanos. O conto de fadas popularmente conhecido contém imagens que respondem às preocupações atuais de seus corpos físicos, seus humores e sua essência espiritual.
 
“As imagens de contos de fadas são uma fonte inesgotável de” água viva “para acelerar nossa compreensão do mistério” homem “e seu destino na terra, sempre em forma original e surpreendente!” -Goethe-
 
Narração estimula a formação de imagens através do que os sentidos entender, aumentar a sua criatividade e perguntando sobre uma história que vai criar a criança ea criança uma curiosidade saudável e perguntas que responder às preocupações vitais e atemporais: Por quê? Para que? Como? Para onde? Em que momento? Com que ajuda?
“Contos de fada são inestimáveis ​​para toda a sua vida; eles apontam o caminho luminoso que ele terá que percorrer durante sua própria vida e dar a ele a força para enfrentá-lo. Os contos de fadas são um legado inestimável do passado que alimenta e protege a vida interior da criança “- Rudolf Steiner-
Contar histórias
 
“Se você quer que seus filhos sejam espertos, leia os contos de fadas, se você quer que eles sejam mais inteligentes, leia mais contos de fadas. Quando examino a mim mesmo e meus métodos de pensar, chego à conclusão de que o dom da fantasia significava mais para mim do que qualquer talento do pensamento abstrato e positivo ” – Albert Einstein.
 
Alejandro Jodorowsky diz que a verdade não pode ser conhecida, mas podemos conhecer a expressão dessa verdade, que é a beleza. A beleza é importante . Apreciar a beleza e mostrar a reverência que ela merece torna nossa vida mais bonita. A história deve ser transmitida, portanto, lindamente.
Para as crianças, o mundo é um lugar inegavelmente belo. A visão adulta da realidade, no entanto, tenta impor pontos de vista que tendem a fomentar imagens mentais desprovidas de beleza. A mídia é um exemplo claro disso, atormentado por imagens violentas, destrutivas e doentias, sem utilidade para o desenvolvimento saudável. Como adultos devemos considerar, antes de permitir que as crianças recebam essas imagens, se elas representam a beleza a que aspiram. A história de um conto fantástico no tom certo irá ter um efeito calmante sobre a alma da criança ea criança, que favorecerá a formação correta do corpo físico durante os primeiros sete anos de vida, preparando-se para a assimilação posterior de conceitos lógicos. Da fantasia à razão nessa ordem.
“É importante enfatizar que para uma história manter verdadeiramente a atenção da criança, alertar e estimular sua curiosidade, além disso, estimular sua imaginação para ajudar a desenvolver seu intelecto e esclarecer suas emoções; ele tem que concordar com suas ansiedades e aspirações; faça-o reconhecer plenamente suas dificuldades, ao mesmo tempo em que sugere resolver os problemas que lhe dizem respeito. 

Destaques como é importante que o adulto está próxima, ter o cuidado de dar todo o crédito à gravidade dos conflitos da criança, sem diminuir em tudo, e estimulando, simultaneamente, a sua confiança e seu futuro ” (Bruno Bettelheim : A psicanálise dos contos de fadas)
Contar histórias para nossos filhos é uma excelente maneira de dar a eles ferramentas bonitas, saudáveis, estimulantes e apropriadas para o seu desenvolvimento. Qualquer menina ou menino apreciará muito a narração cuidadosa e dedicada de um conto de fadas. Há uma infinidade de literatura fantástica para crianças que respeita as premissas de uma boa história, e compartilharemos algumas dessas opções em posts futuros. Mas há um modo sublime, ainda mais alto, de fazê-lo: você pode inventar suas próprias histórias . Nós fizemos isso e continuaremos fazendo isso. Eles podem até ver a luz na forma de uma publicação, quem sabe. Por enquanto, é suficiente para nós sabermos que essas histórias cumpriram o propósito de preparar nossas filhas para “O mais maravilhoso conto de fadas de todos: a vida” (Hans Christian Andersen).
“Os contos de fada são mais que reais, não porque nos dizem que os dragões existem, mas porque nos dizem que os dragões podem ser derrotados” – Gilbert K. Chesterton-
Autor: Jorge Benito mindfulscience.es

Um ano de produção da literatura infantil e juvenil

Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil lança anuário com toda a produção literária de seus associados

A Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil (Aeilij) acaba de colocar no ar o seu Anuário de 2019. Nele estão listados os livros lançados pelos criadores associados durante o ano passado. A publicação, cuja capa é ilustrada por Maria Carolina Pereira Jorge, traz ainda uma entrevista com João Paulo Hergesel, vencedor da última edição do Prêmio Barco a Vapor, uma linha do tempo das principais atividades da entidade durante 2018 e resenhas dos livros vencedores do I Prêmio Aeilij: Catarina e o lagarto (All Print), de Katia Gilaberte; Esopo: Liberdade para as fábulas (Escarlate), de Luiz Antonio Aguiar, e A alma secreta dos passarinhos (Olho de Vidro), de Elisabeth Teixeira. Para conferir o Anuário, clique aqui.

Jovens e literatura

O programa Participação Popular discute sobre literatura na era digital. Participe!

Os leitores tradicionais não trocam o prazer de pegar um bom livro, tocar as suas páginas e virar as folhas impressas, sentir o cheiro de papel novo e até mesmo observar as folhas amareladas ou as dedicatórias na contracapa do exemplar na estante.

Na era digital, observamos um novo comportamento, a leitura de livros que se amplia por meio dos e-books (livros digitais) e outras ferramentas como as redes sociais. Surgem os booktubers- comentaristas literários do youtube – e jovens escritores que usam as redes e seguidores para publicar textos. A quantidade de informação aumenta, assim como a leitura, mas e a qualidade? Como despertar nos jovens o prazer pela leitura também das obras clássicas?

Assista e participe desse programa. Ele vai ao ar na segunda-feira,ao vivo,das 13h às 14h,na TV Câmara,no portal Câmara Notícias (http://tv.camara.leg.br) e o no canal da Câmara no YouTube.

Comentários e perguntas podem ser feitos pelo telefone 0800-619-619, por e-mail para participacaopopular@camara.leg.br , pelo WhatsApp no número (61) 99620-2573 ou pelo chat do YouTube e Facebook da Câmara dos Deputados, que farão transmissão simultânea com a TV Câmara.

Para esse programa confirmaram presença os seguintes convidados:
1- Robson Coelho Tinoco – Professor Titular do Depto. de Teoria literária e literaturas da Universidade de Brasília;
2- Marina Oliveira, jovem escritora e autora de “A Parede Branca do Meu Quarto”
3- Zoara Failla – Coordenadora da Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil do Instituto Pró-livro, via SKYPE
4- Deputado a confirmar

Fonte: TV CÂMARA

Temas tabus nos livros infantis será tema de debate em livraria de SP

As editoras Marcia Leite e Daniela Padilha e a ilustradora Aline Abreu batem papo sobre o tema na Livraria NoveSete neste sábado (2)

Um menino de 11 anos que se vê obrigado a lidar com sentimentos desconhecidos e sem saber ainda o que é o amor. Em síntese, esta é a proposta do livro A coisa brutamontes (Editora Companhia Editora de Pernambuco, 44 pp, R$ 40), de Renata Penzani, com ilustrações de Renato Alarcão, que será lançado na Livraria NoveSete (Rua França Pinto, 97, Vila Mariana – São Paulo / SP), neste sábado (02), a partir das 15h. Além de contar com a presença da autora, que conversará com o público e autografará a obra, o evento de lançamento terá ainda um encontro com a participação da escritora e educadora Marcia Leite (editora da Pulo do Gato), de Daniela Padilha (editora da Jujuba) e da ilustradora e mestre em crítica literária Aline Abreu, com mediação da jornalista especializada em literatura para a infância, Cristiane Rogerio. O bate-papo terá como tema Os pode-não-podes na literatura infantojuvenil: os temas tabus nos livros para crianças, com a proposta de conversar sobre assuntos frequentemente ignorados pelos adultos, como morte, melancolia e solidão, e como isso afeta as crianças.

Fonte: PUBLISHNEWS

A importância da leitura e literatura infantil na formação das crianças e jovens

A infância é o melhor momento para o indivíduo iniciar sua emancipação mediante a função liberatória da palavra. É entre os oito e treze anos de idade que as crianças revelam maior interesse pela leitura. O estudioso Richard Bamberger reforça a idéia de que é importante habituar a criança às palavras. “Se conseguirmos fazer com que a criança tenha sistematicamente uma experiência positiva com a linguagem, estaremos promovendo o seu desenvolvimento como ser humano.” Inúmeros pesquisadores têm-se empenhado em mostrar aos pais e professores a importância de se incluir o livro no dia-a-dia da criança. Bamberger afirma que, comparada ao cinema, ao rádio e à televisão, a leitura tem vantagens únicas. Em vez de precisar escolher entre uma variedade limitada, posta à sua disposição por cortesia do patrocinador comercial, ou entre os filmes disponíveis no momento, o leitor pode escolher entre os melhores escritos do presente e do passado. Lê onde e quando mais lhe convém, no ritmo que mais lhe agrada, podendo retardar ou apressar a leitura; interrompê-la, reler ou parar para refletir, a seu bel-prazer. Lê o que, quando, onde e como bem entender. Essa flexibilidade garante o interesse continuo pela leitura, tanto em relação à educação quanto ao entretenimento.

O desenvolvimento de interesses e hábitos permanentes de leitura é um processo constante, que principia no lar, aperfeiçoa-se sistematicamente na escola e continua pela vida afora. No caso dos bebês, que ainda estão em processo de desenvolvimento da visão, os contrastes são ótimas pedidas, pois atraem a atenção dos pequenos. Bem como os livros de pano, banho e interativos (com sons, por exemplo), que são perfeitos para os leitores de berço. Também é fundamental que o adulto responsável compreenda que mesmo que a criança ainda seja muito novinha, ela absorve muito na leitura compartilhada, principalmente o amor e o carinho deste momento. Descobrir estes sentimentos desde bebezinhos, poderá ser uma excelente conquista para toda a vida.

Diante disso, a escola busca conhecer e desenvolver na criança as competências da leitura e da escrita e como a literatura infantil pode influenciar de maneira positiva neste processo. Assim, Bakhtin (1992) expressa sobre a literatura infantil abordando que por ser um instrumento motivador e desafiador, ela é capaz de transformar o indivíduo em um sujeito ativo, responsável pela sua aprendizagem , que sabe compreender o contexto em que vive e modificá-lo de acordo com a sua necessidade.

Quanto mais cedo a criança tiver contato com os livros e perceber o prazer que a leitura produz, maior será a probabilidade dela tornar-se um adulto leitor. Da mesma forma através da leitura a criança adquire uma postura crítico-reflexiva, extremamente relevante à sua formação cognitiva. Estratégias para o uso de textos infantis no aprendizado da leitura, interpretação e produção de textos também são exploradas com o intuito final de promover um ensino de qualidade, prazeroso e direcionado à criança. Somente desta forma, transformaremos o Brasil num país de leitores.

(*) Marisalva Alves da Silva e Cleilta Vieira dos Santos são educadoras da rede de ensino de Rondonópolis.

Fonte: A Tribuna

Mercado cultural se anima com obras de Monteiro Lobato em domínio público

Lucas Buzatti

Ilustrações de Fendy Silva para a coleção lançada pela editora Ciranda Cultural, trazendo personagens icônicos do Sítio do Picapau Amarelo e, inclusive, o próprio Monteiro Lobato

Ilustrações de Fendy Silva para a coleção lançada pela editora Ciranda Cultural, trazendo personagens icônicos do Sítio do Picapau Amarelo e, inclusive, o próprio Monteiro Lobato

“Marmelada de banana, bananada de goiaba, goiabada de marmelo”. A continuação da música de Gilberto Gil desemboca no título da obra mais icônica de Monteiro Lobato. Incrustada no imaginário coletivo do brasileiro, “Sítio do Picapau Amarelo” entrou em domínio público neste mês, tornando livre a edição de textos da obra. Isso significa, também, que desenhos, espetáculos teatrais e musicais sobre a trama podem ser produzidos sem pagamento de direitos autorais – notícia que empolgou o mercado cultural, que já vislumbra novos lançamentos editoriais e audiovisuais.

Escrito entre 1920 e 1947, “Sítio do Picapau Amarelo” compreende 23 volumes que reúnem histórias de estímulo ao universo imaginativo infantil. No sítio, Dona Benta, uma amável senhora de 70 anos, vive com a neta Lúcia, de apelido Narizinho, e a Tia Nastácia, empregada da casa. Junto aos residentes, misturam-se personagens que transitam entre o real e o imaginário, tal como a boneca de pano Emília, o Visconde de Sabugosa e a assustadora Cuca. Primo de Narizinho, Pedrinho também volta e meia sai da cidade para passar as férias no sítio.

Monteiro Lobato

O livro é o abre-alas da vasta produção literária infantojuvenil de Monteiro Lobato, cuja morte completou 70 anos em 2018. Natural de Taubaté (SP), o escritor faleceu em 4 de julho de 1948, aos 66 anos, vítima de um espasmo cerebral. Também jornalista, editor e empresário, Lobato é considerado até hoje um dos grandes nomes da literatura brasileira.

Produções

Entre as novas publicações motivadas pela inclusão do clássico de Lobato em domínio público estão os livros da série “A Turma do Sítio do Picapau Amarelo”. Tratam-se de oito volumes lançados até agora, pela editora Ciranda Cultural, cada um dedicado a uma história ou personagem do sítio. Os livros trazem ilustrações inéditas do paulistano Fendy Silva, que também é educador especializado em educação infantil.

“As histórias contam o que os personagens aprontam dentro e fora do Sítio do Picapau Amarelo, um lugar onde acontece de tudo, desde visitas de anjos e personagens de contos de fadas a conversas entre animais falantes”, explica o ilustrador. “Eles também viajam para lugares incríveis, como o País da Gramática e o País das Fábulas, onde aprendem muitas coisas”, completa.

Silva destaca que a ideia de ilustrar as obras partiu da importância do legado do escritor de Taubaté. “Lobato tinha uma habilidade incrível de contar histórias de uma forma tão empolgante e ao mesmo tempo ensinar cultura. É leitura obrigatória para toda criança brasileira. O que se aprende lendo os livros de Lobato equivaleria a muitos anos de currículo escolar”, defende, revelando que a ideia é lançar novos volumes.

Sítio do Picapau Amarelo

Para o ilustrador – que tem na “ousada e exótica” Emília sua personagem favorita – o rico universo de Lobato ainda é uma importante ferramenta de imaginativa, mesmo em tempos repletos de opções virtuais de divertimento.

“Acredito que a cultura de uma pessoa e até de uma nação se dê, também, graças a bons hábitos de leitura. Portanto, penso que seja uma questão de exposição à cultura e de desenvolvimento do hábito e do gosto pela leitura. Uma reeducação”, finaliza.

Fonte: Jornal Hoje em Dia

Quando se conta um conto e se retira um ponto

ILUSTRAÇÃO HELDER OLIVEIRA

Linguagem “politicamente incorreta” de provérbios, contos ou canções deve ser discutida, mas não apagada

RAQUEL ALBUQUERQUE

Há já algumas décadas que a história da Carochinha é contada pela metade: o fim verdadeiro na versão original incluía pássaros sem olhos e sem penas perante o desgosto da protagonista. Mas isso foi ‘apagado’. Nos últimos anos, outras histórias infantis, como o Capuchinho Vermelho ou Hansel e Gretel, têm sido adaptadas para retirar situações consideradas violentas. Mas, defendem os especialistas, mais do que reescrever as histórias quando se tornam desadequadas ou politicamente incorretas, importa parar para as discutir.

“A língua não muda à mesma velocidade que a sociedade. Transformar os contos tradicionais não faz sentido. E não acho que, numa lógica de cidadania, um provérbio ou outro tipo de expressão possa ser mudado por decisão. Pode é acabar por cair em desuso”, defende Antónia Coutinho, linguista e professora na Universidade Nova de Lisboa (UNL). Expressões como ‘entre marido e mulher não se mete a colher’, ‘com um olho no burro, outro no cigano’ ou ‘mulher honrada não tem ouvidos’ são outros exemplos. Passam de geração em geração, arrastando os costumes e perceções das suas épocas, mas também a violência, desigualdade social e discriminação racial então aceites.

“Parar para pensar no que dizemos agudiza a nossa sensibilidade e faz-nos deixar de usar a língua de forma mecânica. Passamos a questionar o que já está enraizado e que é necessário desnaturalizar”, explica a investigadora do Centro de Linguística da UNL. Foi também esse o princípio de base defendido pela PETA, uma organização não-governamental de defesa dos animais, que lançou na semana passada, nos Estados Unidos, uma campanha sugerindo alternativas a provérbios antianimal. Também o PAN tem usado as redes sociais para sugerir alternativas a expressões de violência contra os animais, defendendo a importância de a linguagem acompanhar a sociedade.

ACABAR COM O MEDO

Nas novas versões “politicamente corretas” dos livros infantis, como o Capuchinho Vermelho, o lobo deixa de comer a avó. Já a história dos irmãos Hansel e Gretel, que quase acabam comidos por uma bruxa depois de se perderem na floresta, foi sendo aligeirada desde o século XIX quando foi registada e publicada pelos irmãos Grimm.

O antropólogo Paulo Jorge Correia, um dos maiores especialistas nacionais em literatura de tradição oral, critica o facto de se estar a retirar a sensação de medo destas histórias. “As crianças gostam desse lado dos contos”, defende. “Mas hoje também têm menos tempo para ouvir histórias, porque socializam mais cedo e deixam o casulo familiar. Pior do que isso são os pedagogos que defendem que o medo e a violência devem ser cortados por fazerem mal aos mais novos. Essa ideia entrou no mercado do livro e as histórias têm sido adaptadas ao ‘delicodoce’.”

O risco é criar uma “sociedade assética”, defende o investigador. “Esse mundo considerado violento, e desadequado à realidade atual, está a ser rejeitado e higienizado. Se tivermos uma sociedade totalmente assética, as crianças pensam que não existe mal no mundo. E acho que isso está a acontecer”, diz. “Deve haver liberdade para perceber o mundo como ele realmente é. E os contos trazem algo único: a natureza humana, por mais chocante que ela possa ser.”

A violência doméstica e a misoginia, ou seja, o desprezo e preconceito contra as mulheres, estão presentes em muitos contos. “São um retrato de uma civilização rural onde a ordem social consistia em ter o homem acima da mulher e apenas Deus acima do homem”, afirma Paulo Jorge Correia, acrescentando que os contos se resumem à luta entre “velhos e novos, homens e mulheres, ricos e pobres”.

Também nas cantigas infantis a banalização da violência do homem sobre a mulher está presente. E algumas têm sido alvo de alterações (ver caixa). Para José Barata-Moura, ex-reitor da Universidade de Lisboa e também autor de célebres canções infantis, “a cultura está sempre presente em qualquer cantiga infantil”, podendo apenas ser diferente no ângulo, género, linguagem ou expressão do imaginário. “No meu entendimento, uma cantiga não é um objeto de consumo imediato para entreter, é uma ocasião de conversa e de aprofundar o diálogo entre os mais velhos e os mais novos.” Ainda que admita que a produção infantil foi durante muito tempo “menor e feita rapidamente para ser consumida no Natal”, o filósofo e cantor considera que “arranjar alternativas às cantigas é uma forma pobre de lidar com um problema real”.

O PAPEL DA ESCOLA

Se estes provérbios, contos, histórias e cantigas realmente expressam formas de discriminação racial ou violência doméstica, devem ser ensinados nas escolas? “É claro que não devem ser postas nos manuais, mas não podem ser silenciados nas escolas, devem ser discutidas. É papel da escola pegar nessas formas de dizer as coisas e desconstruir os seus significados”, diz José Pacheco, presidente do Instituto de Educação da Universidade do Minho.

O antropólogo Paulo Jorge Correia concorda. “Há o risco de esta literatura oral perpetuar esses arquétipos”, sejam eles raciais ou sexistas. Admitindo que numa fase inicial e estrutural da educação de uma criança, as formas de expressão mais discriminatórias ou violentas possam ser omitidas, o professor da Universidade do Algarve defende, no entanto, que esta literatura não deixe de ser publicada tal e qual como é. “Até mesmo para que estes cidadãos, quando estiverem formados, tenham acesso a esta tradição oral e a conheçam.”

Para a linguista e professora da UNL, o “mais urgente” é discutir o assunto e sensibilizar a população. “A escola tem de ter essa função mas a responsabilidade recai sobre os professores, as editoras responsáveis pelos manuais escolares, os revisores de texto, os pais e a comunicação social. Tenho sérias dúvidas de que a solução seja limpar ou apagar a história e a cultura.” O mesmo defende José Barata-Moura. “A solução não é impingir uma moralidade exterior, que se repete mecanicamente, mas antes apostar no diálogo. Embora seja muito mais fácil despejar uma mensagem moralista e irmos dormir descansados.”

Fonte: Expresso

Monteiro Lobato para o século XXI

Ao cair em domínio público, os livros do Sítio do Picapau Amarelo incentivam grandes autores infantis brasileiros a recontar as histórias de Narizinho e Emília com uma linguagem politicamente correta

ENCONTRO Monteiro Lobato, seus personagens e Mauricio de Sousa: versão modernizada

Texto por Luisa Purchio

Os grandes clássicos da literatura são atemporais. Com o passar dos anos, o público leitor continua sedento da genialidade de seus autores, que souberam como ninguém traduzir emoções resistentes ao tempo. Com Monteiro Lobato (1882-1948), não é diferente. O pai de Narizinho, Emília, Dona Benta e Tia Nastácia nunca deixou de fazer parte da infância dos brasileiros, mesmo que autores contemporâneos tenham tomado um pouco do seu espaço. Agora, quase cem anos após a publicação de seu primeiro livro, suas criações ressurgirão. A razão da guinada é que elas caíram em domínio público. A lei brasileira determina que as obras perdem proteções de Direitos Autorais após 70 anos contados do 1º de janeiro subsequente ao falecimento do autor. Como Lobato morreu em 1948, seus livros estão liberados em 2019. Na prática, isso significa que, para lançá-los, não é mais preciso pagar por direitos autorais ou pedir autorização aos herdeiros para realizar adaptações.

Para ganhar novos leitores e lucrar com vendas de exemplares, diversas editoras estão preparando adaptações — uma rotina no mercado editorial, a exemplo do que ocorreu com “O Pequeno Príncipe” em 2015. Em relação a Lobato, lançamentos de livros e até a produção de um filme estão previstos para este ano. É o caso da Girassol Brasil Edições, que lançará o livro “Turma da Mônica — Narizinho Arrebitado”, assinado, ao lado de Lobato, por Mauricio de Sousa, outro criador consagrado de histórias infantis. Na nova versão da obra, os personagens do Sítio do Picapau Amarelo ganham novas ilustrações: Narizinho tem desenho de Magali, Emília de Mônica e Pedrinho de Cebolinha. No início, Mauricio, de 83 anos, relutou em colocar o seu nome ao lado do de Lobato, de quem é fã desde criança. “Eu morava em Mogi das Cruzes, ainda uma cidade pequena do interior, e me encantei com o jeito caboclo dele descrever uma fazenda e seus habitantes”, diz à ISTOÉ. “Isso tudo estimula quem quer ser escritor ou desenhista como eu. As ilustrações dos livros de Lobato, obra de diversos grandes artistas, foram inspiradoras. O desenhista Belmonte era meu preferido.”

Escritor nos períodos pré-modernista e modernista, Lobato revolucionou a literatura infantil. Além de traduzir para o papel a imaginação de uma criança, ele lançou ideias à frente de seu tempo, como o protagonismo feminino de Narizinho e Emília. Mas nem tudo são flores em sua obra. Lobato é bastante controverso, principalmente pelas manifestações racistas nas histórias. A principal vítima é Tia Nastácia, cozinheira que trabalha para Dona Benta e que confeccionou os bonecos vivos Emília e Visconde. Para relançar as obras de Lobato no século XXI, muitos optaram por adaptar esses trechos à etiqueta do politicamente correto. No livro de Mauricio, em vez de dona Benta ser descrita como “velha”, é chamada de “senhora”, e partes como “negra beiçuda” foram suprimidas. “A obra de Lobato não é em sua essência racista, por isso foi possível suavizar algumas expressões sem mudar radicalmente o texto”, diz Regina Zilberman, uma das maiores especialistas em Lobato, responsável pela adaptação. “Hoje em dia, temos mais cuidado com as palavras, e isso é muito bom. É só uma questão de afinar a linguagem para não criar situações embaraçosas na escola.”

O escritor Pedro Bandeira, que também compõe a lista dos maiores autores infantojuvenis, concorda com Zilberman. Ele está preparando o livro “Narizinho, a menina mais querida do Brasil”, da editora Moderna, uma adaptação do original “Reinações de Narizinho”, de 1931. “Eu não gosto de palavras como negra beiçuda, nem macaca de carvão. Se alguém quiser dizer, que o diga, mas não virá de minha autoria”, diz. Por outro lado, Bandeira diz ser contra os excessos do politicamente correto. “Outro dia eu vi o nome ‘Branca de Neve e os sete amiguinhos portadores de nanismo’. Anão é anão, não é um xingamento. Se tivermos de falar ‘o portador de nanismo’, o mundo acabou”, diz ele. Assim como outros fãs, parece difícil para Bandeira reconhecer o racismo de Lobato, mas ele não o nega. “As suas cartas e crônicas demonstram que ele era eugenista, mas em um tempo em que todo mundo acreditava na superioridade das raças. O Lobato sabia mudar de ideia. Se tivesse vivido mais, certamente teria mudado”, diz.

PERDAS E GANHOS

Há quem defenda, no entanto, a leitura dos textos originais às crianças. É o caso de Camila Werner, que entre 2015 e 2018 foi responsável pelo selo Globinho, que edita os textos integrais de Lobato. “A literatura não está para fazer lição de moral, ela está para refletir o mundo e a gente pensar sobre ele”, diz ela. Para isso, seriam necessários mediadores que expliquem o contexto histórico em que foram escritos. “Em um país com tantos problemas na educação, será que os pais e professores vão saber conversar sobre isso?”, diz ela. No livro “A condenação de Emília: o politicamente correto na literatura infantil”, fruto de uma tese de doutorado na USP, o professor e escritor Ilan Brenman defende que esconder conflitos não é saudável para as crianças, pois elas passariam a desconhecer o mundo como ele é. Ele acredita que os livros são uma oportunidade de os pequenos conhecerem e enfrentarem seus monstros interiores, no que chama de escoamento literário. “Eu nunca vi pessoas falando que leram Lobato e se tornaram racistas ou antiecologistas. Se você tem vontade de matar uma onça e a matou no livro, a fantasia cumpriu a sua função”, diz Brenman. Ele ressalva, no entanto, que algumas adaptações não são um problema, desde que a alma da obra esteja contemplada. “O complicado é ir limpando e não sobrar nada. O politicamente correto às vezes se equivale a regimes ditatoriais, que apagam a história.”

Se, de um lado, o domínio público permite às editoras publicar sem custos autorais as obras de Lobato, de outro pode criar uma armadilha. O governo não compra livros nessas condições e assim as empresas perdem um relevante mercado. As adaptações surgem então como uma forma de vender, já que, com novos autores, surgem novos livros. No ano passado, porém, nem o Lobato adaptado — que não havia sido lançado —, nem o original — que estava para cair em domínio público —, puderam ser inscritos no Plano Nacional do Livro Didático 2019 e 2020, cujos editais selecionam os livros das escolas públicas. “Quem ganha com o domínio público de Lobato é a sociedade brasileira”, diz Pedro Bandeira. Os textos originais estão disponíveis gratuitamente em sua integridade para que o público possa conhecer a literatura da época e fazer os seus próprios juízos de valor.

Turma da Mônica – Narizinho Arrebitado

Autor: Monteiro Lobato

Apresentação na orelha: José Vicente – Reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares

64 páginas

Girassol Brasil Edições

Fonte: IstoÉ

Interatividade e produção sob demanda dão gás à literatura infantil

Gênero teve o maior faturamento do setor de janeiro a setembro do ano passado

Gislene Gambini, dona da livraria especializada em livros para crianças NoveSete – Jardiel Carvalho/Folhapress

Texto por Tatiana Vaz

A literatura infantil no Brasil teve um salto de qualidade estética, visual e narrativa nos últimos anos, segundo especialistas na área. A mudança resultou em prêmios no exterior e em maior interesse do público.

De acordo com um estudo do Sindicato Nacional de Editores de Livros, com base em dados da Nielsen até outubro de 2018, o gênero tem o maior faturamento do setor – 24,01% do total, de janeiro a setembro do ano passado. Comparado ao mesmo período do ano anterior, os preços dos títulos subiram 7,30%.

Aberta em 2007 na zona sul de São Paulo, a llivraria NoveSete conta com um acervo de 15 mil livros infantojuvenis.

A proprietáriam Gislene Gambini, 63, é quem faz a curadoria de tdas as obras, recebidas tanto de grandes editores quanto de autores independentes. “Minha preocupação é vender um produto de qualidade”, diz.

Gislene diz que é difícil fechar a conta. Segundo ela, a NovaSete não indica livros a pedido de editoras e fica com uma margem pequena das vendas. Houve épocas em que teve prejuízo, mas hoje a livraria fecha as contas no azul.

A concorrência no segmento tem crescido nos últimos anos. Clubes de assinatura que entregam obras em casa têm ganhado espaço e alcançado lugares onde não há lojas físicas – apenas 1.527 dos 5.570 municípios brasileiros têm livrarias e 55% delas estão nas regiões Sul e Sudeste.

Um dos primeiros clubes de leitura destinado à primeira infância, A Taba foi idealizado pela pedagoga Denise Guilherme, 41, em 2013.

Ela deu aula para professores antes de trabalhar com curadoria de livros em bibliotecas de instituições públicas e privadas. Decidiu abrir o clube depois de criar um blog com resenhas de livros e detectar o interesse pelo tema.

“Montei um grupo de especialistas em literatura para crianças e, no primeiro ano, lemos centenas de livros para selecionar os melhores. Ter mais concorrentes nos ajuda a divulgar a ideia do clube, mas nosso diferencial é a curadoria”, diz.

A Taba não faz divisões de leitores por idade e sim por experiência. As opções vão de livros para bebês até obras para crianças maiores.

Denise não abre números, mas diz que os assinantes triplicaram no último ano e duplicaram no anterior. O kit de assinaturas chega com um livro selecionado, uma explicação sobre o autor e a obra e mapa de atividades.

“Não fechamos acordo para enviar livros recorrentes de uma única editora, prezamos pela qualidade e diversidade e pretendemos seguir assim”, afirma a empresária.

O mercado parece promissor também para startups, como é o caso da Dentro da História, criada em 2012 por quatro empresários de ramos distintos. Um deles, André Campelo, 34, chegou a criar um divulgador de histórias em vídeo, na época chamado de YouTube dos Livros.

“A ideia não vingou, mas foi a semente para o surgimento da Dentro da História, que agora estamos levando para Europa com a nossa marca internacional, a Playstories”, diz.

Na Dentro da História, pais e filhos podem personalizar uma das 30 narrativas disponíveis na plataforma com personagens licenciados, como os da Turma da Mônica e Show da Luna.

Desde sua criação, a empresa já vendeu mais de 250 mil livros. Hoje conta com 30 funcionários e um faturamento de R$ 12 milhões. Os custos só são gerados a partir do pagamento da impressão dos livros. Os custos só são gerados a partir do pagamento da impressão dos livros.

Com três sócios, Campelo investiu R$ 300 mil na nova empreitada. No Brasil, o conteúdo custa R$ 69,90
mais frete; na Inglaterra e Espanha custará 29 (R$ 124,10).

Enquanto há startups que fazem produção em série de livros, profissionais independentes trabalham em grupo para criar volumes costurados à mão, cheios de dobraduras e feitos de papéis especiais. É o caso da BabaYag, criada em 2016 por profissionais do setor editorial.

As obras mais artesanais são vendidas em feiras independentes. “Essa liberdade de criação acaba por nos ajudar também no nosso trabalho para as editoras”, diz a escritora Carolina Moreyra, 43, sócia-colaboradora da BabaYag.

Fonte: Folha de S.Paulo

A Taba lança guia gratuito com mais de 200 indicações de livros

Em dúvida do que ler com as crianças dentre tantas opções? Baixe gratuitamente o “Guia de indicações literárias” do nosso parceiro A Taba

A Taba

Empresa especializada em curadoria de livros infantis que disponibiliza conteúdos relacionados ao universo da literatura, contrinuindo para a formação do repertório.

Quais critérios levar em consideração na hora de escolher um livro para as crianças? O que ler em cada idade? O que é afinal um livro de qualidade?

Para ajudar mães, pais, professores, mediadores de leitura e demais pessoas que convivem com crianças nessas e outras tantas interrogações, nosso parceiro A Taba criou o Guia de indicações literárias para 2019. A publicação reúne mais de 200 obras direcionadas ao público infantil e infantojuvenil. O material é assinado pela equipe A Taba, formada por profissionais especializados em literatura, educação e mediação de leitura, como a idealizadora Denise Guilherme, mestre em Educação e formadora de professores e consultora na área de projetos de leitura para Fundação Victor Civita e Instituto Natura.

O que ler em cada idade?

Quando o assunto é literatura ou qualquer outra produção artística para crianças, aqui no Lunetas, costumamos dizer que boas histórias agradam pessoas com todas as idades, de zero a cem anos.

Porém, vale sempre observar algumas questões antes de apresentar uma obra a uma criança. Qual a relação dela com a leitura? Há familiaridade com o livro? A leitura é mediada ou a criança já lê por conta própria? E o tema do livro, desperta interesse na criança? Todos esses pontos dão pistas de sua relação com a literatura, e ajudam a selecionar os livros, mais do que somente padrões etários pré-determinados isoladamente.

Assim, somente a idade da criança não determina quais livros ela pode ou quer ler. Além disso, os fatores mencionados acima na hora da seleção podem influenciar na boa experiência da criança ou jovem com o livro, a fim de não sobrecarregá-lo com leituras avançadas para o seu contexto e condição, ou então entediá-la com histórias que ficam aquém do seu desejo por ler e descobrir histórias.

O material está disponível no site d’A Taba em formato pdf, e pode ser baixado gratuitamente. Para contemplar todos que acessarem o material em busca de dicas de como ler com sua criança, o material resolve a questão da classificação etária dos livros em níveis de leitura. As indicações estão divididas por faixa de leitura, conforme já estabelecido pelo serviço de assinatura, que mensalmente envia livros para todo o Brasil. São eles:

O material está disponível no site d’A Taba em formato pdf, e pode ser baixado gratuitamente. Para contemplar todos que acessarem o material em busca de dicas de como ler com sua criança, o material resolve a questão da classificação etária dos livros em níveis de leitura. As indicações estão divididas por faixa de leitura, conforme já estabelecido pelo serviço de assinatura, que mensalmente envia livros para todo o Brasil. São eles:

1. Livros para bebês
Livros ideal para crianças que estão no berçário ou na Educação Infantil.

2. Livros para leitores iniciantes
Livros para crianças que estão na Educação Infantil e também para aquelas que estão nos primeiros anos do Ensino Fundamental.

3. Livros para leitores autônomos
Livros para crianças que estão no terceiro e quarto ano do Ensino Fundamental

4. Livros para leitores experientes
Livros para crianças que estão no quarto e quinto ano do Ensino Fundamental.

“Todos os anos, gestores, coordenadores e professores têm o desafio de escolher as melhores obras disponíveis para realizar o trabalho com a leitura literária na escola. Uma tarefa difícil já que o acesso a bibliotecas e livrarias não é tão simples e, muitas vezes, educadores não possuem tempo e nem se sentem seguros para escolher, dentre os tantos livros disponíveis, quais os melhores para o trabalho com a leitura”, diz a apresentação do material.

“Você vai encontrar livros de diferentes editoras, autores, ilustradores, projetos gráficos, gêneros e temáticas, que irão contribuir para a ampliação de repertório”, diz o texto do guia

Cada livro indicado vem acompanhado de uma pequena resenha assinada pela A Taba. Dentre eles, estão clássicos que atravessam gerações encantando os leitores, como “Peter Pan“, de J.M. Barrie (aqui apresentado na edição da Pequena Zahar), contemporâneos e lançamentos, como “Olavo“, de Odilon Moraes (Jujuba Editora, 2018), “Dois meninos de Kakuma“, de Marie Ange Bordas (Pulo do Gato, 2018) e “Monstros“, de Alice Hoogstad (Amelí, 2018), além de livros nacionais que fazem parte de memória da literatura infantojuvenil brasileira, como “Corda Bamba“, de Lygia Bojunga.

Conheça o Guia de indicações literárias da A Taba.

*A ilustração em destaque nesta matéria faz parte do livro “Eloísa e os bichos“, de Jairo Buitrago e Rafael Yockteng (Pulo do Gato, 2013).

Fonte: Lunetas

O ano de Monteiro Lobato

Obra do criador do “Sítio do Pica Pau Amarelo” entra em domínio público e volta a circular em diferentes projetos

ALEXANDRE LUCCHESE

Este é o ano em que Monteiro Lobato (1882-1948) passará a ser visto com outros olhos. Com a chegada de 2019, toda a obra do escritor paulista, criador do Sítio do Picapau Amarelo, entra em domínio público,  e qualquer editora tem agora liberdade para lançar seus títulos infantis e adultos — na íntegra ou em adaptaçõs – sem a necessidade de pagar direitos autorais. Segundo a legislação brasileira, direitos autorais estão protegidos por 70 anos a partir do ano subsequente à morte do autor – a de Monteiro Lobato completou 70 anos em 4 de julho de 2018.

Fraga / L&PM
Emília e Visconde de Sabugosa em ilustração de Fraga para projeto da editora L&PMFraga / L&PM

Boa parte dos especialistas no estudo de Lobato não estão preocupados com edições descuidadas ou oportunistas. Ao contrário, estão curiosos para ver as representações do Sítio do Picapau Amarelo se multiplicarem. Isso porque, apesar do texto cair em domínio público, as ilustrações clássicas dos livros do autor seguem reservadas. Ou seja, muitos editores devem procurar novos ilustradores para comporem seus lançamentos.

O designer gráfico Magno Silveira está otimista quanto às possíveis novidades. Silveira é responsável pela pesquisa iconográfica das edições de Lobato pela Biblioteca Azul, selo da Globo Livros, que recupera ilustrações clássicas do Sítio:

– Foram aqueles ilustradores do período de 1920 a 1948 que sacramentaram em nossa mente a Emília, o Visconde, o Pedrinho… Toda a turma. Eram artistas acostumados com a linguagem da publicidade e dos periódicos, sabiam como concentrar expressões corporais e faciais de modo a torná-las inesquecíveis. Deixaram seu legado. Agora creio que os horizontes serão ampliados, poderemos ter surpresas boas em novas imagens.

A Biblioteca Azul, que já vinha publicando a obra de Lobato antes de 2019, pretende lançar mais duas aventuras do Sítio ao longo do ano: A Chave do Tamanho e O Picapau Amarelo. Pelo menos mais três editoras já confirmaram que vão publicar suas edições da obra infantojuvenil de Lobato: Companhia das Letras, Sesi-SP e L&PM Editores.

O primeiro título a sair pela Companhia será Reinações de Narizinho, iniciando uma coleção coordenada por Marisa Lajolo, referência muito conhecida nos estudos sobre Lobato. Marisa também planeja lançar pela editora, até fevereiro, Reinações de Monteiro Lobato, escrito por ela e a historiadora Lilia Schwarcz. Trata-se de uma biografia do escritor voltada para crianças. Segundo Marisa, escrever para o público infantil não foi empecilho para tratar de temas densos e às vezes até polêmicos, como as acusações de racismo sofridas pela obra de Lobato nas últimas décadas:

– Demos a palavra a Lobato, para ele contar sua própria história, conversando o tempo todo com os leitores. O maior desafio foi modular o tom do narrador. Como Lobato falaria com crianças de hoje? Como ele comentaria as polêmicas sobre sua obra? Como falar do Brasil de Lobato, um Brasil tão antigo, com crianças de hoje?  Gostamos muito das discussões e aprendizagens que escrever o livro nos proporcionou.

A gaúcha L&PM já está distribuindo às livrarias 10 títulos do Sítio, em formato pocket. A coleção, que poderá ser ampliada, começou a ser projetada em 2017 e conta com ilustrações de Gilmar Fraga, artista gráfico de Zero Hora.

– Eu me inspirei em ilustradores clássicos do Sítio, como Belmonte e André Le Blanc, e também na série de televisão, que fez parte da minha formação. Tudo isso também se mistura com referências mais modernas que trago comigo – afirma Fraga.

Até agora, o projeto mais ambicioso divulgado é o da Sesi-SP Editora. O grupo deve lançar toda a obra infantojuvenil de Lobato, compiladas em 27 edições, entre fevereiro e julho. Com a pretensão de conquistar leitores também fora do Brasil, a editora convidou ilustradores brasileiros e portugueses para compor o trabalho. Cada livro contará com imagens originais de um ilustrador diferente.

– A fabulação de Lobato é magistral e se perpetua no tempo pela criatividade, inventividade e força inconteste na construção dos personagens. Acreditamos que existe agora um retorno ou um esforço para que se retome a fabulação na formação da criança e do adolescente para fazer frente ao pragmatismo da tecnologia e das novas mídias – explica Rodrigo de Faria e Silva, diretor editorial da Sesi-SP.

Fonte: GaúchaZH

Transformar as crianças em personagens das suas narrativas favoritas é o negócio da Dentro da História

Texto por Maisa Infante

André Campelo, Diego Aguiar e Felipe Paniago querem que as crianças tenham experiências imersivas com a literatura.

Imagine seu filho, sobrinho ou afilhado recebendo em casa um livro em que ele é um dos protagonistas ao lado de personagens que ele ama. É isso que faz a Dentro da História, uma startup de impacto social fundada em 2016, em Campinas (SP), por André Campelo, 33, Flávio Aguiar, 34, Diego Moraes, 30, e Felipe Paniago, 37. O negócio deu tão certo que eles acabam de ingressar no mercado espanhol com o nome de Playstories.

A Dentro da História é uma editora que funciona por meio de uma plataforma digital em que é possível criar um livro personalizado no qual a criança é um dos personagens. O primeiro passo para fazer a publicação é escolher de qual história a criança vai participar. São 29 títulos ligados a personagens como Turma da Mônica, Show da Luna, Patrulha Canina, Smilinguido, Galinha Pintadinha, além dos 12 principais clubes de futebol do Brasil.

Em seguida, é hora de começar a criar o avatar. É possível escolher o tom de pele, o tipo de cabelo, a cor dos olhos, a roupa, o sapato e os acessórios. Há ainda opções de cadeira de rodas e óculos escuros (para crianças com deficiência) e careca (para aquelas que fazem tratamento contra o câncer). Os traços sempre seguem as características do personagem escolhido.

Depois de criar o avatar, o livro é gerado e antes de clicar em comprar é possível ver como ficou. Pronto! A criança está dentro de uma história em que interage com o personagem e vai receber o livro em casa. O preço é 69,90 reais. Desde 2016, já foram vendidos 250 mil livros personalizados e o faturamento da empresa em 2018 ficou em 12 milhões de reais — o dobro do que foi em 2017.

COMO LEVAR A EXPERIÊNCIA DA IMERSÃO PARA A LITERATURA

Em meio a um mundo digital, em que as crianças parecem já nascer sabendo usar a tecnologia, a Dentro da História acredita que encontrou uma forma de transformar um produto muito presente na realidade infantil — já que o livro faz parte do processo de alfabetização — em algo mais próximo do universo digital que elas tanto adoram.

Os livros da Dentro da História possuem na capa o nome e o avatar da criança.

André e Flávio empreendem juntos desde 2006. Eles são de Campinas, interior de São Paulo, e tiveram juntos uma agência de marketing digital e uma startup chamada Widbook, que era uma rede social de ebooks, pela qual era possível descobrir novas obras e publicar livros eletrônicos de forma gratuita. “Chegamos a ter 400 mil usuários e 60 mil histórias em 73 idiomas diferentes, mas era preciso crescer muito mais para gerar monetizações atrelada a conteúdo”, diz André.

De certa forma, essa empresa aproximou os empreendedores do universo dos livros e das editoras e fez com que eles percebessem que, ao contrário de outros tipos de conteúdo muito consumidos pelas crianças (como áudio, vídeo e games), os livros não tinham uma plataforma que conectasse produtores a consumidores.

Além disso, a indústria do livro não costuma ter experiências imersivas. “A única indústria que já nasceu completamente estruturada para o protagonismo é a do game”, diz o empreendedor. Foi aí que chegaram na ideia da Dentro da História. André fala mais  respeito:

Queríamos fazer algo com educação, criança e tecnologia. E o conteúdo seria o caminho porque, até os 8 anos, a criança não tem o seu device e usa o tablet ou o smartphone dos pais”

A solução que encontraram foi unir o físico e o digital. A experiência começa no ambiente digital, com a criação do avatar, e termina com um livro impresso chegando na casa da família. “Na mão da criança, esse livro é um device”, afirma. Na plataforma, o processo de criação do avatar se transforma em um game.

Como o clique “comprar” é a última etapa do processo, os pequenos podem testar avatares diferentes em diversas histórias quantas vezes quiserem. Além disso, é possível ver o livro pronto e folheá-lo digitalmente antes da compra. André conta que, até o dia anterior à entrevista, o processo de criação de avatares já tinha acontecido mais de 7 milhões de vezes.

Apenas quando já estavam com o conceito pronto, Flávio e André foram buscar a expertise dos outros dois sócios, Diego e Felipe, que trabalhavam na Móvile, empresa que desenvolve marketplaces mobile. Hoje, Flávio e André cuidam da parte de negócios, Diego, de produto, e Felipe, de marketing e performance.

ELES QUEREM IMPACTAR 10 MILHÕES DE CRIANÇAS ATÉ 2023

O fato de as crianças estarem dentro do livro, lado a lado com personagens que elas gostam, tem impacto positivo no desenvolvimento e na aprendizagem da criança, segundo André. Ele cita uma pesquisa feita em Londres, em 2017, que afirma que os produtos personalizados na primeira infância ajudam os pequenos a aprender mais palavras. Por isso, a questão da identificação é um ponto central:

Colocar a criança dentro da história tem a ver com protagonismo, pertencimento e identificação. E isso se dá pelo nome, centralidade dela no roteiro e identificação física”

Levando esse ponto em conta, desenvolver novas características para os avatares é algo que está sempre em pauta e evolução. Tem ainda a questão da memória afetiva e das relações familiares. “Os pais são a extensão da escola. Quando eles chegam em casa e vão ler com os filhos, nosso produto ajuda a gerar impacto e boas lembranças para a vida toda.”

O processo de criação do avatar é bem intuitivo e pode ser feito pelas próprias crianças, que escolhem cor de pele, cabelo, olho, roupa etc.

A meta é atingir a publicação de 1 milhão de livros no Brasil em 2019 e impactar 10 milhões de crianças no mundo até 2023. Os desafios são grandes, principalmente no Brasil, onde o hábito de leitura não é muito arraigado e há barreiras socioeconômicas a serem transpostas. “Temos muito para fazer por aqui. Em uma faixa de 0 a 8 anos, são 21 milhões de crianças com as quais podemos trabalhar”, afirma o empreendedor. A estratégia é operar em parceria com fundações e com o poder público para que os livros cheguem a diversas camadas sociais.

A CONEXÃO DIRETA COM O LEITOR DEIXOU A EMPRESA LONGE DA CRISE DO SETOR

A crise das grandes livrarias — que impactou muitas editoras — não passa nem na porta da Dentro da História. O modelo criado permite que a empresa  faça a ligação direta com o usuário final, como diz André:

Temos um caminho completamente diferente das grandes editoras, porque não geramos custos quando não vendemos e não precisamos de intermediários para fazer a venda”

Esse novo modelo trouxe a vantagem de trabalhar sem o custo do estoque e do distribuidor, mas também trouxe o desafio de criar uma nova cadeia de produção para fazer os livros personalizados. Na Dentro da História, cada livro é um arquivo único que vai para a impressão, o que é uma novidade para o mercado gráfico. André fala mais a respeito: “Essa estruturação de produção não existia. No mercado editorial, quase não existe a possibilidade de fazer um a um, apenas baixa tiragem. Então, a gente precisou trabalhar no desenvolvimento dessa cadeia”.

O primeiro parceiro da Dentro da História foi a Turma da Mônica. O lançamento da empresa foi feito na Bienal do Livro de 2016, em um estande que comemorava os 80 anos do desenhista Mauricio de Sousa. Eles montaram uma gráfica dentro do evento e as pessoas podiam criar a história nos totens instalados no estande e pegar o livro impresso na sequência. Foi ali que os empreendedores testaram, pela primeira vez, o produto.

Em 2018, na Bienal do Livro, a Dentro da História imprimia os livros da Turma da Mônica na hora. Foi o primeiro teste de produto da empresa.

Do investimento inicial de 300 mil reais feito pelos sócios, dois terços, segundo André, foi para essa experiência. “Qualquer livro de empreendedorismo vai te dizer para não fazer isso, mas foi um sucesso.”

Entre livros digitais e cartazes com o avatar criado pela criança, eles fizeram 15 mil personalizações nos dez dias do evento. “Foi uma experiência incrível. Ficamos no estande observando as famílias. E vimos muitas discussões sobre a identificação da criança, que não necessariamente fazia um avatar parecido com ela.”

A rápida aprovação do produto trouxe um novo desafio para os empreendedores: acelerar o negócio antes do que imaginavam. “O primeiro desafio de toda startup é provar que aquilo que ela está fazendo tem sentido. A gente provou nos primeiros seis meses e aí precisamos trazer mais conteúdo.” A partir daí, eles decidiram investir no licenciamento de novas histórias e personagens.

Como atuam com marcas globais, o processo pode demorar. “Algumas aprovações demandam um ano de negociações, porque estamos falando de inovação dentro de uma cadeia global. Existem várias camadas de aprovação”, fala André. Em 2017, havia oito histórias na plataforma e, em 2018, 29. Para 2019, eles esperam chegar a 40, já que há negociações em andamento que devem ser finalizadas ao longo do ano. Os fundadores também têm participado de rodadas com investidores-anjos. André conta que quem está dando suporte para os sócios agora é Peter Vesterbacka, um dos desenvolvedores do Angry Birds.

COM O SUCESSO NO BRASIL, ELES APOSTARAM NO EXTERIOR

De olho no mercado internacional, a Dentro da História lançou, mês passado, a plataforma Playstories, na Espanha. Ela funciona exatamente como a brasileira, mas por enquanto apenas com o licenciamento da Patrulha Canina, que está entre as três histórias que mais fazem sucesso por lá. André conta:

Ainda tem muito mercado dentro do Brasil, mas a gente entendeu que a inovação criada aqui, por ter conteúdos globais, precisaria ser levada a outros países”

Essa operação internacional é muito recente, então, ainda não há números para compartilhar. Mas a meta é estar em mais cinco países da Europa até o final de 2019. A Inglaterra é o próximo. Flávio está morando fora do Brasil desde junho passado para ficar à frente dessa nova empreitada e eles contrataram, como head da empresa lá fora, Igor Burattini, 33, que mora há mais de dez anos na Finlândia, país que tem o sistema educacional mais avançado do mundo.

Levar um modelo de negócios de sucesso para outro país traz novos desafios, já que a cultura e os hábitos são diferentes. “Para os espanhóis a principal data de compra não é o Natal, mas o dia de Reis, que é 6 de janeiro”, exemplifica André. E completa: “A sensação é que a gente está lançando uma nova startup”. Que venha uma nova empreitada em prol da leitura e da educação.

Fonte: DRAFT

Literatura infantil em acesso aberto enfrenta desafios para se consolidar

Movimento de acesso aberto, inicialmente voltado para a produção acadêmica, ganha força em outras esferas, mas ainda precisa superar barreiras

Artigo da InCID: Revista de Ciência da Informação e Documentação avalia vantagens e desafios da literatura infantil disponível gratuitamente na internet – Foto: Tinta1975/Wikimedia Commons

A literatura para crianças comprovadamente desenvolve o imaginário infantil e, para isso, é preciso que o livro conquiste pela narrativa interessante e outras características que envolvam os leitores mirins no enredo das histórias e permita-lhes viajar e vivenciar aventuras e experiências diferentes que as histórias proporcionam. Com a tecnologia de hoje, é possível encontrar essas obras on-line para serem lidas em tablets, computadores ou smartphones. Isso é bom ou ruim? As autoras do artigo publicado na revista InCID: Revista de Ciência da Informação e Documentação põem em pauta as vantagens e desafios da literatura infantil em acesso aberto.

Dentre as vantagens da literatura infantil em acesso aberto temos um grande alcance dos leitores às obras na internet, baixo custo, diferentemente dos livros impressos, e “a disponibilização de histórias em domínio público e variedade de formas proporcionadas pelas tecnologias para o formato digital e eletrônico”, sem esquecer o papel dos pais, professores e bibliotecários: permitir e incentivar esse exercício on-line de leitura. Em contrapartida há as desvantagens ou desafios: as questões dos direitos autorais, a relutância dos autores a criarem obras para o formato on-line e a iniciativa de conquistar-se os leitores com textos e ilustrações que explorem as possibilidades dos recursos digitais e eletrônicos para os livros infantis.

O artigo apresenta o mapeamento da literatura infantil existente em acesso aberto nos idiomas português e espanhol, cujos sites mais relevantes constam listados no artigo. Não se trata aqui de desprezar os textos impressos, segundo as autoras, mas de explorar os recursos singulares possibilitados pela tecnologia. As autoras chamam a atenção para o fato de que “a literatura infantil é arte […] narrativa voltada para instigar a imaginação”. Salienta-se a visão adultocêntrica da literatura infantil a “formar as opiniões das crianças, influindo na apropriação da língua e da cultura”, por meio de lendas, contos de fadas, folclore, adivinhas, trava-línguas, etc. Hoje, além dessas modalidades, a literatura infantil retrata tópicos e questões do cotidiano “cujos protagonistas são crianças que resolvem seus problemas do cotidiano sem a interferência dos adultos”.

Cabe lembrar que o movimento de acesso aberto, inicialmente, era voltado para a produção acadêmica, mas cada vez mais ganha força em outras esferas, entre elas, a produção literária voltada ao público infantil. Não se pode esquecer, contudo, que “o acesso aberto gera outras necessidades, como a regulamentação dos direitos autorais das obras publicadas na Internet”. O projeto Creative Commons, concebido inicialmente nos Estados Unidos, foi idealizado exatamente para suprir essa necessidade de regulamentação dos direitos autorais, facilitando, com respaldo de leis, a circulação e difusão de obras on-line.

Os sites encontrados disponibilizam as histórias em texto corrido, sem a preocupação com as imagens e formatos, “o que deixa a desejar ao se tratar de literatura infantil, dificultando a leitura e deixando-a cansativa, sem fluidez”. Relacionando as análises dos sites e blogs em português e espanhol, pode-se observar que a forma de apresentação desmotiva a leitura, principalmente para as crianças, pois a parte visual não é atrativa. É preciso que os autores sejam estimulados ao hábito de publicar no formato digital em acesso aberto. Ainda quanto à forma, “percebe-se um enorme descuido na divulgação das histórias em relação aos direitos autorais, pois em sua grande maioria não apresentam o autor nem a data”, o que remete a uma falta de preocupação quanto à disponibilização de uma literatura infantil de qualidade.

As autoras consideram os desafios maiores do que as vantagens, o que pode estar relacionado com as poucas e “recentes iniciativas voltadas para esse setor”, tendo como exemplo que a “única base de dados efetiva encontrada foi o Portal Domínio Público”, no formato PDF, não recomendável porque é apenas a “transposição do impresso para o digital, desprezando as tecnologias disponíveis para tal”, as quais são capazes de proporcionar uma leitura mais atraente visualmente, convidando o leitor a imergir nas mais variadas histórias.

Concluindo, o artigo ressalta a importância da existência de sites de textos infantis para estimular e autonomia aos leitores mirins, pois são instrumentos valiosos na “formação de indivíduos criativos, participativos, críticos e leitores para a vida toda”.

Clarice Fortkamp Caldin – Doutora em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC e Professora Associada I na mesma Universidade.
E-mail clarice.fortkamp.caldin@ufsc.br

Priscila Machado Borges Sena – Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação na Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. E-mail priscilasena.ufsc@gmail.com

Jéssica Bedin – Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação na Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. E-mail jessicabedin06@gmail.com

Artigo

CALDIN, C.; SENA, P.; BEDIN, J. Literatura infantil em acesso aberto: análise das vantagens e desafios. InCID: Revista de Ciência da Informação e documentação, São Paulo, v. 9, n. 1, p. 130-145, 2018. ISSN: 2178-2075. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2178-2075.v9i1p130-145 . Disponível em: <
http://www.revistas.usp.br/incid/article/view/133893> . Acesso em: 23 ago. 2018.

Fonte: Jornal da USP

‘Meu pé de laranja lima’ concorre a prêmio no Reino Unido

O Cilip Carnegie Medal, um dos prêmios literários mais antigo do Reino Unido, reconhece os melhores livros infantis escritos ou traduzidos para o inglês

Dois dos mais antigos prêmios de literatura infantil do Reino Unido, o Cilip Carnegie e o Kate Greenaway Medals divulgaram os livros indicados para sua edição de 2019. Concedido pela CILIP: Instituto Chartered de Profissionais de Biblioteconomia e Informação, o prêmio é dado ao melhor livro escrito ou traduzido para o inglês e ao melhor livro ilustrado destinado às crianças e jovens. Dentre os nomes que aparecem na lista está a obra My sweet orange tree (Pushkin Chlidren’s Books) (Meu pé de laranja lima – Melhoramentos), livro de José Mauro de Vasconcelos e que foi traduzido por Alison Entrekin. Em março serão anunciados os finalistas do prêmio e logo depois, as obras serão lidas por crianças e jovens através de grupos de leitura em escolas e bibliotecas públicas. Os ganhadores serão anunciados no dia 17 de junho. A lista completa com os selecionados você encontra clicando aqui.

Fonte: PUBLISHNEWS

Eva Furnari: “O faz de conta é importante para a criança. Ao simbolizar, o inconsciente manifesta-se”

Quando pequena, dotada do puro saber dos 6 anos, desenhou um homem-palito. Vestiu uma roupinha nele, blusa e calça, e entusiasmou-se com o próprio traço. É esse maravilhamento que desde então acompanha Eva Furnari, que costuma perceber cada coisa por meio do figurado. Felpo Filva, o coelho poeta, Lolo Barnabé, o inventor acidental, e Pandolfo Bereba, o príncipe que lista os defeitos alheios, surgiram com outros personagens do olhar criativo da autora, dona de uma narrativa ritmada e cheia de graça – zigue-zague harmônico de palavras e ilustrações.Eva nasceu em Roma, capital italiana, em 1948, mas aos 2 anos desembarcou no  Brasil. Em 1976, formou-se em arquitetura e urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP) e, de 1974 a 1979, foi professora de artes no Museu Lasar Segall. Estreou na literatura em 1980, com a coleção de histórias visuais Peixe Vivo, e na mesma época colaborou no suplemento infantil da Folha de S.Paulo, com as tirinhas da Bruxinha. Com mais de 60 títulos publicados, prêmios vários e mil ideias, a escritora e desenhista sente que ainda há muitas linhas por compor.

As inventividades e as feitiçarias de Trudi, Kiki e companhia preenchem os fins de semana de setembro no Cantinho da Leitura do Itaú Cultural. Eva Furnari é o destaque do mês e, em uma conversa, toca em assuntos que são a sua alquimia, da literatura ao vínculo com educadores.

A leitura estava presente em sua infância? Se sim, de quais maneiras?
Estava sim, na medida em que a minha mãe contava histórias para mim. Eu tinha 8 graus de hipermetropia e uma dificuldade tamanha para ler. Porém, lia, lia pouco. Como a minha família é estrangeira, não comecei com Monteiro Lobato, e sim com Hans Christian Andersen.Tínhamos também o costume de ler em voz alta.

Como se deu o seu contato com a ilustração?
Um avô meu, que não conheci, era pintor. A minha mãe desenhava bem, apesar de não desenhar sempre. Então, eu já tinha uma tendência natural. Outro ponto: alguns livros que tive na infância traziam ilustrações tão bonitas. Além disso, tenho uma relação estética com o entorno, uma conexão com a linguagem, com o movimento facial das pessoas. Esses elementos se refletem no meu desenho.

Personagens, personagens | foto: Site Eva Furnari

E com a literatura? Quando e de qual forma você se tornou escritora? 
Cursei arquitetura e, na faculdade, acabei me envolvendo com as artes plásticas – com uma turma, fiz alguns livretos, sequências de desenhos, brincadeiras que, às vezes, a gente até imprimia na gráfica universitária. Nesse período principiei pelas narrativas – visuais e não direcionadas para crianças. O meu trabalho de conclusão de curso foi sobre livros infantis, aliás. Quando saí do Museu Lasar Segall, já com uma filha pequena, achei que poderia ser interessante trabalhar com livros. No entanto, mal sabia o que são direitos autorais. Passei a procurar editoras em listas telefônicas até que soube que a Ática estava aberta a estreantes. Apresentei um projeto de quatro livros visuais a eles, que gostaram e publicaram. A partir dessa coleção entrei no meio editorial. O meu percurso foi consequência do próprio trabalho. Durante dez anos fiz histórias sem textos escritos e ilustrei enredos de outros autores. Em 1994, lancei a primeira trama intrincada: A Bruxa Zelda e os 80 Docinhos.

O que é literatura para você?
Uma manifestação humana de expressão que encaixo como sendo uma manifestação artística. Obviamente que, nesse conjunto, existem qualidades diversas. Mas é um veículo de experiências. A literatura possui o papel de refletir não só o inconsciente coletivo, como também o inconsciente pessoal, as organizações da psique. O entendimento da vida humana, dos relacionamentos, os significados e as complexidades dos nossos conflitos são matéria de um espaço de liberdade, de troca, que não está atrelado, necessariamente, à venda de algum produto. A arte literária está fora do eixo comercial – não o livro, o conteúdo.

Laboratório do professor Bóris | foto: Site Eva Furnari

Em sua opinião, existe literatura infantojuvenil ou literatura é um todo único? 
A criança tem uma barreira de habilidade e de conhecimento; o jovem, em parte, também. O que posso dizer é que há livros infantis que os adultos podem ler. No entanto, alguém de 7 anos não pode ler Dostoiévski, digamos assim. Existe essa limitação de experiências para entender, por exemplo, um texto de Machado de Assis. Entretanto, considero ambas, tanto a literatura infantojuvenil quanto a adulta, manifestações artísticas de valor. Elas carregam aspectos estruturais diferentes: a primeira apresenta desenhos, pois a criança conhece a ilustração antes de dominar os códigos da escrita. O vocabulário e a complexidade precisam ser adequados. Os assuntos, porém, podem ser variados, inclusive os que não são leves, como a morte. Tudo depende do modo como esses temas são abordados: é mais uma questão de linguagem do que de conteúdo.

Ao escrever, você pensa no leitor? Ou vai por um percurso livre de preocupações com o público?
Há as limitações do leitor infantil e do juvenil. Contudo, não penso, logicamente, nisso quando escrevo, senão o trabalho fica racional demais. À medida que me aprofundo na minha pessoa, consigo chegar ao outro. A via não é direta. E é sempre de um modo mais intuitivo, meio misterioso, uma percepção sutil do que ali é verdadeiro, do que não é. O farol sou eu mesma, apesar de ter conhecimento acerca da limitação da linguagem, de questões educacionais – que não chegam a ser pedagógicas – e éticas – que carrego, naturalmente, em minha vida particular.

A personagem Bruxinha | foto: Site Eva Furnari

A sua obra é vasta. De onde vêm tantas histórias?
Difícil essa pergunta. Existe um traço de personalidade: sou introspectiva, vivo nesse mundo interior mais do que no exterior, disponho de um processo de reflexão e imaginação, fico bem comigo mesma. Olho para alguma coisa e já a vejo simbolicamente. Por exemplo, quando rompeu a barreira de Mariana, em Minas Gerais, a lama invadiu, para mim, simbolicamente, aquilo que estava ligado ao Brasil como um todo. Faço esses paralelos de um jeito involuntário. E também acho que criar histórias é uma maneira de tornar a existência mais divertida, de preenchê-la. Como se tivesse uma criança dentro de mim.

O que é escrever? 
É algo que faz parte de mim. Escrever me ocupa o tempo inteiro, não importa se é sábado ou domingo. Esse métier, essa profissão é uma sorte que tenho – e ela me traz sentido, muito prazer e sofrimento (a folha em branco, a resolução de uma frase ruim). Compartilho as minhas visões, as minhas brincadeiras, os meus jogos, os meus humores – e isso me norteia, é central.

Enquanto espera a comida em um restaurante, Eva desenha em um papel | foto: Site Eva Furnari

E desenhar, o que significa?
É uma grande diversão. Escrevo cada vez mais e desenho um pouco menos, depende da época. A ilustração vai além do desenho: há o conhecimento do personagem, o que é divertido e surpreendente. Trata-se de uma busca pelo novo. Agora, há um mistério em desenhar: faço isso, mas não sei como faço. Há sempre o mistério.

O que os prêmios representam para você?
Os prêmios são ótimos, porque refletem um reconhecimento que parte também do público. Eu me tornei mais segura devido a esse retorno: sei que estou no caminho certo. O momento da criação é muito vago. Saber que consigo me comunicar com o outro faz com que eu perceba que todo o meu empenho vale a pena.

Ateliê da autora | foto: Site Eva Furnari

Se pudesse escolher um momento de sua trajetória profissional, qual seria o selecionado?Dois livros meus são significativos para mim: Os Problemas da Família Gorgonzola (2001), uma obra na qual consegui alcançar uma espontaneidade que as crianças têm ao copiar os meus traços e ao fazer desenhos melhores do que os meus. O outro é o único que não fui eu quem ilustrou: Amarílis (2013), do qual gosto do texto, um texto que me emociona. Ao lê-lo, até hoje choro, mas não sei o porquê. Fora esses títulos marcantes, sou muito agradecida por tudo que recebo dos leitores e dos professores. Com os educadores mantenho uma parceria espontânea: os meus livros estão por aí devido a eles, com quem me identifico e me solidarizo.

A magia é importante para a criança? E para o adulto?
Creio que existem aqueles que entram nesse universo e aqueles que não entram. Nada tem a ver com o valor da pessoa. O faz de conta é importante para a criança. Ao simbolizar, o inconsciente manifesta-se. O ser humano que não consegue simbolizar se desequilibra psiquicamente. Quem simboliza a morte, o matar alguém, todas as demandas a respeito da sobrevivência, possui o inconsciente mais preparado para distinguir a ficção da realidade. Os trabalhos de Jung e de Nise da Silveira vão por esse rumo. Acho que a magia é, fundamentalmente, a capacidade de transformação – da mais simples, do Harry Potter, até ir para além do rotineiro, vislumbrar uma transcendência, um caminho para a espiritualidade. Para o adulto, há a turma da magia e o grupo da não magia. Para quem almeja ser maior do que acordar-trabalhar-dormir, a magia é necessária como comida.

Meninas humanas, meninas bruxas | foto: Site Eva Furnari

Fonte: Itaú Cultural

Como funcionam os livros sonoros na educação infantil?

Os livros sonoros podem trazer ótimos benefícios para as crianças nas fases de desenvolvimento do processo cognitivo

Olá, leitores!

A utilização de sons durante a leitura na educação infantil nas fases iniciais é considerada um método muito positivo no processo de desenvolvimento cognitivodas crianças.

Quando os pais e os professores decidem introduzir a literatura na vida das crianças, o mais comum é que eles se utilizam da contação de história ao lerem histórias lúdicas para os pequeninos.

Contudo, existem outras formas de se empregar a literatura no ensino das crianças que, ao mesmo tempo em que incentivam a leitura, também potencializa o processo de desenvolvimento educacional.

Entretanto, antes de nos aprofundarmos nessas formas de leitura, falaremos um pouco sobre o papel da literatura na educação infantil.

A literatura infantil na fase inicial do aprendizado

Quando falamos sobre aquisição da linguagem, processo onde a criança aprende a falar até conseguir desenvolver frases bem estruturadas, vemos que a leitura detém um papel de extrema importância.

leitura para as crianças oferece muito mais do que simples influência lúdica ou ficcional, pois aspectos importantíssimos são afetados através das histórias.

A capacidade mental da criança é influenciada diretamente pela leitura, como também, a capacidade de desenvolvimento e formação das características emocionais, afetivas, sociais e cognitivas.

Ao ouvir as histórias as crianças também aumentam seu vocabulário e até mesmo podem tornarem-se mais comunicativas. O processo de aquisição da escritatambém se torna muito mais fácil para uma criança onde a leitura esteve presente na sua vida desde as fases iniciais de desenvolvimento.

Novas opções de leitura para a educação infantil

Não podemos caracterizar como fácil a tarefa de conseguir chamar à atenção de uma criança e fazer com que ela preste a tenção durante a contação de história.

Então a busca por novas opções de leituras que proporcionassem uma maior interação da criança com o livro trouxe para o mercado algumas modalidades diferenciadas.

Nessa categoria de leitura não-convencional, podemos enquadrar a utilização de:

  • Livros com ilustrações, desenhos ajudam no desenvolvimento do processamento da imagem;
  • Livros 3D, os quais permitem o trabalho com conceitos espaciais através das imagens;
  • Livros interativos, onde as próprias crianças farão parte da história;
  • E os livros sonoros, aqueles que se apresentam com efeitos sonoros ao decorrer da narrativa.

Essas novas formas de se contar ou narrar uma história fora desenvolvida com o propósito de chamar a atenção das crianças e a prenderem durante a narrativa.

Os livros sonoros e seus benefícios

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Os livros sonoros são livros que contam com o auxílio de som para narra uma história.

Podemos encontrar os livros sonoros geralmente são aqueles em que a narrativa da história constitui-se com a interação e o auxílio do som, ou seja, a pessoa que está lendo acionará o livro nos momentos necessários para que a criança ouça o som. Por exemplo, a história fala sobre cães, então quando chegar o momento da história quando a o cachorro late, o narrador aciona o livro que reproduzirá o som do animal.

Também podemos encontrar livros sonoros totalmente narrados, ou seja, não será necessário a intervenção de narrador para que a história seja contada. Contudo, essa categoria é recomendada para crianças mais velhas, pois os pais devem contar as histórias para os mais novos para estreitar os laços familiares e estimular o desenvolvimento emocional e afetivo dos filhos.

Existem muitos livros do gênero por aí, com os mais variados preços, alguns custam 10 reais e outros podem custar até 15o reais. Porém, para aqueles que não podem ou não querem comprar livros sonoros, a leitura através da própria voz dos pais ou professores pode ser uma experiência válida.

A utilização de pequenos elementos sonoros é possível mesmo sendo os pais a lerem a história, a própria voz utilizada com entonações diferentes pode despertar tais desenvolvimentos para as crianças. O importante mesmo é ter esse hábito de leitura até eles mesmo poderem decidir o que querem ler e lerem por conta própria.

Além disso, muitos especialistas na área dizem que a audição é o sentido mais forte assim que a criança nasce e até mesmo quando ela se encontra na barriga da mãe, por isso livros sonoros podem sim trazer benefícios de forma comprovada ao estimularem a imaginação, raciocínio mental e a associação de sons a objetos.

Entre as principais vantagens da utilização dos livros com sons na educação, temos:

  • Incentivar a leitura;
  • Desenvolvimento do lúdico na criança;
  • Desenvolvimento do raciocínio mental;
  • Desenvolvimento do processo cognitivo;
  • Estímulo a associação de sons a objetos;
  • Estímulo a imaginação e a associação a imagens;
  • Estímulo a aquisição da linguagem e aumento do conhecimento linguístico.

Os benefícios listados acima são os mais importantes no processo dedesenvolvimento cognitivo das crianças, mas os benefícios de ler para uma criança, seja a utilizar-se de livros sonoros ou não, são incontáveis.

Vale lembrar que a leitura como forma de desenvolvimento da criança é um trabalho contínuo e demanda uma parceria entre pais e professores/casa e escola.

Os pais devem fazer sua parte da mesma forma que os professores devem trazer inovações que auxiliem o desenvolvimento cognitivo dos seus alunos.

Fonte: Canal do Ensino | Guia de Educação

Encontro celebra cem anos de ‘Urupês’, de Monteiro de Lobato

Especialistas debatem a obra lobatiana em evento gratuito nos dias 5 e 6 de novembro

O livro Urupês, escrito por Monteiro Lobato em 1918, ganhou a cena na época da publicação e teve várias edições, podendo ser considerado o primeiro best-seller nacional. Para celebrar os cem anos do texto, a Editora Unesp e a Universidade do Livro realizam encontro com especialistas aberto ao público, nas tardes dos dias 5 e 6 de novembro. O local escolhido como palco do encontro é o prédio onde hoje funciona a Fundação Editora da Unesp e que já foi sede da Cia. Gráphico-Editora Monteiro Lobato.

Sob coordenação do escritor Luís Camargo, coautor dos livros Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta e Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil, livro do Ano Não Ficção, em 2009, o evento toma como mote Urupês, mas também da obra lobatiana em sentido mais amplo.

Além da publicação de Urupês, ainda em 1918, Monteiro Lobato comprou a Revista do Brasil, onde colaborava desde seu lançamento e também publicou O saci-pererê: resultado de um inquérito e a coletânea de artigos de jornal Problema vital.

Confira a programação completa e o currículo dos participantes. As inscrições são gratuitas.

LOCAL

Universidade do Livro: Praça da Sé, 108 (estação Sé do Metrô) | São Paulo (SP)

DATA

5 e 6 de novembro de 2018

INSCRIÇÕES AQUI

PROGRAMAÇÃO

Segunda-feira | 5 de novembro

14h30 | Conferência de abertura: Cem anos de Urupês

Milena Ribeiro Martins

Coordenação: João Luís Ceccantini 

15h30 | Coffee break 

15h45 | Mesa-redonda: Em torno de Urupês

Coordenação: João Luís Ceccantini 

  • História editorial de Urupês

Cilza Carla Bignoto 

  • Iconografia dos Urupês

Magno Silveira 

  • Repercussões de Urupês no mundo hispanofalante

Thaís de Mattos Albieri 

  • Urupês na boca do povo: jornalismo e literatura lobatiana

Thiago Alves Valente   

Terça-feira | 6 de novembro 

14h30 | Mesa-redonda: Urupês e além 

Coordenação: Cilza Carla Bignotto 

  • Os contos de Monteiro Lobato e de Lima Barreto

Tâmara Abreu  

  • “O livro é que vai abrir os olhos dessa gente” – um mote de Monteiro Lobato

Kátia Chiaradia 

  • A correspondência entre Lobato e seus leitores infantis

Raquel Afonso 

  • A “marca M.L.”: Monteiro Lobato e a posteridade

Emerson Tin 

15h45 | Coffee break 

16h | Conferência de encerramento: Um Lobato para o século XXI

Marisa Lajolo

Coordenação: Cilza Carla Bignotto 

PARTICIPANTES

Cilza Carla Bignotto é professora da Universidade Federal de Ouro Preto, câmpus de Mariana, MG. Autora de Figuras de autor, figuras de editor: as práticas editoriais de Monteiro Lobato. Coautora dos livros Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil e Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta, nos quais escreveu sobre O garimpeiro do rio das Garças e A onda verde.  

Emerson Tin é professor de língua portuguesa e literatura nas Faculdades de Campinas (Facamp). Coautor dos livros Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil e Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta, nos quais escreveu sobre Os doze trabalhos de Hércules, O Mundo da Lua e A barca de Gleyre

João Luís Ceccantini é professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Assis, organizador de Monteiro Lobato e o leitor de hoje (com Alice Áurea Penteado Martha), de Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil (com Marisa Lajolo) e coautor de Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta, no qual escreveu sobre Urupês

Kátia Chiaradia é pesquisadora e coautora dos livros Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil e Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta, nos quais escreveu sobre O poço do Visconde e O escândalo do petróleo

Luís Camargo é o coordenador geral do evento ‘Cem anos de Urupês‘, escritor, ilustrador e tradutor de livros para crianças. Coautor dos livros Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil e Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta, nos quais escreveu sobre ilustração e Ideias de Jeca Tatu.

Magno Silveira é designer, pesquisador e colecionador da obra de Monteiro Lobato. Realizou a exposição “Ilustradores de Lobato” (Sesc São José dos Campos); publicou catálogo sobre esses artistas do período de 1920 a 1948. Atualmente realiza pesquisa iconográfica e textos sobre ilustradores para a Editora Globo, selo Biblioteca Azul, coleção lobatiana. 

Marisa Lajolo é professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie, autora de Literatura: ontem, hoje, amanhã, Monteiro Lobato: um brasileiro sob medida, O poeta do exílio (Melhor Obra de Literatura Infantojuvenil de 2011, pela Academia Brasileira de Letras), organizadora de Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil (com João Luís Ceccantini) e Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta. Eleita para a Academia Paulista de Educação em 2015. 

Milena Ribeiro Martins é professora da Universidade Federal do Paraná. Coautora dos livros Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil e Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta, nos quais escreveu sobre Viagem ao céu, Negrinha e América

Raquel Afonso trabalha com tutoria à distância na Univesp e leciona no Ensino Médio. Coautora dos livros Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil e Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta, nos quais escreveu sobre Histórias de Tia Nastácia e Problema vital

Tâmara Abreu é professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Coautora dos livros Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil e Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta, nos quais escreveu sobre A reforma da Natureza e Mr. Slang e o Brasil.

Thaís de Mattos Albieri é editora de livros. Coautora dos livros Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil e Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta, nos quais escreveu sobre Emília no País da Gramática e Cidades Mortas

Thiago Alves Valente é professor da Universidade Estadual do Norte do Paraná, câmpus de Cornélio Procópio, autor dos livros Monteiro Lobato nas páginas do jornal e Monteiro Lobato: um estudo de A chave do tamanho, coautor dos livros Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil e Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta, nos quais escreveu sobre A chave do tamanho e Mundo da lua e miscelânea.

Fonte: Editora da Unesp

Ciclo de Palestras “Paradigmas Culturais Hoje” – 26/09/2018

No dia 26 de setembro, às 18h, no auditório, o Ciclo de Palestras “Paradigmas Culturais Hoje” discute a temática “Cultura na TV, nos jogos eletrônicos e na literatura infantojuvenil”. O evento tem como objetivo reunir especialistas, pesquisadores e alunos de graduação e pós-graduação das áreas cultural e midiática. A entrada é franca e a inscrição prévia é pelo e-mail coloquio.epcc@gmail.com ou poderá ser efetuada no local. Os interessados poderão solicitar certificado de participação.

O tema será analisado pelas especialistas:

Luciana Sandroni: escritora de livros clássicos juvenis, como “O Sítio no Descobrimento: a turma do Picapau Amarelo na expedição de Pedro Álvares Cabral” e “Ludi e os fantasmas da Biblioteca Nacional”, além ser roteirista da última versão do Sítio do Picapau Amarelo.

Lucia Helena Novaes: sócia da Guanabara Brazil Comunicação, onde atua com diversos trabalhos em novas mídias, filmes publicitários e séries de reality drama no canal GNT.

Gláucia Lima: escritora e professora de Programação de Games,criou um curso moderno de Programação de Games para crianças e jovens e é autora do livro “Coelhinho Robô”, que ensina conceitos básicos de programação para crianças.

Eula Cabral: professora do Mestrado Memória e Acervos da FCRB, atua na área de Economia Política da Comunicação e da Cultura.

Fonte: Casa Rui Barbosa

Relações possíveis entre leitura e o desenvolvimento infantil

Texto por Andrezza Tavares e Giovana Amorim

A literatura infantil permite o desabrochar da atividade cognitiva, emocional e do potencial criativo infantil. A criança que tem acesso à leitura e a contação de histórias, ainda na primeira infância, apresenta maiores saltos de qualidade em seu pensamento pelo contato com a imaginação proporcionada pela interpretação ficcional da realidade. A leitura promove benefícios sociais e afetivos por meio do recriar cíclico no plano do imaginário (AMARILHA, 1997).

O texto literário importante para a infância é aquele capaz de ter função estética e utilitária. A função estética significa um bom plano de expressão que desperte a atenção da criança por meio de versos, ritmos, sonoridade, entre outros recursos; a função utilitária significa saber informar, satisfazer, ilustrar, caracterizar, repetir, acrescentar ideias, entre outras possibilidades inerentes à leitura.

Dentre as características relevantes do texto que permite a leitura para o desenvolvimento de crianças, destacamos: 1) a intangibilidade uma vez que o seu poder está na poesia, nas metáforas e nas metonímias, características próprias da riqueza do universo conotativo que amplia os significados novos do imaginário infantil; e 2) na desautomização uma vez que o texto literário utiliza a linguagem através da estética criando novas relações entre as palavras e estabelecendo associações inesperadas e surpreendentes. De acordo com o poeta francês Valéry o texto literário é intocável, não se pode resumi-lo, pois perdemos a sua essência (ABRAMOVICH, 1989).

A linguagem poética é a principal portadora dos elementos lúdicos que proporcionam prazer ao texto. O gosto pela leitura chega à criança, principalmente pela oralidade.

A leitura destinada à infância deve ser uma construção sensorial e imagética. A criança ao transformar as imagens em expressão, pela linguagem oral, entra na composição do elemento lúdico e da brincadeira promovendo interações e aprendizagens. A compreensão do prazer proporcionado pelo jogo da linguagem, que aparece no texto criativo, como a poesia por exemplo, fortalece o desenvolvimento global da criança.

A poesia na escola de Educação Infantil acontece através da maneira como a mesma se apresenta aos seres humanos na sua primeira observação de mundo. A proposta da leitura na educação infantil com seu caráter lúdico deve ser uma experiência que antecipa o processo de observação e compreensão do mundo de forma disciplinada e subjetiva. Trabalhar com a subjetividade do aluno é fundamental para o desenvolvimento de suas capacidades e habilidades necessárias para enfrentar os diferentes desafios de estar no mundo.

Pormenorizando, o texto estimula as crianças a pensar, imaginar, brincar, ouvir,  escrever, ver e a tocar, inclusive tateando o livro. Por meio do contato com a leitura, a criança amplia as possibilidades de sentir e de pensar sobre a sua condição, as suas emoções, afetos e aprendizagens no mundo, desenvolvendo-se continuamente.

Referências:

Texto literário e Texto não – literário. In: FIORIN, José Luis; SAVIOLI, Francisco Platão. Para entender o texto: leitura e redação. 2ª ed. São Paulo: Ática, 1991.

ABRAMOVICH, Fanny. Literatura Infantil: gostosuras e bobices. –São Paulo: scipione, 1989.

AMARILHA, Marly. O Lúdico na Literatura: O caso da poesia. In: Estão mortas as fadas? – Petrópolis, RJ: vozes, 1997 – Natal: EDUFRN.

AMARILHA, Marly. Estão mortas as fadas?. 3ª ed. Petrópolis, RJ: vozes, 2001 – Natal: EDUFRN.

CAMARGO, Luís. Ilustração do livro Infantil. Rio de Janeiro: Sindicato Nacional de Editores do Rio de Janeiro, 1995.

Fonte: Potiguar Notícias

Para despertar a reflexão, autora permite download gratuito de livros infantis

Olga de Dios cria histórias que trabalham temas como diversidade, colaboração e meio ambienteTexto por Paula Salas

Olga de Dios lê seus livros em escolas Foto: David Corral

A autora espanhola Olga de Dios é arquiteta de formação, mas desde 2006 trabalha como ilustradora. Publicou seu primeiro livro “O Monstro Rosa” em 2013 e a partir de 2014, dedica-se à criação de seus livros. Ela já publicou seis títulos, dos quais chegaram quatro ao Brasil pela Boitatá – selo infantil da editora Boitempo – entre eles, o mais recente: Rã de três olhos.

Seu trabalho carrega a crença na potencialidade das crianças para discutir temas como diversidade, sustentabilidade e trabalho em equipe. “Nos meus livros busco aproximar esses assuntos com a infância e pela minha experiência é que eles costumam entendê-los com muita facilidade e tem a capacidade de trazer esses valores para suas vidas e relações”, conta Olga.

A alta receptividade de suas histórias por pais e professores a motivaram a mudar o tipo de direitos de autorais com que publica seus livros para poder disponibilizar o conteúdo e para que este seja compartilhado e transformado. Então, no seu site é possível fazer o download gratuito dos livros na íntegra – inclusive as versões em português-, as ilustrações, desenhos para colorir e materiais didáticos que outros educadores criaram com base em suas obras.

Olga de Dios concedeu uma entrevista para NOVA ESCOLA para falar sobre a relação de seu trabalho com a Educação. Confira:

NOVA ESCOLA: Como você vê o lugar da literatura infantil na educação?

OLGA DE DIOS: Cada dia há uma maior presença de temas e materiais digitais, talvez menos livros impressos. Porém, minha experiência é que os livros ilustrados continuam despertando o interesse de diferentes públicos. Tanto nas escolas que os utilizam para trabalhar diversos temas como nas famílias que compartilham aquele material entre pessoas de diferentes idades, inclusive crianças que ainda não sabem ler, mas que se divertem com as ilustrações e que gostam de compartilhar esse momento com quem lê os contos. Na minha opinião, é muito importante criar livros para uma infância de qualidade tanto em conteúdo quanto visualmente, que despertem a criatividade, incentivem o questionamento e a busca por soluções coletivas para problemas que nos afetam e continuarão, sem dúvidas, afetando as gerações futuras. Tanto nos livros quanto em todos os materiais digitais que dialogamos com a infância acredito que devemos nos esforçar para incentivar o pensamento crítico e educar em liberdade.

Os livros infantis sempre estiveram na sua vida? Como surgiu esse interesse na literatura infantil?

Fiz um longo percurso até chegar na literatura infantil. Sempre tive muito interesse pelo desenho e representação gráfica. Sou formada como arquiteta e me especializei na representação gráfica da área. Depois dos 30, ampliei minha formação em uma escola de arte como ilustradora. Nesse momento que comecei minha trajetória como autora de livros ilustrados. Então, meu interesse pela literatura infantil está relacionado ao meu interesse pelo livro ilustrado. Meu primeiro contato como autora infantil foi com o meu livro “O Monstro Rosa” e, a partir desse momento, meu interesse tem aumentado. Hoje sou especializada em ilustração e conteúdos para a infância.

Qual a importância de trazer em uma linguagem interessante e acessível para as crianças temas como diversidade e sustentabilidade?

Considero que são temas muito importantes e sobre os quais devemos gerar mais referências para a infância. Trabalhar esses temas nos livros infantis cria a possibilidade de falar sobre eles com as crianças, refletir e pensá-los com a infância. Queremos construir sociedades mais justas e para tal precisamos falar de valores como igualdade, diversidade e a importância de compartilhar o conhecimento para encontrar soluções. Nos meus livros busco aproximar esses assuntos com a infância e pela minha experiência é que eles costumam entendê-los com muita facilidade e têm a capacidade de trazer esses valores para suas vidas e relações. Sem dúvida, o uso responsável dos recursos do planeta é um tema que temos que enfrentar na infância e que contradiz muitas mensagens publicitárias dirigidas para as crianças que fomentam o consumo irresponsável e necessidades falsas e excessivas em torno da infância.

O que te inspira para construir suas histórias e personagens?

Trabalho em torno de temas que me preocupam e com bases nesses assuntos crio histórias que tragam ideias e valores. Sobre cada história, busco trabalhar muito com as ilustrações e com detalhes de maneira a que cada livro possa ter muita vida e dê lugar para que cada pessoa possa lê-lo e compartilhá-lo de diferentes formas. Me dedico à criação artística de cada personagem para que sejam frescos e espontâneos ao mesmo tempo que transmitam emoções e gerem empatia. Além disso, trabalho muito com personagens monstruosos para tentar quebrar com modelos estereotipados e criar referenciais que quero pensar que torna as crianças mais livres.

Você costuma receber feedback dos leitores pequenos? Tem alguma história que emocionou?

Muitos. Desde meu primeiro livro tenho compartilhado meu trabalho com muitas escolas, bibliotecas e associações nas quais tenho visto crescer algumas crianças que me seguem desde muito pequenas. Em geral, me emociona muito compartilhar meu trabalho, gosto como percebem os detalhes dos desenhos e que talvez à primeira vista não são fáceis de ver, me surpreendem muito as perguntas que fazem de cada personagem em situações que nem eu mesma me havia perguntado. Lembro de um dia em uma sala de Educação Infantil na qual alunos de 3 anos me perguntaram como o Monstro Rosa faz xixi. De primeira não entendi o sentido da pergunta, mas eles mesmos me explicaram ao gerar um debate com suas respostas sobre se ele fazia no banheiro ou na fralda. Então, compreendi o sentido da pergunta para o grupo, aprendi muito com suas respostas e me aproximei um pouco mais do mundo deles apenas escutando o debate.

Nas suas entrevistas e no seu site, você comenta sobre a licença de Creative Commons e menciona a disponibilidade do material para professores, o que te motivou a tomar essa decisão?

Meu interesse por este tipo de licença surgiu no começo da minha trajetória. Meu primeiro livro, o Monstro Rosa, alcançou muita repercussão e começou a ser utilizado em muitas casas e salas de aula. Em uma dessas casas, uma família decidiu adaptá-lo a pictogramas para que seu filho com autismo pudesse aproveitá-lo. Este trabalho foi compartilhado na internet para que outras famílias o pudessem utilizar. Isso é uma obra derivada que o copyright bloqueia e que o mercado editorial não contempla por não serem financeiramente vantajosas. Sempre que o uso não seja comercial, esse tipo de criação pode estar dentro de alguns modelos de Creative Commons e seja possível difundi-las. Com esse tipo de licença, é possível o download livre dos meus livros no formato digital através do meu site (www.olgadedios.es), ali é possível ler meus livros e, se interessar, pode comprar. Esses downloads também me permitem chegar em contextos internacionais onde o mercado editorial não chega ou demora muito. Sei que meus livros são utilizados em aulas de países onde o mercado editorial não levou meus livros impressos ou que são muito difíceis de conseguir. Esta é a minha forma de defender a cultura livre, minha intenção é apoiar outros modelos de produção cultural mais livres e menos hierárquicos, no qual leitores não sejam meros consumidores, mas que coparticipem de uma experiência coletiva baseada na livre difusão do conhecimento.

Você recebe informações dos professores sobre como o seu trabalho é utilizado em sala de aula? Como eles utilizam estes materiais? Imaginava que seu trabalho seria amplamente utilizado na educação?

Tanto nas minhas visitas a centros educacionais quanto na internet, estou em contato com muitas pessoas que trabalham em ambientes educativos, seja em escolas, bibliotecas ou associações. São pessoas que retroalimentam meu trabalho, porque vão muitas vezes além dos meus livros e isso é muito motivador. Agora levo em consideração seus apontamentos ao fazer o meu trabalho. Por exemplo, eu sou muito mais realista nos desenhos de espécies de animais e vegetais porque sei que isso permite que professores utilizem os desenhos em sala de aula. No meu site, é possível baixar gratuitamente materiais que professores me pediram para usar em sala, ali também é possível ver blogs criados pelos educadores para compartilhar o uso que fazem dos meus materiais. Esse tipo de publicação criada pela e para a comunidade educacional são enriquecedoras para mim como criadora de conteúdo.

Qual a relação da educação e seu trabalho? Há algo na sua relação pessoal com a educação que impacta no valor educacional que encontramos nos seus livros?

Entendo meu trabalho como uma expressão artística e, portanto, é um fator de socialização como o são as produções artística e culturais. Faço um esforço para gerar conteúdos com qualidade artística que transmitam valores que são importantes para mim. Sem dúvidas é um reconhecimento que meu trabalho seja utilizado para trabalhar alguns desses assuntos em espaços educativos. Gosto muito também que sejam utilizados espaços informais como dentro das famílias para debater e falar sobre emoções, pois é um lugar considerado menos educativo, mas nos quais os meus livros são muito utilizados. No que diz respeito à minha experiência, tenho aprendido e continuo aprendendo muito tanto dentro quanto fora das salas de aula.

Algum professor marcou sua trajetória?

Sempre gostei muito de aprender, estudei diferentes disciplinas e continuo estudando até hoje. Atualmente estou estudando na área de design gráfico. Desde a minha infância, os professores me marcaram e me transmitiram confiança e liberdade que embasaram meu pensamento livre.

Em seus livros, notamos um apurado uso da cor com o contraste acentuadamente gráfico para potencializar a ilustração. Como você pensa nas cores de suas obras?

Dentro da ilustração entendo a cor como uma ferramenta de comunicação. Eu a utilizo para reforçar a mensagem que quero transmitir nas minhas ilustrações e seu uso vai mudando. Há ilustrações que utilizo muitas cores e contrastes para gerar imagens chamativas, em outros momentos utilizo a cor para centralizar a atenção em uma parte da narrativa ou, inclusive, em alguns momentos utilizo a cor como um elemento conceitual. No caso do Monstro Rosa, a escolha da cor rosa está relacionada aos estereótipos de gênero. Minha ideia era transgredir atribuições do rosa na nossa sociedade e abrir outras possibilidades. O uso da cor depende de cada obra, gosto muito de trabalhar com a cor e busco extrair o maior proveito delas.

* entrevista originalmente em espanhol, tradução livre para o português.

Fonte: Nova Escola

Feira de Literatura de Taubaté homenageará a personagem Narizinho

Flit acontece entre os dias 17 e 23 de setembro, na Avenida do Povo. (Foto: divulgação)

O personagem principal da Feira de Literatura de Taubaté – Flit – deste ano é a Narizinho, com o tema “Reinações na Terra de Lobato”. O universo lúdico e feminino da menina Lúcia, apelidada de Narizinho, será levado para a Avenida do Povo na edição 2018 da Flit, que acontece de 17 a 23 de setembro.

O tema está sendo abordado desde o início do ano nas escolas municipais e será o eixo central das apresentações da feira.

A Flit contará com a presença das principais editoras do país, que vão apresentar milhares de títulos infantojuvenil. A praça de alimentação com os mais diversos e saborosos foodtrucks também está confirmada.

MUNDO NERD E GEEK – Já pensou tirar a Narizinho do Sítio do Picapau Amarelo e levá-la para aventuras dentro de um videogame ou aprender a desenhar seus personagens favoritos do Sitio do Picapau Amarelo?
Isso vai ser possível no espaço Nerd/Geek que a Flit vai oferecer este ano.
Além das contações de história, teatro, palestras e shows, as escolas Imago – Academia de Arte e Design e SuperGeeks, estarão com um stand no local oferecendo várias atividades.

Para quem gosta de desenhar, a Imago irá ministrar oficinas de: desenho Pixel Art; quadrinhos; mangá; criação de Cosplay; modelagem; criação de personagem; e concept personagens Monteiro Lobato.

Já para os fãs de programação e jogos a SuperGeeks irá ministrar oficinas de: criação de jogos 2D; robótica e programação no Minecraft.

Além de tudo isso, no dia 22 de setembro (quinta-feira), às 18h, será realizado um concurso de Cosplay que vai transformar a área coberta da Avenida do Povo num grande palco dos principais heróis e vilões dos filmes e desenhos animados do universo infantojuvenil.

Tudo isso e muito mais você pode acompanhar na página do Facebook da Flit e no site www.flit.taubate.sp.gov.br.

Fonte: Portal R3

Coleção de clássicos da literatura foi embirão para Vaga-Lume

Editora fez ‘testes’ lançando experimentalmente “Coração de onça”, de Ofélia e Narbal Fontes, e “Éramos Seis”, de Maria José Dupré

Um dos criadores da série Vaga-Lume, Jiro Takahashi afirmou ao Liberal que a Editora Ática já publicava, desde 1969, a Série Bom Livro, de clássicos brasileiros e portugueses, voltada ao público infantil e juvenil. Dentro desta coleção, lançou experimentalmente “Coração de onça”, de Ofélia e Narbal Fontes, e “Éramos seis”, de Mari José Dupré, que tiveram o mesmo desmpenho dos clássicos e foram o mote para a criação da Vaga-Lume, que englobou autores contemporâneos e o mesmo tipo de público leitor.

Editor conta que “pré-estreia” da série teve início em 1969

“Para um trabalho de sensibilização interna da editora, criamos dois concursos internos: um para o nome da coleção e outro para o layout da série. Estabelecemos uma parceria duradoura com alguns grupos de professores para criar uma ponte segura com os estudantes e a prática de leitura extra-classe. Essa parceria implicava principalmente indicação e parecer de livros, e elaboração de suplementos de leitura, que vinham substituir as velhas fichas de leitura, com uma  proposta lúdica e interativa com os jovens”, detalhou Takahashi, que é mestre em Letras pela USP (Universidade de São Paulo).

Embora a Ática não divulgasse números, Jiro Takahashi estima que já tenham sido vendidos seis milhões de cópias de “A Ilha Perdida”, também de Maria José, um dos grandes sucessos da coleção, relançado no primeiro ano dela, em 1973 – inicialmente, a obra foi lançada em 1944, pela editora Brasiliense.

Depois foram chegando outros grandes autores, como Lúcia Machado de Almeida, Homero Homem, e outros novos, como jair Victória, Marçal Aquino, Luiz Puntel e José Maviael Monteiro, lista Takahashi. “Durante os anos 1980, o autor que teve os livros mais vendidos entre os jovens foi Marcos Rey, autor de ‘O Mistério do Cinco Estrelas’, ‘Um Cadáver Ouve Rádio’ e ‘O Rapto do Garoto de Ouro’, revela Takahashi.

Fonte: O Liberal

Personagens negros e asiáticos protagonizam apenas 1% dos livros infantis

A representatividade é um assunto que vem sido pautado cada vez mais em diversas áreas. mas, segundo uma pesquisa inglesa, o tema ainda é pouco presente no universo infantil.

De acordo com o Arts Council England e o Centro de Alfabetização no Ensino Primnário, apenas 1% dos livros infantis têm como protagonistas personagens negros, asiáticos ou de quaisquer outras minorias étnicas.

A pesquisa afirma que, em 2017, foram publicados 9.115 livros e apenas 391 deles tinham algum desses personagens como principais na história. Outro ponto abrodado por eles é o de que, quando presentes, os personagens representavam papéis estereotipados.

“Devemos investir nossas energias na variedade de realidades presentes em nossas salas de aulas e garantir que isso se traduza nas páginas dos nossos livros. A representação nos livros infantis é importante para todas as crianças. A falta de diversidade impacta na forma como os jovens leitores veem a si mesmos e ao mundo ao seu redor”, comentou o diretor do estudo, Farrah Serroukh.

Fonte: Universa

Barcarola de Arrullos: Livros para crianças imigrantes

A Equipe de Base Warmis – Convergência das Culturas em parceria com a Ação Cultural e a Biblioteca Infantojuvenil do CCSP inaugura estante de livros em línguas estrangeiras para crianças imigrantes e livros em português sobre diversidade cultural e migração.
São livros novos oferecidos por instituições e editoras parceiras, através da Warmis, e também títulos que já faziam parte do acervo da biblioteca infantojuvenil.
Como parte da programação de inauguração, haverá roda de leitura e contação de histórias.

PROGRAMAÇÃO

16h00 – Apresentação da estante e do projeto.
16h30 – Roda de Histórias – com Elizabeth Suarique Gutiérrez, membro da Warmis, professora e mediadora de leitura e escrita. Mestre em História da literatura pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG (2015). Possui experiência no âmbito do trabalho comunitário e cultural. Também construiu sua trajetória no âmbito da coordenação de projetos para formação de docentes e bibliotecários em processos de leitura e escrita.

17h00 – Contação de Histórias – De seu amplo repertório, será realizada uma contação de histórias sobre o escritor Monteiro Lobato, no ano em que se completam 70 anos de sua morte. Com Cia. Hespérides, formada pelas pesquisadoras e contadoras de histórias Drika Nunes e Vanessa Meriqui, a companhia é especializada em mitos e lendas de todo o mundo.

Local: Biblioteca Infantojuvenil

A imagem da capa corresponde à pintura de Keith Mallet chamada “Loving embrance”.

Mais informações: https://www.facebook.com/events/1925662917733988/

Exposição “O Mundo das Maravilhas de Monteiro Lobato” é atração nas férias em São Paulo

Com entrada gratuita, exposição na Biblioteca Monteiro Lobato terá três ambientes repletos de personagens do Sítio do Picapau Amarelo

A Secretaria Municipal de Cultura inaugura em 1º de julho a exposição “O Mundo das Maravilhas de Monteiro Lobato”, concebida para homenagear o criador do Sítio do Picapau Amarelo e um dos principais autores da literatura brasileira. Como a data também é o início das férias escolares, esta exposição é uma opção de cultura e lazer para crianças e jovens neste período. A entrada é gratuita.

Criada pelo secretário municipal de Cultura, André Sturm, esta é uma exposição para toda a família. As crianças vão se divertir adentrando este universo colorido e os adultos voltarão a ser crianças.

Monteiro Lobato introduziu crianças e adultos à leitura e as adaptações da sua obra para a televisão fizeram com que os personagens ficassem ainda mais conhecidos do grande público, de geração a geração. Nossa expectativa é que pessoas de todas as idades possam adentrar nesse universo mágico relembrando este autor que foi tão importante para a Literatura Brasileira”, ressalta Sturm.

O público será recepcionado por um corredor colorido com os tons do arco-íris na entrada da biblioteca, como um portal que dará acesso às duas salas no andar térreo. Neste primeiro ambiente, o público encontrará um livro pop-up em grande escala com personagens do Sítio do Picapau Amarelo como Narizinho, Emília, Pedrinho e Dona Benta, oferecendo uma experiência imersiva.

Confira a divisão dos ambientes

  • Túnel do Pirlimpimpim – A marquise que liga a entrada da praça à biblioteca é transformada em um túnel colorido, cujo teto vai diminuindo de altura para dar a sensação de que o público está ficando pequeno, voltando a ser criança.

  • Sítio do Picapau Amarelo – Um gigante livro pop-up aberto, no qual o público pode entrar no sítio de Lobato e interagir com seus personagens. Confeccionados em madeira bidimensional, saltando das páginas do livro, personagens como Narizinho, Emília e Pedrinho têm o tamanho de uma pessoa real, assim como o cenário.

  • Livros expositivos – No foyer da biblioteca, cinco livros gigantes, abertos na vertical, servem como espaço expositivo sobre a vida e a obra do autor.

No próximo dia 4 de julho, completam 70 anos da morte de Monteiro Lobato e o objetivo da exposição é reviver seus grandes momentos literários por meio de suas obras, expostas em grande formato, além de homenagear seu legado e sua contribuição para a literatura e cultura nacional.

Sobre Monteiro Lobato

Nascido em Taubaté, interior de São Paulo, Monteiro Lobato é criador de personagens como Narizinho, Pedrinho, a boneca de pano Emília e o sabugo de milho Visconde de Sabugosa, entre outras figuras fascinantes da literatura infantil brasileira. Desde a publicação de seu primeiro livro infantil, A Menina do Narizinho Arrebitado (1920), o escritor se inspirou em histórias folclóricas brasileiras, mitologia grega e contos de fadas, entre outras referências.

Em 1916, começou a carreira como jornalista e, no ano seguinte, publicou seu polêmico artigo “Paranoia ou Mistificação?”, no qual criticava a influência das vanguardas europeias no trabalho da pintora Anita Malfatti, em nome do ideal da construção de uma estética nacional, sem estrangeirismos. Em 1918, fundou a primeira editora brasileira de livros, antes impressos em Portugal. Ao longo de sua carreira, Lobato publicou e traduziu obras clássicas da literatura infantojuvenil mundial, mas foi com o seu trabalho de escritor que ele se destacou, produzindo 26 títulos infantis.

Serviço

Exposição “O Mundo das Maravilhas de Monteiro Lobato”.
Biblioteca Monteiro Lobato. Rua General Jardim, 485 – Vila Buarque. Abertura: dia 1º de julho, das 10h às 19h. Visitação: de 2 de julho a 1º de dezembro de 2018, de segunda a sexta, das 8h às 18h. Sábados das 10h às 17h e domingos das 10h às 14h. Entrada Gratuita. Livre.
Como chegar: Estações de metrô mais próximas: República (Linha Vermelha) e Higienópolis-Mackenzie (Linha Amarela).

Fonte: Prefeitura de São Paulo

Qual a importância da leitura literária na infância?

A professora Cristiane Tavares, coordenadora do curso de pós-graduação “Livros, crianças e jovens: teoria, mediação e crítica”, comenta o valor da literatura na formação crítica das crianças

(Foto: Antônio Cruz/ Agência Brasil)

A leitura literária é importante na infância por vários motivos, mas vou citar quatro razões que considero essenciais. Pensando especificamente na primeira infância, podemos dizer que a leitura literária – aqui entendida de modo amplo, incluindo textos produzidos oralmente, como canções, cantigas de ninar, parlendas, trava-línguas – é uma das primeiras experiências de comunicação poética que a criança tem, o que pode proporcionar sensações de bem-estar e fortalecimento da subjetividade importantes para o desenvolvimento emocional, por exemplo, além de desafios cognitivos lúdicos, considerando-se que a comunicação poética convida a um instigante jogo com o sentido das palavras e com os sentidos da percepção.

O ritmo do texto poético falado ou cantado, a sonoridade das palavras, a constância de um determinado timbre de voz e suas entonações comunicam sentimentos específicos e ampliam a capacidade de percepção e interação da criança, inclusive em se tratando de bebês. É por isso que, mesmo em contextos em que o livro como objeto está ausente, mas a palavra literária é de alguma forma criada e compartilhada oralmente, podemos dizer que há leitura literária porque há uma interação marcada pela intenção de se comunicar de forma singular com a criança, tendo a palavra poética como principal recurso. Além disso, avançando um pouco mais, a leitura literária na infância é necessária para garantir o acesso da criança à cultura escrita, sobretudo, o acesso à cultura escrita em sua expressão artística. 

A leitura literária pode ser, por exemplo, um dos primeiros contatos da criança com uma obra de arte, se considerarmos a literatura como linguagem artística. Essa imersão na cultura escrita adquire ainda mais valor, pensando-se no que ela pode proporcionar socialmente. Integrar uma comunidade de leitores, desde cedo, mesmo antes de saber ler convencionalmente, pode ser uma experiência coletiva extremamente formativa: ouvir a leitura de um adulto, falar sobre os livros, discutir preferências e pontos de vista, buscar sentidos implícitos, construir e validar interpretações de forma partilhada são experiências que a leitura literária pode proporcionar.

O direito à fabulação, como nos ensinou o mestre Antonio Candido, é mais um aspecto que torna a leitura literária tão necessária, desde a infância. Fabular ou buscar modos simbólicos de compreender e recriar a realidade é condição para o desenvolvimento humano porque permite encontrar formas cada vez mais elaboradas de compreensão de si, do outro e do meio social em que se vive. A leitura dos chamados contos maravilhosos e das narrativas míticas, que tanto atraem as crianças, são meios potentes de exercitar a fabulação. Por fim, uma quarta razão que torna a leitura literária na infância necessária é a experiência de alteridade que ela proporciona (tão em falta no tempo que vivemos!), ou seja, a capacidade de se colocar no lugar do outro, de estabelecer uma relação de empatia e respeito com outras experiências humanas, em distintos contextos culturais. Como diz a espanhola Teresa Colomer, especialista em literatura infantojuvenil, a literatura nos permite “ser outro, sem deixar de ser a gente mesmo”.

Cristiane Fernandes Tavares é mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP (2005) e graduada em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, atualmente coordena o curso de Pós-Graduação “Livros, crianças e jovens: teoria, mediação e crítica”, no Instituto Vera Cruz – SP

Fonte: Painel Acadêmico

Uma criança é um livro sendo escrito

A literatura infantil deve levar em conta o universo em expansão de seu leitor, que faz uso da criatividade para existir no mundo, nutrindo-se de ritmo, espaço e tempo, enquanto se constrói

Quem quer escrever para criança precisa consultar a criança dentro de si. Esse tipo de escrita, em Goiás, vem crescendo de uns 15 anos para cá, porque houve maior interesse das escolas pela produção local

O que é uma criança? É muito mais que um prefácio de adulto. A criança é um livro sendo escrito, um livro que já traz consigo os próprios procedimentos criativos, de ritmo, figuras de linguagem, tensão dramática, riso e luz, espaço e tempo. Uma criança são muitos personagens que se olham e agem. É um livro que qualquer autor precisa ler para depois escrever o seu, olhando para dentro e ao redor de si mesmo.

Até quando se quer escrever numa linguagem distanciada de adulto, é preciso consultar a criança dentro de nós, ligar a máquina do tempo e buscar o ser primoroso da criação, dizem alguns escritores. É imperioso consultar a esplêndida e régia riqueza, “esse tesouro de recordações”, diz Rainer Maria Rilke. Tem-se de recorrer à infância, aconselha Milton Hatoum, porque a criança guarda a chave da emoção pura, a emoção verdadeira, aquela que deve ser pescada no rio de sentidos do adulto.

A criança se interessa por tudo, desde que os códigos estejam alinhados a sua alta capacidade voltaica de assimilação, porque uma criança é tudo, são cinco sentidos determinados a construir um mundo, tentáculos da percepção pescando significados, criando, desfazendo, recriando, malabares de imaginação, filósofos do lúdico.

Não é à toa que a criança é comparada ao filósofo. É porque mantém a alma acesa diante do mundo, absorvendo-o e se espantando com o que o mundo oferece. Toda a obra de Monteiro Lobato se apoia nessa premissa. Tudo que os personagens fazem é se aventurarem, admirantes e atuantes, pelas correntes de fenômenos, de invenções, de criações maravilhosas, da mitologia grega ao folclore brasileiro, discutindo questões fundamentais como poder, amizade, amor, inveja, medo, opressão, liberdade, vida e morte.

Não é à toa que entre os personagens mais fascinantes de Lobato estão dois bonecos, um dotado de saber erudito, carregado de leituras, e outra que é pura sagacidade intuitiva, capaz de roubar o fogo dos deuses para insuflar na alma humana, só por diversão e desafio. Os dois, Visconde de Sabugosa e Emília, não deixam de ser dois filósofos, cada um a seu modo, um do lado de Apolo, outro do lado de Dioniso.

Ambos não só se espantam com o mundo e o questionam, como nos fazem espantarmo-nos também, e por isso nos encantam. Por isso as crianças são fascinadas por eles, porque são seus iguais.
O escritor norueguês Jostein Gaar­­den, esse viking conquistador de imaginários, disseminador de sonhos, escreveu um livro intitulado “O Mundo de Sofia”, em que um misterioso professor de filosofia diz à adolescente Sofia que assim como as crianças o filósofo “jamais se acostuma com o mundo”, porque o mundo é “algo novo, que causa estranhamento”, e ambos se entregam a ele com a alma aberta.

As crianças se encantam com o mundo é assim, como filósofos espontâneos. Como quando uma certa Penélope, uma menina que conheço muito bem, observou o balão e disse “o balão estoura porque se assusta”, e entre o espanto e a intriga também perguntou “a tartaruga tem bochecha?”.

Não é à toa que Marcelo, personagem de Ruth Rocha, fica espantado com o mundo e seu funcionamento, e por isso questiona a chuva, o mar, os animais, as palavras e as coisas, as atribuições de sentidos, porque naquele momento ele mesmo quer construir o seu próprio universo semântico, enquanto vai entendendo a complexidade das convenções humanas.

Elaborações

Compreender a qualidade plural do mundo interior de uma criança é uma aula. Uma criança é capaz de qualquer coisa, como o menino do livro de Cláudia Machado, “A Invenção de João”, que foi inventando os artifícios da existência até que aprendeu a gostar da vida.

Quando uma criança sonha, a cidade se alegra, como no livro “O Movimento das Cores”, de Yêda Marquez, em que dois irmãos, no meio de uma noite chuvosa, veem latas de tintas caírem no chão e o líquido escorrer pelas ruas de Goiânia. Eles correm atrás e observam uma cidade cinza, que deve ser pintada, e na aventura descobrem os pintores goianienses.

Ao mesmo tempo que é elaboradora de mundos, a criança também é uma esponja que suga com facilidade os mundos já criados, elaborados ou remodelados pelos adultos, pelos valores sociais, pelas relações intersubjetivas.

Neste sentido, os preconceitos são dispositivos que entram na alma e se instalam, e a literatura pode ajudar a criança a combatê-los e a descobrir novas maneiras de elaboração do mundo ou de se relacionar com o que já existe, como a garotinha, personagem de Valéria Belém no livro “O Cabelo de Lelê”, que descobriu no seu cabelo os fios que tecem sua própria identidade e a riqueza que é a cultura de seus ancestrais.

Herança

A história da literatura infantil no Bra­sil chega ao seu centenário agora nas primeiras décadas do século 21. Segundo Laura Sandroni, no livro “30 Anos de Literatura para Crian­ças e Jovens”, organizado por Eliza­beth D’Angelo Serra (Mercado de Letras, 1998), nas duas décadas iniciais do século 20 surgiram os livros pioneiros para crianças de autores brasileiros, como “Através do Brasil”, de Manoel Bonfim e Olavo Bilac, e “Contos Pátrios”, de Bilac.

Mas nessa época, a maioria da publicação para esse público ainda era traduzida. Foi José Bento Monteiro Lobato que mudou as feições da literatura infanto-juvenil para sempre no país do Jeca Tatu.

Ao avaliar a qualidade dos livros traduzidos, Lobato teria dito em carta a um amigo: “Pobres crianças brasileiras! Que traduções galegais! Temos de refazer tudo isso – abrasileirar a linguagem.” Obvia­mente, ele fez mais do que isso, ao publicar “A Menina do Narizinho Arrebitado”, em 1921, dando início à verdadeira tradição da literatura para crianças e jovens no Brasil, deixando uma herança que até hoje forma escritores, como todas as autoras goianienses entrevistadas pelo Jornal Opção para a reportagem a seguir (páginas B2 e B3).

Fonte: Jornal Opção

Novo formato do Prêmio Jabuti – 60 anos desvaloriza a literatura para crianças e jovens

Em sua coluna, Volnei Canônica fala sobre a reformulação feita pelo Prêmio Jabuti e principalmente sobre a junção das categorias infantil e juvenil

A 60º edição do Prêmio Jabuti, lançada em 15 de maio apresentou um novo formato do prêmio. Nessa reformulação, necessária, e isso precisa ser admitido, o número de categorias diminuiu de 29 para 18, e ainda foram suprimidos, em todas as categorias, o segundo e o terceiro lugar. Todos do mercado editorial, apesar de adorarem receber sua estatueta e figurar nas redes sociais segurando o Jabuti, achavam as cerimônias longas e cansativas. O que deveria ser uma confraternização entre o mercado editorial, acabava por se tornar um chá de cadeira, em cerimônias que se arrastavam por mais de 3 horas.

O Jabuti ficou mais magro, mais slim, mas diferentes áreas do mercado reclamaram das mudanças. Algumas não se sentiram contempladas. Outras viram nisso uma perda e por aí vai. Mas a área mais atingida foi a da Literatura Infantil e Juvenil. Justamente a área responsável por formar novos leitores deste segmento essencial em si, e, além disso, segmento dos futuros consumidores da chamada “literatura adulta”. A Literatura Infantil e Juvenil, em edições anteriores, figurava em duas categorias separadas e ainda havia uma categoria específica para avaliar a ilustração, agora deslocada para “o caráter técnico” dentro do Eixo Livro.

Além da diminuição das categorias, a nova edição resolveu agrupar as 18 categorias em 4 eixos: Literatura, Ensaios, Livro e Inovação. Com todas essas mudanças, para facilitar o entendimento na hora da inscrição, a Câmara Brasileira do Livro (CBL) colocou os critérios de avaliação no corpo do regulamento do prêmio, anteriormente era sempre um anexo. Isso me faz acreditar que há muito tempo as pessoas não liam o regulamento. As mudanças deixaram mais evidentes os critérios de avaliação e os próprios conceitos do regulamento, muito obsoletos não representando os avanços, e muito menos refletindo os estudos acadêmicos e discussões da área.

Desde o lançamento da nova edição, um grupo de mais de 300 artistas que trabalham com ficção visual e escrita para crianças e jovens se fizeram representar nas redes sociais e criaram um movimento para discutir essas mudanças. O engajamento da área mostra a preocupação de um grupo que percebe o impacto desse retrocesso dentro do mercado, com a imposição desse novo formato do Prêmio. Uma carta-manifesto foi assinada por nomes já agraciados com o Jabuti, como Ziraldo, Roger Mello, Maria Valéria Rezende e João Anzanello Carrascoza e enviada à CBL no dia 26 de maio. O conteúdo do manifesto sugeria a proposta de um encontro com a CBL e o curador para discutir três pontos: a) junção das categorias infantil e juvenil; b) categoria ilustração infantil e juvenil (narrativa visual artística) ter sido alocada para a categoria ilustração no eixo Livro (dentro do caráter técnico, e portanto, não criativo) e c) critérios dogmáticos de avaliação.

O encontro aconteceu na terça-feira da semana passada, dia 05 de junho. A solicitação da CBL era a presença de apenas três pessoas representando o grupo de mais de 300 artistas. Com o aval dos 300 artistas, uma comissão menor representada por mim, Renato Moriconi e Aline Abreu conversou com Luís Antônio Torelli (Presidente da CBL), Fernanda Gomes Garcia (Diretora-Executiva da CBL), Luiz Armando Bagolin (Curador do Prêmio Jabuti) e Evelina Fyskatoris (Comissão do Prêmio Jabuti – CBL). Dos três pontos acima, a CBL concordou em repensar somente os critérios de avaliação dogmáticos, solicitando ao grupo a sugestão de novos critérios.

Por ter participado ativamente desse processo de discussão, ouvindo todas as partes e, acreditando e respeitando na CBL como entidade importante e representativa da área, essa coluna tem a pretensão de chamar atenção para questões ligadas a Literatura Infantil e Juvenil, de como as mudanças do Prêmio Jabuti impactam o trabalho de artistas, editores, promotores de leitura e principalmente, afetando os leitores e a leitura.

Junção das categorias Infantil e Juvenil em uma única categoria

Segundo Bagolin, curador e responsável por pensar essa estruturação do prêmio, o projeto original “excluía” a categoria Juvenil, argumentando que os jovens já podem ter acesso aos diferentes gêneros literários e temas de livros dedicados ao público adulto. Bagolin cita o conceito desse novo nicho editorial americano chamado young adults. Mas quando o projeto do novo formato do Prêmio Jabuti foi apresentado para as diferentes comissões da CBL, algumas pessoas defenderam que não fosse suprimida a categoria Juvenil e que ela fosse agrupada na categoria Infantil.

Ao meu ver, as duas categorias jamais poderiam estar juntas e concorrer entre si, elas possuem conceitos, estruturas específicas e desenvolvem comportamentos leitores distintos.

Diferente das outras categorias do prêmio, cuja avaliação é realizada por gêneros literários ou processo de produção das obras, na literatura infantil e juvenil estamos falando de público. É este o grande “pulo do gato”, que parece ter passado despercebido pela organização do prêmio. Estamos formando público leitor. Público que poderá transitar em todos os gêneros da ficção e da não-ficção.

Sabemos que público infantil e juvenil são diferentes. Que precisamos usar linguagens diferentes para dialogar com cada um. Os setores de comunicação, divulgação ou marketing das editoras sabem muito bem essa diferença de público. Mas não vou discutir o lado promocional e sim o lado da arte, da fruição e da formação de leitores.

Compartilho aqui o que penso como especialista e estudioso da área e como promotor de leitura que convive com o processo de desenvolvimento do leitor, sabendo da diversidade e dificuldade dos cenários, de cantos variados do Brasil.

– A literatura para crianças entende o livro infantil como um suporte que garante uma interação estreita entre a narrativa visual, a narrativa verbal e o projeto gráfico. O livro para as crianças explora o imaginário propondo uma experiência estética e de fruição em que o formato do livro estabelece pausas, velocidades, deslocamento do olhar de forma linear e não linear, construindo diferentes movimentos de leitura com a virada de páginas. Livros que trabalham o virar das páginas da direita para a esquerda, de baixo para cima, da esquerda para a direita, de cima para baixo, livros do tipo leporelo (sanfona), pop ups, com furo no meio, etc. Livros que estabelecem diferentes oportunidades no “jogar” com o leitor. Sempre um livro de artista, entendendo que o objeto livro é o primeiro museu da criança. Um livro que se preocupa com alfabetização da palavra e da imagem. Sim, da imagem! As crianças precisam ter acesso a um processo de alfabetização da imagem, criando diferentes referências, tendo acesso a diferentes traços, técnicas, materiais e artistas. Construir um repertório para ler diferentes narrativas visuais e poder superar as imagens estereotipadas dos livros didáticos, dos programas infantis da televisão, dos produtos comerciais impostos a esse público.

– Na literatura para jovens, o leitor é percebido como alguém que já teve acesso a um repertório de experiências com a literatura infantil e constrói um processo diferenciado, em se tratando de camadas da narrativa, com outros tipos de personagens, enredos estruturados de maneiras distintas, com ampliação de vocabulário, com temas variados que conversam com situações e questões pertinentes à adolescência. A ilustração, ou narrativa visual, pode ou não estar presente nesses livros, e algumas vezes, aparece mas não ocupa o mesmo espaço da palavra na obra. O projeto gráfico continua sendo muito importante, convidando o olho do leitor a persistir num texto com mais fôlego, pensando a gramatura e a textura do papel, enfim, infinitas as questões envolvidas na concepção gráfica, no envolvimento do leitor. A leitura, ao contrário do que muitas vezes se diz, não é um processo fácil e combina muitos fatores para que o leitor não desista no meio do caminho. O leitor jovem está no momento em que, de modo mais expressivo, se apresentam diferentes gêneros literários como crônica, romance, novela e poesia, com características e desafios específicos.

– Entendendo essas diferenças, o comportamento leitor e o cenário da educação e da cultura no Brasil – sim, é fundamental não esquecer a realidade de cenários que são estruturantes para desenvolver leitores – não podemos fazer mais uma vez as cansativas comparações com jovens americanos e muito menos com o comportamento desse público em se tratando da democratização da leitura. Portanto, o argumento de que nossos jovens leitores passariam, de forma natural, da literatura infantil para a literatura adulta, não se sustenta. Sabemos que é necessário aos leitores brasileiros esse processo contínuo de desenvolvimento do leitor crítico onde a literatura chamada juvenil é por si só legítima, além de ser o caminho para continuarem leitores na vida adulta.

– Sabemos ainda que os jovens estão lendo mais a cada dia e frequentando bienais, feiras e eventos literários. Também é do conhecimento de todos que o mercado brasileiro destinado a esse público abriu as portas para os best-sellers internacionaisinvestindo em sua promoção, relegando a segundo plano artistas brasileiros que se dedicam a literatura para jovens. Temos importantes autores como Lygia Bojunga, Marina Colasanti, Caio Riter, Stella Maris Rezende, João Carlos Marinho, Ondjaki e tantos outros que estão perdendo espaço nas editoras, nas livrarias e nas bibliotecas do país. Cabe a instituições como a CBL ajudar a equacionar esse mercado e investir mais na divulgação da nossa literatura juvenil de qualidade no Brasil e no exterior.

– Uma das novas exigências dessa edição do Jabuti é que os livros sejam enviados em pdf para uma plataforma eletrônica. Em se tratando de literatura infantil (principalmente) e juvenil, conforme falamos acima, o objeto livro, em diferentes dimensões e formatos, é a plataforma (física) fundamental para se pensar as diferentes narrativas. Enviar o livro em pdf para ser lido pelos avaliadores, significa ignorar a influência da materialidade desse objeto no comportamento leitor e no impacto, na influência que o objeto livro exerce no processo de fruição. Receber os livros infantis e juvenis em pdf nos aproxima mais dos rolos de papiro do Egito Antigo que das tecnologias de nosso tempo, um anacronismo. A leitura da tela do computador está mais para rolo de papiro e pergaminho que para o códice, o feixe de páginas – estrutura complexa, constituindo a maioria dos livros atuais. Então, sabemos que a avaliação dos jurados, principalmente em se tratando dos livros infantis (e não só dos infantis), estará prejudicada e comprometida pela transposição do suporte. Ironia é pensar que os mesmos representantes do mercado editorial, que diz valorizar o suporte passa a dar um prêmio ignorando a materialidade do mesmo suporte, justificando fazê-lo por questões logísticas e financeiras.

– Além dessa dificuldade com a leitura em forma de pdf, o júri da categoria infantil e juvenil terá a dificuldade de comparar o incomparável. Não existe como julgar livros infantis e juvenis juntos. É muito provável que o júri deste ano se encontre num impasse ao ter de decidir por premiar produção editorial infantil ou juvenil, com a exclusão de uma das duas categorias como consequência. Essa é uma escolha que mostra que o novo formato do Jabuti 2018 prejudicará essa área. Uma área que detém uma grande fatia de mercado e tem no prêmio Jabuti um referencial de qualidade. Se estamos falando em formar leitores, precisamos alcançar literatura de qualidade para todos os públicos.

– Portanto, é urgente que a CBL reveja as mudanças do regulamento de 2018 para a área infantil e juvenil, sem repetir a desculpa de que as inscrições já foram lançadas ou de que não conseguem mudar a plataforma digital para separar as duas categoria. Uma forma fácil de viabilizar isso, ainda neste ano, é possibilitar a inscrição de editoras e artistas na mesma plataforma, indicando se o livro vai concorrer à categoria infantil ou juvenil. Depois disso, a CBL entregaria os livros que se inscreveram como infantil para um júri e os que se inscreveram para juvenil para outro júri. Teremos categorias separadas, avaliadas em sua complexidade e particularidade, recebendo a devida atenção. Ainda há tempo para consertar o erro.

– Separar infantil e juvenil não é somente uma atitude de quem estuda e reconhece esse público, mas de qualquer intelectual da arte, do livro, da educação. De quem entende o verdadeiro papel dos livros de ficção e não ficção para promover mudanças no país. Outra questão que a CBL precisa rever são os conceitos desse regulamento, propagando pensamentos ultrapassados já na década de 1980. Segundo o novo regulamento, a categoria infantil e juvenil está submetida ao eixo Literatura. O Prêmio Jabuti conceitua o eixo Literatura como: “eixo que contempla narrativas a partir da palavra escrita em versos ou em prosa, em diversos gêneros”. Fica clara a exclusão da narrativa visual, parte estruturante do livro infantil, nesse eixo. Um conceito excludente e ultrapassado de que o livro somente abarca a arte da palavra. Um eixo que contemplasse narrativas visuais e verbais em diversos gêneros não seria o correto?

– É importante salientar, tanto a literatura infantil como a juvenil prezando pela qualidade artístico-literária, levam em consideração um leitor também autor e, por isso, um ser filosófico que estrutura e ressignifica seus pensamentos, olhares e conceitos por meio da ficção.

O tema é amplo e precisa ser discutindo com cuidado. Apesar de não concordar com o termo “perícia técnica” dentro de um dos critérios de avaliação, vamos precisar olhar tecnicamente cada detalhe deste novo regulamento e seus futuros impactos. A coluna de hoje não pretende esgotar a discussão. Por isso, abordou principalmente a junção das duas categorias: infantil e juvenil. Mas precisamos seguir com a conversa. Na coluna de amanhã vamos falar sobre outros dois pontos importantes da reestruturação do Jabuti em 2018: categoria ilustração infantil e juvenil (narrativa visual artística) ter sido deslocada para a categoria ilustração – no eixo livro (desvalorizando o artístico) e os critérios dogmáticos de avaliação.

Nossa conversa continua amanhã!

[Nota da redação: na edição desta segunda-feira do Podcast do PublishNews, Volnei comenta sobre esse caso. Clique aqui para acessar o programete]

 

Fonte: PublishNews

Literatura infantil para pegar, virar, sentir…

Nas últimas décadas, o Brasil viveu uma revolução na parte gráfica dos livros, e os destinados especialmente às crianças ganharam muito com isso. Saiba como o material pode influenciar no convite à leitura

livro bebê criança (Foto: Thinkstock)
Quando falamos de estímulo à leitura, a palavra mais importante é diversidade (Foto: Thinkstock)

Era uma vez um grupo de crianças de várias idades que se viu diante de uma estante de livros meio maluca. De longe, já se observava uma imensidão de cores e tons, era impossível organizar o olhar. Quando elas foram chegando mais perto, viram que cada obra possuía um tamanho diferente: umas chegavam a passar dos 30 centímetros, outras não mediam mais que 10. Mais próximo ainda, perceberam que havia lombadas – aquele material que segura, cola ou costura as páginas – diversas: algumas em tecido, outras se diferenciavam da cor da capa do livro, umas finas, outras grossas. As crianças começaram, então, a querer mexer naquela coisa toda, a pegar mesmo.

Os bebês tentavam segurar, exploravam de todas as formas. As crianças maiores se prendiam aos tipos de ilustração (aquarela, carvão, lápis, colagens). Abriam, alisavam as folhas, voltavam para ver de novo e notavam que, dentro daqueles livros, além das histórias, havia um jeito especial de contar as histórias. Variavam os tipos de desenhos, de letras, de cores das páginas, de papéis; tinha até livro com buracos, abas para abrir e personagens presos dentro das dobras, ali no grampo que prende as páginas. Uma loucura de opções.

Afinal, quando falamos de estímulo à leitura, em qualquer idade, a palavra mais importante é diversidade. Desde bebê, a criança vai experimentando o mundo pelos sentidos. “Propor diversas experiências a elas, portanto, mostra que o livro também pode ser um caminho para conhecer o mundo. O material é importante, pois vai contribuir para que essa criança se sinta estimulada a conhecer outros títulos, uma vez que ele passa a ser objeto de curiosidade, de prazer e, claro, de pensar”, diz a arte-educadora Camila Feltre, mestre em artes na Unesp, professora do curso de pós-graduação O Livro Para a Infância d’ A Casa Tombada (SP) e autora do livro É Um Livro… ? Mediações e Leituras Possíveis (Ed. Cultura Acadêmica/Unesp).

Como escolher
Não é porque o livro é “bonito”, tem capa dura ou está cheio de abas, texturas ou cores que ele é bom. Seja um livro-brinquedo (os de plástico, para ler no banho; os de pano, para a criança manusear com mais segurança; os pop-up ou com abas, para adulto e criança brincarem e se surpreenderem na hora da narrativa), seja um livro informativo (com a prioridade de ensinar algo como números, letras e cores) ou seja um com “apenas” uma história, há várias maneiras de avaliarmos a qualidade de uma obra e, a partir daí, formar um ótimo repertório.

“Em um bom livro, nada que está ali é por acaso: formato, tamanho, técnica da ilustração, paleta de cores, fonte da letra. Tudo está para comunicar algo. Na hora de escolher, é importante atentar para essas possibilidades”, diz Denise Guilherme, mestre em educação e criadora de A Taba, empresa e site especializados em curadoria de livros. Sendo assim, já que as opções nas prateleiras são inúmeras, os pais devem se informar sobre as obras e ler indicações. Mas nada como o impacto que a leitura vai causar neles próprios.

Por isso, a dica é: experimente! Se ao longo dos anos o adulto, em geral, se desliga da materialidade do livro, quando se torna pai ou mãe tem a oportunidade de reencontrar esse prazer. Retornamos àquela sensação de aprender algo novo – não raro, porém, a gente se afoba na hora de “ensinar”. Qual a saída, então? Para a atriz, contadora de histórias e pesquisadora Letícia Liesenfeld, acima de tudo, é essencial que o adulto se conecte ao livro antes de apresentá-lo à criança. “Quando trabalhei em oficinas com famílias com bebês nas redes de bibliotecas em Portugal, a primeira coisa que eu pedia para as pessoas é que pegassem nos livros, examinassem pequenas falhas, cheirassem…”, diz. Em vez de ficar na frente da criança dizendo a ela como fazer, a especialista sugere que você vá por trás dela ou a coloque no colo. “Até para ensinar a pressão ideal para virar as páginas, algo que é bem complexo para os pequenos”, completa.

A variedade de materiais das obras é ainda maior quando o assunto é livros “só para bebês”. Nesse caso, não apenas por uma questão de segurança ou de capacidade motora e cognitiva. “Para eles, a materialidade é fundamental também por outro motivo: o literário se apresenta no corpo, nos sentidos. Aí entram a textura, a sonoridade, o manuseio da página. O formato traz autonomia narrativa, ou seja, o bebê se vê como leitor, mesmo com a mediação de um adulto”, diz a psicóloga Cássia Bittens, criadora do projeto Literatura de Berço e pesquisadora da área de Crítica Literária da PUC-SP.

Ela exemplifica esse conceito com o livro Uma Lagarta Muito Comilona (Ed. Callis), um clássico do norte-americano Eric Carle, que narra a história de uma lagarta que sai do ovo faminta e come uma maçã na segunda-feira, duas peras na terça, três ameixas na quarta e por aí vai até se empanturrar, engordar, virar casulo e, então, borboleta. A trajetória superconhecida do bicho acontece de forma diferente pelo tom de humor que textos e imagens oferecem, e também porque, na versão original (há mais de uma dezena delas pelo mundo), o autor deixa marcas do caminho da lagarta com furos que correspondem ao número de frutas. “Ao brincar com eles, o bebê está sendo ativo na leitura e, ao mesmo tempo, entrando no mundo da fantasia, que é o que o literário faz com qualquer um de nós [nos coloca no lugar do outro]. Para o bebê, isso acontece por esse meio concreto”, diz.

Por fim, vale lembrar que, seja cartonado, com números e cores, cheio de recursos de texturas ou feito “somente” para fácil manipulação das pequenas mãos, o livro para crianças também deve preservar a surpresa. Algo que pode vir do estranhamento, do riso, da aba que ora abre para cima e ora para baixo, da leitura que tem de ser feita de ponta-cabeça… O papel é o limite – ou melhor, não é.

Testando os sentidos

Para além do literário e do envolvimento com as histórias e seus jogos simbólicos, livros de diferentes materiais estimulam os cinco sentidos de crianças de todas as idades e os tornam familiares – especialmente no caso dos bebês

1. TECIDO – encontrados em maior quantidade em lojas de brinquedos artesanais, os livros com tecidos são fáceis de o bebê manusear e pegar, como os com velcro, por exemplo, oferecendo possibilidades de a criança brincar. Se não tiver nenhum item musical, pode até ser lavado!

2. PLÁSTICO OU BORRACHA – são amados pelos bebês porque podem tornar as brincadeiras na água, tanto no banho quanto nas pequenas piscinas no verão, ainda mais divertidas. Fáceis de pegar, provavelmente eles vão querer arrastar o objeto pela casa toda, pois são os mais leves de todos.

3. CARTONADOS – estes têm as folhas mais grossas e também dão autonomia mais rápido para o bebê conseguir imitar o adulto no ato de folhear. Escolha os arredondados nas pontas, que são melhores ainda para o manuseio. Mais pesados, vão provocar na criança pequena mais relações do livro com o espaço (como deixar bater no chão ou empilhar em um canto da sala). Sim, como os outros já citados, ela vai querer colocar na boca, atenção!

4. COM MÚSICA – como os brinquedos, a escolha da música ao toque estimula a noção de causa e efeito, além de distrair o pequeno em horas de apuros! O ideal é escolher com sons não muito altos, além de músicas suaves para que o estímulo não cause irritações desnecessárias (para o bebê e o adulto!).

5. COM TEXTURAS E BURACOS – os livros com tecidos ou cartonados podem oferecer diferentes texturas para as crianças exercitarem o tato, com pelinhos, papéis ásperos, barulhos extras que surpreendem, buracos que compõem formas etc.

6. COM POP-UP – abre a página e, pronto, algo “pula” (que, em inglês, significa pop-up) na frente do bebê. Quem não se encanta? Tanto que há livros assim também para colecionadores, como uma versão especial de O Pequeno Príncipe. É uma oportunidade de treinar a convivência com peças delicadas, mesmo que, para compreender isso, o seu filho tenha de rasgar as páginas, sem querer.

7. COM ABAS – há diversas opções no melhor estilo “abre e uma surpresa aparece”. O bebê vai querer repetir sem parar e quanto mais criativo e interessante, melhor!

8. COM DEDOCHES – estes, acima de tudo, servem para chamar a atenção na hora de ler ou narrar a história, com esse recurso divertido. Aos poucos, ele mesmo vai tentar “ser” o personagem também.

Fonte: Revista Crescer

Monteiro Lobato e a literatura infantil: uma entrevista com Pâmela Machado

Um dos enganos mais comuns é pensar que a literatura infanto-juvenil é algo simples e que não pode lidar com temas sérios. No Brasil, o maior nome da literatura infantil foi um autor complexo, engajado em diversas questões políticas e dedicado a pensar para Brasil um projeto nacional. Que é claro incluía livros.

A maior obra de Monteiro Lobato pode ter sido as histórias do Sítio e seus personagens, mas está longe de ser a única coisa que o autor fez. É justo que a data do nascimento do autor, 18 de abril, marque o Dia Nacional do Livro Infantil, mas ainda assim é sempre bom pensar na sua contribuição levando em conta toda sua complexidade.

É o que tentamos fazer nesta entrevista com Pâmela Machado, mestre em Ciência da Informação pela UFMG, com a dissertação “Netos de Lobato: modos de ler o Sítio do Pica-Pau Amarelo no século XXI”.

CML: Seria incoerente chamar um autor de clássico e questionar se sua obra ainda diz algo para o mundo contemporâneo. Mas Lobato também era um autor do seu tempo. Você vê algum problema dele continuar servindo de referência para literatura infantil? Quais aspectos os formadores de leitores devem estar atentos ao usarem as obras de Monteiro Lobato nos dias atuais para que ele não se transforme em uma armadilha?

PM: Lobato soube transitar por diferentes épocas e mentalidades em sua literatura infantil. Retornou às fábulas de La Fontaine e aos contos de fadas, trazendo-os para a sua literatura e adaptando-as aos seus leitores; contextualizou os leitores do momento histórico em que viviam e, de modo algum, se conformou com a realidade social, política, econômica e cultural em que estava inserido. Tudo isso contribuiu para que Lobato se tornasse um revolucionário no que se refere à formação de leitores no Brasil entre as décadas de 1920 a 1940. Conhecer sua obra hoje certamente nos permite verificar traços de um autor daquele período e ao mesmo tempo contemporâneo a nós. Tanto sua técnica narrativa, suas personagens e histórias, quanto sua motivação em escrever para crianças são referências fundamentais para a literatura infantil brasileira.

No que se refere aos cuidados que devemos ter, gosto sempre de enfatizar um assunto específico que considero dos mais importantes a ser tratado no que se refere à literatura infantil lobatiana. Antes de ser escritor, Lobato era um homem inserido em uma sociedade racista, situação que, infelizmente, não mudou muito de lá pra cá. Contudo, naquele período, se havia discussões a respeito do assunto, eram ainda incipientes. Não há justificativas para o racismo de Lobato, há apenas o fato de que traços deste racismo estão presentes em alguns de seus livros infantis e isso incomoda (e ainda bem que incomoda) as pessoas. Quando contextualizamos a obra de Lobato, não é na intenção de justificar seu erro, e sim de mostrar como nós estamos propensos a reproduzir os discursos do nosso contexto social. Exatamente isso aconteceu com Lobato e não pode continuar acontecendo conosco. Lobato estava ciente de suas contradições e as problematizava, como por exemplo, no final do livro “Memórias de Emília”, há o depoimento da boneca em que ela admite não dar o tratamento correto à Tia Nastácia. Há muito que ser discutido a este respeito, principalmente no que se refere à mediação de suas obras pelos “formadores de leitores”. Mediar é levar o leitor pela mão e mostrar as possibilidades de encontros com o livro. Mediar é mostrar que os livros existem; ler com e para os leitores, é estar pronto para falar sobre assuntos delicados. É importante que o mediador crie uma relação de cumplicidade com o leitor para que este sinta liberdade de dizer quando algum trecho que o incomodar. É responsabilidade do mediador (me incluo aqui) mostrar o que existe e estar pronto para conversar sobre qualquer assunto pertinente à literatura. Veja bem, esse caminho é totalmente contrário ao caminho do cerceamento. Caso contrário, sempre haverá uma forma de “fugir” do assunto ou tentar poupar o leitor de uma realidade que, infelizmente, existe e precisa ser evidenciada. Em contrapartida, nenhuma leitura deve ser imposta nesse sentido (apenas apresentada), cada leitor terá o seu tempo de descoberta.

CML: Recentemente, a fantasia  estrangeira tem conseguido grande influência entre leitores e escritores nacionais, ao ponto de criar uma impressão de que o gênero era ignorado no Brasil. Os livros do Sítio podem ser considerados obras de fantasia com elementos que encontramos em obras recentes como Harry Potter? Você acha possível trabalhar a obra de Lobato pensando nos aspectos típicos das produções de fantasia?

PM: A obra infantil de Lobato não se enquadra na literatura de fantasia e sim na maravilhosa e é possível verificar as diferenças entre elas. A literatura de fantasia apresenta um caráter épico e dentro de determinado universo é posta como algo natural, ou seja, a fantasia sendo considerada realidade. Ela exige um sistema fechado, uma lógica interna para os acontecimentos. Neste universo fantasioso, a magia funciona com regras como uma ciência. Enquanto que na literatura lobatiana  não há regras para a magia, o que há é um “faz de conta” que permite que tudo seja possível. As personagens podem qualquer coisa porque o limite que têm é o limite da mente humana, da criatividade (imaginação). Outra característica da literatura de fantasia está na abordagem rígida da sequência cronológica dos acontecimentos, por outro lado, nas narrativas do Sítio não é importante que se tenha uma linha temporal. O pó de pirlimpimpim, por exemplo, transporta as personagens de um lugar para outro, eliminando as barreiras temporais e espaciais. Ao mesmo tempo em que a personagem está no presente, ela pode se transportar para o passado ou as personagens do passado podem se transportar para o presente, sem que seja necessário qualquer tipo de explicação lógica. É notável o rompimento com as noções de tempo e realidade. Ainda há um terceiro aspecto importante de ser mencionado, a literatura de fantasia pode assumir uma faceta simbólica como,  por exemplo, nas Crônicas de Nárnia em que a fantasia é uma metáfora da realidade. Já em Lobato, quando, por exemplo, ele narra histórias em que Peter Pan está presente, ele não propõe uma metáfora do real. Lobato faz referências a muitas obras épicas, mas com o objetivo de aproximar essas obras das crianças, atenua seu caráter épico e o torna corriqueiro, cotidiano. Portanto, a literatura lobatiana não se enquadra na literatura de fantasia. Sua literatura infantil é construída a partir dos elementos do maravilhoso em que o real e o mágico, o normal e o extraordinário, o possível e o impossível se articulam com total naturalidade.

CML: “Eu sou a independência e a Morte”, disse a Emília. Talvez ela seja a personagem mais popular de Lobato, mas a sociedade brasileira tem presenciado recentemente muitos casos de censura a certas obras literárias e outras obras de artes baseadas em moralismos, nem sempre justificados. O que a Emília poderia nos ensinar sobre como reagir a essas situações? É possível a independência ou personagens como a Emília estão mais próximas da morte?

PM: Considero legítima toda crítica ou questionamento, desde que sejam abertos para discussões e avaliações. Em se tratando da literatura infantil lobatiana, compreendo que muitas críticas venham para nos fazer refletir a respeito dela e da sociedade em que estamos inseridos, afinal, a literatura está aqui para nos movimentar também e esse movimento pode acontecer a partir do incômodo que ela pode causar nos leitores, por que não? Levantar e trazer para os debates os aspectos com os quais não concordamos na literatura e na arte em geral é fundamental para o nosso próprio desenvolvimento como seres humanos, afinal, escritores/artistas são humanos e passíveis de erros como qualquer outra pessoa. As artes refletem o que os artistas acreditam e defendem. A pergunta é: somos nós quem devemos determinar o que outros devem ou não ler e apreciar?

Emília, com sua postura transgressora e radical, nos leva a refletir sobre sua existência (e da literatura). Sem dúvidas, ela revela seu posicionamento contrário a qualquer tipo de censura. Emília nunca aceitou ser silenciada e, sempre que criticada, tinha uma resposta da ponta da língua. Penso que se ela respondesse a esta pergunta, diria: “se a arte não está aqui pra ser livre, é melhor que nem exista”. No Sítio, nada é simplesmente ensinado sem que haja muitas perguntas e discordâncias por parte das crianças, o que considero muito saudável. E nenhum tipo de conhecimento é censurado. Até mesmo as atitudes das personagens (principalmente da Emília) que causam transtornos são permitidas, a fim de que elas aprendam com seus próprios erros. Um exemplo está no livro “Reforma da Natureza”, em que Emília decide mudar várias coisas na natureza, mas ao final percebe o quanto suas mudanças provocaram desequilíbrios. É certo que vivemos um período em que o politicamente correto tenta impedir qualquer tipo de reflexão e debate, impondo suas determinações, mas ouso acreditar que Emília (representando aqui todos os tipos de manifestações artísticas) não saberá o que é a morte definitiva, ainda que seja silenciada em alguns lugares e períodos. Ela representa a resistência e resistirá.

CML: Recentemente, um apresentador de televisão sugeriu que a política não deveria fazer de parte de uma forma de entretenimento (futebol). Monteiro Lobato jamais deixou de opinar sobre política. Ele misturou política e a literatura? Como ele fez isso na obra do Sítio e é possível seguir esse exemplo para usar uma forma de entretenimento (literatura) para falar de política?

PM: Em minha opinião, rotular a literatura como uma forma de entretenimento é reduzi-la e limitá-la a esse fim, quando ela como arte está aqui para promover o deslocamento em seus leitores, aproximando-os do outro e do diferente. Lobato usou a literatura para agradar e divertir sim, mas, como nacionalista convicto, intelectual e defensor do progresso, externou claramente seu desejo de formar leitores e cidadãos conscientes e ativos no país. Para tanto, inseriu em suas histórias os ideais, inconformismos e fatos que considerava importante das crianças tomarem consciência, como por exemplo, a busca pelo petróleo no Brasil, os problemas sociais, as guerras e as incoerências do homem. A partir da leitura da obra infantil lobatiana, é notável que o autor não separa em nenhum momento a literatura da política. E, diferentemente de muitos que ainda subestimavam a capacidade das crianças de compreender, refletir e questionar, Lobato escreve para elas, preocupando-se com a adequação da linguagem e sem desmerecer o potencial que possuem.

Fonte: Câmara Mineira do Livro

Literatura: o mundo encantado de Monteiro Lobato

Na próxima quarta-feira, vamos comemorar o  Dia Nacional do Livro Infantil. Você sabe por quê? É  que nesta data,18 de abril,  nasceu Monteiro Lobato, grande escritor  brasileiro, formado  em direito, fazendeiro e autor de crônicas para jornais e revistas. Embora escrevesse para adultos, ele  achava que as crianças de sua época, inclusive seus filhos, não tinham um autor que dedicasse a elas histórias com cenários e personagens brasileiros. Então, ele mesmo resolveu encarar o desafio.

Sua primeira história, A menina do narizinho arrebitado, depois intitulada Reinações de Narizinho, foi publicada em 1920. O sucesso foi tão grande que ele não parou mais. Depois deste livro inicial, criou outros,  imortalizando os personagens que viviam num lugar  mágico chamado Sítio do Pica-Pau amarelo. 

As histórias se passavam neste sítio de Dona Benta, avó de Narizinho e Pedrinho, e a estes se juntavam Tia Nastácia – que fazia deliciosos bolinhos de chuva; Tio Barnabé – o velho contador de causos; a dupla engraçada de trabalhadores rurais: Zé Carneiro e Pedro Malazarte; e os famosos Emília, a boneca de pano, teimosa e engraçada; Visconde de Sabugosa, o sabugo de milho que tinha virado gente e era  dono de uma admirável inteligência; o Marquês de Rabicó, porquinho que vivia às voltas com a boneca falante em suas brincadeiras mirabolantes.  Às vezes apareciam no Sítio personagens das lendas brasileiras, como o Saci e a Cuca; e outros da literatura universal, como Hércules e certos mitos gregos. Dona Benta, grande contadora de histórias, podia entreter os meninos durante horas, narrando para eles a História das Invenções. Ou  então era Emília que se aventurava com seus companheiros pelo País da Gramática. Tudo muito divertido.

Desde o início os livros foram ilustrados. Quem fez os primeiros desenhos foi um amigo de Lobato chamado Voltolino, que era caricaturista. A caricatura é um desenho onde os traços são bem fortes. Hoje há edições belíssimas de todos os livros. Se você ainda não leu um deles, comece já!

Monteiro Lobato morreu em 4 de julho de 1948. Morreu, não! Como Emília  gostaria  de dizer, transformou-se em “gás inteligente”.

Seis livros que toda criança deve ler

Reinações de Narizinho

Neste livro Lúcia, mais conhecida como Narizinho, visita o Reino das Águas Claras, levando a tiracolo sua boneca de pano, Emília. Com a chegada de Pedrinho, o primo da menina do nariz arrebitado, que veio de São Paulo passar as férias no Sítio do Picapau Amarelo, tudo fica mais divertido.

As Caçadas de Pedrinho

Uma onça pintada anda rondando o Sítio do Picapau Amarelo, lá para os lados do capoeirão de taquaraçus. E Pedrinho resolve montar uma verdadeira expedição para sair em sua busca. Claro, sem contar para Dona Benta ou Tia Nastácia. Muitas aventuras e um novo personagem para o Sítio: o rinoceronte Quindim.

O Saci

Pedrinho ganha um novo amigo para suas aventuras. Ele tem só uma perna, fuma cachimbo, usa barrete vermelho na cabeça. Vem do folclore para fazer companhia na busca pela cultura brasileira… Entre as personagens que eles encontram estão a Cuca e o Boitatá.

A Chave do Tamanho

As notícias sobre a Segunda Guerra Mundial chegam ao Sítio pelo rádio e entristecem Dona Benta e toda a turma do Sítio do Picapau Amarelo. Emília, a protagonista desta história, resolve sair em uma aventura para acabar com as batalhas. Acaba por fazer todos diminuírem  de tamanho.

Serões de Dona Benta

A avó usa acontecimentos do dia a dia para falar sobre ciências com as crianças. Entra um pouco de tudo… geologia, física, geografia… As perguntas  e as observações engraçadas de Emília ajudam na construção do conhecimento.

Viagem ao Céu

A matéria agora é astronomia! As crianças se divertem no espaço – dos anéis de Saturno à cauda um cometa – e Tia Nástácia, no mundo da Lua, cozinha para… São Jorge, em pessoa!

Títulos da literatura infantil de Monteiro Lobato

1 – Reinações de Narizinho

2 – Viagem ao céu e O Saci

3 – Caçadas de Pedrinho e Hans Staden

4 – História do mundo para as crianças

5 – Memórias da Emília e Peter Pan

6 – Emília no país da gramática e Aritmética da Emília

7 – Geografia de Dona Benta

8 – Serões de Dona Benta e História das invenções

9 – D. Quixote das crianças

10 – O poço do Visconde

11 – Histórias de tia Nastácia

12 – O Picapau Amarelo e A reforma da natureza

13 – O Minotauro

14 – A chave do tamanho

15 – Fábulas

16 – Os doze trabalhos de Hércules (1º tomo)

17 – Os doze trabalhos de Hércules (2º tomo)

Fonte: GCN

Literatura: portal para outros mundos

É no que o livro infantil pode se transformar quando se sabe estimular a leitura nas crianças

Aos 9 anos, Mariana Vilches Guiné já é uma leitorinha assídua, graças ao estímulo da mãe

“Quando estou lendo, acho que estou viajando e indo para outro mundo. A leitura é o mundo da imaginação.” 

Assim a pequena Mariana Vilches Guiné, de 9 anos, descreve sua experiência com a literatura, que descobriu muito cedo, antes mesmo de aprender a ler, divertindo-se com livros de imagens. É claro que ela tem muito a comemorar amanhã – 2 de abril -, Dia Internacional do Livro Infantil.  

“Quando ela ainda tinha meses, eu já comprava livros de banheira, com música…”, lembra a mãe de Mariana, a bancária Arali Gimenes Vilches Guiné, também leitora assídua e apaixonada. “A leitura me desconecta do cotidiano, me relaxa. Sempre tenho um livro de cabeceira”, declara a mãe.  

Hoje a menina considera a leitura um hábito de lazer, que vivencia no quarto, um pouco antes de dormir, no banheiro ou na biblioteca do colégio. “Quando pego um livro na escola leio no mesmo dia”, revela Mariana, que já faz sua própria seleção. “Escolho pelo tamanho de texto. Gosto dos mais longos”, diz, emendando que, agora, pretende iniciar a leitura da série Harry Potter.  

Para Arali, o exemplo é o maior incentivo. “Fico orgulhosa de vê-la apreciar a leitura, porque o livro ajuda na formação, no conhecimento, na paciência…”, declara Arali. 

Exemplo

Para o escritor e pedagogo André Luís Oliveira, que tem 17 obras de literatura infantil publicadas, o exemplo de Arali é a forma mais efetiva de incentivo à leitura, porque a criança aprende mais pelo modelo do que pela retórica. “Vendo seus pais, irmãos mais velhos e mestres tendo uma relação prazerosa com o livro, desperta nela a curiosidade e o desejo de vivenciar isso”, diz.  

Oliveira também cita como exemplo a mãe ou o pai contando histórias na beira da cama, numa experiência lítero-afetivo. Ressalta que é importante também oportunizar a leitura como lazer para a criança. “Incluir no repertório de entretenimento situações como contadores de histórias, a exaltação do livro como arte, objeto de beleza”, cita. 

Dificuldades 

Como educador, Oliveira identifica duas grandes dificuldades à introdução da leitura às crianças, hoje: professores que leem pouco e a forte concorrência da tecnologia.  

“As escolas aderiram muito à tecnologia e acho até que é necessário. Mas vejo que a literatura nem sempre tem sido protagonista nos processos de aprendizagem. É sempre interessante começar pela literatura e, após ela, se pode ir aos sites de pesquisa”, opina.  

Essa interdisciplinaridade é essencial também na opinião do escritor e professor Alexandre Azevedo, com 120 livros infantis publicados. “Ziraldo já disse: ler é mais importante que estudar. Uma ideia antiga e que funciona. Monteiro Lobato fazia isso, a interdisciplinaridade.

A criança aprendia matemática lendo A Aritmética da Emília; aprendia geografia lendo A Geografia de D. Benta; gramática lendo Emília no País da Gramática. Quem leu O Homem que Calculava, de Malba Tahan, passou a gostar de matemática ou, pelo menos, a não vê-la como um bicho de sete cabeças”, exemplifica. 

Escritor Alexandre Azevedo: “a literatura é, antes de tudo, uma diversão”

Obras têm que seduzir 

Alexandre Azevedo acredita que toda criança gosta de literatura e o autor chega a desempenhar até mesmo um papel de herói para o pequeno leitor.  

“A criança trata o livro infantil como um brinquedo. Para ela literatura é, antes de tudo, uma diversão. É claro que ela, nessa sua diversão, está aprendendo. Isso só a literatura é capaz de fazer. É a magia do livro infantil”, opina.  

Para André Oliveira, para que um livro seduza uma criança, são necessários um texto e ilustração que respeitem sua sagacidade, uma narrativa que instigue e surpreenda, uma história contada com qualidade literária, rimas e estética. “Às vezes é difícil a criança pegar um livro, mas se ela pega um bom, é difícil de largar”, comenta.

Mas o que não pode faltar em um livro infantil? “Um mãozinha folheando esse livro. Agora, se ela vai gostar do que viu ou do que leu, isso é pessoal, depende de cada leitor”, defende Azevedo.

E como a literatura tem como função implícita o aprendizado, a linguagem usada precisa ter identificação com o universo infantil. “Uso a linguagem coloquial, isto é, a mais próxima do nosso falar, mas com o cuidado de não vulgarizá-la. Sigo um conselho do grande cultor de nossa língua, o padre barroco Antônio Vieira: simplicidade não é sinônimo de vulgaridade”, afirma Azevedo.

Semiíramis Paterno: o livro de imagem permite que o leitor oralize as histórias a partir de sua compreensão

Ilustração é parceira importante 

Na conquista do leitor infantil, texto e ilustração têm de ter sincronia perfeita. “A ilustração é tão importante que, às vezes, não é preciso texto, não é mesmo?”, comenta Azevedo, referindo-se aos livros de imagem, que permitem aos pequenos ainda não alfabetizados se aventurarem pela literatura.

Semíramis Paterno (foto acima), que já ilustrou obras de outros autores, tem dez livros de imagens. “É um gênero literário em que se conta uma história a partir de um alfabeto visual, feito de signos e símbolos. Esta narrativa apenas visual encanta, surpreende, ensina, desperta o senso crítico, aguça a imaginação, bem como a observação e a percepção dos fatos”, explica.

Para ela, ao prescindir do verbo, o livro de imagem permite que o leitor oralize as histórias a partir de sua própria compreensão. “Assim eles vão criando um texto, compondo um poema, teatralizando, desenvolvendo situações apenas sugeridas nas imagens e, a partir daí, refazendo o todo de modo novo e pessoal. Além de serem ricas experiências do olhar”, conclui. 

Texto: Valeska Mateus

Fonte: A Cidade ON

Clássicos da literatura ganham versão em Histórias em Quadrinhos

Cresce o número de grandes obras da literatura brasileira e internacional que ganham versão em HQ

“Amar, Verbo Intransitivo”, “O Cortiço” e “Dom Casmurro” são grandes nomes da literatura brasileira

Quando o publicitário francês Stéphane Heuet decidiu transpor para o universo das HQs os sete volumes de “Em Busca do Tempo Perdido”, o clássico de Marcel Proust (1871-1922) cuja leitura é um desafio até para os mais inveterados leitores, houve quem não recebesse a iniciativa com bons olhos. Fato é que a crítica acabou avalizando a “ousadia”, que, vale dizer, não entrou em cena com o objetivo de “mastigar” o conteúdo do original para o leitor apressado, e sim de apresentar uma versão do texto em outro registro.

Verter clássicos para o universo das HQs, claro, não teve seu marco inicial com a obra de Proust. Tampouco parou por aí. Um dos mais recentes exemplos lançados no Brasil é “O Velho e o Mar”, no qual o francês Thierry Murat coloca seu traço a serviço da obra de Ernest Hemingway (1899-1961).

Precisar a pedra fundamental desse movimento que tem ganhado fôlego nos últimos anos não é tarefa das mais fáceis. Mas o quadrinista Wellington Srbek e o curador do Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), Fabiano Azevedo, lembram as “Classics Illustrateds”, dos anos 40, que, no Brasil, viraram a “Edições Maravilhosas”, publicadas pela Ebal.

No começo, a Ebal apenas traduzia as histórias – adaptações de obras como ‘Os Três Mosqueteiros’, ou ‘Ivanhoé’. Mas rapidamente passou a produzir obras nacionais, como ‘O Guarani’, de José de Alencar, ‘Cabocla’, de Ribeiro Couto, e ‘Cangaceiros’, de José Lins do Rego”, lembra Azevedo.

Mesmo se a coleção não dá mais o ar da graça, Srbek reconhece que, nos últimos anos, houve “um interesse editorial renovado pelo gênero quadrinístico”. Tanto para ele quanto para Azevedo, em grande parte esse fenômeno deve-se a programas governamentais de adoções de livros. “Como o Programa Nacional da Biblioteca na Escola (PNBE), que passou a ter os quadrinhos entre as formas de linguagem contempladas. Num primeiro momento, talvez as adaptações de clássicos da literatura tenham sido privilegiadas pela proximidade com a cultura literária escolar. Por esses fatores todos, em geral o público-alvo das adaptações são os jovens estudantes e também adultos de programas como o Educação de Jovens e Adultos (EJA)”, avalia Srbek.

Pesquisador do universo dos quadrinhos, o professor Felipe Muanis complementa: “As adaptações literárias atraem o público específico dos quadrinhos, claro, um público de curiosos e, acredito, o leitor de livro que não tem preconceitos, visto que algumas pessoas, talvez leitores mais ortodoxos de literatura, possam torcer o nariz para a adaptação, nem mesmo querer chegar perto. Os de cabeça mais aberta, ao contrário, vão querer conhecer a versão até para ver como é essa releitura do texto original em outra mídia e tal. Então, acho que a atração por esse tipo de leitura se dá por diversos tipos de público com interesses também bastante distintos”.

Miríade. Shakespeare, Allan Poe, Herman Melville, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Machado de Assis. São vários os totens da literatura que já tiveram suas obras adaptadas para o quadro a quadro. “Recentemente, li ‘Jubiabá’, de Jorge Amado, e achei muito bacana. Também comprei ‘Grande Sertão: Veredas’, mas ainda não tive tempo de ler”, diz Muanis.

O próprio Srbek, enquanto editor, criou a série “Shakespeare em Quadrinhos”, para a qual selecionou duplas de autores para adaptar seis das principais peças shakespearianas. “Por também ser autor, traduzi e roteirizei ‘Hamlet’, que não fez parte daquela coleção, mas saiu pela mesma editora (Nemo). Em todos os casos, a premissa básica era a fidelidade à história original e a busca de uma adaptação criativa para a linguagem dos quadrinhos”, explica o mineiro, que, enquanto roteirista, adaptou, ainda, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Dom Casmurro”, de Machado de Assis. “São meus trabalhos mais bem-sucedidos no campo das adaptações”, avalia, frisando que nenhuma adaptação substitui a obra original. “O objetivo, em todos esses trabalhos, além de homenagear os grandes autores, foi criar uma ponte entre os textos clássicos e os jovens leitores de hoje”, estabelece.

Texto por Patricia Cassese

Fonte: O Tempo

O livro infantil representa o respeito pela grandeza do pequeno – conselho internacional

“Um livro infantil representa o respeito pela grandeza do pequeno”, afirma a escritora letã Inese Zandere, na mensagem anual a propósito do Dia Internacional do Livro Infantil que se celebra na segunda-feira.

Por iniciativa do Conselho Internacional sobre Literatura para os Jovens (IBBY), desde 1967 que se celebra anualmente a leitura e a literatura para crianças e jovens, sempre a 02 de abril, no dia de aniversário do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen.

Este ano, a convite do IBBY, a mensagem é assinada pela escritora letã Inese Zandere, que versa sobre a importância da leitura, seja de contos de fadas ou de poemas, para os mais novos construírem uma ideia do que os rodeia.

“Um livro é um mistério onde se pode encontrar algo que não se procurava ou que não estava ao nosso alcance. Aquilo que os leitores de uma certa idade não conseguem compreender, permanece na sua consciência como uma impressão, e continua a atuar mesmo quando não o compreendem totalmente”, escreveu a autora.

A escritora lembra que “um livro ilustrado pode funcionar como uma arca do tesouro de sabedoria e cultura, mesmo para os adultos, da mesma forma que as crianças podem ler um livro para adultos e encontrar nele a sua própria história, um indício para as suas jovens vidas”.

“Um livro infantil é uma força milagrosa que favorece o enorme desejo das crianças e a sua capacidade de ser. Promove a sua coragem de viver”, lê-se na mensagem.

Em Portugal, a mensagem do Dia Internacional do Livro Infantil foi veiculada pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e Bibliotecas, com uma ilustração de Fátima Afonso, distinguida em 2017 com o Prémio Nacional de Ilustração.

Hans Christian Andersen, que morreu aos 70 anos em 1875, é um dos escritores mais conhecidos e publicados da literatura para a infância, autor de clássicos como “A pequena sereia”, “A vendedora de fósforos” e “A princesa e a ervilha”.

O escritor dá ainda hoje o nome a um dos mais importantes prémios literários nesta área, considerado o Nobel da literatura infantojuvenil.

Fonte: Diário de Notícias

“As crianças precisam conhecer histórias tristes para aprender a lidar com a tristeza”

Eva Martinez, educadora e terapeuta espanhola, discute como trabalhar as emoções com as crianças através da literatura

POR: Paula Peres

Eva Martínez durante o Seminário Internacional Arte, Palavra e Leitura na 1ª infância. Foto: Sofia Colucci

O currículo da escritora espanhola Eva Martínez é longo: professora, terapeuta e formadora de formadores no Institut de Ciènces de l’Educació (ICE) da Universitat Autónoma de Barcelona (UAB) e diretora pedagógica da Associação ARAE, em Barcelona.

Especialista em educação emocional, Eva defende a literatura como uma maneira de trabalhar habilidades socioemocionais nas crianças. Especialmente, os contos e as fábulas. É coautora do livro Emociones y familia: El viaje empieza en casa(Emoções e família: a viagem começa em casa, em tradução livre) e Bajo la piel del lobo: acompañar las emociones con los cuentos tradicionales (Debaixo da pele do lobo: acompanhar as emoções com os contos tradicionais).

Eva Martinez costuma dizer que não sabe se escolheu a Educação ou se a Educação a escolheu: desde criança, brincava de ensinar suas bonecas imitando os trejeitos de suas próprias professoras. Já a decisão pela psicologia foi tomada de maneira mais racional. “Às vezes, eu me dava conta de que a escola é um lugar que não te ajuda a crescer emocionalmente”, reflete a educadora. “É um lugar em que se comportar bem é um valor apreciado, em que tirar boas notas é bom, mas quando uma criança se comporta mal, é punida”.

Defensora do direito das crianças de expressarem seus sentimentos, inclusive os ruins, Eva é terminantemente contra as histórias que só mostram personagens perfeitos e terminam bem, como os contos de fadas que sofreram uma espécie de higienização: histórias que foram adaptadas para que só tivessem personagens com sentimentos bons, eventos que não são difíceis de serem explicados para as crianças, mulheres delicadas e homens corajosos.

Esse tipo de história gera efeitos negativos na formação da pessoa. É muito difícil para um homem se mostrar frágil, se sentir como uma princesa, porque ele não foi educado para isso, não foi essa referência de homem que ele teve. Precisamos pegar contos que mostram os seres humanos como humanos de verdade”, disse ela durante sua participação na mesa “Embaixo da pele do lobo – temos que ler os clássicos?” no Seminário Internacional Arte, Palavra e Leitura na 1ª infância, realizado pelo Instituto Emília e a Comunidade Educativa CEDAC, em parceria com a Fundação Itaú Social e o Sesc São Paulo.

Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva concedida a Nova Escola sobre o papel da literatura na formação humana das crianças.

NOVA ESCOLA: Você diz que se emocionar é diferente de ser uma pessoa sensível. Qual a diferença?

EVA MARTINEZ: As emoções são respostas fisiológicas que todos os seres humanos têm em resposta a determinados impulsos do ambiente ou que se passam dentro de nós. As emoções surgem, saem de dentro de nós. O que não é bom, às vezes, é ser arrastado por elas. Temos que saber utilizar as emoções de maneira que permitam o bem-estar, a boa comunicação e relação com o outro. Eu disse isso em referência a filmes da Disney. Considero que esse tipo de filme ou literatura tocam nossas emoções, fazem as pessoas se emocionarem, mas nada além disso.

É relativamente fácil tocar a fibra emocional de alguém. O que é realmente difícil é ajudar esse menino ou menina a construir um aprendizado com o que está passando. Além disso, a Disney toca em emoções específicas, aponta muito para a luz, mas nós somos sombra e também luz.

É papel da escola trabalhar as emoções?

Acredito que a primeira aprendizagem que se dá sobre as emoções – e a mais importante e determinante – é na família. A escola tem pouca margem quando a criança vem de uma família com muitas dores. Podemos, sim, olhar para a dor dessa criança e ajudá-la a se expressar e se comunicar melhor com os outros. A escola pode fazer isso, mas não pode mudar algumas emoções porque o impacto que as experiências emocionais da família têm nela é fundamental. Eu acredito que a escola não é lugar para fazer terapia, mas onde podemos fazer algo mais do que estamos fazendo [que é educar].

Como assim?

A escola, às vezes, não oferece oportunidades reais para crescer, só para crescer no campo acadêmico: o de se comportar bem, de ter bons resultados. Não no que se refere a crescer como pessoa. Uma criança que veio de uma experiência de maus tratos, abandono, de uma família desestruturada, com problemas de álcool e drogas, não vai se comportar bem na escola. Ela precisa extravasar essa raiva, precisa falar da sua dor. E isso acontece quando ela se comporta mal, gritando. A escola não permite esse crescimento, esse acompanhamento.

Qual a relação entre a leitura e a formação psicológica das crianças?

Sou terapeuta, então trabalho com pessoas que têm algum problema, alguma dificuldade na sua vida. Muitas dessas dificuldades têm relação com a pessoa não conseguir sustentar as emoções negativas: a dor, a raiva. Não sabemos como questionar muitas emoções, não temos recursos pessoais porque não fomos educados para isso. Não nos ajudaram a entender o que se passa com a gente, o que sentimos.

Eu descobri que os contos, sobretudo os tradicionais, falam de muitas emoções que sentimos, mas que não são fáceis de expressar ou comunicar, nem fáceis de sentir, muitas vezes.

Para mim, a literatura permite esse encontro comigo mesma: sentir que se tenho uma emoção que realmente estou sentindo, mas que não me atrevo a vivê-la porque não é considerada socialmente aceitável, eu posso projetá-la na personagem de um conto.

De que maneira isso pode ser benéfico?

Eu acredito que quando fazemos isso na infância, aprendemos a administrar nossas emoções. É um presente para toda a vida. Uma criança deve ter consciência da agressividade com que fala com seus colegas, e ela vai conseguir isso tendo permissão para experimentar e para expressar todas as emoções que sente.

Trabalho com mulheres que sempre se comportaram muito bem. São mulheres com 30, 40 anos que sempre se comportaram bem, nunca tiveram qualquer problema, sempre estiveram presentes e disponíveis para os filhos, o marido, o trabalho. Mas elas chegam aos 40 e entram em crise, não sabem quem são, porque nunca disseram “Não” aos outros. Não sabem marcar um limite. Então imagine como essas mulheres se sentem quando alguém diz “Você pode ser agressiva e usar a sua raiva para marcar o limite ou para gritar quando não gosta de alguma coisa, você tem o direito de fazer isso”. A vida dessa pessoa poderia ter sido muito diferente, não?

Para mim, a literatura permite que a gente experimente todas as emoções. E como podemos experimentar todas, também podemos aprender com elas. Porque se só experimentamos algumas, nosso aprendizado será limitado. Não seremos capazes de edificar a aprendizagem sobre as demais e por isso acredito que é importante que as crianças vivam, se expressem livremente e que através dessa vivência, elas possam construir uma aprendizagem racional.

Qual é o impacto de ler somente textos e livros felizes para a formação de uma criança?

Nós somos mamíferos. Somos doces, agradáveis e vulneráveis – e também somos agressivos e ferozes. Temos todos os tipos de emoções. Então, educar em um modelo emocionalmente ideal não é sustentável porque não é verdadeiro e não sintoniza com a experiência interna de uma criança. As crianças sentem dor, raiva, desejos, vontade de matar seu amigo, sua própria mãe em muitas ocasiões.

Não se trata de dizer “Não, isso que você sente é muito feio, é muito mau, está proibido”. É preciso fazer algo com essas emoções que estão sentindo, sobretudo com o que consideramos tão negativo, essa raiva, essas vontades, essa agressividade tão forte. Com isso temos que fazer algo.

Não podemos educar uma criança que tem uma história de dor fingindo que ela é sempre feliz ou que está sempre contente. Essa criança que tem uma história de dor vai se comportar mal em classe porque ela não aguenta mais sustentar sua dor sozinha. Ele não precisa que alguém lhe diga “Seja simpático, comporte-se bem, seja bom”, ela precisa que alguém olhe para aquela dor e converse com ela.

O que o professor pode fazer na sala de aula?

O professor não é um terapeuta, nem psicólogo, mas ele trabalha com emoções, mesmo que não queira. Ele precisa lidar com as emoções das crianças e com suas próprias. O professor não é um robô, que entra na classe escondendo tudo o que sente, é impossível, somos humanos.

O que podemos fazer? Pelo menos ajudar as crianças a se expressar. O professor também pode fazer com que a aula seja um espaço emocionalmente seguro, no qual as crianças se conheçam e se respeitem, criando vínculos entre si. A escola pode fazer com que as crianças sejam capazes de confiar que um igual pode ser alguém que pode ajudá-los.

Se você educa seus alunos para que, por exemplo, só tenham bons resultados em inglês, e só tenham isso na cabeça, é muito difícil que essas duas pessoas se vinculem de alguma maneira. Você pode ser muito melhor do que eu em inglês, eu sempre tiro notas baixas e você notas altas, então você vai ter mais confiança do que eu nessa disciplina. O ideal seria que alguém nos dissesse que somos iguais. Eu tenho uma experiência com inglês, você tem outra, eu tenho uma experiência com a minha família, com a minha dor, a minha tristeza, e você tem outra, mas somos duas meninas iguais. Merecemos ter nos encontrado e nos conhecido.

Eu acho que é aí que a escola está falhando, pelo menos na Espanha. Não potencializa muito as capacidades do aluno de se relacionar, e acredito que deveríamos apostar nisso: na importância de estabelecer relações de comunicação entre iguais.

Os professores brasileiros têm muito medo de contar histórias para as crianças que sejam tristes, que dêe medo, tenham temas polêmicos ou personagens com características negativas. Qual é o seu conselho para eles?

Eu entendo que, muitas vezes, os adultos têm dificuldades porque também têm suas feridas. Digamos que eu tivesse sido abandonada pelos meus pais e isso me provocou muita dor. Hoje sou professora, trabalho com Educação, e vejo um livro sobre abandono. Para mim, será muito difícil ler esse livro, pois vai jogar sal na minha ferida e fazer com que eu tenha de me conectar com esse sentimento. Se eu não tenho isso elaborado dentro de mim, falar do abandono vai ser muito doloroso. Mas veja o que acontece: há muitas crianças abandonadas, como eu, na sala de aula. Como adulta, tenho a responsabilidade de transformar isso em algo emocionalmente nutritivo, que me cure, para depois acompanhar outras crianças abandonadas.

Eu serei uma acompanhante muito melhor dessas crianças abandonadas se olhar para o meu próprio abandono. Então, é natural que tenhamos medo, mas quanto mais cuidamos de nós mesmos, mais nos curarmos, melhor poderemos acompanhar emocionalmente as nossas crianças.

Texto por: Paula Peres

Fonte: Nova Escola

Como nasce um livro de ciência para crianças? A experiência de dois autores

Texto por Guilherme Eler

Escritores conversam com o ‘Nexo’ sobre o processo de criação de obras que abordam temas científicos para o público infantil

INICIATIVAS INDEPENDENTES DE PUBLICAÇÃO SURGEM COMO ALTERNATIVA AO MERCADO EDITORIAL TRADICIONAL

A literatura infantil brasileira é repleta de obras de ficção que, mesmo sem terem expressamente esse objetivo, podem explicar conceitos de ciência às crianças. Clássicos de Monteiro Lobato, por exemplo, como “O poço do Visconde”, “História das invenções” ou “Serões de Dona Benta”, contêm informações precisas sobre geologia, evolução humana, física e química – contadas, claro, com uma boa dose de fantasia.

Outro caso é a popular “Série Vaga-Lume”. Lançada pela Editora Ática, a coleção foi responsável por despertar o gosto pela leitura em crianças nas décadas de 1970 e 1980, e consta até hoje em diversas bibliotecas escolares. No título “O Caso da Borboleta Atíria”, uma história policial entre insetos serve de pano de fundo para que a autora Lúcia Machado de Almeida explique tópicos como o mimetismo. O conceito, estudado em biologia, analisa o mecanismo de “disfarce” que certas espécies animais utilizam para se esconder de predadores.

A produção de obras que ensinam de forma lúdica no Brasil aumentou, sobretudo, no final dos anos 1990. Na época, a Lei de

FOTO: DIVULGAÇÃO

Diretrizes e Bases da Educação (LDB), que estabeleceu os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), estimulou o mercado de publicações paradidáticas. Levam esse nome obras que, sem substituir apostilas e livros didáticos, podem ser utilizadas para tratar temas importantes à formação das crianças, de forma mais lúdica, em geral como ficção.

Viabilizar uma publicação com o propósito de explicar ciência para crianças, hoje, mostra-se uma tarefa mais desafiadora. Isso se deve, em boa parte, à situação do mercado editorial. Dados do Snel (Sindicato Nacional dos Editores de Livros) revelam que o crescimento de vendas do gênero infantil foi de 28% em 2016, se comparado ao ano anterior. Esse dado contrasta com um cenário pouco favorável: isso porque, nesse mesmo período, o mercado geral de livros caiu 9,7%.

A retração, que acompanha o setor há alguns anos, pode dificultar a aceitação de novos projetos. É a oportunidade para criações independentes assumirem parte da demanda.

Física ‘de 5 a 105 anos’

Foi após colecionar respostas negativas de editoras que Elika Takimoto resolveu lançar por conta própria sua obra mais recente. “Isaac no mundo das partículas” foi publicada de forma independente em fevereiro de 2018, com uma proposta ousada: ensinar física de partículas para “crianças entre 5 e 105 anos”.

Além de escritora, Elika é graduada em física pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), doutora em filosofia pela UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e professora de física do CEFET/RJ.

Após voltar de um curso promovido pela SBPC (Sociedade Brasileira de Física) no CERN, maior laboratório de física de partículas do mundo, a autora conta que foi recepcionada pelo filho com uma série de questionamentos.

Percebi que essas perguntas eram as mesmas que faziam os grandes estudiosos do CERN: de que o mundo é feito? Como tudo começou? Como sabemos que tudo isso que falam é verdade se não conseguimos ver as partículas? Como é que somos feitos de partículas invisíveis se todos conseguem nos enxergar? A partir de quantas partículas invisíveis que se juntam temos um corpo com massa? E o que é massa, afinal?”, conta, no site do livro.

Com o vocabulário dele, ele fazia essas perguntas. E eu, tentando estimulá-lo, respondia do meu jeito. E percebi que ele estava entendendo”, disse, em entrevista ao Nexo.

Foi onde eu comecei a procurar livros de física de partículas para crianças, para estimular esse lado nele. Encontrei alguma coisa, mas era uma linguagem muito técnica, muito chata, não me agradou. Foi quando decidi fazer eu mesma. Será que consigo escrever um livro de física de partículas para crianças? Se eu consegui transcrever mais ou menos o diálogo que eu tive com o Yuki, que é meu filho caçula, acho que de repente acontece. E aí se deu a ideia”, completa.

A tal ideia foi vencedora de um concurso cultural, que permitiu que o texto original de “Isaac no mundo das partículas” fosse adaptado e viesse à público no formato de peça de teatro. Graças a esse financiamento, o livro impresso também pôde finalmente sair da gaveta. As aventuras filosóficas do protagonista Isaac e Argo, um pequeno grão de areia, ganharam vida pelas ilustrações de Sergio Ricciuto Conte.

O grãozinho na sua singularidade era tão levinho que nem devia ter peso algum. Mas, se um grãozinho nada pesa, por que é difícil levantá-los quando muitos deles se juntam? A partir de qual grão um monte de areia se torna pesado? Essas eram perguntas que Isaac fazia enquanto segurava aquele grão entre os dedos e o olhava com um olho aberto e o outro fechado, como fazem aqueles que querem ver melhor por um buraco de uma fechadura ou através de um telescópio.” Trecho do livro “Isaac no mundo das partículas”, de Elika Takimoto

Ouvi [das editoras] que o livro não tinha apelo comercial. Não era atrativo para ser um livro paradidático em escolas. E quem compraria um livro de física de partículas para crianças? Os pais não se interessariam muito por esse assunto pelo fato de não entendê-lo”, conta Elika, sobre as tentativas de publicar a obra pelas vias tradicionais.

O retorno da aposta veio rápido: mil exemplares foram encomendados na primeira impressão. Após o estoque quase esgotar em menos de um mês, a autora providenciou recentemente a segunda impressão, de outros mil volumes. “Eu considero isso um sucesso total e absoluto. Muito além das minhas expectativas. Estou mega feliz em ver ciência sendo divulgada para crianças de todas as idades.”

Porque não’ não é a resposta

Novos formatos digitais são alternativa para autores que optam por disponibilizar suas obras de forma gratuita. Essa foi a estratégia escolhida pelos criadores de “Health Crew – Os defensores da saúde”, série on-line de gibis focada em histórias sobre saúde e corpo humano.

TRECHO DO PRIMEIRO EPISÓDIO DA SÉRIE DE GIBIS HEALTH CREW, “CONTRA SNACK-TRAP, O MONSTRO DA GORDURA”

O projeto começou a ser concebido em 2014 por Stefan Menon, Danilo Medolago e Evandro Lima. Além do trabalho em projetos de comunicação na área de saúde, o grupo tem em comum a experiência criada pela relação com seus filhos e sobrinhos.

Doces, refrigerantes, biscoitos e outras besteiras são os itens dos quais os pais têm que arrumar sempre respostas para negá-los aos seus filhos”, disse Menon ao Nexo.

Quando os impedíamos de comer doce em determinados momentos ou beber refrigerante, eles perguntavam ‘por quê?’”, conta. Foi pensando em oferecer respostas à questão que os autores escolheram o tema do primeiro volume, “Contra Snack-trap, o monstro da gordura”, disponibilizado na íntegra no site do projeto. “O Monstro da Gordura é um resumo disso, é a resposta visual para o ‘por que não?’ das crianças”, afirma.

A história retrata a aventura de 5 amigos dentro do corpo humano. Os personagens Jon, Pete, Laura, Amanda e Tim têm de lutar contra o incômodo acúmulo de gordura corporal, que vive obstruindo o caminho de sua nave.

“‘Jon’, ‘Pete’ e ‘Laura’ são meus filhos João, Pedro e Laura, que foram quase fielmente representados nos traços dos desenhos. Junto aos 3, [há] Amanda, a sobrinha do Danilo, e Tim, o cientista do grupo”. A trama serve para explicar sobre circulação do sangue, o que são as gorduras e quais seus tipos, além de sua importância para a regulação das funções corporais.

De acordo com o autor, a escolha por dar nomes internacionais serve para facilitar futuras intenções de internacionalização. Por causa dos nomes, o autor acredita que o gibi possa “funcionar em diversos mercados”, sem precisarem passar por adaptações.

Atualmente o projeto é totalmente financiado pelos próprios autores, que produzem por conta própria, também, o roteiro, a colorização, e o desenvolvimento do aplicativo e do site. Para garantir a precisão dos conceitos que aparecem nas histórias, a equipe contou com a consultoria de profissionais da área de endocrinologia, terapia infantil e odontologia.

Se tem uma coisa que criança não gosta é lição. Criança gosta é de história de aventura, de heróis em cenários misteriosos. Coloquei, então, a parte didática em meio a aventuras surreais”, conta Menon. “Nós não podemos dar informações erradas, mas não, não precisamos dar informações completas. Nossa premissa é justamente a de não ser um material didático, a de atrair a criança para a aventura, não para a aula.”

O lançamento do segundo gibi da série é esperado para 26 de março de 2018. “Cárie – A estranha” tratará da importância de bons hábitos de higiene bucal. Para a terceira edição, o tema escolhido é asma, doença que mata três pessoas por dia no Brasil.

Fonte: Nexo

Entrevista: Leo Cunha é um dos nomes fortes da literatura infantojuvenil

Leo Cunha já publicou mais de 50 livros infantojuvenis. É um dos grandes nomes do setor em Minas Gerais e no Brasil, tendo recebido prêmios importantes como o Jabuti, o João-de-Barro, o Nestlé, o FNLIJ, o da Biblioteca Nacional, entre outros. Vários deles foram selecionados para adoção em escolas do país.

Não há uma fórmula que possa explicar o sucesso deste escritor mineiro nascido em Bocaiúva há 52 anos, 50 deles passados em Belo Horizonte, mas é possível, a partir desta entrevista ao Hoje em Dia perceber algumas escolhas que foram determinantes para essa trajetória, como a convivência desde cedo com o universo da literatura.

O fato de trabalhar com ilustradores e editoras diversas também lhe possibilitou infinitas maneiras de desenvolver a sua obra e fazê-la chegar tanto nas grandes livrarias como nas bibliotecas das escolas. Além de não se permitir dar lições de moral, uma tentação em vários escritores do gênero. “Não é o papel da arte doutrinar ninguém. Quando leio algo com uma mensagem me sinto meio manipulado”, observa Cunha.

O autor mineiro prepara o lançamento de dois livros em 2018: “Só de Brincadeira”, da editora Positivo, com ilustração de Anna Cunha, e “Sinais Trocados”, com desenhos de Gustavo Piqueira, que será publicado pela Biruta

Ele viaja nos próximos dias para a Itália, onde participará da Feira do Livro de Bolonha, um dos principais dedicados à literatura infantojuvenil. “Estou indo mais como curioso, apesar de participar de uma mesa lá. Também é a possibilidade de falar com algumas editoras internacionais, sem a ilusão de que fecharei grandes negócios. Tenho consciência que meu texto é mais poético, trabalhando a linguagem com jogo de palavras, aliterações e rimas. Isso dificulta a tradução, mas é uma característica do meu trabalho”, analisa.

Você já escreveu mais de 50 livros infantis e infantojuvenis. De onde vem tanta imaginação para este universo?

De várias coisas. Uma delas é ter crescido, nos anos 70 e 80, rodeado de pessoas desta área, como escritores, ilustradores e professores, desde o momento em que minha mãe, Maria Antonieta Cunha, criou uma livraria, a Miguilim, que mais tarde virou editora, uma das primeiras do país a se dedicar exclusivamente à literatura infantojuvenil. Além desse lado pessoal muito forte, tem o fato de ter sido um leitor muito voraz. Não adiantaria nada estar à volta com o pessoal se eu não gostasse de ler. 

Diferentemente do cinema, em que até há pouco tempo a opção era pelo produto estrangeiro, no Brasil o público mirim tem maior afinidade com as narrativas nacionais.

Literatura é uma arte da palavra. Quando o texto é em sua língua, o contato é facilitado, embora tenha traduções muito interessantes. Desde os anos 70, existe uma produção de alta qualidade. Antes disso, era um pouco limitado, com Monteiro Lobato nos anos 30, e iniciativas isoladas de escritores como Cecília Meireles e Mário Quintana. Nos anos 70 e 80, o número de obras e autores cresceu exponencialmente. Hoje em dia, a Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil, de que eu faço parte há 15 anos, conta com 400 membros. Também temos uma grande quantidade de editoras, por volta de 100, que publicam livros para crianças e adolescentes.

No caso da literatura infantil, o ilustrador é uma espécie de coautor, com os desenhos tendo a mesma importância do texto. Você já trabalhou com vários ilustradores. Como se dá essa escolha?

Quanto mais jovem o público alvo, mais fundamental se torna a imagem. Na transição do infantil para o juvenil, o peso se torna relativo, com a narrativa ficando essencialmente verbal. Um das maiores felicidades de minha carreira é ter trabalhado com praticamente todos os principais ilustradores do país. Só não consegui produzir com a Angela Lago (falecida em outubro do ano passado), apesar de sermos amigos. Mas trabalhei com Roger Mello, um dos mais premiados, Rui de Oliveira, grande mestre que formou uma legião de ilustradores… Creio que tenha sido mais de 30. Alguns se repetem, outros não. Tudo vai depender do projeto. Se ele nasce com o texto e uma ideia de imagem, os dois são apresentados juntos à editora. Em outros casos, eu mando o texto e a editora escolhe o ilustrador com o estilo mais adequado. A gente percebe claramente o estilo de cada um, que pode ser poético, engraçado, realista, surrealista, mais detalhista ou econômico. 

Leo Cunha também é professor do curso de Comunicação Social, sendo o mais antigo no país a ministrar a disciplina de Jornalismo Cultural (desde 1999)

Minas Gerais se tornou um grande celeiro de autores e ilustradores do gênero. Existe uma razão para isso ter acontecido?

Algumas editoras se tornaram celeiros bem fortes de ilustradores, havia espaço para isso. A Miguilim, por exemplo, em que minha mãe era uma das sócias, lançou a Marilda Castanha, a Adriana Leão, o Paulo Bernardo, a Ana Raquel. A Formato e a Lê também abriram espaço para os ilustradores. A qualidade é muito grande, não sei se motivada pela ligação com escolas como a Belas Artes. Alguns deles passaram das artes plásticas para a ilustração, que são duas coisas bem diferentes. Pintar um quadro é uma coisa, ilustrar para um texto é outra, levando a um diálogo com outra arte.

Os autores geralmente usam muitos elementos autobiográficos em suas obras. Qual livro mais lhe retratou?

Tem livros em que aproveitei passagens de minha infância e adolescência, além de cenas com meus filhos. “Dedé e os Tubarões”, por exemplo, é baseado num caso do meu filho com o tablet. “Castelos, Princesas e Babás” foi inspirado num acontecimento ocorrido com minha filha na hora de dormir. Pego muito isso. “As Pilhas Fracas do Tempo” tem um personagem bem inspirado na minha adolescência, com a coisa da geração shopping center, da turma, do momento da descoberta da primeira paixão. Não que o personagem fosse eu. Ele tem muita coisa minha, mas sempre gosto de misturar, juntando à característica de um amigo. 

A Sylvia Orthof (referência nacional da literatura infantil, falecida em 1997) teve um papel fundamental na sua carreira, não é verdade?

Ela veio várias vezes a Belo Horizonte, para lançar livros em escolas e eventos, e nos tornamos muito amigos. Gostava muito do estilo dela, que era divertido, poético mesmo quando fazia prosa, muito nonsense. São elementos que trabalho muito em meus livros. Natural que eu me espelhasse nela. Ela entra como personagem no meu livro “Joselito e seu Esporte Favorito”. O título, por sinal, espelha os livros da Sylvia, juntando o nome de uma pessoa a uma característica que rimava. Lembro de “Tia Januária é Veterinária” e “No Fundo do Fundo Fundo, Lá Vai o Tatu Raimundo”.

Suas histórias não buscam levar a uma moral ou mensagem. Por que?

Sou meio avesso a isso. Os livros que mais gosto de ler não enfiam pela goela do leitor uma lição de vida. Quando leio algo com uma mensagem me sinto meio manipulado. Mesmo em filmes. Não é o papel da arte doutrinar ninguém. O mais importante é construir uma boa história, encantar, divertir, assustar, mexer com as emoções do leitor, mas não no sentido de ensinar nada.

Observando a sua bibliografia, são poucas as editoras que se repetem. Você acha melhor trabalhar com editoras diferentes?

No campo da literatura adulta, o autor escreve um livro a cada dois anos, o que permite que se publique pela mesma editora outras vezes. No caso da literatura infantil já é diferente. Eu escrevo uma média de dois a três livros por ano, esbarrando na capacidade de produção das editoras. As pequenas publicam quatro, cinco por ano. As grandes quatro, cinco por mês. O legal de ter livros em várias editoras é a possibilidade de eles circularem por lugares diferentes. Uma editora grande tem divulgação nacional e a certeza de que a sua obra chegará às livrarias. Uma pequena terá um trabalho mais cuidadoso com gráfica, papel, tratando-a como um filhotinho. Outras vão focar nas escolas.

Ele traduziu mais de 30 obras para o inglês e o espanhol: “Você aprende a ver como o texto foi construído e o seu ritmo”

Você fez parte da criação da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil. O que pode ser feito para melhorar o mercado para esse gênero no país?

A possibilidade de a editora trabalhar com livros mais literários e menos didáticos. No caso das escolas, formar um acervo de livros ricos, menos como um penduricalho para a questão didática. Dentro da família, frequentar bibliotecas e deixar a criança livre para fuçar e escolher. O folhear faz parte, ajuda na escolha. O poder público deve reativar os programas de criação de acervo. E tem a mídia, que poderia abrir maior espaço. Essa entrevista é uma exceção à regra. Antigamente, nos jornais, havia cadernos infantis e páginas com dicas de livros.

Texto por Paulo Henrique Silva

Fonte: Hoje em Dia

FNDE vai limitar formatos para livros de literatura

Para Rossieli Silva, secretário de Educação Básica do MEC, a padronização de formatos vai baratear o livro

Na semana passada, o PublishNews conversou com Wander Soares a respeito da promessa do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) em publicar, ainda em 2018, um edital para a compra de livros para a literatura. Na conversa, o presidente da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) declarou a sua preocupação com, ao trazer a compra dos livros de literatura para o âmbito do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), a possibilidade de o FNDE estabelecer formatos fixos para a publicação destes livros.

Eu acho impossível colocar a literatura infantil dentro dos parâmetros do livro didático. Não há como determinar o formato, o número de páginas ou o tipo de acabamento de um livro de literatura infantil”, disse ao PublishNews. “Ele jamais será formatável como se faz com o livro didático. O didático é feito a propósito. O livro de literatura infantil, não. Literatura é criação, literatura é inspiração. É impossível delimitar formatos para isso”, completou.

Mas o MEC vai sim estabelecer parâmetros de formato para a compra dos livros de literatura. Em audiência pública realizada em Brasília na última sexta-feira (02), foram apresentadas as especificações do edital que deverá ser publicado na primeira quinzena de março. Os livros terão que ter um dos três formatos sugeridos: 205 x 275 mm, 270 x 270 mm ou 135 x 205 mm. A capa deverá ser em papel cartão 250 g e miolo em couchê 80 g. 

Para Rossieli Silva, secretário de Educação Básica do MEC, a padronização de formatos vai baratear o livro | Edilson Rodrigues/Agência Senado

Segundo Rossieli Silva, secretário de Educação Básica do Ministério da Educação, a razão para isso é muito simples: é mais barato. “Temos que levar os livros para as escolas dentro de critérios de qualidade, mas que sejam possíveis de produzir dentro de um formato economicamente viável. Nós entendemos que, nessa etapa, o mais importante é trazer [o programa] para a regularidade, o que não quer dizer que isso não deva evoluir e que a gente possa rever esse processo mais para frente”, disse durante a audiência. “Nós não estamos na fase de comprar edição de luxo. Estamos na fase de comprar aquela pocket, de bolso mesmo. E eu prefiro ter a pocket e assumir que é uma edição mais simples, mas ter a obra de literatura do que a gente não comprar os livros de literatura”, disse enfático.

Wilson Troque, coordenador geral dos Programas do Livro, completou: “essas são adequações que permitem a produção em larga escala para que o custo fique mais baixo para as editoras. Sem isso, seria impossível fazer esse programa”.

A limitação de formatos vem ainda, segundo apresentaram os executivos durante a audiência pública, para padronizar a precificação dos livros e consequentemente facilitar a negociação com as editoras.

A previsão é que o edital saia ainda em março. Até maio, as editoras poderão submeter as suas obras. O FNDE limitará até quatro títulos por editora nessa etapa do processo. De junho a agosto, o MEC fará a avaliação pedagógica das obras apresentadas e, em setembro, os professores farão as escolhas dos livros que serão adotados no ano que vem. Essa escolha será feita nos mesmos padrões do PNLD.

Como o PublishNews já tinha adiantado, esse edital está sendo considerado pelo FNDE um “edital transitório” e vai comprar livros para a Educação Infantil, os anos iniciais do Ensino Fundamental e para o Ensino Médio. Os livros para os anos finais do Ensino Fundamental já estarão no escopo do PNLD 2020. Depois disso, a compra será feita dentro do ciclo de referência do PNLD de cada ano. Por exemplo, no ano em que foram comprar os livros para os alunos do Ensino Médio, serão também escolhidos os livros de literatura para esse ciclo e assim por diante. 

De acordo com a Lei Brasileira de Inclusão, todos os livros apresentados deverão ter a sua versão adaptada em formatos acessíveis.

Texto por Leonardo Neto

Fonte: PUBLISHNEWS

Procuram-se livros para crianças!

Felisbela Lopes

Nunca demorei muito a escolher um bom romance. Sigo autores cuja obra é de leitura obrigatória e há sempre sugestões aqui e ali que nos colocam no bom trilho das escolhas. Já não é assim com os livros destinados à idade pré-escolar. Com frequência, estão mal escritos, incorporam palavras desajustadas aos respetivos leitores, apresentam ilustrações medonhas e tecem uma narrativa desligada do universo referencial daqueles a quem se dirigem. Neste contexto, como motivar os mais pequenos a ler? Eis um desafio gigantesco face à oferta literária existente para aqueles que se iniciam na leitura.

Posso assegurar que já passei várias horas em diferentes livrarias à descoberta de livros para o meu filho de 5 anos. Também já procurei boas estórias em vários hipermercados. E volto sempre à lista sugerida pelo Plano Nacional de Leitura com a expectativa de aí encontrar novidades. Não posso considerar felizes estas incursões. Pelo contrário. Pergunto-me com frequência por que razão um editor aceita publicar determinadas obras… Percebe-se que um livro para crianças adote uma estrutura de escrita muito simples, mas já não se compreendem os erros de sintaxe que as frases apresentam, nem tão pouco a imprecisão no uso dos sinais de pontuação. Também é difícil aceitar a escolha de certas palavras cujo significado nem mesmo os adultos conseguirão agarrar bem… Outra tentação é a de introduzir elementos que exigem conhecimentos que os mais novos ainda não possuem.

Vamos a exemplos. Num dos vários livros com histórias para ouvir antes de adormecer, um dos contos iniciais é o da “primeira chuva” que começa a falar de “nuvens que vogam no céu como veleiros”. E logo ali, a criança perguntará: “o que significa vogam”? E lá ficamos nós encravados em explicações labirínticas. Escolhemos outra obra. Pode ser aquela que nos fala do jantar dos animais. A meio, surgirá a estória intitulada “quê de cão”. A criança, a quem se ensinam as primeiras letras e que segue com atenção cada página que viramos, disparará de imediato: “então, cão escreve-se com q?” E nós, que, em casa, já tínhamos feito a pirueta para explicar porque é que palavras com sons diferentes como “camisa” e “cinto” começam com a mesma letra lá ficamos novamente à deriva, agora apenas pela dificuldade em desconstruir o efeito sonoro que o autor pretendeu provocar nos seus leitores. Retire-se, pois, outro livro da biblioteca. Desta vez, vamos contar a história de um coelho ladrão de livros que era tão apaixonado pela leitura que compunha listas com obras para a família e para os amigos: “E tudo a alface levou”, “As 50 sombras da cenoura”, “As viagens de coelhiver”… Os pais, decerto, apreciaram “E tudo o vento levou”, “As 50 sombras de Grey” ou “As viagens de Gulliver”, mas os seus filhos nada percebem destes jogos de referências cruzadas. E ainda nem sequer chegamos às ilustrações gráficas, tantas vezes apresentadas em opções cromáticas assustadoramente carregadas de tons escuros e com uma inexpressividade tal que quase petrificamos diante de tamanho absurdo. E eis-nos ali com um livro na mão, cheios de vontade de motivar os mais novos para a leitura autónoma e sem saber o que fazer perante tanta entropia. E ainda nem sequer chegamos ao centro do problema, ou seja, à mensagem que se pretende transmitir através de um livro.

Percorrendo algumas obras destinadas aos mais pequenos, constata-se que existem muitos livros que falam de mundos impossíveis e inverosímeis: o rapaz que come livros, o tigre que toma chá, o hipopótamo que invadiu a nossa cama… Faltam obras que falem da vida, da vida comum de crianças que procuram ser felizes, que todos os dias atam e desatam nós que as ligam umas às outras… É dos mundos possíveis, ainda que por vezes algo inverosímeis, que se deve compor também a literatura infantil. Porque as crianças necessitam de ouvir histórias com um fio condutor que se ligue àquilo que conhecem. Em narrativas lineares ou repletas de metáforas, em diegeses que provoquem o gosto pela leitura da primeira à última palavra. Porque só guardamos em nós os livros que nos contam estórias de que gostamos.

Texto por: Felisbela Lopes

Fonte: Jornal de Notícias

Professora cria site para contar histórias infantis em Libras

A internet é uma ferramenta importante para democratizar o acesso a conteúdos e, além disso, é um espaço que reúne diferentes assuntos e interesses.

Crianças com acesso à internet têm a possibilidade de escolher seus canais de preferência, mas ainda existem algumas exclusões. Deficientes auditivos ainda encontram barreiras, já que a linguagem em libras nem sempre é aplicada.

Pensando nisso, Carolina Hessel, docente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e uma das responsáveis pela disciplina de Língua Brasileira de Sinais (Libras) na Faculdade de Educação,  criou o projeto Mãos Aventureiras. É um site e canal no Youtube onde ela conta histórias de literatura infantil em Libras.

Com atualização semanal, o desejo da professora é atingir escolas para surdos e também as que não são específicas.

“A internet é uma maneira barata e fácil de dar acesso para todos. Quero preencher esta lacuna para as crianças surdas e também enriquecer o acervo de histórias sinalizadas na internet”, explicou.

Segundo Carolina,  no Brasil não há outro site que apresente literatura infantil variada em Libras. Outros sites, que são poucos, mostram apenas contos clássicos como Contos de Fadas, dos irmãos Grimm.

“Minha inspiração veio porque sempre gostei contar histórias em Libras com livros, desde que trabalhava nas escolas de surdos. Também quero dar acesso à literatura infantil mais diversa e de qualidade para este público”.

Cada história é escolhida de acordo com a época. Entre a lista de livros que já foram utilizados estão Adelia, de Jean-Claude Alphen (Prêmio Jabuti), Carona na Vassoura, de Julia Donaldson e Axel Scheffler, O presente do Saci, de Lalau & Laurabeatriz.

“Também conto histórias clássicas como “O sanduíche da Maricota”, de Avelino Guedes muito trabalhado na Educação Infantil”, revela.

Veja abaixo uma delas.

Fonte: Catraquinha – Catraca Livre