Escritores

Obra de Carolina de Jesus será publicada pela Companhia das Letras

Projeto terá supervisão de Vera Eunice de Jesus, filha de Carolina, e da escritora Conceição Evaristo.

“Casa de Alvenaria” será o primeiro título do novo projeto. REPRODUÇÃO/COMPANHIA DAS LETRAS “

Texto por Amauri Terto

A Companhia das Letras anunciou nesta sexta-feira (17) que irá publicar a obra de Carolina de Jesus (1914-1977), uma das principais escritoras negras da literatura nacional. Nascida na cidade mineira de Sacramento, ela viveu a maior parte da vida em São Paulo, na favela do Canindé, em Santana, em Parelheiros.

Carolina trabalhou como catadora para sustentar os três filhos e registrou inúmeras histórias, além do cotidiano de fome e pobreza em cadernos encontrados no lixo. Na década de 1950 foram encontrados mais de 20 diários.

Ela ganhou reconhecimento com o livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada (1960), organizado pelo jornalista Audálio Dantas. Diversos de seus escritos, no entanto, nunca foram publicados ou estão fora de circulação.

A Companhia das Letras planeja publicar todo o material escrito por Carolina – hoje espalhado por diferentes acervos -, incluindo romances, diários, contos, poesias, peças de teatro e escritos memorialísticos.

Acesse a matéria publicada pelo Huffpost e entenda como será as publicações das obras de Carolina Maria de Jesus pela Companhia das Letras

Na luta por mais visibilidade no mercado editorial

Texto por Talita Facchini    

Neste episódio do Podcast do PublishNews, Jéssica Balbino e Ketty Valencio falam sobre a lista de 100 autoras pretas brasileiras criada por elas e a luta constante para dar mais visibilidade para esses autores

Os livros guardam centenas de milhares de histórias. São inúmeros assuntos tratados pelos mais diversos aspectos. Mas quando se trata dos autores, essa diversidade já não é tão grande. O podcast desta semana conversou com duas pessoas que acreditam que todas as narrativas transformam o mundo. Que cansaram de ouvir que não existem muitos livros publicados por negros e de aceitar a pouca presença de escritoras e escritores negros em eventos e feiras brasileiras. Eles estão sim por aí. Em todos os lugares. Basta querer enxergar.

Para facilitar essa busca, a jornalista, pesquisadora em literatura marginal e dona do site Margens, Jéssica Balbino, e a jornalista, com pós graduação em Projetos Culturais e proprietária da Livraria Africanidades, Ketty Valencio, uniram forças e criaram uma lista com mais de 100 autoras pretas e brasileiras para o leitor conhecer.

Ketty Valencio e Jéssica Balbino

Numa edição especial, só com a presença de mulheres, quisemos saber mais sobre como surgiu esta lista, sobre as inúmeras ideias que podem fazer a diferença e trazer os livros de autoras negras e a literatura africana para o centro das atenções e como elas enxergam o mercado editorial.

Jéssica contou que a ideia da lista surgiu a partir do pedido de outras mulheres. O mapeamento começou e veio de Ketty a ideia de tornar a lista pública. “A gente fez juntas a lista e quando ela estava meio pronta, mostrei para a Mel Duarte – que também frequenta muitos slams e faz parte do Slam das Minas em São Paulo – e ela sugeriu mais alguns nomes”, explicou Jéssica. A lista chegou a ter 137 nomes de autoras negras e depois de uma segunda avaliação, chegaram nos 100 nomes, cada uma com uma mini biografia e links para trabalhos já publicados. A lista agora está aberta para que autoras negras possam se automapear. “Creio que já temos aí mais de 200 mulheres mapeadas”, comemora Jéssica.

Ketty frisou também a importância da lista no sentido de mostrar para as pessoas que a literatura feita por mulheres negras não é uma novidade e nem deveria ser vista como tal. “É muito demarcador a questão do racismo e da misoginia quando você pensa que é novidade. Por que eu não conheço esses autores? Por que eu nunca vi isso? Por que eu nunca estudei? E essa lista potencializa a questão de não ter mais uma desculpa mesmo. Tem que consumir essas mulheres, ouvir o que elas têm a dizer”.

As duas falaram ainda sobre a participação de autores negros em feiras literárias, sobre como fazer a literatura africana circular, como trazer esses livros para a frente das grandes livrarias e o papel dos livreiros nessa disseminação. “O mercado editorial reflete o que a sociedade é o que a sociedade acredita. E não podemos romantizar isso porque a sociedade tem todas essas opressões. Ela ressalta todas essas opressões”, analisou Ketty. “Se o capitalismo é irmão do racismo e de outros ismos que a gente abomina, então o mercado editorial é isso também e depende de nós. Eu estou tentando reinventar a máquina com outros livreiros”, explicou. “O mercado editorial é reflexo da sociedade”.

O Podcast do PublishNews é um oferecimento da Metabooks, a mais completa e moderna plataforma de metadados para o mercado editorial brasileiro, da UmLivro, novo modelo de negócios para o mercado editorial: mais livros e mais vendas, e da Auti Books, dê ouvidos a sua imaginação, escute Audiobooks. Você também pode ouvir o programa pelo Spotify, iTunes, Google Podcasts, Overcast e YouTube.

Indicações

Site Margens

Instagram Margens

Lista de 100 escritoras pretas brasileiras para você conhecer

Instagram Jéssica Albino

Instagram Livraria Africanidades

Instagram Mel Duarte

Um defeito de cor – Ana Maria Gonçalves

Pequenos incêndio por toda parte – Celest Ng

Little fires everywhere – Netflix

Queen Sono – Netflix

Hannah Gadsby – Douglas – Netflix

O livro de Líbero (Intrínseca)

Fonte: PublishNews

A LITERATURA DE MULHERES PERIFÉRICAS

Conversamos com nove escritoras e poetas que usam a palavra como arma para transformar olhares e construir novas narrativas na literatura brasileira

Texto por Carolina Delboni

“Digam ao povo brasileiro que meu sonho era ser escritora, mas eu não tinha dinheiro para pagar uma editora”. A frase é de Carolina Maria de Jesus, escritora, negra, favelada e catadora de papel. Ela viveu às margens do seu tempo, mas não foi a única e nem a última. A literatura está cheia de textos produzidos por mulheres periféricas. Não são conhecidas pela grande mídia, procuradas pelas grandes editoras nem têm uma orla de seguidores nas redes sociais. São mulheres que vivem na periferia, da sociedade e na própria geografia da cidade. Muitas, não por acaso, são negras.

A arte salva e não há literatura que não seja capaz de ser ferramenta de transformação social. Não à toa, essas mulheres poetizaram a própria existência – para existir. Mulheres que encontraram moradia na escrita. Existir é exercício diário no mundo, mas existir na própria periferia do mundo é um trabalho muito mais árduo. Demanda doses extras de oxigênio, que é outra coisa que parece andar em falta. Mas, enquanto o mundo entra em colapso, são exatamente as mulheres periféricas que nos lembram de que é preciso peito pra viver – ou sobreviver.

Carolina Maria de Jesus Crédito: Reprodução/Acervo Instituto Moreira Salles

Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de JesusCrédito: Reprodução/Acervo Instituto Moreira Salles

Carolina Maria de Jesus poetizou sua existência. Aos 33 anos, desempregada e grávida, mudou-se de Minas para a favela do Canindé, na zona norte da capital paulista. Trabalhava como catadora de papel e, nas horas vagas, registrava o cotidiano da favela em cadernos que encontrava no lixo que recolhia. Um destes diários deu origem a seu primeiro livro, Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada, publicado em 1960. A obra virou best-seller.

Muitas outras poetizam diariamente a mulher periférica brasileira. Elas afloram, na sociedade, uma possibilidade de literatura. Entre livros, publicações acadêmicas, redes sociais, coletivos, saraus, o que for. Mulheres que ampliam olhares para um lugar onde a sociedade não está acostumada a olhar. De onde isolamento social é justificativa pra nascer projeto coletivo. De onde pandemia impulsiona cultura. Porque a literatura de mulheres periféricas salva.

A Tpm conversou com nove escritoras e poetas que usam as palavras para transformar olhares e construir novas narrativas na literatura brasileira.

Acesse a matéria completa em Revista TRIP e conheça as outras autoras. 

Racismo e literatura: Escritoras dão voz à herança africana no Brasil

Texto por Jovem Pan

A poetisa Dinha é uma das autoras negras brasileiras que refletem, por meio de suas obras, os impactos do racismo silenciado no país

O Brasil é o país com o maior número de afrodescendentes no mundo. No entanto, sua herança africana tem sido oficialmente relegada há décadas, e o racismo, silenciado.

Hoje, várias autoras brasileiras estão buscando mudar esse quadro, desde escritoras de ficção consagradas, como Conceição Evaristo, passando pela poetisa underground Dinha, à contadora de histórias infantis Avani Souza Silva. Dar voz à cultura africana no Brasil e combater a discriminação racial é o compromisso literário dessas mulheres.

Negra e periférica

Dinha – apelido da escritora Maria Nilda de Carvalho Mota – define-se como uma “mulher negra e periférica” que encontrou na literatura um refúgio onde “ninguém pode calar” sua voz.

Sua poesia, segundo suas próprias palavras, é um alto-falante para justificar a história do povo afro-brasileiro, condenado ao “silêncio” e reduzido à “escravidão” em um país de 210 milhões de habitantes, onde mais da metade da população é negra.

Dinha passou boa parte de seus 42 anos denunciando “um genocídio contra a população negra”. Enquanto estudava Letras na Universidade de São Paulo (USP), Dinha fez parte de movimentos sociais ligados à cultura hip hop na periferia de São Paulo e encontrou uma situação “horrível” e “vergonhosa” em relação à falta de estudos sobre literatura africana e afro-brasileira no currículo da faculdade.

A consciência desse déficit a marcou para sempre. “Sei que escrever não é suficiente, mas é uma parte importante da formação do imaginário social”, disse.

Em seu último livro de poemas, “Maria do povo” (Edições Me Parió Revolução, 2019), ela quis homenagear “pessoas comuns”, sem deixar de lado questões de gênero, raça e classe, que são sempre pontos fundamentais em sua obra.

Em 2015, ela publicou um livro que a colocou no radar da poesia independente e a tornou uma referência no movimento negro: “Zero a Zero: 15 poemas contra o genocídio da população negra”, no qual denuncia a violência machista e policial.

Segundo a poetisa, as primeiras conquistas na luta contra o racismo foram deixar de lado “a visão eurocêntrica” e deixar de “resumir a escravidão” à história dos povos africanos e seus descendentes “no Brasil e no mundo”.

Contos africanos

Avani Souza Silva, 67 anos, é autora de “A África recontada para crianças” (Martin Claret Editora, 2020).

O livro ilustrado, que acaba de ser lançado, traz fábulas contadas nos cinco países africanos de língua portuguesa (Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné Bissau, Moçambique e Angola) com o objetivo de trazer à população brasileira a cultura africana “que sempre foi esquecida” no Brasil.

Um exemplo é o “Ti Lobo”, de Cabo Verde, muito diferente do animal feroz pintado em fábulas europeias. Esse lobo africano alimenta-se de figos e é uma figura alegórica da seca e da fome que assolou o arquipélago durante gerações.

“A formação étnica do povo brasileiro é composta por três povos: o europeu, o africano e o indígena”, mas, em contraste, nas escolas do país “a história e a literatura da Europa sempre foram estudadas”, afirmou ela. Por outro lado, acrescentou, “basta olhar para os brasileiros” para perceber que “o brasileiro é negro” e “africano”.

Avani contou ainda que, antes de chegar à USP, onde se formou em Letras Clássicas e Vernáculas, “não tinha contato com o continente africano” e “sequer lido nenhum autor africano”, algo comum entre “a maioria do povo brasileiro”.

No entanto, ela acredita que, nos últimos anos, o Brasil deu um “grande passo” após aprovar duas leis, em 2003 e 2008, que tornaram obrigatório o ensino de história e cultura africana e indígena nos programas de educação básica do país.

Apesar de ainda ser uma realidade “muito incipiente” nas escolas brasileiras, que carecem de material didático e investimento na formação de professores, ela se mostra convicta da necessidade de divulgar as culturas africanas e indígenas para combater o racismo.

“Respeitá-la (literatura africana), amá-la, perceber a identidade cultural que temos com alguns países africanos é muito importante” para “ter mais tolerância”, declarou.

De empregada doméstica a escritora premiada

Afrobrasilidade, raça, gênero e classe também são temas que preencheram as páginas da obra de Conceição Evaristo, ex-empregada doméstica que se tornou um ícone do movimento negro no Brasil antes mesmo de receber o prêmio Jabuti em 2019.

Entre suas obras mais conhecidas está o romance “Ponciá Viencio” (Mazza, 2003), onde a escritora narra a trajetória de vida de uma jovem negra e pobre mulher em busca de sua identidade.

“Faço parte de uma geração que, na escrita, busca muito a afirmação de uma identidade negra” e “conta com orgulho essa identidade”, disse a escritora, de 74 anos, em entrevista ao centro Itaú Cultural.

Através da literatura, ela pretende revelar sua “subjetividade como mulher negra na sociedade brasileira” e “lutar para criar textos que se distanciem da literatura que nos estereotipa”.

Ao criar “outro imaginário” que se distancia da “ideologia que a sociedade” tem da população negra, a escritora defende que a principal função de sua obra é atuar como “vigilante”.

*Com EFE

Fonte: Jovem Pan

A genialidade — e a melancolia — de Lima Barreto, um dos maiores nomes da literatura brasileira

Barreto enfrentava sérios problemas com o alcoolismo e teve um triste fim; sendo impedido de ver o sucesso de suas obras

Texto por Penélope Coelho

Lima Barreto, em 1917 – Wikimedia Commons

“Não é só a morte que iguala a gente. O crime, a doença e a loucura também acabam com as diferenças que a gente inventa”, a frase dita pelo escritor e jornalista Afonso Henrique de Lima Barreto, representa significativamente sua luta e também os últimos anos de sua vida.

Barreto tem uma trajetória de extrema importância para a literatura nacional no século 20, sendo um exímio escritor romancista, tratava de assuntos como o preconceito, racismo e problemas sociais. O autor não teve o reconhecimento que merecia em vida e suas obras ficaram conhecidas somente 20 anos depois da morte.

Triste infância

Em 13 de maio de 1881, no Rio de Janeiro, nascia Lima Barreto, de família humilde, o homem era descendente de escravos e desde cedo já enfrentava preconceitos. Ainda criança, sofreu uma grande perda em sua vida diante do falecimento precoce de sua mãe, uma professora primária.

Seu pai lutou com todas as forças para conseguir criar os filhos, mas, foi acometido por uma doença mental e acabou enlouquecendo, isso fez com que ainda muito jovem, Barreto se tornasse um dos responsáveis pela sua casa e uma referência para os seus três irmãos. Contrariando as estatísticas, ele se matriculou na Escola Politécnica, no curso de Engenharia, mas, abandonou a faculdade para se dedicar à sua família.

Início da carreira e alcoolismo

Apesar de contribuir para jornais desde a faculdade, Lima fez sua primeira grande aparição como jornalista em abril de 1907, quando escreveu algumas sátiras para a antiga revista Fon-Fon. Mas, a verdade é que o escritor já se dedicava há um tempo para a literatura.

O autor tratava de temas socioeconômicos e costumava evidenciar histórias de personagens negros. Em 1904, ele começou a escrever a primeira versão de seu romance Clara dos Anjos, abrangendo questões sobre a escravidão no Brasil, onde a jovem Clara, uma mulher negra, se envolve com um homem branco. O escritor não chegou a ver esse livro publicado.

Em 1911, Lima escreveu rapidamente aquela que viria a ser uma de suas maiores obras: O Triste Fim de Policarpo Quaresma — um romance do pré-modernismo considerado um dos principais representantes desse movimento. Essa história foi levado ao público pela primeira vez no formato de folhetim, para depois se tornar um livro.

Em suas escritas críticas o artista demonstrava muita personalidade, mas, em sua vida pessoal o homem vinha enfrentando sérios problemas. Em 1912, ele continuava colaborando com a imprensa, no entanto, começou a apresentar alguns episódios de alucinação e depressão ao mesmo tempo em que abusava do uso de álcool.

Em 1914 foi internado no manicômio conhecido como Hospital Nacional dos Alienados. Por um tempo, Barreto conseguiu proceder com a escrita e chegou a ver a publicação de O Triste Fim de Policarpo Quaresma, em 1915, para isso, ele tirou dinheiro do próprio bolso.

Busto de Lima Barreto no Rio de Janeiro / Crédito: Wikimedia Commons

O Triste Fim de um gênio

Seus dias finais foram extremamente solitários, o homem acabou se aposentando precocemente em 1918, já que não tinha mais condições de escrever como jornalista. O fantasma do alcoolismo e a depressão ainda estavam presentes em sua vida e a saúde do autor estava cada vez pior.

Em 1919, após uma série de crises nervosas, foi internado no manicômio novamente, essa triste experiência rendeu mais uma de suas obras: Cemitério dos Vivos, na qual o relata a realidade e a rotina que ele vivenciou no hospício. Devido ao uso exacerbado do álcool, o jornalista desenvolveu alguns problemas de saúde. Acabou morrendo sozinho em sua casa, no bairro de Todos os Santos, Rio de Janeiro.

Isso aconteceu no primeiro dia de novembro do ano de 1922, em decorrência de um ataque cardíaco. Seu pai faleceu apenas dois dias depois do filho e eles foram sepultados no cemitério de São João Batista.

A maioria de suas obras foi publicada após sua morte, nas décadas de 1940 e 1950, diante de uma extensa pesquisa encabeçada pelo biógrafo Francisco de Assis Barbosa. Mesmo que não tenha visto seus textos se tornarem grandes clássicos nacionais, Lima Barreto é um dos maiores nomes da literatura brasileira.

Sem medo de falar sobre preconceito e problemas sociais enfrentados por negros e mulatos, o autor é um dos grandes representantes dessa luta, em uma época onde o assunto não era evidenciado.

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Fonte: Aventuras na História

Tesouro da selva: conheça grande obras de escritores amazonenses

Texto por Ana Gadelha

O Amazonas é lar de escritores com trajetórias de sucesso nacional e internacionalmente

Thiago de Mello, Tenório Telles, Milton Hatoum,Márcio Souza e Aldisio Filgueira | Foto: Divulgação

Manaus – A terra do açaí e do tucumã também é lar de vários autores renomados do cenário literário brasileiro. O Amazonas exportou grandes nomes que tiveram trabalhos publicados em várias línguas e passaram por diversos países. O Portal EM TEMPO listou algumas das principais obras de Milton Hatoum, Márcio Souza, Aldisio Filgueira, Tenório Telles e Thiago de Mello.

Milton Hatoum | Foto: Divulgação

Dois irmãos – Milton Hatoum

O segundo romance do aclamado escritor amazonense Milton Hatoum foi lançado em 2000, ganhou o Prêmio Jabuti de literatura brasileira na categoria de Melhor Romance e foi publicado nos Estados Unidos e diversos países da Europa. Passando-se em Manaus na época do Regime Militar, o livro narra a história da relação conturbada entre dois irmãos gêmeos, Yaqub e Omar, de uma família de ascendência libanesa.

Junto com a família, moram Domingas, a empregada, e seu filho, um menino cuja infância é moldada justamente por esta condição: ser o filho da empregada. É este menino que, trinta anos depois dos acontecimentos, vai contar o que testemunhou calado: histórias de personagens que se entregaram ao incesto, à vingança e à paixão desmesurada. O livro virou minissérie.

Márcio Souza | Foto: Divulgação

Galvez – Imperador do Acre – Márcio Souza

O livro marcou a estreia de Márcio Souza no meio literário, em 1976, e lhe concedeu o prêmio de escritor revelação da Associação Paulista de Críticos de Arte. A revista de críticas New Yorker definiu: “O livro é ao mesmo tempo uma delícia de comicidade e um conjunto de poucos prováveis, meio verdadeiras aventuras, recontadas com perícia e economia”.

A obra conta a vida e a prodigiosa aventura de Dom Luiz Galvez Rodrigues de Aria nas fabulosas capitais amazônicas, e a burlesca conquista do território acreano contada com perfeito e justo equilíbrio de raciocínio, para a delícia dos leitores. Ambientado no fim do século XIX, mostra como o rápido avanço da revolução industrial multiplicou a demanda da borracha.

Mad Maria – Marcio Souza

O livro relata os episódios mais macabros e inacreditáveis dos registros históricos da construção da ferrovia, focando-se num período de três meses, Márcio Souza força o leitor a confrontar o inferno. A ferrovia Madeira-Mamoré integraria uma região rica em látex na Bolívia com a Amazônia, mas encontrou obstáculos descomunais: 19 cataratas, 227 milhas de pântanos e desfiladeiros, centenas de cobras e escorpiões, a exuberância da floresta amazônica além da malária.

As obras inacabadas deixaram um saldo de 3,6 mil homens mortos, 30 mil hospitalizados e uma fortuna em dólares desperdiçada na selva. O engenheiro inglês Stephan Collier comandava com mãos de ferro a construção da ferrovia, liderando um enorme grupo de homens de todo o mundo, indispostos entre si, no meio de uma floresta selvagem, ameaçados por toda a sorte de infortúnios. O livro também virou minissérie.

Aldisio Filgueiras | Foto: Divulgação

 Estado De Sítio – Aldisio Filgueira

Estado de Sítio foi a primeira obra de Aldisio Filgueira, publicada em 1968, e ganhou nova versão em 2018, contando a trajetória literária do autor. Enuncia um posicionamento diante do mundo, ao mesmo tempo em que labora sua lírica com fundamento filosófico e estético.

Cidades do Puro Nada – Aldisio Filgueira

Livro mais recente do autor Aldisio Filgueira, a obra reúne poesias com o tema mais celebrado do escritor: a cidade de Manaus. Com tom de crítica social, Aldisio descreve sobre o crescimento populacional desenfreado na capital do Amazonas.

Tenório Telles | Foto: Divulgação

Renovação – Tenório Telles

A coletânea de crônicas do amazonense Tenório Telles, lançada em 2013, reúne obras publicadas ao longo de 15 anos de carreira do autor, com reflexões sobre acontecimentos cotidianos e temas sociais. A vida ganha com este livro um sentido superior, e a sua preocupação está em apelar para os homens para que eles não se esqueçam de que cada ação traz com ela as suas consequências, sejam boas ou más. Tenório Telles quer que os seus leitores conheçam as situações e as personalidades que mudaram o curso da História.

Thiago de Mello | Foto: Divulgação

Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar – Thiago de Mello

O livro resgata os contornos verdadeiros das coisas e das almas – o amor ferido, as cantigas de roda, o açude, a fome, os sem-terra, entre outros. Em sua obra, Thiago de Mello inspira coragem e reacende a esperança de dias melhores.

Os Estatutos do Homem – Thiago de Mello

O livro de poemas se consagrou como um dos mais famosos da literatura brasileira. Este poema é uma afirmação dos valores eternos do homem. Na edição mais atual, há um depoimento de Pablo Neruda, poeta de quem Thiago foi muito amigo.

Fonte: D.emtempo

Bibliotecária Suzana Mafra comenta importância do Dia Nacional do Livro Infantil

Texto por Jaison Lorenceti

Bibliotecária Suzana Mafra

Neste sábado, 18, comemora-se o Dia Nacional do Livro Infantil e Dia de Monteiro Lobato. A data também é reservada para o Dia do Amigo. Num universo tão amplo de possibilidades, o livro é sempre uma boa companhia, principalmente em tempos de pandemia.

O distanciamento social criou desafios para superar aspectos da quarentena. No caso das crianças, a suspensão das atividades escolares e dos centros de educação infantil, fez quem os pais e tutores responsáveis tenham que inovar na hora de brincar e lidar com o ensino dos menores.

A bibliotecária brusquense, Suzana Mafra, concedeu entrevista ao vivo no Programa Da Hora para comentar sobre a importância da leitura ao público infantil.

Este é um período diferente que a gente vive, inédito; estamos invadidos por diversas mídias e também pode ser aproveitado para novos conhecimentos e hoje pela data eu recomendo a leitura do Monteiro Lobato”, destacou.

Suzana enfatizou que o conhecimento do público em geral das obras de Lobato é muito ligado aos conteúdos televisivos, com releituras da obra do escritor, considerado o maior autor nacional da literatura infantil. Porém, Suzana recomenda o toque e o envolvimento das crianças com os livros.

Ainda sim recomendo aos pais e a famílias que busquem pelo menos um livro do Lobato, e apresentem aos seus filhos. Ele foi um autor que viveu bastante e teve tempo de rever em vida toda a sua obra – principalmente a infantil”, destacou.

De acordo com a escritora, o acesso das obras é possível através da internet e na própria Biblioteca Pública Ary Cabral.

O Dia de Monteiro Lobato, também conhecido como Dia Nacional do Livro Infantil

Como estaria Monteiro Lobato, com este coração enorme pelo Brasil e pelas crianças no dia de hoje, diante deste tempo; ele foi um amigo do nosso país e teria muito o que dizer neste momento”, ressaltou.

Sobre o contato com a leitura, Suzana comentou que é importante inserir na vida dos filhos e utilizar de momentos distintos para apresentar obras literárias, que ajudam no desenvolvimento das crianças.

Vejo que os pais buscam orientar os filhos, mas o sistema, como está estruturado, essa velocidade toda, fica um pouco complicado, porém, é preciso apresentar a leitura pois a criança vai absorver aquilo que ela está pronta (os pais e professores são pontes) ”, explicou.

Segundo Monteiro Lobato: “Um país se faz com homens e livros.”

Sobre o catálogo de obras literárias infantis, Suzana chamou atenção para obras que tenham conteúdo didático.

Nós vivemos um momento de editoras de livros nunca vistos, somos tentados a comprar pela capa (o design evoluiu), então penso que livro é investimento e acho que a criança menor brinca, hoje é um objeto de decoração e não mais aquele objeto de guardar. Não deve ser mais um bem permanente e sim consumido, estar próximo”, ponderou.

Suzana Mafra é autora de livros infantis, poeta e bibliotecária

Suzana é autora dos livros Borboletras: poemas curtos que voam, pela Editora da UFSC, e e50 crônicas escolhidas, ambos pela Design Editora. Em 2010, ganhou o Primeiro lugar no concurso OFF FLIP poesia e recebeu menção honrosa no Prêmio Hernâni Cidade, de Portugal. Atua como bibliotecária na Biblioteca Pública de Brusque, onde desenvolve projetos de incentivo à leitura. Para as crianças, publicou o livro O Anjo Avoado, em parceria com a ilustradora Márcia Cardeal, pela editora Nova Letra.

Fonte: Rádio Diplomata

Doutor em literatura fala da importância de Monteiro Lobato

No Dia Nacional do Livro Infantil, o professor da UFSCar, Wilson Alves Bezerra, também dá dicas de livros para desfrutar na quarentena; confira

Texto por Flávio Mesquita

Sítio do Picapau Amarelo. Foto ilustrativa/ Arquivo

18 de abril de 1882. Esta foi a data de nascimento de um dos maiores escritores brasileiros, aquele que tem até hoje as obras infantis mais vendidas e com dezenas de adaptações para o cinema e para a televisão.

Nós estamos falando, é claro, de Monteiro Lobato. Dentre as várias obras, o Sítio do Picapau Amarelo foi a grande marca das obras infantis, publicada inicialmente em 1920, no livro “a menina do narizinho arrebitado”.

Segundo o professor do departamento de letras da UFSCar e doutor em literatura, Wilson Alves Bezerra, Lobato é o grande ícone da literatura infantil brasileira. “Monteiro Lobato é uma figura central da cultura brasileira. Ali na virada do século XIX para o século XX, ele foi pioneiro da indústria editorial, ele tinha a editora do Brasil. Ele foi um grande difusor da cultura com a revista do Brasil. E ele foi o nosso primeiro grande autor de livros infantis, com a Emília, com o Sítio do Picapau Amarelo. Então, ele é uma figura chave, uma figura inescapável da nossa cultura. Acho muito merecido que o nascimento dele seja o dia do livro infantil”, disse Bezerra.

Embora a importância de Monteiro Lobato seja inegável para a literatura infantil, nos últimos anos, suas obras foram questionadas quanto a referências racistas. Wilson Bezerra diz que é importante compreender o contexto em que a obras foram produzidas. “A gente tem percebido cada vez mais que existem aspectos do preconceito racial, do racismo, contra os negros na literatura dele. O que a gente faz diante disso? Vamos expurgar o Monteiro Lobato da história literária brasileira? Evidentemente que não. A gente tem que entender que o Lobato é um filho das elites brasileiras da virada do século XIX, ele nasceu em 1882 durante a escravidão no Brasil. O racismo faz parte do caldo cultural no qual ele se formou”, disse.

Monteiro Lobato

Como estamos falando em Dia Nacional do Livro Infantil, o professor traz algumas dicas de leituras nesse momento de quarentena. “Eu pensei em um livro de uma autora chamada Bianca Santana, chamado ‘Quando eu me descobri negra’, são pequenos relatos dessa autora contando como crianças que não são brancas, que não tem esse biótico caucasiano, como é que elas sofrem”, recomendou o professor.  

“Outro livro que eu acho bem bonito é o livro do Drauzio Varella, chamado ‘Nas ruas do Braz’, ele conta as memórias da infância dele, chegando sozinho ali nesse bairro italiano do Braz”, concluiu Bezerra.

Além dessas dicas do professor Wilson Bezerra, quem quiser conferir as obras de Monteiro Lobato, é só acessar a biblioteca digital nacional do Rio de Janeiro. Todas as obras do autor estão disponíveis para leitura. É só acessar http://bndigital.bn.gov.br.  

Quem prefere as adaptações infantis para o cinema, é só procurar pelas obras na cinemateca brasileira, em cinemateca.org.br.

Fonte: ACidadeON/São Carlos

“A literatura tem permitido que crianças negras se valorizem como tal”

Autora de livros infantis sobre racismo e direitos humanos, Kiusam de Oliveira é também professora e se inspirou em sua própria experiência com o preconceito para escrever histórias

Marília Marasciulo

Kiusam de Oliveira escreve livros infantis sobre temas como racismo e empoderamento (Foto: Reprodução/Facebook)

A autora de livros infantis Kiusam de Oliveira, 54 anos, abraçou uma causa nada simples: tratar de temas espinhosos como racismo e direitos humanos de uma forma que crianças compreendam, se identifiquem e, o mais importante, se encantem. Para isso, buscou na sua própria experiência e vivência como estudante e professora negra a inspiração para histórias que hoje são tidas como referência na educação infantil.

Nascida em Santo André, na Grande São Paulo, Oliveira é filha de uma tricoteira que sempre priorizou a educação. “Minha mãe, mesmo muito pobre, primava pelos estudos e dizia: ‘nós vamos dividir um ovo em quatro partes, mas você vai ter uma educação de qualidade’”, lembra a autora. Aos 14 anos, começou a cursar Magistério de 2º Grau, seguiu na Pedagogia, obteve especialização em deficiência intelectual, mestrado em Psicologia Escolar e doutorado em Educação.

Mas, além da carreira no magistério, e também por influência da mãe, Oliveira sempre gostou de escrever. “Ela fazia capangas [tipo de bolsa] e colocava dentro dos bolsos cadernetinhas com lápis pequenos e me dizia para escrever”, lembra a autora. Foi em algumas destas centenas de cadernetas — ela conta mais de 150 — que a autora encontrou as temáticas para suas histórias.

Em 2009, lançou seu primeiro livro: Omo-Oba: Histórias de Princesas, no qual contos e mitos de orixás femininos ganharam forma de princesas. Em 2013, publicou seu maior sucesso, O Mundo no Black Power de Tayó, em que questiona estereótipos racistas a partir do empoderamento de uma menina negra de 6 anos de idade. No ano seguinte, com O Mar que Banha a Ilha de Goré, a autora se aprofundou ainda mais nos temas, usando a viagem da protagonista, uma menina de 9 anos, para o Senegal, para abordar a história do tráfico de seres humanos escravizados durante a colonização europeia das Américas.

Agora, ela se prepara para lançar dois novos títulos em abril: O Mundo de Tayó em Quadrinhos e O mundo no Black Power de Akin, uma esperada versão de Tayó para meninos. “Entendo que essa literatura que eu faço, que chamo de literatura infantil negro-brasileira do encantamento, ajuda a criança negra a se reencontrar, a trazer esse encantamento ou reencantamento para seu corpo”, diz a autora. A seguir, ela fala mais sobre infância, racismo e educação:

Você sofreu os preconceitos que combate hoje durante a sua infância em Santo André?
Conheci as marcas do racismo em uma escola de freiras perto de casa, para onde fui quando estava próxima de completar 6 anos. Vou contar uma situação que foi muito marcante, para que as pessoas consigam compreender as marcas da violência na vida da gente. Eu não conseguia segurar meu xixi, e tinha uma necessidade ir ao banheiro imediatamente, com um atestado para isso. Um dia minha professora faltou e veio a diretora, ela era muito temida por nós. Ela dizia: “eu sou uma alemã de 2 metros de altura e vocês vão ter que me engolir.” Dava pavor.

Eu senti vontade de fazer xixi, levantei e pedi autorização para ir ao banheiro. Ela não autorizou, pediu para eu sentar novamente, e quando eu abri a perna para me movimentar e retornar à minha carteira, fiz xixi ali. Ela se levantou, agarrou a minha orelha, foi me arrastando, me levou ao banheiro, tirou minha roupa, abriu o chuveiro e me jogou embaixo da água fria. Comecei a chorar muito, gritava, porque tinha esperança da minha mãe me ouvir da nossa casa. Nisso ela pegou um tufo de papel higiênico e colocou dentro da minha boca. Aquilo rasgou minha gengiva, eu me lembro da água caindo com sangue. Aí ela saiu. Quando voltou, estava com todos os alunos da minha sala. As crianças começaram a rir e a gritar: “a macaca tá pelada, a macaca tá pelada!”.

Aí ela disse assim: “olhem bem para o que vocês estão vendo, é assim que todo preto deve ser tratado”. Isso pra mim foi muito marcante, porque minha mãe falava em casa sobre o racismo, e eu não entendia, eu era uma criança. Fui entender nesse dia.

Como essas vivências influenciaram sua escolha pela carreira no magistério?
Quando fui fazer uma habilitação na USP, na década de 1990, na área de deficiência intelectual, conheci grupos de estudos de formação de professores. E nesses grupos estudavam memórias que a gente tinha enquanto estudantes de pedagogia, e que a gente carregava na prática do magistério. Foi nele que consegui me lembrar de uma agressão racista de um professor de geografia. Hoje posso dizer que minha escolha de atuar como professora vem dessa potência de entender o quanto um professor e uma professora são capazes de determinar a vida de um estudante.

E depois de tantos anos, acha que a situação nas escolas melhorou?
A educação ganhou um novo corpo a partir da Lei Federal 10639, de 2003, que obriga o ensino da história da África nas escolas brasileiras. Foi tão importante que conseguiu alterar a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Ela obrigou professores e profissionais da educação a olharem para a diversidade de uma outra forma, que valoriza, compreende e respeita. E pensar em projetos e ações a partir das falas e dos comportamentos das crianças, jovens e adultos em sala de aula.

Falo desta lei sempre com muita cerimônia, muito respeito, porque pra mim é uma lei revolucionária que alterou o padrão da educação brasileira desde a sua criação. Ela é tão revolucionária que não foca somente no espaço da sala de aula, ela obriga os profissionais da educação a se verem e se olharem. Nós precisamos nos olhar e refletir sobre a educação que tivemos: o que a vó falava sobre negros dentro de casa, a mãe, o pai, os filhos… que cenas racistas você viu quando foi para o mercado, como se portou, o que sentiu. É preciso olhar para isso.

Por que educar os professores faz parte da luta contra o racismo?
Trabalhei com formação de professores nos últimos 20 anos no Brasil inteiro, e as professoras adoram contar esse mesmo caso, o do aluno que reclama: “professora, fulana está me chamando de negrinha.” E eu pergunto: “e aí, qual foi a sua resposta?”. Elas costumam responder: “ué, eu falei, você não é negrinha mesmo?” E ainda complementam: “por que o próprio negro é racista?” Esse é um estereótipo para cima do negro.

Um estereótipo recorrente e reforçado na sala de aula.
Primeiro, vou dizer o seguinte: nao tem como negro ser racista, assim como não tem homem ser feminista, mulher machista. O que tem de possibilidade é no máximo reproduzirmos a forma com a qual somos tratados. Então, se eu recebo práticas racistas, e sou chamada de negrinha o tempo todo e passo a minha infância passando por situações violentas e de exclusão, uma hora eu vou querer não ser mais quem eu sou, vou me negar. Em algum momento dessa negação, vou preferir achar que tenho forças para alterar minha forma de ser e me tornar parecida com quem eu quero ser, que é uma pessoa branca. Vou alisar meu cabelo, vou usar certo tipo de roupa, tentar ser discreta nas cores (que é outro estereótipo). Mas isso não quer dizer que a pessoa está sendo racista, porque o conceito de racismo está atrelado a poder, poder real e concreto, coisa que o negro não tem.

De onde veio a inspiração para criar suas histórias?
Escrevo desde criança. Minha mãe era crocheteira e tricoteira, ela fazia capangas, e colocava dentro dos bolsos cadernetinhas com lápis pequenos e me dizia para escrever. Antes eu fazia garatujas, bolinhas, linhas. Com o tempo, aprendi a ler e a escrever, e aí comecei a trabalhar as letras dentro do modelo formal de escrita. Assim registrei as coisas. O incrível é que minha mãe guardou todas as minhas cadernetinhas. Tenho mais de 150 com histórias escritas, é um material que tem uma potência gigantesca com a forma que eu pensava, e há textos focados na questão racial desde a infância. Infelizmente, é uma questão que permanece, o corpo da criança negra é marcado pelo racismo. Todas as histórias que escrevo são reais. São experiências vistas, vividas, ouvidas por mim enquanto professora e como negra.

Como as crianças reagem aos seus livros?
Tem um vídeo que mostra um grupo de professoras trabalhando com o primeiro livro que eu lancei, Omo-Oba: Histórias de Princesas, e é notório perceber como as crianças receberam o livro naquela época. Foi muito surpreendente, porque elas olhavam e diziam que aquelas princesas eram falsas, de mentira, mas o mais comum era ouvir delas o que eram feias porque são pretas. Havia uma rejeição por parte de crianças negras e não negras. O livro foi lançado em 2009, e de lá para cá, especialmente nos últimos cinco anos, tenho percebido pelas cartas que recebo dos leitores que as crianças escolhem uma princesa e dizem “eu me pareço com tal”. É isso, porque nessa história eu trabalhei arquétipos femininos, então as crianças vão se identificando com aquilo para além da aparência.

Por que é tão importante trabalhar a identidade na literatura infantil?
Quando conto a história da Tayó, do meu livro O Mundo no Black Power de Tayó, muitas crianças de 5, 6 anos, verbalizam ali, no coletivo, “nossa, eu sou igual a Tayó, então eu sou negra?”. Tayó é uma personagem superempoderada, que se sabe linda porque se vê pelos olhos da mãe dela. Isso é o encantamento, ela nao se sabia negra, mas que bom que com 5, 6, 7 anos ela está tendo condições pela literatura hoje de se entender, se reconhecer e se valorizar enquanto negra. Dei aula até o ano passado na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), e recebia jovens com 25 anos, que relatavam que tinham acabado de se descobrir como negras.

Trecho de O Mundo de Tayó, de Kiusam de Oliveira (Foto: Divulgação)

Há alguns elementos recorrentes nas suas histórias, como a ancestralidade e o cabelo black power. Por que escolheu trabalhar com eles?
Esses são os elementos que faltam na literatura brasileira focada para os públicos infantil e juvenil. São elementos que os autores sempre tiveram grandes problemas para trabalhar. Ancestralidade é algo que é fundamental para qualquer origem étnico-racial, é um assunto visceral para todos e todas nós.

Para além disso, parto do princípio de que a África é o berço da humanidade, como cientistas já comprovaram há alguns anos. Para mim é o seguinte: independentemente da cor da pele, todos nós remontamos à África, então ancestralidade está em nós, acreditando nela ou não, basta olhar o legado de todas as pessoas que vieram antes da gente. Cabelo black power é recorrente, porque tanto no meio negro e no meio não negro ele continua a ser um assunto central. O cabelo crespo não é visto como bonito, como higiênico, como esteticamente coerente ou positivo.

Vivemos hoje em uma época de revisionismo e negacionismo histórico. Por que desconstruir o racismo é algo que ainda gera tantos embates e retrocessos?
Nós retornamos para um Brasil saído do… Eu ia usar a expressão colonialismo, mas nem vou, porque acho que ainda vivemos o colonialismo, a colonialidade está presente, e nós do movimento negro sempre pontuamos isso. O que acontece hoje é que está explícito. Como nós temos autoridades que não se furtam em demonstrar o seu racismo, por que os cidadãos comuns vão se furtar? Então quando temos um governo que coloca políticos todos alinhados em um mesmo pensamento de exclusão da população preta e desprezo pelo pobre, é isso que nós vamos ter: retrocesso. Não que esse retrocesso de práticas e pensamentos não existisse, ele sempre existiu, mas as pessoas eram mais discretas, se preocupavam com a forma como iam agir. Então é esse Brasil que estamos vivendo, capaz de olhar para mim, uma pessoa de 54 anos, e atirar uma pedra simplesmente porque estou com uma roupa branca.

Ao mesmo tempo, temos visto o tema entrar um pouco mais em pauta, aparecendo por exemplo no Oscar deste ano, cujo vencedor foi um curta justamente sobre black power. Que outros avanços você vê neste sentido?
O primeiro avanço que eu elencaria é toda a movimentação que os negros e negras estão conseguindo fazer nas redes sociais. As redes sociais se tornaram grandes plataformas de visibilidade coletiva. A gente consegue expor as práticas racistas, chamar as pessoas para o debate, com elas é impossível alguma pessoa dizer que o racismo não existe. Isso para mim é revolucionário. Outro espaço é a universidade, que vem sendo acessada por negros e negras. Isso é algo impagável, com o qual eu há 15 anos eu sonhava, mas não imaginava que alcançaríamos tanto.

Como seus livros podem transformar a relação de toda a sociedade com a cultura negra e africana?
Entendo que essa literatura que eu faço ajuda a criança negra a se reencontrar, a trazer esse encantamento ou reencantamento para seu corpo. Eu, por exemplo, era uma criança amada dentro da minha casa e na minha família, todos meu achavam linda, diziam que eu tinha olhos lindos, nariz lindo, boca linda. Mas cheguei na escola e conheci uma negação para meu ser e minha existência, e passei a não gostar mais de mim, a querer ser diferente para poder ser tratada com maior respeito. Então, neste caso, é um reencantamento. Para aquelas crianças que cresceram em lares onde pais e mães também viveram de forma visceral o racismo desse país, sem ter alguém para orientá-las de que “isso que fizeram com você é racismo, não aceite”, aí o primeiro momento é o encantamento de se entender como negra. Nós vivemos um tempo em que a literatura tem favorecido e proporcionado momentos dignos para que as crianças negras se reconheçam e se valorizem como tal. E isso é incrível.

Fonte: GALILEU

Biblioteca da USP homenageia a escritora Clarice Lispector

Por Elaine Patricia Cruz – Repórter da Agência Brasil – São Paulo

Para celebrar o centenário da escritora Clarice Lispector e o mês em que é celebrado o Dia Internacional da Mulher, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da Universidade de São Paulo (USP), vai expor trabalhos de 33 artistas nas quais eles analisam e refletem sobre a obra da escritora. A exposição A Imagem e a Palavra – Encontro com Clarice Lispector começa nesta segunda-feira (9) e ocorre até o dia 30 de abril.

Para a exposição serão apresentadas obras feitas com diversas técnicas, tais como gravuras, desenhos, pinturas, aquarelas, cerâmicas, fotografias e instalações artísticas. A visitação é gratuita. O objetivo é homenagear as mulheres por meio das obras da escritora.

“São produções desafiadoras para o artista visual. Porque envolvem a transformação, em imagens, da palavra de Clarice Lispector, que escreve de uma forma provocativa e que leva à reflexão”, disse Altina Felício, curadora e artista, que assina uma aquarela na exposição.

Clarice Lispector faria 100 anos no dia 10 de dezembro deste ano. Ela morreu um dia antes de completar 57 anos, em 1977, por complicações de um câncer no ovário. Dois meses antes ela lançou A Hora da Estrela, um de seus mais conhecidos romances. Clarice Lispector escreveu ainda A Paixão Segundo G.H., Perto do Coração Selvagem e Laços de Família, entre outros.

Ouça na Rádio MECClarice Lispector: vida e obra no Acervo da Rádio MEC

Fonte: Agência Brasil

Autores e livreiros relatam suas experiências com o livro digital

Seja no lugar de escritor, ou do leitor, nomes locais e nacionais observam os rumos e a adaptação ao suporte literário

O Kindle, da Amazon, é uma das tecnologias difundidas no Brasil para a leitura no suporte digital

O romance “A Sombra de um outro Mundo” (ficção científica), e-book da escritora cearense Mylena Araújo (28), já alcançou mais de 30 mil visualizações. Desde que começou a publicar nas plataformas digitais há quatro anos, ela comemora a possibilidade de interagir com os leitores em tempo real. Na sequência dessa publicação, surgiram o miniconto “Tereza” e a série de contos macabros “Lugar Nenhum”.

Habituada à plataforma de autopublicação do Wattpad, Mylena, contudo, não tem, como leitora, preferência entre livros digitais e físicos. Para a autora, existe uma complementariedade de ambos os formatos. “Não há uma versão melhor que a outra. Cada uma oferece aquilo de que o leitor necessita”, identifica.

A exemplo de Mylena, o autor L.M Ariviello (nome artístico do cearense Manoel Oliveira) costuma publicar seus textos no Wattpad. O segundo livro, “A Herdeira de Hélzius”, está disponível em versão impressa e digital. Com o e-book, Ariviello admite que a recepção da obra ainda é tímida. “Apesar de muita gente ler no formato digital hoje em dia, eu percebo certa resistência. Muitos leitores são tradicionais e preferem o livro físico mesmo”, destaca ele.

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Mylena Araújo conquistou seu público leitor pela ferramenta digital de autopublicação do WattpadFoto: Alexandre de Almeida

Segundo Alexandre Munhoz, gerente de Kindle no Brasil, os leitores passam a ler mais, quando adotam o livro digital. “E não necessariamente trocam um suporte pelo outro. Não vemos uma disputa (entre digital e impresso)”, reflete.

Vencedora do 4º Prêmio Kindle de Literatura com a obra “Dias Vazios”, a psicóloga e escritora carioca Bárbara Nonato acrescenta que muitos leitores ainda veem os livros digitais como “aperitivos” da versão impressa. Além de R$ 30 mil pelo prêmio da Amazon, ela ganhou a oportunidade de publicar seu novo livro no papel, por meio da Editora Nova Fronteira.

“Quando comecei a escrever, meu primeiro livro saiu impresso. Depois publiquei outros só no digital, e alguns leitores falavam ‘ah, quando sair impresso eu compro’. Hoje, vejo que tudo está mais amplo nesse sentido. Muita gente tem se adaptado à leitura digital”, observa a autora.

Grandeza

Para Angela Gutierrez, presidente da Academia Cearense de Letras, a grandeza de uma obra literária não se perde à medida que o leitor troca de suporte. “Machado de Assis continuará a ser um escritor extraordinário se sua obra for lida em um e-book. Mas leio pouco em suporte digital. Desde criança, me afeiçoei ao livro de papel. O prazer da leitura vem, claro, da qualidade intrínseca da obra, mas, algumas vezes, pode ser intensificado por certos paratextos que a apresentam”, conta a escritora.

Vencedor do prêmio Jabuti de Literatura em duas categorias, em 2018, o cearense Mailson Furtado chama atenção para a predominância de um “nicho” formado por leitores jovens no ambiente digital.

Segundo o autor de “À Cidade”, esse público “lê principalmente prosa, em sua grande maioria títulos categorizados como ‘young adults’, em suas diversas vertentes: fantasia, ficção científica, terror”, detalha. Mailson enfatiza que disponibilizar sua obra no formato digital ajudou-lhe a alcançar um público distinto do leitor do livro impresso.

Em 2011, a escritora cearense Julie Oliveira publicou uma “versão animada” de seu livro infantil, “Brincando com Matemática”, pela Conhecimento Editora, empresa na qual trabalhou como sócio-editora. A publicação saiu nos primórdios do livro digital no Brasil e, tanto sua concepção, como a recepção dos leitores, ganhou ares de experimentação.

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A escritora cearense Julie Oliveira teve experiência de produzir um e-book ainda antes da chegada da Amazon no mercado brasileiroFoto: Isanelle Nascimento

“Além disso, a editora não tinha muitos conhecimentos sobre esse mercado, tampouco recursos de investimento/marketing em torno desses suportes. Lembro que, curiosamente, os retornos de leitores que recebemos foram todos de pessoas sediadas em outros países. Pra mim, representou na época uma possibilidade de expandir as fronteiras a partir desses ‘novos formatos’”, reflete Julie.

Distinção

Os autores são unânimes em sinalizar como o livro impresso tem seu espaço consolidado no mercado livreiro (apesar da atual crise das livrarias) e apelos bem distintos em relação ao e-book. Sobre os pontos a favor da aquisição do suporte de leitura digital, dois dos itens mais sensíveis são a portabilidade e a questão do impacto ambiental.

“A vantagem principal seria a portabilidade, em um mundo cada vez mais fluído em tempo-espaço, isso conta demais. Entre outras, citaria, a depender dos dispositivos, a interação que se tem com o próprio texto, os hiperlinks, e por vezes até o contato direto com o autor”, elenca Mailson.

Ariviello se diz do “time que defende os e-books”, mesmo sem ter tido uma boa experiência quanto à formação de leitores via suporte digital. “Acho que eles são o futuro. É uma forma mais politicamente correta, não destrói o meio ambiente para criar papel. No Wattpad, você pode ter contato com outras pessoas que estão lendo aquele mesmo livro”, conta o autor cearense.

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L.M Ariviello observa como boa parte dos leitores ainda é muito fiel ao livro impressoFoto: Isanelle Nascimento

Rapidez

Julie Oliveira destaca como o e-book favorece a pesquisa de trechos específicos da obra, a interação com o acesso ao significado das palavras e links similares. E reforça a praticidade de armazenamento das obras e para carregar consigo os dispositivos.

“Esse é um ponto extraordinário, nesses tempos de malas que ‘tem que ser leves’. Além da quantidade de ‘autores independentes’ que tem se autopublicado e utilizado esses mecanismos para distribuição de suas obras”, acrescenta a escritora.

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Mailson Furtado destaca a presença de leitores jovens no “nicho” dos suportes de leitura digitalFoto: Helene Santos

Mailson Furtado complementa como a acolhida de todos os formatos é um caminho espontâneo para o autor encontrar seus leitores. “Creio que o escritor deve estar onde existam leitores, não podemos negar qualquer que seja o formato. Afinal, a literatura ali está”, observa.

Há 75 anos, morria Mário de Andrade, um dos maiores escritores do país

© André Hoff: Casa Mário de Andrade

O escritor foi um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna

Por Elaine Patricia Cruz – Repórter da Agência Brasil – São Paulo

Há 75 anos, o país perdia um de seus maiores escritores e críticos. Morria em São Paulo, no dia 25 de fevereiro de 1945, uma de nossas personalidades mais multifacetadas, que se definiu como “eu sou trezentos, trezentos e cinquenta”: o poeta, escritor, pesquisador, músico, folclorista, crítico de arte e primeiro gestor cultural do Brasil, Mário de Andrade.

“Quando eu morrer quero ficar, não contem aos meus inimigos, sepultado em minha cidade”, escrevera o poeta, que viveu, cresceu, produziu, morreu e foi sepultado em São Paulo.

Seu livro mais conhecido é Macunaíma, mas ele escreveu também Pauliceia Desvairada; Amar, Verbo Intransitivo; Ensaios sobre a Música Brasileira e Lira Paulistana
Seu livro mais conhecido é Macunaíma, mas ele escreveu também Pauliceia Desvairada; Amar, Verbo Intransitivo; Ensaios sobre a Música Brasileira e Lira Paulistana – André Hoff: Casa Mário de Andrade

Mário Raul de Morais Andrade nasceu na cidade de São Paulo em 1893, onde faleceu em 1945. Na infância estudou música, o que o levou a lecionar aulas particulares de piano. Também foi professor de história da música no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo.

Sua carreira literária teve início em 1917, com a publicação do livro Há uma Gota de Sangue em Cada Poema. Em 1922, com a publicação de Pauliceia Desvairada, ele colocou em prática seu projeto de renovação do país.

Além de sua carreira na música e na literatura, Mario de Andrade também dirigiu o Departamento de Cultura da Municipalidade Paulistana, mais tarde Secretaria Municipal da Cultura. Nesse departamento surgiu a ideia de criar uma biblioteca que servisse como depositária de toda a história cultural da cidade. Em 1960, essa biblioteca municipal paulistana, a segunda maior do país, recebeu o nome de Mário de Andrade.

Ele foi também um dos principais idealizadores do movimento modernista e da Semana de Arte Moderna, realizada em 1922. Seu livro mais conhecido é Macunaíma, mas ele escreveu também Amar, Verbo IntransitivoEnsaios sobre a Música Brasileira e Lira Paulistana.

“Parece assombroso uma pessoa ter produzido tanto quanto o Mário de Andrade. E em várias áreas. Ele tinha tempo para ser professor de piano, receber amigos, escrever cartas o tempo todo, de produzir romances e poesias, de gerir um departamento de cultura. É um exemplo para todas as gerações”, disse Marcelo Tápia, diretor geral da Rede de Museus-Casas Literários, em entrevista à Agência Brasil.

 Na infância estudou música, o que o levou a lecionar aulas particulares de piano
Na infância estudou música, o que o levou a lecionar aulas particulares de piano – André Hoff: Casa Mário de Andrade

Centenário da Casa Mário de Andrade

A casa onde ele viveu boa parte da vida, na Rua Lopes Chaves, na região da Barra Funda, é hoje um museu e este ano celebra 100 anos de sua construção. Foi nesta mesma casa, que ele definia como Morada do Coração Perdido e agora chamada de Casa Mário de Andrade, que ele morreu de enfarte, aos 51 anos.

Era nesse local que recebia os amigos, artistas e intelectuais, com quem criou a Semana de Arte Moderna; e onde dava aulas de piano. Foi nessa casa também que deixou viva a sua memória. “Saí desta morada que se chama o coração perdido e de repente não existi mais”, escreveu o poeta, certa vez. Nesse lugar ele viveu de 1921, um ano após ser construída, até 1945, quando morreu.

“Esse é um espaço de memória”, contou Marcelo Tápia, falando sobre a casa-museu. “Aqui é também um espaço de resistência porque se reporta a um tempo diverso e é ligado a um personagem que ajudou a fazer a história de São Paulo em vários aspectos, não só como escritor, mas também como professor de piano, como pesquisador da cultura popular e como primeiro diretor do Departamento Municipal de Cultura, o que seria hoje uma Secretaria de Cultura, com a preocupação de preservação do patrimônio e da memória”, disse ele.

“A mãe do Mário vendeu a casa que eles tinham lá no Largo do Paissandu e comprou esse conjunto de sobrados, projeto do famoso arquiteto Oscar Americano. Ela comprou esta casa [onde hoje é a Casa Mário de Andrade) para que morasse junto com uma irmã, a tia e uma filha. A segunda casa era para um irmão do Mário e a terceira seria para o Mário, quando ele se casasse. Como nunca se casou, ele permaneceu morando com a mãe aqui [na Casa Mário de Andrade]”, disse Marcelo Tápia.

Sua carreira literária teve início em 1917, com a publicação do livro Há uma Gota de Sangue em Cada Poema
Sua carreira literária teve início em 1917, com a publicação do livro Há uma Gota de Sangue em Cada Poema, por André Hoff: Casa Mário de Andrade

A casa guarda hoje apenas alguns objetos da época, pois boa parte do seu acervo foi levada para o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), da Universidade de São Paulo (USP). Um dos objetos que permanece no local é o piano em que dava aulas, além dos armários que projetou e mandou executar no Liceu de Artes e Ofícios. “Ele trouxe uma inovação à história do mobiliário brasileiro, com móveis feitos sob medida e com vidros para proteger os livros”, contou Tápia.

Para comemorar o centenário de construção dessa casa, o museu prepara, para meados deste ano, uma exposição da história sobre o uso da casa pela família de Mário de Andrade e, também, centro de estudos, teatro-escola, oficina cultural e, mais tarde, museu.

Edição: Aécio Amado

Fonte: Agência Brasil

Homenagem a Hilda Hilst abre comemorações dos 50 anos do MIS

‘Revelando Hilda Hilst’ celebra 90 anos do nascimento da da escritora, poeta e dramaturga

Por: Redação

A grande escritora, poeta e dramaturga paulista Hilda Hilst (1930-2004) abre as comemorações do aniversário de 50 anos do Museu da Imagem e do Som (MIS-SP) com uma exposição todinha em sua homenagem!

Chamada “Revelando Hilda Hilst“, a mostra aborda a vida e obra da escritora no ano que se comemora 90 anos do seu nascimento.

hilda hilst em 1999

Crédito: Eduardo SimõesHilda Hilst (1930-2004) foi uma poetisa, cronista, dramaturga e ficcionista brasileira. É considerada uma das maiores escritoras brasileiras do século 20

Com curadoria do artista visual e jornalista Jurandy Valença, o projeto leva ao MIS vários retratos de Hilda Hilst, alguns deles inéditos, desenhos de sua autoria nunca antes exibidos em público, além de quinze edições originais dos livros de Hilda, com capas de artistas como Darcy Penteado, Clovis Graciano, Wesley Duke Lee, Tomie Ohtake, Jaguar, Millôr Fernandes, Maria Bonomi e Arcângelo Ianelli.

A mostra se completa com a instalação sonora Rede Telefonia, de Gabriela Greeb e Mario Ramiro, na qual é possível ouvir a voz da autora por intermédio de gravações originais realizadas na década de 1970, quando ela tentava se comunicar com o além.

Nos áudios em primeira pessoa e em conversas com pessoas próximas como Lygia Fagundes Telles, ela discorre sobre o tempo, comenta obras e escritores, fala de sua solidão, de sua escrita, do desejo de ser lida e traduzida. Na mostra do MIS, o público também pode acessar – via QR Code – áudios com cerca de 20 poemas lidos por Hilda Hilst.

hilda hilst em 1959

Crédito: Fernando LemosRevelando Hilda Hilst traz uma exposição de fotos da escritora, poeta e dramaturga no ano que se comemora 90 anos do seu nascimento

Já a programação paralela traz leituras de seus poemas, com convidados como Cida Moreira, Marina de La Riva e Dudu Bertholini.

Para completar, a programação do MIS ainda tem exibição dos filmes “Hilda Hilst pede contato” e “O Unicórnio“, além da leitura dramática de uma de suas peças, “O visitante”, escrita em 1968 em plena Ditadura Militar.

“Revelando Hilda Hilst” reúne ainda fotografias da escritora, registradas por quatro fotógrafos em períodos diferentes, separadas em quatro séries:

A primeira série exibe registros de Hilda, de 1959, quando ela tinha 29 anos. Quem as tirou foi o fotógrafo português Fernando Lemos, falecido em dezembro do ano passado.

A segunda série, realizada em 1990 pelo fotógrafo, arquiteto, músico e desenhista paulistano Gal Oppido (1952) retrata Hilda com 60 anos; os registros foram feitos durante uma entrevista que o escritor Caio Fernando Abreu fazia com Hilda para a revista A-Z.

hilda fotografada por gal oppido

Vale ressaltar que a maioria das fotografias de Oppido e Simões nunca foram exibidas! Gal Oppido

hilda fotografada por gal oppido

Em 1990, Gal Oppido retrata Hilda com 60 anosGal Oppido

A mostra no MIS também apresenta uma série do fotógrafo paulistano Eduardo Simões (1956), que realizou fotos de Hilda Hilst na sua residência, a Casa do Sol, em Campinas (SP), em 1999. As imagens registram não só a escritora, mas sua casa e seu entorno, inclusive seus inseparáveis companheiros, as dezenas de cachorros que moravam com ela.

A quarta e última série é do jornalista, fotógrafo e curador independente, Eder Chiodetto, autor do livro “O lugar do escritor” (Cosac Naif/2002), que retrata 36 escritores brasileiros, entre eles Hilda Hilst, em registros feitos sete anos antes de sua morte.

hilda hilst por Eder Chiodetto

Crédito: Eder ChiodettoRegistros de Eder Chiodetto foram feitos sete anos antes da morte de Hilda

Parece demais, não é? A exposição “Revelando Hilda Hilst” fica em cartaz no MIS de 1º de fevereiro a 15 de março de 2020. Você pode conferir toda a mostra de terça a sábado, das 10h às 22h, e aos domingos, até 20h. A entrada é gratuita!

Fonte: Catraca Livre

João Cabral de Melo Neto 100 anos – O centenário em homenagens

Celebrações pelo centenário do poeta pernambucano estão acontecendo em todo o País

Texto por Mariana Mesquita

João Cabral de Melo Neto, poeta – Foto: Folhapress/Arquivo

As celebrações pelo centenário de João Cabral estão acontecendo em todo o País, e vão de uma inusitada homenagem durante o festival de bonecos gigantes “Mamulengá 2020”, no município de Surubim, no Agreste pernambucano (onde estreia neste dia 09 uma montagem de “Morte e Vida Severina”), até o evento “Museu de Tudo”, na Casa das Rosas, em São Paulo (que acontecerá no dia 18, com recitais, leituras dramáticas e palestras). Em Pernambuco, a Secretaria Estadual de Cultura (Secult) está organizando atividades ao longo de todo o ano, juntando poetas, escritores e estudantes da rede pública.

Segundo o secretário Gilberto Freyre Neto (que é aparentado com João Cabral), a ideia é celebrar conjuntamente seu centenário, os cem anos de Clarice Lispector e os 120 anos de Gilberto Freyre, todos completados em 2020. “Não gosto de me ater ao marco da data. Sim, nove de janeiro é um dia importante, mas janeiro não é um mês bom para nós, porque as escolas não funcionam. O aniversário de Clarice é em dezembro, que também é um mês complicado. Então, vamos tentar trabalhar isso de forma mais ampla, sem fixar exclusivamente em datas”, adianta. Ele afirma que as ações estão sendo estabelecidas pelas secretarias de Cultura e Educação, com parcerias com instituições como a Academia Pernambucana de Letras, a Fundação Joaquim Nabuco e a Fundação Gilberto Freyre, e devem começar a ser postas em prática após o Carnaval.

Na véspera do centenário, a Fundação Joaquim Nabuco divulgou que a Coordenação-Geral de Estudos da História Brasileira (Cehibra) recebeu oficialmente a doação de dezesseis fitas cassete contendo entrevistas realizadas com o poeta, nos anos 1990, pelo escritor José Castello, num total de cerca de 20 horas de conversas.

O material foi cedido pelo próprio José Castello, após conferência realizada durante o Seminário Internacional Casa-Grande Severina (promovido pela Fundaj no campus Derby, em dezembro do ano passado, em homenagem a João Cabral e a Gilberto Freyre). As mídias ficarão disponíveis para a consulta de estudiosos e da comunidade em geral. O legado do poeta também será celebrado através de edições comemorativas.

O selo Alfaguara, da Companhia das Letras, prepara duas edições especiais: um volume em prosa, com discursos, entrevistas e outros textos dispersos, organizado pelo acadêmico Sérgio Martagão, e um volume com sua poesia completa, organizada pelo crítico e ensaísta Antonio Carlos Secchin. Secchin também é o autor de “João Cabral de Ponta a Ponta”, uma análise da obra do poeta que estava esgotada e será relançada pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe).

A editora Todavia traz uma biografia escrita pelo doutor em literatura e jornalista Ivan Marques, obra que procura cobrir toda a vida do autor. E Inez Cabral de Melo, filha de João, confessa aguardar com ansiedade a fotobiografia realizada por Eucanaã Ferraz e Valéria Lamego, que garimparam os álbuns da família, entre outras pérolas, e deve trazer o lado menos conhecido do poeta. A fotobiografia será publicada pela editora Verso Brasil – a mesma que, em 2018, relançou o livro “Joan Miró de Cabral”, que trouxe para o Brasil as gravuras produzidas pelo artista espanhol para ilustrar a obra de João, de quem se tornou grande amigo durante o tempo em que o poeta morou na Espanha.

“Meu pai não gostava de homenagens, mas acho que agora, vendo lá de cima, talvez fique mais à vontade. Eu acho ótimo, porque ele merecia”, conta Inez, que afirma que sua missão é provar ao mundo que João Cabral “além de grande poeta, era gente como a gente”. “Nunca o achei frio nem sem emoção. Apenas mais preciso em falar delas, sem os derramamentos sentimentais que detestava”, resume.

Fonte: Folha de Pernambuco

Curso – Literatura catalã e gênero: leituras femininas

Natureza do curso:  Difusão

Público Alvo: Alunos de graduação, pós-graduação e interessados em geral.

Objetivo: Fornecer um panorama geral da história da literatura catalã escrita por mulheres, dar a conhecer algumas das autoras mais representativas de cada época.

Programa: CLIQUE AQUI

Carga horária:  30.00h

Vagas: Máximo: 45. Mínimo: 15.

Certificado/Critério de Aprovação:  Mínimo de 75% de frequência obrigatório. Os certificados serão enviados por e-mail quando os ministrantes disponibilizarem a lista de aprovados no sistema.

Coordenação:  Profa. Dra. Valéria Gil Condé (FFLCH/USP).

Ministrante(s): Profa. Jessica Ferrer Escandell

Promoção:  Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas (FFLCH/USP).

Período de Realização:  03/03/2020 a 23/06/2020

Horário:  Terça-feira, das 14:00 às 16:00

Local:  Faculdade de Letras da USP, sala a definir (Av. Prof. Luciano Gualberto, 403 – Cidade Universitária – Butantã – São Paulo/SP)

Gratuito.

‘A literatura é a nossa forma de fazer resistência com poesia’, diz escritor indígena

Escritor indígena Daniel Munduruku participou da programação da Feira do Livro de Porto Alegre nesta terça-feira (12). Foto: Luiza Castro/Sul21

Annie Castro 

Para o professor e escritor Daniel Munduruku, a literatura indígena voltada para crianças e jovens é uma forma de romper com ideias preconceituosas e estereotipadas perpetuadas sobre os povos indígenas no país. “Com a literatura, criamos possibilidades de as crianças aprenderem novos conhecimentos, terem novas informações e, com isso, crescerem mais conscientes e menos preconceituosas”, diz o escritor, que participou da programação da 65ª Feira do Livro de Porto Alegre na tarde da última terça-feira (12) para falar sobre educação e literatura dos povos indígenas.

Com mais de 50 livros publicados, Daniel escreve, majoritariamente, para crianças, jovens e educadores. Graduado em Filosofia, História e Psicologia, com mestrado em Antropologia Social, doutorado em Educação e pós-doutorado em Literatura, Daniel relatou ao Sul21 que não imaginava que um dia se tornaria escritor, uma vez que, ao se formar professor, havia escolhido a educação como forma de contribuir com a sociedade e como ferramenta de combate ao preconceito vivenciado pelos povos indígenas.

“Minha participação dentro da sociedade brasileira sempre foi muito conturbada por conta de todos os estereótipos, apelidos que eu recebi e preconceitos que eu vivi. Eu quis me tornar professor justamente para combater esse tipo de situação, mas depois eu descobri que a literatura era outro instrumento para isso e para transmitir conhecimento”, explica Daniel, que decidiu se tornar escritor para contar as histórias que escutava desde pequeno sobre os povos indígenas e, principalmente, sobre o povo Munduruku.

Daniel possui uma literatura majoritariamente voltada para crianças, jovens e educadores. Foto: Luiza Castro/Sul21

Por entender a literatura e a educação como instrumentos de combate ao preconceito, Daniel também produz obras voltadas para os educadores. Segundo o escritor, seu objetivo é tentar complementar a formação dos professor com informações e reflexões a respeito de ideias preconceituosas que a sociedade brasileira tem acerca dos povos indígenas, que muitas vezes acabam sendo reproduzidas dentro das formações acadêmicas e, consequentemente, pelos educadores do país.

“Esses conhecimentos quase sempre são equivocados, nasceram de uma visão romantizada das populações indígenas ou, muitas vezes, são reforçados por estereótipos. Durante toda nossa história existem os equívocos que são reproduzidos por causa dessa narrativa única, hegemônica. Minha ideia é é ir além dessa visão que nós temos, que é a visão colonizadora, onde o colonizar conta a história e enfia a história na nossa cabeça, e a gente acredita que é verdade”, diz ele.

Nesse contexto, o escritor utiliza a literatura para gerar reflexões e “provocar o professor para que ele aprenda coisas que não sabe ou que ele acha que sabe, mas sabe de uma forma equivocada”. “Os indígenas nunca tiveram a oportunidade de falar com suas próprias vozes. Então, a literatura nos dá essa possibilidade e eu uso esse instrumento como uma forma de provocar”.

‘Resistência pela arte’

Devido às narrativas existentes acerca dos povos indígenas, a própria literatura indígena passou, no início, por um processo de invisibilização, conforme Daniel: “As pessoas não acreditam que os indígenas são capazes de escrever, justamente porque a nossa tradição é uma tradição oral. Quando a sociedade percebe que podemos aprender a escrever e a criar coisas interessantes, ela começa a se abrir e, com isso, começamos a participar de feiras de livros, de atividades culturais, seminários em universidades”.

‘Os indígenas nunca tiveram a oportunidade de falar com suas próprias vozes’. Foto: Luiza Castro/Sul21

Segundo Daniel, o aumento da visibilidade da literatura indígena em eventos como a Feira do Livro de Porto Alegre, por exemplo, é resultado de um trabalho de conscientização feito há décadas pelos escritores e pelos povos indígenas. “A presença dos indígenas nas feiras de livro e as atividades culturais acontece justamente porque os indígenas começaram a chegar em um lugar em que era impossível mantê-los invisíveis”, afirmou o escritor.

Para Daniel, a literatura indígena funciona como uma forma de resistência diante do cenário de ataques sofridos ao longo dos anos no país e, ao mesmo tempo, é uma maneira de tentar fazer com que a sociedade brasileira se aproxime dos saberes indígenas.

Ele ressalta que, nesse cenário, a escrita indígena busca romper com a narrativa única advinda do processo de colonização do país. “A literatura é a nossa forma de fazer resistência, mas uma resistência que passa pela poesia. Não é uma resistência política, para isso tem um outro movimento indígena, um movimento que é político. A nossa resistência é uma resistência pela arte”, diz.

Fonte: Sul 21

La literatura infantil y juvenil en América Latina, en la mirada de tres autores

Hoy comienza el Filbita. Infobae Cultura dialogó con tres escritores de libros para chicos —el uruguayo Horacio Cavallo, la peruana Micaela Chirif y el brasileño Renato Moriconi— sobre la salud del género en el continente y la importancia de fomentar la lectura desde la infancia

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Qué momento atraviesa la literatura infantil y juvenil en América Latina

Qué momento atraviesa la literatura infantil y juvenil en América Latina

Cuando éramos chicos, a todos, casi sin excepción, de una u otra manera, nos pasó cerca el anzuelo de la literatura. Algunos —los más afortunados— abrieron la boca y mordieron y desde entonces viven con un pie adentro del mundo de las letras. Otros, en cambio, saboreamos ese universo de grandes y nos adaptamos con mayor o menor facilidad. Pero todos, ahora, ya adentro, y sabiendo las virtudes y satisfacciones que trae la lectura cotidiana, nos preguntamos: ¿qué tan interesados están el Estado, el mercado, los artistas, los editores y la sociedad en general de que los más chicos lean?

Hoy comienza la novena edición del Filbita, el festival dedicado a la literatura infantil y juvenil que reúne escritores e ilustradores de distintas partes del mundo. Son tres días y treinta actividades. Aprovechando la visita, Infobae Cultura habló con algunos de los invitados para que den un panorama general de América Latina y respondan, entre otras preguntas, una que, pese a ser ingenua, sigue siendo vital: ¿es importante que los niños ingresen en la literatura? Horacio Cavallo, narrador y poeta uruguayo, responde que, “más que importante, es fundamental”.

El autor de El marinero del canal de Suez y Poemas para leer en un año —ambos libros ilustrados por Matías Acosta— dice que es necesario “oficiar de mediadores en su camino de lectores. Si alguna vez un libro nos tembló en las manos vivimos de cerca esa especie de magia que tiene la literatura. Esa sensación que trasciende lo lógico y que conecta dos individuos lejanos en el tiempo y el espacio, en muchos casos, es el primer paso para no querer abandonar el mundo de la lectura”.

Micaela Chirif (Foto: María Fernanda Conde Biondi)

Micaela Chirif (Foto: María Fernanda Conde Biondi)

Convencido a niveles activistas, asegura en este breve diálogo con Infobae Cultura que “la lectura transforma, abre la cabeza a nuevas experiencias, y en particular en los niños aumenta la capacidad de abstracción, la imaginación, la creatividad. Hace seres curiosos, activos y por lo tanto también creativos”. ¿No son, acaso, las cualidades que queremos desarrollar en los más chicos? Y todo empieza con un libro, “el instrumento —como decía Borges— que es una extensión de la memoria y de la imaginación”. Un libro, después otro, después otro.

Renato Moriconi es brasileño: artista plástico, profesor y autor de libros para niños. “Desde mi punto de vista —dice ahora, del otro lado del teléfono, en portugués—, la gran función de la literatura en una sociedad, tanto para los niños como para los adultos, es no tener función; la función del arte es no tener una función definida. Puede ser buena para diversas cosas y puede también no serlo; puede servir para uno y tal vez para otro ser totalmente inadecuada”.

“Me gusta mucho una definición de Joseph Campbell, de su libro El poder del mito: el mito no es del mundo de la verdad y de la mentira, sino del mundo de la poesía. Tomando esa idea, creo que la literatura, no solo para niños sino para todos, no tiene una función única y específica, didáctica, y resulta muchas veces irrelevante, porque se necesita de ese mundo más allá de la verdad y de la mentira. La literatura infantil es mucho más rica inclusive en ese tipo de manifestación poética, mítica, espectacular, surreal, del mundo de la fantasía: de lo que no tiene función”, agrega Moriconi.

Horacio Cavallo (Gentileza Filbita)

Horacio Cavallo (Gentileza Filbita)

A las pocas horas de haber aterrizado, la escritora peruana Micaela Chirif relativiza la voracidad del consumo literario. “Leer libros, sí, siempre y cuando no sean cualquier cosa. Por literatura entendamos una literatura de calidad. ¿Y qué cosa es na literatura de calidad? Yo creo que es la que enseña a confiar a los niños en la palabra y que los adentra en el mundo del lenguaje, en la construcción del sentido a través de la palabra. Sabemos que hay un montón de libros que no hacen eso”, le dice a Infobae Cultura en un breve intercambio por audios de WhatsApp.

Y continúa: “Por eso es importante no caer en la idea de que porque los niños lean vayan a ser mejores personas o por alguna aproximación al libro va a haber un efecto mágico que nos convierta en algo mejor de lo que somos. Los libros no nos eximen del trabajo sobre nosotros mismos y de la responsabilidad que tenemos hacia los niños. Parte de esa responsabilidad es producir, escribir e ilustrar libros de calidad: que fomenten el espíritu crítico, que permitan un ejercicio de la libertad creativo, que convoquen a los lectores a forman parte, sin caer en lo panfletario o en lo didactista”.

Renato Moriconi (Gentileza Filbita)

Renato Moriconi (Gentileza Filbita)

Hace años que la literatura infantil y juvenil —la LIJ, como se la llama coloquialmente— dejó de ser un género menor, un hobbie de narradores, un nicho comercial. Hoy, la LIJ cuenta con autores especializados, ilustradores exclusivos y lectores atentos. Su desarrollo implica seguir pensar cómo se trabaja, casi desde la pedagogía, sobre la creatividad y la imaginación de los chicos. Eso que María Teresa Andruetto llamó “salirse de uno mismo para mirar desde los ojos de un otro”, un proceso que, bien trabajado desde la niñez, puede tener resultados asombrosos en la adultez.

Pero, ¿qué momento está atravesando la LIJ, específicamente en América Latina, donde los procesos políticos y culturales pendulan entre la integración y el recorte? “El panorama es muy amplio —sostiene Micaela Chirif con cautela—, pero de lo que yo conozco y gente haciendo un trabajo valiosísimo en Colombia, en México, en Argentina, en Chile, en Perú, en Ecuador, por poner literatura de calidad al alcance de los niños. Todos los países de América Latina compartimos las mismas dificultades, en mayor o menor grado. En Perú, los presupuestos para cultura y edición son muy limitados”.

“Pero más allá de los trabajos individuales que son muy valiosos, si no se articulan en instituciones, en entidades un poco más grandes, esa fuerza individual se agota. Por eso sí es importante que como gremio se organizarse en un esfuerzo colectivo. También es importante que haya apoyo del Estado. Por otro lado, hay producción de literatura muy mala, tampoco vamos a negar eso. Y hay una serie de cosas que se les ofrecen a los niños y a las niñas desde criterios estrictamente comerciales que no contribuyen a la formación de lectores ni a acercarlos a lo que llamamos literatura”, agrega.

Micaela Chirif (Foto: Bereniz Tello)

Micaela Chirif (Foto: Bereniz Tello)

“Desde este pequeño mercado editorial que es Uruguay se la ve muy bien, goza de buena salud en todo el continente”, dice Horacio Cavallo en referencia a la LIJ, y agrega: “Hay editoriales independientes haciendo libros con un trabajo estético y conceptual hermoso. La poesía (la pobre Cenicienta) es tenida en cuenta a la hora de pensar en libros para niños y jóvenes. Hay lugar para que diferentes actores desarrollen su trabajo. Hay, quizás, a mí entender, mayor cruce de editoriales de un país a otro, algo que siempre fue muy difícil de mantener”.

“Hay también, creo yo, un público interesado en leer libros que hablan de nosotros y de nuestros vecinos. Aún así es un momento complicado desde lo económico para el mundo editorial en toda América Latina. Pero siento que hay mucho trabajo, mucha voluntad desde los mediadores, los autores de texto y de ilustración, los editores y los libreros para continuar con esta batalla de toda la vida que es contagiar el gusto por la literatura a los más chicos”, concluye.

Qué momento atraviesa la literatura infantil y juvenil en América Latina
Qué momento atraviesa la literatura infantil y juvenil en América Latina

Moriconi sostiene que “no es de hoy que nuestra cultura, nuestra literatura, nuestra sociedad, padece de cierta crisis de identidad. Estamos formados por diversas matrices, pero hay unas que sobresalen a las otras, dominan, y esa crisis, esa lucha, esa tensión puede ser un rasgo en común de nuestras manifestaciones artísticas. Creo que vivimos la tensión entre lo establecido, la lengua del dominador por sobre los pueblos que fueron dominados. Y también los pueblos dominados que quieren tener voz, en la sociedad, en la cultura, están en nuestras manifestaciones artísticas”.

“Y la literatura infantil no está fuera de esa tensión. Es un campo que manifiesta cada vez más esa tensión. Eso define también un momento, no sé si actual, pero sí define nuestra literatura y nuestro arte, más que lo que se veía veinte o treinta años atrás”, concluye.

Fonte: infobae

Lima Barreto: literatura que se confunde com vida pessoal denuncia racismo

Historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz mostra como a “escrita de si” de Lima Barreto denunciou perseguições racistas e o fim de uma utopia de inclusão que não se concretizou no fim da escravidão

Lima Barreto na época da 1ª edição do Recordações do Escrivão Isaías Caminha  (Agência Brasil), e detalhe de crônica inédita do escritor encontrada após sua morte (Biblioteca Nacional) – Fotomontagem: Jornal da USP

Lima Barreto, autor de Triste fim de Policarpo Quaresma, hoje um clássico da literatura brasileira, nasceu no dia 13 de maio de 1881, e tomou a data como “predestinação” em sua vida, visto toda sua obra representar “uma forma de revisão crítica do período em que existiam escravizados no Brasil e do contexto do pós-emancipação“. Em artigo na revista Estudos Avançados, a professora da USP Lilia Moritz Schwarcz analisa como, em boa parte da criação literária de Lima Barreto, vida e obra se confundem. O escritor “ficcionaliza sua própria vida”, gerando a “escrita de si”. Prova disso é que três de seus personagens prediletos, Gonzaga de Sá, Isaías Caminha e Vicente Mascarenhas são funcionários públicos, como o escritor, sofrendo com o racismo, o preconceito e a discriminação social que os negros e negras vivenciaram nesse período do pós-emancipação.

Os personagens presentes na obra do escritor contam com características semelhantes, seja na maneira de viver e local de moradia ー nos subúrbios cariocas ー, seja na atuação profissional: “Sua literatura, ao mesmo tempo que espelha, também cria o contexto que o viu nascer“, afirma a autora. Arrimo de família, o escritor se deparou com diversas perseguições devido à cor de sua pele e aos seus posicionamentos que “denunciavam uma sociedade predominantemente racista“. Além de romancista, Lima Barreto escreveu cartas, peças de teatro, romances, contos, crônicas, atuando também como jornalista em um momento crucial da história do Brasil, o período após a libertação dos escravos. Com a República e o período “pós-emancipação“, nunca se acreditou tanto na utopia pela inclusão social. Como ela não veio, o escritor denunciou a exclusão, a discriminação e lutou pela efetiva igualdade e legítima liberdade.

Lima Barreto e a “escrita de si”: muitos dos personagens do autor têm relação com suas próprias vivências – Foto: Wikimedia Commons

Para a pesquisadora, Lima Barreto foi “uma voz aguda, e muitas vezes solitária“, no Brasil da Primeira República, “que o distinguia dos demais literatos de época“, contra o racismo vigente no Brasil, os estrangeirismos e a realidade da pobreza que migrava da capital para as periferias do Rio de Janeiro. O escritor também jamais negou que fazia “literatura de si”, chegando mesmo a confundir-se com sua história pessoal, “com uma certa história do Brasil que prometeu inclusão, mas entregou muita exclusão social“. Na verdade, seus fantasmas são seus próprios personagens e “sua obra de ficção acabava ganhando realidade nele mesmo“. O Diário do Hospício, livro escrito quando internado no Manicômio Nacional, “é tanto relato de sua realidade quanto peça de ficção“. Loucura e racismo dialogam nessa e em outras obras.

Em Triste fim de Policarpo Quaresma, uma espécie de “D. Quixote Nacional”, Policarpo se parece com seu criador: repleto de ideias que nunca se realizam. Lima Barreto, ao mesmo tempo em que desejava estar próximo do ambiente literário, desprezava-o, assim como alguns costumes dos subúrbios e de seus vizinhos. O escritor bem representou uma voz dissonante na literatura ao denunciar o constrangimento, ou mesmo a humilhação que a população negra enfrentava. O artigo ressalta que, se a fotografia naquele momento era instrumento “das elites e das populações brancas“, com relação aos negros havia um constrangedor silêncio: as imagens não captavam  personalidades negras ou afrodescendentes, que acabavam “branqueadas” pela tecnologia, certamente “não pelo tempo, mas por efeito do racismo estrutural e institucional vigente no Brasil“.

Artigo

SCHWARCZ, L. Lima Barreto e a escrita de si. Estudos Avançados, São Paulo, v. 33, n. 96, p. 137-153, 2019. ISSN: 10. 1590. DOI: https://doi.org/10.1590/s0103-4014.2019.3396.0009. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/eav/article/view/161285. Acesso em: 30 out. 2019.

Lilia Moritz Schwarcz – Professora titular no Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, atuou como visiting professor em Oxford e Princeton, onde é professora visitante desde 2010, entre outras instituições. E-mail: lili.schwarcz@gmail.com

Margareth Artur / Portal de Revistas USP 

Fonte: Jornal da USP

Monteiro Lobato: como a literatura infantil e juvenil surgiu e deu certo

Soninha dos Santos

Especial para o Jornal Opção

Em 1921, José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948 — viveu 66 anos), inaugura com sua obra “Reinações de Narizinho”, publicada pela Editora Brasiliense, um mundo novo na história da literatura brasileira e que passaria, tempos depois, a ser vista, criticada e analisada como Literatura Infantil e Juvenil. Inaugura porque, até então, ela não existia no Brasil e nem tinha estatuto de arte; novo porque até essa data, final do século 19 e início do século 20, nenhum outro autor ou autora havia se embrenhado pelas intrincadas vias de acesso ao imaginário infantil.

Mas o que coloca Lobato nesse contexto inicial da LIJ? Comecemos então, pelo princípio, ou seja, o de como, quando e porque Lobato é colocado pela crítica e pelos estudiosos de sua obra, nesse lugar ganhando inclusive a patente de “pai” da LIJ brasileira.

“Reinações de Narizinho” surge em meio a uma virada de século, numa época em que a criança, usando palavras de Cora Coralina, “não valia mesmo nada” e “não era incômoda, pois nem mesmo tinha o valor de incomodar”. Falamos de um período histórico singular. Um período de mudanças sociais, políticas e econômicas significativas para a sociedade. A mulher começava a entrar no mercado de trabalho modificando drasticamente a rotina familiar; a educação infantil começa a ser questionada, estudada e os moldes tradicionais da família começam a mudar.

A mulher começa a deixar os afazeres domésticos para trabalhar fora e contribuir para o sustento da família e o tempo dedicado aos filhos diminui. A criança, até essa época como as frases de Cora bem definem, ainda não tinha seu status completamente definido. Era vista como um adulto em miniatura usada para o trabalho como adulto, mas recebendo como criança. Lobato descobriu essa criança, lhe deu vida e voz, resgatando-a por meio de sua obra, do mundo desumano, punitivo e desigual dos adultos. Como? Inicialmente, criando uma família diferente da família tradicional padrão; a casa onde as crianças moram é um sítio, lugar lindo e propício à fertilidade da imaginação das crianças; não há pai ou mãe “comandando” esse lar recém-criado; a adulta responsável é uma avó; não há referência aos pais de Narizinho. Pedrinho tem uma mãe, Antonica, que mora em São Paulo. Quem melhor do que uma avó para permitir que crianças brinquem e se divirtam como crianças de fato?

Dessa maneira, Lobato desenha um mundo novo. Nesse mundo, é permitido às crianças serem o que de melhor são: crianças. Seu livro inova em linguagem e gênero. Traz à tona um ser humano, criança, mas capaz de pensar, sonhar, sofrer e querer como qualquer outro ser humano. Uma criança que brinca, brinca muito e exercita seu melhor lado: o de ser criança sempre, mesmo ao crescer.

Soninha Santos, mestre em Literatura pela Universidade de Goiás, é professora e colaboradora do Jornal Opção.

Fonte: Jornal Opção

Jorge Luis Borges: 120 años de un «ser literario» de imaginación infinita

El célebre narrador construyó un legado imperecedero de cuentos, poemas y ensayos, con obras de referencia como «Ficciones» y «El Aleph»

Su posición política, abiertamente antiperonista y conservadora, suscitó polémica y lo mantuvo alejado de Julio Cortázar y del Nobel de Literatura

Texto por Tono Gil

La inabarcable imaginación del escritor Jorge Luis Borges sigue maravillando al mundo 120 años después de su nacimiento en Buenos Aires, cuna de un «ser literario» que dejó una profunda huella en la historia por su ingeniosa prosa y un humor muy particular.

Nacido el 24 de agosto de 1899, Borges exhibió desde temprana edad una devoción al mundo de las letras que más adelante lo convertiría en un autor universal, con una obra de fuerte identidad que inspiró a numerosas generaciones de escritores y, al mismo tiempo, los mantuvo a una distancia prudencial.

«Es como el sol, no hay que alejarse mucho porque nos da un ligero calor, pero si uno se acerca mucho se quema», explica a la agencia Efe Alejandro Vaccaro, autor de«Borges, vida y literatura», biografía de un personaje con una originalidad cuya magnitud hacía que sus colegas temiesen «caer en la copia».

La «concisa» prosa de este «ser literario» y una«belleza» en el uso de las palabras que «no se ve en otros escritores» cautivaron a Vaccaro, presidente de la Sociedad Argentina de Escritores (Sade), cargo que Borges también ostentó entre 1950 y 1953.

Hasta su muerte en Ginebra (Suiza) en 1986, el célebre narrador construyó un legado imperecedero de cuentos, poemas y ensayos, con obras de referencia como «Ficciones» (1944) y «El Aleph» (1949), aunque no es esa faceta de autor de la que más orgulloso se sentía.

Jorge Luis Borges, en 1982
Jorge Luis Borges, en 1982 – ABC

“«Que otros se jacten de las páginas que han escrito; a mí me enorgullecen las que he leído», sostuvo Borges.

Su amor por la lectura lo empujó a ejercer como bibliotecario de 1937 a 1945 –época en la que ya era conocido por sus creaciones– y le sirvió para convertirse en director de la Biblioteca Nacional Argentina de 1955 a 1974.

«Es muy difícil hablar de un escritor de mediados de siglo XX para acáque no haya sentido el impacto de la obra de Borges»”, afirma Vaccaro, que cita como ejemplos a Mario Vargas LlosaOrhan Pamuk y Umberto Eco.

¿Cómo funcionaba la cabeza del argentino? ¿Cómo se le ocurrían las inverosímiles situaciones que impregnan sus relatos? Son preguntas que el biógrafo sigue haciéndose después de más de veinte años de investigación de su figura.

«Es muy difícil situarse en esa mente de tanto conocimiento, veía más allá de lo que ven todos», valora.

Humor y sarcasmo

Uno de los rasgos personales más característicos de Borges es su humor lleno de sarcasmo, una herramienta que, más allá de sus obras, sacó a relucir para comentar algunos de los trabajos de sus contemporáneos.

«”Cien años de soledad” es una gran novela, aunque quizás con cincuenta años hubiera sido suficiente», apuntó Borges sobre la creación de Gabriel García Márquez.

Su posición política, abiertamente antiperonista y conservadora, suscitó polémica y, según Vaccaro, lo mantuvo alejado del otro gran referente de la literatura argentina del siglo XX: Julio Cortázar.

Además, su viuda, María Kodama, ha sostenido que el escritor nunca se alzó con el Nobel de Literatura pese a estar nominado en diversas ocasiones por «cuestiones políticas».

Jorge Luis Borges
Jorge Luis Borges – ABC

El escritor se quedó ciego alrededor de 1955 y, al final de su vida, se trasladó a Ginebra por miedo a que los efectos del cáncer que le habían diagnosticado se convirtiesen en un espectáculo para los medios argentinos.

Semanas antes de morir, el escritor envió una carta a la agencia Efe en la que expuso que se sentía «misteriosamente feliz» siendo un «hombre invisible» en la ciudad suiza.

«Soy un hombre libre. He resuelto quedarme en Ginebra, porque Ginebra corresponde a los años más felices de mi vida. Mi Buenos Aires sigue siendo el de las guitarras, el de las milongas, el de los aljibes, el de los patios. Nada de eso existe ahora. Es una gran ciudad como tantas otras», expresó en la misiva.

Al igual que su inventiva, el legado literario de Borges no conoce límites y, a 120 años de su nacimiento, la «universalidad» de su obra, según Vaccaro, lo mantiene como un referente global del mundo de las letras.

Fonte: ABC

Projeto Mais que Obrigatórias lê e discute o livro ‘Quarto de despejo’, de Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de Jesus (Foto: Reprodução)

No próximo dia 25/8, domingo, das 16h às 18h, o projeto “Mais que Obrigatórias”, que acontece no Sesc Campinas, lê e discute o livro “Quarto de despejo”, de Carolina Maria de Jesus.

Com Mário Augusto Medeiros da Silva, sociólogo e pesquisador de literatura.

O livro, escrito em 1960, é considerado um marco da literatura negra e feminina no Brasil. Ele narra o cotidiano da autora nas comunidades pobres da cidade de São Paulo.

O evento “Mais que Obrigatórias” é constituído de atividades em diferentes formatos que abordam textos que compõem a lista dos livros indicados para as provas dos principais vestibulares do Estado.

A atividade acontece na Biblioteca e a entrada é gratuita. (Carta Campinas com informações de divulgação)

Fonte: Carta Campinas

Em Guaianases, biblioteca conta história e faz homenagem a Cora Coralina

Espaço é considerado o primeiro com temática feminista em São Paulo

LUCAS VELOSO

Com um título autoexplicativo, começa neste sábado (17) a exposição “Memórias da Biblioteca Cora Coralina: Cinco décadas de histórias em Guaianases”. Fundado em 1966, o espaço homenageia a poetisa goiana e é considerado o primeiro com temática feminista em São Paulo.

Organizada pelo Centro de Pesquisa de Documentação Histórica Guaianás, a mostra tem como objetivo abordar a história da biblioteca e a sua ligação com o bairro, que teve origem com as populações indígenas, mas hoje é conhecido pela forte presença de nordestinos.

Primeiro dia de funcionamento da biblioteca Cora Coralina em 1966 – Arquivo Municipal/Divulgação

Para isso, expõe documentos, jornais, revistas e imagens. Há, ainda, obras e áudios que narram a vida de Cora Coralina, além de trabalhos produzidos por mulheres na biblioteca sobre feminismo.

A biblioteca foi o primeiro espaço municipal a oferecer uma programação no período noturno para atender aos trabalhadores.

Biblioteca Cora Coralina – R. Otelo Augusto Ribeiro, 113, Guaianases. Seg. a sex.: das 9h às 18h. Sáb.: das 9h às 16h. Dom.: das 10h às 15h. Até 15/9. Livre. Grátis.

Fonte: Guia Folha São Paulo

O alquimista digital

Paulo Coelho faz parceria com Recode para criar clubes de leitura e de discussões sobre tecnologia em bibliotecas brasileiras

Texto por PUBLISHNEWS, Redação

Paulo Coelho quer incentivar o empoderamento digital de jovens brasileiros | Niels Akermann

Com o objetivo de incentivar o uso de tecnologias para o fomento à leitura, Paulo Coelho e a ONG Recode fecharam uma parceria para lançar a Trilha do Alquimista Digital que quer incentivar a formação de clubes de leituras e de discussões sobre tecnologia em bibliotecas de todo o Brasil.As inscrições para participar do projeto estão abertas e vão até o próximo dia 19. Para participar, a biblioteca deve ter CNPJ válido e ao menos dois computadores disponíveis para o uso dos frequentadores. Após a inscrição, as bibliotecas habilitadas receberão livros digitais de Paulo Coelho para criar um Clube de Leitura sobre suas obras.

Toda a trilha é gamificada e as bibliotecas participantes podem receber desafios surpresa durante o percurso e prêmios que vão desde livros digitais do Paulo Coelho e exemplares autografados pelo autor até e-readers.

Para concorrer aos prêmios, os membros do clube de leitura precisam realizar ao menos dois cursos de tecnologia para empoderamento digital da plataforma Recode e debater dois livros do autor.

O próximo passo será gravar um vídeo sobre a experiência e aprendizados com o clube. A Recode irá receber um vídeo finalista por biblioteca, com premiações previstas para os realizadores e o profissional da biblioteca a partir da seleção dos melhores materiais.

Para Rodrigo Baggio, presidente da Recode, a tecnologia é uma grande parceira do acesso a conhecimento e oportunidades para os jovens. “Com o game, queremos fortalecer o empoderamento digital dessa geração e contribuir para o desenvolvimento das comunidades no entorno da biblioteca”, defendeu.

Todas as informações e o link para inscrições no Game do Alquimista Digital estão disponíveis no site da plataforma.

Fonte: PUBLISHNEWS

Campinas recebe evento em homenagem a vida e obra de Guilherme de Almeida

Texto por G1 Campinas e Região

Escritor e poeta Guilherme de Almeida — Foto: Acervo Casa Guilherme de Almeida

Campinas (SP) recebe, a partir desta quinta-feira (4), uma programação cultural em homenagem a vida e obra de Guilherme de Almeida, considerado o “príncipe dos poetas”. O evento tem entrada gratuita e conta com diversas atrações até dia 11 de julho. [Confira a programação completa abaixo]

Entre as atividades estão declamações de poesias, apresentações musicais, doações de livros, palestras, esquetes, projeções de documentários e uma exposição com as obras do autor.

O poeta e ensaísta Guilherme de Almeida, nascido em Campinas, foi membro da Academia Paulista de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, do Seminário de Estudos Galegos, de Santiago de Compostela e do Instituto de Coimbra.

Confira as atrações

Quinta (4)

  • 10h às 12h– Homenagens a Guilherme de Almeida/ Apresentação conjunta das bandas da EsPCEx e da Polícia Militar/ Esquete Cartas para Guilherme/ Entrega de Poesias/ Poetas caracterizados / Declamações Poéticas por poetas e alunos da rede municipal de ensino/ Doação de Livros (Autores Campineiros e outras Literaturas); Atividades serão realizadas na Praça “Guilherme de Almeida” – Avenida Francisco Glicério.
  • 15h– Exposição sobre Guilherme de Almeida/ História, declamação e música de Guilherme para alunos da EMEF Profª Angela Cury Zakia; Atividades serão realizadas na Biblioteca Pública Distrital de Sousas “Guilherme de Almeida” – Rua Cabo Oscar Rossin, 63.
  • 19h30– Abertura da Exposição “Capas de Obras Literárias e Traduções de Guilherme de Almeida” / Palestra “Guilherme de Almeida, sua obra como Tradutor”, com o Prof. Duílio Battistoni Filho/ Projeção de Documentários sobre o Poeta Guilherme de Almeida; Atividades serão realizadas no Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA) – Rua Bernardino de Campos, 989.

Sexta (5)

  • 12h– Participação Musical do Coro Carlos Gomes, com participação do Maestro Leandro Gouveia/ Canções brasileiras e canções de poesia de Guilherme de Almeida/ Declamações poéticas/ Entrega de poesias;Atividades serão realizadas no Saguão – Paço Municipal da Prefeitura de Campinas – Avenida Anchieta, 200.

Sábado (6)

  • 15h30– Palestra “Nosso Poeta Campineiro”, com o acadêmico e escritor Adilson Roberto Gonçalves, e participação musical do tenor Daniel Duarte; Atividades serão realizadas Academia na Campineira de Letras e Artes – (ACLA) – Rua Dr. Mascarenhas, 412.

Domingo (7)

  • 10h– Convivência com Guilherme/ Apresentação da banda da Polícia Militar/ Revisitando Guilherme de Almeida, com a Cia. Teatral Cenarte e Portal do Poeta Brasileiro/ Doação de livros; Atividades serão realizadas na Centro de Convivência – Praça Imprensa Fluminense, s/n.

Terça (9)

  • 9h – Solenidade Cívico Militar – Revolução de 32; Atividade será realizada na Praça dos Voluntários de 32 – Av. da Saudade, s/n.

Quarta (10)

  • 12h30– Almoço Poético/ Palestra “Contribuição de Guilherme de Almeida no quadro literário brasileiro”, com Aline Romariz, Presidente da ANLPPB/ Declamação Poética com Cássio Siqueira (Compras de convite pelo telefone (19) 3234-6401); Atividades serão realizadas no Rotary Club Carlos Gomes – Avenida Benjamin Constant, 1704.
  • 19h– Exposição sobre Guilherme de Almeida/ Palestra “Guilherme de Almeida como tradutor de poesia”, com o Prof. Dr. Eugênio Gardinalli Filho/ Declamações poéticas – Lisa França, Poetisa e Artista Plástica e Neusa Maria Doretto, do Portal do Poeta Brasileiro, com participação musical de Lúcia Farias; Atividades serão realizadas na Biblioteca Pública Distrital de Sousas “Guilherme de Almeida” – Rua Cabo Oscar Rossin, 63.

Quinta (11)

  • 10h– Homenagens a Guilherme de Almeida/ Declamações Poéticas/ Esquete “Cartas para Guilherme”, com a Cia. Teatral Cenarte e Portal do Poeta Brasileiro/ Entrega de Poesias/ Doação de Livros; Atividades serão realizadas na Praça Beira Rio, em Sousas.
  • 15h– Declamações em homenagem ao poeta Guilherme de Almeida; Atividade será realizada no Ateliê Lisa França – Rua Monsenhor Dr. Emilio José Salim, 118.
  • 20h– Recital da ABAL : Interpretações de canções com a poesia de Guilherme de Almeida e Canções de Antônio Carlos Gomes/ Revisitando Guilherme de Almeida, com a Cia. Teatral Cenarte e Portal do Poeta Brasileiro e participação musical dos Meninos Cantores de Campinas e do Maestro Leandro Gouveia/ Canções brasileiras e canções de poesia de Guilherme de Almeida/ Entrega do Diploma Mérito Cultural Guilherme de Almeida (Homenageados: Margareth Reali e Duda Moura); Atividades serão realizadas no Teatro Municipal José de Castro Mendes – Rua Conselheiro Gomide, 62.

Serviço

  • O que: “Semana Guilherme de Almeida” em Campinas
  • Quando: De 4 de julho a 11 de julho
  • Quanto: Entrada gratuita

Fonte: G1 Campinas e Região

Ana Maria Machado festeja 50 anos de carreira com novas edições e homenagem

Estadão Conteúdo

Ana Maria Machado já foi jornalista, fez programa de rádio, foi dona de uma livraria. Entre uma função e outra, jamais deixou de escrever. Com 12 anos, teve uma redação escolar, “Arrastão”, publicada na revista Folclore. Profissionalmente, porém, sua estreia aconteceu em 1969, quando publicou histórias na revista infantil Recreio. Desde então, nessas cinco décadas de produção que comemora agora, já soma mais de cem livros publicados no Brasil e em mais de 17 países, entre obras para crianças, adultos e de não ficção, alcançando mais de 18 milhões de exemplares vendidos.

Para as crianças, Ana Maria destaca-se como criadora de um texto de rara musicalidade, além de um estilo leve e, ao mesmo tempo, denso – seu nome é uma das referências nacionais, ao lado de Ruth Rocha e Lygia Bojunga Nunes. Já sua literatura adulta é marcada por uma escrita apurada, desafiadora, denunciadora. Na verdade, tais frases poderiam ser invertidas, pois Ana Maria busca a cumplicidade do leitor, independente de sua idade.

Ganhou inúmeros prêmios, com destaque para o Hans Christian Andersen, em 2000, considerado o Nobel da literatura infantil mundial. Presidiu a Academia Brasileira de Letras por dois mandatos (2012 e 2013). Colecionou ainda dissabores, como ser obrigada a deixar o Brasil em 1970, quando se exilou na França. E foi lá que trabalhou com o sociólogo Roland Barthes, cuja orientação resultou em uma tese de doutorado que, por sua vez, foi editada em livro como “Recado do Nome” (1976), sobre a obra de Guimarães Rosa.

Ana Maria encontrou-se com a reportagem na sede da Editora Moderna, em São Paulo, que detém cerca de 60 de seus títulos para crianças – alguns já se tornaram clássicos, como “Bisa Bia, Bisa Biel” e “Era Uma Vez um Tirano”. Os festejos pelas cinco décadas de escrita profissional continuam com o lançamento, nesta semana, de uma edição comemorativa dos 20 anos de “Audácia Dessa Mulher” (Alfaguara), em que revisita Capitu, personagem de Machado de Assis. Ela ainda será homenageada na 19ª Bienal Internacional do Livro, que acontece no Rio, em agosto, e já prepara “Vestígios”, reunião de contos já publicados com inéditos. Aos 77 anos, mantém uma rotina artística ativa.

Antes de iniciar a carreira como escritora, você fez um curso de pintura, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, que te ajudou depois na escrita, não?

Com certeza. Fiz um curso de pintura no MAM com Aloizio Carvão, que foi muito importante: eu nunca tinha trabalhado com alguém que tivesse sido tão exigente, mas, ao mesmo tempo, que tivesse me dado tanta força, me preparando para a dureza de ser artista.

E como isso a levou para a escrita?

Foi algo inconsciente, sem sentir. O principal foi aprender a estar exposta à crítica permanente (apresentávamos nossos trabalhos aos membros do grupo), o que possibilitou o desenvolvimento da autocrítica como atitude de artista. Sempre escrevi, desde menina, mas não tinha pensado em transformar isso em uma profissão – levava minha carreira de pintora, fazendo exposições individuais e coletivas. Quando fui desafiada, comecei a escrever profissionalmente.

Foi nessa época, 1969, que a ditadura militar endureceu ainda mais. Você foi presa e, depois, obrigada a se exilar em Paris.

Não foi nada preparado: em dez dias, já estava em um navio cargueiro. E ainda tive de embarcar em um porto no Nordeste. Anos depois, escreveria sobre essa época no romance Tropical Sol da Liberdade.

Em Paris, você fez o curso de doutorado com Roland Barthes. Foi algo pensado?

Não. Soube que ele estava voltando de uma viagem ao exterior e abriria espaço para 20 pessoas como ouvintes de seu curso, em Paris. Eu me inscrevi e, depois de uma entrevista, ele me chamou para pertencer a esse grupo. Logo, ele passou a me orientar no doutorado, na pesquisa que eu já iniciara no Brasil, com o Afrânio Coutinho, sobre a importância do nome na obra de Guimarães Rosa.

Nesse período fora, você continuou colaborando com a Recreio. De alguma forma, o exílio marcou essas histórias?

Talvez. Hoje, vejo que Currupaco Papaco é uma história de exílio, pois mostra um papagaio que vive em um lugar frio, quase virando picolé, e com vontade de voltar para um lugar quente, onde tinha frutas, todo mundo era amigo.

Aliás, qual é o desafio hoje para se escrever para o público infantil? A tecnologia alterou alguma coisa?

Não acho que tenha mudado intrinsecamente, mas mudaram as circunstâncias da criança. Ou seja, mudaram a tecnologia, a velocidade, mudou também o tipo de tentação: agora não é mais quintal, subir em árvore, brincar com o cachorro andando na rua – agora é o joguinho. Mas o que mudou de fato são os adultos em volta da criança, que não dão mais exemplo de leitura. Isso é muito forte. Outra mudança importante diz respeito à preocupação dos adultos em volta da criança em relação à leitura: ora as crianças são cobradas para ler, ora os adultos desconfiam da leitura, temendo o conteúdo e vendo fantasma onde não existe.

Isso faz lembrar o caso de uma mãe que, no ano passado, postou que seu livro “O Menino que Espiava Pra Dentro”, de 1983, estaria incitando o suicídio entre as crianças, certo?

Sim, foi algo como um tsunami que, de tão absurdo, eu nem sabia como agir. E o assunto ainda rende, pois continuo recebendo ameaças.

A obra de Monteiro Lobato também sofreu acusações.

Quem lê Lobato sabe da existência de coisas que são criticáveis, erradas, desprezíveis, mas nada disso tira o que Lobato traz de bom. Quem leu sabe medir o que se deve jogar fora e o que é aproveitável.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Fonte: ISTOÉ

As editoras vão violentar a obra de Monteiro Lobato?

A entrada em domínio público da obra de Monteiro Lobato (1882-1948), praxe ao se completarem 70 anos da morte de um escritor, traz de volta a tesoura da censura para traçar o figurino politicamente correto. Estigmatizadas como racistas, algumas passagens de livros infantis do autor de A Menina do Narizinho Arrebitado (1920) serão reescritas ou até apagadas por editoras e revistas infantis – conforme já anunciaram publicamente.

Em 1941, Lobato foi enquadrado pela Lei de Segurança Nacional e fichado no Dops. A perseguição vai voltar?

Em primeiro lugar, registre-se que o estado de domínio público de uma obra não autoriza sua mutilação. Significa apenas que os publicadores já não pagarão direitos autorais aos herdeiros do autor. A integridade dos livros, patrimônio moral imprescritível, deve ser mantida por quem desejar publicá-los – sob pena de cometimento do crime nefando da censura, seja pelo corte, seja pela reescrita do texto.

Já se usa nas edições para biblioteca das escolas públicas (Lobato foi adotado em São Paulo já em 1920) a intervenção da “nota explicativa”, pela qual trechos considerados inapropriados aos alunos são alvejados com um asterisco para assinalar atividades hoje fora da lei, como o abate de animais silvestres (proibido em 1967), presentes em obras como A Caçada da Onça (1924), ou observações literárias feito “macaca de carvão” ou “carne preta”, sobre a personagem Tia Nastácia – um dos seres humanos mais admiráveis da obra de Lobato.

Como muitos luminares de seu tempo, o criador do polêmico Jeca-Tatu se deixou levar pelas ideias eugenistas que no primeiro quartel do século 20 contaminaram brasileiros de fina inteligência e grosso preconceito, a exemplo de Afrânio Peixoto, Artur Neiva, Juliano Moreira, Fernando Azevedo, Alfredo Ellis, Roquete Pinto, Sílvio Romero e Euclides da Cunha. Circulava nos salões da aristocracia intelectual a crença de que a mestiçagem da população comprometia o progresso do Brasil.

O ensaio Raça e Assimilação, de Oliveira Viana, um racista convicto, defendia a impossibilidade da miscigenação e pregava a progressiva arianização do povo brasileiro. Lúcia Miguel Pereira, no ensaio Prosa de Ficção – De 1870 a 1920, salientou que era um era esporte nacional “uns exaltarem os alemães, outros, os franceses, alguns os ingleses e americanos do Norte, mas todos concordavam em que os brasileiros e seus avós, portugueses ou negros, pouco valiam.”

Coube a Gilberto Freire, com Casa-grande e senzala (1933), desvendar a opulência do caldeamento étnico e sua riqueza social na forja da sociedade nacional – inclusive como poderoso instrumento de combate ao racismo. “Mestiço é que é bom”, diria depois seu discípulo Darci Ribeiro.

Mas daí banir Lobato da estante e crucificá-lo por racismo, e por isso censurar sua obra, vai uma grande diferença. A dualidade, de discriminação na vida e igualdade na ficção, sobressai no conto Negrinha (1920), em que o escritor destila, com horror literário, seu nojo à escravidão, ao bordar a triste história de uma órfã de sete anos, ainda nascida na senzala, tomada para criação mas torturada, à moda do pelourinho, por uma “virtuosa dama” saudosa da escravatura, que mantinha sua senzala particular.

Lobato também compara a boneca Emília a uma “bruxa”, e, entre elogios rasgados às habilidades da “negra da estimação” Tia Nastácia (“a melhor quituteira deste e de todos os mundos”), equiparara-a à “velha” Dona Benta ao chamá-las de “respeitáveis matronas.”

A grandiosa biografia de Lobato, precursor da prosa modernista, também editor fecundo, militante do nacionalismo, defensor da exploração do petróleo, não pode ser maculada, desde a infância de seus leitores, por trechos esparsos que não comprometem a excelência de sua obra.

Bartolomeu Campos de Queirós no Momento Literário

Katy Navarro fala sobre a vida e a obra deste escritor brasileiro

Um poeta e escritor que descobriu a magia das palavras ainda criança. É Bartolomeu Campos de Queirós. Nasceu em Minas Gerais em 25 de agosto de 1944. Perdeu a mãe quando tinha de 6 anos. Lembrava que a mãe era uma grande leitora e que ele lia os livros que ela lia. Só que a mãe ficou doente, com câncer e sofreu por muitos anos. Contava que ela cantava bonito. Era soprano. Quando a dor da doença era muito forte e a morfina não era suficiente, ela cantava mais. A voz atravessava a casa e o quintal. A família sabia que era o momento de mais dor.Bartolomeu Campos de Queirós, já adulto, um dia se deu conta que ele fez o mesmo com a escrita. Quando sentia dor, uma dor interior, escrevia. Dizia que o pai era caminhoneiro e viajava muito. Foi por isso que menino, passou, então, a ter uma forte influência do avô que morava em Pitangui, uma cidade perto de Papagaio.Bartolomeu Campos de Queirós contava que o avô praticamente o alfabetizou ensinando as letras do alfabeto que Bartolomeu achava que eram poucas, para o muito que ele, ainda menino, queria escrever. Na infância seu melhor exercício era pensar em uma palavra que ele não pudesse escrever. Acreditava que a palavra nunca escreve tudo que a emoção sente.

O menino que virou escritor construiu uma obra com 66 livros publicados. Alguns foram traduzidos para o inglês, o espanhol e dinamarquês. Entre eles “Os cavaleiros das sete luas”,“Ciganos”, “Para criar passarinho” e “Vermelho amargo”, este último para adultos.

Bartolomeu Campos de Queirós é considerado um dos principais autores da literatura infanto-juvenil brasileira. Para ele, o homem é feito do real e do ideal e a literatura quando aparece para as crianças, vem com esse diálogo da fantasia que seria o que existe de mais importante na construção do mundo. Afirmava que se existe o novo é porque ele foi fantasiado anteriormente. Então nós devemos à fantasia ao movimento do mundo com destaque para a educação que não pode existir unicamente para informar o que já foi feito, mas para abrir uma porta para fantasiar o futuro e transformar. Democratiza-se assim o poder de criar, imaginar, recriar e romper o limite do provável.

Bartolomeu Campos de Queirós cursou o Instituto de Pedagogia em Paris e participou de importantes projetos de leitura no Brasil. Foi presidente da Fundação Clóvis Salgado e do Palácio das Artes, ambos em Minas Gerais. É idealizador do Movimento por um Brasil Literário, do qual participou ativamente. Por suas realizações, recebeu condecorações no exterior e no Brasil. Recebeu os maiores prêmios da literatura brasileira, como o Jabuti. Definia literatura como uma conversa sobre as dúvidas e as delicadezas. Pensava que a literatura não é uma conversa crua como desejam as ciências exatas. A literatura é mais gentil. Trabalha com as inseguranças, com as faltas, que são coisas que nos unem.

Bartolomeu Campos de Queirós morreu em 16 de janeiro de 2012. Deixou seus livros e suas ideias. Entre elas a de que a gente só suporta o dia de hoje, porque a gente tem uma perspectiva do amanhã. Não há como viver sem fantasiar!

Fonte: Empresa Brasil de Comunicação

Sucesso de público, exposição os planetas do Ziraldo, na casa melhoramentos, é prorrogada até 11 de maio

Por Gabriela Galdino

A mostra pode ser conferida de quarta a sábado e tem agenda aberta para grupos e escolas

Vista quase 20 mil pessoas desde que entrou em cartaz, em outubro passado, a exposição Os Planetas do Ziraldo foi prorrogada e poderá ser conferida até 11 de maio na Casa Melhoramentos, um dos mais novos e modernos espaços culturais da capital paulista. Boa notícia também para grupos e escolas, a agenda para visitas será reaberta.

Baseada no fascínio do cartunista pelo Universo, a mostra tem curadoria da cineasta e dramaturga Daniela Thomas, filha de Ziraldo, e da produtora e fotógrafa Adriana Lins. O encantamento do escritor por planetas, estrelas e galáxias resultou, ao longo dos anos, em várias obras, como a recente coleção Os Meninos dos Planetas e, ainda, Flicts, O Planeta Lilás e O Pequeno Planeta Perdido – todas publicadas pela Editora Melhoramentos e retratadas na exposição.

Flicts, que completa 50 anos em 2019 e fala sobre a cor da Lua, surgiu na época da corrida espacial. A obra tem destaque na mostra devido a uma história curiosa: quando o astronauta Neil Armstrong visitou o Rio de Janeiro, Ziraldo providenciou uma versão do livro em inglês. Após ler a obra, Armstrong reconheceu: “The Moon is Flicts”.

O bilhete escrito por Armstrong a Ziraldo está na exposição, assim como os rascunhos do escritor. “Podemos ver todo o processo criativo, com originais e rabiscos, como ele constrói a história. É um processo que meu pai sempre guardou a sete chaves, mas nessa exposição permitimos que isso seja mostrado”, explica Daniela.

Ao preparar a montagem do espaço, Daniela atendeu às recomendações do cartunista: “Meu pai não é muito fã de exposições interativas ou virtuais, mas de certa forma criamos uma sensação de 3D com os visitantes podendo passear em diferentes planos da exposição, dando a sensação de uma viagem tridimensional entre as galáxias”, ilustra Daniela. Todas as janelas da mostra receberam uma impressão do cosmos Ziraldiano para imersão dos visitantes.

128 anos de história

Além da mostra dedicada a Ziraldo, quem for à Casa Melhoramentos terá a oportunidade de conhecer a exposição Melhoramentos 128 anos, baseada no acervo histórico da editora. Os visitantes vão explorar os principais momentos da produção de papel no Brasil e também conhecer um pouco a história do prédio que abriga a Casa Melhoramentos, construído em 1948 e tombado pelo patrimônio histórico de São Paulo. No local, estão expostos também móveis que resgatam o ambiente do escritório antigo da companhia, cédulas que foram impressas pela editora durante a Revolução de 1932 e exemplares de matrizes de litogravura – técnica de gravura que dava origem aos livros e que consiste na criação de marcas ou desenhos sobre uma matriz de pedra calcária feitos com um lápis gorduroso.

A exposição Melhoramentos 128 anos está aberta de segunda e terça, das 9h às 18h, e de quarta a sábado, das 9h às 20h.
Agendamentos de escolas e grupos para as exposições devem ser feitos pelo e-mail eventos@casamelhoramentos.com.br ou pelo telefone (11) 3874-0913, de segunda a sexta, das 10h às 17h.

SERVIÇO:

Casa Melhoramentos
Endereço: Rua Tito, 479 – Vila Romana – São Paulo – SP.
Entrada franca.

Exposição Os Planetas do Ziraldo
Quarta a sábado, das 9h às 20h, inclusive nos feriados de 19 de abril (Páscoa) e 1º de maio (Dia do Trabalho). Entrada permitida até 19h e sujeita à capacidade do evento.

Fonte: www.segs.com.br

Biblioteca Nacional homenageia Monteiro Lobato com exposição

Monteiro Lobato: escritor, editor, tradutor e criador de alguns dos mais importantes personagens da literatura infantil e juvenil brasileira; Biblioteca Nacional (BN): guardiã da cultura, oitava maior biblioteca do mundo. Para celebrar essa “parceria”, no ano em que a obra de Lobato cai em domínio público, será aberta, no dia 17 de abril, a exposição “Monteiro Lobato: o homem, os livros”, com material do acervo da Instituição, guardado há muitos anos e pouco mostrado ao público – alguns até inéditos. A data da abertura é emblemática: um dia antes da data de seu nascimento, não por acaso celebrado como o Dia Nacional do Livro Infantil.

Identidade visual da exposição Monteiro Lobato - o homem, os livros.Identidade visual da exposição Monteiro Lobato - o homem, os livros.
 

A curadoria é da bibliotecária Ana Merege, uma entusiasta da obra do escritor, e de Veronica Lessa, coordenadora de Difusão Cultural da BN.

“Ao pesquisar sobre Lobato, vemos que sua contribuição à literatura brasileira foi muito além das fronteiras do Sítio do Pica-pau Amarelo. É o que procuramos mostrar nesta exposição, chamando atenção para o trabalho dele como editor e tradutor, cuja iniciativa deu grande impulso ao mercado do livro no Brasil. Ao mesmo tempo, buscamos contemplar os vários artistas que contribuíram para enriquecer suas obras”, explica Merege.

Para Helena Severo, presidente da BN, Monteiro Lobato figura na constelação dos grandes intelectuais brasileiros do século XX. “Sua obra infantil, embora datada, ainda permanece no imaginário de várias gerações de brasileiros. Além de reunir edições históricas dos livros de Lobato, a exposição traz também algumas de suas correspondências com grandes nomes da cultura brasileira de seu tempo. Mais do que homenagear, a proposta da exposição busca resgatar a memória literária de Monteiro Lobato através da disponibilização do vasto acervo da Biblioteca Nacional.”

A exposição ficará em dois ambientes no terceiro andar do prédio sede, na Avenida Rio Branco: o Salão de Obras Raras e o corredor do terceiro andar. Dentro do salão, um painel fará a cronologia da vida e obra de Lobato e duas vitrines mostrarão os trabalhos mais conhecidos do escritor, todos originais, sob um olhar diferenciado, através dos desenhos dos ilustradores dos livros, como Voltolino, Belmonte, Andre Le Blanc e Jean-Gabriel Villin, entre outros.

Outra vitrine mostrará os livros escritos para adultos, incluindo a primeira edição de Urupês, de 1918, a edição de 1970 de O Presidente Negro, seu único romance, coletâneas de crônicas e artigos e obras adaptadas, traduzidas e adaptadas por ele. Entre os destaques, estão um exemplar da primeira edição de Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá, de Lima Barreto, e cartas trocadas entre os dois autores – Monteiro Lobato era o editor de Lima Barreto.

Além das obras originais, na varanda estarão expostos os estudos e os desenhos do ilustrador Rui de Oliveira para a primeira adaptação das histórias de Lobato para a televisão, a série O Sítio do Pica-pau Amarelo.

O autor

José Bento Monteiro Lobato nasceu em Taubaté, São Paulo, em 1882. Homem de grande diversidade e talento, foi considerado gênio e pioneiro da literatura infantil e juvenil. Contudo, sua vocação era mesmo para as artes: pintura, fotografia e o mundo das letras. Suas publicações tiveram como propósito ser um instrumento de luta contra o atraso cultural e a miséria do Brasil. Em 1919, mudou-se para o Rio de Janeiro e criou o Sítio do Pica-Pau Amarelo, que o celebrizou. Em 1920, lança O Narizinho Arrebitado, leitura adotada nas escolas. Traz para a infância um rico universo de folclore, cultura popular e muita fantasia. Publica Reinações de Narizinho, Caçadas de Pedrinho e O Pica-Pau Amarelo. Os Trabalhos de Hércules concluem uma saga de 39 histórias e quase um milhão de exemplares vendidos. Suas obras foram traduzidas para diversos idiomas, tais como francês, inglês, italiano, alemão, espanhol, japonês e árabe.

Faleceu em 4 de julho de 1948, pobre, doente e desgostoso, aos 66 anos de idade. O cortejo do seu velório foi acompanhado por 10 mil pessoas cantando o Hino Nacional.

Serviço

Monteiro Lobato: o homem, os livros

Abertura: 17 de abril
Exposição: 18 de abril a 18 de julho

Fundação Biblioteca Nacional
Avenida Rio Branco, 217, Rio de Janeiro/RJ

Fonte: www.bn.gov.br

Dia do Livro Infantil: escritor premiado fala sobre literatura no interior de SP

Por Ana Beatriz Serafim

Dia do Livro Infantil: escritor premiado fala sobre literatura no interior de SP — Foto: João Paulo Hergesel/Arquivo Pessoal
Dia do Livro Infantil: escritor premiado fala sobre literatura no interior de SP — Foto: João Paulo Hergesel/Arquivo Pessoal

De repente, o ventilador de teto vira uma hélice de helicóptero que sobrevoa um mundo encantado ou um poste de luz passa a ser um extraterrestre disfarçado, pronto para atacar. Da imaginação de João Paulo Hergesel histórias diversas se materializaram em 22 livros já publicados.

O escritor de 26 anos mora em Alumínio (SP) e é formado em licenciatura em letras, tem mestrado em comunicação e cultura e atualmente faz doutorado em comunicação. No Dia do Livro Infantil, comemorado em 2 de abril, João Paulo conta ao G1 sobre a carreira e revela que era a criança que gostava de inventar histórias.

“Eu olhava para as coisas e acreditava que elas eram mais do que aparentavam ser. Lembro que, no passado, eu imaginava diálogos entre a porta e a janela do meu quarto, sugeria ações humanas para os brinquedos, entre outras invencionices.”

Das publicações, João Paulo tem sete livros infantis e infanto-juvenis, cinco juvenis e cinco para o público adulto, além de cinco livros acadêmicos para a área de pesquisa do escritor. Para o escritor, as crianças formam o público mais receptivo à narrativa de histórias criativas, que beiram o fantástico.

“Quando, em encontros e bate-papos literários, falo de princesas malvadas, de vacas que cantam, de gatos que mergulham no fundo do mar, etc., sinto que o interesse é grande; então, fazer essa transição para a escrita se torna ainda mais prazerosa.”

João Paulo ainda explica que as histórias voltadas ao público infanto-juvenil trabalham tramas diferentes da literatura adulta. “As narrativas infantis contêm temáticas que dialogam diretamente com o contexto linguístico, histórico, social e cultural da criança.”

Escritor fala sobre literatura infantil no interior de SP — Foto: João Paulo Hergesel/Arquivo Pessoal
Escritor fala sobre literatura infantil no interior de SP — Foto: João Paulo Hergesel/Arquivo Pessoal
Para ele, o consumo desse tipo de história movimenta o lado cognitivo, psicológico, criativo e intelectivo do público.

Outra importância da literatura infantil é a representatividade que as histórias promovem nas crianças, fazendo com que elas se espelhem nos personagens e desenvolvam afeto. João explica que a ficção acaba sendo um reflexo encantado da realidade e permite que os jovens leitores se apropriem de características dos personagens para aplicá-las em seu dia a dia.

“Todo mundo pode ser um super-herói durante a leitura e, posteriormente, utilizar as virtudes heroicas na vida real. Eis, inclusive, a importância de disseminar mensagens positivas e benévolas nas histórias direcionadas a esse público.”

Viver de livros?

João Paulo Hergesel é premiado por publicações na literatura para crianças e adolescentes — Foto: João Paulo Hergesel/Arquivo Pessoal
João Paulo Hergesel é premiado por publicações na literatura para crianças e adolescentes — Foto: João Paulo Hergesel/Arquivo Pessoal

Na região de Sorocaba (SP), ele percebe ações que ajudam a promover a literatura destinada a crianças e adolescentes, como contação de histórias e bate-papos. Entretanto, a baixa frequência de público em eventos literários preocupa quem trabalha no setor.

“Por mais que sejam eventos gratuitos, intensamente divulgados em redes sociais e na imprensa, que recebam apoio informal de amigos e conhecidos, a adesão é escassa. Como consequência, torna-se difícil viver somente com a profissão de escritor; temos de desenvolver outras atividades para conseguirmos uma renda compatível com o custo de vida no Brasil.”

Mesmo assim, o jovem já recebeu prêmios pelas publicações na área infanto-juvenil. Uma das mais importantes foi o Prêmio Barco a Vapor (Fundação SM), em 2018, pelo livro “A vaca presepeira”.

Entre outras conquistas de João estão o Desafio dos Escritores (Câmara dos Deputados), que premiou o “Um gato caolho do rabo comprido”; o Concurso Monteiro Lobato (SESC-DF), que premiou o “Como calar a boca de um dragão?”; o Prêmio Ganymedes José (União Brasileira de Escritores), que premiou “Criaturas de linguagem” e o “Nectarinas”; e o Programa de Ação Cultural (Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo), que financiou o “Quem disse que não te entendo?”.

*Colaborou sob supervisão de Eduardo Ribeiro Jr./G1

Fonte: g1.globo.com

Poeta e feminista tem arquivo pessoal aberto para consulta pública

Poeta e feminista tem arquivo pessoal aberto para consulta pública
Um acervo vasto para os interessados nos direitos das lutas feministas que aconteceram no Brasil no início do século passado.

No mês em homenagem à mulher, a Escola de Ciências Sociais (FGV CPDOC) abre para consulta pública o arquivo pessoal de Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça, poeta, tradutora e feminista. São aproximadamente 5 mil documentos textuais para pesquisa. Um acervo vasto para os interessados nos direitos das lutas feministas que aconteceram no Brasil no início do século passado.

No acervo, há preciosidades documentais sobre a igualdade de direitos entre homens e mulheres, o divórcio, a questão sufragista, a saúde feminina e a importância da atuação política das mulheres em tempos de guerra.

Com destaque na época por sua representatividade na luta pelos direitos da mulher, Anna Amélia participou de diversos eventos nacionais e internacionais. Em 1935, foi convidada pelo então presidente Getúlio Vargas a representar o Brasil no 12º Congresso Internacional Feminista que aconteceu em Istambul, na Turquia. No evento, expôs a tese Mulher Cidadã, cujo conteúdo sintetizava as ideias da primeira onda efervescente do feminismo brasileiro. Integrou ainda uma aliança pan-americana em prol das pautas femininas e foi companheira de luta de mulheres, como Bertha Lutz.

A poeta e formadora de opinião vanguarda foi a primeira mulher a integrar o Tribunal Eleitoral compondo a mesa das eleições de 1934, levando as contestações femininas à Assembleia Constituinte.

Anna Amélia teve três filhos. Dentre eles, a reconhecida crítica teatral Bárbara Heliodora, maior especialista em Shakespeare do Brasil, falecida em 2015.

O arquivo pode ser acessado gratuitamente no site.

Fonte: FGV

Biblioteca Nacional disponibilizará obras infanto-juvenis

Produções de Monteiro Lobato serão ponto de partida, a partir de exposição sobre o autor, que será aberta ao público em 18 de abril

O primeiro livro publicado pelo escritor Monteiro Lobato será disponibilizado digitalmente pela Fundação Biblioteca Nacional (Ilustração: Reprodução)

A Biblioteca Nacional (BN) terá três novas coleções Brasilianas em formato digital. O órgão, vinculado ao Ministério da Cidadania, está trabalhando para disponibilizar ao público obras de literatura infantil e juvenil, a partir das produções de Monteiro Lobato; obras musicais, a partir de partituras impressas; e obras cartográficas.

O anúncio foi feito pela presidente da instituição, Helena Severo, ao secretário especial da Cultura do Ministério da Cidadania, Henrique Medeiros Pires, em visita ao centro memorial, na última sexta-feira (15). A visita foi a primeira de uma série que o gestor pretende fazer ao centro memorial. “Temos um grande desafio em relação à preservação e valorização das instituições de memória no Brasil”, destacou.

No encontro, Henrique Pires conheceu, em detalhe, os projetos da instituição e anunciou que será criado o Prêmio Monteiro Lobato de estímulo à criação literária infanto-juvenil. Das futuras coleções, a de literatura infantil e juvenil tem a primeira ação traçada a partir da pesquisa para a abertura da exposição Monteiro Lobato: o homem, os livros, que será aberta ao público no dia 18 de abril, data de nascimento do escritor.

A mostra terá cerca de 50 itens entre livros originais e cartas trocadas entre o homenageado e o escritor Lima Barreto. “Monteiro Lobato era editor de Lima. Essa, aliás, é uma faceta que as pessoas não conhecem. Ele, por exemplo, fomentou o mercado do livro no Brasil, sobretudo, na distribuição, criando mais de 2 mil pontos de vendas”, conta Ana Merege, que divide a curadoria da mostra com Verônica Lessa.

Mágicos ilustradores

A exposição terá como ênfase a relação entre Monteiro Lobato e os ilustradores dos livros, a exemplo de Voltolino, Wiese, Villin, J. U. Campos, Belmonte, Nino, Rodolpho, Lamo, Le Blanc e Avgvstvs. O escritor escolhia diretamente cada um deles, já que era editor da própria obra. “Queremos abrir essas páginas e mostrar ao público como era a arte de cada um desses artistas”, adianta Merege.

Curadora de Divisão de Manuscritos, Ana Merege conta que a Brasiliana de literatura infantil e juvenil nasce dessa organização expositiva, quando vai digitalizar e disponibilizar digitalmente o primeiro livro publicado do escritor: A menina do narizinho arrebitado (1920), obra da Editora Revista do Brasil e ilustrada por Voltolino, pseudônimo do artista João Paulo Lemmo Lemmi, que colaborou com o jornal O Malho e outros periódicos.

As duas Brasilianas de música e de cartografia ainda não estão em fase de produção. As bibliotecas digitais Brasiliana Fotográfica e Brasiliana Iconográfica contam com 7 mil documentos e média de 500 mil acessos por mês.

Assessoria de Comunicação

Secretaria Especial da Cultura

Ministério da Cidadania

Fonte: Ministério da Cidadania/Secretaria Especial da Cultura

 

Carolina Maria de Jesus | Google homenageia escritora

Carolina Maria de Jesus é a homenageada do Google nesta quinta-feira — Foto: Divulgação/Google

Carolina Maria de Jesus foi uma escritora brasileira, considerada uma das primeiras e mais importantes escritoras negras do Brasil. E para homenagear esta grande mulher, o Google está exibindo um novo Doodle em sua pagina inicial.

Quem foi Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de Jesus (Sacramento, 14 de março de 1914 — São Paulo, 13 de fevereiro de 1977) foi uma escritora brasileira, conhecida por seu livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada publicado em 1960.

Carolina de Jesus é considerada uma das primeiras e mais importantes escritoras negras do Brasil. A autora viveu boa parte de sua vida na favela do Canindé, na zona norte de São Paulo, sustentando a si mesma e seus três filhos como catadora de papéis. Em 1958, tem seu diário publicado sob o nome Quarto de Despejo, com auxílio do jornalista Audálio Dantas. O livro fez um enorme sucesso e chegou a ser traduzido para quatorze línguas.

Carolina de Jesus era também compositora e poetisa. Sua obra permanece objeto de diversos estudos, tanto no Brasil quanto no exterior.

História de Carolina Maria de Jesus

Juventude

Carolina Maria de Jesus nasceu em 14 de março de 1914, na cidade de Sacramento, em Minas Gerais, numa comunidade rural, de pais negros analfabetos. Era filha ilegítima de um homem casado e foi maltratada durante toda sua infância. Aos sete anos, sua mãe a obrigou a frequentar a escola, depois que a esposa de um rico fazendeiro decidiu pagar seus estudos, mas ela interrompeu o curso no segundo ano, tendo já conseguido aprender a ler e a escrever e desenvolvido o gosto pela leitura.

Mudança para a favela do Canindé

Em 1937, sua mãe morreu e ela se viu impelida a migrar para a metrópole de São Paulo. Carolina construiu sua própria casa, usando madeira, lata, papelão e qualquer material que pudesse encontrar. Saía todas as noites para coletar papel, a fim de conseguir dinheiro para sustentar a família.

Em 1947, aos 33 anos, desempregada e grávida, Carolina Maria de Jesus instalou-se na extinta favela do Canindé, na zona norte de São Paulo, num momento em que surgiam na cidade as primeiras favelas, cujo contingente de moradores estava em torno de cinquenta mil. Ao chegar à cidade, conseguiu emprego na casa do notório cardiologista Euryclides de Jesus Zerbini, médico precursor da cirurgia de coração no Brasil, o que permitia a Carolina ler os livros de sua biblioteca nos dias de folga. Em 1948, deu à luz seu primeiro filho, João José. Teve ainda mais dois filhos: José Carlos e Vera Eunice, nascidos em 1949 e 1953 respectivamente.

Ao mesmo tempo em que trabalhava como catadora, registrava o cotidiano da comunidade onde morava, nos cadernos que encontrava no material que recolhia, que somavam mais de vinte. Um destes cadernos, um diário que havia começado em 1955, deu origem ao seu livro mais famoso, Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, publicado em 1960.

Publicação de Quarto de Despejo

Publicado em 1960, a tiragem inicial de Quarto de Despejo foi de dez mil exemplares e esgotou-se em uma semana. Desde sua publicação, a obra vendeu mais de um milhão de exemplares e foi traduzida em quatorze línguas, tornando-se um dos livros brasileiros mais conhecidos no exterior. Depois da publicação, Carolina Maria de Jesus teve de lidar com a raiva e inveja de seus vizinhos, que a acusaram de ter colocado suas vidas no livro sem autorização.

A autora relatou que muitos dos moradores da favela chegaram a jogar, nela e em seus três filhos, os conteúdos de seus penicos. Definia a favela como “tétrica”, “recanto dos vencidos” e “depósito dos incultos que não sabem contar nem o dinheiro da esmola.”

O professor da USP Ricardo Alexino Ferreira caracterizou a escrita de Carolina como “direta, nua e crua, mas, ao mesmo tempo, suave.”

Após o lançamento, seguiram-se três edições, com um total de cem mil exemplares vendidos, tradução para treze idiomas e publicados em mais de quarenta países.

Publicação de Quarto de Despejo nos EUA

Em 1962, Quarto de Despejo foi publicado nos Estados Unidos pela editora E. P. Dutton com o título Child of the Dark. No ano seguinte, como parte da coleção Mentor, a tradução ganhou uma edição de bolso, publicada primeiro pela New American Library, depois pela Penguin USA. Segundo o autor Robert Levine, somente das vendas desta edição, que totalizaram mais de trezentas mil cópias nos EUA, Carolina e sua família deveriam ter recebido, pelo contrato original, mais de cento e cinquenta mil dólares. Contudo, não foi encontrado indício algum de que ela tenha recebido sequer uma pequena parte disto.

Pagamento de direitos autorais das traduções

Em março de 1961, uma reportagem afirmou que a publicação de Quarto de Despejo havia rendido a Carolina Maria de Jesus seis milhões de cruzeiros em direitos autorais, contudo a quantia exata variava, de acordo com a reportagem.

É certo que Carolina tinha direito a dez por cento do preço de venda das traduções, com trinta por cento de sua parte reservada a Audálio Dantas; ela recebia pequenos pagamentos em dólares das editoras estadunidenses, mas, por força do contrato original, não podia autorizar traduções de sua obra: este direito fora cedido à editora Paulo de Azevedo, uma filial da editora Francisco Alves.

Saída da favela

Depois da publicação de Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus mudou-se para Santana, bairro de classe média, na zona norte de São Paulo. Em 1963, publicou, por conta própria, o romance Pedaços de Fome e o livro Provérbios. Posteriormente, em 1969, Carolina acumulou dinheiro suficiente para se mudar de Santana para Parelheiros, uma região árida da Zona Sul de São Paulo, no pé de uma colina. Próxima de casas ricas, local de algumas das mais pobres habitações do subúrbio da cidade, com impostos e preços menores, era lá que Carolina esperava encontrar solitude.

Paralheiros se caracterizava por fortes contrastes entre ricos e pobres: grandes casarões ao lado de barracos, que, via de regra, surgiam em vales, onde o ar era poluído pelas indústrias da região do Grande ABC. Embora pobre, Parelheiros era o mais próximo que Carolina poderia chegar do interior de sua infância sem deixar São Paulo e suas escolas públicas, para as quais seus filhos iam de ônibus. Agora passando boa parte de seu tempo sozinha, lia o jornal e plantava milho e hortaliças, apesar de reclamar que seus esforços de jardinagem rendessem tanto quanto custassem.

Carolina nunca quis se casar para não se submeter a um homem. Cada um dos seus três filhos era fruto de um relacionamento diferente.

A filha de Carolina, Vera Eunice tornou-se professora e contou em entrevista, que sua mãe aspirava a se tornar cantora e atriz.

Morte

Em 13 de fevereiro de 1977, Carolina Maria de Jesus morreu, vítima de insuficiência respiratória.

Fonte: Play in Traffik

30 filmes sobre livros, escritores, editoras e livrarias

A literatura sempre rendeu boa matéria-prima para o cinema; selecionamos 30 filmes que retratam os bastidores do mundo dos livros

Maria Fernanda Rodrigues
Ocinema sempre gostou de personagens escritores – reais e ficcionais. E tem feito bons filmes sobre os bastidores do mundo dos livros: o processo criativo e de escrita, o trabalho de uma editora, o dia a dia dentro de uma livraria, o impacto da literatura na vida de leitores e por aí vai.

Às vésperas do Oscar, que em 2019 tem Glenn Close concorrendo na categoria melhor atriz por seu papel em A Esposa, em que ela é casada com um escritor que vence o Nobel, e Melissa McCarthy como uma escritora com bloqueio criativo que acaba procurada pelo FBI em Poderia me Perdoar?, selecionamos 30 filmes para quem gosta de literatura – filmes sobre livros, escritores, editoras, livrarias e leitores.

30 filmes sobre livros

A Esposa, Björn Ronge (2019)

Joan Castleman (Glenn Close) abriu mão de seu talento literário para seu marido poder brilhar em A Esposa. Ao saber que ele seria premiado com o Nobel de Literatura, ela entra em crise e decide abandoná-lo depois de 40 anos juntos. O filme mostra os bastidores da mais prestigiada premiação do mundo dos livros, na Academia Sueca, e os bastidores da vida do casal.

Poderia me Perdoar?, Marielle Heller (2018)

Baseado em fatos reais, Poderia me Perdoar? se passa na década de 1990 e conta a história da escritora Lee Israel (Melissa McCarthy). Sem conseguir se adaptar às mudanças do mercado editorial, sofrendo um bloqueio criativo e sem dinheiro para pagar o aluguel, ela encontra uma carta da comediante Fanny Brice, personagem da biografia que tenta escrever, e percebe o interesse de sebos e colecionadores por esse tipo de raridade. Decide, então, forjar mensagens e bilhetes escritos por nomes famosos.

Meia-noite em Paris, Woody Allen (2011)

Gil (Owen Wilson) é um roteirista americano que gostaria de ser um grande escritor. Durante uma viagem a Paris com a noiva e a família dela, ele sai sozinho para alguns passeios noturnos e, quando o relógio bate meia-noite, ele é transportado para a Paris dos anos 1920, onde conhece alguns dos escritores e artistas que inveja: F. Scott Fitzgerald, Gertrude Stein, Ernest Hemingway, Salvador Dali, entre outros. Esse é o enredo de Meia-noite em Paris.

O Escritor Fantasma, Roman Polanski (2010)

Em O Escritor Fantasma, Adam Lang (Pierce Brosnan) é um ex-primeiro ministro britânico que vive em semi-exílio numa ilha do Maine, nos Estados Unidos. Duramente criticado por ter autorizado a prisão e tortura de suspeitos de terrorismo, Lang trabalha em sua autobiografia, pela qual recebeu US$ 10 milhões antes mesmo de começar a escrever. Quando McCrea, velho amigo de Lang e autor do livro, morre, a editora logo contrata um substituto (Ewan McGregor). Ghost writer do livro, ele vai entrevistar o político e concluir o manuscrito – mas em meio a acusações e suspeitas de que McCrea foi assassinado, o escritor passa a temer por sua própria vida.

As Horas, Stephen Daldry (2002)

As Horas conta a história de como o romance Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, repercute na vida de três mulheres de gerações diferentes que, de um jeito ou de outro, têm de lidar com o tema do suicídio em suas vidas. São elas: Clarissa Vaughan (Maryl Streep), uma americana às voltas com uma recepção para um amigo portador do vírus da Aids; Laura Brown (Julianne Moore), uma grávida, nos anos 1950, com um filho pequeno e um casamento infeliz; e a própria Virginia Woolf (Nicole Kidman), que, nos anos 1920, enfrenta uma depressão enquanto tenta terminar seu romance.

O Carteiro e o Poeta, Michael Radford (1994)

Por razões políticas o poeta Pablo Neruda (Philippe Noiret) se exila em uma ilha na Itália. Lá, um desempregado (Massimo Troisi) quase analfabeto é contratado como carteiro extra, encarregado de cuidar da correspondência do poeta. Os dois iniciam uma grande amizade, que é contada em O Carteiro e o Poeta, adaptação do livro do escritor chileno Antonio Skármeta.

Encontrando Forrester, Gus Van Sant (2000)

Jamal Wallace (Robert Brown) é um adolescente que ganha uma bolsa de estudos em uma escola de elite de Manhattan pelo seu desempenho nos testes e na quadra de basquete. Após uma aposta com seus amigos, ele conhece ele conhece William Forrester (Sean Connery), um talentoso e recluso escritor com quem desenvolve uma profunda amizade. Percebendo talento para a escrita em Jamal, Forrester procura incentivá-lo para seguir este caminho. Essa é a história narrada em Encontrando Forrester.

Minhas Tardes com Margueritte, Jean Becker (2010)

Baseado no livro de Marie-Sabine, Minhas Tardes com Margueritte retrata um encontro improvável entre Germain (Gérard Depardieu), um cinquentão quase analfabeto, e Margueritte (Gisèle Casadesus), uma senhora apaixonada por livros. Ele senta ao lado dela no parque e ela recita versos em voz alta, dando a ele a chance de descobrir a magia dos livros, que nunca fizeram parte da vida dele. Mas ela está perdendo a visão.

Os Belos Dias de Aranjuez, Wim Wenders (2017)

Os Belos Dias de Aranjuez se passa no verão, na cidade espanhola do título, e apresenta um escritor que começa a usar sua máquina de escrever para contar uma história passada num terraço. Um homem e uma mulher conversam. Eles revelam intimidades e discutem conflitos morais, familiares e sexuais.

Providence, Alain Resnais (1977)

Obra-prima de Resnais, Providence retrata um escritor Clive Langham (John Gielgud) que, prestes a perder a batalha para um câncer, reúne seus familiares enquanto luta, também, para terminar seu derradeiro romance. Vemos no filme a evolução da estrutura literária desse romance, em que Clive usa como modelo sua família, transformando de modo perverso a personalidade dos filhos.

Desconstruindo Harry, Woody Allen (1998)

Em Desconstruindo Harry, Harry Block (Woody Allen) é um escritor que usa suas experiências amorosas como inspiração para livros e contos, o que não agrada nem um pouco as pessoas ligadas a ele. Convidado para uma homenagem que será feita pela faculdade de onde foi expulso quando jovem, ele se vê sem companhia. Após acompanhar um amigo, Richard (Bob Balaban), em um exame médico, ele aceita viajar com ele como retribuição. Harry convida ainda Cookie (Hazelle Goodman), uma prostituta negra com quem tem um programa na noite anterior da viagem. Prestes a partir, Harry tem a ideia de sequestrar seu filho para que ele possa ver o pai sendo homenageado, mesmo com a mãe dele, Joan (Kirstie Alley), tendo proibido sua viagem.

Shakespeare Apaixonado, John Madden (1999)

O jovem astro do teatro londrino William Shakespeare (Joseph Fiennes) sofre de bloqueio criativo e não consegue escrever sua peça. Um dia, ele conhece Viola De Lesseps (Gwyneth Paltrow), uma jovem que sonha em atuar, algo proibitivo no final do século 16. Para burlar o preconceito e ter sua chance, Viola se disfarça de homem e começa a ensaiar o texto de Will, que começou a fluir e passou a dar vazão ao amor entre os dois. O que eles não contavam era com o casamento arranjado pela família entre Viola e Lorde Wessex (Colin Firth). Essa é a história de Shakespeare Apaixonado.

Louca Obsessão, Rob Reiner (1990)

Em Louca Obsessão, o famoso escritor Paul Sheldon (James Caan) sofre um acidente de carro e é socorrido pela enfermeira Annie (Kathy Bates), que afirma ser sua fã número um. Ela o leva para sua isolada casa e cuida de sua saúde, mas um dia acaba tendo acesso aos originais do próximo livro do escritor e descobre que sua personagem predileta será morta. Essa revelação faz com que sua personalidade doentia se revele e Sheldon se vê à mercê das loucuras da admiradora.

Mais Estranho Que a Ficção, Marc Forster (2007)

Em Mais Estranho Que a Ficção, Harold Crick (Will Ferrell), um funcionário da Receita Federal, passa a ouvir seus pensamentos como se fossem narrados por uma voz feminina. A voz narra não apenas suas ideias, mas também seus sentimentos e atos com grande precisão. Apenas Harold consegue ouvir esta voz. O incômodo aumenta ainda mais quando descobre pela voz que está prestes a morrer, o que o faz desesperadamente tentar descobrir quem está falando em sua cabeça e como impedir sua própria morte. Enquanto isso, a narradora luta para completar o que pode ser seu melhor livro.

O Mestre dos Gênios, Michael Grandage (2016)

O Mestre dos Gênios conta a história do editor Max Perkins (Colin Firth), que trabalhou na editora Scribner com alguns dos maiores gênios da literatura, como Ernest Hemingway (Dominic West), F. Scott Fitzgerald (Guy Pearce) e Thomas Wolfe (Jude Law).

A Garota do Livro, Marya Cohn (2016)

Em A Garota do Livro, Alice Harvey (Emily VanCamp), de 28 anos, é assistente editorial, mas sonha em ser escritora. Filha de um poderoso agente literário de Nova York, ela vai ser obrigada a enfrentar dolorosos acontecimentos de seu passado ao ser convidada para trabalhar no lançamento de um livro de Milan Daneker (Michael Nyqvist), um antigo cliente de seu pai que se aproximou dela no início da adolescência dela com a desculpa de orientar seus escritos e que deixou marcas profundas e traumáticas na garota.

A Proposta, Anne Fletcher (2009)

Na comédia romântica com cara de Sessão da Tarde A Proposta, Margaret Tate (Sandra Bullock) é uma poderosa editora de livros, que se vê em apuros ao ser comunicada de sua deportação para o país-natal, o Canadá. Para evitar que isto ocorra ela declara estar noiva de Andrew Paxton (Ryan Reynolds), seu assistente. Perseguido por Margaret há anos, ele aceita participar da farsa, mas impõe algumas condições.

As Palavras, Brian Klugman e Lee Sternthal (2012)

Rory Jansen (Bradley Cooper) trabalha em uma editora de livros. Ele sonha em publicar seu próprio livro, mas a cada nova tentativa se convence mais de que não é capaz de escrever algo realmente bom. Um dia, em uma pequena loja de antiguidades, ele encontra uma pasta com várias folhas amareladas. Rory começa a ler e logo não consegue tirar a história da cabeça. Logo ele resolve transcrevê-la para o computador, palavra por palavra, e a apresenta como se fosse seu livro. O texto é publicado e Rory se torna um sucesso de vendas. Mas tudo muda quando ele conhece um senhor (Jeremy Irons) que lhe conta a verdade por trás do texto encontrado.

Nunca Te Vi, Sempre Te Amei, David Hugh Jones (1987)

Nunca Te Vi, Sempre Te Amei conta a história de Helene Hanff (Anne Bancroft), uma escritora americana, que por 20 anos se corresponde com Frank Doel (Anthony Hopkins), o gerente de uma livraria especializada em edições raras e esgotadas. Tudo começou pelo fato de Helene adorar livros raros, que não se encontravam em Nova York. Só que ela não poderia imaginar que uma carta para uma pequena livraria em Londres, que negocia livros de segunda mão, a levaria a iniciar um correspondência afetuosa com Frank.

Mensagem Para Você, Nora Ephron (1999)

Mensagem Para Você é um clássico das comédias românticas e retrato ainda atual da briga das pequenas e grandes livrarias. Kathleen (Meg Ryan), dona de livraria independente, inicia conversa na internet com um desconhecido (Tom Hanks). De repente, a vida dela é abalada com a chegada de uma enorme livraria, que pode acabar com o negócio que sua família toca há 42 anos, e começa a implicar com o executivo. Ela só não suspeita que ele seja a pessoa por quem ela acaba se apaixonando na troca de e-mails.

Um Lugar Chamado Notting Hill, Roger Mitchell (1999)

Um Lugar Chamado Notting Hill, outro clássico da comédia romântica. Will (Hugh Grant), dono de livraria especializada em livros de viagem localizada em Notting Hill, em Londres, recebe a inesperada visita de uma atriz americana famosa, Anna Scott (Julia Roberts), e eles se apaixonam.

A Livraria, Isabel Coixet (2018)

No final da década de 50, uma mulher (Emily Mortimer) recém-chegada em uma pacata cidade do litoral da Inglaterra decide abrir uma livraria. Sua iniciativa é vista com maus olhos pela conservadora comunidade local, que passa a se opor tanto a ela quanto ao seu negócio, obrigando-a lutar por seu estabelecimento. A Livraria é baseado no livro homônimo de Penelope Fitzgerald.

O Clube de Leitura de Jane Austen, Robin Swicord (2007)

Baseado no livro de Karen Joy Fowler, O Clube de Leitura de Jane Austen acompanha a história de Bernadette (Kathy Baker), que foi casada 6 vezes e hoje vive sozinha, que sugere a criação do clube do livro Sempre Austen o Tempo Todo, dedicado aos livros da escritora Jane Austen, alegando que ela é perfeita para curar os males do mundo. Jocelyn, Allegra, Prudie, Sylvia e Grigg aceitam fazer parte dele e reúnem mensalmente para discutir uma obra da escritora inglesa. Com o tempo eles se abrem sobre suas vidas, percebendo as mudanças neles ocorridas.

A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata, Mike Newell (2018)

Em A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata, Juliet Ashton (Lily James) é uma escritora na Londres de 1946 que decide visitar Guernsey, uma das Ilhas do Canal invadidas pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, depois que ela recebe uma carta de um fazendeiro contando sobre como um clube do livro local foi fundado durante a guerra. Lá ela constrói profundos relacionamentos com os moradores da ilha e decide escrever um livro sobre as experiências deles na guerra.

Além das Palavras, Terence Davies (2016)

Além das Palavras conta a história da poeta americana Emily Dickinson (Cynthia Nixon). Na infância, nos anos 1800, ela cresceu numa família rica. Seu interesse pelas palavras e o cotidiano a faz começar escrever poemas. Mas ela sempre é muito solitária.

Sylvia – Paixão Além de Palavras, Christine Jeffs (2003)

A história de Sylvia Plath (Gwyneth Paltrow), uma das mais principais escritoras americanas, é contada em Sylvia – Paixão Além de Palavras. Nascida em Boston durante a Grande Depressão, Sylvia ainda jovem tentou cometer suicídio, na casa de sua mãe. Ela viaja à Inglaterra para estudar em Cambridge e lá conhece o jovem poeta Ted Hughes (Daniel Craig), por quem se apaixona e vive um longo romance.

Capote, Bennett Miller (2006)

Em novembro de 1959, Truman Capote (Philip Seymour Hoffman) lê um artigo sobre o assassinato de quatro integrantes de uma conhecida família de fazendeiros no Kansas. O assunto chama sua atenção já que ele acredita ser esta a oportunidade perfeita de provar que, nas mãos do escritor certo, histórias de não ficção podem ser tão emocionantes quanto as de ficção. Acompanhado pela escritora Harper Lee (Catherine Keener), sua amiga de infância, ele viaja até lá e surpreende a sociedade local com sua voz infantil, seus maneirismos femininos e roupas não convencionais. A história é contada em Capote.

Miss Potter, Chris Noonan (2006)

A britânica Beatrix Potter (Renée Zellweger) se tornou um verdadeiro fenômeno da literatura no início do século 20 ao criar um dos personagens mais queridos da literatura infantil, Peter Rabbit, o Pedro Coelho. Miss Potter conta sua história e as dificuldades do início da carreira.

Cora Coralina – Todas as Vidas, Renato Barbieri (2017)

Cora Coralina – Todas as Vidas resgata a história da poeta e doceira Cora Coralina, revelada já idosa e que viveu até os 95 anos. Não se trata de uma cinebiografia tradicional tentando dar conta de uma rica história de vida. É um docfic em que vemos atrizes no papel de Cora, mas não numa narrativa linear ou cronológica. São elas Walderez de Barros, Teresa Seiblitz, Camila Márdila, Maju Souza e Camila de Queiroga. O filme é permeado por poemas e por infomações e imagens documentais.

?Mary Shelley, Haifaa Al Mansour (2018)

É a história da juventude de Mary Shelley, autora do clássico Frankenstein, contada a partir de seu romance com o poeta Percy Shelley.

Em Busca da Terra do Nunca, Marc Forster (2004)

J.M. Barrie (Johnny Depp) é um bem-sucedido autor de peças teatrais, que, apesar da fama, enfrenta problemas com seu trabalho mais recente, que não foi bem recebido pelo público. No filme Em Busca da Terra do Nunca, Barrie reencontra a inspiração ao fazer sua caminhada diária pelos jardins Kensington, em Londres. É lá que ele conhece a família Davies, formada pela viúva Sylvia (Kate Winslet) e seus quatro filhos. Da convivência com as crianças, o escritor cria seu personagem de maior sucesso: Peter Pan.

 Fonte: Terra

‘Macunaíma Ópera Tupi’, musical de Iara Rennó, comemora os 90 anos da obra de Mário de Andrade

Em São Paulo – De 6 a 10 de fevereiro, poderá ser visto no Teatro do Sesc Vila Mariana o “Macunaíma Ópera Tupi – Trans_criação”, um musical de Iara Rennó baseado na obra de Mário de Andrade.

Para comemorar os 90 anos de Macunaíma – O Herói Sem Nenhum Caráter, obra essencial de Mário de Andrade, a “Ópera Tupi”, de Iara Rennó, ganha nova montagem. São 22 artistas no palco, onde se fundem música, teatro, dança e interações audiovisuais.

Durante a apresentação, juntam-se à interpretação das músicas um grupo de atores e bailarinos que encenam a história musicada do herói Macunaíma.

Ao longo da trama, o personagem é interpretado por diversos artistas, como Aretha Sadick, Jaider Esbell e a própria Iara. A cantora, além de incorporar o protagonista, interpreta Ci, amor do herói, a sereia Uiara e a feiticeira Circe.

Com direção artística compartilhada entre Iara e Gert Seewald, o espetáculo se apropria, além do texto original, de trechos de cartas do autor, de citações de nomes como Micheliny Verunshk, Toni Morrison e Tom Zé e de fragmentos de obras como a epopeia “Odisseia”, de Homero, “O Príncipe”, tratado político de Nicolau Machiavel, e o manifesto “Poesia Pau-Brasil”, do escritor Oswald de Andrade.

O repertório musical do espetáculo é composto basicamente pelas canções do disco Macunaíma Ópera Tupi (Selo SESC, 2008), que terá lançamento digital em todas as plataformas, também pelo Selo SESC, em 2019.

Os ingressos variam de R$ 9 a R$ 30 e podem ser adquiridos nas Unidades ou pelo Portal do Sesc. (Carta Campinas com informações de divulgação)

Ficha técnica
Elenco:
Aretha Sadick como Macunawoman Trans_mito
Pascoal da Conceição como Mário de Andrade e o Gigante Piaimã
Iara Rennó como Makunaimãe, Ci, Uiara, Circe
Jaider Esbell como Makunaimã Xamã
Luz Marina como Maanape
Negravat como Jiguê e Uiara

Banda:
Curumin- bateria, sampler e voz
Simone Sou – percussão e vocal
Guilherme Held – guitarra
Daniel Gralha – trompete
Edy do Trombone – trombone e percussão
Aline Falcão – baixo synth e teclados

Corpo de Baile:
Regina Santos – coreografia e performance
Janette Santiago – coreografia e performance
Luciane Ramos-Silva – coreografia e performance
Mia Omori – performance
Ana Maira Favacho – performance
Silvana de Jesus – performance

Cordas:
Luiz Amato – violino
Alexandre Cunha – violino
Alexandre Mazak – viola
Sérgio Schreider – violoncelo

Concepção, música, pesquisa e adaptação de textos: Iara Rennó
Direção Artística: Iara Rennó e Gert Seewald
Dramaturgia: Iara Rennó e Gert Seewald
Colaboração de texto e roteiro: Carol Ribeirinha
Colaboração dramatúrgica: Bruno Siniscalchi
Direção Musical: Iara Rennó
Arranjos de base: banda
Arranjo de cordas: Arrigo Barnabé (Mandu Sarará), Dante Ozzetti (Jardineiro e Naipi); Luiz Amato (Rudá); Iara Rennó (Macunaíma)
Transcrição e adaptações para cordas: Luiz Amato
Coreografias: Regina Santos, Janette Santiago, Luciane Ramos
Cenografia: Gert Seewald
Figurinos: Ísis Cecchi
Video mapping: Ligalight
Obras projetadas: desenhos de Jaider Esbell
Iluminação: Miwi
Projeto gráfico: Rodrigo Barja
Fotos da arte (Iara): José de Holanda
Direção de arte da pintura corporal (Iara) nas fotos da arte: Ricardo Castro
Pintura corporal fotos arte: Lau Neves
Produção Executiva: Paloma Espíndola e Josie Rodrigues
Produção administrativa: Paloma Espíndola
Comunicação: Carola Gonzales
Realização: SESC São Paulo e MacunaÓpera Produções Artísticas

Duração: 150 minutos

Local: Teatro

Limitado a 4 ingressos por pessoa.

Fonte: Carta Campinas

Monteiro Lobato para o século XXI

Ao cair em domínio público, os livros do Sítio do Picapau Amarelo incentivam grandes autores infantis brasileiros a recontar as histórias de Narizinho e Emília com uma linguagem politicamente correta

ENCONTRO Monteiro Lobato, seus personagens e Mauricio de Sousa: versão modernizada

Texto por Luisa Purchio

Os grandes clássicos da literatura são atemporais. Com o passar dos anos, o público leitor continua sedento da genialidade de seus autores, que souberam como ninguém traduzir emoções resistentes ao tempo. Com Monteiro Lobato (1882-1948), não é diferente. O pai de Narizinho, Emília, Dona Benta e Tia Nastácia nunca deixou de fazer parte da infância dos brasileiros, mesmo que autores contemporâneos tenham tomado um pouco do seu espaço. Agora, quase cem anos após a publicação de seu primeiro livro, suas criações ressurgirão. A razão da guinada é que elas caíram em domínio público. A lei brasileira determina que as obras perdem proteções de Direitos Autorais após 70 anos contados do 1º de janeiro subsequente ao falecimento do autor. Como Lobato morreu em 1948, seus livros estão liberados em 2019. Na prática, isso significa que, para lançá-los, não é mais preciso pagar por direitos autorais ou pedir autorização aos herdeiros para realizar adaptações.

Para ganhar novos leitores e lucrar com vendas de exemplares, diversas editoras estão preparando adaptações — uma rotina no mercado editorial, a exemplo do que ocorreu com “O Pequeno Príncipe” em 2015. Em relação a Lobato, lançamentos de livros e até a produção de um filme estão previstos para este ano. É o caso da Girassol Brasil Edições, que lançará o livro “Turma da Mônica — Narizinho Arrebitado”, assinado, ao lado de Lobato, por Mauricio de Sousa, outro criador consagrado de histórias infantis. Na nova versão da obra, os personagens do Sítio do Picapau Amarelo ganham novas ilustrações: Narizinho tem desenho de Magali, Emília de Mônica e Pedrinho de Cebolinha. No início, Mauricio, de 83 anos, relutou em colocar o seu nome ao lado do de Lobato, de quem é fã desde criança. “Eu morava em Mogi das Cruzes, ainda uma cidade pequena do interior, e me encantei com o jeito caboclo dele descrever uma fazenda e seus habitantes”, diz à ISTOÉ. “Isso tudo estimula quem quer ser escritor ou desenhista como eu. As ilustrações dos livros de Lobato, obra de diversos grandes artistas, foram inspiradoras. O desenhista Belmonte era meu preferido.”

Escritor nos períodos pré-modernista e modernista, Lobato revolucionou a literatura infantil. Além de traduzir para o papel a imaginação de uma criança, ele lançou ideias à frente de seu tempo, como o protagonismo feminino de Narizinho e Emília. Mas nem tudo são flores em sua obra. Lobato é bastante controverso, principalmente pelas manifestações racistas nas histórias. A principal vítima é Tia Nastácia, cozinheira que trabalha para Dona Benta e que confeccionou os bonecos vivos Emília e Visconde. Para relançar as obras de Lobato no século XXI, muitos optaram por adaptar esses trechos à etiqueta do politicamente correto. No livro de Mauricio, em vez de dona Benta ser descrita como “velha”, é chamada de “senhora”, e partes como “negra beiçuda” foram suprimidas. “A obra de Lobato não é em sua essência racista, por isso foi possível suavizar algumas expressões sem mudar radicalmente o texto”, diz Regina Zilberman, uma das maiores especialistas em Lobato, responsável pela adaptação. “Hoje em dia, temos mais cuidado com as palavras, e isso é muito bom. É só uma questão de afinar a linguagem para não criar situações embaraçosas na escola.”

O escritor Pedro Bandeira, que também compõe a lista dos maiores autores infantojuvenis, concorda com Zilberman. Ele está preparando o livro “Narizinho, a menina mais querida do Brasil”, da editora Moderna, uma adaptação do original “Reinações de Narizinho”, de 1931. “Eu não gosto de palavras como negra beiçuda, nem macaca de carvão. Se alguém quiser dizer, que o diga, mas não virá de minha autoria”, diz. Por outro lado, Bandeira diz ser contra os excessos do politicamente correto. “Outro dia eu vi o nome ‘Branca de Neve e os sete amiguinhos portadores de nanismo’. Anão é anão, não é um xingamento. Se tivermos de falar ‘o portador de nanismo’, o mundo acabou”, diz ele. Assim como outros fãs, parece difícil para Bandeira reconhecer o racismo de Lobato, mas ele não o nega. “As suas cartas e crônicas demonstram que ele era eugenista, mas em um tempo em que todo mundo acreditava na superioridade das raças. O Lobato sabia mudar de ideia. Se tivesse vivido mais, certamente teria mudado”, diz.

PERDAS E GANHOS

Há quem defenda, no entanto, a leitura dos textos originais às crianças. É o caso de Camila Werner, que entre 2015 e 2018 foi responsável pelo selo Globinho, que edita os textos integrais de Lobato. “A literatura não está para fazer lição de moral, ela está para refletir o mundo e a gente pensar sobre ele”, diz ela. Para isso, seriam necessários mediadores que expliquem o contexto histórico em que foram escritos. “Em um país com tantos problemas na educação, será que os pais e professores vão saber conversar sobre isso?”, diz ela. No livro “A condenação de Emília: o politicamente correto na literatura infantil”, fruto de uma tese de doutorado na USP, o professor e escritor Ilan Brenman defende que esconder conflitos não é saudável para as crianças, pois elas passariam a desconhecer o mundo como ele é. Ele acredita que os livros são uma oportunidade de os pequenos conhecerem e enfrentarem seus monstros interiores, no que chama de escoamento literário. “Eu nunca vi pessoas falando que leram Lobato e se tornaram racistas ou antiecologistas. Se você tem vontade de matar uma onça e a matou no livro, a fantasia cumpriu a sua função”, diz Brenman. Ele ressalva, no entanto, que algumas adaptações não são um problema, desde que a alma da obra esteja contemplada. “O complicado é ir limpando e não sobrar nada. O politicamente correto às vezes se equivale a regimes ditatoriais, que apagam a história.”

Se, de um lado, o domínio público permite às editoras publicar sem custos autorais as obras de Lobato, de outro pode criar uma armadilha. O governo não compra livros nessas condições e assim as empresas perdem um relevante mercado. As adaptações surgem então como uma forma de vender, já que, com novos autores, surgem novos livros. No ano passado, porém, nem o Lobato adaptado — que não havia sido lançado —, nem o original — que estava para cair em domínio público —, puderam ser inscritos no Plano Nacional do Livro Didático 2019 e 2020, cujos editais selecionam os livros das escolas públicas. “Quem ganha com o domínio público de Lobato é a sociedade brasileira”, diz Pedro Bandeira. Os textos originais estão disponíveis gratuitamente em sua integridade para que o público possa conhecer a literatura da época e fazer os seus próprios juízos de valor.

Turma da Mônica – Narizinho Arrebitado

Autor: Monteiro Lobato

Apresentação na orelha: José Vicente – Reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares

64 páginas

Girassol Brasil Edições

Fonte: IstoÉ

Técnicas em biblioteconomia promovem escritoras negras

Dentro e fora das bibliotecas públicas, ex-alunas da Etec Parque da Juventude usam a formação para combater o racismo por meio da literatura

Texto por Portal do Governo

Uma constatação de alunas da Escola Técnica Estadual (Etec) Parque da Juventude, na capital, durante a produção do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), deu origem ao projeto Mulheres Negras na Biblioteca.

Em 2016, Ana Carine Souza, Iara Moraes, Lais Hellen Santos e Andreza de Lourdes Lima Rocha cursavam o técnico de Biblioteconomia quando perceberam que a biblioteca da unidade carecia de obras de escritoras negras, tema do TCC delas.

Na época, elas pediram doações e receberam cerca de 20 livros, que foram divulgados para os alunos e tiveram excelente retorno. A iniciativa segue até hoje com o objetivo de combater o racismo.

As estudantes perceberam que o mesmo problema se repetia em outras bibliotecas públicas da cidade e resolveram expandir sua atuação. O fim do TCC levou a iniciativa para outros espaços da zona Norte, onde além do incentivo ao aprimoramento do acervo, foram realizadas atividades como bate-papos com escritoras e um sarau de poesia.

O grupo acabou virando um coletivo, que segue com o trabalho. Além de Ana Carine e Iara, a bibliotecária Ketty Valêncio e a jornalista Juliane Sousa se juntaram às ex-alunas. A atuação delas é feita agora por meio da aprovação de projeto em edital da Prefeitura de São Paulo, que permite levar as atividades para dentro e fora de bibliotecas municipais. As jovens acreditam que seja possível enxergar na profissão um enfoque em produção cultural.

“Hoje com as redes sociais conseguimos ver o alcance que o projeto tem, com o grande aumento da procura por essa literatura”, diz Ana Carine. “A maior parte do público é formada por meninas negras, mas não são elas nosso único alvo. Acreditamos que o propósito vai além da representatividade, para que todos conheçam nossa história sob outra perspectiva, como ferramenta de combate ao racismo.”

Neste ano, estão entre os objetivos do grupo, levar atividades às unidades do Sesc, participar de novos editais e produzir material audiovisual sobre escritoras negras.

Fonte: Portal do Governo

Edgar Allan Poe: 210 anos depois, grandioso como nunca

POR OSCAR NESTAREZ*

RETRATO DE EDGAR ALLAN POE (FOTO: WIKIMEDIA COMMONS)
Em 19 de janeiro de 2019, Edgar Allan Poe completaria 210 anos de vida. Mais de dois séculos após seu nascimento em Boston (EUA), ele permanece como um dos maiores autores da literatura ocidental. O que explica esta grandiosidade? O que justifica o interesse de gerações e gerações pela sua figura, pelo seu legado? Qual é a origem do fascínio que títulos como O Corvo, O Gato PretoA Queda da Casa de Usher, O Barril de Amontillado e inúmeros outros continuam a exercer em nós, tanto tempo depois?

Hoje existem, pelo mundo, milhares de pesquisadores em busca dessas respostas. E vêm de áreas que não se restringem às letras: da filosofia, da psicologia, da história e da antropologia, entre outras. Talvez aí encontremos uma possível chave para entendermos o feitiço Poe: o fato de sua obra transcender a ficção literária, em muitas esferas.

Seus contos e poemas alcançam os recessos e os mistérios da alma humana — mas sempre com os dedos da escuridão, é verdade. Afinal, para muitos (o signatário desta coluna entre eles), trata-se do fundador, ou do “consolidador” das narrativas de horror e de mistério como as conhecemos hoje.

Retrato inquietante
Outro fator que contribui para o sucesso de Poe é a sua figura. O olhar provocador, os cabelos desalinhados, os lábios cinicamente desenhados: antes mesmo dos textos, o próprio retrato do autor já causa estranhamento. É impossível não nos inquietarmos diante de sua expressão ora enigmática, ora melancólica, mas prestes a sair da moldura para nos fustigar, assustar, desestabilizar. É o retrato de um rosto esculpido pela genialidade, mas também vincado pelo desequilíbrio, pelo álcool e por uma incontrolável tendência à autodestruição.

Pois, quanto à vida de Poe, também ela é uma duradoura fonte de interesse e comoção. Foi uma vida algo breve e trágica, que começou naquele janeiro de 1809 e se encerrou misteriosamente em outubro de 1849, em Baltimore.

Hoje, é conhecida a trajetória de Poe rumo à ruína. Alguns biógrafos atribuem-na ao contato precoce com a morte — antes de completar três anos, ele perde a mãe, Elizabeth Arnold. O pai, David Poe, desaparece sem dar notícias. Mas devemos considerar também o temperamento combativo do autor, que sempre lhe custou caro: primeiro, a ruptura com o pai adotivo (o que o impediu de herdar sua significativa fortuna); depois, o “convite para se retirar” da Universidade de Charlottesville; por fim, os confrontos com chefes, que resultaram em seguidas demissões.

Dividindo águas
Mesmo assim, em meio ao caos exterior e interior, Poe conseguiu atingir o sublime. Desde 1827, quando publica seu primeiro livro — Tamerlão e Outros Poemas — até quase que o final da vida, ele jamais deixou de escrever. Contra tudo (e muitas vezes contra todos), legou-nos uma obra que praticamente dividiu as águas da literatura — as escuras das claras.

Hoje, a sombra de Poe alcança muito além dos livros. Trata-se de uma influência cuja origem é complexa — um território em que biografia e obra se confundem para aproximar o homem do mito. Seja como for, 210 anos após seu nascimento, nós o encontramos por todos os lados: ele está entre os escritores mais adaptados da história do cinema, roteiristas vivem recorrendo à sua ficção para criar séries, seus contos e poemas são frequentemente levados aos palcos do teatro, game designers têm transformado suas histórias em jogos, e por aí vai.

EDGAR ALLEN POE (FOTO: WIKIMEDIA COMMONS)

HQs celebram o mestre
Os quadrinhos também estão sob essa sombra. Aqui mesmo, no Brasil, temos dois exemplos recentes de como Poe influencia a nona arte. O primeiro é a coletânea Delirium Tremens, publicada pela editora Draco para marcar a efeméride de janeiro de 2019. A HQ traz oito histórias livremente inspiradas no universo poeano.

Algumas narrativas acenam sutilmente para os elementos ficcionais/biográficos de Poe. É o caso de “In articulo mortis”, criada a partir do interesse do autor pelas novidades de sua época—- notadamente, a hipnose, que o encantou e o levou a escrever “Os fatos no caso do sr. Valdemar”. O mesmo acontece com “Butim”, que explora o maior medo de Poe: ser enterrado vivo; e de “Murder”, que envolve a mística de O Corvo com as brumas da ficção científica e da conspiração.

A trágica biografia do autor de O Corvo também é o objeto de A Vida e os Amores de Edgar Allan Poe, publicada pela editora do Sebo Clepsidra. A HQ tem roteiro de R.F. Lucchetti, o papa das narrativas pulps brasileiras, e arte de Eduardo Schloesser. Ambas serão lançadas no Festival Edgar Allan Poe, evento comemorativo com palestras, leituras dramáticas e exibição de filmes que acontecerá no dia 19 em São Paulo (este link tem mais informações).

TÚMULO DE EDGAR ALLAN POE (FOTO: WIKIMEDIA COMMONS)

Poe, personagem
Por tudo isso e muito mais, Edgar Allan Poe continua vivo — e lido. Continuam enfeitiçando-nos os movimentos de sua escrita e de seu atormentado espírito; os rodopios de uma alma insatisfeita.

Criando com a própria vida, ele acabou por tornar-se o grande personagem de si mesmo. Antes de Roderick Usher, de Arthur Gordon Pym ou de William e Wilson, foi Poe, e ninguém mais, a vítima de neuroses transmutadas em atrocidades, o acossado pelas sombras, o perseguido e o perseguidor, o obcecado por aquilo que oculta o espesso véu do cotidiano.

Melhor para nós que, em meio a tanto tumulto, Poe ainda encontrasse lucidez para empunhar a pena. E para imprimir, no papel, a marca perene do gênio, que mais de dois séculos não foram capazes de apagar.

*Oscar Nestarez é ficcionista de horror e mestre em literatura e crítica literária. Publicou Poe e Lovecraft: Um Ensaio Sobre o Medo na Literatura (2013, Livrus) e as antologias Sexorcista e Outros Relatos Insólitos (2014, Livrus) e Horror Adentro (2016, Kazuá).

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Fonte: GALILEU

HQ que conta história de Carolina de Jesus ganha prêmio internacional

 A graphic novel conta a infância pobre da escritora, sua vida sofrida, fama e seu esquecimento

Por: Isabela Alves

Carolina Maria de Jesus foi uma escritora brasileira que se tornou um fenômeno literário na década de 60, com auxílio do jornalista Audálio Dantas. Seu livro de estreia, Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, ficou no topo da lista de mais vendidos e foi publicado em mais 13 países.

O que mais chama a atenção na história da escritora negra, pobre e favelada é que ela reunia características que até hoje fazem milhões de mulheres serem discriminadas e excluídas socialmente.

Carolina começou a estudar aos sete anos, mas interrompeu o curso no segundo ano. Apesar do pouco tempo na escola, ela conseguiu aprender a ler e a escrever e ainda desenvolveu o gosto pela leitura. Tempos depois, tornou-se mãe de três filhos e os sustentou sozinha trabalhando como catadora.

Apesar de ser considerada uma das primeiras e mais importantes escritoras negras do Brasil, sua literatura marginal passou desconhecida na academia. Como uma maneira de resgatar a história da escritora, João Pinheiro e Sirlene Barbosa criaram uma história em quadrinhos (HQ) chamada ‘Carolina’, que retrata a infância pobre dela em Minas Gerais, a vida sofrida em São Paulo, a fama, as ilusões, as decepções e o seu declínio.

A graphic novel, que possui 128 páginas, venceu o prêmio especial do Festival de Quadrinhos de Angoulême, o mais importante do mundo do gênero. A cerimônia de entrega ocorrerá no dia 24 de janeiro, na França. Os interessados podem encontrar a obra na Amazon.

Fonte: 

Obra de Monteiro Lobato cai em domínio público, sem o pagamento de direitos autorais

Especialistas comemoram a democratização deste legado

Texto por Ana Clara Brant 
(foto: Kleber Sales/CB/D.A Press )

Desde 1º de janeiro, a obra de Monteiro Lobato (1882-1948), considerado o pai da literatura infantil no Brasil, caiu em domínio público. Isso significa que direitos autorais sobre seus livros e artigos não são mais protegidos. Está dispensada a autorização para utilizá-los. A proteção aos direitos autorais perdura por 70 anos, desde o primeiro dia do ano seguinte ao da morte do autor. Na prática, qualquer editora poderá publicar as histórias de Lobato – tanto reedições quanto adaptações que remetem a ele e a seus personagens.

“Não deixa de ser uma forma de democratizar, tornando o autor mais acessível. No Brasil, têm ocorrido muitos problemas com a administração de direitos por conta de herdeiros. Um aspecto interessante é que como Lobato era uma figura muito rica e complexa, (a liberação) permite a divulgação de perfil mais amplo de sua obra, principalmente por meio da disponibilização de arquivos pessoais, como cartas”, afirma Maria Cristina Soares, professora titular da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (Fale/UFMG).

Com a novidade, vários lançamentos estão previstos para este ano. A Globo Livros, que detinha desde 2007 os direitos exclusivos sobre a obra do criador de Pedrinho, Dona Benta e Tia Nastácia, deve colocar no mercado edições especiais de A chave do tamanho e O Picapau Amarelo. Em fevereiro, a Companhia das Letras lança nova edição de Reinações de Narizinho, além da biografia juvenil de Monteiro Lobato preparada por Marisa Lajolo, especialista na obra do autor, em parceria com a historiadora Lilia Schwarcz.

Pedro Bandeira, outro grande nome de nossa literatura infantil, está adaptando obras de Lobato para as crianças do século 21. Narizinho, a menina mais querida do Brasil será publicado em breve pela Editora Moderna.

A jornalista e escritora mineira Marcia Camargos, biógrafa do escritor e coautora de Monteiro Lobato: Furacão na Botocúndia (Edições Senac), vai lançar uma versão para o público jovem do livro de contos Urupês, que completou 100 anos em 2018 e tornou famoso o personagem Jeca Tatu.

EXPOSIÇÃO Na quarta-feira (16), a Biblioteca Nacional, com sede no Rio de Janeiro, abrirá exposição dedicada a Lobato. O público poderá ver exemplares de primeiras edições de livros dele, cartas trocadas com Lima Barreto, de quem foi editor e amigo, e vários manuscritos.

A instituição guarda cerca de 1 mil itens relativos ao escritor paulista, entre livros, manuscritos e cartas. “Nosso acervo sempre esteve disponível para a consulta do público. Uma parte dele, inclusive, está acessível digitalmente no nosso site. Agora, com o domínio público, haverá maior interesse das pessoas e das próprias editoras e autores sobre o legado dele, sem contar que aumenta a divulgação. Isso é importantíssimo”, destaca Ana Merege, curadora da Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional.

EDITOR José Bento Monteiro Lobato nasceu em Taubaté, interior de São Paulo, em 18 de abril de 1882. Formou-se em direito na Faculdade do Largo São Francisco, na capital paulista, mas abandonou a profissão. Foi escritor, jornalista, tradutor, editor, empresário e fazendeiro. Fundou sua própria editora, publicando dezenas de livros para adultos e crianças.

Em 1920, Lobato lançou seu primeiro livro infantil, A menina do narizinho arrebitado, com grande sucesso. A partir daí, surgiram as histórias do Sítio do Picapau Amarelo, com aventuras bem brasileiras, recuperando costumes do interior, além de lendas do folclore como o saci. O autor usou também elementos da literatura universal, da mitologia grega, dos quadrinhos e do cinema. Além de tudo isso, tornou-se pioneiro da literatura paradidática.

Essa personalidade multifacetada é um dos aspectos que mais chamam a atenção da biógrafa Marcia Camargos. “Ele se envolveu em quase todos os setores da vida nacional. Da culinária ao movimento sem-terra, passando pelo petróleo, automóvel e até espiritismo, quando perdeu seus filhos. Depois da biografia (parceria dela com Carmen Lúcia de Azevedo e Vladimir Sacchetta), passamos a escrever artigos sobre os mais variados assuntos”, comenta.

MODERNO A professora Maria Cristina Soares ressalta a faceta do paulista não só como autor, sobretudo de livros infantis, mas como editor. Em parceria com Eliane Marta Teixeira Lopes, ela organizou a coletânea Lendo e escrevendo Lobato, que reúne textos de vários especialistas.

“Em parte, ele foi responsável pela modernização do mercado editorial brasileiro. Há um episódio muito curioso. A gente mal tinha livrarias naquela época. Certa vez, ele escreveu uma carta para todos os estabelecimentos comerciais do Brasil, com exceção dos açougues, oferecendo, de maneira irônica, um objeto chamado livro”, conta.

Sem dúvida, a faceta mais difundida de Lobato é sua importância para a literatura infantil. Marcia Camargos afirma não ter dúvida de que ele é o Hans Christian Andersen do Brasil. Esse dinamarquês escreveu os clássicos A pequena sereia e O patinho feio.

Monteiro Lobato se dedicou às crianças por não encontrar livros com temática brasileira para ler para os filhos. “Ele já escrevia para adultos e percebeu que as historinhas infantis não tinham nada a ver conosco. Lobato foi – e ainda é – um autor popular que defendia a literatura como instrumento da transformação da realidade, da formação de cidadãos. Uma literatura acessível ao grande público”, enfatiza.

Maria Cristina Soares destaca que esse autor revolucionário jamais infantilizou as crianças. “Ele trata da complexidade do pensamento delas, mas lidando com imaginação. Sua obra tem uma qualidade e uma relevância literária impressionantes. Sem contar a perspectiva didática interessante, pois aborda temas como mitologia e ciências. Até hoje Monteiro Lobato é lido, pois é atemporal, sem contar que sua obra ganhou outras leituras que ajudaram a disseminá-lo, como a própria televisão”, conclui.

PIONEIRO E POLÊMICO 

Símbolo do nacionalismo no país, Monteiro Lobato foi um dos líderes da campanha O Petróleo é Nosso (foto: Arquivo EM/D.A Press)

Monteiro Lobato é alvo de polêmicas que voltarão à cena agora, quando sua obra cai em domínio público. Em 2010, um de seus livros mais importantes, Caçadas de Pedrinho (1933), foi acusado de “teor racista” pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), que recomendou ao governo não distribuí-lo a escolas públicas. Posteriormente, a relatora do caso voltou atrás e decidiu que cada professor deveria dar explicações aos alunos sobre o preconceito presente no livro.

A discriminação estaria presente no tratamento conferido à personagem Tia Nastácia e a animais como o macaco e o urubu, entre outras passagens. Uma das frases escritas por Lobato é: “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão”.

“Monteiro Lobato é um autor que não só reflete uma visão que muitos consideram racista, mas também tinha traços de uma desqualificação do negro mais significativa do que outros escritores. Sem dúvida, ele se alinha com uma perspectiva racial muito complicada”, observa Maria Cristina Soares, organizadora da coletânea Lendo e escrevendo Lobato.

Há pouco tempo, lembra a professora, comentou-se a ligação do criador de Emília, Tia Nastácia e Narizinho com a Ku Klux Klan, organização racista norte-americana. A revista Bravo! chegou a publicar cartas inéditas do escritor paulista se referindo a isso. “Um dia se fará justiça ao Ku Klux Klan; tivéssemos uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos livres da peste da imprensa carioca – mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva”, escreveu Lobato, em 1938.

No entanto, a professora Maria Cristina Soares chama a atenção para o contexto em que Monteiro Lobato se formou. Nascido em 1882, seis anos antes da abolição da escravatura, e fazendeiro (recebeu terras como herança do avô), ele era uma homem de seu tempo, apesar de considerado visionário.

“Lobato nasceu no século 19, mas tinha pensamentos do século 19 e do século 20. Essa polêmica (do racismo) foi importante para trazer o outro lado dele, mas temos que entendê-lo em toda a sua complexidade. Ninguém nega que Lobato comungava desses ideários segregadores. Porém, não dá para desqualificar sua literatura por conta disso. Temos de situar o leitor naquele contexto em que o negro tinha um outro valor, infelizmente. Deve-se entender aquele momento histórico”, pondera a professora da Universidade Federal de Minas Gerais.

Zilka Salaberry (dona Benta), Jacira Sampaio (Tia Nastácia), Dirce Migliaccio (Emília) e André Valli (Visconde de Sabugosa) em Sítio do Picapau Amarelo, sucesso da Rede Globo nos anos 1970 (foto: Globo/Reprodução )

REFLEXO 

A biógrafa Marcia Camargos não vê Lobato propriamente como racista, mas como um reflexo das ideias da época em que viveu. A jornalista reconhece, porém, que o escritor era defensor da eugenia. Essa teoria defende o aprimoramento da raça humana por meio da seleção de características hereditárias e genéticas consideradas “superiores” que seriam próprias dos brancos, por exemplo, em detrimento de negros e asiáticos.

“Ele se entusiasmou com isso, tinha tais arroubos porque queria achar soluções para o país, acreditando que a miscigenação era um fator prejudicial na formação do povo brasileiro. Ele namorou todas essas teorias, mas depois caiu em si”, garante Marcia Camargos.

De acordo com a especialista, a prova de que Lobato não desprezava os negros está no fato de ter escrito Negrinha (1920), eleito um dos 100 melhores contos brasileiros do século 20. O texto (veja trecho nesta página) retrata a coisificação e a animalização de uma órfã de 4 anos.

“Negrinha é um libelo contra o racismo, contra o espírito escravocrata, contra a hipocrisia da Igreja. Só essa obra anula todas as outras que poderiam ter algum caráter racista. As pessoas devem compreender que Monteiro Lobato tinha a mentalidade da época, embora fosse um homem à frente do seu tempo. Em sua casa ainda havia resquícios da escravidão. Não teria como Tia Nastácia ser a Dona Benta, proprietária de um sítio. Isso não refletia a realidade, pois o negro ainda era tratado como objeto”, afirma a autora de Furacão na Botocúndia.

No entanto, Marcia considera fundamental questionar a obra do escritor paulista. “Entendo que há pessoas que leram e se sentiram incomodadas – e é bom que se sintam assim, justamente para questionar. Monteiro Lobato sempre considerou a criança um ser independente, cujo senso crítico deve ser desenvolvido. Ela não pode ser colocada numa bolha. Principalmente no caso da criança negra, ela tem de questionar mesmo, caso se sinta ofendida. Só assim vai se formar um adulto crítico”, defende a biógrafa de Lobato.

PETRÓLEO 

Monteiro Lobato era ferrenho nacionalista. Em 1936, ele lançou O escândalo do petróleo, defendendo a exploração do combustível apenas por empresas brasileiras. A campanha mobilizou o Brasil a partir de 1947, com o fim da 2ª Guerra Mundial e a derrubada do Estado Novo, ditadura comandada por Getúlio Vargas.

Lobato foi um dos líderes da campanha O Petróleo é Nosso. Defendia que a independência econômica deveria ser complemento da liberdade política decorrente da democracia. De acordo com ele, isso só seria possível com a exploração do combustível pelos brasileiros.

No período em que morou nos Estados Unidos, onde atuou como adido comercial, o escritor tomou conhecimento de conquistas tecnológicas e industriais ligadas à exploração do petróleo e do ferro. De volta ao país, ajudou a implantar a Companhia Petróleos do Brasil. Graças à grande facilidade com que foram subscritas as ações, Monteiro Lobato fundou empresas de perfuração de petróleo, como a Companhia Petróleo Nacional, a Companhia Petrolífera Brasileira e a Companhia de Petróleo Cruzeiro do Sul.

A maior delas, fundada em julho de 1938, era a Companhia Mato-grossense de Petróleo, que buscava o “ouro negro” perto da fronteira com a Bolívia.

“Ele sempre achou que tínhamos condições de ser autossuficientes com relação ao petróleo. Naquela época, nem se imaginava a extração no mar. Vemos em toda a trajetória dele o desejo de que o Brasil fosse um país desenvolvido, com distribuição de renda. Era até uma visão meio positivista. Lobato chegou a bater de frente com várias pessoas, inclusive do governo. Sem dúvida, foi questionador e inquieto, vivia se reinventando. Ele queria o melhor para o país”, conclui a biógrafa Marcia Camargos.

Fonte: Uai

O ano de Monteiro Lobato

Obra do criador do “Sítio do Pica Pau Amarelo” entra em domínio público e volta a circular em diferentes projetos

ALEXANDRE LUCCHESE

Este é o ano em que Monteiro Lobato (1882-1948) passará a ser visto com outros olhos. Com a chegada de 2019, toda a obra do escritor paulista, criador do Sítio do Picapau Amarelo, entra em domínio público,  e qualquer editora tem agora liberdade para lançar seus títulos infantis e adultos — na íntegra ou em adaptaçõs – sem a necessidade de pagar direitos autorais. Segundo a legislação brasileira, direitos autorais estão protegidos por 70 anos a partir do ano subsequente à morte do autor – a de Monteiro Lobato completou 70 anos em 4 de julho de 2018.

Fraga / L&PM
Emília e Visconde de Sabugosa em ilustração de Fraga para projeto da editora L&PMFraga / L&PM

Boa parte dos especialistas no estudo de Lobato não estão preocupados com edições descuidadas ou oportunistas. Ao contrário, estão curiosos para ver as representações do Sítio do Picapau Amarelo se multiplicarem. Isso porque, apesar do texto cair em domínio público, as ilustrações clássicas dos livros do autor seguem reservadas. Ou seja, muitos editores devem procurar novos ilustradores para comporem seus lançamentos.

O designer gráfico Magno Silveira está otimista quanto às possíveis novidades. Silveira é responsável pela pesquisa iconográfica das edições de Lobato pela Biblioteca Azul, selo da Globo Livros, que recupera ilustrações clássicas do Sítio:

– Foram aqueles ilustradores do período de 1920 a 1948 que sacramentaram em nossa mente a Emília, o Visconde, o Pedrinho… Toda a turma. Eram artistas acostumados com a linguagem da publicidade e dos periódicos, sabiam como concentrar expressões corporais e faciais de modo a torná-las inesquecíveis. Deixaram seu legado. Agora creio que os horizontes serão ampliados, poderemos ter surpresas boas em novas imagens.

A Biblioteca Azul, que já vinha publicando a obra de Lobato antes de 2019, pretende lançar mais duas aventuras do Sítio ao longo do ano: A Chave do Tamanho e O Picapau Amarelo. Pelo menos mais três editoras já confirmaram que vão publicar suas edições da obra infantojuvenil de Lobato: Companhia das Letras, Sesi-SP e L&PM Editores.

O primeiro título a sair pela Companhia será Reinações de Narizinho, iniciando uma coleção coordenada por Marisa Lajolo, referência muito conhecida nos estudos sobre Lobato. Marisa também planeja lançar pela editora, até fevereiro, Reinações de Monteiro Lobato, escrito por ela e a historiadora Lilia Schwarcz. Trata-se de uma biografia do escritor voltada para crianças. Segundo Marisa, escrever para o público infantil não foi empecilho para tratar de temas densos e às vezes até polêmicos, como as acusações de racismo sofridas pela obra de Lobato nas últimas décadas:

– Demos a palavra a Lobato, para ele contar sua própria história, conversando o tempo todo com os leitores. O maior desafio foi modular o tom do narrador. Como Lobato falaria com crianças de hoje? Como ele comentaria as polêmicas sobre sua obra? Como falar do Brasil de Lobato, um Brasil tão antigo, com crianças de hoje?  Gostamos muito das discussões e aprendizagens que escrever o livro nos proporcionou.

A gaúcha L&PM já está distribuindo às livrarias 10 títulos do Sítio, em formato pocket. A coleção, que poderá ser ampliada, começou a ser projetada em 2017 e conta com ilustrações de Gilmar Fraga, artista gráfico de Zero Hora.

– Eu me inspirei em ilustradores clássicos do Sítio, como Belmonte e André Le Blanc, e também na série de televisão, que fez parte da minha formação. Tudo isso também se mistura com referências mais modernas que trago comigo – afirma Fraga.

Até agora, o projeto mais ambicioso divulgado é o da Sesi-SP Editora. O grupo deve lançar toda a obra infantojuvenil de Lobato, compiladas em 27 edições, entre fevereiro e julho. Com a pretensão de conquistar leitores também fora do Brasil, a editora convidou ilustradores brasileiros e portugueses para compor o trabalho. Cada livro contará com imagens originais de um ilustrador diferente.

– A fabulação de Lobato é magistral e se perpetua no tempo pela criatividade, inventividade e força inconteste na construção dos personagens. Acreditamos que existe agora um retorno ou um esforço para que se retome a fabulação na formação da criança e do adolescente para fazer frente ao pragmatismo da tecnologia e das novas mídias – explica Rodrigo de Faria e Silva, diretor editorial da Sesi-SP.

Fonte: GaúchaZH

Livros escritos por mulheres indicados por bibliotecárias

Uma estudante do curso de Biblioteconomia da ECA/USP postou numa página do Facebook o seguinte pedido:

Preciso de indicações de livros que vocês tenham amado, escritos por mulheres

O resultado foi inesperado. Em poucas horas surgiram dezenas de sugestões, e a postagem continuou recebendo comentários por vários dias. Como a lista ficou muito boa resolvemos, com a concordância da autora do pedido, publicá-la aqui, como indicação de leitura para as férias.

A lista é bastante heterogênea, contendo desde literatura leve, que marcou a adolescência de várias leitoras, até modernos ícones feministas, como a autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, sem esquecer das histórias em quadrinhos. O critério de elaboração foi o gosto de quem colaborou, em sua maioria mulheres estudantes de biblioteconomia ou bibliotecárias, mas os homens também contribuíram alegremente. Complementamos com uma ou outra indicação no momento da redação deste post, e temos certeza de que as sugestões continuam surgindo.

Simone de Beauvoir e Jane Austen estão entre as ausências notáveis, mas não importa. Não se trata de uma lista de melhores, mas de uma lista de livros amados.

Muitos desses títulos talvez estejam disponíveis nas bibliotecas da USP ou em alguma biblioteca pública perto de vocês. Aproveitem!

Adeus, Haiti. Edwidge Dantica
Amada. Tony Morrison
O amante. Marguerite Duras
Americanah. Chimamanda Ngozi Adichie
A amiga genial. Elena Ferrante
Anarquistas Graças a Deus. Zelia Gattai
Antes do baile verde. Lygia Fagundes Telles
A arte de ler. Michele Petit
Autobiografia de todo mundo. Gertrude Stein

Lygia Fagundes Telles

Baratas. Scholastique Mukasonga
The bell jar. Sylvia Plath
A biblioteca invisível. Geneviève Cogman
As boas mulheres da China. Xinran
As brumas de Avalon. Marion Zimmer Bradley

A cabeça do santo. Socorro Acioli
Calibã e a bruxa. Silvia Federici.
Caniços ao vento. Grazia Deledda
Os casamentos entre as zonas 3, 4 e 5. Doris Lessing
O caso do dez negrinhos. Agatha Christie
O castelo animado. Diana Wynne Jones
A chave de casa. Tatiana Salem Levy
Ciranda de pedra. Lygia Fagundes Telles
Como esquecer. Myriam Campello
O conto da aia. Margareth Atwood
A cor púrpura. Alice Walker
Corte de espinhos e rosas (série). Sarah J Mass
Crepúsculo (saga). Stephanie Meyer

Um defeito de cor. Ana M Gonçalves
Desmundo. Ana Miranda
Delta de Vênus. Anaïs Nin
O diário de Anne Frank. Anne Frank
Dias de abandono. Elena Ferrante
A diferença invisível. Mademoiselle Caroline e Julie Dachez (Quadrinhos)
O direito de ler e de escrever. Silvia Castrillon
A dor. Marguerite Duras

E no final a morte. Agatha Christie
E o vento levou… Margaret Mitchell
Entrevista com Vampiro. Anne Rice
Éramos seis. Maria José Dupré
Estação Onze. Emily St. John Mandel

Falsas Aparências. Sarah Waters
O feiticeiro de Terramar. Ursula K. Le Guin
Frankenstein. Mary Shelley

A garota no trem, A. Paula Hawklin
The grass is singing. Doris Lessing
A guerra não tem rosto de mulher. Svetlana Aleksiévitch

Hibisco roxo. Chimamanda Ngozi Adichie
História de quem foge e de quem fica. Elena Ferrante
História do novo sobrenome. Elena Ferrante
Hoje é o último dia do resto da sua vida. Ulli Lust (Quadrinhos)

As lendas de Dandara. Jarid Arraes

Memórias eróticas de Paris na Belle Époque. Anne Maria Villefranche
As meninas. Lygia Fagundes Telles
Minha prima Raquel . Daphne DuMaurier
Mornas eram as noites. Dina Salústio
O morro dos ventos uivantes. Emily Brontë
Mulheres que correm com os lobos. Clarissa Pinkola Estés

Niketche: uma história de poligamia. Paulina Chiziane
Ninguém vira adulto de verdade. Sarah Andersen (Quadrinhos)
No seu pescoço. Chimamanda Ngozi Adichie
A nova mulher e a moral sexual. Alexandra Kolontai

Olhos d’água. Conceição Evaristo
O osso: poder e permissão. Erika Balbino.
Outros jeitos de usar a boca. Rupi Kaur
A paixão segundo GH. Clarice Lispector
O papel de parede amarelo. Charlotte Perkins Gilman
Para educar crianças feministas. Chimamanda Ngozi Adichie
Perto do coração selvagem. Clarice Lispector
O peso do pássaro morto. Aline Bei
Placas tectônicas. Margaux Motin (Quadrinhos)
Persépolis. Marjane Satrapi (Quadrinhos)
Pollyanna . Eleanor H. Porter

Quarto de despejo. Carolina de Jesus
O que o sol faz com as flores. Rupi Kaur
O Quinze. Rachel de Queiroz

Rebecca. Daphne DuMaurier

O sol é para todos. Harper Lee

Os teclados. Teolinda Gersão
Um teto todo seu. Virginia Woolf
O torreão. Jennifer Egan
Trono de vidro (série). Sarah J Mass

Virginia Woolf

Um útero é do tamanho de um punho. Angélica Freitas

A vida invísivel de Euridice Gusmão. Marta Batalha
A vida que ninguém vê. Eliane Brum

Zonas úmidas. Charlotte Roche

Outras fontes indicadas no post

Mulheres negras na biblioteca

https://www.facebook.com/mulheresnegrasnabiblio/

30 escritoras brasileiras contemporâneas para conhecer em 2018

homoliteratus.com/escritoras-brasileiras-contemporaneas/

créditos: o post que provocou a chuva de sugestões é da Debyh Dias. Como muita gente colaborou, não dá para citar todos os nomes. Agradecemos a todas (e todos).

Fonte: Blog da Biblioteca da ECA

Ecoando as periferias, Sérgio Vaz completa 30 anos de poesia

“Arte e cultura têm poder de resgatar a humanidade e cidadania”, defende poeta da zona sul de São Paulo

Texto  por Mayara Paixão
Poeta Sérgio Vaz, 54, criador da Cooperifa - Créditos: Divulgação
Poeta Sérgio Vaz, 54, criador da Cooperifa / Divulgação

Neste 10 de dezembro de 2018, o mineiro Sérgio Vaz completa 30 anos de produção literária. Vivendo em São Paulo há quase 50 anos e tendo o estado como cenário de muitos de seus trabalhos, já pode ser considerado um paulista. Há três décadas, ele publicava sua primeira obra, intitulada “Subindo a ladeira mora a noite” e, desde então, foram mais sete títulos publicados.

Versando sobre as vozes e realidades das periferias paulistas, o poeta retrata o racismo, a desigualdade econômica e também a cultura que pulsa nas regiões periféricas da cidade. Humilde, ele entende a importância de seu trabalho, mas acredita que há muito para fazer, ainda mais quando se trata dos autores negros e independentes. “Se já está difícil para a dita ‘alta literatura’, quem dirá para autores da periferia.”

Buscando dar vazão não só ao seu trabalho, mas ao de centenas de outras vozes, Vaz é fundador da Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa) e idealizador do Sarau da Cooperifa.

Em homenagem ao trabalho prestado à poesia e às periferias brasileiras, Sérgio Vaz recebe, em dezembro, o Prêmio Santo Dias de Direitos Humanos pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp).

O poeta conversou com a Rádio Brasil de Fato sobre as transformações ao longo destes 30 anos, suas inspirações, o cenário político e literário brasileiro e o papel da arte na vida da juventude.

Confira a íntegra da entrevista:

Brasil de Fato — Em 30 anos de construção na literatura, o que sente que mudou?

Sérgio Vaz — Acho que o que mudou foi a identidade da periferia. Quando comecei, nem eu bem entendia o que queria escrever, porque tinha um preconceito e achava que a poesia era e tinha que ser uma linguagem difícil. Minha poesia começou a falar do lugar em que eu vivo, em que permaneço, no qual eu luto, então me deu uma identidade que talvez eu não tivesse. A poesia ajudou a minha pessoa e às vezes eu colaboro com a poesia. Acho que é isso: identidade.

Várias obras suas, em especial as primeiras produções, são independentes. Como você enxerga o espaço no mercado editorial para autores que trazem as pautas e as vozes das periferias para os livros?

O Brasil é um país que não lê. Não lê o pobre, não lê a classe média, não lê o rico e é um país que agora no mercado editorial está passando por uma crise muito grande. Se já para a dita “alta literatura”, quem dirá para autores da periferia.

Mas a vantagem entre nós, autores negros e periféricos, é que criamos um mercado próprio. Os lançamentos geralmente são nos saraus, que são mais de 50 acontecendo em São Paulo e no Brasil, então a gente tem uma rede: compramos os livros dos amigos e os amigos compram os nossos livros, e saímos distribuindo de mão em mão.

Apesar de eu já estar em uma editora e não fazer mais livro independente, ainda pego eles para poder vender, para manguear ele na rua. Para mim não mudou muita coisa. Acho que para nós a batalha vai ser sempre a mesma.

Qual é o papel que a literatura – e a arte como um todo – pode desenvolver na vida das pessoas, em especial da juventude?

Acho que arte e cultura têm um poder de resgatar a humanidade e a cidadania. Essa juventude hoje está consumindo saraus, slams, batalhas e rima. Está popularizando a literatura.

A literatura, para além dos livros, está passando de boca em boca no ouvido dessa molecada e essa juventude é muito inteligente, muito mais rápida, e está gostando de ter voz.

Acho que o mais importante de tudo é ter voz, dizer o que você pensa, o que você acha e cortar os atravessadores. Quem fala pelos jovens da periferia tem que ser os jovens da periferia. Nós não precisamos de pessoas para dizer o que a gente tem que fazer, ouvir ou falar.

Você nasceu em 1964, ano em que começa a ditadura militar no Brasil. Hoje você enxerga que sentiu os efeitos do regime militar na sua vida e formação?

Nessa época eu não tinha nem ideia do que era a ditadura, tamanha era a ditadura. A periferia não tinha a participação política que tem hoje.

Eu servi o exército em 1983, lá que eu descobri que nós vivíamos em uma literatura em que não éramos os heróis, e sim os vilões da democracia.

A partir daí que eu tomo conhecimento, a minha cabeça muda, começo a me interessar por uma literatura mais política, engajada, começo a ouvir um outro tipo de música — já venho dos bailes black de São Paulo, música negra americana e brasileira, e aí me interesso mais pela música popular brasileira dos anos 1960 e 1970, que combatia a ditadura.

Qual foi a “virada de chave” que te fez começar a produzir literatura?

Acho que quando eu li Carolina de Jesus, Quarto de Despejo. Eu tinha uma ideia elitista da literatura, da poesia, e quando li Carolina, pensei: é isso! Fala da minha gente, da minha cor, da minha raça, do meu povo, do meu bairro. Foi aí que eu tive percepção de que a poesia podia ser uma arma de defesa e de ataque.

Pelos olhos da periferia, como tem visto o momento político que vivemos hoje, em especial o que nos espera com o resultado das eleições?

É trágico. Você vê a democracia agonizando novamente e as pessoas sequer sabem o que pode acontecer. A periferia, como sempre, estava de uma certa forma de direita. Mas eu não acho que ela seja de direita e acho também que não é de esquerda. A maioria da população está um pouco alienada devido ao trabalho, pouco estudo, à correria.

Há de se lembrar também que a mesma periferia votou duas vezes no Lula e duas vezes na Dilma. No começo, senti que o povo estava precisando de um herói, de alguém que falasse aquilo que eles estão precisando no momento, que é segurança, saúde, educação, essas coisas. Mas ele [Bolsonaro] disse de uma forma violenta, e as pessoas não conseguiram entender direito. Ele falou diretamente o que as pessoas queriam ouvir. E talvez a esquerda, de alguma forma, não tenha conseguido uma linguagem para que as pessoas entendam realmente quais são as propostas do partido.

Então eu vi que as pessoas estavam mais alienadas do que fascistas. Vi muita gente falar de pobre de direita e eu não acredito nisso, até porque essas coisas sempre começaram na Avenida Paulista e a gente não tem nenhum negro ou pobre na Lava Jato, nesse escândalo todo. A periferia, infelizmente, pegou as notícias que vinham — e a gente sabe que esse trabalho está sendo feito há muitos anos — e essa eleição foi simplesmente o momento final que o golpe deu na população brasileira.

Edição: Guilherme Henrique

Fonte: Brasil de Fato

Militar e autor de Os Sertões: Flip 2019 homenageará Euclides da Cunha

Rodrigo Casarin

Autor do clássico “Os Sertões”, jornalista, engenheiro e integrante do exército nacional, Euclides da Cunha será o homenageado da edição de 2019 da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que acontecerá entre os dias 10 e 14 de julho. “A obra de Euclides tem qualidade literária indiscutível, é um clássico brasileiro que nem sempre é lembrado. É também uma obra de não ficção e esse foi um dos aspectos que ressaltei sobre a minha curadoria. Finalmente, a obra de Euclides, em especial ‘Os Sertões’, é de uma atualidade assombrosa e serve como ponto de partida para debates em diversas áreas”, diz Fernanda Diamant, a nova curadora do evento, em entrevista ao blog.

A biografia de Euclides é marcada por múltiplas atividades. Em 1888, após tentar quebrar a própria* baioneta durante uma visita do ministro da Guerra em protesto contra a monarquia, foi excluído do Exército, para onde seria reconduzido após a proclamação da República, no dia 15 de novembro de 1889, e chegaria ao posto de Segundo Tenente. Nem só de farda viveu, no entanto. Como engenheiro, trabalhou na construção da Estrada de Ferro Central do Brasil. Como engenheiro, trabalhou na construção da Estrada de Ferro Central do Brasil. Como jornalista, fez história escrevendo para “A Província de São Paulo”, mais tarde transformado em “O Estado de São Paulo”.

Pelo jornal que foi para o interior da Bahia no final da década de 1890 cobrir a revolta de Canudos. Presenciando o massacre que os militares, sob a batuta do Estado, promoveram contra o movimento encabeçado por Antônio Conselheiro, começou a colocar em xeque suas ideias e a plena fé no governo republicano. Do trabalho como correspondente e do choque de realidade que presenciou que nasceu “Os Sertões”, clássico da literatura nacional publicado em 1902 e dividido em três partes: “A Terra”, “O Homem” e “A Luta”.

Membro da Academia Brasileira de Letras e também autor de livros como “Contraste e Confrontos” e “Peru Versus Bolívia”, Euclides nasceu em 1866 no Rio de Janeiro, onde morreu em 1909, aos 43 anos, após ser baleado por Dilermando vinha tendo um caso com Ana, mulher de Euclides, que resolveu se vingar dos dois à bala. Fracassou. Ele que acabou levando o tiro fatal e Dilermando, que agira em legítima defesa, depois foi absolvido por um júri popular. “Sua vida e sua obra são impressionantemente atuais, podemos tirar delas muitos assuntos para debater: política, filosofia, história, jornalismo, ciência, racismo, religião, literatura, ecologia, guerra e violência”, argumenta Fernanda, a curadora, sobre sua escolha.

Fernanda Diamant. Foto: Nino Andres.

Por que a escolha do Euclides como homenageado?

A escolha foi feita em primeiro lugar porque a obra de Euclides da Cunha tem qualidade literária indiscutível, é um clássico brasileiro que nem sempre é lembrado. É também uma obra de não ficção e esse foi um dos aspectos que ressaltei sobre a minha curadoria. Finalmente, a obra de Euclides, em especial “Os Sertões”, é de uma atualidade assombrosa e serve como ponto de partida para debates em diversas áreas.

Quais traços da obra e da biografia do Euclides mais chamam sua atenção? Por quê?

Euclides era do exército brasileiro, era engenheiro e jornalista. “Os Sertões” surge do trabalho dele como correspondente de guerra. Ele é enviado pelo jornal “O Estado de São Paulo” para cobrir a revolta de Canudos, no interior da Bahia. Vai com convicções políticas sobre a natureza do conflito que vão mudando conforme entra em contato com a realidade local.

Depois de termos Lima Barreto e Hilda Hilst como homenageados, agora o Euclides, um nome que me parece bem mais estabelecido em nosso cânone. O que isso simboliza? Sua curadoria da Flip se voltará mais para a literatura que se aproxima, emula ou segue abertamente a tradição canônica?

A escolha não teve esse critério. Euclides me parece a homenagem ideal nesse momento do Brasil. Sua obra discute uma série de temas que dizem respeito ao que estamos vivendo. Faz parte do cânone mas não é um autor popular, então acho que fazer sua obra mais acessível também será importante. Ainda, é um autor de não ficção, outra característica que considerei.

Quando você foi anunciada curadora, falou sobre o papel que a não ficção tem e teria em seu trabalho. “Os Sertões”, a grande obra de Euclides, segue essa linha. Essa escolha é mais uma sinalização no sentido de privilegiar a não ficção?

Quero apenas deixar claro que a ficção também terá bastante espaço na Flip, apenas quero dar mais espaço para a não ficção.

Aliás, há quem torça o nariz para a literatura de não ficção e pense que a Flip deveria preencher boa parte das cadeiras de suas mesas com autores de ficção literária – e dando preferência para nomes nacionais. O que você pensa disso?

Eu não tenho essa impressão, acho que a Flip tem espaço suficiente para os dois gêneros e público idem. Conheço muitos leitores vorazes que só consomem não ficção de qualidade. Percebo isso também como editora da [revista] Quatro Cinco Um, que cobre os dois gêneros.

Euclides morreu baleado em uma troca de tiros, após ele mesmo balear um amante de sua mulher. Como você encara esse episódio final da vida do escritor? Me parece simbólico termos a homenagem a um autor que morreu numa situação dessas ao mesmo tempo em que o Brasil promete facilitar as leis para que a população tenha novamente acesso amplo às armas.

Ainda não tinha feito essa associação com a biografia do autor, mas apenas confirma minha tese. Sua vida e sua obra são impressionantemente atuais, podemos tirar delas muitos assuntos para debater: política, filosofia, história, jornalismo, ciência, racismo, religião, literatura, ecologia, guerra e violência.

Já tem em mente quais eixos temáticos deverão nortear a Flip do ano que vem?

Todos esses assuntos [mencionados na resposta anterior], espero, terão espaço na programação.

Fonte: Blog Página Cinco

Eva Furnari: “O faz de conta é importante para a criança. Ao simbolizar, o inconsciente manifesta-se”

Quando pequena, dotada do puro saber dos 6 anos, desenhou um homem-palito. Vestiu uma roupinha nele, blusa e calça, e entusiasmou-se com o próprio traço. É esse maravilhamento que desde então acompanha Eva Furnari, que costuma perceber cada coisa por meio do figurado. Felpo Filva, o coelho poeta, Lolo Barnabé, o inventor acidental, e Pandolfo Bereba, o príncipe que lista os defeitos alheios, surgiram com outros personagens do olhar criativo da autora, dona de uma narrativa ritmada e cheia de graça – zigue-zague harmônico de palavras e ilustrações.Eva nasceu em Roma, capital italiana, em 1948, mas aos 2 anos desembarcou no  Brasil. Em 1976, formou-se em arquitetura e urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP) e, de 1974 a 1979, foi professora de artes no Museu Lasar Segall. Estreou na literatura em 1980, com a coleção de histórias visuais Peixe Vivo, e na mesma época colaborou no suplemento infantil da Folha de S.Paulo, com as tirinhas da Bruxinha. Com mais de 60 títulos publicados, prêmios vários e mil ideias, a escritora e desenhista sente que ainda há muitas linhas por compor.

As inventividades e as feitiçarias de Trudi, Kiki e companhia preenchem os fins de semana de setembro no Cantinho da Leitura do Itaú Cultural. Eva Furnari é o destaque do mês e, em uma conversa, toca em assuntos que são a sua alquimia, da literatura ao vínculo com educadores.

A leitura estava presente em sua infância? Se sim, de quais maneiras?
Estava sim, na medida em que a minha mãe contava histórias para mim. Eu tinha 8 graus de hipermetropia e uma dificuldade tamanha para ler. Porém, lia, lia pouco. Como a minha família é estrangeira, não comecei com Monteiro Lobato, e sim com Hans Christian Andersen.Tínhamos também o costume de ler em voz alta.

Como se deu o seu contato com a ilustração?
Um avô meu, que não conheci, era pintor. A minha mãe desenhava bem, apesar de não desenhar sempre. Então, eu já tinha uma tendência natural. Outro ponto: alguns livros que tive na infância traziam ilustrações tão bonitas. Além disso, tenho uma relação estética com o entorno, uma conexão com a linguagem, com o movimento facial das pessoas. Esses elementos se refletem no meu desenho.

Personagens, personagens | foto: Site Eva Furnari

E com a literatura? Quando e de qual forma você se tornou escritora? 
Cursei arquitetura e, na faculdade, acabei me envolvendo com as artes plásticas – com uma turma, fiz alguns livretos, sequências de desenhos, brincadeiras que, às vezes, a gente até imprimia na gráfica universitária. Nesse período principiei pelas narrativas – visuais e não direcionadas para crianças. O meu trabalho de conclusão de curso foi sobre livros infantis, aliás. Quando saí do Museu Lasar Segall, já com uma filha pequena, achei que poderia ser interessante trabalhar com livros. No entanto, mal sabia o que são direitos autorais. Passei a procurar editoras em listas telefônicas até que soube que a Ática estava aberta a estreantes. Apresentei um projeto de quatro livros visuais a eles, que gostaram e publicaram. A partir dessa coleção entrei no meio editorial. O meu percurso foi consequência do próprio trabalho. Durante dez anos fiz histórias sem textos escritos e ilustrei enredos de outros autores. Em 1994, lancei a primeira trama intrincada: A Bruxa Zelda e os 80 Docinhos.

O que é literatura para você?
Uma manifestação humana de expressão que encaixo como sendo uma manifestação artística. Obviamente que, nesse conjunto, existem qualidades diversas. Mas é um veículo de experiências. A literatura possui o papel de refletir não só o inconsciente coletivo, como também o inconsciente pessoal, as organizações da psique. O entendimento da vida humana, dos relacionamentos, os significados e as complexidades dos nossos conflitos são matéria de um espaço de liberdade, de troca, que não está atrelado, necessariamente, à venda de algum produto. A arte literária está fora do eixo comercial – não o livro, o conteúdo.

Laboratório do professor Bóris | foto: Site Eva Furnari

Em sua opinião, existe literatura infantojuvenil ou literatura é um todo único? 
A criança tem uma barreira de habilidade e de conhecimento; o jovem, em parte, também. O que posso dizer é que há livros infantis que os adultos podem ler. No entanto, alguém de 7 anos não pode ler Dostoiévski, digamos assim. Existe essa limitação de experiências para entender, por exemplo, um texto de Machado de Assis. Entretanto, considero ambas, tanto a literatura infantojuvenil quanto a adulta, manifestações artísticas de valor. Elas carregam aspectos estruturais diferentes: a primeira apresenta desenhos, pois a criança conhece a ilustração antes de dominar os códigos da escrita. O vocabulário e a complexidade precisam ser adequados. Os assuntos, porém, podem ser variados, inclusive os que não são leves, como a morte. Tudo depende do modo como esses temas são abordados: é mais uma questão de linguagem do que de conteúdo.

Ao escrever, você pensa no leitor? Ou vai por um percurso livre de preocupações com o público?
Há as limitações do leitor infantil e do juvenil. Contudo, não penso, logicamente, nisso quando escrevo, senão o trabalho fica racional demais. À medida que me aprofundo na minha pessoa, consigo chegar ao outro. A via não é direta. E é sempre de um modo mais intuitivo, meio misterioso, uma percepção sutil do que ali é verdadeiro, do que não é. O farol sou eu mesma, apesar de ter conhecimento acerca da limitação da linguagem, de questões educacionais – que não chegam a ser pedagógicas – e éticas – que carrego, naturalmente, em minha vida particular.

A personagem Bruxinha | foto: Site Eva Furnari

A sua obra é vasta. De onde vêm tantas histórias?
Difícil essa pergunta. Existe um traço de personalidade: sou introspectiva, vivo nesse mundo interior mais do que no exterior, disponho de um processo de reflexão e imaginação, fico bem comigo mesma. Olho para alguma coisa e já a vejo simbolicamente. Por exemplo, quando rompeu a barreira de Mariana, em Minas Gerais, a lama invadiu, para mim, simbolicamente, aquilo que estava ligado ao Brasil como um todo. Faço esses paralelos de um jeito involuntário. E também acho que criar histórias é uma maneira de tornar a existência mais divertida, de preenchê-la. Como se tivesse uma criança dentro de mim.

O que é escrever? 
É algo que faz parte de mim. Escrever me ocupa o tempo inteiro, não importa se é sábado ou domingo. Esse métier, essa profissão é uma sorte que tenho – e ela me traz sentido, muito prazer e sofrimento (a folha em branco, a resolução de uma frase ruim). Compartilho as minhas visões, as minhas brincadeiras, os meus jogos, os meus humores – e isso me norteia, é central.

Enquanto espera a comida em um restaurante, Eva desenha em um papel | foto: Site Eva Furnari

E desenhar, o que significa?
É uma grande diversão. Escrevo cada vez mais e desenho um pouco menos, depende da época. A ilustração vai além do desenho: há o conhecimento do personagem, o que é divertido e surpreendente. Trata-se de uma busca pelo novo. Agora, há um mistério em desenhar: faço isso, mas não sei como faço. Há sempre o mistério.

O que os prêmios representam para você?
Os prêmios são ótimos, porque refletem um reconhecimento que parte também do público. Eu me tornei mais segura devido a esse retorno: sei que estou no caminho certo. O momento da criação é muito vago. Saber que consigo me comunicar com o outro faz com que eu perceba que todo o meu empenho vale a pena.

Ateliê da autora | foto: Site Eva Furnari

Se pudesse escolher um momento de sua trajetória profissional, qual seria o selecionado?Dois livros meus são significativos para mim: Os Problemas da Família Gorgonzola (2001), uma obra na qual consegui alcançar uma espontaneidade que as crianças têm ao copiar os meus traços e ao fazer desenhos melhores do que os meus. O outro é o único que não fui eu quem ilustrou: Amarílis (2013), do qual gosto do texto, um texto que me emociona. Ao lê-lo, até hoje choro, mas não sei o porquê. Fora esses títulos marcantes, sou muito agradecida por tudo que recebo dos leitores e dos professores. Com os educadores mantenho uma parceria espontânea: os meus livros estão por aí devido a eles, com quem me identifico e me solidarizo.

A magia é importante para a criança? E para o adulto?
Creio que existem aqueles que entram nesse universo e aqueles que não entram. Nada tem a ver com o valor da pessoa. O faz de conta é importante para a criança. Ao simbolizar, o inconsciente manifesta-se. O ser humano que não consegue simbolizar se desequilibra psiquicamente. Quem simboliza a morte, o matar alguém, todas as demandas a respeito da sobrevivência, possui o inconsciente mais preparado para distinguir a ficção da realidade. Os trabalhos de Jung e de Nise da Silveira vão por esse rumo. Acho que a magia é, fundamentalmente, a capacidade de transformação – da mais simples, do Harry Potter, até ir para além do rotineiro, vislumbrar uma transcendência, um caminho para a espiritualidade. Para o adulto, há a turma da magia e o grupo da não magia. Para quem almeja ser maior do que acordar-trabalhar-dormir, a magia é necessária como comida.

Meninas humanas, meninas bruxas | foto: Site Eva Furnari

Fonte: Itaú Cultural

Encontro celebra cem anos de ‘Urupês’, de Monteiro de Lobato

Especialistas debatem a obra lobatiana em evento gratuito nos dias 5 e 6 de novembro

O livro Urupês, escrito por Monteiro Lobato em 1918, ganhou a cena na época da publicação e teve várias edições, podendo ser considerado o primeiro best-seller nacional. Para celebrar os cem anos do texto, a Editora Unesp e a Universidade do Livro realizam encontro com especialistas aberto ao público, nas tardes dos dias 5 e 6 de novembro. O local escolhido como palco do encontro é o prédio onde hoje funciona a Fundação Editora da Unesp e que já foi sede da Cia. Gráphico-Editora Monteiro Lobato.

Sob coordenação do escritor Luís Camargo, coautor dos livros Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta e Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil, livro do Ano Não Ficção, em 2009, o evento toma como mote Urupês, mas também da obra lobatiana em sentido mais amplo.

Além da publicação de Urupês, ainda em 1918, Monteiro Lobato comprou a Revista do Brasil, onde colaborava desde seu lançamento e também publicou O saci-pererê: resultado de um inquérito e a coletânea de artigos de jornal Problema vital.

Confira a programação completa e o currículo dos participantes. As inscrições são gratuitas.

LOCAL

Universidade do Livro: Praça da Sé, 108 (estação Sé do Metrô) | São Paulo (SP)

DATA

5 e 6 de novembro de 2018

INSCRIÇÕES AQUI

PROGRAMAÇÃO

Segunda-feira | 5 de novembro

14h30 | Conferência de abertura: Cem anos de Urupês

Milena Ribeiro Martins

Coordenação: João Luís Ceccantini 

15h30 | Coffee break 

15h45 | Mesa-redonda: Em torno de Urupês

Coordenação: João Luís Ceccantini 

  • História editorial de Urupês

Cilza Carla Bignoto 

  • Iconografia dos Urupês

Magno Silveira 

  • Repercussões de Urupês no mundo hispanofalante

Thaís de Mattos Albieri 

  • Urupês na boca do povo: jornalismo e literatura lobatiana

Thiago Alves Valente   

Terça-feira | 6 de novembro 

14h30 | Mesa-redonda: Urupês e além 

Coordenação: Cilza Carla Bignotto 

  • Os contos de Monteiro Lobato e de Lima Barreto

Tâmara Abreu  

  • “O livro é que vai abrir os olhos dessa gente” – um mote de Monteiro Lobato

Kátia Chiaradia 

  • A correspondência entre Lobato e seus leitores infantis

Raquel Afonso 

  • A “marca M.L.”: Monteiro Lobato e a posteridade

Emerson Tin 

15h45 | Coffee break 

16h | Conferência de encerramento: Um Lobato para o século XXI

Marisa Lajolo

Coordenação: Cilza Carla Bignotto 

PARTICIPANTES

Cilza Carla Bignotto é professora da Universidade Federal de Ouro Preto, câmpus de Mariana, MG. Autora de Figuras de autor, figuras de editor: as práticas editoriais de Monteiro Lobato. Coautora dos livros Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil e Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta, nos quais escreveu sobre O garimpeiro do rio das Garças e A onda verde.  

Emerson Tin é professor de língua portuguesa e literatura nas Faculdades de Campinas (Facamp). Coautor dos livros Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil e Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta, nos quais escreveu sobre Os doze trabalhos de Hércules, O Mundo da Lua e A barca de Gleyre

João Luís Ceccantini é professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Assis, organizador de Monteiro Lobato e o leitor de hoje (com Alice Áurea Penteado Martha), de Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil (com Marisa Lajolo) e coautor de Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta, no qual escreveu sobre Urupês

Kátia Chiaradia é pesquisadora e coautora dos livros Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil e Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta, nos quais escreveu sobre O poço do Visconde e O escândalo do petróleo

Luís Camargo é o coordenador geral do evento ‘Cem anos de Urupês‘, escritor, ilustrador e tradutor de livros para crianças. Coautor dos livros Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil e Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta, nos quais escreveu sobre ilustração e Ideias de Jeca Tatu.

Magno Silveira é designer, pesquisador e colecionador da obra de Monteiro Lobato. Realizou a exposição “Ilustradores de Lobato” (Sesc São José dos Campos); publicou catálogo sobre esses artistas do período de 1920 a 1948. Atualmente realiza pesquisa iconográfica e textos sobre ilustradores para a Editora Globo, selo Biblioteca Azul, coleção lobatiana. 

Marisa Lajolo é professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie, autora de Literatura: ontem, hoje, amanhã, Monteiro Lobato: um brasileiro sob medida, O poeta do exílio (Melhor Obra de Literatura Infantojuvenil de 2011, pela Academia Brasileira de Letras), organizadora de Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil (com João Luís Ceccantini) e Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta. Eleita para a Academia Paulista de Educação em 2015. 

Milena Ribeiro Martins é professora da Universidade Federal do Paraná. Coautora dos livros Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil e Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta, nos quais escreveu sobre Viagem ao céu, Negrinha e América

Raquel Afonso trabalha com tutoria à distância na Univesp e leciona no Ensino Médio. Coautora dos livros Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil e Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta, nos quais escreveu sobre Histórias de Tia Nastácia e Problema vital

Tâmara Abreu é professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Coautora dos livros Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil e Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta, nos quais escreveu sobre A reforma da Natureza e Mr. Slang e o Brasil.

Thaís de Mattos Albieri é editora de livros. Coautora dos livros Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil e Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta, nos quais escreveu sobre Emília no País da Gramática e Cidades Mortas

Thiago Alves Valente é professor da Universidade Estadual do Norte do Paraná, câmpus de Cornélio Procópio, autor dos livros Monteiro Lobato nas páginas do jornal e Monteiro Lobato: um estudo de A chave do tamanho, coautor dos livros Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil e Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta, nos quais escreveu sobre A chave do tamanho e Mundo da lua e miscelânea.

Fonte: Editora da Unesp

Exposição inédita traz raridades de Machado de Assis

A partir de 28 de setembro, mostra na USP apresenta edições raras e uma faceta desconhecida do escritor

No total, a exposição traz 108 itens, incluindo 17 periódicos com textos de Machado de Assis e 40 obras coletadas postumamente por pesquisadores – Foto: Divulgação / PRCEU – USP

A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP apresenta, de 28 de setembro a 22 de novembro, a exposição inédita e gratuita Machado de Assis na BBM: Primeiras Edições e Raridades. Nesta quinta-feira, dia 27, ao meio-dia, será realizada a abertura da mostra, com a apresentação de peças de Ernesto Nazareth em solo de piano e uma mesa-redonda com especialistas.

Com o objetivo de destacar a amplitude e variedade da obra de Machado de Assis, a mostra conta com livros, jornais e revistas com escritos machadianos. Parte do material será disponibilizada em tablets, para que o visitante veja os detalhes das obras raras.

A Revista Moderna, que circulou no Brasil no final do século 19 – Foto: Divulgação / PRCEU – USP (Clique na imagem para ampliar)

Ao todo são 108 itens, incluindo 17 periódicos com textos de Assis e 40 obras coletadas postumamente por pesquisadores. A seleção convida o visitante a conhecer outra faceta do escritor, que teve uma carreira de mais de 50 anos, na qual atuou em dezenas de jornais e revistas.

A maioria de seus textos foi publicada pela primeira vez na imprensa antes de encontrar o formato mais perene do livro, em uma variedade de gêneros, como poesia, crítica literária e teatral, conto, romance e correspondências.

A curadoria é do professor Hélio de Seixas Guimarães, pesquisador da área de literatura brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Ele trabalhou três anos no projeto, investigando o acervo da BBM, que inclui todas as primeiras – e raras – edições dos livros de Machado de Assis.

Anúncio de obras de Machado de Assis para venda – Foto: Divulgação / PRCEU – USP (Clique na imagem para ampliar)

Alguns exemplares são muito singulares, por trazerem dedicatórias de Machado de Assis a figuras importantes do seu tempo, como Salvador de Mendonça, José Veríssimo e Joaquim Nabuco”, ressalta o pesquisador. “Em alguns casos, pelas dedicatórias é possível recompor a trajetória do exemplar, que passou por vários proprietários”, indica.

O curador aponta ainda outros destaques da mostra: “Estará exposta uma edição do livro Poesias Completas, bastante cobiçada por colecionadores por conter um famoso erro tipográfico que formou uma ‘palavra feia’. Outra curiosidade é ver as Memórias Póstumas de Brás Cubas, que geralmente associamos ao formato do livro, em sua primeira publicação nas páginas da Revista Brasileira”.

A exposição pode ser visitada gratuitamente de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 17h30. A BBM fica na Rua da Biblioteca, 21, Cidade Universitária. Mais informações e agendamento educativo para grupos podem ser encontrados no site bbm.usp.br.

A exposição Machado de Assis na BBM: Primeiras Edições e Raridades fica em cartaz de 28 de setembro a 22 de novembro, de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 17h30, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP (Rua da Biblioteca, 21, Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis. Mais informações podem ser obtidas no site da BBM.

Michel Sitnik

Fonte: Jornal da USP

O autor e a crise do mercado editorial

Em artigo, o escritor Tiago Ferro questiona: “Por que o Estado não pode ter um programa robusto de financiamento direto de autores?”

Texto por Tiago Ferro

O debate a respeito da atual, e grave, crise do mercado editorial brasileiro ganhou espaço em revistas semanais e na TV aberta, para além dos círculos especializados e interessados diretamente no assunto-problema: atraso nos pagamentos das livrarias, venda online ou lojas físicas, pequenas redes ou mega stores, impresso ou digital, a importância da compra do Estado, o valor de capa justo. O debate chegou ao Programa do Bial, na TV Globo

Em nenhum momento, ou apenas de raspão, foi mencionada a situação do autor no interior da crise. Como todos sabem é possível contar nos dedos das mãos (de uma mão?) aqueles que podem viver exclusivamente da venda do que escrevem. Festivais literários e ocupações paralelas dentro do universo do livro – colunas em jornais, traduções, bolsas de pesquisa na área de crítica literária – são as formas possíveis de manter “escritores de domingo”. Isso antes, durante e certamente depois da atual crise.

Via de regra, autores ficam com 10% do valor de capa sobre exemplares vendidos de suas obras. Sim, uma fatia muito pequena para a peça fundamental dessa história. Mas mesmo supondo que seja possível dobrar essa porcentagem, com tiragens médias de 3 mil exemplares, dificilmente a situação financeira para uma vida confortável dedicada aos textos estaria resolvida. Bem, se o mercado não funciona para o autor e funciona para os demais envolvidos – editoras e lojas –, há algo errado. Mas o fato é que após o fechamento da torneira do dinheiro público, as editoras também se deram mal. É fato conhecido que grupos editoriais estrangeiros entram neste país buscando as tais compras governamentais e não exatamente leitores… O que nos leva a desconfiar que a ideia de “mercado editorial” talvez seja uma fantasia, uma ficção.

Um país que não produz livros e leitores brutaliza os seus cidadãos e jamais dará um salto de qualidade em direção a um modelo de sociedade mais justa e integrada. Mesmo sendo um caminho imperfeito, me parece que o Estado deve sim interferir e financiar o “mercado editorial”. É uma área estratégica como tantas outras que dependem de verbas públicas. A literatura é tão central quanto boa parte da pesquisa científica para a formação de uma nação.

Mas deixo uma pergunta simples, e acredito que não totalmente inocente: por que o Estado não pode ter um programa robusto de financiamento direto de autores? Dessa forma, seria possível combinar as compras públicas de livros (que não resolvem a situação do autor, mas permitem que as editoras sigam investindo, se profissionalizando e produzindo livros) com um modelo de produção literária. Assim, não apenas o produto livro seria estimulado pelo governo, mas também a arte livro

Encerro com a resposta de Lourenço Mutarelli em entrevista para Folha de S.Paulo do dia 9 de setembro de 2018 à pergunta “Você ganha bem com literatura?”.

“Estou absolutamente falido. Vivo de aulas que dou no Sesc, o que não paga todas as contas. O que eu ganho com livro é ridículo. Recebo 10% do preço de capa, e ainda pago 27% de imposto de renda. Não tenho dinheiro para chegar até o final do ano. Vai ter uma exposição no Sesc, em novembro, com algumas coisas minhas, estou terminando umas pinturas, sem escrever neste momento. Quando começo a pintar, paro de escrever. E acho que nem posso reclamar, estou numa grande editora, publico. Sou um dos que deram certo, mas dar certo com livro no Brasil é apenas isso. É muito triste.”

É muito triste.

*Tiago Ferro é autor de O pai da menina morta, lançado em março deste ano.

Fonte: Revista Época

“Mário Total” Comemoração aos 80 anos da Missão de Pesquisas Folclóricas de Mário de Andrade

”Mário Total” comemoração aos 80 anos da Missão de Pesquisas Folclóricas de Mário de Andrade.

São três palestras que têm como tema o poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista e ensaísta brasileiro, patrono da biblioteca municipal de São Paulo.

06/09
às 15h
Palestra: A biblioteca de Mário de Andrade, com Lilian Escorel
A biblioteca de Mário de Andrade oferece rico material para o estudo do processo de criação do escritor. Fartamente anotados em suas margens, os mais de 17 mil volumes em suas estantes, refletem um homem ilustrado, que se expandiu em um universo enciclopédico, viajando por terras e línguas estrangeiras em seus livros e periódicos de Artes, Letras, Filosofia e Ciências Humanas, sobretudo do século XX.

08/09
às 15h
Palestra: Mário de Andrade fotógrafo-viajante e a linguagem modernista, com Douglas Canjani
Mário de Andrade foi, além de escritor, fotógrafo ocasional, fazendo registros em família e, de modo mais intenso, durante as viagens que fez ao norte e nordeste do Brasil entre 1927 e 1929, utilizando a câmera de modo absolutamente moderno e experimental.

08/09
às 17h
Show: Macunaíma Ópera Tupi, com Iara Rennó
Mário de Andrade foi um dos primeiros documentadores do folclore nacional; um descobridor e revelador da cultura propriamente brasileira. Pesquisador, escritor, poeta, músico e musicólogo, antes de tudo, uma pessoa bastante ligada a musicalidade. Presente em mais da metade de sua obra, a música, explícita ou implicitamente aparece como seu fio condutor. É como se sua visão de mundo partisse da música.

Todos os eventos são gratuitos.
(170 lugares)
Retirada de senhas com 1h de antecedência no balcão da Rua da Consolação.

Lobato entra para domínio público em 2019

Correndo contra o tempo, editora Globo lançará mais um livro do escritor taubateano: ‘Viagem ao Céu’

Aproveitando os últimos momentos de exclusividade sobre a obra de Monteiro Lobato, a editora Globo lança a edição de luxo do livro “Viagem ao Céu”, publicado originalmente em 1932.

Trata-se do quinto título da obra do autor taubateano voltado para colecionadores. A editora já lançou no formato “Memórias da Emília” (2017), “O Saci” (2016), “Caçadas de Pedrinho” (2015) e “Reinações de Narizinho” (2014).

Na trama do novo título, Dona Benta resolve ensinar astronomia a Pedrinho, Narizinho e Emília. Da varanda de casa, eles observam o céu cheio de estrelas e falam sobre os homens sábios que se dedicaram a estudar os mistérios da ciência do universo.

E, graças ao poder mágico do pó de pirlimpimpim, eles viajam pela Via Láctea, passam pela Lua, pelos planetas e constelações. A obra mistura o saber popular da Tia Nastácia, a erudição de Dona Benta e o poder da imaginação das crianças.

Vale ressaltar, claro, que a obra foi escrita anos antes do homem pisar na Lua (1969).

DOMÍNIO/ Em 2007, a editora Globo assinou contrato com herdeiros de Lobato. O acordo pôs fim a um complicado relacionamento entre a família e a editora Brasiliense, que, segundo os herdeiros à época, fazia 40 anos que não atualizava a obra do autor, conforme relataram ao jornal ‘Estado de S.Paulo”.

A partir de 1º de janeiro de 2019, toda a obra de Lobato passa para Domínio Público – 70 anos de sua morte – algo, aliás, muito aguardado pelo mercado editorial, uma vez que, a partir do ano que vem, todas as editoras poderão publicar seus títulos sem ter de pagar direitos aos herdeiros.

EXTRA/ “Viagem ao Céu” conta com ilustrações originais (históricas!) de quatro artistas: Jean Gabriel Villin, J. U. Campos, André Le Blanc e Augustus.

Até o final do ano, outros dois livros serão disponibilizados nas livrarias: “A Reforma da Natureza”, originalmente de 1941, e “Urupês”, que completa 100 anos em 2018.

BIO/ Lobato nasceu em Taubaté, em 1882. Formado em Direito, foi escritor, jornalista, tradutor, editor e empresário.

Fundou sua própria editora, publicou inúmeros livros para adultos, e, em 1920 lançou seu primeiro livro infantil, “A menina do nariz arrebitado”. Foi a partir daí que começaram a nascer histórias do Sítio do Picapau Amarelo.

O escritor colocou, ainda, luz sobre costumes da roça, lendas do folclore nacional e a mitologia grega. Morreu em São Paulo, em 4 de julho de 1948, sendo considerado o pai da literatura infantil no país.

Fonte: Gazeta de Taubaté

Conceição Evaristo é oficialmente candidata à Academia Brasileira de Letras

Wikimedia Commons
Aos 71, Conceição Evaristo pode ser a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira da ABL

A escritora mineira Conceição Evaristo entregou nesta segunda-feira (18) uma carta de apresentação à Academia Brasileira de Letras, confirmando sua candidatura à cadeira número 7 da instituição.  “Assinalo o meu desejo e minha disposição de diálogo e espero por essa oportunidade”, diz no documento, entregue à sede da ABL, no Rio de Janeiro.

A decisão de Conceição foi tomada depois que uma petição online reuniu mais de 20 mil assinaturas para que ela pleiteasse a vaga, que era do cineasta Nelson Pereira dos Santos, morto em abril.

Se for confirmada, ela será a primeira vez que uma mulher negra representa a Academia Brasileira de Letras em 120 anos.

Autora de romances como “Insubmissas lágrimas de mulheres” (2011) e “Ponçá Vivêncio” (2003), ela nasceu na favela do Pindura Saia, em Belo Horizonte (MG), e chegou ao mestrado em literatura brasileira no Rio de Janeiro.

Aos 71 anos, Conceição atualmente é professora universitária e já conquistou prêmios como o do Governo de Minas Gerais e o Jabuti, em 2015, com “Olhos D’Água” (2014).

Fonte: Universa

As várias facetas de Hilda Hilst, na Flip 2018

Festa Literária Internacional de Paraty homenageia a escritora tardiamente reconhecida

Hilda morava há mais de 40 anos na Casa do Sol, em Campinas (Foto: Lenise Pinheiro/Folhapress)

Lírica, pornógrafa, mística, libertária, louca ou incompreendida, não importa, Hild Hilst (1931-2004) é um dos grandes nomes da literatura brasileira, dona de um estilo e universo poético únicos, e o reconhecimento à sua importância veio a passos lentos, mas chegou.

Sua vida, obra e até esquisitices atraem cada vez mais admiradores, que a revisitam em saraus nas periferias, no cinema, no teatro e em reedições. E a prova máxima é a homenagem à autora, promovida pela 16ª Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, que vai agitar a cidade fluminense do dia 25 a 29 de julho, reunindo 33 autores em 17 mesas (veja quadro abaixo). Os ingressos começam a ser vendidos entre final de julho e começo de julho.

Não poderia haver momento mais oportuno, para a memória da escritora, para o mercado editorial e para os herdeiros, admiradores e pesquisadores de sua escrita. Desde o ano passado, a Companhia das Letras vem reeditamndo as obras completas de Hilda, em volumes especiais.

A editora paulistana já lançou “Da Poesia” (2017), que reúne 25 livros num só volume; “De Amor Tenho Vivido” (2018), coletânea com 50 poemas; “Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão” (2018), publicado originalmente em 1974, foi o primeiro livro de poesia depois que estreou na ficção; e “Da Prosa” (2018), que reúne todos os títulos da lavra ficcional da autora numa caixa com dois volumes.

“Aconteceu com Hilda o que aconteceu com Lima Barreto (autor negro, homenageado na edição passada), a imcompreensão de sua época. Ela fez uma obra um pouco na contramão das correntes literárias em voga (pricipalmente entre 1950 e início de 60) e teve o momento em que ela foi morar, aos 33 anos, na Casa do Sol (em Campinas, no interior), quando parou de circular no meio literário. Ela fazia uma obra considerada difícil para o leitor e era publicada por uma editora de livros de arte, a Massao Oho, que fazia edições pequenas que não circulavam muito”, avaliou Joselia Aguiar, curadora da Flip, em coletiva de imprensa realizada, ontem, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, na Capital.

A escritora Hilda Hilst lança seu novo livro “A Obscena Senhora D” (Foto: Gil Passarell/Folhapress)

“Hilda só consegue alguma repercussão quando publica “O Caderno Rosa de Lori Lamby” (1990, prosa de ficção), no qual ela radicaliza na dimensão erótica, mas continua sendo uma literatura difícil. Durante muito tempo, ela fica associada à personagem Lori Lamby e à pornografia. o fato dela ser mulher também foi um fator que dificultou sua acietação, claro, porque ela fazia coisas, na literatura, que não eram esperadas em uma mulher”, continuou Joselia.

Para a curadora, o interesse crescente pela obra de Hilda, pelas novas gerações, que a adaptam para o teatro e a levam para saraus e até o cinema, deve-se à “nossa mentalidade de hoje, que aceita melhor a estranheza do que aceitava no passado”. “O leitor de há 50 anos era bem diferente do de hoje, que está mais aberto a estranhezas”, disse.

Dessa maneira, a 18ª Flip tenta abarcar a atualidade, a versatilidade e todas as facetas da autora paulistana, que não extrapolou o campo da literatura. Por isso, as mesas reúnem não somente escritores e pesquisadores, mas atores, performers, sound designers, músicos, compositores e fotógrafos.

“Esta será a edição mais artística da Flip, com debates menos acadêmicos”, avisa a curadora, que revela que há um longa-metragem que está para estrear, sobre Hilda: um documentário ficcional, um filme de arte, que utiliza elementos do realismo fantástico para abordar as tentativas da escritora de ouvir vozes de pessoas que tinham morrido, por meio da escuta de gravações na Casa do Sol.

Este assunto será abordado na segunda mesa da Flip, “Performance sonora”, com Gabriela Greeb e o português Vasco Pimentel (veja quadro).

Menos orçamento

Mauro Munhoz, diretor-presidente da Casa Azul, responsável pela Flip, participou da coletiva e revelou que o orçamento do evento, nos últimos cinco anos, vem caindo na ordem de quase R$ 1 milhão ao ano. “A gente tem um orçamento menor. Em 2017, tivemos R$ 5,8 milhões, sendo R$ 3,7 milhões exclusivo para os cinco dias do evento. Este ano, fecharemos a conta no final do ano, mais iremos eduzir o orçamento de 500 mil a R$ 1 milhão”.

A poeta portuguesa Maria Teresa Horta será entrevistada por vídeo (Foto: divulgação)

Programação completa:

>>Quinta-feira, 26 de julho

10h, Mesa 2. Performance sonora, com Gabriela Greeb e Vasco Pimentel. A voz e a escuta de Hilda Hilst registradas em fita magnéticas na década de 1970.

Mesa 3. Barco com asas, com Júlia de Carvalho Hansen, Laura Erber e Maria Teresa Horta (em vídeo) (foto). Duas poetas brasileiras entrevistam, por vídeo, um grande nome da poesia de Portugal.

15h30, Mesa 4. Encontro com livros notáveis, com Christopher de Hamel. A religião, a magia, a luxúria e a leitura na época medieval.

17h30, Mesa 5. Amada vida. Da perda, performance de Bell Puã. Com Djalmila Ribeiro e Selva Almada. Encontro entre ficcionista argentina que escreveu sobre histórias reais de feminicídio e uma autora feminista negra.

20h, Mesa 6. Animal agonizante. Com Sergio Sant’Anna e Gustavo Pacheco. Mestre da literarura brasileira relembra sua trajetória ao lado de um leitor seu.

>>Sexta-feira, 27 de julho

10h, Mesa 7. Poeta na torre de capim, com Ligia Fonseca Ferreira e Ricardo Domeneck. Diálogo de grande especialista no poeta negro Luiz Gama e um poeta e editor atento a nomes fora do cânone.

12h, Mesa 8. Minha casa, com Fabio Pusterla e Igiaba Scego. Poeta e tradutor do português conversa com romancista filha de imigrante da Somália.

15h30, Mesa 9. Memórias de porco-espinho, com Alain Mabanckou. A trajetória e o pensamento do poeta e romancista franco-congolês premiado.

17h30, Mesa 10. Interdito. Do desejo, performance de Ricardo Domeneck. Com André Aciman e Leila Slimani. Diálogo entre dois romancistas, um judeu americano de origem egípcia e uma francesa de origem marroquina.

20h, Mesa 11. A santa e a serpente, com Eliane Robert Moraes e Iara Jamra. Encontro entre ensaísta que atua na fronteira entre a literatura e a filosofia e atriz que encarnou a personagem Lori Lamby.

>>Sábado, 28 de julho

10h, Mesa 12. Som e fúria, com Jocy de Oliveira e Vasco Pimentel. Pioneira da música de vanguarda no País, dedicada à ópera multimídia, e um sound designer português.

12h, Mesa 13. O poder na alcova, com Simon Sebag Montefiore. Historiador britânico, autor de biografias de Stálin, dos Romanov e de Catarina, a Grande.

15h30, Mesa 14. Obscena, de tão lúcida, com Isabela Figueiredo e Juliano Garcia Pessanha. Romancista portuguesa nascida em Moçambique encontra narrador de gênero híbrido e filosófico.

17h30, Mesa 15. Atravessar o sol. Cantares do sem nome, performance do poeta e artista visual maranhense Reuben da Rocha a partir de tema de Hilda Hilst. Com Colson Whitehead e Giovani Martins.

20h, Mesa 16. No pomar do incomum, com Liudmila Petruchevskáia. Um dos grandes nomes da literatura russa moderna.

>>Domingo, 29 de julho

10h, Mesa Zé Kleber. De malassombros, com Franklin Carvalho e Thereza Maia. Narrador do sertão baiano se encontra com folclorista.

12h, Mesa 17. Sessão de encerraento. O escritor e seus múltiplos, com Eder Chiodetto, Iara Jamra e Zeca Baleiro, que fizeram obras baseadas na produção de Hilda Hilst. Baleiro chegou a visitar a Casa do Sol, em Campinas, e lançou um CD produzido por ele, com poemas de Hilda musicados, chamado “Ode Desontínua e Remota para Flauta e Oboé”.

Assista ao vídeo do encontro de Zeca Baleiro com Hilda, na Casa do Sol: https://www.youtube.com/watch?v=fcV6tABMw3k 

Fonte: A Tribuna

Exposição traz livros escritos e traduzidos por Monteiro Lobato

Mostra está em cartaz na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP, na Cidade Universitária

Ouça no link acima entrevista da curadora da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP, Cristina Antunes, sobre a exposição Monteiro Lobato Sem Fronteiras. A entrevista foi transmitida no dia 8 de maio pelo programa Via Sampa, da Rádio USP (93,7 MHz), que tem produção de Heloisa Granito e apresentação de Miriam Ramos.

Obras ficam expostas na Biblioteca Brasiliana até 29 de junho. Na foto acima, os curadores Vladimir Sacchetta (esquerda) e Luciano Mizrahi Pereira (direita) – Foto: Jorge Maruta/USP Imagens

Uma exposição sobre o escritor Monteiro Lobato faz parte da programação da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP. Gratuita e aberta até 29 de junho, a mostra Monteiro Lobato Sem Fronteiras traz ao público quase 150 livros pertencentes ao Instituto de Estudos Monteiro Lobato (IEMB), localizado na cidade de Taubaté (SP), onde o escritor nasceu em 18 de abril de 1882.

São obras originalmente escritas por ele, traduzidas em outras línguas por tradutores estrangeiros, e livros de escritores estrangeiros traduzidos em português por Lobato. Aos visitantes, serão disponibilizados tablets para consultas de trechos das obras, com acesso a conteúdo digitalizado e interativo. Já os volumes impressos estão dispostos em vitrines, descritos em etiquetas legendadas com informações das edições — país e ano da publicação, nome da editora e do tradutor —, bem como trechos de comentários de Lobato sobre as traduções.

Um desses comentários é da sua tradução para Kim, do britânico Rudyard Kipling. A obra de 1901, que apresenta um retrato

Cristina Antunes – Foto: Jorge Maruta / USP Imagens

cultural e social da Índia, foi traduzida por Lobato em 1941, período em que este se encontrava preso pelo Estado Novo de Getúlio Vargas. “Aproveito o tempo traduzindo o Kim, de Kipling — e essa estadia na Índia me fez esquecer completamente a prisão. Pena é que o excesso de visitas me tome tanto o tempo”, escreve Lobato, encarcerado no Presídio de Tiradentes, em São Paulo, mas imerso na Índia de Kipling.

Essas obras traduzidas são muito raras e pouquíssimo conhecidas do público brasileiro”, conta Vladimir Sacchetta, um dos curadores da mostra, ao mostrar uma edição argentina de Urupês, considerada a mais importante criação literária de Lobato. O livro, publicado há exatos 100 anos no Brasil e que traz em um dos seus 14 contos o personagem Jeca Tatu, foi publicado na Argentina três anos depois, em 1921, a partir da tradução de Benjamin de Garay.

Outro exemplo do acervo mostrado na exposição é Dom Quixote das Crianças (1936), versão infantil de Dom Quixote de La Mancha, escrita pelo espanhol Miguel de Cervantes e lançada em 1605. Como conta Luciano Mizrahi Pereira, diretor do IEMB e também curador da mostra, a obra de Cervantes foi traduzida do espanhol para o português por Lobato, sendo adaptada para o público infantil e depois traduzida para o espanhol. “É um livro que se difundiu na Espanha, na América espanhola e em todos os outros países de língua espanhola. Acho que esse é o ápice de Lobato no exterior”, diz Pereira.

A curadora da BBM Cristina Antunes destaca a riqueza da exposição. “Você vai poder ver dezenas de obras traduzidas por Lobato nas mais diversas línguas: tailandês, chinês, japonês, obras publicadas no Afeganistão e na Holanda. Lobato ultrapassou todas as fronteiras e traduziu tudo o que lhe foi possível”, resume Cristina, em entrevista no programa Via Sampa, da Rádio USP (ouça no link acima).

Sacchetta explica que a seleção das obras e “a construção da narrativa” da mostra foram feitas a partir do acervo reunido pelo IEMB. “Uma narrativa que funciona através de cartas, de artigos em revistas e citações de Lobato e também da difusão geográfica dessas obras.”

Depois de toda a vida dedicada à literatura, Lobato teve uma obra que se espalhou por si ao redor do mundo”, afirma Pereira, acrescentando que uma das motivações para a realização da exposição na BBM foi “resgatar a história de Lobato, além do que se costuma ver. A obra dele se espalhou no mundo muitos anos após ele ter nos deixado”.

A mostra Monteiro Lobato Sem Fronteiras fica aberta de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 18h30, na Sala Multiuso da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (Rua da Biblioteca, s/n, na Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis.

Para mais informações, ligue (11) 2648-0320 ou acesse o site bbm.usp.br/node/339

Por Vinicius Crevilari 

Fonte: Jornal da USP

Biblioteca Brasiliana abre exposição sobre Monteiro Lobato

Até 29 de junho, mostra traz 130 obras do escritor traduzidas para vários idiomas

A exposição Monteiro Lobato Sem Fronteiras apresenta ao público o trabalho de um dos maiores autores da literatura brasileira – Ilustração: Victor Daibert / BBM

A partir desta segunda-feira, dia 7 de maio, até 29 de junho, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP realiza a exposição Monteiro Lobato Sem Fronteiras, que busca destacar e trazer ao público a trajetória internacional da carreira literária do autor nascido na cidade de Taubaté (SP) e considerado um dos maiores escritores da literatura brasileira de todos os tempos.

Gratuita, a mostra reúne mais de 130 obras infantis e adultas de Monteiro Lobato, traduzidas em vários idiomas e publicadas no exterior — como Urupês, Reinações de Narizinho e O Saci —, bem como obras clássicas da literatura universal traduzidas por ele para o público brasileiro — como Moby Dick, de Herman Melville, e Adeus às Armas, de Ernest Hemingway. Serão disponibilizados tablets para consultas de trechos de obras selecionados pela curadoria, além de acesso a conteúdo digitalizado e interativo por parte dos visitantes da exposição.

O material pertence ao acervo do Centro de Documentação do Instituto de Estudos Monteiro Lobato, localizado em Taubaté e criado com o objetivo de incentivar estudiosos, produtores culturais, pesquisadores e admiradores de Lobato a trilharem novos caminhos sobre sua obra.

Evento ocorre entre 7 de maio e 29 de junho na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A curadoria é do gestor de projetos socioculturais Luciano Mizrahi Pereira e do jornalista e produtor cultural Vladimir Sacchetta. “Queremos mostrar a trajetória internacional da carreira de Lobato, traduzido e tradutor. Podemos dizer também que esta exposição celebra Monteiro Lobato como escritor universal, um autor que ultrapassou fronteiras, passeou por diferentes culturas e transcendeu seu tempo. Lobato é um mestre da literatura infantil mundial”, destaca Pereira.

A exposição tem apoio da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU) da USP e é realizada pela BBM, em parceria com o Centro de Documentação e Pesquisa Histórica da Universidade de Taubaté, o Instituto de Estudos Monteiro Lobato e o Porviroscópio Projetos e Conteúdos Culturais.

A mostra Monteiro Lobato Sem Fronteiras fica em cartaz de 7 de maio a 29 de junho, de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 18h30, na sala multiuso da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, localizada na Rua da Biblioteca, s/nº, na Cidade Universitária, em São Paulo.

Para mais informações, ligue no (11) 2648-0320, ou acesse o site bbm.usp.br/node/339

Com informações de Elcio Silva / Assessoria de Comunicação da BBM

Texto por Vinicius Crevilari

Fonte: Jornal da USP

Aprender Ciências com Monteiro Lobato

O Dia Nacional do Livro Infantil é comemorado em 18 de abril, data escolhida em homenagem ao nascimento de Monteiro Lobato. Autor do Pré-Modernismo brasileiro, Lobato deixou uma grande contribuição para a literatura infanto-juvenil com mais da metade de seus livros.

Lobato inseriu nas histórias vários elementos da cultura brasileira desde lendas até costumes de quem vive no interior e foi além com elementos da literatura universal e até a mitologia grega. Mais especificamente, o autor gostava muito de ciências e acreditava que a sua divulgação e ensino seriam muito importantes para o desenvolvimento da nossa sociedade.

Como exemplos, os livros ‘História das Invenções’, ‘Serões de Dona Benta’, ‘Viagem ao Céu’ e ‘O poço do Visconde’ são excelentes. Em ‘História das Invenções’, Dona Benta conta a história do mundo, desde a origem do Universo, surgimento e evolução da vida na Terra, da espécie humana, a agricultura e artefatos até a invenção do Visconde de Sabugosa, que na obra toda faz papel de cientista.

Em ‘Serões de Dona Benta’ são abordadas Física, Química, Biologia e até a Astronomia, que também aparece em ‘Viagem ao Céu’. ‘O poço do Visconde’ trata da Geologia e da importância de investimentos em estudos pela busca de petróleo em solo nacional. Este tema também foi tratado no livro ‘O escândalo do petróleo’, que mencionava o descaso do governo em preferir a submissão do país às companhias petrolíferas norte americanas. Lobato admirava o modelo americano, mas defendia a liberdade econômica de nosso país e considerava que as riquezas naturais como o petróleo e a siderurgia eram muito importantes para o progresso. Vários estudos discutem a relação da literatura de Monteiro Lobato com o ensino de ciências, sobre a história e a natureza da ciência, a motivação para estudar ciência, o método científico, concepção empirista ou revolucionária da ciência e suas aplicações.

A literatura de Monteiro Lobato mostra a importância que o autor dava às relações do homem com a ciência e se contrapunha à literatura infantil da época baseada nos contos de fadas europeus. Suas histórias tinham duas vertentes principais. A primeira relacionada à informação e à formação com abordagem pedagógica sobre uma variedade de campos do conhecimento. A segunda voltada à ficção onde a realidade se junta com a fantasia na resolução de problemas no contexto de seus personagens.

A abordagem do conhecimento científico na literatura infantil de Lobato está diretamente ligada ao meio social, cultural e político que viveu. Além da obra infantil de Monteiro Lobato, muitas outras podem ser usadas para estimular a aprendizagem das ciências. Minha sugestão para pais e professores de alunos dos anos iniciais é que estimulem as crianças à leitura das obras de Monteiro Lobato, mas fazendo discussões levando em conta a atualização de informações e discutindo as questões sociais também.

Infelizmente Lobato em alguns momentos teve abordagens preconceituosas e racistas como no caso do caipira Jeca Tatu e Tia Nastácia, sempre dócil negra que cuidava de todos. Mesmo assim, vale a pena a leitura das obras com as crianças por serem elementos para gerarem reflexões e discussões que contribuam para acabar de uma vez com o racismo e qualquer tipo de preconceito.

A leitura é importante para todas as áreas. Quem lê bastante aprende a se explicar e a entender sobre qualquer assunto. Numa frase que ficou famosa de Monteiro Lobato, ele disse: “Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê”.

Texto por Paulo Bretones, atualmente Professor Associado da Universidade Federal de São Carlos

Fonte: Periscópio

Literatura: o mundo encantado de Monteiro Lobato

Na próxima quarta-feira, vamos comemorar o  Dia Nacional do Livro Infantil. Você sabe por quê? É  que nesta data,18 de abril,  nasceu Monteiro Lobato, grande escritor  brasileiro, formado  em direito, fazendeiro e autor de crônicas para jornais e revistas. Embora escrevesse para adultos, ele  achava que as crianças de sua época, inclusive seus filhos, não tinham um autor que dedicasse a elas histórias com cenários e personagens brasileiros. Então, ele mesmo resolveu encarar o desafio.

Sua primeira história, A menina do narizinho arrebitado, depois intitulada Reinações de Narizinho, foi publicada em 1920. O sucesso foi tão grande que ele não parou mais. Depois deste livro inicial, criou outros,  imortalizando os personagens que viviam num lugar  mágico chamado Sítio do Pica-Pau amarelo. 

As histórias se passavam neste sítio de Dona Benta, avó de Narizinho e Pedrinho, e a estes se juntavam Tia Nastácia – que fazia deliciosos bolinhos de chuva; Tio Barnabé – o velho contador de causos; a dupla engraçada de trabalhadores rurais: Zé Carneiro e Pedro Malazarte; e os famosos Emília, a boneca de pano, teimosa e engraçada; Visconde de Sabugosa, o sabugo de milho que tinha virado gente e era  dono de uma admirável inteligência; o Marquês de Rabicó, porquinho que vivia às voltas com a boneca falante em suas brincadeiras mirabolantes.  Às vezes apareciam no Sítio personagens das lendas brasileiras, como o Saci e a Cuca; e outros da literatura universal, como Hércules e certos mitos gregos. Dona Benta, grande contadora de histórias, podia entreter os meninos durante horas, narrando para eles a História das Invenções. Ou  então era Emília que se aventurava com seus companheiros pelo País da Gramática. Tudo muito divertido.

Desde o início os livros foram ilustrados. Quem fez os primeiros desenhos foi um amigo de Lobato chamado Voltolino, que era caricaturista. A caricatura é um desenho onde os traços são bem fortes. Hoje há edições belíssimas de todos os livros. Se você ainda não leu um deles, comece já!

Monteiro Lobato morreu em 4 de julho de 1948. Morreu, não! Como Emília  gostaria  de dizer, transformou-se em “gás inteligente”.

Seis livros que toda criança deve ler

Reinações de Narizinho

Neste livro Lúcia, mais conhecida como Narizinho, visita o Reino das Águas Claras, levando a tiracolo sua boneca de pano, Emília. Com a chegada de Pedrinho, o primo da menina do nariz arrebitado, que veio de São Paulo passar as férias no Sítio do Picapau Amarelo, tudo fica mais divertido.

As Caçadas de Pedrinho

Uma onça pintada anda rondando o Sítio do Picapau Amarelo, lá para os lados do capoeirão de taquaraçus. E Pedrinho resolve montar uma verdadeira expedição para sair em sua busca. Claro, sem contar para Dona Benta ou Tia Nastácia. Muitas aventuras e um novo personagem para o Sítio: o rinoceronte Quindim.

O Saci

Pedrinho ganha um novo amigo para suas aventuras. Ele tem só uma perna, fuma cachimbo, usa barrete vermelho na cabeça. Vem do folclore para fazer companhia na busca pela cultura brasileira… Entre as personagens que eles encontram estão a Cuca e o Boitatá.

A Chave do Tamanho

As notícias sobre a Segunda Guerra Mundial chegam ao Sítio pelo rádio e entristecem Dona Benta e toda a turma do Sítio do Picapau Amarelo. Emília, a protagonista desta história, resolve sair em uma aventura para acabar com as batalhas. Acaba por fazer todos diminuírem  de tamanho.

Serões de Dona Benta

A avó usa acontecimentos do dia a dia para falar sobre ciências com as crianças. Entra um pouco de tudo… geologia, física, geografia… As perguntas  e as observações engraçadas de Emília ajudam na construção do conhecimento.

Viagem ao Céu

A matéria agora é astronomia! As crianças se divertem no espaço – dos anéis de Saturno à cauda um cometa – e Tia Nástácia, no mundo da Lua, cozinha para… São Jorge, em pessoa!

Títulos da literatura infantil de Monteiro Lobato

1 – Reinações de Narizinho

2 – Viagem ao céu e O Saci

3 – Caçadas de Pedrinho e Hans Staden

4 – História do mundo para as crianças

5 – Memórias da Emília e Peter Pan

6 – Emília no país da gramática e Aritmética da Emília

7 – Geografia de Dona Benta

8 – Serões de Dona Benta e História das invenções

9 – D. Quixote das crianças

10 – O poço do Visconde

11 – Histórias de tia Nastácia

12 – O Picapau Amarelo e A reforma da natureza

13 – O Minotauro

14 – A chave do tamanho

15 – Fábulas

16 – Os doze trabalhos de Hércules (1º tomo)

17 – Os doze trabalhos de Hércules (2º tomo)

Fonte: GCN

Casa de escritor é uma verdadeira biblioteca

Os escritores não moram em casas, habitam verdadeiras bibliotecas, com livros espalhados em estantes (ou mesas, escrivaninhas e outros móveis) pela sala, pelos quartos, na cozinha e até no banheiro. “Na minha casa os livros estão em todos os espaços, menos na geladeira e no fogão. Eles brotam”, conta Socorro Acioli, autora de obras como A bailarina fantasma e A cabeça do santo. Os livros, muitos, até parecem ganhar vida, “andam sozinhos, mudam de lugar, visitam os amigos”.

Para a escritora Maria Amalia Camargo, sua biblioteca é morada de dragões, piratas, astronautas, reis e rainhas. “Na minha estante moram livros que me viram crescer. Moram livros que eu li na idade adulta, mas que me fazem voltar a ser criança. Moram dragões, piratas, sereias, astronautas, reis e rainhas. Moram histórias escritas por pessoas fantásticas que tenho a sorte de conhecer. Moram histórias sobre pessoas inspiradoras que jamais terei a chance de encontrar. Moram lugares que me fazem viajar sem sair do lugar. Moram muitos bichos que falam e alguns bichos que se acham livros.”

Já as estantes de alguns autores são a própria mala, uma espécie de “biblioteca-tenda”. É o caso do escritor e ilustrador Roger Mello, que há tempos virou um nômade que carrega suas obras preferidas pelos quatro cantos do mundo, de aeroporto em aeroporto. “O livro é um objeto de deslocamento. O livro é um outro que se carrega no bolso, na bolsa, debaixo do braço, na mão”, diz Roger, que ainda reflete sobre as bibliotecas invisíveis como as de Jorge Luis Borges e de Lygia Bojunga.

Pedimos a alguns escritores que nos contassem sobre a relação com suas estantes de livros. Confira mais abaixo.

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Uma estante no plural

 

Minha estante não existe. Não assim no singular. São inúmeras. Em minha casa há estantes no meu escritório, na sala, no corredor, no meu quarto, nos dos meus filhos e em todos os outros cômodos da casa. Incluindo o banheiro. E mais na casa de praia, igualmente com prateleiras cheias de livro na sala  e nos quartos. Periodicamente, eu me disciplino a ser desapegada e dou para bibliotecas enormes quantidades de livros, que continuo adquirindo ou recebendo sem parar. Nos que guardo, procuro arrumar por assunto. Por exemplo, algumas são só de poesia, outras de ficção brasileira, ficção em espanhol, ficção em inglês etc. Outras são só de críticas, ensaios, reportagens. Outras de literatura infantil. Outras só de clássicos – de Homero a Eça de Queirós e Machado de Assis. Outras duas são de dicionários. Mas muitas vezes acaba sobrando para as prateleiras vizinhas. Dentro do assunto, tento arrumar por ordem alfabética de autor. Pelo meio dos livros, tenho porta-retratos com fotos da família. E canecos com canetas, lápis, pincéis e tesoura. E num cantinho, pelo meio dos livros, bonecos de personagens que fui ganhando ou juntando em viagens. Como esse é um ângulo bastante fotogênico, foi o que escolhi para mostrar.”

ANA MARIA MACHADO, autora de Histórias à brasileira e A princesa que escolhia

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Identidade dupla

Costumo brincar que sou duas pessoas ao longo da semana. De segunda de manhã até quarta na hora do almoço, sou o Leo professor, no curso de jornalismo do UniBH. Desde 1997, já lecionei disciplinas tão variadas como Jornalismo Cultural, Teoria da Comunicação, Técnicas de Reportagem e Fundamentos de Cinema… Mas aí, quando dá meio-dia da quarta, eu troco de fantasia e viro o Leo escritor! É hora de inventar contos e poemas, fazer traduções, visitar escolas e, claro, ler muita literatura. O engraçado é que a minha estante é um espelho perfeito dessa dualidade. São duas portas de correr, em vidro fosco: quando abro a porta da esquerda, aparece a biblioteca do jornalista e a literatura se embaça; quando abro a da direita, acontece o oposto, e eu mergulho no universo literário. Só de olhar para as duas imagens, é fácil pra perceber que o Leo escritor é bem mais caótico que sua metade professor!”

LEO CUNHA, coautor de As fantásticas aventuras da vovó moderna

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Em busca da palavra certa

Dicionários, dicionários, muitos dicionários. Esses são os livros mais à mão no entorno da minha desorganizada mesa de trabalho. Por que tantos dicionários, vocês podem me perguntar? Porque o dicionário é a ferramenta do escritor. Muitas e muitas vezes sinto falta da palavra certa, do adjetivo correto, do verbo preciso. Além do pesadíssimo Houaiss, há os dicionários de sinônimos, os analógicos, os de dialetos regionais e de jargões. Mais acima, já um tanto distante da mesa, estão os livros que publiquei, e que preciso consultar de tempos em tempos seja para corrigir para uma segunda edição ou por outro motivo. E mais acima ainda, estão os livros que comprei para ler, mas até hoje não li. Em sua maioria são autores brasileiros, portugueses, angolanos e moçambicanos. Num certo sentido, também são ferramentas de trabalho, pois os leio para enriquecer meu vocabulário e aprimorar meu estilo. Além, é claro, do prazer em si da leitura. Falei de minha mesa de trabalho. Em outros cantos da casa, em outras prateleiras, há os livros de poesia, os de história, os políticos. Há até um cantinho com os livros que a cada semana doo a uma biblioteca, pois já não tenho espaço para tantos livros e os mais que continuo comprando, por vício e por prazer.”

BERNARDO KUCINSKI, autor de Imigrantes e mascates

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Uma biblioteca-tenda

A minha estante é nômade. Já viajou de país em país por causa da literatura, por cidades, feiras, convenções, escolas. A maior parte na vida da espécie humana na terra fomos nômades. Caminhamos desde a África ao encontro do mundo, e de nós mesmos, através da descoberta do ‘outro’. O livro é um objeto de deslocamento. O livro é um outro que se carrega no bolso, na bolsa, debaixo do braço, na mão. O seu formato de códice, de feixe de páginas, foi criado para facilitar até mesmo fugir da destruição do livro. Placas de argila são quase eternas, rolos de pergaminhos trazem uma leitura que envolve o corpo todo, mas são pesados e não têm uma forma que ajude a carregá-los. O códice trouxe a possibilidade portátil de deslocar a ficção de palavras e imagens no espaço. Sempre carrego livros quando viajo. Eles sairão da mochila e da mala e irão para mesas em escolas, em feiras do livro. Mesas que também mudam sempre de lugar. Uma mesa num café cheio de bossa, onde passar o tempo é muito mais que passar o tempo. É a construção de uma biblioteca invisível como as de Borges e de Lygia Bojunga. Recebo sempre outros livros de outros autores, de crianças, prospectos de museus, e meus cadernos, fazendo parte dessa biblioteca móvel, que tem contexto e cheiro e tem movimento. Uma biblioteca-tenda?

Muitas vezes, no meio do caminho, faço uma “boneca” de livro, uma maquete, um rascunho, colando e costurando pedaços de papel que encho de “pedaços de ideias”, onde um novo livro vai se desenhando. Como faziam os calígrafos numa caravana. É assim que crio. É ai que  gosto de escrever as palavras, à mão, pra entender a forma do texto e das imagens. Dois potes de tinta, cores escolhidas com muito “pensa e repensa”, a cor é uma espécie de “dor”. O livro é um objeto que vem com a ideia de que haverá a viagem, e a lombada do livro se relaciona com as várias bibliotecas por onde caminha. Sabe o que é a lombada do livro? Nem toda estante é um móvel, mas penso que poderia ser, e o livro, como um módulo dessa estante que compõe uma biblioteca maior, é também um módulo, uma espécie de átomo, a menor partícula indivisível, que ainda quer e precisa se dividir. Nossa cabeça, nossos olhos conversam com o livro como se estivéssemos diante de um espelho, daí o nome das partes do livro terem os mesmos nomes das partes do corpo humano. O olho, a folha de rosto, a orelha do livro, o pé de página, a respiração entre as linhas e as folhas. E, finalmente, as páginas das guardas que ligam a capa ao miolo do livro. O miolo do livro remexe os miolos da nossa cabeça em movimento. Minha estante é a estante do nômade.”

ROGER MELLO, autor de Inês e João por um fio

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Uma estante, uma rede e muita inspiração

 

“Tenho tatataravós índios, africanos e portugueses, não poderia ser mais brasileiro. Consegui instalar uma rede no meu escritório, onde gosto de ficar escarrapachado lendo, escrevendo, pensando, nadando (no sentido de fazer nada). Atrás da rede está uma grande estante que durante décadas quis, e hoje tenho. Bem grande, com pedaços separados, onde os livros estão separados por tipos: escrita, roteiros, literatura; livros grandes de arte e referências; poesia; teatro; e assim por diante. A parte com dicionários fica bem atrás da mesa, onde está também uma parte com uma boa papelada com ‘escritas em andamento’. Andei me desapegando e doei algumas pilhas dos livros para a biblioteca de uma escola. Doei e doeu: fui pegando um por um, alguns reli uns trechos, outros li, outros dei uma olhada e coloquei de volta na estante. Tem outra bem menor no meu quarto, com os cento e trinta e sete livros que eu vou ler assim que terminar o que leio agora…”

FLAVIO DE SOUZA, autor de Sabadão joia e O livro do ator

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Um cantinho só da poesia

“Em todos os lugares onde vivi sempre criei para os livros de poesia um espaço à parte. Em geral são três estantes um pouco menores do que as demais, e mais bagunçadas também. Um pouco porque pego esses livros com muita frequência e de maneira caótica – de repente a vontade de voltar a um verso me faz mexer ali e um livro puxa outro. Como conheço perfeitamente essa coleção pela lombada, não me importo muito em ordená-la alfabeticamente. E há sempre uns ‘infiltrados’ morando nessa estante, são livros de ensaio ou pequenas edições inclassificáveis que leio no mesmo espírito com que leio os poemas. O Cultura e opulência no Brasil, do Antonil, mora aí. No alto fica pousada uma parte da minha pequena coleção de vasos, como vigias silenciosos, sempre a postos…”

LAURA ERBER, autora de Nadinha de nada

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Livros em todo lugar!

Na minha casa os livros estão em todos os espaços, menos na geladeira e no fogão. Eles brotam. Minha biblioteca oficial são duas estantes fechadas, cada uma com cinco prateleiras fartas. É nela que organizo meus livros mais importantes e tento separá-los por assuntos. O problema é que nunca, nunca mesmo eu consigo organizar tudo lá dentro. Ganho livros dos alunos, das editoras, de amigos escritores e, pelas minhas contas, chegam no mínimo uns dez livros por semana aqui. O critério de organização é por temas. Tenho uma prateleira só para livros teóricos, outra só para os autores latino-americanos, outra para os portugueses e africanos. Mais uma para livros de culinária, em outros idiomas, mas raramente isso está assim tão certinho. Tenho a impressão de que eles andam sozinhos, mudam de lugar, visitam os amigos. Esse é um critério importante: deixo os amigos bem perto. Um dia eu decidi que não era saudável acumular tantos livros em casa sabendo que eu não terei tempo suficiente para ler tudo. A verdade é essa. Então comecei a criar o hábito de fazer doações para bibliotecas públicas e comprar o livro em e-book. Também sou fã dos livros digitais. Os grandes textos, a literatura de verdade existe nas palavras. Os leitores digitais são práticos e me permitem levar uma biblioteca imensa em uma viagem, gastando um espaço pequeno. Assim, posso dizer que tenho duas bibliotecas, a física e a digital. Quando olho para elas, eu me lembro da frase do escritor francês Jules Renard: ‘Quando penso nos livros que ainda vou ler, tenho a certeza de que serei feliz’. Essa é a felicidade de uma leitora como eu: saber que há tanta coisa boa para ler na vida.”

SOCORRO ACIOLI, autora de A bailarina fantasma

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A casa que virou biblioteca

O quarto costuma ser o lugar mais querido de uma jovem. Acontece que, na casa de meus pais, havia uma boa biblioteca. Era meu refúgio, meu lugar preferido, que continha, além de livros, fotos e mapas, uma mesa de madeira maciça. Na semana passada, olhando para minha própria casa lotada de livros em todos os cômodos, percebi que praticamente moro dentro de uma biblioteca. Recentemente, herdei a mesa de meu pai e logo a transformei em estante. Ela ficou reservada para os livros de autores de literatura irlandesa, como Bram Stocker, James Joyce e William B. Yates. Sempre os pesquisei, mas agora o fascínio só fez aumentar. Sobre a mesa, o grande prato de cobre que pertencia à minha bisavó baiana. Uma lembrança de minha mãe. Se meu pai, Luiz Prieto, foi o guardião dos livros, minha mãe, Valdeti, foi a grande contadora de histórias, a escrita e a voz emprestando-me ideias para meus próprios livros. Espero sempre que eles encontrem seus lugares em suas respectivas estantes, recebendo acolhida carinhosa.”

HELOISA PRIETO, autora de O estranho caso da massinha fedorenta e Vó coruja

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Três dimensões de um eu

Há algumas estantes na casa, mas a que fica mais perto de mim, quase em cima da minha cabeça, é esta da foto. Nunca tinha prestado muita atenção nela. Porém agora, olhando com atenção, vejo que minha estante revela três eus. No primeiro andar fica o eu-escritor, com os livros que escrevi e aqueles nos quais tenho algum texto. Também há fotos de família, caveiras (penso um bocado na morte) e uns bonecos engraçados, como uma múmia e um toureiro. No segundo andar fica o eu-leitor. É onde estão os livros que estou lendo ou quero ler. Não faço ideia de como o senhor Spock se teleportou para lá. Por fim, no terceiro andar fica o eu-não-posso-ficar-sentado-o-dia-todo-nesta-cadeira. Ali ficam uns (poucos) troféus de natação, medalhas de pedestrianismo (só de participação) e uns prêmios de cinema. Há também um Jabuti, mas trata-se de um intruso (que eu não tiro porque teria que levantar da cadeira).”

JOSÉ ROBERTO TORERO, coautor de Branco, belo e cinderelo e Abecê da liberdade

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A morada de dragões, piratas, astronautas, reis e rainhas

Na minha estante moram livros que me viram crescer. Moram livros que eu li na idade adulta, mas que me fazem voltar a ser criança. Moram dragões, piratas, sereias, astronautas, reis e rainhas. Moram histórias escritas por pessoas fantásticas que tenho a sorte de conhecer. Moram histórias sobre pessoas inspiradoras que jamais terei a chance de encontrar. Moram lugares que me fazem viajar sem sair do lugar. Moram muitos bichos que falam e alguns bichos que se acham livros. Minha estante de infantis e livros de arte é uma mini-micro amostra da biblioteca da família. Com pai historiador, mãe jornalista e irmão arqueólogo, as paredes de casa sempre foram cobertas de livros. Até o corredor do apartamento virou lugar deles. Comigo, lá na roça, tenho uma mistura de prateleiras e caixas que fazem do meu escritório um pedaço cheio de imaginação. Para os meus gatos, aqui também é um cantinho inspirador: às vezes, a estante vira uma parede de escalada, outras, um parque de diversões (com direito a muitos livros espalhados pelo chão).”

MARIA AMÁLIA CAMARGO, autora de Meu vizinho é chato pra cachorro!

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Um nicho de aconchegos

Quando fiz 18 anos comprei uma estante da Lundia Willo com meu primeiro salário. Isso já faz muito tempo e ela continua comigo – sempre no meu quarto – com infinitas camadas de pintura. O lugar dos livros “do agora”, cada prateleira dedicada a um assunto: pesquisa de contos, romances na fila de espera para serem percorridos, estudos de artes narrativas, coletâneas de contos tradicionais, artes da memória, tradições populares brasileiras, mestres do caminho e nas beiradas os livros enormes pra manter todos os outros  em pé. Essa pequena estante não é como as outras que povoam a casa. Aparentemente a mesma monótona ordenação por assunto, como nas outras. Só que aqui, alguns livros guardam coisas  escondidas no meio de suas páginas, há  fotos que separam brochuras, curiosidades incatalogáveis. Nicho de aconchegos. Essa estante é o continente perfeito, em si mesmo uma longa história, que vive a emoldurar as histórias entremeadas nas histórias que cada um e todos esses livros contém. Nunca lidas, jamais contadas, cúmplices por mil e uma noites. Até o além.”

REGINA MACHADO, autora de Nasrudin e A formiga Aurélia e outros jeitos de ver o mundo

Fonte: Blog das Letrinhas

Roda de conversa: Quantas autoras negras você já leu?

Quantas autoras negras você já leu?

O projeto Mulheres Negras na Biblioteca atua dentro e fora das bibliotecas, desenvolvendo ações que visam colaborar para a formação e aumento do público leitor de obras de escritoras negras.

No próximo dia 24, na Ocupação de Mulheres Tereza de Benguela (MTST), que é um espaço de acolhimento a mulheres vítimas de violência, será mediado uma roda de conversa sobre a importância da leitura de obras de escritoras negras. O evento será encerrado com o Sarau Poetas Pretas, para o qual  o público será convidado a recitar poemas de autoras negras.

Local: Rua Augusto Cavalcanti, 34 – COHAB José Bonifácio – Itaquera – São Paulo-SP

Mais informações: https://www.facebook.com/events/438525259912825/

Obras raras escritas por James Joyce são doadas a biblioteca de Nova York

Colecionador anunciou que vai entregar 350 peças, inclusive o primeiro livro publicado pelo autor irlandês e fragmento do manuscrito de ‘Ulisses’.

Por France Presse

Uma das maiores coleções privadas de obras do escritor irlandês James Joyce será doada à Morgan Library, uma biblioteca e museu de Manhattan, por um galerista nova-iorquino de origem britânica.

Estátua de James Joyce em Dublin, na Irlanda (Foto: Barry Cronin/AFP)

A coleção compreende cerca de 350 peças, entre as quais se encontram um exemplar do primeiro livro publicado por James Joyce, “The holy office”, um poema satírico de 1904, do qual se acredita haver menos de 100 cópias.

Também contém um fragmento do manuscrito de “Ulisses”, seu romance mais célebre, considerado por muitos críticos como a obra inglesa mais importante do século XX.

A coleção foi formada desde meados da década de 1990 pelo galerista Sean Kelly e sua esposa Mary.

Para o diretor da Morgan Library & Museum, Colin Bailey, a doação “transforma instantaneamente a Morgan em um grande centro de pesquisa acadêmica dedicado à vida e obra do autor”, explicou a biblioteca nesta sexta-feira em um comunicado.

O museu pretende organizar uma exposição consagrada a James Joyce em 2022, ano do centenário da publicação de “Ulisses”.

Além do James Joyce Centre, situado em Dublin em um casarão do século XVIII, existem outras coleções dedicadas ao escritor e poeta nascido em 1882 e morto em 1941.

A da universidade pública de Buffalo, no estado de Nova York, possui centenas de objetos e documentos que pertenceram a Joyce, e é considerada por muitos como a mais importante do mundo.

A Morgan Library é a antiga biblioteca particular do célebre banqueiro americano John Pierpont “J.P.” Morgan, personagem central do mundo das finanças no começo do século XX.

Após sua morte, seu filho abriu a biblioteca ao público. Depois se transformou em um museu com foco em literatura.

Texto por France Presse

Fonte: G1

Entrevista: Leo Cunha é um dos nomes fortes da literatura infantojuvenil

Leo Cunha já publicou mais de 50 livros infantojuvenis. É um dos grandes nomes do setor em Minas Gerais e no Brasil, tendo recebido prêmios importantes como o Jabuti, o João-de-Barro, o Nestlé, o FNLIJ, o da Biblioteca Nacional, entre outros. Vários deles foram selecionados para adoção em escolas do país.

Não há uma fórmula que possa explicar o sucesso deste escritor mineiro nascido em Bocaiúva há 52 anos, 50 deles passados em Belo Horizonte, mas é possível, a partir desta entrevista ao Hoje em Dia perceber algumas escolhas que foram determinantes para essa trajetória, como a convivência desde cedo com o universo da literatura.

O fato de trabalhar com ilustradores e editoras diversas também lhe possibilitou infinitas maneiras de desenvolver a sua obra e fazê-la chegar tanto nas grandes livrarias como nas bibliotecas das escolas. Além de não se permitir dar lições de moral, uma tentação em vários escritores do gênero. “Não é o papel da arte doutrinar ninguém. Quando leio algo com uma mensagem me sinto meio manipulado”, observa Cunha.

O autor mineiro prepara o lançamento de dois livros em 2018: “Só de Brincadeira”, da editora Positivo, com ilustração de Anna Cunha, e “Sinais Trocados”, com desenhos de Gustavo Piqueira, que será publicado pela Biruta

Ele viaja nos próximos dias para a Itália, onde participará da Feira do Livro de Bolonha, um dos principais dedicados à literatura infantojuvenil. “Estou indo mais como curioso, apesar de participar de uma mesa lá. Também é a possibilidade de falar com algumas editoras internacionais, sem a ilusão de que fecharei grandes negócios. Tenho consciência que meu texto é mais poético, trabalhando a linguagem com jogo de palavras, aliterações e rimas. Isso dificulta a tradução, mas é uma característica do meu trabalho”, analisa.

Você já escreveu mais de 50 livros infantis e infantojuvenis. De onde vem tanta imaginação para este universo?

De várias coisas. Uma delas é ter crescido, nos anos 70 e 80, rodeado de pessoas desta área, como escritores, ilustradores e professores, desde o momento em que minha mãe, Maria Antonieta Cunha, criou uma livraria, a Miguilim, que mais tarde virou editora, uma das primeiras do país a se dedicar exclusivamente à literatura infantojuvenil. Além desse lado pessoal muito forte, tem o fato de ter sido um leitor muito voraz. Não adiantaria nada estar à volta com o pessoal se eu não gostasse de ler. 

Diferentemente do cinema, em que até há pouco tempo a opção era pelo produto estrangeiro, no Brasil o público mirim tem maior afinidade com as narrativas nacionais.

Literatura é uma arte da palavra. Quando o texto é em sua língua, o contato é facilitado, embora tenha traduções muito interessantes. Desde os anos 70, existe uma produção de alta qualidade. Antes disso, era um pouco limitado, com Monteiro Lobato nos anos 30, e iniciativas isoladas de escritores como Cecília Meireles e Mário Quintana. Nos anos 70 e 80, o número de obras e autores cresceu exponencialmente. Hoje em dia, a Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil, de que eu faço parte há 15 anos, conta com 400 membros. Também temos uma grande quantidade de editoras, por volta de 100, que publicam livros para crianças e adolescentes.

No caso da literatura infantil, o ilustrador é uma espécie de coautor, com os desenhos tendo a mesma importância do texto. Você já trabalhou com vários ilustradores. Como se dá essa escolha?

Quanto mais jovem o público alvo, mais fundamental se torna a imagem. Na transição do infantil para o juvenil, o peso se torna relativo, com a narrativa ficando essencialmente verbal. Um das maiores felicidades de minha carreira é ter trabalhado com praticamente todos os principais ilustradores do país. Só não consegui produzir com a Angela Lago (falecida em outubro do ano passado), apesar de sermos amigos. Mas trabalhei com Roger Mello, um dos mais premiados, Rui de Oliveira, grande mestre que formou uma legião de ilustradores… Creio que tenha sido mais de 30. Alguns se repetem, outros não. Tudo vai depender do projeto. Se ele nasce com o texto e uma ideia de imagem, os dois são apresentados juntos à editora. Em outros casos, eu mando o texto e a editora escolhe o ilustrador com o estilo mais adequado. A gente percebe claramente o estilo de cada um, que pode ser poético, engraçado, realista, surrealista, mais detalhista ou econômico. 

Leo Cunha também é professor do curso de Comunicação Social, sendo o mais antigo no país a ministrar a disciplina de Jornalismo Cultural (desde 1999)

Minas Gerais se tornou um grande celeiro de autores e ilustradores do gênero. Existe uma razão para isso ter acontecido?

Algumas editoras se tornaram celeiros bem fortes de ilustradores, havia espaço para isso. A Miguilim, por exemplo, em que minha mãe era uma das sócias, lançou a Marilda Castanha, a Adriana Leão, o Paulo Bernardo, a Ana Raquel. A Formato e a Lê também abriram espaço para os ilustradores. A qualidade é muito grande, não sei se motivada pela ligação com escolas como a Belas Artes. Alguns deles passaram das artes plásticas para a ilustração, que são duas coisas bem diferentes. Pintar um quadro é uma coisa, ilustrar para um texto é outra, levando a um diálogo com outra arte.

Os autores geralmente usam muitos elementos autobiográficos em suas obras. Qual livro mais lhe retratou?

Tem livros em que aproveitei passagens de minha infância e adolescência, além de cenas com meus filhos. “Dedé e os Tubarões”, por exemplo, é baseado num caso do meu filho com o tablet. “Castelos, Princesas e Babás” foi inspirado num acontecimento ocorrido com minha filha na hora de dormir. Pego muito isso. “As Pilhas Fracas do Tempo” tem um personagem bem inspirado na minha adolescência, com a coisa da geração shopping center, da turma, do momento da descoberta da primeira paixão. Não que o personagem fosse eu. Ele tem muita coisa minha, mas sempre gosto de misturar, juntando à característica de um amigo. 

A Sylvia Orthof (referência nacional da literatura infantil, falecida em 1997) teve um papel fundamental na sua carreira, não é verdade?

Ela veio várias vezes a Belo Horizonte, para lançar livros em escolas e eventos, e nos tornamos muito amigos. Gostava muito do estilo dela, que era divertido, poético mesmo quando fazia prosa, muito nonsense. São elementos que trabalho muito em meus livros. Natural que eu me espelhasse nela. Ela entra como personagem no meu livro “Joselito e seu Esporte Favorito”. O título, por sinal, espelha os livros da Sylvia, juntando o nome de uma pessoa a uma característica que rimava. Lembro de “Tia Januária é Veterinária” e “No Fundo do Fundo Fundo, Lá Vai o Tatu Raimundo”.

Suas histórias não buscam levar a uma moral ou mensagem. Por que?

Sou meio avesso a isso. Os livros que mais gosto de ler não enfiam pela goela do leitor uma lição de vida. Quando leio algo com uma mensagem me sinto meio manipulado. Mesmo em filmes. Não é o papel da arte doutrinar ninguém. O mais importante é construir uma boa história, encantar, divertir, assustar, mexer com as emoções do leitor, mas não no sentido de ensinar nada.

Observando a sua bibliografia, são poucas as editoras que se repetem. Você acha melhor trabalhar com editoras diferentes?

No campo da literatura adulta, o autor escreve um livro a cada dois anos, o que permite que se publique pela mesma editora outras vezes. No caso da literatura infantil já é diferente. Eu escrevo uma média de dois a três livros por ano, esbarrando na capacidade de produção das editoras. As pequenas publicam quatro, cinco por ano. As grandes quatro, cinco por mês. O legal de ter livros em várias editoras é a possibilidade de eles circularem por lugares diferentes. Uma editora grande tem divulgação nacional e a certeza de que a sua obra chegará às livrarias. Uma pequena terá um trabalho mais cuidadoso com gráfica, papel, tratando-a como um filhotinho. Outras vão focar nas escolas.

Ele traduziu mais de 30 obras para o inglês e o espanhol: “Você aprende a ver como o texto foi construído e o seu ritmo”

Você fez parte da criação da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil. O que pode ser feito para melhorar o mercado para esse gênero no país?

A possibilidade de a editora trabalhar com livros mais literários e menos didáticos. No caso das escolas, formar um acervo de livros ricos, menos como um penduricalho para a questão didática. Dentro da família, frequentar bibliotecas e deixar a criança livre para fuçar e escolher. O folhear faz parte, ajuda na escolha. O poder público deve reativar os programas de criação de acervo. E tem a mídia, que poderia abrir maior espaço. Essa entrevista é uma exceção à regra. Antigamente, nos jornais, havia cadernos infantis e páginas com dicas de livros.

Texto por Paulo Henrique Silva

Fonte: Hoje em Dia

Um dos grandes nomes da literatura brasileira é tema de encontro

Um dos grandes nomes da literatura brasileira, escritor e dramaturgo é tema de encontro de incentivo à leitura em Rio Preto

Texto por Francine Moreno

Dramaturgo, romancista, ensaísta, poeta e professor brasileiro, Ariano Suassuna morreu em 2014, mas sua obra continua viva, atual e relevante. Em Rio Preto, um grupo de homens e mulheres de diferentes idades, por exemplo, irá mergulhar intensamente no universo do paraibano de nascimento e pernambucano de coração com o objetivo de entender porque ele sempre teve histórias originais na ponta da língua, ideias firmes, sensibilidade e humor genial.

O escritor da cultura brasileira, conhecido por mesclar o erudito e o popular, vai ser o protagonista do segundo encontro do projeto Casa de Criar: Ações Literárias, que será realizado neste sábado, 3, às 10h, no auditório da Biblioteca Municipal. A iniciativa, contemplada no edital do ProAC de estímulo à leitura em bibliotecas, foi criada pela professora Carolina Manzato, sócia e diretora executiva da Casa de Criar, com foco no incentivo à leitura e à literatura. Ao todo, o projeto terá 10 encontros com mediação de diferentes profissionais sobre obras de grandes escritores.

Desta vez, a condução será feita por Carolina. Ela escolheu a obra de Ariano Suassuna por causa da intenção inicial do projeto, que é democratizar à leitura. Segundo ela, o escritor e dramaturgo é carismático, o que facilita o acesso. “Parte da sua obra, que inclui O Casamento Suspeitoso, A Farsa da Boa Preguiça, O Santo e a Porca e O Auto da Compadecida, reúne personagens do imaginário popular, como João Grilo. São personagens que, mesmo com dificuldades e pobreza, pela sagacidade conseguem se dar bem no final.”

Carolina elogia ainda mais os personagens e seu ator. “Eles fazem um retrato da sociedade. As pessoas conseguem se identificar e divertir.” Segundo ela, a ação instiga e fisga os participantes porque o próprio autor tem muitas características positivas, sempre teve um atuante posicionamento político e suas obras consagradas foram para o cinema e televisão. Todo mundo já ouviu falar.” Outro ponto do escritor foram as aulas-espetáculos, em que ele dava uma aula de história da arte a partir do legado cultural brasileiro e defendia a identidade nacional.

Aprendizado

Fã de Ariano Suassuna, o professor Gláucio Camargos é um dos cerca de 50 inscritos no encontro deste sábado. “O escritor e dramaturgo brasileiro representa muito bem o Brasil em seus textos e é muito atual, principalmente pelo momento que o Brasil está passando.” Camargos conta ainda que está ansioso para ler As infâncias de Quaderna, que será lançado em breve. “Uma das suas melhores obras foi o extenso A Pedra do Reino, que me marcou muito na adolescência. Eu sempre quis ler o último capítulo e ele não existia. Esperei cerca de 10 anos e agora será lançado”, afirma.

O acervo inédito deixado por Ariano Suassuna parece inesgotável. Obras raras e novas serão lançadas neste ano. “Há uma em especial, Dom Pantero no Palco dos Pecadores, que já está sendo aclamada”, afirma Carolina Manzato. Outras cinco novas obras do escritor também serão conhecidas este ano.

Quem também vai participar do curso é a educadora Thainá Garcia, que está ansiosa e curiosa para entender um pouco mais sobre Suassuna, que completaria 91 anos em 2018. Ela, que trabalha com a educação de crianças de dois anos, acredita que a leitura tem um poder transformador. Além dela, a mãe Carla também participará do encontro. “Estou em busca de conhecimento e quero conhecer melhor Suassuna, que é um dos nomes mais importantes da história do Brasil, para repassar para meus alunos.”

Projeto

O primeiro encontro do projeto Ações Literárias foi realizado em dezembro do ano passado e o tema abordado foi Os contos de fadas e a formação dos arquétipos humanos universais, com coordenação da professora Ana Catarina Angeloni Hein. Ao todo, 47 pessoas participaram. Já o terceiro encontro está agendado para o dia 10 de março. O professor Leandro Passos vai explorar a literatura de Marina Colasanti. Para participar é preciso fazer inscrição. A ficha pode se acessada no Facebook Casa de Criar.

Serviço

  • Encontro do projeto Casa de Criar: Ações Literárias. Sábado, 3, às 10h, no auditório da biblioteca. Gratuito. Informações: (17) 99131-8500.

Fonte: Diário da Região

Elizabeth Columa e Esther Rodrigues estão no Conversa com o Autor

Poesia e história da Rússia são temas do bate-papo com as escritoras

O programa Conversa com o Autor traz duas expoentes da literatura: Elizabeth Columa e Esther Rodrigues. A primeira é doutora em Educação pela Universidade do Sul da Califórnia, morou por muitos anos em Nova York e em Los Angeles. Elizabeth Columa tem três livros publicados. Dois deles são de poesia: “Reminiscências/reminiscences” e “Antes do entrelaço dos braços”. É autora também do livro de contos “Garota Virtual”. Escreve atualmente suas “Memórias americanas/american memoirs”.

Esther Rodrigues é graduada em biblioteconomia. Em seu primeiro livro, “Mãos limpas coração quente”, se inspirou na vida do seu marido, Obertal Mantovanelli, para realizar uma pesquisa sobre a União Soviética. Ela também é roteirista e escreveu o Sitcom “Zen noção” e o seriado “Os Rodrigues”, sobre a saga familiar da família sob a ótica de Nelson Rodrigues.

Ouça o programa no player abaixo. 

O programa Conversa com o Autor é uma parceria da Casa da Leitura, da Fundação Biblioteca Nacional, com as Rádios EBC, com apresentação da jornalista Katy Navarro. Vai ao ar aos sábados, às 12h, na MEC AM.

Fonte: Empresa Brasil de Comunicação

Vinícius de Moraes é tema de Roda de Poesia na Biblioteca Joaquim de Castro Tibiriçá

O poeta Vinícius de Moraes (1913-1980), é tema da próxima Roda de Poesia que acontece na Biblioteca Joaquim de Castro Tibiriçá (Rua Quintino Bocaiúva, s/n – Praça da Ópera Salvador Rosa, Bonfim), neste sábado, 27 de janeiro, a partir das 14h30.

No bate-papo, serão revisitadas a vida e obra de Vinícius de Moraes e seu legado à cultura brasileira. Quem nunca cantarolou “Eu sei que vou te amar por toda a minha vida” ou se surpreendeu com “Era uma casa muito engraçada não tinha teto/ não tinha nada” ou até mesmo repetiu e repetiu os versos “São demais os perigos desta vida/Pra quem tem paixão” e os famosos “Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure”.

Sobre ele, disse Carlos Drummond de Andrade: “Vinicius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural. Eu queria ter sido Vinicius de Moraes”.

A atividade, com entrada gratuita, é aberta a todos os interessados. (Carta Campinas com informações de divulgação)

Fonte: Carta Campinas