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Leitura Digital

Ler em um formato diferente é ler pior?

O confinamento aumentou ainda mais a digitalização de nossa leitura, que transforma silenciosamente nossos circuitos neurais. Há vantagens em consumir conteúdo em papel em relação ao do celular ou de um e-book?

Jovem lê um livro digtal em Sevilla, na Espanha, no último dia 20 de maio.PACO PUENTES / EL PAIS

Texto por Carmen Pérez-Lanzac

O circuito neural que nos dá a capacidade cerebral para ler está mudando rapidamente para todos. Tablets, computadores, laptops, Kindles e celulares estão substituindo os antigos livros, promovendo uma transformação silenciosa em cada um de nós. O ser humano não nasceu para ler. A aquisição da alfabetização é uma das conquistas mais importantes do Homo sapiens. O ato de ler reorganizou completamente um circuito de nosso cérebro. Mudou a própria estrutura das conexões neurais e isso transformou a natureza do pensamento humano. Em 6.000 anos, a leitura deu impulso ao nosso desenvolvimento intelectual. A qualidade de nossa leitura não é apenas um indicador de nosso pensamento, é a melhor maneira que conhecemos para desenvolver novos caminhos na evolução cerebral de nossa espécie. Mas, como mudou a qualidade de nossa atenção à medida que lemos mais e mais em telas e dispositivos digitais? Este processo vem sendo reforçado durante o confinamento. Nossa capacidade de percepção estará, como afirmou o filósofo Josef Pieper, diminuindo ao nos depararmos com um excesso de estímulos e informações?

Em seu livro O Cérebro no Mundo Digital – Os Desafios da Leitura na Nossa Era (Editora Contexto), a neurocientista Maryanne Wolf, diretora do Centro para a Dislexia da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, observa que no cérebro impera uma máxima: “Use essa capacidade ou perca-a”. Assim, cada meio de leitura beneficia alguns processos cognitivos em detrimento de outros. Wolf lança uma pergunta: a mistura de estímulos que distraem continuamente nossa atenção e o acesso imediato a várias fontes de informação dá ao leitor menos incentivo para construir suas próprias reservas de conhecimento e pensar criticamente por si mesmo?

A plasticidade do nosso cérebro nos permite formar circuitos cada vez mais extensos e sofisticados, dependendo do que lemos e em que plataforma o fazemos. Como sugeriu o psicólogo cognitivo Keith Stanovich, aqueles que não leram muito e bem terão menos bases para a inferência, a dedução e o pensamento analógico, ficando propensos a serem vítimas de informações falsas ou não comprovadas. Wolf acredita que não vemos mais nem ouvimos com a mesma qualidade de atenção porque vemos e ouvimos muito e, além disso, também queremos mais.

Ela mesma vivenciou a mudança. Teve que se esforçar para reler O Jogo das Contas de Vidro, de Hermann Hesse, um dos livros que a marcaram em sua juventude e que lembrava que não era especialmente leve. Depois de um primeiro fracasso, teve que definir períodos de leitura de 20 minutos para terminar o livro, o que lhe tomou duas semanas. “O ritmo vertiginoso com que eu costumara ler meus gigabytes diários de informações não me permitia parar o tempo suficiente para entender o que Hesse estava transmitindo”, escreve ela em O Cérebro no Mundo Digital.

A linguista Naomi Baron é, com Wolf, a ponta de lança dessa questão nos Estados Unidos. Baron comenta que os jovens trocam de mídia 27 vezes por hora e, em média, consultam o celular entre 150 e 190 vezes por dia. Por sua plasticidade, afirma o neurocientista argentino Facundo Manes, o cérebro se adapta às mudanças ambientais e a atenção que dedicamos aos avanços possíveis graças às novas tecnologias nos faz enfrentar uma nova maneira de processar informações. O cérebro tem que se adaptar a essas mudanças, e as crianças e os jovens que estão crescendo entregues às novas tecnologias possivelmente desenvolvam e potencializem a capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo “em detrimento de outras habilidades”.

Nem todos os especialistas concordam com essa tese ou acreditam que nossa leitura seja afetada pelo formato escolhido. A Comissão Europeia quis fomentar o debate, por isso, apoiou entre 2014 e 2018 (com um milhão de euros no total, cerca de 6 milhões de reais) o projeto E-Read, que financiou 200 professores universitários de toda a Europa para estudar o assunto e se reunirem regularmente. Anne Mangen, do Centro de Leitura da Universidade de Stavanger, na Noruega, foi uma das coordenadoras do grupo. Vários estudos merecem destaque nessa experiência, dois deles da própria Mangen: ela comparou o entendimento impresso e no Kindle de um conto apimentado e de outro de mistério de 28 páginas (o mais longo estudado até o momento) entre um grupo de alunos do ensino médio. Concluiu que os alunos que leram o livro impresso entenderam melhor as duas histórias, principalmente na hora de ordená-las cronologicamente.

Ladislao Salmerón, professor de Psicologia Evolutiva e Educação da Universidade de Valência, foi com seu então estagiário, Pablo Delgado, o autor do estudo mais relevante da equipe conhecida como Grupo Stavanger. Eles realizaram um metaestudo de 54 estudos realizados entre 2000 e 2017, com um total de 170.000 participantes de diferentes idades, que demonstra que a compreensão de textos expositivos e informativos (não narrativos) é maior quando são lidos em papel do que em mídia digital, especialmente se o leitor está com um tempo de leitura limitado. “O que descobrimos é que, em igualdade de condições, sistematicamente se entende melhor o que é lido em papel”, diz Salmerón. E o que mais o surpreendeu: quanto mais jovens as pessoas, maior a diferença de compreensão entre os dois formatos.

Durante a década passada, houve um importante esforço para aproximar as telas das escolas. O projeto One Toplap per Child, planejado para reduzir o fosso digital, levou minicomputadores para crianças do Uruguai a Ruanda. Outros projetos os levaram a Glasgow ou ao Estado do Kansas. Também na Espanha houve esforços para aproximar a tecnologia dos pequenos. O Governo da Andaluzia entregou um minicomputador a 390.000 estudantes. Salmerón, que está em contato com a comunidade educacional, diz que recebe cada vez mais pedidos para falar sobre os possíveis efeitos negativos da leitura excessiva nas telas. “A tecnologia entrou nas escolas levada por esperança e fé”, diz Anna Mangen, “e muita gente tem vergonha de se tornar antiquada vetando a tecnologia”. Ladislao não se esquecer da reação de um alto funcionário dinamarquês que participou de uma das apresentações do Grupo Stavanger: “Mas o que fizemos?”.

Um dos assuntos que preocupam os especialistas em ensino é o efeito que essa nova maneira de ler pode ter nas universidades. Uma pesquisa realizada por Baron e Mangen com professores universitários dos Estados Unidos e da Noruega, que será divulgada no próximo ano, revelou que 40% dos 150 entrevistados pedem aos alunos menos leituras que antes e um terço deles respondeu que fazia isso porque diretamente não liam o que lhes pediam que lessem. No total, 81% afirmaram que em sua opinião a tecnologia digital está levando os alunos a leituras mais superficiais.

Distintos graus de interesse na Europa

Antes de decretar o estado de alarme, Salmerón preparava um estudo com cerca de 100 estudantes universitários para detectar, por meio de um eletroencefalograma, o nível de atenção durante a leitura em formato impresso e digital (o financiamento era do BBVA). Atualmente, ele está computando os resultados de uma pesquisa com 4.000 espanhóis sobre as mudanças nos hábitos de leitura durante o confinamento. O professor acredita que, embora o aumento da leitura digital ajude a se chegar a alunos que, de outra forma, não teriam acesso às leituras em papel, é urgente encontrar soluções para limitar os efeitos negativos que o formato digital tem na compreensão da leitura. Ele vê um contraste importante no interesse por essa questão em relação ao norte da Europa. Diz que, para fazer um estudo sobre o benefício da leitura nas telas, encontra inúmeros candidatos. Por outro lado, para estudar seu lado negativo, é difícil encontrar participantes e patrocinadores. Cita André Schueller-Zwierlein, responsável pela biblioteca da Universidade de Regensburg (Alemanha), por seu esforço na promoção da leitura profunda. Schueller-Zwierlein considera que as bibliotecas têm a responsabilidade de criar salas diferentes para diferentes tipos de leitura (em sua biblioteca há 13 salas diferentes) e promover o ensino das habilidades de leitura.

Há pouco mais de um ano, o Grupo Stavanger divulgou uma declaração resumindo os resultados obtidos pelos pesquisadores participantes. Um dos responsáveis ​​pela redação, Paul van den Broek, especialista holandês e membro do grupo de profissionais que prepara o relatório PISA, destaca que não se opõe à leitura digital, mas ressalta que cada formato tem um público para o qual é adequado e que o assunto precisa ser aprofundado. A declaração defende a relevância do texto impresso para a leitura de textos longos, especialmente quando se trata de compreender em profundidade e reter informações.

Dentre as recomendações incluídas, três se destacam: 1) ampliar a pesquisa sobre as condições em que o aprendizado e a compreensão em textos impressos e digitais aumentam ou diminuem, 2) o ensino aos estudantes de estratégias de domínio da leitura em profundidade no ambiente digital e que as instituições educacionais motivem os alunos a ler livros impressos em sua grade curricular e 3) que os professores estejam cientes de que intercambiar o aprendido mediante papel e lápis não é indiferente à mudança para o digital.

Ler nem sempre é divertido. Implica esforço, diz Anna Mangen. “Devemos pedir evidências de que a leitura digital melhora a leitura”, diz a especialista norueguesa, que enfatiza: “É importante, pois é uma questão de saúde mental”. Como disse o visionário tecnológico Edward Tenner, seria uma pena se uma tecnologia tão genial acabasse ameaçando o tipo de intelecto que a tornou possível.


PARA QUE OU PARA QUEM É MELHOR, ESSA É A PERGUNTA, POR FACUNDO MANES (NEUROCIENTISTA E DOUTOR POR CAMBRIDGE)

A leitura supõe, em primeira instância, reconhecer o formato das letras e, com elas, as palavras. Mas também, durante a leitura, percebemos a totalidade do texto como se fosse uma paisagem. Assim, fazemos uma representação mental dele, que serve de base para a interpretação das informações que estamos processando. Na neurociência, não há consenso sobre qual é o formato mais adequado para a leitura. Muitos estudos mostram as vantagens do papel, enquanto outros apontam que não há diferença alguma entre os dois formatos ou mostram as vantagens do formato digital. A pergunta importante não é qual formato é melhor, mas para quem, para quê, e quando. É o mesmo para um adulto e uma criança? É melhor para leituras escolares, mas pior para leituras recreativas? Existem vantagens que justifiquem o uso de um formato específico para textos de ficção, mas não para os técnicos? Uma das mudanças estruturais que ocorre na leitura digital é que nela a experiência do limite não se dá de maneira tão acabada como na leitura no papel: quando lemos na tela vemos apenas uma parte do livro, podemos avançar ou voltar ao longo do texto, mas essa noção de finitude não é tão clara. É por isso que a metáfora da “navegação” usada para se referir à Internet não é aleatória, já que não há caminho predeterminado e também não se sabe onde está a margem. Um livro tradicional, por sua vez, oferece ao leitor traços topográficos que lhe permitem se orientar sem perder de vista o conjunto: a página à esquerda, a página à direita, os quatro cantos e um texto fluido que não é interrompido por links ou anúncios. A isto se soma a possibilidade de tocar as páginas com as mãos e deixar um rastro à medida que se avança na leitura, o que nos propicia um informe sensorial-motor de quanto lemos e quanto falta. Todos esses elementos fazem com que muitas pessoas percebam a leitura no papel como algo mais controlável, pois lhes oferece um mapa mental coerente e sem nenhum obstáculo. Por sua vez, a orientação espacial tem um impacto na memória: muitas pessoas dizem que é mais fácil recordar o que leem quando lembram onde as informações estavam situadas. A interação com o texto é diferente em cada plataforma, já que esta se encontra relativamente bloqueada (por exemplo, em um formato sem possibilidade de edição) ou tem uma capacidade de inserção sem marcas de limite entre o alheio e o próprio (por exemplo, em um texto de processador). Escrever nas margens, sublinhar, destacar e voltar para trás para reler uma frase é algo mais vinculado ao livro em papel. Esse senso de apropriação do texto a partir dos traços originais torna o livro um pouco mais próximo. Embora talvez seja pelo fato de a pessoa ter sempre lido nesse formato. É importante entender que a compreensão da leitura é um processo posterior à decodificação: primeiro se lê e depois se compreende o que é lido. Sabemos que, para um leitor, ler em uma tela não é o mesmo que ler um livro. Faltam mais pesquisas que avaliem o efeito do uso da tecnologia no funcionamento cognitivo a longo prazo. Enquanto isso, o segredo estaria em usar a tecnologia de maneira equilibrada e saudável.

Fonte: El País

‘Podemos afirmar que a tendência é que o livro digital tenha mais peso nos nossos hábitos de leitura’

Texto por Lorenzo Herrero

Em entrevista ao PublishNews, CEO de distribuidora de conteúdos digitais da Espanha, fala sobre o impacto do coronavírus no mercado

Arantza Larrauri é CEO da Libranda, distribuidora de conteúdos digitais da Espanha | © Linkedin da profissional

A pandemia mudou os hábitos de lazer em todo o mundo. O livro está se tornando um aliado e companheiro fiel nos dias de hoje, quando reuniões com amigos ou espetáculos estão proibidos. No entanto, o leitor encontrou as livrarias fechadas. O aumento da leitura no formato digital já vinha sendo confirmado em relatórios, como o Informe del Libro Digital, publicado em 2019. O documento é realizado pela Libranda, distribuidora de conteúdos digitais da Espanha. Muita coisa mudou desde a publicação, por isso, Lorenzo Herrero, editor do PublishNews em Espanhol resolveu atualizar esse assunto com Arantza Larrauri, CEO da Libranda.

PublishNews em Espanhol – Como o coronavírus está afetando o mercado espanhol de livros digitais?

Arantza Larrauri – A terrível pandemia da covid-19 e o consequente confinamento em que estamos imersos favoreceram naturalmente o consumo de entretenimento digital, bem como a leitura digital, tanto do ponto de vista da demanda quanto da oferta.

Do ponto de vista da demanda nessas semanas de confinamento, detectamos um crescimento nas vendas de livros digitais de mais de 130% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Entradas em bibliotecas digitais e empréstimos digitais também se multiplicaram. Houve também um aumento significativo no número de novos usuários, em algumas dessas plataformas o número de usuários cresceu cinco vezes e o tempo que os leitores passam lendo nessas plataformas também aumentou.

Do ponto de vista da oferta, detectamos um interesse crescente em dar o salto digital por parte dos editores que não tinham ainda começado a digitalizar seus catálogos e por aquelas livrarias que ainda não estavam oferecendo a seus clientes a possibilidade de adquirir conteúdo em formato digital a partir do seu e-commerce.

PNES – O livro digital em espanhol, de acordo com o seu relatório, cresce 12%, mas podemos saber se esse crescimento se deve a um aumento na compra daqueles que já leem digitalmente ou se o livro digital está alcançando mais leitores todos os dias?

AL – Muito provavelmente, esse crescimento de 12,5% em 2019 é devido a uma mistura de ambos os efeitos. A proporção exata de um e outro efeito é conhecida pelas plataformas que prestam o serviço ao usuário final (a plataforma de vendas, a assinatura ou a biblioteca digital), pois sabem quantos novos leitores se registram e começam a ler digitalmente em suas plataformas.

Infelizmente, a Libranda não tem essa informação. Entretanto, podemos dizer que acreditamos que o crescimento é uma consequência de ambos os efeitos, porque as próprias plataformas de bibliotecas digitais, de vendas e de assinaturas nos falam de uma constante evolução ascendente no número de leitores que registram e ativam seus serviços. Um exemplo disso é o aumento no número de usuários ativos do serviço de empréstimo digital eBiblio em 2019 vs. 2018 que o Ministério da Cultura [da Espanha] tornou público, que foi de 36%.

PNES – Qual é o peso desse aumento no grande número de ofertas dos editores na compra desses livros em formato digital durante esse período?

AL – Como em qualquer mercado, as políticas de estímulo à oferta e à demanda são recompensadas, dando frutos. De fato, no mundo dos livros digitais, ofertas e promoções de preços são feitas naturalmente todos os dias, e se em tempos de confinamento houve mais dessa modalidade de oferta, me parece uma resposta lógica, porque em circunstâncias excepcionais é compreensível que também haja respostas excepcionais.

De qualquer forma, não creio que essa tenha sido a principal razão pela qual estamos experimentando um crescimento tão extraordinário nessas semanas.

Penso que o principal motivo foi a situação de confinamento em nossas casas, que teve o duplo efeito de tornar impossível a compra de livros de outras maneiras e de aumentar o tempo disponível para a leitura de muitas pessoas.

Uma pista do que aponto no ponto anterior é dada pelo fato de os registros terem sido multiplicados por cinco em algumas plataformas de assinatura de livros (sem ter alterado a taxa de assinatura) e os registros em bibliotecas públicas digitais terem se multiplicado. Nesses casos, a alta não implica em nenhum custo associado, nem agora no confinamento nem antes dele).

Estou confiante de que muitas das pessoas que descobriram a leitura digital como resultado da situação extraordinária que estamos enfrentando tiveram uma experiência agradável de leitura e decidem continuar gostando no futuro.

PNES – Como você acha que isso afetará a atração de leitores para o mundo digital através de obras gratuitas ou com um desconto significativo? Estamos atraindo leitores para o formato digital ou pode ter um efeito negativo a longo prazo?

AL – Eu acho que – como em qualquer mercado que tem um comportamento racional -, os agentes que oferecem um produto sabem qual o preço que devem definir (neste caso, os livros) para serem competitivos no mercado, para poder satisfazer os clientes já por sua vez, sejam sustentáveis como empresas.

Com base nessa crença no comportamento racional, as ações que estão sendo tomadas para atrair novos leitores para o mundo digital parecem legítimas e corretas para mim, e não acho que elas tenham algum efeito negativo.

PNES – Onde está o futuro do livro digital: plataformas de assinatura, empréstimos para bibliotecas ou vendas individuais?

AL – Bem, também nesse sentido, acho que no futuro prevalecerá a diversidade de maneiras de acessar o livro digital. E quando falo sobre o futuro, falo um ou dois anos, porque hoje, em um ambiente tão imprevisível e mutável quanto aquele em que vivemos, um ou dois anos é um longo prazo!

Em nosso relatório, refletimos o peso de cada um desses canais e modelos de negócios em 2019 em todo o mundo e por território. No ano passado, o maior peso foi detido pelas vendas unitárias com 89,9%, seguido pela assinatura com 5,8% e pelas bibliotecas públicas com 4,3%.

É possível que essa tendência continue nos próximos anos, mas, sem dúvidas, o crescimento será muito relevante na assinatura e também no empréstimo digital.

De fato, em países como o nosso, Espanha, ambos os modelos de negócios têm um peso acima da média. A assinatura teve uma participação de 8,5% na Espanha em 2019 (com um crescimento de 20%) e o empréstimo digital uma participação de 5,1% (com um crescimento de 34%).

PNES – O que você acha que o coronavírus significa para o mercado de livros digitais?

AL – Será uma oportunidade para mais pessoas descobrirem, apreciarem e apreciarem suas virtudes.

PNES – Como o vírus afetou sua vida profissional até agora?

AL – Para mim, ajudou a confirmar mais uma vez que a equipe humana que constitui a empresa em que trabalho é extraordinária: sempre demonstrou maturidade, coragem, unidade e capacidade de agir para enfrentar circunstâncias difíceis.

Por outro lado, em um nível prático, a tarefa de combinar o ambiente de trabalho com a esfera doméstica e familiar é pelo menos curiosa: videoconferências de trabalho, videoconferências das aulas da escola de minhas filhas, recepção de pacotes, passeios com o cachorro, passeios ao supermercado, etc. Tudo ao mesmo tempo e no mesmo espaço. De uma maneira ou de outra, estamos todos aprendendo a ser malabaristas hoje em dia!

Fonte: Publishnews

Leitura tecnológica

Texto por Marília Paiva

Hábito se beneficia da transformação digital

A pandemia do novo coronavírus interferiu profundamente no cotidiano de milhares de pessoas no mundo. A tecnologia se tornou muito importante nesse período de isolamento social, pois encurta distâncias com a comunicação entre familiares e amigos, proporcionando momentos de diversão com atividades recreativas.

Muitas pessoas aproveitam para investir na leitura, dando uma chance a livros guardados, enquanto outros apostam em versões digitais. Mais do que nunca, as ferramentas tecnológicas e as bibliotecas, vistas como rivais, atuam em conjunto na promoção dos hábitos de leitura.

A imersão cada vez maior da população no uso de eletrônicos levou muitos a apostaram que era apenas uma questão de tempo para o hábito de leitura de livros impressos ser extinto. E, assim como as cartas se transformaram em mensagens de texto e visitas a amigos em ligações por telefone, o livro seria esquecido. Felizmente, não foi o que aconteceu.

Os equipamentos eletrônicos se tornaram também ferramentas de leitura, propiciando conforto ao usuário e algumas vantagens: os e-books podem ser acessados do próprio celular ou computador; alguns aparelhos, como o Kindle, ainda apresentam diversas opções de tela, permitindo até mesmo redução de brilho, para parecer uma página impressa. No fim das contas, muitos utilizam o livro físico e as versões digitais.

Com o isolamento social e a impossibilidade de visitar as bibliotecas, a tecnologia cumpre um papel fundamental de continuar permitindo o hábito da leitura, durante a reclusão. A leitura de livros, sobretudo de literatura, pode ajudar a acalmar a mente, já que, com tantas notícias reais e ruins sendo bombardeadas em todas as mídias, é normal algumas pessoas sofrerem com a ansiedade e a preocupação.

A leitura propicia uma viagem a outros mundos, a outras experiências, incentivando a imaginação, distraindo dos problemas da vida real, ou até mesmo ensinando sobre a experiência da humanidade em outros momentos difíceis. As bibliotecas, mesmo fechadas, também cumprem um importante papel com livros digitais gratuitos, selecionando e divulgando pesquisas e dados relevantes sobre a Covid-19, fazendo contação de histórias para crianças e orientando seus usuários sobre acesso a benefícios emergenciais etc.

O leitor contemporâneo, com acesso à Internet, tem possibilidade de fazer escolhas de forma mais prática, podendo selecionar a obra, como e onde vai ler, inclusive, acessando um acervo imenso de livros digitais de acesso livre e gratuito. Outra vantagem desse tipo de livro é a acessibilidade, uma vez que existem audiolivros e opções de aumento de tamanho da fonte, que permitem a inclusão de pessoas com deficiência visual, garantindo a inserção dessa parcela da população no ambiente literário.

Fonte: O Tempo

Bibliotecas públicas de SP promovem atividade sobre mediação de leitura na era digital

Em maio, escritora e jornalista Goimar Dantas conduzirá encontro online voltado a profissionais do setor

O SisEB (Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas de São Paulo) realizará a atividade “Mediação de Leitura na Era Digital”, nos dias 5, 6 e 7 de maio. O evento gratuito, que tem vagas limitadas, será online e contará com três turmas (cada uma em um dos dias citados), sempre das 15h às 17h.

A atividade será conduzida pela escritora e jornalista Goimar Dantas e visa abordar a mediação de leitura por meio de uma interação ativa nas plataformas digitais. As pré-inscrições podem ser feitas em http://siseb.org.br/agenda/.

O público-alvo e os pré-requisitos para participar são:

  • trabalhar em bibliotecas de acesso público do Estado de São Paulo;

  • ter ensino superior completo;

  • ter boas noções de informática, internet;

  • ter acesso por banda larga.

O link de acesso à plataforma será enviado um dia antes da atividade. Importante acrescentar que condições especiais de atendimento, como tradução em Libras, devem ser informadas na pré-inscrição. Saiba mais em: www.siseb.org.br.

Fonte: Portal do Governo do Estado de São Paulo

Universidade do Minho conta histórias interactivas e multiculturais

II SIMPÓSIO INTERNACIONAL E V NACIONAL DE TECNOLOGIAS DIGITAIS NA EDUCAÇÃO

Apresentação

Enquadrado no tema geral “Leitura e Escrita no Mundo Digital”, o II Simpósio Internacional e V Nacional de Tecnologias Digitais na Educação – IV – SNTDE 2020, promovido pelo Grupo de Estudos e Pesquisas Sobre Tecnologias Digitais na Educação – GEP – TDE da Universidade Federal do Maranhão – UFMA, estimula a discussão sobre o uso pedagógico das tecnologias na educação, assim como a apresentação de trabalhos originais relacionados às temáticas do evento.

O V – SNTDE 2020 será realizado entre os dias 04 e 07 de Agosto de 2020 nas dependências do Centro Pedagógico Paulo Freire da Universidade Federal do Maranhão em São Luís – MA e contará com a participação de pesquisadores e Nacionais e Internacionais.

Na programação do evento contamos com apresentações de trabalhos completos, resumos (poster), conferências, palestras, mesas redondas e minicursos. Contamos com a sua presença !!

Será fornecido certificado de participação de 40 horas para todos os inscritos e também os artigos aceitos pela comissão científica serão divulgados em anais eletrônicos e e-book com ISBN e selo da editora EDUFMA.

Mais informações: https://doity.com.br/sntde2020?fbclid=IwAR11zJEeb69LRAqxkrEMj84zxXA_4qYM-HJEHMnWjrm92KcX07A9yeEdSME

Leitura Digital: Revolução em velhos conceitos

Texto por Mauricio Savioli

O belíssimo e muito saudável hábito da leitura é um hobby que a milênios cativa a muitos; especialmente para ler algo de seu agrado, que não necessite um relatório escolar, ou uma literatura universitária ( que não necessariamente é ruim, mas, é algo que remete ao esforço e não ao prazer), mas sim, um título que “encarne” o prazer em meio as tantas linhas e figuras de linguagens; sim, ler nos leva a uma nova realidade, aguça a imaginação e aprimora o vocabulário.

Com o passar dos anos, como tantas outras coisas que conhecemos, a escrita, as expressões, a linguagem e a estrutura padrão de escrita e estruturação de um livro, foram modificadas para se adequar a época e aos leitores, e podemos ressaltar o quão ler tornou-se diferente a medida com que a tecnologia industrial e tecnológica foram expandindo.

Pinceladas Históricas

Em um passado longínquo, os livros (o termo “livro” deriva do termo “papiro”) eram escritos em rolos, pergaminhos imensos vendidos por uma fortuna, se um livro tornava-se bem conceituado, como os escritos judaicos, para que outrem pudesse ter uma copia, era necessário transcrever todo o livro, nesta época e muito citados em texto bíblicos, o escribas eram homens de muito conhecimento, que dominavam a escrita e transcreviam os livros das eras antigas.

A origem do objeto livro como conhecemos hoje, esbarra muito em termos políticos e religiosos, especialmente na Bíblia, que em 1455, graças a Johannes Gutenberg, a imprensa com peças móveis reutilizáveis ganha vida e muito trabalho, e o primeiro livro impresso nessa técnica foi a Bíblia em latim. Com o surgimento da imprensa, desenvolveu-se a técnica da tipografia, que teve o italiano Aldus Manutius como um de seus mais importantes nomes.

Nossos amados livros passaram por poucas e boas ao decorrer da história humana, isso porque, o conhecimento que estava sendo facilmente disseminada pelos povos através da produção em massa de livros, acabou incomodando grandes lideres, com isso muitos livros foram queimados, acusados de conterem heresias, e alguns, assim como a Bíblia, foram acorrentados a bibliotecas com acessos restritos e envenenados em suas folhas para que, caso algum plebeu quebrasse as regras, morresse em sua leitura.

Todavia, as loucuras não estão mais em alta, apesar de ainda existirem, até mesmo a força da censura foi diminuída, e com a facilidade em se adquirir livros a ótimos preços, graças a internet, tudo ficou mais fácil, e sem sair de casa, o leitor pode adquiri seu exemplar.

E-Books

Com o apelo ecológico e a popularização dos dispositivos mobiles, a digitalização dos livros tornou-se uma tendencia real, não apenas escanear livros e disponibilizar PDFs para leitura, mas sim, produzir livros digitais com a mesma qualidade da mídia física, com cores de páginas, dicionário acoplado aos leitores, marcadores, possível adição de comentários e efeitos ao trocar a página, tudo para agradar o leitor.

Criado em 1971, o livro mais cotado para ser o pai dos e-books é o livro Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, escrito por Michael Stern Hart, e este nobre cidadão, é o mais antigo produtor de e-books do mundo e idealizador do Projeto Gutenbergque procura digitalizar livros de domínio público para oferecê-los gratuitamente.

Graças a popularização dos e-books, hardwares e softwares que possibilitam ótimas experiências aos leitores não faltam no mercado, com a diferença do tipo do formato do livro, e é isso que irá diferenciar as experiências de leitura. A Amazon, possui seu software para leitura digital que pode ser instalado em qualquer dispositivo mobile, mas, seu carro chefe é o Kindle, dispositivo específico para leitura, que diferente de um tablet, ele da a sensação ao ler um livro de ter um livro em mãos, por conta da tecnologia simples e inovadora aplicada ao dispositivo, que vem evoluindo a cada ano. No quesito softwares, o Google Play Livros, é um concorrente direto com a Amazon, com uma imensa biblioteca e preços similares, a Google capricha no visual e nos efeitos de cada folha do livro adquirido.

A cada dia que passa, mais apps aparecem para dar uma nova experiência ao leitor, uns com uma gama muito ampla de livros internacionais, outros a apenas com livros gratuitos e outros com conteúdos totalmente próprios e diferenciados, tudo para chamar a atenção dos leitores. Até mesmo as HQs tem um fantástico mercado nos e-books, produtoras como Marvel e DC tem seus próprios apps que possibilitas uma intensa imersão a cada balão de fala, e outros como a Nanits Comics, tentam deixar com que a leitura fique mais imersiva, com a sensação tridimensional das folha e a aplicação de sons a leitura.

Ponto Final

A mudança do livros em decorrer das eras foi fantástica e adaptável para seus usuários, buscando expansão e um número cada vez maior no valor do produto, visando alcançar as minorias, gastando-se menos na produção de um livro, e podendo vender mais e mais barato, sim, os livro se adequaram a leitores, realidades temporais e ao mercado de venda. Porém, apesar de toda tecnologia que temos hoje, com todos o e-books e o crescimento dos áudio-books, nada se compara a ter um livro em mãos e ao cheiro de uma belo e novo exemplar.

Fonte: Galáxia Nerd

PLATAFORMA DIGITAL CONSEGUE AMPLIAR ÍNDICE DE LEITURA EM ESCOLAS

Texto por Jorge Marin

Um concurso literário digital chamado “Li, Gravei – Concurso de Booktubers”, realizado no primeiro semestre de 2019 pela plataforma de leitura Árvore de Livros, conseguiu a proeza de, durante um único mês, fazer com que alunos de diversas escolas do Brasil lessem mais de 1900 livros acessados por dispositivos eletrônicos, atingindo uma marca superior a 5 mil horas de leitura!

A proposta do concurso era que, via plataforma digital Árvore de Livros, os alunos dos anos finais do ensino fundamental e do nível médio se envolvessem na leitura de obras clássicas da literatura brasileira — de Machado de Assis a Marina Colasanti — e produzissem, em pequenas equipes, uma resenha em vídeo para o YouTube.

Ao promover a conexão entre esses diferentes formatos de linguagem sem sair do mundo digital, o preferido dos jovens, a Árvore de Livros busca atingir o objetivo de formar novos leitores nas escolas num momento em que o desempenho dos alunos brasileiros é considerado “estacionado” em leitura, matemática e cicências segundo os dados do Pisa 2018, exame internacional de educação promovido pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) cujos resultados foram divulgados no último dia 3 de dezembro.

A Árvore de Livros

Lançada em 2014, a Árvore de Livros é uma edtech, nome dado a empresas que desenvolvem e se utilizam da tecnologia para potencializar a aprendizagem. Reconhecendo que leitura é a atividade primordial no envolvimento do estudante com as diversas áreas do conhecimento, a empresa tem como premissa filosófica que “incentivar o hábito da leitura ajuda os alunos a terem sucesso acadêmico e a se tornarem cidadãos mais críticos e ativos na sociedade.”

A missão (ambiciosa) da “Árvore” é transformar a educação no Brasil por meio da formação de novos leitores.

Inspirada no lema “plantar leitura muda histórias!”, a plataforma mantém atualmente parceria com mais de 600 editoras, o que permite a disponibilização on-line de mais de 30 mil títulos divididos entre livros, jornais e revistas de todo o mundo. Mas o papel de biblioteca digital é pequeno para os objetivos da Árvore de Livros, que aposta numa equipe pedagógica de apoio a educadores, em relatórios individualizados de acompanhamento de leituras e em outros projetos similares ao vitorioso “Li, Gravei”.

Fonte: Mega Curioso

A importância da leitura na era digital

Texto por Patrícia Passos (*)

A leitura faz parte das nossas vidas desde os primórdios, no entanto, ler não quer dizer somente decodificar símbolos ou sinais, mas interpretar e compreender o que se lê. Todavia, é evidente a dificuldade na interpretação de textos, não apenas no cotidiano escolar como no dia a dia de grande parte da população.

Com o passar dos anos, a definição de leitura vem se evoluindo de modo que surgem novas maneiras de pensar, agir e se comunicar. Nunca ocorreram tantas mudanças no cotidiano influenciadas por modernas tecnologias como tem ocorrido em todo o mundo. A cada dia que passa as pessoas são desafiadas nas mais variadas situações em que é necessário dispor da habilidade de leitor, não só de textos escritos, mas, principalmente, compreender o mundo que o rodeia, ou seja, ler a própria vida e nela ser a peça principal dessa engrenagem. A leitura de caixas eletrônicos, os aplicativos de relacionamentos e as redes sociais são excelentes exemplos dessa moderna linguagem usada atualmente, a denominada leitura digital.

Muitos têm trocado livros e jornais por áudios, vídeos, música, aplicativos e outros meios de entretenimento que a tecnologia oferta a todos. Além disso, a Era Digital trouxe um novo perfil de leitor, sem muita paciência, característica típica dos jovens, bem como mais ágil e que gosta da leitura cheia de idas e vindas, mais lúdica e dinâmica.

Sabe-se que as instituições de ensino ofertam computadores e laboratórios de informática para que seus alunos tenham acesso às novas ferramentas de leitura e escrita. No entanto, isso não é o bastante, faz-se necessário, primeiramente, que o docente planeje outras estratégias para ministrar aulas, fazendo uso das novas tecnologias.

Além de novos meios de acesso à informação e comunicação, a internet tem ofertado novas maneiras de administrar as interações no mundo virtual de conhecimentos. Por isso, preocupados com a relevância da leitura na formação do homem, muitos professores têm modificado suas metodologias, uma vez que, para permanecer em um mundo globalizado e em constante evolução, é preciso que o aluno está preparado para participar veemente como agente transformador e não um simples espectador da sociedade.

A relação entre a tecnologia e o indivíduo é o fator que tem transformado os próprios indivíduos, incentivando-os a terem novas reações e comportamentos diante de situações já vivenciadas. Assim, fica claro que a leitura não foge à regra, pois ler é um hábito que se aflora depois de a pessoa experimentar o prazer da compreensão e interpretação da leitura.

Cabe evidenciar que a leitura não pode ser vista apenas como informação, mas sim como um processo libertador para o leitor, ou seja, o leitor precisa ir além da interpretação e compreensão de um texto, ele deve ser capaz de transformar a realidade que vive. O ensino precisa ser sempre embasado na produção e na crítica da realidade, de modo que a leitura se mostra como um dos meios para se educar cidadãos críticos, autônomos e transformadores da realidade.

Nesse contexto, fica evidente que a leitura é uma ferramenta apta para auxiliar de maneira satisfatória para que se atinja a capacidade cognitiva, no intuito de acompanhar a evolução do mundo e da tecnologia. Dessa maneira, fica evidente a importância da leitura, destacando a necessidade em se incentivar a sua constante prática.

(*) Patrícia Passos Ferreira, Educadora, Funcionária Pública. Rondonópolis-MT

Fonte: A Tribuna MT

Tecnologia ajuda a estimular a leitura e a desenvolver o pensamento crítico

Fonte: G1

Leitura: em papel e digital

Cada vez mais a leitura parece estar migrando do papel impresso para os vários meios digitais; evidentemente aqueles de mais idade relutam em abandonar livros e artigos físicos pelos virtuais, porém jovens estão mais e mais aderentes a esses ambientes.

Uma questão que tem mobilizado a área educacional é a possibilidade de alterações cognitivas em função desta migração, pois nem sempre ocorrem interações significativas em torno das temáticas tratadas, e nem sempre o acesso aos hipertextos e recursos multimeios dá conta da complexidade dos processos educacionais.

Simplesmente colocar o estudante diante de informações, situações-problema e alguns objetos de conhecimento muitas vezes não é suficiente para garantir envolvimento e real motivação para aprendizagem, pois para atingir este objetivo é indispensável criar procedimentos pessoais que permitam organizar o próprio tempo, horário ou local para estudar e concentrar-se.

No entanto, é preciso reconhecer que leituras de textos não lineares, denominados hipertextos, em telas de computador, tablets ou celulares estão fundamentadas em indexações, conexões entre ideias e conceitos articulados por meio de links – nós e ligações -, conectam informações representadas em diferentes linguagens e formas tais como vídeos, palavras chaves, imagens, gráficos elucidativos, sons, de forma que, clicando sobre uma palavra, imagem ou frase definida como um nó de um hipertexto, encontra-se uma nova situação, evento ou outros textos relacionados, o que pode facilitar, e muito, a aprendizagem do aluno. Economiza seu tempo, percorrendo um caminho lógico que conecta ideias, cada link funcionando como ponto de partida ou de chegada, originando outras redes e conexões. Um risco a considerar também é a possibilidade real de perda de foco no tema geral, na dispersão da atenção do estudante.

Sempre que informação é representada num hipertexto com o uso de distintas mídias e linguagens, consegue-se eliminar sequências estáticas e lineares de caminho único, onde início, meio e fim são previamente delimitados. A forma de adquirir conhecimento é pessoal e única; um hipertexto disponibiliza um leque de possibilidades que permitem interligar informações segundo diversos interesses e necessidades, com diversas formas de navegar, ou seja, em sequências e rotas próprias.

Ao leitor fica facilitado saltar entre informações, estabelecer associações de forma individual, e, portanto, assumir um papel mais ativo na aprendizagem do que na leitura de textos nos espaços lineares dos materiais impressos.

No entanto, é preciso atenção ao fato de que este fato não substitui toda a complexidade do processo educacional, a interação entre os próprios estudantes entre si, e entre eles e o professor ou tutor. Todo aquele que já tentou aprender absolutamente sozinho percebeu que, sem ser impossível, é bem mais complicado desenvolver leitura e escrita com o uso de hipertextos de forma solitária, pois escolher dentre um leque de ligações preestabelecidas ou percursos possíveis sem experiência prévia em determinados campos pode representar dificuldade a ser transposta sem auxílio.

Um bom professor ou tutor é capaz de criar um ambiente que favoreça a aprendizagem significativa, disponibilizando e ordenando dados, despertando a disposição para aprender, e principalmente favorecendo através de perguntas e debates a interiorização sobre o próprio caminho percorrido.

Autonomia é essencial, e pode ser aprendida junto com a capacidade de atuação em grupo e respeito às diversidades de tempo de aprendizagens.

Ferramentas são apenas ferramentas, promovem algumas vezes revolução metodológica, mas nem sempre reconfiguram o acesso ao conhecimento.

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.

Fonte: Bem Paraná

Leitura na era digital

O cérebro no mundo digitalEmbora saibamos o quanto é importante ler e levantemos estandartes fortes estimulando os pais a incentivarem a leitura e também os professores a usarem mais em sala de aula, na verdade, ela permanece uma espécie de incógnita na educação tanto domiciliar quanto escolar.

A leitura fica ali, escondida no cérebro, e é difícil de avaliar. A leitura em voz alta não é a mesma leitura que temos em silêncio. O nível de entendimento é diferente, porque cada tipo de leitura (e não há apenas essas duas, há muito mais!) precisa de um treinamento diferente.

Não é porque uma pessoa esteja alfabetizada, que ela saiba ler. Ler envolve muito mais do que codificar. Precisa de memória de trabalho, atenção, conhecimentos prévios, vocabulário e uma lista tão extensa de requisitos, que daria vários capítulos de escrita.

A leitura é algo abstrato e pessoal. Só conseguimos avaliar o que podemos observar e ela fica ali, escondidinha. Poucos são os professores e pais que conseguem desvendá-la com sinais que a criança dá, porque ainda não temos instrumentos próprios para estimular a leitura ou mesmo para avaliá-la. Isso, porque pouco se estuda sobre ela na área da educação.

No ano 2007, a pesquisadora Maryanne Wolf lançou seu livro sobre história e ciência por trás do cérebro que lê. Quando o fez, olhou ao seu redor e notou que algo faltou em sua edição. O mundo estava ficando cada vez mais digital, mas ela não tinha considerado o impacto do digital na leitura e uma nova jornada começou para ela.

Atualmente, Maryanne Wolf é uma das poucas especialistas no assunto de leitura que merecem a leitura. E não é porque o seja, que a leitura de seus livros é fácil! Ela entra fundo no assunto, inclusive do ponto de vista neurológico. Sua nova jornada para pesquisar sobre a leitura na era digital levou quase uma década e finalmente, em 2018, ela lançou seu livro sobre o assunto, que agora recebe traduções em vários idiomas, inclusive para o português.

O livro “O cérebro no mundo digital” (original “Reader, come home”: The Reading Brain in a Digital World) traz assuntos muitíssimo pertinentes como o que acontecerá com a geração nascida imersa em um mundo digital, o quanto a criança pode ser exposta aos aparelhos e o impacto do tempo que ela fica, o que muda na educação e muito mais. Destaque para o capítulo seis, que fala sobre o uso de aparelhos desde quando somos bebês até os cinco anos de idade e o que muda no cérebro por causa desta exposição ao eletrônico.

É uma obra de dois Cs: completa e complexa. Traz estudos que ela fez e considerações e exemplos pessoais bem interessantes e vale muito a leitura de quem se interessa pelo assunto.

Só para entender melhor, cada leitor é próprio e único. Quando uma pessoa lê, ela desenvolve circuitos novos de leitura em seu cérebro, que mexem com elementos como a multitarefa, a rapidez na leitura e o lidar com as distrações. Os aparelhos interferem no modo como a leitura era processada até antes de seus estímulos e, em um adulto, o efeito é diferente das crianças.

No período de infância, até os cinco ou seis anos, a criança sempre viveu em dois mundos: um real e um imaginário. Atualmente, ela lida com um terceiro mundo, que é o digital.

Segundo estudos, o uso de aparelhos em excesso pode interferir em um ou dois mundos da criança. O mais preocupante, do ponto de vista leitor, é que o uso exagerado de telas tenha o poder de inibir o desejo natural das crianças de explorar o mundo ao seu redor.

O mais preocupante em tudo isso, é que cria nelas um tipo diferente de aborrecimento que elas não tinham antes da era digital. Este novo aborrecimento, ainda em fase de pesquisas, por ser tão recente, inibe algo importante e que faz parte de nossa humanidade: a criatividade.

Criança que não brinca explorando mundos imaginários tem sua capacidade de criar comprometida. Nos aparelhos tudo já está pronto. Dá ideias às crianças sim, mas de modo superficial e o digital não é real: nem sempre aplicável à realidade.

A capacidade de criar impacta em várias áreas, mas no caso da leitura, ajuda com a profundidade. Há níveis dentro da leitura que são adquiridos ao longo da vida. Parte deles se dá devido ao poder que temos no cérebro de imaginar. O imaginar permite ir além do que se lê e criar estratégias leitoras como a inferência, por exemplo.

Segundo Maryanne Wolf, ainda há a necessidade de usar os livros impressos com os pequenos, porque eles causam experiências táteis importantes e que irão contribuir para eles como futuros leitores. Não é questão de tirar o aparelho dos pequenos, mas sim de saber dosar. Durante várias vezes no livro ela afirma que não é contra o uso das telas, mas é preciso saber as consequências e ter consciência do quanto pode prejudicar ou ajudar.

No Brasil temos dificuldades imensas já com a leitura impressa. Devemos nos voltar mais para a questão leitora, agregando também conhecimentos sobre a leitura na era digital, mas com moderação! A leitura digital engloba habilidades diferentes da analógica e, portanto, irá precisar de novas estratégias de intervenção das escolas. Esta é uma questão nossa, porque cada idioma tem suas necessidades e particularidades, inclusive, no quesito leitura.

Questões sobre como a leitura digital influencia na leitura analógica ou até na forma biológica de processar a leitura, sobre como estimular e avaliar a leitura nas escolas, sobre como balancear leituras de modo saudável para o cérebro leitor são importantes para desenvolver bons trabalhos em sala de aula. Também para um começo de questionamento das famílias sobre o quanto a criança fica exposta ao digital.

A leitura é uma espécie de ferramenta que desenvolvemos ao longo dos séculos entre os humanos. Embora pouco explorada, pode ter sua capacidade muito ampliada, inclusive, com o estímulo digital. O livro de Maryanne Wolf nos norteia para o assunto e traz, com certeza, questões que antes não eram consideradas.

Nos resta, agora, começar a virar o olhar mais para a leitura de nossas pequenas futuras grandes pessoas, em processo de aprendizagem em aula, e além de incentivar, pensar também na qualidade de estímulos que estão recebendo e o quanto estamos contribuindo para sua formação real.

Decodificar não é ler, passar os olhos não é entender. Antes pensávamos em letramento, que é a capacidade de ler interpretando socialmente os textos e imagens. Hoje, talvez, tenhamos um neologismo para esta capacidade, que é o biletramento, ou seja, a capacidade de ler analógica e digitalmente textos e imagens.


O artigo foi baseado no livro “O cérebro no mundo digital” da pesquisadora Maryanne Wolf, Editora Contexto
Por Janaína Spolidorio, pedagoga | Blog Conta uma história

Fonte: Blog da Editora Contexto

Maryanne Wolf: os desafios da leitura na era digital

Neurocientista lançou livro ‘O cérebro no mundo digital: os desafios da leitura na nossa era’

Texto por Romar Beling

Foto: Divulgação

Que a internet e as ferramentas do universo digital mudaram o mundo – e, aliás, seguem mudando um tanto mais a cada dia – até um ponto absolutamente insuspeitado há poucos anos, ninguém mais desconhece. No entanto, até onde seguirá essa mudança, e até que ponto será mais positiva ou mais negativa, ainda é uma incógnita. O certo é que a rotina mudou e mudará, e tende a nunca mais ser como antes.

Se o processo de aquisição de conhecimento, as responsabilidades coletivas e a ética indispensável à própria subsistência da condição humana seguirão preservados, eis um debate que começa a se estabelecer entre especialistas. É o que revela um livro fundamental no processo de análise e de interpretação do estado das coisas atual, o volume O cérebro no mundo digital: os desafios da leitura na nossa era, da neurocientista cognitiva americana Maryanne Wolf, lançado no Brasil pela editora Contexto.

Como argumenta a autora, as novas gerações, as que surgem neste princípio de milênio e se alfabetizam e educam basicamente em ambiente digital, revelam cada vez menos capacidade, propensão e paciência para qualquer coisa que implique em profundidade intelectual e concentração. São públicos que vivem na superfície de um conteúdo imediatista e sempre prontamente substituído nas mídias sociais, fascinadas com telas de computadores, tablets, notebooks ou smartphones. A última coisa que de fato fazem é ler.

Essas plataformas ou esses dispositivos tornaram-se vias por excelência através das quais interagem com seus grupos, e com o mundo (próximo ou distante). Mais do que vias, quase se tornaram a razão de ser ou o mundo em si, retratos dos objetivos, das metas ou do alcance de raciocínio ou do horizonte de expectativa.

Até que ponto o cérebro treinado para o consumo de informação no ambiente online poderá, em algum momento, ainda estar preparado para assimilar conteúdos mais densos, mais aprofundados, e não estar por completo limitado a uma percepção imediatista ou fluida, eis campo fértil para as avaliações e os testes feitos por neurocientistas. Maryanne salienta que já está claro, junto aos especialistas, que o comportamento da cognição e o próprio cérebro se formam e respondem de maneira diferente a um texto em suporte digital e ao texto impresso.

Este, pela peculiaridade do manuseio do objetivo físico, está mais próximo do que é o mundo real em si, palpável, natural, mensurável. Ninguém vive no ar ou numa suposição, num ambiente fluido. Precisa de alimento real, sono real, interação real, e as gerações digitais demonstram cada vez menos capacidade para interagirem com naturalidade em sociedade, e apresentam uma propensão crescente a fobias, a afastamento do ambiente social, a isolamento e inatividade.

Paradoxo

Como só o tempo poderá deixar claro, com mais amplitude, quais serão os reais efeitos, positivos ou negativos (ou ambas as coisas) dos tempos digitais, visto que a própria internet ainda é uma adolescente, os temas levantados pelo livro tendem a ser, ao que tudo indica, assunto para todo o século 21.

O que é certo, porém, é que no que diz respeito a leitura nas entrelinhas, muita coisa escapa por entre os dedos quando alguém já não tem ânimo nem paciência, nem persistência, para a leitura propriamente dita – a leitura que, aliás, está na base do próprio conhecimento que forjou o digital. Até porque cada vez que alguém decide sair em defesa do digital, para que seu argumento seja considerado, sempre o faz em um… livro… impresso. Só com o digital, ele ainda nem se sustenta.

Ficha

O cérebro no mundo digital: os desafios da leitura na nossa era, de Maryanne Wolf. Trad. de Mayumi Ilari e Rodolfo Ilari. São Paulo: Contexto, 2019. 256 p. R$ 59,90.

A origem não natural e, sim, cultural do letramento – primeiro aspecto enganosamente simples a considerar sobre a leitura – significa que os jovens leitores não têm um programa de base genética para desenvolver esses circuitos. Os circuitos do cérebro leitor são formados e desenvolvidos por fatores tanto naturais como ambientais, incluindo a mídia em que a capacidade de ler é adquirida e desenvolvida. Cada mídia de leitura favorece certos processos cognitivos em detrimento de outros. Traduzindo: o jovem leitor tanto pode desenvolver todos os múltiplos processos de leitura profunda que estão atualmente corporificados no cérebro experiente, completamente elaborado; ou o cérebro leitor iniciante pode sofrer um “curto-circuito” em seu desenvolvimento; ou pode adquirir redes completamente novas em circuitos diferentes. Haverá profundas diferenças em como lemos e em como pensamos, dependendo dos processos que dominam a formação do circuito jovem de leitura das crianças.

Fonte: GAZ

LEITURA X CELULAR: COISAS ANTAGÔNICAS?

Texto por Oswaldo Francisco de Almeida Júnior

Vejo com frequência textos e postagens que contrapõem a leitura de livros e o uso de equipamentos eletrônicos, em especial celulares. A principal, ou uma das principais críticas é a alienação imposta por esses equipamentos aos que deles fazem uso.

Alienação e concentração podem ser confundidas. Podemos entender como alienação algo que é, na verdade, concentração. O oposto também é verdadeiro.

O que vale para os equipamentos eletrônicos, também vale para o livro. Posso entender alguém lendo um livro como extremamente concentrado ou como alguém que se alienou do mundo, fugindo, pela leitura, de uma vida indesejada, sofrida, triste.

Por que o uso de um celular é sempre apresentado como ruim? Todo excesso é prejudicial – embora seja difícil determinar quando algo pode ser entendido como excessivo. A leitura de livros em excesso também não deve ser considerada prejudicial?

A pergunta que faço aqui é: por que escolher uma das duas coisas? Por que escolher entre leitura de livros e uso de celular?

Defendo que deva existir um convívio entre o livro e os equipamentos eletrônicos. Um não pode ser entendido como melhor ou pior que o outro.

Há muita coisa ruim nos celulares? Também há muito conteúdo ruim nos livros.

Gutenberg inventou – não é bem verdade essa invenção, pois os chineses já conheciam esse processo – a imprensa com uma finalidade econômica. Ele precisava sobreviver, mas, independentemente desse seu interesse, o livro democratizou, em parte, o acesso ao conhecimento. Digo em parte, uma vez que ainda hoje o número de analfabetos ou analfabetos funcionais é muito grande, sem possibilidade de apropriação do conhecimento pela leitura. São os não usuários. Há pesquisas que apresentam um quadro aterrador: 75% da população brasileira pode ser identificada como analfabeta funcional, ou seja, aqueles que sabem ler, mas não conseguem compreender, em um pequeno texto, algo solicitado. Por exemplo, alguns analfabetos funcionais não conseguem informar, em um classificado, o local em que devem se apresentar para concorrer a uma vaga de emprego.

A leitura precisa ser repensada. Com o uso de equipamentos eletrônicos temos uma nova forma de leitura?

A quantidade dos que fazem uso das redes, como o Face, o Twitter e o WhatsApp, é muito grande e eles exigem e determinam um tipo de leitura mais rápida, não necessariamente sequencial, muito vinculada aos acontecimentos do dia a dia, voltada para slogans etc.

Historicamente, a leitura esteve condicionada ao formato do suporte da escrita. Todas as vezes em que esse suporte se alterou, também se modificou a forma de leitura. A leitura, independente do suporte, também se modificou. Um exemplo é a leitura silenciosa, se opondo à leitura em voz alta.

Por que não pode ela se modificar mais uma vez? Um novo modo de ler não significa excluir formas tradicionais de leitura. Também não significa eliminar tipos de suportes, como o livro, por exemplo.

Um novo tipo de leitura deve ser abrangente, abarcando formas mais tradicionais (para não dizer mais antigas) e outras mais recentes.

Nós, os que amamos e defendemos os livros em seu formato mais tradicional (esse formato tem sua origem em Gutemberg, portanto nem tão antigo assim, uma vez que pouco mais de 500 anos representa quase nada em uma história que remonta a 3000 anos antes de Cristo), não somos saudosistas a ponto de desconsiderar essas novas formas de leitura. Não somos como os ludistas nem como os quebra-quilos ou mesmo como os que se opunham à vacina na época de Oswaldo Cruz (cá entre nós: 115 anos depois, parece que a revolta contra a vacina está de volta).

Os e-books, presentes e acessíveis em computadores, tablets, celulares e aparelhos específicos para leitura, são “menores”?

Os equipamentos informacionais terão que se adaptar e lidar com essas leituras, tanto tradicionais como recentes. Qual biblioteca, por exemplo, pode não oferecer serviços com base ou dirigido para celulares? Eles serão diferentes, mas terão uma base comum, terão uma concepção comum.

Nosso desafio é o de criar esses serviços, mas, especialmente, é o de não criarmos oposição entre todas as formas de leituras existentes hoje – e outras que irão surgir no bojo das constantes e rápidas transformações da tecnologia.

Fonte: InfoHome

Hábitos digitais estão ‘atrofiando’ nossa habilidade de leitura e compreensão?

Neurocientista explica que, como leitores cada vez mais digitais e desatentos, podemos comprometer nossa capacidade de entender textos complexos, de desenvolver empatia e de pensar criticamente.

Texto por BBC

-HN- Criança mexe em um smartphone enquanto ouve música com fones de ouvido; celular — Foto: Anne-Sophie Bost/AltoPress/PhotoAlto

A neurocientista cognitiva americana Maryanne Wolf costuma ser abordada, em suas palestras e aulas, por pessoas que se queixam de não conseguir mais se concentrar em textos longos ou “mergulhar” na leitura tão profundamente quanto conseguiam antes.

“As pessoas estão percebendo que algo está mudando em si mesmas, que é seu poder de leitura. E há um motivo para isso”, diz Wolf.

A razão, segundo a pesquisadora da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), é que o excesso de tempo em telas – celulares e tablets, desde a infância até a vida adulta – e os hábitos digitais associados a isso estão mudando radicalmente a forma como muitos de nós processamos a informação que lemos.

Segundo um livro de Wolf prestes a ser lançado no Brasil (O Cérebro no Mundo Digital – Os desafios da leitura na nossa era; ed. Contexto) e algumas pesquisas sobre o tema, o fato de lermos cada vez mais em telas, em vez de papel, e a prática cada vez mais comum de apenas “passar os olhos” superficialmente em múltiplos textos e postagens online podem estar dilapidando nossa capacidade de entender argumentos complexos, de fazer uma análise crítica do que lemos e até mesmo de criar empatia por pontos de vista diferentes do nosso.

Tudo isso tem o poder de impactar desde a nossa performance individual no mercado de trabalho até nossa tomada de decisões políticas e a vida em sociedade.

Mas o que acontece com a leitura no nosso cérebro, e o que podemos fazer a respeito?

O circuito da leitura

Wolf, que é diretora do Centro de Dislexia, Aprendizagem Diversa e Justiça Social da UCLA, explica à BBC News Brasil que, ao contrário da visão e da linguagem oral, a habilidade de ler e interpretar letras e números não é algo com que nascemos: a leitura é resultado de um circuito que os seres humanos começaram a criar no cérebro cerca de 6 mil anos atrás.

Esse circuito cerebral começou a se desenvolver quando nossos antepassados passaram a contar cabeças de gado e a criar símbolos para fazer seus primeiros registros escritos. E evoluiu, em (relativamente) pouco tempo, até a elaborada capacidade que temos hoje, de processar argumentos, sutilezas e emoções impressos nas páginas de livros e jornais.

“Não existe, portanto, um circuito genético para ler, que se desenvolva logo que uma criança nasce”, explica Wolf à BBC News Brasil.

“(A habilidade de) ler é algo que precisa ser criada no cérebro, e o circuito vai refletir a linguagem que a pessoa usa, seu sistema de escrita, e o meio pelo qual lê.”

Ou seja, esse circuito é moldado pela forma como lemos e pelo tempo que gastamos na leitura. Como os hábitos digitais atualmente favorecem uma leitura pouco aprofundada, em que apenas passamos os olhos por textos diversos, o perigo, diz Wolf, é que a habilidade de entender argumentos complexos – sejam eles presentes em um contrato legal, em um livro, em uma reportagem mais longa – pode ser “atrofiada” caso não seja exercitada.

Em um cenário de leitura apenas superficial, “o circuito da leitura no cérebro não vai alocar tempo suficiente para um processamento cognitivo” necessário para um processamento crítico, diz a acadêmica.

“Ao apenas ‘passar os olhos’ em um texto, a pessoa passa por cima da argumentação, dos pontos mais sofisticados do texto, e receberá menos da substância de pensamento que é importante para a análise crítica.”

Tempo de tela

A preocupação principal de Wolf e de acadêmicos como ela é o que acontecerá com as gerações mais jovens, habituadas desde os primeiros anos de vida a passar horas nos celulares e tablets e a consumir ali toda a sua informação, com rapidez e diversas distrações.

Embora muito se fale dos riscos que o excesso de tempo passivo diante de telas pode causar para a saúde infantil – dos problemas de visão à obesidade -, só agora a ciência começa a explorar o potencial impacto dos hábitos digitais sobre o poder de leitura e a concentração dessas crianças no futuro.

Uma meta-análise feita por estudiosos da Espanha e de Israel analisou dados de 171 mil pessoas na Europa, coletados entre 2000 e 2017, para comparar a compreensão de leitura dos participantes nos meios digital e papel.

O estudo diz que ainda é difícil chegar a conclusões absolutas, porque o desempenho das pessoas é “inconsistente”, mas identificou o que chama de “inferioridade da tela”: a leitura digital parece não favorecer as habilidades de compreensão dos leitores, e o processamento das informações é mais “raso” nesses meios online.

O que acontecerá no futuro ainda é difícil prever. O estudo levanta a possibilidade de as vantagens da leitura no meio impresso se perderem ao longo do tempo.

Já Maryanne Wolf teme que, em vez disso, as pessoas percam aos poucos as capacidades de leitura que levamos milênios para desenvolver no nível atual.

“É isso o que me preocupa nos mais jovens: eles estão desenvolvendo uma impaciência cognitiva que não favorece (a leitura crítica)”, diz a acadêmica. “Deixamos de estar profundamente engajados no que estamos lendo, o que torna mais improvável que sejamos transportados para um entendimento real dos sentimentos e pensamentos de outra pessoa.”

É nesse aspecto que Wolf acredita que a “leitura rápida” pode reduzir a nossa capacidade de sentir empatia pelos demais ou de superar mais limites de conhecimento. E também dificultar o nosso entendimento sobre o que está acontecendo na política, na economia ou em qualquer outro fenômeno social complexo, que exija uma leitura cuidadosa e que tenha causas – e soluções – não simplistas.

“As pessoas ficam muito mais suscetíveis a fake news e demagogos que criam falsas expectativas”, opina ela.

Outra possível consequência é que diminua nossa capacidade de pensar mais criticamente e de levar em conta diferentes pontos de vista, habilidades consideradas cada vez mais importantes no mercado de trabalho à medida que empregos que exigem menos capacitação vão sendo automatizados.

O psicólogo Daniel Goleman, que também estuda esse assunto, alerta para o que chama de “atenção parcialmente contínua” – citando, por exemplo, participantes de seminários que, de olho em seus celulares e notebooks, não conseguem prestar atenção plena ao que diziam os palestrantes do evento.

O perigo, diz ele, é que percamos parte da nossa habilidade de chegar ao fim de leituras e de tarefas offline.

É preciso ser realista

No entanto, os pesquisadores concordam que não adianta querer evitar o inevitável: as pessoas leem cada vez mais online e de modo rápido, e isso certamente não mudará em um futuro próximo.

“Está claro que a leitura em meios digitais é uma parte inevitável das nossas vidas e uma parte integral do campo da educação”, diz a meta-análise europeia.

“Ainda que os resultados atuais indiquem que a leitura em papel deva ser preferida à leitura online, não é realista recomendar que se evitem os dispositivos digitais. No entanto, ignorar os resultados de um robusto efeito de inferioridade da tela pode (…) impedir que leitores se beneficiem plenamente de suas capacidades de leitura e que crianças desenvolvam essas habilidades.”

Wolf lembra, ao mesmo tempo, que são inegáveis os benefícios da internet e da leitura online para democratizar e agilizar a transmissão de informação. Para ela, o primeiro passo é termos consciência do que está acontecendo com nossa capacidade de leitura.

“Quero reforçar que não vejo isso como uma questão binária, como uma oposição (entre telas e material impresso). Temos apenas de saber qual o propósito do que estamos lendo e qual é a melhor forma de fazê-lo. Não se trata de escolher um meio em detrimento do outro, mas sim entender o que está acontecendo com nosso cérebro e entender o propósito do que se está lendo”, diz a pesquisadora.

“Se eu precisar ler algo simples e superficial, a tela é ótima. Mas se for algo complexo, que necessite de um olhar sob diferentes perspectivas, em que precise discernir o verdadeiro valor da informação, então tenho de pensar se o meio vai promover o processamento mais lento e profundo de uma análise crítica.”

Como incentivar a leitura crítica

Não há, diz ela, uma receita universal para preservar nossa habilidade de leitura crítica, mas sim a necessidade de prestar atenção a nossos próprios hábitos e aos das crianças.

Para algumas pessoas, bastará concentrar-se em uma leitura sem distrações – mesmo que seja online – e manter o olhar atento para múltiplas perspectivas e pontos de vista. Outros talvez precisem ter a autodisciplina de limitar seu tempo diário diante das telas, para ter o que ela chama de “vida digital mais saudável”, além de retomar o hábito de ler livros impressos.

E, para crianças e adolescentes, eis algumas recomendações do livro de Wolf:

  • Ensinar a evitar o “multitasking”. A realização de múltiplas tarefas simultaneamente online dá aos jovens a capacidade de lidar com múltiplos fluxos de atenção, mas cria dependência de dopamina (que recompensa o cérebro por buscar constantes estímulos) e desestimula a memória;

  • Proteger o tempo ocioso das crianças, ou seja, não deixar que todo momento de ócio vire desculpa para usar telas. É no ócio que nasce a criatividade;

  • Ler livros para as crianças, antes mesmo de elas começarem a falar. Isso estimula conexões neurais, a atenção recíproca entre pais e filhos, a experiência tátil dos livros e é, diz ela, o “começo ideal para uma vida de leitor”. Wolf faz coro com especialistas que sugerem que crianças com menos de 2 anos não devem ser expostas a telas;

  • Entre dois e três anos, limitar a no máximo meia hora o tempo diário de tela. Para os maiores, limitar a duas horas diárias. Wolf acha que não adianta proibir totalmente as telas, porque isso só causará mais obsessão por elas. O jeito é buscar equilíbrio;

  • Sobretudo entre 2 e 5 anos de idade, cercar as crianças de lápis coloridos, livros, números e música, que estimulem a criatividade e a exploração física do meio. O aprendizado de música e de esportes também ajuda a ensinar disciplina e recompensas de longo prazo;

  • Por fim, ela lembra que muitas crianças conseguem manter a conexão com os livros mesmo acessando tablets e celulares com moderação. “O importante é estimular a formação de uma mente curiosa”, escreve ela. “A formação cuidadosa do raciocínio crítico é a melhor maneira de vacinar a próxima geração contra a informação manipuladora e superficial, seja em texto (de papel) ou em telas.”

Fonte: G1