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Bibliotecas de Obras Raras

“Revista BBM” faz o elogio dos preservadores de tesouros públicos

Publicação mostra a importância de colecionadores e restauradores de livros antigos para a cultura do Brasil

Por Roberto C. G. Castro

O amor aos livros é a primeira etapa do processo de produção da memória, destaca o Editorial da nova edição da Revista BBM – Foto: Cecília Bastos/USP Imagem

As pessoas que se dedicam a colecionar, preservar e restaurar livros antigos exercem uma função social da mais alta relevância. Com seu trabalho, elas evitam a perda, recuperam e colocam à disposição da sociedade valiosos patrimônios culturais, que dizem respeito à memória, à identidade e às aspirações de povos inteiros. É o caso dos bibliófilos brasileiros Rubens Borba de Moraes e José Mindlin, que transformaram as suas coleções particulares em verdadeiros tesouros públicos.

Esse elogio aos preservadores de livros antigos é o que se depreende da leitura da recém-lançada edição número 2 da Revista BBM, editada pela BBM Publicações, o braço editorial da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP. Com 312 páginas, a revista traz um dossiê sobre bibliofilia, ensaios sobre conservação no Brasil e artigos que abordam obras raras da BBM, além de resenhas de livros. Ela tem como editor o professor Plinio Martins Filho, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. “Intrínseco à jornada do colecionador, o afeto pode ser entendido como a primeira etapa do processo de produção da memória”, destaca o Editorial da nova edição da Revista BBM, citando as razões mais remotas da formação de acervos bibliográficos – o entusiasmo e o respeito ao livro.

A edição número 2 da Revista BBM, que acaba de ser lançada pelas Publicações BBM – Foto: Reprodução

Amor aos livros é o que mais transparece nos seis textos da seção da Revista BBM intitulada Rumos Atuais e Futuro da Conservação no Brasil. Os artigos reproduzem palestras proferidas durante seminário de mesmo nome realizado em 2017, na BBM, em homenagem a Guita Mindin, a esposa de José Mindlin, que era restauradora profissional e morreu em junho de 2006.

Num desses textos, o professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB) Antonio Agenor Briquet de Lemos, ex-diretor do Centro de Documentação do Ministério da Saúde e da Editora da UnB, dá uma boa ideia do que representa o descaso com os livros. Através de pesquisas em jornais, ele constatou que, entre 1880 e 2017, houve notícia no Brasil de 77 incêndios e 21 alagamentos em bibliotecas, em que os acervos foram total ou parcialmente destruídos. No dia 14 de setembro de 1958, por exemplo, a biblioteca do Convento do Carmo, no Largo da Lapa, no Rio de Janeiro, foi tomada pelo fogo. Ela reunia cerca de 15 mil volumes, incluindo pergaminhos e originais raros sobre teologia, história da Igreja e coleções sobre as Cruzadas, todos perdidos. Décadas antes, em 1911, um incêndio destruiu o prédio da Imprensa Nacional, também no Rio de Janeiro, fazendo desaparecer documentos referentes à produção bibliográfica da Impressão Régia. Em agosto de 1945, os 45 mil volumes da Biblioteca Pública do Amazonas, com rica documentação sobre a região amazônica, também foram transformados em cinzas em razão de um incêndio. O mesmo aconteceu em 1968 com cerca de 35 mil obras da biblioteca do Colégio do Caraça, no município de Catas Altas (MG), entre elas edições dos séculos 16, 17 e 18. “Talvez não seja exagero supor que mais de 1 milhão de livros foram destruídos nos diversos desastres e sinistros que ocorreram e ocorrem em nossas bibliotecas”, escreve Lemos.

Mais do que elencar as perdas de patrimônios inestimáveis, no seu artigo Lemos faz propostas para a preservação de bibliotecas e arquivos. “Os casos de sinistros e desastres aqui arrolados devem ser analisados da perspectiva contemporânea, para que deles possam ser obtidas informações que contribuam para que se evite sua repetição”, destaca. “Os manuais, normas e planos de salvaguarda do patrimônio serão inúteis se não forem acompanhados da alocação de recursos financeiros suficientes e compatíveis com a escala e a complexidade da preservação de bens dos quais, em muitos casos, somente temos um parco conhecimento. E, desnecessário dizer, de recursos humanos qualificados.”

Os bibliófilos

Amor e profundo respeito aos livros são sentimentos que transbordam nos bibliófilos, como mostra o dossiê publicado na nova edição da Revista BBM, intitulado “Bibliofilia – Circuitos e Memórias”. Ele também reproduz palestras proferidas num evento de mesmo nome realizado na BBM em novembro de 2018.

Com cinco artigos, o dossiê pode ser visto como uma declaração de gratidão e admiração por aqueles que se entregam a juntar livros antigos. Nele, destaca-se a figura de José Mindlin (1914-2010), a quem a escritora e tradutora Elisa Nazarian dedica o artigo O Amável Senhor dos Livros, incluído no dossiê. Ao longo de mais de 80 anos, Mindlin formou sua coleção de livros – cerca de 60 mil volumes -, que doou à USP em 2005 e hoje forma o acervo da BBM, inaugurada em 2013.

O bibliófilo José Mindlin (1914-2010), que formou a coleção hoje conservada pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP – Foto: Cecilia Bastos / USP Imagens

Elisa traça um perfil de Mindlin marcado pela generosidade, pelo afeto e pelo respeito a livros, à arte e a pessoas. “Fui com ele a algumas bienais de artes plásticas e a peças de teatro. Era sempre com paixão que ele se propunha a ir a esses lugares”, escreve Elisa, que trabalhou durante oito anos como funcionária da biblioteca de Mindlin, ainda quando a coleção estava instalada na sua residência, no bairro do Brooklin, na zona sul de São Paulo. “Quando passei a conviver com os Mindlin, ele já tinha 85 anos, mas mantinha a capacidade de se deslumbrar e de se encantar também com pequenas coisas, como quando nos chamava para ver uma orquídea que tinha acabado de desabrochar em seu jardim, ou quando chegava à biblioteca trazendo barras de chocolate para ‘suas meninas’.”

“Mindlin vinha à biblioteca quase diariamente. Tinha grande prazer em receber os pesquisadores e em sugerir obras para consulta. Seu imenso amor por livros incluía a possibilidade de compartilhá-los”, continua Elisa. Ela cita os critérios do bibliófilo ao adquirir acervos que se somariam à sua coleção: “Não comprava nada em língua estrangeira, livros técnicos nem volumes muito danificados. Quando lhe pediam estimativa sobre o valor de um livro, costumava dizer que um livro vale, acima de tudo, o quanto quiserem pagar por ele, não importando que seja o único exemplar publicado, a data de publicação, etc.”.

Outros artigos do dossiê relatam o empenho dos bibliófilos – nem sempre bem-sucedido – na busca por um livro, como é o caso de Descaminhos do Colecionismo, assinado pelo jornalista Ubiratan Machado. No artigo, Machado lembra alguns episódios da sua trajetória como colecionador de obras raras. Ele cita o “fenômeno curioso” causado pelo fato de, em certas ocasiões, as livrarias estarem sob a direção de pessoas que não sabiam avaliar o real valor de um livro. “Ou cobravam um preço excessivo por livros que julgavam raros e que nada valiam ou vendiam obras realmente raras por preço irrisório.” Numa dessas livrarias, contou, ele viu, no fundo da loja, numa prateleira junto ao chão, na seção de “Pássaros”, a coleção completa, com 52 números, do raríssimo jornal O Beija-Flor, editado por Joaquim Norberto entre 1849 e 1852. “Quase dei um pulo de alegria, e aquele beija-flor, vendido a preço de canário da terra, foi piar na minha biblioteca.”

Em outras ocasiões – continua Ubiratan Machado -, o bibliófilo parece receber um presente dos céus. Como ele exemplifica: “A Livraria Brasileira havia comprado uma grande biblioteca. Muitos livros estavam em condição lastimável, mas havia preciosidades bem conservadas. Comprei uns cinco ou seis volumes”. Ao abrir os livros, em casa, ele teve uma agradável surpresa: dentro de um deles, havia um original de Di Cavalcanti, um desenho a nanquim no verso do convite de sua última exposição em Paris. “Raras vezes paguei preço extorsivo por um livro. Raras, pois fui vencido algumas vezes. Mas nunca me arrependi de comprar. Arrependimento só de não comprar”, confessa Machado. “Como a primeira edição de Galinha Cega, de João Alphonsus, que encontrei numa feira do livro e esnobei. Quando me afastei, vi a imbecilidade que estava cometendo. Voltei à barraca, mas o livro já tinha sido vendido. Muitos anos depois, tentei cercar essa galinha, num leilão, mas ela fugiu para outras mãos.”

Santa Wilborada, a “padroeira” dos bibliófilos, segundo o jornalista e bibliófilo Ubiratan Machado – Foto: Reprodução/Revista BBM

Por ser uma atividade nobre, a bibliofilia tem uma padroeira, considera Machado. É Santa Wilborada, freira beneditina que viveu no século 10 na Suábia, onde hoje é a Suíça. Machado dá as razões desse título. “No ano de 925, a Abadia de Saint Gall estava cercada por invasores bárbaros que, como era seu costume, ameaçavam queimar tudo. Seria o fim da riquíssima biblioteca, formada por milhares de volumes. Contam as crônicas da época que Wilborada, uma espécie de bibliotecária da casa, enterrou os livros após uma visão. Os bárbaros foram repelidos, mas o mosteiro ardeu como o pavio de uma vela. O corpo da monja, mutilado e desfigurado, foi abandonado em uma pequena elevação, onde mais tarde encontraram os livros intactos”, escreve. “Outra versão, menos romântica, diz que os livros foram transferidos para um mosteiro próximo e que Wilborada morreu com um machado cravado na cabeça, sendo por isso representada pela Igreja com um livro na mão direita e um machado na esquerda. Seja como for, pelo seu heroísmo ela ascendeu à santidade. Como padroeira dos bibliófilos, possivelmente protege-os dos amigos do alheio, do olho gordo dos colegas e, sobretudo, dos chatos que insistem em pedir livros emprestados.”

Tanto quanto os bibliófilos, Cristina Antunes  – curadora da biblioteca Mindlin durante 34 anos, primeiro na residência dos Mindlin, depois, a partir de 2013, na Cidade Universitária – foi “uma extraordinária leitora e guardiã dos livros”, como destaca o título do artigo escrito pela historiadora portuguesa Débora Dias e publicado na seção Memória da nova edição da Revista BBM. O texto foi composto com base em entrevistas e conversas informais entre a historiadora e Cristina, feitas em 2017. Nessas conversas, Cristina – que morreu em março de 2019, aos 68 anos – relembra a sua trajetória, desde os anos de formação, em Recife (PE), e a vinda para São Paulo até o trabalho com Mindlin. “Ser uma grande leitora foi também a porta de entrada para o que Cristina considerou a sua experiência profissional decisiva: os mais de 30 anos de trabalho na biblioteca de José Mindlin. Apesar de não ser bibliotecária de formação, ela tinha o requisito principal exigido, lia por prazer”, escreve Débora.

Cristina Antunes: curadora dos livros de Guita e José Mindlin durante 34 anos – Foto: Reprodução/Revista BBM

Descrevendo a rotina de trabalho na biblioteca de Mindlin, a historiadora cita que entre as tarefas de Cristina estava receber os pesquisadores que solicitavam acesso à coleção, visitas autorizadas somente depois que ela reunia informações sobre quem pedia para frequentar a casa. “O seu lazer não raro prolongava-se na biblioteca, quando participava dos convívios sociais em torno dos livros, por vezes aos fins de semana”, destaca Débora. “Entre os seus episódios favoritos, o encontro com o escritor português José Saramago, a surpresa de receber o peruano Mario Vargas Llosa ou a correspondência, que perdurou por anos, com o poeta mato-grossense João de Barros.”

Raros e Raríssimos

A nova edição da Revista BBM oferece exemplos práticos da importância, para a cultura, da preservação de livros antigos, que poderiam estar perdidos para sempre. Trata-se de dois artigos publicados na seção Raros e Raríssimos. Um deles se refere a uma raridade poética do século 17: o manuscrito de um poema atribuído a Bernardo Vieira Ravasco, irmão do padre Antônio Vieira, intitulado Saudades de Lídia e Armido, pertencente à BBM. Segundo o autor do artigo, o professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Marcelo Lachat, esse poema teve considerável recepção nas letras portuguesas e luso-brasileiras. Dada a dificuldade de localizar originais de Ravasco – poeta quase nunca citado nos compêndios de literatura -, o manuscrito depositado na BBM é “essencial para um melhor conhecimento e uma mais fundamentada discussão das letras (particularmente da poesia) na América Portuguesa dos anos seiscentos”, escreve Lachat. “Preserva-se nesse códice da Biblioteca Brasiliana, e comprova-se com ele, a auctoritas poética que Bernardo Vieira Ravasco tinha no século 17 e que se perdeu nos séculos seguintes entre papéis mal conservados ou mal compulsados. Historicamente apagado sob a sombra do seu ilustre irmão Antônio, reluz, enfim, o poeta Bernardo nessas manuscritas Saudades seiscentistas.”

O outro artigo da seção Raros e Raríssimos é de autoria do escritor e bibliófilo Ésio Macedo Ribeiro, que nele conta como conseguiu comprar, num leilão, um exemplar da primeira edição de A Cinza das Horas, de Manuel Bandeira. Como Ribeiro explica no início do artigo, a possibilidade de encontrar primeiras edições de escritores modernistas brasileiros é especialmente árdua, uma vez que essas edições foram bancadas pelos próprios autores e por isso tiveram tiragens reduzidas. A Cinza das Horas é um caso típico: foi lançado em 1917 às próprias custas de Bandeira, em papel de baixa qualidade e em tiragem pequena. Primeiro livro do poeta, que reúne poemas escritos na sua juventude, ainda influenciado pelo Simbolismo e pelo Parnasianismo, A Cinza das Horas “revela um Bandeira já dono de linguagem própria, expressando as agruras da condição humana, em versos que exprimem as dores do amor e da morte, do desamparo e da solidão”, explica Ribeiro. “Nunca vi esse livro em nenhuma das bibliotecas que frequentei, públicas ou privadas.”

A primeira edição de A Cinza das Horas, de Manuel Bandeira, lançada em 1917 – Foto: Reprodução/ Revista BBM

Exemplos da importância de preservar livros antigos encontram-se também em outra seção da Revista BBM, intitulada Estudos BBM. Ela contém três artigos de pesquisadores sobre obras do acervo da BBM. Um dos textos é de João Marcos Cardoso, curador da BBM. Ele discorre sobre um livro publicado em Rouen, na França, em 1551, rico em ilustrações, que relata a recepção pública, no ano anterior, naquela cidade da Normandia, dos soberanos franceses Henrique II e Catarina de Médici – cerimônia que teve a presença de 50 índios levados das terras brasileiras. A primeira edição no Brasil de Prosopopeia, de Bento Teixeira, lançada em 1873, e documentos religiosos do século 18 são temas dos outros dois artigos da seção.

Exemplar da primeira edição no Brasil de Prosopopeia, de Bento Teixeira, datada de 1873, pertencente ao acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP – Foto: Reprodução/Revista BBM

Rubens Borba de Moraes

A última seção da Revista BBM, a que se dá o nome de Publicações BBM, traz duas resenhas de livros lançados pela Editora Publicações BBM. Uma delas, assinada pelo artista gráfico Gustavo Piqueira, destaca o livro As Bibliotecas de Maria Bonomi, de 2017. A obra reproduz 23 xilogravuras que expressam a visão da artista sobre bibliotecas localizadas em várias partes do mundo, como a Ambrosiana, em Milão, na Itália, a Joanina, em Coimbra, Portugal, e a Biblioteca do Museu Britânico, em Londres, na Inglaterra. “Mais do que descrever visualmente edifício a edifício, Maria Bonomi pinça particularidades formais únicas de cada espaço e as utiliza como ponto de partida para a execução de suas xilogravuras”, analisa Piqueira.

O bibliófilo Rubens Borba de Moraes – Foto: Reprodução

Simplicidade Alegre de um Bibliófilo é o título da outra resenha publicada na Revista BBM. Ela é de autoria do editor Claudio Giordano e trata da edição de 2018 de O Bibliófilo Aprendiz, de Rubens Borba de Moraes (1899-1986), o bibliófilo que, após sua morte, deixou os mais de 2.300 raros volumes de sua coleção para os Mindlin. Na resenha, Giordano expõe aspectos da bibliofilia discutidos por Moraes na sua obra. Com isso, traça um perfil do bibliófilo, que se mostra semelhante àquele de José Mindlin. Além do amor aos livros, da gentileza e do respeito no trato com os outros, o autor de O Bibliófilo Aprendiz revela também tolerância com relação aos conceitos de Coleção Brasiliana e Coleção Brasiliense, motivo de disputa entre especialistas. Para ele, Coleção Brasiliana se refere a todos os livros sobre o Brasil impressos desde o século 16 até fins do século 19 e os livros de autores brasileiros impressos no estrangeiro até 1808, enquanto Coleção Brasiliense diz respeito a livros impressos no Brasil de 1808 até hoje. Só que Moraes não tem uma posição radical a esse respeito, e diz: “Mas se um bibliófilo quiser colecionar a torto e a direito Brasiliana e Brasiliense, e formar um verdadeiro coquetel de livros, meu Deus, deixem-no juntar seus livrinhos em paz”.

Revista BBM, número 2, lançada pelas Publicações BBM, está disponível na íntegra, gratuitamente, neste link. Clique aqui.

A edição impressa custa R$ 52,00 e estará à venda na Livraria João Alexandre Barbosa, da Editora da USP (Edusp), na Cidade Universitária, em São Paulo, após o fim das restrições impostas pela pandemia de covid-19.

Mais informações podem ser obtidas pelos e-mails bbm@usp.br e publicacoesbbm@usp.br e pelo telefone (11) 2648-0320.

Fonte: Jornal da USP

Os tesouros da Biblioteca Joanina, do livro gigante tão antigo como Portugal à Bíblia que faz chorar os judeus

Texto por Osvaldo Bertolino

Delfim Leão é vice-reitor da Universidade de Coimbra e João Gouveia Monteiro é diretor da Biblioteca

Professor João Gouveia Monteiro, tendo ligação familiar muito forte à Universidade de Coimbra, pois o seu pai foi reitor, recorda-se da primeira vez que entrou na Biblioteca Joanina?

J.G.M. – Foi seguramente antes da tomada de posse do meu pai como reitor, em fevereiro de 1970, portanto, teria 12 anos incompletos. Nasci e cresci em Coimbra.

Para um jovem que gosta de ler, entrar nesta biblioteca do século XVIII é como entrar num local quase sagrado…

J.G.M. – Sim, é um templo, um templo laico. Quando se entra, é essa sensação que se tem, com D. João V lá ao fundo no altar, e aquela arquitetura, aquela estrutura de sala e aquela decoração são difíceis de encontrar num edifício laico. Portanto, sim, é um templo sagrado, e para quem tem amor aos livros tem um significado especial.

Professor Delfim Leão, recorda-se de quando foi a primeira vez que entrou na Biblioteca Joanina?

D.L. – Sou do Porto e o meu contacto com a Joanina é muito marcado pela minha experiência já enquanto estudante, e está também ligado à pessoa que, na altura, era o diretor da Biblioteca Geral, um professor carismático, já falecido, Aníbal Pinto de Castro. Ele foi também meu professor e foi, de certa forma, pela mão dele que visitei a Joanina, com a exigência, com o humor cáustico, mas também com o sentido de que estávamos a pisar solo sagrado; ou seja, entrar ali implicava não apenas o respeito pelo património construído, pelo valor imaterial de todas as obras que lá estão reunidas, mas também pelo que significa entrar numa biblioteca com este peso, com esta tradição, com este conhecimento acumulado, e de que forma é que isso se reflete depois sobre o ser estudante, o próprio respeito que se tem pela investigação e pelo estímulo que se recebe. Sou da área dos Estudos Clássicos, portanto, a minha área de trabalho são o Grego e o Latim, o Português também, mas a antiguidade é algo com que eu lido muito – a edição do próprio texto e, depois, aqueles problemas de perceber uma palavra que não se consegue transcrever e tentar adivinhar o que esteja por detrás – e, entrar numa biblioteca onde todos os sentidos ficam alerta, o deslumbramento, a visão que se tem, o próprio olfato, faz que haja todo um conjunto de pequenas sensações que se retiram a partir daí, até o estalido de abrir um livro, que é algo que me impressiona sempre.

Quando é que, como estudante, teve de recorrer à Biblioteca Joanina?

J.G.M. – Creio que no meu tempo de estudante nunca requisitei nenhuma obra da Biblioteca Joanina. Mas, de facto, há muitas obras que ainda hoje vêm à consulta. Estimamos que cerca de 680 obras da Joanina vêm para a Biblioteca Geral para serem consultadas na nossa sala de leitura pois os leitores que requisitam obras da Joanina consultam-nas nesse outro edifício. Já não há a utilização dos gabinetes de leitura, que são lindíssimos, têm vista para o Mondego, ficam do lado esquerdo quando entramos na biblioteca e têm particularidades fantásticas. Têm dois banquinhos de pedra e uma mesa no meio, que desliza para trás e para a frente para poder ser utilizada por canhotos e por destros, e tendo em conta a luz solar, tem a luz vinda da esquerda para os destros e da direita para os canhotos.

Mas o professor, enquanto estudante de licenciatura, não consultou a Joanina, foi mais como investigador?

J.G.M. – Enquanto estudante de licenciatura trabalhei muito aqui na Biblioteca Geral, mas não me recordo de ter requisitado nenhum livro da Joanina, não tinha necessidade disso. Como sou de História, trabalhava até mais no arquivo da universidade e, portanto, isso não aconteceu, e como sou de História Medieval, tão-pouco aconteceu mais tarde, uma vez que a documentação que me interessa e as obras que me interessam são sobretudo dos séculos XIV e XV, e a Joanina isso não tem.

Quem requisita as tais 680 obras? Estamos a falar de investigadores portugueses, estamos a falar também de académicos estrangeiros?

J.G.M. – Sim, estamos a falar de uns e de outros. A Joanina tem cerca de 60 mil obras com uma cronologia aproximadamente entre o século XVI e o século XVIII.

Professor Delfim Leão, no seu caso, sentiu alguma vez necessidade de recorrer à Biblioteca Joanina?

D.L. – Bom, no meu caso, ainda recuo mais no tempo. Trabalho essencialmente textos dos séculos VIII-VI a.C., em particular obras gregas. A nossa biblioteca não tem esse tipo de obras, embora tenha dotações que foram sendo feitas ao longo do tempo, em particular traduções em latim, que era a grande língua de comunicação, a língua franca. Há colegas da minha área que trabalham muito, por exemplo, a época do Renascimento e a receção dos autores clássicos, e aí tem. Penso, por exemplo, na coleção dos Conimbricenses dos comentários a Aristóteles que são, de facto, traduções feitas em latim, extremamente válidas e que conheceram edições que se espalharam por todo o mundo de então, verdadeiramente globais enquanto manuais de apoio ao estudo da filosofia aristotélica. Portanto, continuam a encontrar aqui material em primeira mão, utilíssimo para fazer precisamente este processo de transposição para a atualidade, não apenas da digitalização das obras para se poder trabalhar com uma cópia e não pôr em causa a preservação dos originais, mas também a transcrição do próprio texto para suportes digitais atuais e também a sua impressão num livro que, digamos, seja moderno, assim como a sua tradução e interpretação.

Alguém que desconheça a Joanina iria dizer que os seus livros são sobretudo em português, mas tem também em latim. E que outras línguas comporta?

J.G.M. – São línguas muito diversas. Na Biblioteca Joanina há muita obra em português, há muitíssima obra em latim e também há obras noutras línguas – espanhol, francês, inglês. A cronologia daquelas obras vai até ao século XVIII e é fácil encontrar uma variedade grande de línguas. Há obras em alemão. Também é isso que ajuda a explicar porque é que a biblioteca é procurada por estrangeiros, se fosse só em português haveria a barreira da língua e ficaríamos reduzidos à Península Ibérica, ao Brasil e pouco mais.

O fundo original não é do rei, D. João V manda construir a biblioteca, mas os livros não são dele?

J.G.M. – O espólio da Biblioteca Joanina, antes de existir o edifício do século XVIII que D. João V mandou construir, era já da biblioteca da Universidade de Coimbra, que era uma biblioteca muito rica e que não tinha um edifício próprio, mas que já tinha muita procura por parte de intelectuais portugueses e estrangeiros. Foi exatamente por se sentir um pouco, digamos, envergonhado por esta situação que o reitor na altura, que era Nuno da Silva Teles, escreveu a D. João V uma famosa carta, no dia 8 de junho de 1716, em que lhe expõe a situação, e é isso que funciona como trigger junto do rei para decidir então rematar o complexo do Paço das Escolas com a construção deste edifício extraordinário, com esta fisionomia de templo, tão templo que até está encostado à Capela de São Miguel.

Há notícia de D. João V visitar a Biblioteca?

J.G.M. – Seguramente, visitou tanto a biblioteca como a capela. Aliás, a minha suposição é que a inauguração do órgão barroco da Capela de São Miguel tenha sido feita pelo próprio Carlos Seixas, que era um homem de Coimbra, músico desde muito jovem e que se tornou músico da corte de D. João V. Foi para lá trabalhar com Domenico Scarlatti, que logo que ouviu Seixas tocar terá feito um comentário do género: “Eu é que vou ter lições consigo”, porque, de facto, Seixas era um músico extraordinário. Portanto, essa ambiência há de ter trazido aqui, segura e merecidamente, o rei.

Dos livros da Biblioteca Joanina, quais escolheria se eu lhe pedisse para enumerar dois ou três tesouros?

J.G.M. – Bem, se quisermos utilizar um critério cronológico – que também interessa, porque a antiguidade dos livros só por si é um mérito -, escolheria aquela obra que é habitualmente chamada Bíblia “atlântica”. É uma obra que é da idade da fundação de Portugal, tem uma cronologia que se aponta para meados do século XII, em quatro volumes. É o livro mais antigo da biblioteca, de enormes dimensões, e é por isso que tem esse nome; atlântica não tem que ver com o oceano, tem que ver é com a figura mitológica do gigante Atlante, pois um livro daquele tamanho tinha de ser carregado por uma pessoa musculada. Depois, uma das outras obras, seria a Bíblia hebraica, que é, aliás, muito visitada até por delegações de Israel.

Estamos a falar de um livro impresso?

J.G.M. – Estamos a falar de um livro dos finais do século XV. Os manuscritos hebraicos praticamente desapareceram por causa da Inquisição. Não sabemos se foi impresso em Portugal, mas provavelmente é da Península Ibérica. Pode ter sido em Sevilha. Em Portugal, até ao século XV existem menos de 20 bíblias deste género e só estão nas bibliotecas mais ricas do mundo. Portanto, pela sua antiguidade, por um certo mistério que o seu trajeto encerra – diz-se que pode ter estado ligado a uma família muito famosa de judeus que foram expulsos de Portugal nos finais do século XV, os Abravanel, um dos quais foi tesoureiro de D. Afonso V e depois teve uma função de destaque também na mesma área das finanças na corte de Isabel, a Católica; depois acabou por ter de fugir também, foi para Itália. Esta bíblia sabe-se que foi comprada no século XIX, até se conhece o valor da compra, 700 mil reis, e é de certa maneira um símbolo. É por isso que as comunidades israelitas que aqui vêm observam aquilo com verdadeira comoção, chegam a chorar perante aquela obra. É um pouco o testemunho sob a forma de livro da diáspora da comunidade judaica.

Existe alguma primeira edição de Os Lusíadas?

J.G.M. – Sim, existe uma primeira edição de Os Lusíadas, naturalmente, e também a Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto. Os tesouros da biblioteca estão distribuídos por diversas zonas, pela Biblioteca Joanina, pela casa-forte, pela Sala de São Pedro, também pela Livraria do Visconde da Trindade. Portanto, poderíamos incluir aqui uma série de outros títulos, estou só a destacar estes quatro ou cinco que me parecem suficientemente emblemáticos, mas poderia incluir as famosas Tábuas dos Roteiros da Índia, de D. João de Castro, que é um livro que tem ilustrações absolutamente fantásticas, e que acrescentam tanto àquilo que as narrativas da Índia nos dizem que ainda hoje é consultado por investigadores que querem ver as ilustrações, as marcas de água, tudo isso. Outras obras, que estão mais ligadas ao grande progresso da ciência no século XVIII, também, no sentido para o qual a reforma pombalina na década de 1770 encaminhou a Universidade de Coimbra, mais virado para o experimentalismo, para a observação da natureza. Temos entre milhão e meio e dois milhões de volumes.

Professor Delfim Leão, em relação aos visitantes, há-os como a comunidade israelita que vem aqui quase pelo simbolismo de determinado livro, mas outros vêm pela beleza. Os turistas que chegam a Coimbra procuram mais a biblioteca do que a própria universidade?

D.L. – A Joanina é claramente a joia da coroa dentro do património construído da universidade e, também, com todo o valor intangível que lhe está associado. Eu diria que são dois princípios que jogam completamente um com o outro – a ideia da universidade, com a antiguidade, o peso central que tem na lusofonia, o espaço onde durante séculos as elites dos vários países lusófonos foram sendo formadas, e a biblioteca como símbolo visível dessa mesma dignidade. É isso mesmo que impressiona quem nos visita. Para nós também é um desafio grande porque a universidade tem tido um acrescento de visitantes, já anda perto da casa do meio milhão por ano – este ano é atípico, pelas razões conhecidas da pandemia – e isto cria desafios grandes, concretamente para quem tem a responsabilidade de gerir o próprio património e, sobretudo, garantir que ele vai ser mantido para as gerações que se seguem. Na verdade, recebemos um património que foi bem preservado e temos essa obrigação também. Neste momento visitam-nos sobretudo portugueses, mas habitualmente visitam-nos muitos brasileiros que vêm à procura daquilo que são as raízes da própria identidade.

Porque até à independência do Brasil praticamente todos os seus licenciados eram formados em Coimbra.

D.L. – Exatamente. E eles sentem que a riqueza do Brasil também ajudou a dar à Universidade de Coimbra e à própria Biblioteca Joanina este carácter especial.

Foi mesmo o ouro do Brasil que permitiu a D. João V ter os meios para esta biblioteca?

D.L. – Essa é a tese dominante, mas há uma outra que diz que dependeu mais até das pessoas aqui da zona, que com os seus tributos mais modestos ajudaram a construir este monumento.

J.G.M. – As últimas investigações que têm sido feitas pelos nossos melhores especialistas de História da Universidade de Coimbra, como o professor Fernando Taveira da Fonseca, apontam muito mais para um grande investimento da própria universidade na construção da Biblioteca Joanina. A construção decorreu entre 1717 e 1728 e está averiguado que a universidade investiu nesta construção uma soma de 67 contos de reis, o que era mais ou menos um terço das receitas totais da universidade nesta altura. Portanto, não foi o ouro do Brasil. O Brasil está representado na Biblioteca Joanina, evidentemente, pelas madeiras extraordinárias que lá estão – pau-santo, ébano, etc. -, sobretudo nas mesas, no mobiliário, porque as estantes são de madeira de carvalho, mas a edificação da Biblioteca Joanina assentou muito no esforço financeiro da Universidade de Coimbra.

Conservar estas obras com séculos é um esforço diário?

J.G.M. – Sim, claro. É uma luta, e é uma luta difícil, porque os recursos humanos não são muitos, a responsabilidade é enorme na gestão e na conservação daquele património. Não há nenhum livro na Biblioteca Joanina que não tenha sido retirado, limpo e recolocado no período do último ano, por exemplo. Tem sido feito um investimento grande na reabilitação de livros que são mais atacados por fungos ou por bactérias, através, por exemplo, do restauro das encadernações que é feito pelos próprios funcionários que limpam o espaço, se forem coisas relativamente diminutas. A Biblioteca Geral e o Arquivo da Universidade juntaram-se para, com o apoio da Fundação Engenheiro António de Almeida, passarem a ter, a partir do final deste ano, uma oficina de conservação e restauro boa e modernamente equipada aqui na Biblioteca, que sirva toda a comunidade universitária. Portanto, é preciso utilizar as técnicas mais modernas de desinfestação dos livros, o que se pode fazer agora melhor, porque o meu antecessor, o professor José Bernardes, teve a boa ideia de adquirir duas câmaras de anoxia que permitem sufocar os bichos, porque transforma o oxigénio em azoto e ao fim de 21 dias esses livros saem desinfestados.

Os tesouros da Biblioteca Joanina, do livro gigante tão antigo como Portugal à Bíblia que faz chorar
© Fernando Fontes / Global Imagens

Com toda essa tecnologia para cuidar dos livros, os morcegos são um mito?

J.G.M. – Os morcegos não são um mito. Existem duas colónias, mas não sabemos se foram colocados de propósito ou não, possivelmente não. Há uma coincidência aqui com a biblioteca de Mafra nesse aspeto, que também é da lavra de D. João V, e também não há nenhuma dúvida de mais duas coisas. Primeiro, que eles são úteis a comer bicharada que faria mal aos livros, gerando ali uma espécie de nicho ecológico que ajuda a proteger as obras. A outra coisa que também é certa é que, provavelmente, essas duas colónias já são extremamente reduzidas. Só saem durante a noite, por uma frestazinha que nunca podemos entaipar na porta principal da Joanina, para se hidratarem, para caçar, reentram, às vezes fazem umas aparições fugazes durante um concerto noturno, por exemplo, lá assustam um ou outro espectador, mas em geral não incomodam e prestam um serviço. Não são eles, por si só, que mantêm a dignidade do espaço, isso é também o esforço das pessoas que lá trabalham. Agora, devo dizê-lo, temos a alegria de ter a reitoria da Universidade de Coimbra sensibilizada para fazer as intervenções de manutenção daquele edifício que são precisas, designadamente ao nível da cobertura, do telhado e de algumas paredes onde há deteção de infiltrações de humidade. É um edifício robusto, com paredes de mais de dois metros, mas, de qualquer maneira, todos os edifícios, por mais robustos que sejam, tal como os organismos humanos, também precisam de ser protegidos e acarinhados. Isso vai ser feito, até porque há muito tempo que se fazem monitorizações quinzenais de temperatura, humidade e poluição dentro do espaço da Biblioteca Joanina.

Professor Delfim Leão, há também um esforço para dar acesso ao que está na Joanina e na Biblioteca Geral através de meios informáticos, certo?

D.L. – Não é possível ter nenhum tipo de biblioteca realmente marcante sem um investimento programático sério. Podemos pegar na primeira das grandes bibliotecas emblemáticas, a de Alexandria, no reino dos Ptolomeus, que só foi possível construir porque os faraós entenderam que deveriam consignar a essa biblioteca uma parte muito substancial do seu rendimento. Vimos na construção da Joanina que além do investimento que foi feito pela coroa, pelo rei, houve uma decisão programática da universidade de afetar à sua biblioteca uma parte importante dos seus rendimentos. Isto leva-nos, naturalmente, a tomar decisões também programáticas, não apenas na curadoria daquilo que é o livro tradicional no seu formato mais analógico, mas naquilo que é a decisão de apostar em bibliotecas digitais e na sua abertura ao mundo. Este é um tema profundamente importante, atual, porque nunca na história, como aconteceu nos últimos meses, nunca a humanidade ficou em grande parte vedada de ter acesso às fontes do conhecimento. De facto, as bibliotecas digitais e, sobretudo, o movimento do acesso aberto foram absolutamente centrais para que fosse possível continuar a investigação, no fundo também a ocupar as pessoas, dar-lhes esperança naquilo que estão a fazer. Claramente, esse é um movimento que já tem expressão e vai ser reforçado. A universidade está muito empenhada não apenas em ser um ponto de referência, mas até em liderar, em parte, esse processo aberto no que respeita à informação e às publicações sobretudo. Isto cria desafios de natureza vária, não apenas digitalizar e tornar disponíveis documentos muito importantes para serem consultados a partir do exterior. Isso permite proteger os originais porque não têm de ser tão manuseados. Temos aqui, à parte da Biblioteca Geral, provavelmente um dos fundos musicais mais importantes da Península Ibérica muito pouco estudados. Temos matéria para gerações de músicos estudarem, que está a ser neste momento curada, portanto, os manuscritos, os objetos em si, estão a ser recuperados por uma empresa espanhola. É um investimento conjunto da Biblioteca Geral, da reitoria, do centro de investigação. Esses documentos são digitalizados, tornados públicos, são depois transcritos e, finalmente, tornados matéria viva, ou seja, para que aquela música que tem estado em silêncio há séculos possa voltar à vida. É um processo realmente notável. Agora, isso implica opções estratégicas importantes porque não basta digitalizar, importa garantir que aquilo que se digitaliza não leva ao esquecimento do objeto original, que não pode ficar descurado. Aquilo que se digitaliza implica um esforço de curadoria futura importante. Eu até diria, talvez mais exigente do que o livro tradicional, porque o livro tradicional resiste nesse formato. Podemos esquecer-nos do livro durante anos e, em princípio, se não houver um acidente, um incêndio, uma inundação, ele resiste. Com o objeto digital não podemos lidar da mesma forma.

Por exemplo, a Bíblia “atlântica” é um desses livros que faz sentido digitalizar?

D.L. – Penso que sim. Temos a alma mater que é precisamente a biblioteca digital dessas preciosidades, está catalogada segundo alguns dos temas que são mais relevantes, muitas vezes ligados a projetos de investigação que têm interesse particular num determinado acervo. Eu diria que estas joias, por assim dizer, faz sentido digitalizá-las e torná-las acessíveis. É uma opção nem sempre fácil, porque se é um objeto único, naturalmente que se o digitalizamos e tornamos completamente público e aberto podemos correr o risco de ele não atrair tanta gente ao processo de veneração do original. Por outro lado, diria que é um risco que vale a pena correr, porque torna-se conhecido, torna-se visível a todos, e isso é algo que é extremamente positivo, mas, por outro lado, a emoção de ver o original torna-se uma experiência sensorial única.

J.G.M. – Queria só acrescentar que um dos projetos da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra – isto até é em primeira mão – é o de fazermos em 2022 um colóquio sobre grandes bibliotecas da história da humanidade. Pode ser muito interessante quer para estudiosos quer para satisfazer a curiosidade do público em geral, seja sobre grandes bibliotecas seja sobre grandes documentos da história da humanidade, como a Magna Carta, por exemplo, que é uma coisa de uma página e é um dos grandes produtos de exportação da cultura inglesa no mundo. Tínhamos também previsto para este outubro, mas vamos repô-lo num calendário diferente, provavelmente em meados de abril de 2021, um colóquio sobre turismo e património, para trazermos cá de diversos outros lugares da Europa, do Alhambra de Granada, de França, de Itália, do Trinity College de Dublin, gente que tem esta experiência de necessidade de equilibrar o património com o turismo. Isto para virem contar aqui o seu percurso e partilhar connosco as soluções, para que nós nos possamos também iluminar um pouco mais nas decisões que temos de tomar para conseguirmos preservar o património sem deixar de corresponder à pressão turística. Em anos normais – não é o caso -, entre março e outubro, a chamada época alta, temos na Biblioteca Joanina 1600 visitantes por dia. (Diário de Notícias)

Fonte: O outro lado da notícia

Livros da Fuvest são apresentados a vestibulandos em evento online

Texto por Agência Brasil

Com a pandemia de covid-19 e as recomendações das autoridades médicas e sanitárias para que todos evitem aglomerações e fiquem em casa, o Projeto BBM, da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da Universidade de São Paulo (USP), precisou se reinventar para continuar aproximando os jovens vestibulandos dos livros e autores. Para continuar propiciando o acesso e a compreensão das obras que fazem parte da lista de livros obrigatórios do vestibular da Fuvest, o projeto, que existe desde 2017 de forma presencial, ganhou versão virtual.

Segundo os organizadores, desde o início o projeto é um dos grandes sucessos de público da instituição e, ao longo dos anos, vem atraindo cada vez mais interessados em conhecer melhor as obras. Por meio de parceria com cursinhos pré-vestibular populares (como o Clarice Lispector, Florestan Fernandes, Poli e Psico), o BBM promove encontros mensais de análises literárias e bate-papo com o público sobre os livros.

A iniciativa parte da convicção de que a USP deve estreitar seus laços com a sociedade para quebrar barreiras entre o grande público e o universo científico e acadêmico”, destacou o coordenador do projeto, professor Alexandre Macchione Saes.

Com a necessidade de cancelamento dos encontros e os calendários dos exames de admissão de universidades mantidos, a coordenação optou por oferecer ao público transmissões de vídeo online com esses conteúdos, por meio do canal da BBM no youtube. O canal está recebendo os vídeos de encontros já gravados. Entre eles estão: Angústia, de Graciliano Ramos; Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade; A Relíquia, de Eça de Queiroz; Poemas escolhidos, de Gregório de Matos; Quincas Borba, de Machado de Assis; e Mayombe, de Pepetela.

Os encontros ao vivo, com interação entre público e professores, estão marcados para amanhã (28) (Nove noites, de Bernardo Carvalho),  25 de junho (Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles), e 30 de julho (Campo Geral, de Guimarães Rosa). As transmissões ao vivo acontecem sempre às 14h30, no endereço: bbm.usp.br. Além dos vídeos gravados e dos encontros ao vivo, o site disponibiliza textos introdutórios e explicativos sobre as obras.

Fonte: Isto É Dinheiro

Unicamp inaugura Biblioteca de Obras Raras

Biblioteca da USP homenageia a escritora Clarice Lispector

Por Elaine Patricia Cruz – Repórter da Agência Brasil – São Paulo

Para celebrar o centenário da escritora Clarice Lispector e o mês em que é celebrado o Dia Internacional da Mulher, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da Universidade de São Paulo (USP), vai expor trabalhos de 33 artistas nas quais eles analisam e refletem sobre a obra da escritora. A exposição A Imagem e a Palavra – Encontro com Clarice Lispector começa nesta segunda-feira (9) e ocorre até o dia 30 de abril.

Para a exposição serão apresentadas obras feitas com diversas técnicas, tais como gravuras, desenhos, pinturas, aquarelas, cerâmicas, fotografias e instalações artísticas. A visitação é gratuita. O objetivo é homenagear as mulheres por meio das obras da escritora.

“São produções desafiadoras para o artista visual. Porque envolvem a transformação, em imagens, da palavra de Clarice Lispector, que escreve de uma forma provocativa e que leva à reflexão”, disse Altina Felício, curadora e artista, que assina uma aquarela na exposição.

Clarice Lispector faria 100 anos no dia 10 de dezembro deste ano. Ela morreu um dia antes de completar 57 anos, em 1977, por complicações de um câncer no ovário. Dois meses antes ela lançou A Hora da Estrela, um de seus mais conhecidos romances. Clarice Lispector escreveu ainda A Paixão Segundo G.H., Perto do Coração Selvagem e Laços de Família, entre outros.

Ouça na Rádio MECClarice Lispector: vida e obra no Acervo da Rádio MEC

Fonte: Agência Brasil

Biblioteca de Obras Raras ganha novo prédio

Biblioteca de Obras Raras - novo prédio

A inauguração do prédio da Biblioteca de Obras Raras (BORA) “Fausto Castilho” acontece no dia 9 de março, às 14 horas, na Rua Sérgio Buarque de Holanda 441, no Campus da Unicamp.  Trata-se de uma biblioteca pioneira, projetada e construída com recursos adequados para abrigar e proteger obras raras.

A BORA surgiu de uma necessidade de preservar e reunir as obras raras existentes nas diversas bibliotecas da Universidade, com iniciativas para a conservação e restauro dos materiais em consonância com as instituições de ensino mais modernas do mundo, para que atue como referência no Brasil.

O evento é organizado pelo Cerimonial do Gabinete do Reitor, Sistema de Bibliotecas da Unicamp (SBU) e pela Biblioteca de Obras Raras “Fausto Castilho”.

PODCAST – Em entrevista à Rádio Unicamp, a diretora do Sistema de Bibliotecas (SBU), Valéria Martins, destacou a importância e a raridade das obras que integram esse acervo. Ouça!

Mais informações pelo telefone (19) 3521-6502 ou e-mail rafarg@unicamp.br

Fonte: UNICAMP

Oratórios e documentos raros contam a história do Brasil colonial

Exposição será inaugurada nesta quarta-feira, dia 12, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP

Texto por Claudia Costa

Um conjunto de oratórios barrocos proveniente da Coleção Casagrande, ao lado de itens raros do acervo textual e iconográfico da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP, estão na mostra Oratórios Brasileiros em Textos e Imagens, que será inaugurada nesta quarta-feira, dia 12 de fevereiro, na BBM. Com curadoria da pesquisadora Silveli Maria de Toledo Russo, a mostra parte da sua pesquisa na BBM sobre documentos de repertório religioso, e se completa com os 44 oratórios dos séculos 17 e 18 reunidos ao longo de mais de 30 anos pelo colecionador e juiz paulistano Ary Casagrande Filho, para contar a história do cotidiano rural e urbano da sociedade colonial brasileira…

Os oratórios revelam aspectos marcantes da sociedade colonial brasileira – Fotomontagem Jornal da USP…..

Mais do que simples objetos de devoção, os oratórios se tornaram parte relevante da tradição brasileira e item fundamental para o estudo da história do País, em especial do período colonial. Trazidos pelos colonizadores portugueses, ganharam nas mãos de artesãos diversas formas e adereços e foram se espalhando pelas fazendas, senzalas e residências através dos séculos. “Na época, com distâncias muito grandes e um pequeno número de padres, a presença dos oratórios em moradias ou espaços públicos acabava fazendo o papel de uma pequena capela”, explica Silveli, que é doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura de Urbanismo (FAU) da USP e pesquisadora residente da BBM.

Frontispício e fólio de rosto do Compromisso da Irmandade de N. S. do Rozario de S. Joze da Barra, 1760, São José da Barra, Capitania das Minas do Ouro – Acervo Digital da BBM-USP – PRCEU-USP.
Jean Baptiste Debret (1768-1848). Paris: Firmin Didot Frères, 1839 – Acervo de Manuscritos da BBM-USP.
Sermão de Nossa Senhora do Socorro, Rio de Janeiro, 1788 – Acervo de Livros Impressos da BBM-USP

Entre os documentos expostos estão manuscritos setecentistas e oitocentistas da Igreja – como os compromissos de irmandades religiosas, que apresentam capitulares ricos em ornamentações, com destaque para o estatuto da Irmandade Nossa Senhora do Rosário dos Pretos da Freguesia de São José da Barra Longa, em Mariana (MG), além de narrativas textuais e iconográficas produzidas por memorialistas estrangeiros estabelecidos no Brasil. É o caso do viajante francês Jean-Baptiste Debret, que produziu diversos desenhos ao longo de sua permanência no Brasil, entre 1816 e 1831, que serviram de inspiração para as gravuras/litografias de Thierry Frères, em 1839. A mostra ainda traz obras literárias que retratam a religiosidade, caso de Senhora e A Viuvinha, de José de Alencar.

Cenas religiosas

Silveli cita, entre outros textos, o do jesuíta austríaco Antônio Sepp von Rechegg (1655-1733), que em seu livro Viagem às Missões Jesuíticas e Trabalhos Apostólicos, escrito no final do século 17 e o início do século 18, informa que nos procedimentos de instalação de uma nova redução havia habitualmente a presença de oratórios “portáteis”, que acolhiam imagens religiosas de pequeno e médio porte. A curadora destaca ainda o desenhista alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858), que relata em Viagem Pitoresca através do Brasil (1825-1830) os costumes dos habitantes do País: “Com o objetivo de estender as celebrações da Igreja às fazendas mais distantes, bem como aos escravos que nelas habitam, há padres que, em certas épocas do ano, percorrem o País, carregando um pequeno altar, que colocam no lombo do cavalo ou da besta”, descreve o autor alemão. Segundo Silveli, Rugendas se refere aqui ao oratório consagrado para ser utilizado como altar, que deve, obrigatoriamente, incluir a Pedra d’Ara, uma peça, que, normalmente feita em mármore, é utilizada para guardar relíquias de santos.

Oratório de salão (madeira recortada, entalhada e policromada), Minas Gerais, século 18. Imagem: Santo Antonio (madeira), 31 centímetros, século 18 – Coleção Casagrande.
Oratório de viagem (madeira recortada, entalhada, policromada e dourada), Minas Gerais, século 18, 22 centímetros de altura, 7,5 centímetros de diâmetro – Coleção Casagrande.
Oratório – lapinha (madeira recortada, entalhada, policromada e dourada), Minas Gerais, século 18. Imagens: Jesus Menino, Nossa Senhora, São José, Pastor, Nossa Senhora da Conceição, São João Evangelista, São Paulo, São José de Botas e Cristo Crucificado. Pinturas com iconografia de São João Evangelista, São Marcos, São Mateus e São Lucas – Coleção Casagrande.

Para ilustrar a vida religiosa típica do Brasil colonial, estão expostos dois tipos de oratórios devocionais: os domésticos, ou seja, aqueles utilizados no ambiente residencial (nos espaços comuns, salão e dormitório), e outros de caráter provisório e eventual, usados em expedições – por terra ou marítimas. Ainda na categoria itinerante, há os oratórios de esmoler que, circunscritos ao espaço urbano, eram destinados a arrecadar recursos para a construção de templos para associações religiosas ou mesmo prestar auxílio aos que necessitavam da caridade alheia. O colecionador Ary Casagrande Filho destaca um oratório de viagem do século 17, um dos mais antigos e raros de sua coleção, e um oratório de alcova com imagem de Santo Antônio, atribuído a Aleijadinho, além das chamadas lapinhas, com cenas de nascimento e morte de Cristo.

A pesquisadora Silveli Maria de Toledo Russo e o colecionador Ary Casagrande Filho: exposição relata o cotidiano rural e urbano da sociedade colonial brasileira – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Segundo a curadora, “os oratórios representam a expressão de fé ao agregarem os fiéis devotos para as práticas da oração e meditação, com um singular repertório de imagens religiosas, em esculturas e pintura, corroborando o entendimento do universo simbólico da vida cotidiana e dos costumes no interior das moradias na sociedade colonial brasileira”. Para ela, a exposição aproxima os visitantes das práticas religiosas e da devoção católica na sociedade colonial e abre espaço para uma profícua troca de ideias no domínio do patrimônio bibliográfico, do intercâmbio artístico e da interlocução patrimonial de objetos de cunho devocional. 

A exposição Oratórios Brasileiros em Textos e Imagens será inaugurada nesta quarta-feira, dia 12 de fevereiro, às 17 horas, e ficará em cartaz até 28 de abril, de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 18h30, na Sala Multiuso da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP (Rua da Biblioteca, 21, Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 2648-0310 e no site da biblioteca

Fonte: Jornal da USP

Gabinete Português de Leitura de Pernambuco completa 169 anos

por Revista algomais
Como novidade está o início da restauração dos prédios anexos ao Gabinete, que estão voltados para a Rua Diário de Pernambuco (Foto: Henrique Araújo)

O Gabinete Português de Leitura de Pernambuco (GPL-PE) completa 169 anos de fundação, no dia 03 de novembro. Para celebrar a data, será realizada uma cerimônia comemorativa para convidados, na noite da segunda-feira 04 de novembro, a partir das 19h30. O evento acontece no salão nobre da sede da instituição, que está localizada na Rua do Imperador Dom Pedro II, no bairro de Santo Antônio, área central do Recife.

Como novidade do GPL-PE está marcado para este mês de novembro, o início da restauração dos prédios anexos ao edifício sede do Gabinete (voltados para a Rua Diário de Pernambuco), que contemplará também a construção de um Edifício Garagem. O objetivo é dar mais conforto aos visitantes e ao mesmo tempo gerar renda para o GPL-PE. Serão oferecidas 60 vagas de estacionamento e mais 10 salas interligadas ao edifício sede.

“As fachadas desses prédios serão restauradas conservando sua originalidade. Dessa forma, vamos concluir o projeto de restauração dos prédios históricos do quarteirão da Rua do Imperador Dom Pedro II”, ressalta o presidente do GPL-PE, Celso Stamford Gaspar. O último prédio restaurado está ao lado do Gabinete, o antigo Hotel Recife, datado do século XX, que desde março de 2018 é a Escola de Saúde do Hospital Português.

A previsão de inauguração do Edifício Garagem é novembro de 2020, quando o GPL-PE completará 170 anos de história. O projeto de restauração e adequação leva a assinatura do arquiteto Bruno Uchoa.

Durante a solenidade comemorativa aos 169 anos do GPL-PE, o empresário Zeferino Ferreira da Costa será homenageado com o Colar do Mérito Luís Vaz de Camões, por sua relação com a comunidade lusa no Recife e com o Gabinete. Receberão ainda a Medalha de Mérito Luiz Vaz de Camões os professores e escritores José Rodrigues Paiva e Alfredo Antunes e mais o arquiteto Bruno Uchoa.

A cerimônia conta ainda com a inauguração da exposição coletiva “Caminhos da Pintura em Pernambuco”, dos artistas Fernando Areias, Vera Sato, Gilvan Júnior e Sandra Paro. A mostra, organizada pela diretoria cultural do GPL-PE, terá parte da renda revertida para a instituição. São 27 quadros, entre pinturas de óleo sobre tela, acrílica sobre tela, litogravura e mosaico de pastilhas de vidro. A exposição ficará em cartaz até o dia 20 de novembro. O encerramento da solenidade será marcado pela apresentação musical do maestro Lúcio Azevedo, acompanhado da cantora Kátia Guedes, seguido de um coquetel, assinado pelo Buffet La Cuisine.

O Gabinete – Em 1850, havia um grande número de portugueses residentes em Pernambuco. Estes, por sua vez, não possuíam um local adequado onde pudessem se reunir para cultuar sua pátria e comemorar datas importantes para o seu país. Procurando uma solução, o Comendador Miguel José Alves, na época, Chanceler do consulado de Portugal no estado, foi o primeiro a pensar na possibilidade de fundar o Gabinete Português de Leitura em Pernambuco.

Porém, se ao Comendador cabe o mérito da elaboração da ideia, coube ao cirurgião e jornalista João Vicente Martins a honra de fundar, em 3 de novembro de 1850, constituir a primeira diretoria, reunir os primeiros associados e viabilizar a instalação, em 15 de agosto de 1851, do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco, em seu primeiro endereço, na Rua da Cadeia Velha, atual Avenida Marquês de Olinda, no Bairro do Recife.

Desde 1921, instalado em sede própria, no coração do Recife, o edifício de três andares, que começou a ser construído no início de 1909, oferece aos pernambucanos e à comunidade portuguesa intensas experiências de troca de conhecimento e de cultura, além de estreitar os laços de amizade entre Portugal e Brasil.

O Gabinete Português de Leitura de Pernambuco promove a realização de solenidades, comemorações, seminários, conferências, exposição de livros, fotografias, pinturas, cursos e projeções cinematográficas portuguesas. Sua biblioteca possui um acervo superior a 80 mil volumes. Toda a bibliografia está permanentemente à disposição do público, em sua maioria estudantes brasileiros.

Inúmeras pessoas frequentam o Gabinete diariamente para pesquisar e estudar todas as obras que desejam, sendo este serviço oferecido gratuitamente. O espaço dispõe, ainda, de uma sala de estudos aberta ao público com capacidade para cerca de 50 pessoas. Climatizada e com internet wifi liberada, a biblioteca conta ainda com as edições diárias de jornais de Pernambuco e Portugal.

Serviço:

Cerimônia Comemorativa aos 169 anos do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco

Gabinete Português de Leitura

Rua Imperador Dom Pedro II, 290 – Santo Antônio, Recife

Segunda-feira (04/11), a partir das 19h30

Evento exclusivo para convidados

Fonte: Revista algomais

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin recebe inscrições para seu programa de residência

A partir do dia 1º de setembro de 2019, pesquisadores podem se inscrever na quarta edição do Programa de Residência em Pesquisa para desenvolvimento de projetos relacionados ao acervo e ao arquivo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM), órgão da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU).

A finalidade do programa é fomentar as ações de pesquisa centradas no acervo e no arquivo da BBM, o aprofundamento do conhecimento científico, a formação dos envolvidos e a transmissão do conhecimento gerado, no âmbito da cultura e da extensão universitária.

O público-alvo são pesquisadores brasileiros e estrangeiros nas categorias sênior, professor licenciado, professor/pesquisador independente ou em disponibilidade parcial para a pesquisa, assim como doutorandos que possuam financiamento próprio e pretendam permanecer de um a seis meses desenvolvendo projetos junto à Biblioteca.

O edital oferece oito vagas, sendo três projetos voltados para a pesquisa do material constante no acervo da biblioteca e relacionado aos temas do projeto 3×22, que promove o confronto de três 22’s: o da Independência, o da Semana de Arte Moderna e aquele que nossa geração vivenciará. Para isso, vale-se do rico material conservado pela BBM para encontrar nos documentos, nos livros e nos autores esquecidos e renegados pelas vertentes dominantes de nossa historiografia as evidências, as perspectivas e as interpretações que possam contribuir para a análise de nossa história.

Outros três projetos voltados para a pesquisa do material constante do acervo da biblioteca que abordem outros recortes temáticos também serão selecionados; bem como um projeto sobre conservação e restauro; e, por fim, um projeto dedicado à pesquisa do material existente no arquivo da biblioteca.

A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM), órgão da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo (USP), possui um dos mais ricos acervos de brasiliana no país, constituída por aproximadamente 60 mil volumes divididos em  quatro principais vertentes temáticas: assuntos brasileiros, literatura em geral, livros de arte, e livros como objeto de arte. Como parte das quatro vertentes temáticas é possível encontrar obras de literatura, de história, relatos de viajantes, manuscritos históricos e literários, documentos, periódicos, mapas, livros científicos e didáticos, iconografia e livros de artistas

O Edital da 5ª edição do Programa de Residência em Pesquisa da BBM pode ser VISUALIZADO OU BAIXADO na íntegra no arquivo abaixo.

Por Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin

Fonte: PRCEU USP

O destino das bibliotecas particulares que se tornaram públicas

Texto por Bruno Thys

(Foto: Divulgação Biblioteca Brasiliana Mindlin – Guita e José)

Dia desses, recebi um e-mail com uma lista das mais incríveis bibliotecas do planeta: a de Praga, a Real Biblioteca de Dinamarca, a de São Marcos, em Veneza, a da Universidade de Coimbra, o nosso Real Gabinete Português de Leitura, joia arquitetônica do Rio, entre outras. A mensagem incluía fotos muito bonitas e pensei no esforço de tanta gente, por tantos anos, para criá-las e trazê-las aos nossos dias. São instituições, quase todas centenárias, de países que enfrentaram guerras, catástrofes, crises financeiras etc.

Enquanto me deliciava com o conteúdo do e-mail, pensei também nos esforços individuais para formar bibliotecas particulares. Meu pai, por exemplo, dava a vida por sua bela biblioteca de perfil afrancesado – recheada de obras de Balzac, Flaubert, Moliére, e Maupassant -, que ocupava o principal cômodo de nossa casa, em Copacabana. No fim da vida ele a doou ao Colégio Pedro II, onde estudou.

Era um santuário desenhado para ser, de fato, uma biblioteca caseira, com estantes, cadeira e luzes apropriadas à leitura. Todos os que a conheceram ficavam, de alguma forma, impactados. A quantidade e a organização dos livros dentro de um apartamento, era, é e será sempre algo raro e marcante.

Nada, porém, se comparava à catedral erguida, livro a livro, por José Mindlin, o grande bibliófilo brasileiro. Dono da Metal Leve – uma das maiores fábricas de peças para a indústria automobilística -, Mindlin, com apoio de Guita, sua mulher, dedicou a vida a reunir as mais importantes obras já editadas no mundo sobre o Brasil.

Ele mantinha em sua casa, no Brooklin, algo em torno de 40 mil volumes: livros raros sobre a formação do país, escritos por viajantes que aqui aportaram; os primeiros mapas, diários e originais de obras centenárias, ilustradas manualmente sobre fauna e flora, entre tantas outras raridades. Fazem parte do acervo o texto de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, datilografado e com correções à mão, além das primeiras descrições do Brasil de André Thevet e Jean de Léry.

Não tive o privilégio de conhecer Mindlin pessoalmente; lia e assistia com interesse suas entrevistas e ouvi de Alberto Dines, mestre de várias gerações de jornalistas, relatos sobre a biblioteca. Os dois eram grandes amigos e Dines frequentava a casa do Brooklin também como pesquisador. Ele se referia ao Mindlin simplesmente como “Zé”.

A vida de José Mindlin girava em torno de sua biblioteca, organizada em quatro grandes segmentos: assuntos brasileiros, literatura, arte e livros como objeto de arte. No início dos anos 2000, já com mais de 80 anos, ele decidiu doá-la à USP, o que seria formalizado só em 2006 – quando foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. A burocracia fez de tudo para atrasar o sonho de Mindlin. Doar um bem privado a uma instituição pública no país exige infinita persistência e santa paciência.

Não fosse a burocracia, Mindlin teria presenciado a derradeira e mais importante parte de sua obra: a abertura ao público da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, em março de 2013, num prédio especialmente construído pela USP, na Cidade Universitária, para abrigá-la em sua integralidade. Ele faleceu três anos antes da inauguração. Desnecessário dizer que é visita obrigatória para quem gosta de livros, de Brasil, de história, de pesquisa e, sobretudo, de grandes exemplos.

Mindlin poderia fazer o que bem entendesse com sua fortuna – foi um dos homens mais ricos do país – e decidiu, na adolescência, formar uma biblioteca, sonho acalentado com Guita, sua companheira desde a Faculdade de Direito, que morreu em 2006. Aliás, a paixão de Guita pelos livros levou-a a montar um laboratório na casa do Brooklin para recuperar, encadernar, conservar e manter a biblioteca impecável.

Foram oitenta anos de garimpo, que incluíram um sem número de viagens em busca de raridades, visitas regulares a sebos e contatos com caçadores de preciosidades em várias partes do mundo. O resultado de tamanho esforço é simplesmente espetacular, principalmente num país em que a memória e a cultura recebem pouca atenção. Conhecer a biblioteca dos Mindlin é reverenciar o melhor do esforço humano em favor da sociedade.

“Nunca me considerei o dono desta biblioteca. Eu e Guita éramos os guardiães destes livros, que são um bem público”, disse Mindlin, no ato da doação, justificando o sentido de sua paixão e obra. Embora more no Rio, distante portanto da Biblioteca Mindlin, toda vez que a visito fico em dúvida se é a relevância do acervo ou o belíssimo exemplo do casal o que mais me emociona.

Ao manusear cada obra da Brasiliana dos Mindlin, imagino o trabalho e alegria do colecionador ao encontrá-la, reuni-la e oferecê-la a seus verdadeiros donos: os leitores e pesquisadores interessados na formação do Brasil. Difícil saber o que despertou, em Mindlin, o desejo de fazer da coleção de livros um projeto de vida. Arriscaria dizer que, como meu pai, Mindlin era filho de imigrantes, nasceu em 1916 e se apaixonou tanto pelo país que foi buscar nas fontes originais a história e as histórias do Brasil.

Ele achou muito mais do que buscava: Mindlin declarava ter lido 7 mil dos quase 40 mil títulos de seu acervo. E nisso residia uma questão que tirava seu sono. Para ele, seus livros só faziam sentido juntos: o valor da biblioteca estava no conjunto dos títulos, e não em volumes ou coleções isoladas. Nesse sentido, a doação à USP representava a eliminação do risco de desmembramento do acervo.

A USP, aliás, pegou o bastão e fez sua parte. Além de biblioteca, o lugar funciona como um ativo centro de cultura, pesquisa e produção de conhecimento sobre livros e o Brasil. Há eventos, debates, cursos, exposições e tantas outras atividades regulares. Parte do acervo também pode ser acessada através de buscas digitais, processo iniciado por Mindlin e Guita quando os livros ainda estavam no Brooklin.

Embora não fossem vaidosos, é impossível que José e Guita não tivessem orgulho do que legaram ao país. É um case de contribuição humana e merece ser sempre lembrado. Por falar em lembrança, quem sabe eu não receba em breve um novo e-mail com a relação de importantes bibliotecas privadas que se tornaram públicas, como a de Guita e José Mindlin?

Fonte: OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

Exposição sensorial se transforma em ciclo de debates na USP

Nas mesas propostas pela área de Artes Visuais da Universidade de São Paulo, público poderá participar, usufruir e opinar

Desde fevereiro, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da Universidade de São Paulo (USP) está aberta para o público com a exposição sensorial “Toque”, que, por meio de 255 obras táteis, convida os visitantes a se relacionar com autorretratos feitos pelas mais diversas pessoas.Agora, além de prorrogar o fim da exposição para 25 de abril, a instalação contará com três debates, que buscarão aprofundar as discussões trazidas pelos seus eixos temáticos. O ciclo de debates “Olhares Transversos – Programas Públicos” acontecerá ao longo do mês de março. As próximas sessões, gratuitas, ocorrerão nos dias 20 e 27, sempre às 14h.

A mostra, desde o início, chamou a atenção não somente pelo tema, mas por ir além do modo tradicional de se absorver o significado da obra ao observá-la. Inteiramente composta por autorretratos produzidos por pessoas que não necessariamente possuem formação artística, videntes e sem visão e pacientes psiquiátricos, entre outros, ela coloca todos lado a lado, como humanos, e sugere que o visitante explore toda a extensão dos trabalhos por meio do tato.

Tema

Na tentativa de destrinchar a complexidade temática, o artista plástico Hélio Schonmann, criador da mostra, convidou a professora Lilian Amaral, doutora em Artes Visuais pela USP, para promover a curadoria de três mesas de debate.

Esperamos que as pessoas possam participar, usufruir e opinar. Menos do que debate, o que propomos é que as pessoas se sintam convidadas a vir conversar. É uma oportunidade de fala e de escuta coletiva”, afirma Lilian.

Nesse evento, psicólogos, pedagogos, terapeutas ocupacionais e historiadores discutirão os pontos de encontro entre a arte e a terapia. Será abordada também a criação de um Memorial da Convivência Criativa, iniciativa ainda em desenvolvimento que pretende reunir as memórias de 30 anos de políticas públicas que envolvem arte, saúde e cultura simultaneamente.

Não existe um precedente anterior à ideia desse tipo de memorial. Ele pressupõe criar uma plataforma on-line, com eventos, atividades, cursos e palestras, feitos ao longo de três décadas, sobretudo nos Centros de Convivência e Cooperativa, em São Paulo”, destaca Lilian.

Mediação

No dia 20 de março, será realizada a segunda mesa de discussões. Nela, especialistas vão analisar pesquisas e práticas de agentes do campo da arte e da filosofia, relacionadas à integração e à acessibilidade dessas áreas do conhecimento. A mediação será feita por Schonmann, que, além de ser o curador responsável pela mostra, colabora na coordenação do ciclo.

No encerrando do ciclo “Olhares Transversos – Programas Públicos”, em 27 de março, o encontro proporá uma reflexão sobre a arte como mediadora entre as esferas do indivíduo, da cultura e do ambiente. Com a participação de artistas, arte-educadores, terapeutas e ambientalistas, a mesa terá a coordenação da professora Lilian.

Esperamos que, com essa oportunidade que nos foi dada pela USP, o ciclo de debates possa mobilizar discussões sobre as pautas urgentes de política pública que a exposição ‘Toque’ atinge, e que ganhem um alcance qualificado proporcionado pelo ambiente universitário”, conclui Lilian.

serviço

Ciclo de debates Olhares Transversos – Programas Públicos
20 e 27 de março, das 14h às 18h
Sala Villa-Lobos da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP (Rua da Biblioteca, 21 – Cidade Universitária – São Paulo – SP)
Entrada grátis
Mais informações: (11) 2648-0841

Fonte: Portal do Governo

Webinar de Apresentação da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP

Primeiro webinar de 2019 do Grupo Brasileiro de Usuários DSpace, onde será apresentado o repositório DSpace da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP (Saiba mais: https://www.bbm.usp.br/node/1).

Inscreva-se: https://duraspace.zoom.us/webinar/register/WN_klqY1mCRSmCpf1fr1sS7MQ

Assinado protocolo para a digitalização de gabinetes de leitura portugueses

Os gabinetes de leitura portugueses de Belém do Pará, Salvador e Recife vão começar a ser digitalizados. Carneiro explica voto aos emigrantes.

O protocolo que enquadra legalmente o projecto do Governo português para a digitalização do acervo histórico, literário e documental dos gabinetes de leitura portugueses de Belém do Pará, de Salvador da Baía e Recife, no Brasil, é assinado este sábado, no Rio de Janeiro, na presença do secretário de Estado das Comunidades, José Luís Carneiro, que promoveu e dinamizou este projecto e garantiu o seu financiamento pelos empresários da diáspora portuguesa, como o PÚBLICO noticiou.

O protocolo envolve o Ministério dos Negócios Estrangeiros e o Ministério da Cultura. O MNE dá no terreno o apoio da embaixada e da rede consular, bem como assegura o financiamento obtido pelo Gabinete de Apoio ao Investidor da Diáspora, junto de empresários portugueses no estrangeiro e lusodescendentes. Ao Ministério da Cultura competirá garantir a equipa técnica que irá avaliar o espólio dos gabinetes e os meios para a sua digitalização, bem como fornecer às entidades brasileiras cópias digitalizadas de obras existentes na Biblioteca Nacional.

Os três gabinetes são propriedade e portugueses ou lusodescendentes (e administrados por eles) e possuem importantes espólios literários e documentais, representando um acervo raro, a que se junta o Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro. Esta instituição já tem um projecto de recuperação e dinamização próprio, garantido pelo Estado português que participa na administração com poder de veto.

A deslocação do secretário de Estado das Comunidades ao Brasil tem ainda como objectivo divulgar as novas regras eleitorais aprovadas em Julho 2018 pela Assembleia da República que facilitam o exercício do direito de voto às comunidades portuguesas no estrangeiro. José Luís Carneiro realiza duas sessões públicas sobre o assunto sob o título de “Diálogos com as Comunidades: Leis Eleitorais + Participação”, uma realizou-se na sexta-feira em São Paulo, a segunda decorre este sábado ao princípio da tarde no Liceu Literário Português.

As mudanças introduzidas, como o PÚBLICO noticiou, determinam que o recenseamento eleitoral dos emigrantes passa a ser automático como o dos cidadãos em território nacional e feito através do registo do cartão de cidadão nos consulados. Preparada em conjunto pela secretária de Estado Adjunta da Administração Interna, Isabel Oneto, e pelo secretário de Estado das Comunidades, José Luís Carneiro, esta alteração fará, de acordo com os cálculos do executivo, aumentar em cerca de um milhão o número de potenciais votantes fora de Portugal. Para isso, o Governo está a preparar o aumento substancial do número de mesas de voto.

Fonte: PÚBLICO 

Exposição propõe uma viagem pela história da litografia

Em cartaz até 28 de fevereiro, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, reúne itens raros e obras contemporâneas

Texto por Claudia Costa

Exposição traz 16 itens raros em vitrines nas laterais e 40 trabalhos inéditos da artista luso-brasileira São Queiroz – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens.

Primeira de uma série de exposições que serão realizadas no Complexo Brasiliana – que envolve os acervos da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) e do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP –, São Queiroz: Litografia e Enigma apresenta um diálogo entre os muitos álbuns e livros de viajantes produzidos no século 19 com o trabalho da artista contemporânea Conceição Queiroz, que têm em comum a litografia. “A ideia é extroverter esses acervos e, uma das formas, mais interessante e provocativa, é chamar artistas contemporâneos, que não circulam no ambiente acadêmico, para dialogar com as obras históricas”, afirma Luiz Armando Bagolin, filósofo, docente e pesquisador do IEB, que também assina a curadoria da mostra.

Na técnica da litografia, a pedra calcária recebe desenho e tratamento químico originando uma matriz de onde podem sair centenas de exemplares – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Segundo o professor, no século 19, por uma série de fatores, mas principalmente pelo fator econômico, a litografia se tornou a principal técnica de impressão e disseminação de imagens. E ainda hoje continua fazendo história, como no curso de Artes Visuais da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, onde os alunos aprendem a técnica. Ou no caso da artista convidada, a portuguesa Conceição Queiroz – que se nomeia São Queiroz –, que utiliza a litografia no próprio trabalho. “Ela não se baseou em nenhuma das obras selecionadas, seu trabalho tem autonomia”, informa o professor. “E era isso que queríamos, trazer um olhar contemporâneo sobre a litografia e confrontar com o uso histórico que foi feito dessa mesma técnica nesses álbuns desses artistas viajantes”, acrescenta.

Esse confronto permite resgatar aquilo que foi produzido no passado, que é guardado para estudo e pesquisa, e conhecer o que está sendo realizado hoje.” Bagolin, que foi diretor da Biblioteca Mário de Andrade, informa que, em geral, a arte só entra no acervo da Universidade quando é passado, quando se transforma em item raro e de coleção. “Nós não acolhemos o que se produz hoje porque ainda não se transformou em história. Essa exposição e as que virão em breve têm a intenção de expor os acervos, e também de acolher a arte contemporânea para que a Universidade se atualize e se abra para o que está sendo feito aí fora”, afirma.

Ilha dos Amores, trecho de Os Lusíadas, de Camões, com litografias aquareladas à mão por Cícero Dias – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Poema de Carlos Drummond de Andrade, com litografia de Enrico Bianco, discípulo de Portinari – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Ontem e hoje

No total são 16 itens históricos do acervo da BBM e 40 litografias e monotipias inéditas da artista São Queiroz. A exposição traz álbuns de viagem, com vários exemplos de como a litografia foi utilizada no século 19, incluindo álbuns científicos, de viagem, de memória, além de crônicas, e as obras contemporâneas com a mesma técnica de uma artista também viajante, reunindo suas impressões, esboços, anotações e fotografias de viagens que fez pelo mundo. Os objetos raros estão dispostos em vitrines nas laterais. No meio do espaço estão as obras contemporâneas suspensas.

Professor e curador da mostra Luiz Armando Bagolin: “Primeira de uma série de exposições que vão promover o diálogo entre itens raros e obras contemporâneas” – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

O layout da exposição, como conta o curador, também foi desenhado a partir de duas ideias: primeiro, é como se a história abraçasse o presente; e segundo, acompanha o projeto do próprio prédio – assinado por Eduardo Almeida e Rodrigo Mindlin – em que tudo é aparente. “A exposição segue o mesmo princípio, com as molduras transparentes, onde se vê a montagem, os parafusos, a frente e as costas dos trabalhos, com os borrões que se formam quando a oxidação da tinta passa pelas fibras do papel”, explica.

Para a mostra, foram selecionados livros raros e álbuns, como o Journal of a Voyage to Brazil, and residence there, during part of the years 1821, 1822, 1823 (1824) de Maria Graham, preceptora dos filhos de D. Pedro I; Views in South America, from original drawings made in Brazil, the river Plate, the Paraná, & c., de William Gore Ouseley; o Reise in Brasilien (1823 a 1831), de Johan B. Spix e Carl F.P. Von Martius; e destes mesmos autores, o incrível Flora Brasiliensis (1840 e 1906), obra que, em sua íntegra, possui 40 volumes e 6.246 litografias. “A flora mais completa que existe no mundo e que demorou mais tempo para ser catalogada”, ressalta o professor.

Journal of a Voyage to Brazil, and residence there, during part of the years 1821, 1822, 1823 (1824), de Maria Graham, preceptora dos filhos de D. Pedro I – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A exposição conta ainda com exemplares de importantes trabalhos de poetas brasileiros, como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, ilustrados com litografias. Destaque para 6 Cantos do Paraíso, com tradução de Haroldo de Campos e litografias de João Câmara, referência na arte brasileira do século 20.  Destaque também para um trecho de Os Lusíadas, de Camões, com litografias de Cícero Dias aquareladas à mão. “Uma preciosidade”, como define o professor.

Jornal A Caricatura que traz sátira política ao mostrar militares dentro de uma pera podre – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A exposição também traz parte do processo de confecção de uma litografia em vídeos de cerca de três minutos em looping, com a artista trabalhando em seu próprio ateliê, além de seu depoimento – há outro filme com o processo de montagem da mostra. Além disso, em uma vitrine estão os materiais utilizados na litografia, como a tinta, a pedra, rolos de impressão e equipamentos de desenho, e uma outra com cadernos e esboços da artista.

É preciso um olhar cuidadoso e demorado para perceber as relações entre as obras. “Há relações por forma, por cor e por texturas”, informa Bagolin, citando um jornal de caricaturas, com sátiras políticas em que muitas ilustrações foram feitas com litografias. “Uma delas traz os militares dentro de uma pera podre; na frente da vitrine, na obra da artista São Queiroz, se vê uma estrutura como a da pera cortada ao meio e, nas costas do trabalho, o aspecto de tinta escorrida dá o ar de sujo, podre”, relaciona o curador.

Vídeo em looping mostra a artista trabalhando em seu ateliê, além do seu depoimento – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Ainda cita outra obra: La Place, com a figura de um mar revoltoso, que dialoga com o tríptico Viagem I, II e III, que começa sem cor e termina com o azul em alusão à água. “Jogos do claro e escuro, da sombra sendo rebatida, e reflexos permeiam toda a mostra”, relata, acrescentando que a aproximação e o distanciamento também podem mudar o jeito de ver as obras, tanto os trabalhos históricos, com seus detalhes, como a obra da artista, que ao receber as cores vai “escondendo” a imagem.

O público passeia pela exposição, conhecendo o novo mundo retratado pelos historiadores do velho mundo, fazendo suas próprias conexões a partir de impressões do mundo atual, e ainda pode acompanhar virtualmente o catálogo da mostra, com todos os trabalhos e a biografia da artista. E o professor já adianta a próxima exposição, prevista para junho, Alice no País das Maravilhas, interativa e voltada ao público infantil.

Catálogo da mostra virtual traz todas as obras e biografia da artista – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A exposição São Queiroz: Litografia e Enigma fica em cartaz até o dia 28 de fevereiro, com visitação de segunda a sexta, das 8h30 às 18h30, na Sala Multiuso da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (Rua da Biblioteca, 21, Cidade Universitária), com acessibilidade para cadeirantes. A entrada é gratuita. Mais informações pelo telefone (11) 2648-0310 ou no site.

Fonte: Jornal da USP

Revista ilumina acervo raro da Biblioteca Brasiliana

Com “Revista BBM”, Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin busca visibilidade para suas coleções e pesquisas

Texto por Claudia Costa

Sala da Biblioteca de José Mindlin, com vista para a jabuticabeira – Fotos: Acervo Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin

Segundo os editores, a revista, neste primeiro momento, expõe pesquisas feitas com base no rico acervo da biblioteca e, “curiosa e deliciosamente, algumas de suas gralhas, pastéis e afins”. É o caso do texto de Thiago Mio Salla, doutor em Ciências da Comunicação e em Letras pela USP, que apresenta a segunda edição de Poesias completas, de Machado de Assis, publicada em 1902, na qual a primeira sílaba da palavra cegara foi estampada não com “e” mas com “a”, o que alterou de forma radical o sentido da frase.

Nesta edição de estreia, o destaque é o dossiê Viajantes, com textos dedicados aos relatos de visitantes que, em sua maioria, chegaram ao Brasil com o estabelecimento da corte portuguesa. O tema tem atravessado séculos e ainda hoje é objeto de pesquisas de estudiosos e teóricos, que buscam nesses diários informações históricas, estéticas e literárias.

Os editores citam alguns dos mais célebres viajantes franceses, como Jean-Baptiste Debret, Voyage pittoresque et historique au Brésil (1839), Charles Ribeyrolles, Brésil pittoresque (1859), e Auguste de Saint-Hilaire, Voyage aux sources du Rio de S. Francisco et dans la province de Goyaz (1847). Ou, ainda, o alemão Friedrich Wilhelm Sieber, voltado a estudos geológicos e botânicos na bacia amazônica, e os naturalistas, também alemães, Georg Freyreiss (1789-1825) e Friedrich Sellow (1789-1831) acompanhando o príncipe Maximilian von Wied-Neuwied. Todo esse material constitui um importante legado da vida pessoal dos exploradores, revelando impressões sobre a descoberta do novo território, não apenas sobre suas dimensões gigantescas, mas também por sua diversidade étnica e geográfica.

O título que abre o dossiê, Representações e redes transatlânticas – relações França-Brasil nos escritos de um viajante oitocentista, apresenta o resultado do projeto de pesquisa de Ana Beatriz Demarchi Barel, da Universidade Estadual de Goiás (UEG), junto à BBM acerca de dois textos que integram o conjunto da obra do viajante, historiador e escritor francês Ferdinand Denis (1789-1890), um dos mais importantes atores das relações franco-brasileiras do século 19.

Segundo a pesquisadora, Ferdinand Denis vem ao Brasil, assim como muitos viajantes europeus, em busca de fortuna, tendo vivido no País entre 1816 e 1819. “Ele viajará pelo País, durante esse período, descrevendo, em seu diário e nas cartas enviadas à família, as paisagens, os hábitos e os costumes brasileiros. Seus escritos, material epistolar de natureza íntima e familiar, se aliam a um precioso acervo de informações sobre o Brasil oitocentista compreendido pelo olhar estrangeiro – sua natureza, suas cidades, seus costumes, seus habitantes e a forma como se relacionam em sociedade –, reflexões sobre nossa produção literária”, escreve Ana Beatriz.

Frei Agostinho de Jesus (c.1600/10-1661) – um artista beneditino na fronteira entre dois mundos – a América portuguesa e espanhola é assunto do arquiteto Rafael Schunk, enquanto relatos fantásticos de inúmeros viajantes coloniais, entre eles Jean de Léry, são tratados pelo sociólogo Carlos Alberto Dória. Como o próprio Léry descreve: “[…] depois de minha viagem à América […] Devo confessar que, embora não aceitando como verdadeiras as fábulas encontradiças em vários autores […] vi coisas tão prodigiosas quanto tantas outras tidas por impossíveis. Completa o dossiê texto do historiador Marcos Horácio Gomes Dias, contextualizando a exploração das minas no século 18, passando por Minas Gerais e Goiás.

A revista traz ainda a seção Raros e raríssimos, em que Milena Ribeiro Martins, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) se debruça no romance Frida Meyer, de Vivaldo Coaracy, para tratar da sociabilidade feminina nos anos 1920 em Porto Alegre. Já em Memória, Ana Luiza Martins expõe sua experiência de investigação na Biblioteca Mindlin e presta homenagem ao bibliófilo José Mindlin.

Em Publicações BBM, a invenção das “brasilianas” no século 20 é tratada por Thiago Lima Nicodemo, da Universidade de Campinas (Unicamp), que relata a contribuição  de Rubens Borba de Moraes (1899-1986), bibliotecário, bibliógrafo, bibliófilo e historiador, para a construção da coleção Guita e José Mindlin. Fecha a publicação, as Oito viagens de Gustavo Piqueira, resenha da professora da ECA Marisa Midori Deaecto para o livro As oito viagens ao Brasil, que reúne oito pequenas brochuras contendo diferentes versões das viagens ao Novo Mundo. Como a própria autora diz: “São oito viagens que podem bem ser lidas como oito viagens de um viajante deslocado no turbilhão de imagens sem memória que invadem nossas cidades”.

O projeto

Plinio Martins Filho conta que, quando ingressou na Brasiliana, tinha como projeto desenvolver um setor de publicações, como existe em todas as grandes bibliotecas. O objetivo seria divulgar o acervo, as publicações, fac-símiles e, sobretudo, as pesquisas feitas na BBM, além das suas atividades, como os seminários acerca da bibliofilia, das brasilianas e de tudo que diz respeito ao livro.

Esse objetivo é reiterado pelo diretor da BBM, que ressalta a especificidade da biblioteca e o acesso restrito a pesquisadores. “Com a revista, queremos divulgar as pesquisas realizadas com base no acervo”, diz Zeron. Ele também adianta que a perspectiva é digitalizar toda a coleção da biblioteca.

A edição da Revista BBM tem 188 páginas e sua viabilidade contou com o apoio de duas empresas: a Casa Rex, de Gustavo Piqueira, que realizou todo o projeto gráfico, e da Gráfica Santa Marta, com a impressão dos 1 mil exemplares. Segundo Martins Filho, haverá distribuição em bibliotecas públicas, mas uma parte também será comercializada pela Editora da USP (Edusp). Uma versão on-line, com todo o conteúdo da revista impressa, segue em preparação.

Com periodicidade semestral, a próxima edição, prevista para junho ou julho deste ano, traz o tema “Bibliofilias: circuitos e memórias”, além de temas sobre preservação e conservação que estiveram presentes em um seminário dedicado a Guita Mindlin. Segundo os editores, a tarefa da revista não é pequena. Com seções que não são fixas e podem mudar a cada novo número de acordo com o tema, seus conteúdos “abarcam a raridade de determinadas obras, os pastéis (…), a bibliofilia e o estudo das formas imateriais de edição e mesmo correção e circulação de uma obra. O que significa dizer uma promessa de felicidade – para tomar de empréstimo uma expressão de Stendhal – para quem ama os livros”.

O primeiro número da Revista BBM (Publicações BBM, 188 págs., R$ 35,00) pode ser adquirido em todas as livrarias da Edusp. Mais informações pelo e-mail bbm@usp.br ou pelo telefone (11) 2648-0310.

Fonte: Jornal da USP

Projeto da Biblioteca Brasiliana convida à leitura

Leitura de Autores promove encontro, nesta quarta-feira, dia 24, com o escritor Marcelino Freire

Texto por Claudia Costa

A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, local do evento Leitura de Autores – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

O ciclo de palestras Leitura de Autores promove encontros com escritores contemporâneos sobre sua formação como leitores e como essas leituras influenciaram em seu desenvolvimento pessoal e profissional. Promovido pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) e pelo Núcleo de Estudos do Livro e da Edição (Nele) da USP, o projeto é coordenado pelos professores da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP Plinio Martins Filho e Jean Pierre Chauvin. O próximo convidado é o escritor e editor pernambucano Marcelino Freire, que participa do encontro no dia 24 de outubro, às 16 horas, na Sala Villa-Lobos do Complexo Brasiliana.

Segundo Martins Filho, a Biblioteca Brasiliana tem uma característica especial. “Ela não é uma biblioteca de consulta imediata e sim de obras raras, de primeiras edições, com um acervo voltado ao pesquisador. Mas entre as atividades de uma biblioteca deve estar sempre em primeiro lugar a questão da leitura, que era de alguma forma uma obsessão de José Mindlin, que dizia que queria inocular um vírus nas pessoas, e que esse vírus seria o da leitura. Claro que não temos essa pretensão, mas queremos desenvolver atividades em que a leitura seja objeto de percepção, audição e desenvolvimento das pessoas”, afirma.

Foi a partir daí que surgiu a ideia de convidar autores para falar de suas leituras, conta Martins. O que eles leram para se transformar em escritores? Como eles chegaram a essa carreira? Foi intuição, foi formação? São algumas das questões que os escritores vão responder, principalmente, para alunos de colégios públicos, como diz o professor. “Porque quando se fala em autores, esses jovens só se lembram de Machado de Assis e José de Alencar”, completa. Além desse público, como escreve o professor Chauvin no texto de apresentação do projeto, “o evento visa a estimular o encontro de profissionais da palavra (em verso e prosa) com aqueles que já são aficionados por literatura, mas também leitores em potencial: alunos, pesquisadores, professores, escritores amadores etc.”.

Plinio Martins Filho: “O projeto visa a desenvolver atividades em que a leitura seja objeto de percepção, audição e desenvolvimento das pessoas” – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

A edição de estreia do projeto traz autores contemporâneos. O primeiro encontro, realizado em setembro, contou com a participação da escritora, jornalista, professora e crítica de arte brasileira Veronica Stigger, que depois de três livros de contos lançou seu primeiro romance Opisanie swiata (Descrição do mundo, em polonês), com o qual ganhou vários prêmios – na plateia, alunos do Colégio José Mindlin (no Grajaú), uma homenagem ao bibliófilo.

O segundo convidado foi Rodrigo Lacerda, que, segundo Martins, é um escritor jovem, mas com uma carreira consolidada, tanto no âmbito da ficção, da narrativa, do conto, quanto como excelente tradutor. Entre suas obras, o professor cita dois livros do autor diretamente ligados à questão da leitura, O Fazedor de Velhos (Cosac & Naif, 2008, premiado com Jabuti, prêmio da Biblioteca Nacional e prêmio da FNLIJ) e Hamlet ou Amleto? Shakespeare para jovens curiosos e adultos preguiçosos (Zahar, 2015, Prêmio Jabuti), um guia de leitura de obras do dramaturgo inglês.

A linguagem “teatral” de Marcelino Freire

Leitura de Autores traz agora Marcelino Freire, um dos mais festejados contistas brasileiros da nova geração. É dono de uma prosa marcada pela representação da violência do Brasil contemporâneo, narrada em primeira pessoa e com uma linguagem baseada na oralidade, o que confere uma veia teatral a suas obras. “Eu escrevo para dar vexame”, define o autor. “Minha prosa solta o verbo, solta os cachorros do peito, abocanha a perna de quem passa. Sou meio um cachorro louco. Mas posso abanar o rabo idem, se for o caso.”

Segundo o escritor, seu gosto pela leitura surgiu aos nove anos de idade, quando leu uma poesia de Manuel Bandeira. “A partir daí fui atrás de mais poesias do poeta recifense. Fiquei orgulhoso de saber que ele era pernambucano igual a mim. A partir daí também quis ser doente igual ao Bandeira. A poesia dele foi uma maldição e uma salvação na minha vida”, afirma. Além da poesia, o teatro é o outro “culpado” por ele seguir essa carreira de escritor. “A leitura de poesia foi me levando e o fato de eu ter feito teatro também.”

Freire começou sua carreira escrevendo para teatro, com a peça O Reino dos Palhaços (1981), e já teve vários contos adaptados para a cena teatral. “Hoje eu escrevo meus contos pensando em teatro. Construo, assim, uns monólogos. Quando escrevo, penso no corpo e no gesto de meus personagens.” Outra inspiração é sua mãe, “muito teatral”, como ele afirma. “A fala nordestina dela tinha poesia e tinha tragicomédia, e me inspirou tal qual Guimarães Rosa.” E acrescenta: “O silêncio do meu pai também foi inspirador. Meu pai está sempre nas entrelinhas de minha escrita”.

Marcelino Freire: “O livro que eu mais leio é a rua. A rua está aberta sempre à criação pura” – Foto: Coletivo Garapa/Flickr.com

 

Entre os seus autores preferidos cita Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Noémia de Sousa, Carolina Maria de Jesus, Jean Genet e Manoel de Barros. Dos atuais, André Sant’Anna, Andréa Del Fuego, Aline Bei, Sérgio Vaz, Ferréz, Lourenço Mutarelli e muitos poetas. “Leio poesia sempre. E ensaios também. Estou fissurado em ensaios e diários. É muita gente ao mesmo tempo…” Mas o livro que mais lê, segundo ele, é a rua. “A rua está aberta sempre à criação pura.”

É autor, entre outros livros, de Angu de Sangue (2000) e EraOdito (2002) pela Ateliê Editorial; Contos Negreiros (Record, 2005, Prêmio Jabuti, traduzido na Argentina e México); e Nossos Ossos (Record, 2013), ganhador do Prêmio Machado de Assis de Melhor Romance pela Biblioteca Nacional e publicado na Argentina e na França. Também é idealizador e organizador da antologia de microcontos Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (Ateliê Editorial, 2004).

Freire é um dos integrantes do coletivo EDITH, pelo qual lançou o livro de contos Amar É Crime (2011), marcando também presença em diversas antologias no Brasil e no exterior – a última, Olhar Paris(Editora Nós, 2016). E criador do evento Balada Literária, que reúne escritores e artistas para debater a arte contemporânea. “Evento que toco na guerrilha desde 2006, anual e ininterruptamente”, adiantando que a 13ª edição será realizada de 20 a 25 de novembro.

Também escreve o blog Ossos do Ofídio, uma espécie de diário em que publica ensaios, poemas e comenta acontecimentos da atualidade; e acaba de lançar seu livro, depois de cinco anos, Bagaceiro(Editora José Olympio). “Estou de mãos dadas com esse livro. É paixão recente. É um livro de contos que, na verdade, eu chamo de ‘ensaios de ficção’. Misturo prosa e causos, e tem muita mentira lá. Adoro mentir.” Fora isso, diz, “estou de olho no Brasil. Estou juntando forças para lutar, fora e dentro da literatura. Não tem descanso para mim. Se eu descansar eu morro, ou vejo meu país morrer. Não desejo para ninguém este fim…”

Cartaz do projeto, criado por Piqueira, traz uma batata com diversas cores, em uma metáfora para as várias interpretações tanto da imagem quanto da leitura, segundo o coordenador e professor Plinio Martins Filho – Foto: Divulgação / BBM – USP (Clique na imagem para ampliar)

Mais leituras

O projeto Leitura de Autores recebe ainda neste ano, no dia 28 de novembro, o professor e poeta José de Paula Ramos Jr. E para a próxima edição, prevista para março de 2019, já estão confirmados Milton Hatoum, considerado um dos mais importantes escritores brasileiros, Arnaldo Antunes e José Agnaldo Gonçalves, em um encontro onde, como conta Martins, o professor (José Agnaldo Gonçalves) fala das leituras que fez, e o aluno (Arnaldo Antunes) diz o que assimilou, transformando-se em autor e músico. Um convite ao universo da leitura que, como escreve Chauvin, “mais não digo, a fim de evitar spoiler”.

O projeto Leitura de Autores, com Marcelino Freire, acontece no dia 24 de outubro, das 16 às 18 horas, na Sala Villa-Lobos da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (R. da Biblioteca, 21, Cidade Universitária, tel. 3091-1154). As inscrições são gratuitas e podem ser feitas pelo e-mail bbm@usp.br.

Fonte: Jornal da USP

Exposição inédita traz raridades de Machado de Assis

A partir de 28 de setembro, mostra na USP apresenta edições raras e uma faceta desconhecida do escritor

No total, a exposição traz 108 itens, incluindo 17 periódicos com textos de Machado de Assis e 40 obras coletadas postumamente por pesquisadores – Foto: Divulgação / PRCEU – USP

A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP apresenta, de 28 de setembro a 22 de novembro, a exposição inédita e gratuita Machado de Assis na BBM: Primeiras Edições e Raridades. Nesta quinta-feira, dia 27, ao meio-dia, será realizada a abertura da mostra, com a apresentação de peças de Ernesto Nazareth em solo de piano e uma mesa-redonda com especialistas.

Com o objetivo de destacar a amplitude e variedade da obra de Machado de Assis, a mostra conta com livros, jornais e revistas com escritos machadianos. Parte do material será disponibilizada em tablets, para que o visitante veja os detalhes das obras raras.

A Revista Moderna, que circulou no Brasil no final do século 19 – Foto: Divulgação / PRCEU – USP (Clique na imagem para ampliar)

Ao todo são 108 itens, incluindo 17 periódicos com textos de Assis e 40 obras coletadas postumamente por pesquisadores. A seleção convida o visitante a conhecer outra faceta do escritor, que teve uma carreira de mais de 50 anos, na qual atuou em dezenas de jornais e revistas.

A maioria de seus textos foi publicada pela primeira vez na imprensa antes de encontrar o formato mais perene do livro, em uma variedade de gêneros, como poesia, crítica literária e teatral, conto, romance e correspondências.

A curadoria é do professor Hélio de Seixas Guimarães, pesquisador da área de literatura brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Ele trabalhou três anos no projeto, investigando o acervo da BBM, que inclui todas as primeiras – e raras – edições dos livros de Machado de Assis.

Anúncio de obras de Machado de Assis para venda – Foto: Divulgação / PRCEU – USP (Clique na imagem para ampliar)

Alguns exemplares são muito singulares, por trazerem dedicatórias de Machado de Assis a figuras importantes do seu tempo, como Salvador de Mendonça, José Veríssimo e Joaquim Nabuco”, ressalta o pesquisador. “Em alguns casos, pelas dedicatórias é possível recompor a trajetória do exemplar, que passou por vários proprietários”, indica.

O curador aponta ainda outros destaques da mostra: “Estará exposta uma edição do livro Poesias Completas, bastante cobiçada por colecionadores por conter um famoso erro tipográfico que formou uma ‘palavra feia’. Outra curiosidade é ver as Memórias Póstumas de Brás Cubas, que geralmente associamos ao formato do livro, em sua primeira publicação nas páginas da Revista Brasileira”.

A exposição pode ser visitada gratuitamente de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 17h30. A BBM fica na Rua da Biblioteca, 21, Cidade Universitária. Mais informações e agendamento educativo para grupos podem ser encontrados no site bbm.usp.br.

A exposição Machado de Assis na BBM: Primeiras Edições e Raridades fica em cartaz de 28 de setembro a 22 de novembro, de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 17h30, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP (Rua da Biblioteca, 21, Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis. Mais informações podem ser obtidas no site da BBM.

Michel Sitnik

Fonte: Jornal da USP

Edital seleciona propostas de estudo no acervo da Brasiliana

Programa de residência em pesquisa da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP recebe inscrições até 30 de setembro

Acervo da biblioteca é constituído por livros, folhetos, periódicos, mapas, manuscritos, gravuras etc. Todos esses materiais abrangem uma grande variedade de temas relacionados ao Brasil – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM), órgão da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU) da USP, recebe até 30 de setembro inscrições para seu programa de residência.

O objetivo é que pesquisadores nacionais e estrangeiros desenvolvam projetos relacionados ao acervo da BBM, um dos maiores e mais ricos do Brasil. O público-alvo são doutorandos, pesquisadores seniores ou com disponibilidade parcial para pesquisa, além de professores licenciados e professores ou pesquisadores independentes.

Nesta quarta edição, o edital oferece três oportunidades para o projeto 3 vezes 22. Trata-se da antecipação das celebrações, em 2022, do bicentenário da Independência do Brasil e do centenário da Semana de Arte Moderna.

São previstas ainda mais três vagas para projetos relacionados ao acervo da BBM com outros recortes temáticos, além de um projeto sobre conservação e restauro e uma pesquisa dedicada ao material existente no arquivo da biblioteca.

As atividades dos projetos homologados devem começar em novembro de 2018. Os trabalhos terão duração de até seis meses, com possibilidade de prorrogação. A BBM oferece para o pesquisador-residente acesso à sua coleção, incluindo infraestrutura de trabalho e gabinete de estudo. Não há previsão de bolsas — os interessados devem contar com financiamento próprio.

Detalhes sobre prazos, processo de avaliação e cronograma estão disponíveis no site.

Inaugurada em 2013 na Cidade Universitária (Espaço Brasiliana, Rua da Biblioteca, 21), a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin abriga o acervo doado pelo casal à USP. Com seu expressivo conjunto de livros e manuscritos, a brasiliana reunida pelo bibliófilo e sua esposa é considerada a mais importante coleção do gênero formada por particulares. São 32 mil títulos que correspondem a 60 mil volumes.

Da Comunicação Institucional da PRCEU

Fonte: Jornal da USP

Gabinetes portugueses de leitura no Brasil preparam digitalização de obras

Em setembro chegará ao Brasil uma equipa de técnicos portugueses para identificar obras de maior valor para digitalizar nos gabinetes de Belém, Recife e Salvador.

Os gabinetes portugueses de leitura em Belém, Recife e Salvador vão avançar com uma digitalização de parte do seu acervo literário, cujo custo será financiado por empresários e investidores da diáspora, segundo indicou ao jornal “Público” o secretário de Estado das Comunidades, José Luís Carneiro.

De acordo com o governante, “já em Setembro seguirá para o Brasil uma equipa de técnicos para identificar obras de maior valor que não estejam digitalizadas nos três gabinetes de leitura portugueses”.

O jornal não refere, contudo, quem serão os empresários que irão financiar este trabalho nem qual o montante de investimento necessário para o projeto.

Os gabinetes de leitura de Belém e de Salvador têm cerca de 40 mil livros cada um, enquanto o de Recife conta com 80 mil títulos. Entre as obras incluem-se “manuscritos e primeiras edições de grande parte dos mais importantes escritores portugueses, como Camões, Padre António Vieira, Fernando Pessoa, Camilo Castelo Branco, além de documentos manuscritos e cartas de marear desde o tempo das descobertas”, destaca José Luís Carneiro.

A iniciativa da digitalização surgiu depois do incêndio que destruiu o espólio do Museu da Língua Portuguesa em São Paulo. Um primeiro projeto avançou com a realização em abril último, na Embaixada de Portugal em Brasília, de uma reedição de “A arte da cozinha”, de João da Matta, de 1876.

Fonte: Portugal Digital

Novo guia mostra museus e acervos da USP

Publicação foi produzida pelo Centro de Preservação Cultural da Universidade

O histórico prédio do Museu Paulista da USP, no bairro do Ipiranga, em São Paulo – Foto: Francisco Emolo/Arquivo Jornal da USP

O Centro de Preservação Cultural (CPC) da USP acaba de produzir e disponibilizar na internet o Guia de Museus e Acervos da USP, que mostra o rico patrimônio cultural da Universidade. A obra traz informações sobre 45 unidades da USP, com seus acervos e espaços acessíveis ao grande público. Em agosto, o guia deverá ganhar uma versão impressa.

O guia possui dois objetivos, segundo a pesquisadora Cibele Monteiro, responsável pela seção de acervos e coleções do CPC: divulgar os museus e acervos da Universidade, tanto para a comunidade USP como para o público externo, e aumentar o interesse das pessoas por esse patrimônio. “Pensamos que seria importante a publicação de um guia para chamar a atenção da própria Universidade e, assim, podermos pensar na criação de políticas de preservação e de redes de especialistas para o desenvolvimento desses acervos, que são de todas as áreas da Universidade”, comenta Cibele.

Obras raras do acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Os acervos são muito diversificados. Há acervos formados antes mesmo da criação da Universidade, como é o caso do Museu Paulista. Outros são frutos de doação, como o da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM), ou formados por aquisição de acervos de intelectuais, como é o caso do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB). Mas também há os acervos produzidos por pesquisas feitas na Universidade. Por exemplo, o Arquivo Geral da USP recebeu recentemente o acervo, organizado em 2013, da Orquestra Sinfônica da USP (Osusp), que conta a história do grupo.

Acervos localizados fora da Cidade Universitária, em São Paulo, também são destacados no  Guia de Museus e Acervos da USP. Entre eles estão, por exemplo, a Tecidoteca da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), na zona leste paulistana, o Centro de Divulgação Científica e Cultural (CDCC), em São Carlos, o Museu Republicano de Itu e as Ruínas Engenho São Jorge dos Erasmos, em Santos.

A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, localizada na Cidade Universitária, em São Paulo – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Guia de Museus e Acervos da USP é o segundo número da série de guias publicados pelo CPC. O primeiro, lançado em maio de 2018, foi o Guia dos Bens Tombados ou em Processo de Tombamento da USP, também disponível na internet.

Já em fase de planejamento, o terceiro guia da série terá como título Referências Culturais e Memória, que abordará o patrimônio imaterial e lugares de memória da USP. O quarto será sobre as obras escultóricas em espaços externos, que será feito em colaboração com a professora Fabiana Oliveira, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP.

O Centro de Preservação Cultural, criado em outubro de 2002, é um órgão da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP que substituiu a Comissão de Patrimônio Cultural, formada em 1986. Desde 2004, está sediado na Casa de Dona Yayá, imóvel tombado localizado no bairro da Bela Vista, na capital paulista.

Guia de Museus e Acervos da USP  está disponível neste endereço: http://biton.uspnet.usp.br/cpc/index.php/patrimonio-da-usp/acervos-e-colecoes/

Guia dos Bens Tombados ou em Processo de Tombamento da USP, primeiro volume da série de guias do CPC, pode ser acessado aqui

Fonte: Jornal da USP

Exposição traz livros escritos e traduzidos por Monteiro Lobato

Mostra está em cartaz na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP, na Cidade Universitária

Ouça no link acima entrevista da curadora da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP, Cristina Antunes, sobre a exposição Monteiro Lobato Sem Fronteiras. A entrevista foi transmitida no dia 8 de maio pelo programa Via Sampa, da Rádio USP (93,7 MHz), que tem produção de Heloisa Granito e apresentação de Miriam Ramos.

Obras ficam expostas na Biblioteca Brasiliana até 29 de junho. Na foto acima, os curadores Vladimir Sacchetta (esquerda) e Luciano Mizrahi Pereira (direita) – Foto: Jorge Maruta/USP Imagens

Uma exposição sobre o escritor Monteiro Lobato faz parte da programação da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP. Gratuita e aberta até 29 de junho, a mostra Monteiro Lobato Sem Fronteiras traz ao público quase 150 livros pertencentes ao Instituto de Estudos Monteiro Lobato (IEMB), localizado na cidade de Taubaté (SP), onde o escritor nasceu em 18 de abril de 1882.

São obras originalmente escritas por ele, traduzidas em outras línguas por tradutores estrangeiros, e livros de escritores estrangeiros traduzidos em português por Lobato. Aos visitantes, serão disponibilizados tablets para consultas de trechos das obras, com acesso a conteúdo digitalizado e interativo. Já os volumes impressos estão dispostos em vitrines, descritos em etiquetas legendadas com informações das edições — país e ano da publicação, nome da editora e do tradutor —, bem como trechos de comentários de Lobato sobre as traduções.

Um desses comentários é da sua tradução para Kim, do britânico Rudyard Kipling. A obra de 1901, que apresenta um retrato

Cristina Antunes – Foto: Jorge Maruta / USP Imagens

cultural e social da Índia, foi traduzida por Lobato em 1941, período em que este se encontrava preso pelo Estado Novo de Getúlio Vargas. “Aproveito o tempo traduzindo o Kim, de Kipling — e essa estadia na Índia me fez esquecer completamente a prisão. Pena é que o excesso de visitas me tome tanto o tempo”, escreve Lobato, encarcerado no Presídio de Tiradentes, em São Paulo, mas imerso na Índia de Kipling.

Essas obras traduzidas são muito raras e pouquíssimo conhecidas do público brasileiro”, conta Vladimir Sacchetta, um dos curadores da mostra, ao mostrar uma edição argentina de Urupês, considerada a mais importante criação literária de Lobato. O livro, publicado há exatos 100 anos no Brasil e que traz em um dos seus 14 contos o personagem Jeca Tatu, foi publicado na Argentina três anos depois, em 1921, a partir da tradução de Benjamin de Garay.

Outro exemplo do acervo mostrado na exposição é Dom Quixote das Crianças (1936), versão infantil de Dom Quixote de La Mancha, escrita pelo espanhol Miguel de Cervantes e lançada em 1605. Como conta Luciano Mizrahi Pereira, diretor do IEMB e também curador da mostra, a obra de Cervantes foi traduzida do espanhol para o português por Lobato, sendo adaptada para o público infantil e depois traduzida para o espanhol. “É um livro que se difundiu na Espanha, na América espanhola e em todos os outros países de língua espanhola. Acho que esse é o ápice de Lobato no exterior”, diz Pereira.

A curadora da BBM Cristina Antunes destaca a riqueza da exposição. “Você vai poder ver dezenas de obras traduzidas por Lobato nas mais diversas línguas: tailandês, chinês, japonês, obras publicadas no Afeganistão e na Holanda. Lobato ultrapassou todas as fronteiras e traduziu tudo o que lhe foi possível”, resume Cristina, em entrevista no programa Via Sampa, da Rádio USP (ouça no link acima).

Sacchetta explica que a seleção das obras e “a construção da narrativa” da mostra foram feitas a partir do acervo reunido pelo IEMB. “Uma narrativa que funciona através de cartas, de artigos em revistas e citações de Lobato e também da difusão geográfica dessas obras.”

Depois de toda a vida dedicada à literatura, Lobato teve uma obra que se espalhou por si ao redor do mundo”, afirma Pereira, acrescentando que uma das motivações para a realização da exposição na BBM foi “resgatar a história de Lobato, além do que se costuma ver. A obra dele se espalhou no mundo muitos anos após ele ter nos deixado”.

A mostra Monteiro Lobato Sem Fronteiras fica aberta de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 18h30, na Sala Multiuso da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (Rua da Biblioteca, s/n, na Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis.

Para mais informações, ligue (11) 2648-0320 ou acesse o site bbm.usp.br/node/339

Por Vinicius Crevilari 

Fonte: Jornal da USP

Biblioteca Brasiliana abre exposição sobre Monteiro Lobato

Até 29 de junho, mostra traz 130 obras do escritor traduzidas para vários idiomas

A exposição Monteiro Lobato Sem Fronteiras apresenta ao público o trabalho de um dos maiores autores da literatura brasileira – Ilustração: Victor Daibert / BBM

A partir desta segunda-feira, dia 7 de maio, até 29 de junho, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP realiza a exposição Monteiro Lobato Sem Fronteiras, que busca destacar e trazer ao público a trajetória internacional da carreira literária do autor nascido na cidade de Taubaté (SP) e considerado um dos maiores escritores da literatura brasileira de todos os tempos.

Gratuita, a mostra reúne mais de 130 obras infantis e adultas de Monteiro Lobato, traduzidas em vários idiomas e publicadas no exterior — como Urupês, Reinações de Narizinho e O Saci —, bem como obras clássicas da literatura universal traduzidas por ele para o público brasileiro — como Moby Dick, de Herman Melville, e Adeus às Armas, de Ernest Hemingway. Serão disponibilizados tablets para consultas de trechos de obras selecionados pela curadoria, além de acesso a conteúdo digitalizado e interativo por parte dos visitantes da exposição.

O material pertence ao acervo do Centro de Documentação do Instituto de Estudos Monteiro Lobato, localizado em Taubaté e criado com o objetivo de incentivar estudiosos, produtores culturais, pesquisadores e admiradores de Lobato a trilharem novos caminhos sobre sua obra.

Evento ocorre entre 7 de maio e 29 de junho na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A curadoria é do gestor de projetos socioculturais Luciano Mizrahi Pereira e do jornalista e produtor cultural Vladimir Sacchetta. “Queremos mostrar a trajetória internacional da carreira de Lobato, traduzido e tradutor. Podemos dizer também que esta exposição celebra Monteiro Lobato como escritor universal, um autor que ultrapassou fronteiras, passeou por diferentes culturas e transcendeu seu tempo. Lobato é um mestre da literatura infantil mundial”, destaca Pereira.

A exposição tem apoio da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU) da USP e é realizada pela BBM, em parceria com o Centro de Documentação e Pesquisa Histórica da Universidade de Taubaté, o Instituto de Estudos Monteiro Lobato e o Porviroscópio Projetos e Conteúdos Culturais.

A mostra Monteiro Lobato Sem Fronteiras fica em cartaz de 7 de maio a 29 de junho, de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 18h30, na sala multiuso da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, localizada na Rua da Biblioteca, s/nº, na Cidade Universitária, em São Paulo.

Para mais informações, ligue no (11) 2648-0320, ou acesse o site bbm.usp.br/node/339

Com informações de Elcio Silva / Assessoria de Comunicação da BBM

Texto por Vinicius Crevilari

Fonte: Jornal da USP

Biblioteca Brasiliana da USP começa a publicar livros

Parceria da instituição com o BNDES leva ao público obras relacionadas ao seu acervo e serviços

Os primeiros livros lançados pela BBM – Fotos: Divulgação

Uma biblioteca que publica livros. Essa é a mais nova empreitada da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP. Em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a instituição inaugurou em 2017 a Publicações BBM, selo sob coordenação editorial do professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP Plinio Martins Filho.

Desde o ano passado, a biblioteca traz a público obras concebidas a partir do seu acervo e de atividades ligadas à instituição. É um índice, ainda em gestação, da polivalência e efervescência de suas atividades culturais. “Toda grande biblioteca tem acervos e atividades que, de alguma forma, terminam se transformando em livros”, comenta Plinio Martins.

O projeto começou com Arquivo Zila Mamede – Inventário. Uma obra de referência, elenca o acervo documental da bibliotecária, pesquisadora e poetisa Zila Mamede, hoje sob custódia da BBM. Elaborado pelo ex-coordenador da Seção de Arquivo da biblioteca, José Francisco Guelfi Campos, o livro cataloga a documentação de Zila, cuja maior parte se refere às suas pesquisas sobre a obra do poeta João Cabral de Melo Neto, incluindo correspondências, notícias, resenhas e reportagens. Nomes como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e o próprio João Cabral fazem parte dos destinatários das questões e análises da pesquisadora.

Segundo Martins, a publicação é o início de uma série que pretende divulgar os arquivos pessoais guardados na BBM. “As pessoas precisam saber que esses acervos existem, porque a Brasiliana não é uma biblioteca de consulta. Você precisa fazer com que esse acervo seja conhecido para que os pesquisadores tenham interesse.” Diferente de uma instituição convencional, a BBM disponibiliza seu acervo apenas para pesquisa, sem empréstimos de livros ou consultas espontâneas.

Também de caráter mais técnico é o Glossário Visual de Conservação – Um Guia de Danos Comuns em Papéis e Livros, de Camila Zanon Paglione. Produzido originalmente como material de apoio para estagiários do Laboratório de Conservação Preventiva Guita Mindlin, o livreto ilustrado é uma introdução didática e sintética para quem deseja explorar o ramo da conservação.

Mais abrangente é o livro As Bibliotecas de Maria Bonomi, da colunista do Jornal da USP e professora da ECA Marisa Midori Deaecto. A docente apresenta um breve histórico de 23 bibliotecas ao redor do mundo, tendo como base as gravuras feitas por Maria Bonomi para o sexto número da revista Livro, do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição (Nele) da USP, e que estiveram expostas na biblioteca em 2017. Pareando os textos, o volume elenca reproduções das matrizes e das impressões de cada gravura.

Dois dos volumes lançados são dedicados ao bibliotecário e bibliófilo Rubens Borba de Moraes, cuja biblioteca brasiliana, dedicada principalmente aos autores coloniais, também faz parte da BBM. A primeira obra, Cartas de Rubens Borba de Moraes ao Livreiro Português António Tavares de Carvalho, foi organizada pelo próprio Martins. Trata-se da reunião da correspondência enviada pelo brasileiro ao livreiro de além-mar, desde 1961 até 1985. Nas linhas e na passagem do tempo, é possível compreender não só o pensamento e os interesses intelectuais de Moraes, como também entrever os aspectos políticos e sociais e as transformações pelas quais o País passava. Leia mais aqui.

A outra obra reúne os comentários que Moraes registrou nos livros de sua própria biblioteca. Rubens Borba de Moraes – Anotações de um Bibliófilo, da curadora da BBM Cristina Antunes, faz um exaustivo catálogo da marginália produzida pelo bibliotecário ao longo das 1.752 obras de sua coleção. Junto com a relação das notas, a edição reproduz diversas capas e folhas de rosto dos títulos da biblioteca. Leia mais aqui.

Rubens Borba de Moraes, junto com José Mindlin, possibilitou a existência de uma biblioteca como esta”, pontua Martin, referindo-se à BBM. “Se não fossem eles, onde estaria esse acervo? Essas pessoas precisam ser conhecidas.”

Exatamente por isso Moraes continua no horizonte dos próximos lançamentos do selo. Segundo Martins, uma edição de luxo de sua principal obra, O Bibliófilo Aprendiz, será publicada em parceria com o Sesi. Além dela, um inventário similar ao de Zila também está sendo preparado.

Outro projeto para o selo inclui uma série sobre a iconografia presente nos livros da BBM. De acordo com Martins, o primeiro volume será sobre aves retratadas por viajantes em terras brasileiras. Um segundo livro, sobre o Rio de Janeiro, também está sendo preparado.

Ainda estão nos planos do selo uma revista, trazendo textos oriundos de seminários, cursos e eventos realizadas na biblioteca e edições fac-símile de obras de sua coleção.

As publicações contam com a distribuição da Editora da USP (Edusp) e podem ser encontradas em suas livrarias. Também estão disponíveis gratuitamente e na íntegra no site da BBM (https://www.bbm.usp.br/publicacoes).

Texto por Luiz Prado

Fonte: Jornal da USP

TV USP mostra obras de mulheres do acervo da Biblioteca Brasiliana

Vídeo destaca novo programa de visitas temáticas promovido pela biblioteca

A TV USP acaba de produzir o vídeo Mulheres no Acervo da Biblioteca Brasiliana, que aborda o novo programa de visitas promovido pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP.

O programa é intitulado A voz feminina na literatura brasileira e tem como objetivo mostrar livros e documentos produzidos por escritoras brasileiras, desde o século 18 até o século 20, que pertencem à Biblioteca Brasiliana. Os visitantes poderão ver os originais de O Quinze, de Rachel de Queiroz, manuscritos de Clarice Lispector e documentos de Patrícia Galvão, a Pagu, por exemplo. As próximas visitas estão previstas para os dias 9, 13, 14, 15 e 16. As inscrições devem ser feitas neste link.

Assista ao vídeo Mulheres no Acervo da Biblioteca Brasiliana, da TV USP clicando na imagem acima.

Fonte: Jornal da USP

Biblioteca Átila Almeida disponibiliza acesso à obra rara datada de 1961 sobre igualdade de gênero

Fonte inesgotável de pequisa e detentora da maior coleção de cordéis da América Latina, a Biblioteca de Obras Raras Átila Almeida da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) dá continuidade, neste mês de março, ao projeto “Obra do Mês”, que nasceu com o propósito de facilitar o acesso de pesquisadores, estudantes e professores a obras raras do acervo. Desde setembro, quando foi lançado, o projeto vem expondo uma obra diferente a cada mês. O objetivo é incentivar a leitura e, ao mesmo tempo, divulgar certas especificidades que compõem as prateleiras da biblioteca.

Este mês, a raridade escolhida foi “Enciclopédia da mulher”, publicada pela Editora Globo S.A em 1961. Escolhida propositalmente por conta das comemorações do Dia Internacional da Mulher, a obra fala da igualdade de gênero, um tema atual e recorrente nas discussões contemporâneas, principalmente no que se refere aos seus efeitos de sentido e às relações de poder dentro da sociedade. Com 320 páginas, a obra teve como título original o Encyclopédie de la femme, editado por Fernand Nathan, em Paris, na França, e impresso em 1950.

Publicada há mais de 50 anos, “Enciclopédia da mulher” trata, em 16 seções, escritas majoritariamente por mulheres, das funções sociais femininas nas mais diversas esferas e faixas etárias, como afazeres domésticos, direitos e deveres assumidos por esse grupo social na época. Outros discursos igualmente destacam diretrizes e medidas sobre os padrões físicos femininos ideais.

Em seções como “A mulher e a vida social”, “Horas de folga”, “A conservação da casa e os trabalhos domésticos”, mais do que descrever os comportamentos “apropriados” às mulheres da época, a publicação apresenta discursos que corroboram para uma construção ideológica sobre a mulher submissa, silenciada e oprimida. Essas sessões trazem marcas discursivas de um sujeito histórico controlado pelos dizeres sociais, embora se encontrem diversos trechos em que se ressalta o caráter progressista da obra.

A grande preocupação dos editores da Enciclopédia, no entanto, foi o de reunir em um único volume todos os conhecimentos indispensáveis à mulher moderna. A “Enciclopédia da Mulher” torna-se mais uma importante fonte de estudo e pesquisa sobre a constituição histórica e cultural do feminino no país. A coordenação da Átila Almeida destaca ainda outras obras que pode somar em pesquisas sobre o gênero feminino, a exemplo do Ensayo de um Diccionario de Mujeres Celebres, publicado em Madri, na Espanha, em 1959, com 1.210 páginas, disponível para consulta e pesquisa no Acervo Dr. Bezerra de Carvalho, também pertencente à Biblioteca de Obras Raras Átila de Almeida.

Texto: Severino Lopes

Fonte: UEPB