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Cartas mostram mãos apaixonadas de bibliófilo

Rubens Borba de Moraes retorna à cena em volume que cobre sua correspondência de 1961 a 1985

O bibliófilo Rubens Borba de Moraes (1899-1986) – Folhapress

Quando percorremos a magnífica Brasiliana Guita e José Mindlin, hoje abrigada na USP, nem sempre nos lembramos de que, para a edificação desse monumento, muitas pessoas puseram a mão na massa, além de Mindlin.

E, dentre todas, sem dúvida avulta Rubens Borba de Moraes (1899-1986) –que, após a morte , teve sua coleção incorporada ao acervo de Mindlin. Fascinante figura, partícipe (em segundo plano) da Semana de 1922, retorna à cena em volume que cobre sua correspondência de 1961 a 1985 com o livreiro luso António Tavares de Carvalho.

De que trata o livro? Basicamente, das encomendas que Rubens efetuou. A todo momento, fala-se de obras, dinheiro, transferência de valores. Temas que, convenhamos, não chegam a empolgar os leitores, mesmo, talvez, os poucos bibliófilos do país.

Porém o interesse da obra não se esgota nisso, pois questões paralelas, de natureza pessoal, social e política também comparecem.

Rubens, aliás, prefere ver-se menos como bibliófilo do que como bibliógrafo: elaborador de meticulosas descrições de obras pioneiras de nossas letras, com ênfase no período do Brasil Colônia e nos folhetos da Impressão Régia do Rio de Janeiro.

Nessa faixa temporal, o apetite de Rubens era onívoro: desejava amealhar rigorosamente tudo.

É curiosa, nas demandas ao livreiro português, certa fixação do bibliógrafo nos primeiros textos de nossa medicina –decerto como documento, não como terapêutica, caso contrário dificilmente ele teria atingido os 87 anos.

Rubens desenvolveu uma singular trajetória de vida. De origem abastada, educou-se na Suíça, onde, aos 20 anos, em 1919, chegou a publicar, em coautoria, peça de teatro em língua francesa. Em 1924, lançou “Domingo dos Séculos”, livro em que defendeu a arte moderna.

Foi autor de meticulosas obras de referência sobre a bibliografia do nosso período colonial, com títulos indispensáveis. Escreveu o delicioso “O Bibliófilo Aprendiz”.

Nesta muito bem cuidada edição da correspondência, organizada com apuro, registram-se pequenas omissões e alguns (poucos) equívocos facilmente sanáveis.

Pela própria natureza das cartas, o valor das obras é tópico recorrente. Assim, seria útil uma tabela de conversão: quanto, à época, valiam a moeda portuguesa e a brasileira em relação ao dólar?

Esporadicamente surge a informação, mas por iniciativa de Rubens, quando poderia constar em pé de página, por critério editorial.

Estão truncados (raros) títulos de obras, a exemplo, na página 35, de “Glama”, em vez de “Glaura”. Esparsos erros ortográficos, em palavras estrangeiras ou vernáculas, ainda que presentes no original, mereceriam correção (“caçar” por “cassar”, “trás” por “traz”, “mal” por “mau” etc).

Às vezes (página 271) a imagem reproduzida não corresponde a livro comentado nas páginas adjacentes.

Louve-se a opção editorial de não se efetuarem supressões de trechos reveladores de opiniões hoje indefensáveis, comentários de índole racista (págs. 12, 30 e 62) ou politicamente reacionários.

Felizmente tais juízos são marginais, bastante esporádicos, e atenuam-se ou desaparecem na progressão das centenas de cartas.

Resta a curiosidade de saber um pouco mais sobre esse prodigioso livreiro/bibliófilo António Tavares de Carvalho, que, para provável inveja dos colecionadores de então, conseguia, quase semanalmente, garimpar preciosidades e ofertá-las em prioridade às estantes de Rubens.

Se a Brasiliana de José Mindlin, para o bem da cultura do país, ostenta a solidez de uma imponente catedral de obras e documentos, este livro nos revela boa parte de sua laboriosa construção, folheto a folheto, pela mãos apaixonadas de Rubens Borba de Moraes.

Texto por Antonio Carlos Secchin: poeta, ensaísta e bibliófilo, é professor emérito da UFRJ e membro da ABL

Fonte: Folha de São Paulo

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