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Cárcere e literatura: Mulheres encarceradas publicam livro de poesias em SP

por Amanda Stabile e Juliana Santoros, especial para Ponte

O lançamento contou com a presença de mulheres que viveram na Penitenciária Feminina da Capital e são autoras do livro; entre mais de mil textos produzidos, 101 foram selecionados para a obra

O lançamento do livro aconteceu na Biblioteca Mário de Andrade e a sul-africana Daphney Tukisi recitou o seu poema| Foto: Juliana Santoros/Ponte Jornalismo

“A todas as Rita’s, as Cristiane’s
às negras, às brancas ou às pardas
– se bem que pardo é um papel
A todas que viram e lembraram que, por fim,
é só rodar a baiana
e tirar o pijama
pular da cama
porque a caminhada quem faz
é nós”

Jaqueline Ferreira fez dessa dedicatória seu poema: à baiana, à paulista e à mineira. Para todas as mulheres que enfrentam barreiras diariamente, seja para vencer a fome, a violência ou o machismo. A jovem de 23 anos é uma das autoras do livro Mulheres Poetas: Penitenciária Feminina da Capital, lançado na Biblioteca Mário de Andrade, na última quinta (25/7), que reúne os poemas frutos do sarau Asas Abertas. O sarau acontece todas as quartas-feiras na capela da PFC (Penitenciária Feminina da Capital), localizada na zona norte de SP, e é organizado pelo Coletivo Poetas do Tietê.

Jaqueline Ferreira é uma das autoras do livro | Foto: Juliana Santoros/Ponte Jornalismo

Após passar 1 ano e 3 meses na PFC, Jaqueline, em liberdade, se orgulha de estudar Direito no Centro Universitário Central Paulista (UNICEP), em São Carlos, interior de São Paulo: “Faço direito porque já fiz muito errado e agora não me calo”. A jovem, que sempre nutriu o desejo de publicar um livro, escreve desde os 15 anos e conta que sua paixão por poesias começou cedo quando, na quinta série, ganhou de uma professora de português sua primeira antologia.

“Eu conheci o sarau quando estava na PFC há uns 6 meses. Eu me interessei primeiramente porque eu queria esquecer de onde eu estava”, explica Ferreira. A partir de então começou a levar várias amigas para a atividade. “O projeto ajuda a gente a manter uma disciplina. Gera um pensamento de liberdade, você pensa ‘fora da cachola’ e isso o sistema não quer”, conta a autora.

Da esquerda para a direita: Rafaela Maccari, Jaqueline Ferreira, Vanessa Ferrari, Lucas Verzola e Jaime Queiroga | Foto: Juliana Santoros/Ponte Jornalismo

Jaime Queiroga, o idealizador do Sarau Asas Abertas, explica que, para eles, o mais importante é elas acreditarem que podem seguir em frente estudando. “Nós temos vários casos de mulheres analfabetas ou analfabetas funcionais que começam a ler e ter curiosidade com a leitura”, conta.

Os principais temas abordados pelas mulheres nos poemas são saudade e perdão. “Nos poemas, eu peço pra elas enfrentarem seus medos, suas certezas, escreverem sobre isso. Nossa pegada é essa questão da autoestima através da poesia”, explica Jaime. Ele brinca que “se aqui fora, as pessoas tivessem a vontade de ler como tem lá dentro, nós seríamos o primeiro país do mundo em leitura”.

Jaime Queiroga é organizador do Sarau Asas Abertas | Foto: Juliana Santoros/Ponte Jornalismo

Além do sarau, Jaqueline também participava do Clube de Leitura Penguin-Companhia das Letras, um projeto que oferece remissão de pena por meio da leitura. Vanessa Ferrari, editora e coordenadora do projeto da Companhia das Letras de clubes de leitura, explica que a regra é simples: para cada livro lido, o preso pode remir 4 dias da sua pena.

“A gente empresta os livros e elas têm 30 dias para ler. Depois acontece uma roda de leitura, com mediador e eles produzem uma resenha que é o documento que vai para o juiz responsável para avaliar se a pena vai ser reduzida ou não”, diz Vanessa.

Vanessa Ferrari é editora e coordenadora do clube de leituras| Foto: Juliana Santoros/Ponte Jornalismo

“Primeiramente a gente faz o resumo pela remissão, mas depois do primeiro a gente faz só pelo prazer”, conta Rafaela Maccari. A jovem, hoje com 20 anos, confidencia que a paixão por Jorge Amado nasceu após resenhar ‘Capitães da Areia’ para o clube. “Depois de resumir eu nunca mais me esqueci do que falava o livro. Se eu escrever eu não esqueço mais”.

Os poemas de Rafaela também preenchem as páginas do livro recém-lançado. “Foi no sarau que eu comecei a escrever. Antes eu não escrevia, só escutava rap”, recorda. Em seu primeiro contato com o projeto, Maccari ainda não tinha o nome na lista para a atividade, mas voltou na semana seguinte já com 12 poesias prontas para compartilhar.

Rafaela Maccari recitando sua poesia “Angústia” | Foto: Juliana Santoros/Ponte Jornalismo

“Participando do sarau eu fiquei bem menos triste. Toda semana que minha mãe vinha me visitar eu mostrava as poesias para ela. Eu fiz muitas poesias pra ela”, conta Rafaela. Ela também chama a atenção para a visão da sociedade sobre as mulheres encarceradas e alerta: “é importante que as pessoas vejam que a gente também tem e precisa de cultura lá dentro”.

Há um ano, Rafaela deixou a penitenciária. Mas são os cinco meses dentro do sistema carcerário que impedem a reconstrução da sua vida. A ex-estudante de filosofia tentou retomar a faculdade, na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), onde cursava o segundo ano, mas não conseguiu. “Eu sentia o preconceito dos professores. Eu larguei porque eu não aguentava mais”, recorda.

Rafaela Maccari e Jaqueline Ferreira | Foto: Juliana Santoros/Ponte Jornalismo

No mercado de trabalho não foi diferente. “Faz um ano já que eu estou na rua e não consegui o emprego. Duas entrevistas que eu fiz a mulher me disse que eu não me encaixava no perfil da empresa”, conta. “Então eu faço faxina, é o que eu faço pra sobreviver. Mas é difícil, por mais que eu tire o esmalte da minha unha, os piercings da minha cara, parece que está escrito na minha testa”.

Rafaela, que hoje mora em Maringá (PR), conta que, por conta do sarau, nunca mais parou de escrever. Ela confessa que, em um futuro próximo, pretende voltar para a sala de aula. “Agora em junho, eu participei do vestibular para a Universidade Estadual de Maringá [UEM]. Prestei o vestibular pra Biologia”, explica. “Em agosto sai o resultado, se eu passar vou continuar estudando. Hoje eu só faço faxina, mas a gente tem que comer, pagar água, luz, aluguel. A geladeira tá vazia, mas a gente tá na luta”, finaliza Rafaela.

O livro Mulheres Poetas: Penitenciária Feminina da Capital foi organizado pelo coletivo Poetas do Tietê  e produzido por meio do Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais (VAI), da Secretaria Municipal de Cultura e pela Edições Tietê (do próprio coletivo). O evento de lançamento em maio, organizado pelo coletivo e a prefeitura, foi restrito para convidados.

Confira mais imagens do lançamento:

Fonte: Ponte

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