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‘Cada livro é uma emoção diferente’, diz estudante cega sobre leitura pelo som

Por Stéphane Teles*, G1 Ribeirão Preto e Franca

Deficientes visuais ouvem audiolivros durante aulas na Associação dos Deficientes Visuais de Ribeirão Preto e Região — Foto: Stéphane Teles

Aos 26 anos, Gleice Priscila dos Santos convive há 14 com a perda da visão, causada por um deslocamento da retina. Quando ficou cega, o maior medo era não conseguir mais ler, uma grande paixão.

“A leitura sempre foi algo que eu mais gostava de fazer. Quando eu perdi a visão, eu falei: ‘pronto, vai ser uma das coisas que eu não vou conseguir mais ter o contato’, que é a leitura.”

O receio, no entanto, logo foi superado. Acompanhada pela Associação dos Deficientes Visuais de Ribeirão Preto e Região (Adevirp), Gleice descobriu que poderia continuar a sonhar com as histórias que sempre a encantaram e com outras que poderia descobrir.

Os audiolivros chegaram como um presente na vida dela. Ela diz que eles foram responsáveis por levá-la a outro mundo.

“O livro ‘Depois daquela montanha’, de Charles Martin, parece que eu estava na cena, estava no lugar da moça, passando por todas aquelas dificuldades, superação. Foi um livro muito marcante. A gente consegue se transportar de verdade”, diz a aluna.

O projeto dos audiolivros é desenvolvido pela Adevirp em parceria com a Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp). O programa ‘Doadores de Vozes’ é desenvolvido por estudantes do curso de comunicação social. Segundo os alunos cegos, o material permite o acesso à cultura e o transporte a outros lugares através da imaginação.

Estudante da Associação dos Deficientes Visuais de Ribeirão Preto e Região (Adevirp) diz que os audiolivros a transporta para outros lugares. — Foto: Stéphane Teles

Leitura prática

Guilherme Sandrin é professor da Adevirp. Cego de nascença devido a uma malformação no nervo ótico, ele chegou à instituição em 2000. Não sabia ler e escrever, mas, com o passar dos anos, evoluiu tanto nos estudos que chegou à faculdade. Ele se formou em pedagogia, passando a ministrar aulas para os colegas.

De acordo com Sandrin, o aprendizado em braile é essencial, uma vez que só assim o deficiente visual saberá como se escreve uma palavra. Entretanto, a leitura em braile é extensa.

“Essa leitura em braile é muito extensa. Um livro em braile faz muitos volumes, são 10 ou 15. A leitura em audiobook é fácil, você pode carregar no celular. A gama de possibilidades que ele te dá é muito grande”, explica.

A estudante Gleice Segundo concorda com o professor. Segundo ela, a leitura em braile é apaixonante, mas nem todos os livros estão disponíveis por causa do gasto e do tamanho, o que torna os audiolivros mais acessíveis e práticos.

“Eu coloco o foninho. Estou ouvindo o livro lavando louça, caminhando, na academia. Eu não gosto de estar parada. Gosto de ouvir livro e estar fazendo outras coisas”, diz.

Em braile, exemplar de Harry Potter corresponde à 15 volumes. — Foto: Stéphane Teles

Projeto de acesso a deficientes

O ‘Doadores de Vozes’ foi criado em 1999 por causa da necessidade de ampliação da oferta de livros para os alunos deficientes visuais da Adevirp. Segundo o coordenador Gil Santiago, idealizador do projeto, a produção foi encarada como um desafio e, atualmente, cerca de dez livros são entregues por ano.

“A gente não se preocupa em ter quantidade e sim qualidade. Em média, são 10 livros por ano. Só que, por exemplo, tem ano que se grava 15, e depende muito do livro. Uma coisa é a gravação, a outra é a edição do áudio. Nós temos livros que estão sendo editados. Nossas gravações são voluntárias e dentro da disponibilidade do aluno”, diz.

São os próprios estudantes de jornalismo que doam suas vozes para dar sonoridade aos textos dos autores.

Cegos por complicações da diabetes são beneficiados duas vezes, segundo explica a responsável pela biblioteca da Adevirp.

“Nós temos alguns alunos que tiveram diabetes, então, eles perdem a sensibilidade no dedo, impossibilitando a leitura em braile. Os áudio-livros são importantes para eles”, diz Paula Vigna.

 
Associação dos Deficientes Visuais de Ribeirão Preto e Região (Adevirp) recebe doações de audiolivro durante todo o ano para os alunos da instituição. — Foto: Stéphane Teles
Para Sandrin, projetos como este contribuem muito com a formação cultural das pessoas e com a inclusão. Eles são capazes de trabalhar até mesmo a autoestima dos deficientes, uma vez que não se sentem excluídos.

“A gente viaja. Muitas vezes é a minha válvula de escape. Às vezes, estou com um problema, algo que não posso resolver e aí eu vou e ouço um livro”, diz.

Até domingo (16), durante a 19ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, os visitantes podem participar do projeto, gravando livros doados por autores presentes no evento e obras de domínio público. As gravações são feitas em um estúdio montado na Praça XV de Novembro.

Estudantes da Associação dos Deficientes Visuais de Ribeirão Preto e Região (Adevirp) ouve audiolivros na instituição. — Foto: Stéphane Teles

*Sob a supervisão de Thaisa Figueiredo

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