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Bibliotecas x caos midiático

Desde que os primeiros dias da Greve dos Caminhoneiros, fiquei pensando sobre o papel das bibliotecas e como os profissionais da informação poderiam atuar nessa realidade. Já estamos no 9º dia de greve, a mobilização não se restringiu somente aos caminhoneiros. É um tanto difícil manter uma perspectiva objetiva no meio de tanto caos midiático, tantas fake news ou notícias falsas circulando pelas redes sociais e por aplicativos de mensagens instantâneas, tantas opiniões de pessoas próximas. Por isso, pensei em aplicar a primeira dica: a informação. Por isso, farei algumas citações de algumas leituras que realizei para construir esse texto. Espero que seja de utilidade para todas e todos!

Espaço e democracia

Biblioteca deve ser um espaço democrático. Por isso que falar sobre acessibilidade e diversidade é tão importante na área. O profissional que atua, sejam bibliotecários, auxiliares ou estagiários, a equipe como um todo, deve estar preparada para atuar em um ambiente aberto a todos. O espaço tem que ser pensado e planejado para receber diferentes públicos de uma comunidade – do bairro, do município, de uma instituição escolar, cultural ou acadêmica -, conforme tratado no livro “Guia prático para bibliotecas comunitárias”, de Daniele Carneiro, produzido pela Magnólia Cartonera. Pensar em maneiras e formas de inclusão dos mais diferentes grupos sociais possibilita um espaço como ponto de encontro.

Por isso, a biblioteca é um espaço de acolhimento, apoio e tolerância, tornando o diálogo entre os pares e opostos o mais democrático possível. E é papel dos bibliotecários que esses aspectos sejam respeitados. Para garantir que uma biblioteca seja livre, conforme assinala Daniele Carneiro:

Jamais uma biblioteca deve servir como ferramenta de persuasão, intrusão e propaganda de uma organização religiosa, de um candidato ou partido, ou como instrumento de conversão em troca de acesso aos bens culturais, jamais deve ser fonte de exploração de pessoas.

Por mais que seja um espaço aberto a novos conhecimentos, é necessário cuidado para que seu público não seja coagido ou usado como instrumento de conversão. O assunto é complexo, talvez seja necessário escrever muito sobre o limite da liberdade do outro, mas o melhor é nos atermos ao espaço enquanto começo, meio e fim de práticas que possibilitem o acesso, o diálogo com a sociedade e entre as pessoas, o respeito pelo outro.

Informação e tecnologia

O que me leva ao segundo ponto: a informação na era digital. A biblioteca atual leva em conta não só o conhecimento dos livros de seu acervo, mas também deve integrar e tratar sobre a informação com o uso da tecnologia. Por isso que uma tendência, principalmente nas bibliotecas públicas de todo o mundo, é integrarem computadores, acesso à internet e leitores de livros digitais. O texto de Will Sherman, com tradução colaborativa, fala sobre a mudança também no papel dos bibliotecários:

Na verdade, a tecnologia está revelando que o verdadeiro trabalho dos bibliotecários não é apenas colocar os livros na estante. Ao invés disso, seu trabalho envolve guiar e educar visitantes em como encontrar informação, independente se estiver em livros ou em formato digital. Tecnologia provê melhor acesso a informação, mas é uma ferramenta mais complexa, geralmente requerindo know-how especializado.

O que Will Sherman descreve é como os bibliotecários se dedicam a aprender técnicas mais avançadas para ajudar a seus usuários. Portanto, se tornariam os especialistas no tratamento da informação, com estratégias, bases e conhecimentos práticos e técnicos para encontrar informações. Diante disso que muitas pessoas da área passaram a chamá-los de profissionais da informação. Isso leva ao terceiro ponto, tão importante na atualidade: como identificar fake news?

Bibliotecas e o combate à fake news

É necessário aqui um parênteses, o combate às fake news ou notícias falsas também deve estar aliada ao combate às informações falsas propagadas na rede. As bibliotecas devem se munir de todo o conhecimento técnico, especializado e prático para auxiliar e orientar a seus usuários. Além disso, a alfabetização midiática e informacional deve ser realizada, de maneira a garantir que eles desenvolvam as competências necessárias para o entendimento e atuação das mídias e no tratamento das informações. Conseguiriam, desse modo, garantir o exercício de sua cidadania. Segundo o projeto de Alfabetização Midiática e Informacional (Media and Information Literacy MIL), dos Estados-membros da UNESCO, tal processo é um “pré-requisito importante para promover o acesso igualitário à informação e ao conhecimento e os sistemas de mídia e informação livres, independentes e plurais”.

Compreender o papel e as funções da mídia nas sociedades democráticas; Compreender a condição sob a qual a mídia pode exercer suas funções; Avaliar criticamente os conteúdos de mídia; Engajar-se com a mídia para se expressar e participar democraticamente; e Revisar habilidades (incluindo habilidades em TIC) necessárias para produzir conteúdos gerados por usuários.

Portanto, a biblioteca enquanto espaço de conhecimento e informação, democracia e diversidade, tem uma atuação especial na alfabetização midiática e informacional junto a seus usuários.

Caos midiático e atuação

A cultura da mídia aparece com o desenvolvimento da técnica, o surgimento de novas tecnologias de comunicação, o processo da industrialização e o fenômeno de urbanização do século XX. Esses catalisadores, conforme pontua Ignacio Riffo Pavón, provoca a gênese da cultura de massas. No entanto, frente a nossa nova realidade, é melhor definido como meios massivos de comunicação, que abarca uma gama bem maior: radiofônico, televisivo, impresso e meios digitais. Ocorre, portanto, uma cultura de midiatização da sociedade:

As práticas individuais e sociais do cotidiano sofrem diversas alterações por causa dos meios massivos e das novas tecnologias presentes na atualidade. A cultura midiática é uma tecnocultura, isso quer dizer que a tecnologia e a cultura se reúnem em um lugar comum para a produção de novas manifestações que mudam e ativam novas configurações das sociedades. Nessa dimensão, a tecnologia, os meios, o indivíduo e a sociedade se transformam em atores chaves da criação, produção e recepção.

Sobre, especificamente a Greve dos Caminhoneiros, é possível observar diversos mecanismos apontados por Ignacio Riffo Pavón. A tecnologia faz avançar diversas informações e notícias sobre o movimento, diversos focos de protestos, mas também o outro lado da greve, o desabastecimento dos combustíveis, dos alimentos e a alteração de transporte de passageiros, coletivos e individuais. As pessoas produzem esses conteúdos, verdadeiros ou não, e falam sobre suas opiniões, com seus próprios valores e sua moral, coletivos ou individuais, disposições políticas ou partidárias.

Tudo pontuado, como os profissionais da informação devem atuar na atualidade? Em meio a tanto caos midiático, produção infinita de conteúdo, informações relevantes ou opinativas, preferências políticas, o que proponho é a atuação dos profissionais como uma figura que possibilita e mune a seus usuários com o conhecimento e as informações necessárias. Seja alfabetizando o usuário da biblioteca para o uso da mídia mídia e das informações, mostrando os equipamentos básicos do que é relevante, confiável e atual; seja tornando acessível que alguns conhecimentos e algumas informações esquecidas e escondidas se coloquem como imprescindíveis. Com isso, o profissional da informação deve aumentar a capacidade crítica e reflexiva de seu usuário, para além de suas convicções morais e individuais, possibilitando uma percepção crítica e menos passional, e que dê conta da complexidade da realidade social, política e cultural do país.

É um enorme desafio porém primordial. Já pensou como você pode atuar no meio do caos midiático? Vamos mostrar iniciativas e exemplos viáveis para todos os profissionais da área! 🙂

Fonte: Linkedin

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