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Bibliotecas: o uso por alunos e professores e a lei que determina o espaço nas escolas

Em 2020 termina o prazo de adequação das instituições de ensino

 Em tempos em que a internet está literalmente na palma de nossas mãos, os livros estão cada vez mais de lado, principalmente entre crianças e adolescentes. A Lei nº 12.244/2010, que determina que instituições de ensino tenham bibliotecas com bibliotecários e acervo condizente, pode ajudar a reverter este panorama. Em 2020 termina o prazo para que todos os sistemas de ensino se adequem à norma.

A legislação foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 24 de maio de 2010 e dá prazo de 10 anos para que as instituições de ensino providenciem bibliotecas com, no mínimo, 1 título por aluno matriculado, além de respeitar a profissão de Bibliotecário. Os sistemas de ensino do país deveriam empregar esforços no decorrer dos anos para estarem de acordo com o texto ao final do prazo.

Foto: Pixabay
Com menos de dois anos para o término do período de adequação, o MidiaMAIS entrou em contato com alunos, professores, escolas e órgãos envolvidos no assunto. Durante esta semana serão publicadas uma série de reportagens sobre o tema, versando desde o olhar dos personagens envolvidos, o panorama atual das instituições até bibliotecas particulares e institucionais.

Com conteúdo sobrando online, como era de se esperar, professores ainda acreditam na necessidade das bibliotecas como agentes complementares do aprendizado dos estudantes. Estes, talvez surpreendentemente, também apoiam a presença de tais estruturas em suas escolas. Mas ambos esbarram em diversos problemas.

Acervo

O motivo mais óbvio da subutilização das bibliotecas é a falta de interesse dos alunos pelo acervo, seja por não ser atualizado ou por ser irrisório. Gabrielle Barbosa dos Santos, de 15 anos, é aluna da rede municipal e dá o diagnóstico. “A biblioteca não é tão boa, porque os livros estão velhos e os alunos não se interessam por eles, preferem os celulares”.

O acervo também é questão em escolas particulares. Pedro, de 13 anos, que é estudante em uma instituição privada, confessa que não consulta a biblioteca tão frequentemente, mesmo sendo um leitor pró-ativo, porque o espaço “não tem muitos livros”.

O discurso encontra consonância na opinião da professora de inglês Carolina Alves Batista, que já lecionou tanto em escola particular como pública. “Em língua inglesa, o máximo que os alunos conseguem pesquisar e ter acesso, quando tem, são revistas e dicionários. É o que as escolas disponibilizam para professores de inglês”, declara. Em relação à experiência no ensino privado, o sintoma foi o mesmo: “o acervo era completamente desatualizado, com livros que os alunos perdiam o interesse em saber e aprender”, adiciona.

O maior problema, no entanto reside na ausência da estrutura. Vinícius Souza dos Santos, de 15 anos, estuda em uma escola particular que não tem uma biblioteca. Quando necessário, ele precisa se dirigir a outra unidade da instituição. Não é de surpreender que a fonte usual de conteúdo seja a internet.

Um bom exemplo

A mãe de Vinícius, Janete Souza dos Santos, é professora na escola municipal Professora Oliva Enciso e descortina uma realidade diferente e próxima da ideal. “Os alunos utilizam, vão até no recreio para ler e emprestar livros. Acho que usam mais pelo prazer da leitura”, conta ela.

Janete sabe que entre seus alunos, a escola é o único lugar em que eles terão acesso a livros e dá valor à estrutura. “O acervo é bem rico, abrangendo todas as áreas de conhecimento e diversos gêneros literários, além dos livros paradidáticos que auxiliam muito o trabalho do professor”, descreve.

Foto: Arquivo pessoal

Segundo ela, os professores são incentivados a desenvolverem projetos de incentivo à leitura. Recentemente a biblioteca da escola foi realocada para uma sala maior, mais organizada e com prateleiras maiores. “Os livros vem do MEC (Ministério da Educação) e do Programa Nacional do Livro Infantil. Atualmente tem muitos livros regionais também”, informa.

Para divulgar o espaço entre os alunos, a professora responsável visitou cada sala dos anos iniciais com a trilha sonora do Sítio do Pica Pau Amarelo e uma aluna vestida de Emília, falando de Monteiro Lobato e outros personagens. Um perfeito convite para as crianças adentrarem no mundo dos livros.

São estes tipos de ações que a professora de inglês Carolina acredita serem necessários para ajudar os estudantes a se interessarem mais pelas bibliotecas e reconhece que parte da falha está nos professores. “Se tivéssemos hábito de levar os alunos à biblioteca e mostrar a importância de ler e ter acesso a leitura, eles teriam mais vontade. Se o professor não desperta isso, a leitura não vai ter importância, vai perdendo interesse”, analisa.

Algo parecido aconteceu com Gabrielle. “Eu nunca me interessei em ler livros, mas a partir do momento que fui ‘obrigada’, eu curti muito, adorei, comecei a me interessar mais por leitura”, conta ela.

Conhecedores e mantenedores do acervo

No elenco de desvantagens que as bibliotecas escolares sofrem, está a falta de bibliotecários.  A pedagoga Cristiane Rodrigues de Melo é auxiliar de coordenação em uma escola pública no interior do estado e presencia a subutilização da biblioteca da escola em que trabalha por este motivo. “Não há profissionais para atender. Alunos ou pessoas da comunidade que precisam pegar livros emprestados, não conseguem, pois não tem gente para atender”, relata ela. Mesmo o esforço de alguns funcionários e professores não é suficiente para que o local volte à atividade normal.

A Gabrielle e seus colegas, que sofrem pela falta de um bom acervo, também revela este problema em sua escola. “Desde o ano passado a biblioteca não funciona mais como antigamente, não dá pra emprestar livro”, diz. Os alunos podem apenas consultar os livros localmente acompanhados dos professores.

Segundo a pedagoga, o profissional é essencial para o funcionamento adequado das bibliotecas. “Se tiver um bibliotecário, ele vai saber o acervo que tem na biblioteca e poderá indicar o que pode ser lido”, explica. A Lei 12.244 prevê que cada biblioteca tenha um profissional bibliotecário.

Livros X Internet

Com difícil acesso e baixa oferta de livros, é natural que os estudantes recorram à internet para suas pesquisas, apesar de reconhecer a importância da leitura e da falta de confiabilidade que os meios eletrônicos oferecem. Inclusive, os próprios professores apresentam a grande rede como primeira opção de fonte de pesquisa.

Na escola pública de Gabriele, não raro, a internet é a primeira opção utilizada pelos estudantes e, também, apresentada pelos docentes. “A gente faz as pesquisas pelo celular. Os professores falam que quem quiser pode pesquisar no computador ou celular ou, se não tiver condições na internet, pode ser na biblioteca”, afirma a estudante.

“Dentro das escolas normalmente tem biblioteca, mas a maioria das vezes que os alunos vão pesquisar, não usam a biblioteca, usam sala de informática. Os professores também usam a internet para pesquisas em sala de aula”, relata a professora Carolina.

Os estudantes acabam recorrendo à internet mesmo tendo a impressão de que os livros teriam mais credibilidade. A estudante de uma escola estadual, Natálya Mieko Arakaki Yoshioka, 16 anos, afirma que a biblioteca de sua escola é boa e tem um bom acervo, com “algumas obras que tem vários livros repetidos para o caso de vários alunos precisarem”, entretanto a pesquisa nos livros acontece somente a pedido dos professores.

“Na internet é sempre algo muito resumido e no livro, pelo menos pra mim eu consigo entrar na história e ter em mente tudo que está acontecendo como se eu estivesse lá. Na internet as vezes modificam a obra, porém é algo mais prático”, justifica.

Assim como Natálya, Rafaela Custódio Molinari, de 14 anos, estudante em escola particular, também percebe que os meios eletrônicos podem não ser tão confiáveis. “Depende muito do site, por exemplo, para aprendizado, com certeza o Khan Academy, Brasil Escola, entre outros. No entanto, nós só sabemos se estes são confiáveis, quando pesquisamos em outros sites, a fim de comprovarmos a informação”, avalia.

É aparentemente fácil de concluir as causas e consequências da situação, mas que não é tão simples. De acordo com os relatos, as bibliotecas necessitam sim de investimentos em instalações e acervo, mas ações de incentivo à leitura são urgentes.

Mais ações

Outra lei, prima-irmã da Lei nº 12.244, pode ser capaz de insuflar o desejo pela leitura e despertar a busca por descobertas em crianças e adolescentes do Brasil. É a novíssima Lei nº 13.696, de 12 de julho de 2018 que institui a “Política Nacional de Leitura e Escrita como estratégia permanente para promover o livro, a leitura, a escrita, a literatura e as bibliotecas de acesso público no Brasil”.

Conforme apuração feita pela agência Nexo, o texto foi redigido “junto com representantes de editoras e livrarias e estabelece que sua implementação deve ocorrer nos primeiros seis meses do próximo mandato presidencial”. Ações e metas dos ministérios da Cultura e Educação e representantes da sociedade civil, que devem participar do processo, terão também o prazo de 10 anos.

Foto: Pixabay

“Agora vamos poder cobrar ações e não só ficar reivindicando”, festeja Luís Antônio Torelli, presidente da (CBL) Câmara Brasileira do Livro, entidade que reúne editoras e promove a leitura no país, em entrevista ao Nexo.

“É uma novidade porque obriga o estado a tomar medidas, a construir caminhos para isso, como gerar recursos para implementar, criar uma estrutura, claro que sempre observando princípios de gestão profissional e ética”, disse Bernardo Gurbanov, presidente da ANL (Associação Nacional de Livrarias), ao Nexo.

A norma que fomenta a leitura e a escrita pode representar um grande avanço num país em que, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, a leitura fica em décimo lugar entre as atividades de lazer. Mas o sucesso da aplicação das leis vai depender das ações e empenho de todas instituições, agentes e órgãos envolvidos.

Nas próximas reportagens vamos traçar perfis de leitores, ações e bibliotecas, que, conforme os relatos aqui coletados, não seguem um padrão, seja entre escolas municipais, estaduais e particulares.

 

Fonte: MIDIAMAIS Jornal Diário de Mato Grosso do Sul e Campo Grande

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