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Bibliotecas comunitárias tentam driblar falta de acesso às livrarias na periferia

No Rio de Janeiro, a Zona Oeste é ao mesmo tempo a região mais pobre da cidade e aquela com o menor número de livrarias
Biblioteca Caminho das Letras, em Parelheiros, São Paulo Foto: Arquivo pessoal / Arquivo pessoal
Biblioteca Caminho das Letras, em Parelheiros, São Paulo Foto: Arquivo pessoal / Arquivo pessoal

Quando moradores de Parelheiros, na Zona Sul de São Paulo, criaram a biblioteca Caminho das Letra, em 2008, no aniversário de 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a intenção era superar a ausência de espaços dedicados às letras e assegurar o direito da comunidade à cultura. À época, algumas pessoas encararam a ideia com ceticismo, mas há dez anos ela é o retrato de um país onde a má distribuição de equipamentos culturais impulsiona — e muito — o surgimento de bibliotecas comunitárias em favelas e periferias.

A pesquisa Bibliotecas comunitárias no Brasil: impacto na formação de leitores revelou que 86,7% dessas iniciativas estão em regiões marcadas por baixos indicadores socioeconômicos e altos índices de violência. “Diante do descaso do Estado ao não garantir as políticas públicas de cultura, as bibliotecas surgem do desejo das comunidades de acessar um mundo de histórias que foram narradas e registradas em livros”, explica Bel Mayer, que coordena o Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (Ibeac). Dados do Censo Escolar mostram que o poder público de fato não tem conseguido garantir o acesso pleno aos livros. Apenas 39% das escolas municipais de ensino fundamental têm bibliotecas, enquanto nos colégios particulares o percentual chega a 82%.

Mayer explica que cenários como esse mostram que, aos olhos do Estado, o direito à cultura é pouco relevante. A educadora ouviu esse discurso até mesmo de pessoas ligadas à área social, que questionavam por que dar aos estudantes uma biblioteca, e não cursos profissionalizantes. “A gente respondeu que não queria que eles oferecessem apenas força de trabalho, mas também sua força pensante.” Hoje, todos os jovens que ajudaram a desenvolver a iniciativa estão na faculdade, seja na graduação, seja na pós-graduação.

Não é apenas o poder público que falha ao oferecer espaços voltados à leitura em regiões de vulnerabilidade social. A iniciativa privada concentra suas atividades majoritariamente em áreas ricas e centrais do Brasil. “Isso é reflexo das distorções que a economia do país tem. Se nós analisarmos o mapa da distribuição das livrarias, vamos perceber que ela reflete o desempenho econômico de cada região”, explica Bernardo Gurbanov, presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL). Conforme revelou pesquisa feita pela entidade, o Sudeste concentra sozinho 1.715 livrarias, já  o Norte, Nordeste e Centro-Oeste não chegam a somar juntos 800 livrarias.

Biblioteca Caminho das Letras, em Parelheiros, São Paulo, decorada Foto: Arquivo pessoal / Arquivo pessoal
Biblioteca Caminho das Letras, em Parelheiros, São Paulo, decorada Foto: Arquivo pessoal / Arquivo pessoal

“Do mesmo modo, esse quadro se reproduz nas microrregiões dos centros urbanos, onde os bairros nobres têm concentração de livrarias muito maior se comparado às regiões periféricas e de baixa renda”, diz Gurbanov. O Rio de Janeiro ilustra bem esse fenômeno. A Zona Oeste é ao mesmo tempo a região mais pobre da cidade e aquela com o menor número de livrarias. De acordo com um guia feito pela Associação Estadual de Livrarias do Rio de Janeiro (AEL-RJ), são 26 unidades para atender mais de dois milhões de pessoas. A maioria dessas lojas está localizada na Barra da Tijuca, bairro nobre da região.

Para o universitário Igor Soares, comprar livros não é uma tarefa simples. Morador do Morro do Borel, favela da Zona Norte do Rio, ele precisa pegar ônibus e caminhar por cinco minutos quando quer ir à livraria mais próxima de casa. Ao comprar alguma obra pela internet, tem de pedir para entregá-la em outro local, já que os Correios não vão até sua casa por considerá-la em área de risco. “É mais uma forma de negar a possibilidade da leitura para a gente. Mesmo que eu tenha dinheiro para comprar um livro, mesmo que eu compre esse livro, eles não o entregarão”, analisa o jovem. Não fosse a biblioteca financiada por uma ONG, o Borel teria poucas opções quando o assunto é literatura.

“Isso reflete muito o modo como nós, favelados, somos vistos pelas pessoas. Somos tidos como uma galera que não tem acesso mesmo e que precisa trabalhar, e não estudar.”  Soares diz também que sua presença em livrarias causa certa estranheza e lembra que já foi até seguido por um segurança. “Quando você é seguido, o segurança está dizendo que aquele espaço não foi feito para a gente e que o nosso lugar é outro. Ele está dizendo que não está acostumado a ver gente preta e pobre entrando em livraria.”

A má distribuição de equipamentos culturais espelha também a baixa diversidade do mercado editorial brasileiro. Uma pesquisa da Universidade de Brasília (UnB) revelou que, entre 1965 e 2014, 90% dos livros lançados por editoras tradicionais foram escritos por pessoas brancas e 70% das obras eram assinados por um homem. A pesquisa mostrou também que 78% dos personagens escritos entre 2005 e 2014 eram brancos e 60% deles faziam parte da classe média.

Aos olhos do escritor e cientista social Binho Cultura, é essencial difundir obras escritas por pessoas de favelas e periferias, sobretudo em espaços marginalizados. Fundador da primeira biblioteca da Vila Aliança, na Zona Oeste do Rio, ele acredita que, assim, os jovens dessas localidades poderiam ter referências para enxergar na literatura um futuro profissional. “Quando um jovem da periferia vê que uma pessoa como ele conseguiu publicar, ele percebe que é possível. Então esse poder transformador começa a partir da referência. Posso te dizer que, dentro da favela, o brilho do livro e do instrumento musical atrai muito mais que o brilho do fuzil e da pistola. Mas é preciso haver investimentos.”

Fonte: ÉPOCA

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