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BIBLIOTECÁRIA ESPECIALISTA EM LIVROS CARTONEROS E PUBLICAÇÕES INDEPENDENTES

Conheça na entrevista realizada pela Malha Fina Cartonera de São Paulo, a bibliotecária e pesquisadora Paloma Celis-Carbajal da Universidade de Wisconsin–Madison (Wisconsin–Madison University) nos Estados Unidos, que nesse mês de maio veio à Argentina e ao Brasil, especialmente para coletar livros cartoneros latino-americanos para levar para integrar o acervo da Universidade de Wisconsin–Madison e disponibilizá-los para empréstimo. 

Paloma é bibliotecária especialista em publicações independentes nas Américas e através dessa conversa com a Malha Fina Cartonera, ela nos mostra como é importantíssimo para autoras, autores e artistas independentes o apoio de bibliotecárias e bibliotecários, para que os livros que estão às margens do mercado editorial convencional possam encontrar a diversas comunidades leitoras através das bibliotecas.

Paloma é mexicana e há 12 anos trabalha coletando livros cartoneros para preservar no Acervo da Universidade Universidade de Wisconsin–Madison. É um trabalho impressionante de coleta e preservação de livros latinos-americanos. É a literatura, a memória, a arte e a cultura sendo preservadas de maneira imprescindível, valorizando o trabalho que nós autoras, autores e artistas cartoneros realizamos por amor, por ativismo, por arte, pelo desejo de ocupar espaços e termos as nossas vozes ouvidas através de nossos livros. Paloma foi a responsável por colocar o nosso livro Bibliotecas Mudam o Mundo publicado pela Magnolia Cartonera no acervo da Wisconsin–Madison – clica aqui para ver nosso livro catalogado no acervo da biblioteca.

Acesse o blog da Malha Fina para ler a entrevista no site da cartonera e conhecer os trabalhos que eles realizam.

Paloma Carbajal e o ABC das Editoras Cartoneras

Na quarta-feira passada, 2 de maio, recebemos para uma conversa a pesquisadora e bibliotecária Paloma Carbajal, da Universidade de Wisconsin-Madison (EUA). Durante aproximadamente doze anos, Paloma realizou uma pesquisa e um acompanhamento de edições cartoneras em vários países do mundo. Ela também é coeditora do livro “Akademia Cartonera: un ABC de las editoriales catoneras de América Latina”. 

Abaixo selecionamos trechos da conversa que durou toda uma tarde, com muita troca de experiências e ideias riquíssimas do universo cartonero. Paloma nos contou mais profundamente sobre como surgiu a ideia do encontro Libros cartoneros: Reciclando el paisaje editorial en América Latina, realizado em 2009 na Universidade de Wisconsin-Madison para cartoneras de vários países da América Latina, e do livro Akademia Cartonera, fruto de um Manifesto escrito pelas próprias cartoneras para esse evento. Você pode conferir o livro aqui.

Malha Fina Cartonera: Como era a estrutura do evento? E a questão do Manifesto foi algo vinculado ao evento?

Paloma Carbajal: A ideia desse evento surgiu através de duas pessoas que tinham muito interesse nas editoras cartoneras: eu, por conta da coleção que estava organizando desde 2006, e a professora Ksenija Bilbija, que era a principal pesquisadora na Universidade de Wisconsin sobre editoras cartoneras. O estudo dela se concentrava na Eloísa Cartonera, mas ela também se interessava em conhecer as demais cartoneras. Também somos as coeditoras desse livro (Akademia Cartonera: Un ABC de las editoriales cartoneras en América Latina). Em nossas viagens, aproveitávamos para conhecer as cartoneras, porque sabíamos que não tínhamos dinheiro para ir a todos esses países. Então pensamos: ao invés de nós duas viajarmos, por que não as convidamos para vir? Por isso não chamamos o evento de congresso, porque um congresso é acadêmico, e foi um encontro. A proposta foi convidá-las, explicar que a ideia era que as cartoneras se conhecessem. Ou seja, criar um evento no qual durante dois dias fosse um espaço de intercâmbio de experiências e de ideias entre as cartoneras, mas também entre nós, para que aprendêssemos com elas. Era uma proposta menos hierárquica, então propomos que as cartoneras, ao aceitar o convite, se preparassem para falar em um painel. No primeiro dia havia três painéis, não acadêmicos, já que as pessoas acadêmicas interessadas estavam no público, e as cartoneras falaram sobre o que quiseram. Como não tínhamos muito dinheiro para lidar com o problema da barreira da linguagem – porque nem todos os participantes entenderiam o espanhol ou português –, a proposta foi que as cartoneras participantes escrevessem um Manifesto, entendendo a palavra Manifesto como eles quisessem, então não havia alinhamentos, e desse modo iríamos publicá-lo e traduzi-lo ao inglês. Daí surgiu a Akademia Cartonera e, assim como vocês da Malha Fina, o processo de tradução foi colaborativo, então uma vez por semana, nos reuníamos para revisar e comentar a tradução. Esse livro saiu no momento do encontro, e a ideia era tirar cópias e distribuir gratuitamente para o público. No momento do painel, não necessariamente os participantes falavam sobre o que estava no texto, mas pelo menos quem não entendia o que estava sendo falado, teria uma ideia do que se tratava. E o nome Akademia é um jogo de palavras, porque era a “academia” que estava se juntando nesse evento, e colocamos o “K” para romper um pouco com isso. 

MFC: E no momento em que organizavam esse evento já haviam recompilando edições cartoneras?

PC: Sim. Comecei a coleção em 2006, nesse ano conheci Eloísa Cartonera. Fui à Feira de Livros em Buenos Aires, e uma colega me convidou para a oficina da Eloísa Cartonera. Eu já conhecia um pouco sobre essa cartonera, e fomos em três bibliotecários acadêmicos dos Estados Unidos. Javier Barilaro estava lá, e todos os primeiros integrantes da cartonera. Todos ficaram fascinados com o catálogo muito bem pensado da cartonera, com a representação da literatura contemporânea que não existia em mais nenhum lugar, apenas nessa forma. Levei alguns exemplares para mostrar a outros professores que estudavam literatura contemporânea, e ver se os interessava. Depois, cataloguei aproximadamente quinze edições e fiz todo o processo complexo de preservá-las e colocá-las na estante da biblioteca.

MFC: Como se desenvolveu essa base de dados?

PC: Uma professora coincidentemente ia à Argentina e se ofereceu para trazer os primeiros cem volumes. Eu não tinha ideia de que já existiam mais livros cartoneros. A coleção inicialmente se chamava “Eloísa Cartonera”, depois mudamos o nome da base de dados para “Base de datos editoriales cartoneras”, esse é o nome atual. Antes era “editoriales cartoneras latinoamericanas”, mas tiramos o “latinoamericanas” porque agora existem cartoneras europeias e de outras partes também. Então, temos a coleção física e a base de dados. E no momento do evento, em 2009, isso já existia, e havia algo como 300 livros. Agora há 1400 no total. Alguns são duplicados para poder documentar as variações de capas, mas temos aproximadamente 900 títulos. São muitos. E só atualizamos a base de dados uma vez por ano, então não reflete exatamente como está a coleção. Agora estou levando 130 livros da Eloísa Cartonera, porque desde 2010 não conseguia buscar seus livros, 70 da Sofía Cartonera, que Cucurto nos colocou em contato, de Dulcineia levo 70 aproximadamente e mais o de vocês

Em ordem de aparição, da esquerda para a direita: Paloma Carbajal, Larissa Pavoni Rodrigues, Idalia Morejón Arnaiz, Chayenne Orru Mubarack e Pacelli Dias Alves de Sousa

MFC: Como circula a coleção de livros? Para onde vão os livros da Malha Fina Cartonera

PC: Essa coleção de livros está toda situada em meio à coleção de livros especiais, que é onde estão todos os materiais que tenham algum valor. Este não é necessariamente comercial, mas pode ser um valor intelectual ou algo muito difícil de conseguir, livros raros, como se fala em inglês: “rare books”, pouco frequentes. Então, podem ser livros como esses, podem ser coisas caríssimas ou livros muito antigos, ou também panfletagens políticas, algo que nunca imaginaríamos conseguir e que consigamos por casualidade. Uma coleção muito variada. Quando as pessoas pensam em coleções especiais, pensam em livros caros, livros de artista ou muito reconhecidos, mas não é necessariamente isso. A respeito das características dessas coleções: toda a biblioteca, a parte das coleções especiais, está aberta ao público. Qualquer pessoa entra e pode ter acesso à coleção. É uma coleção grande. Na universidade há vinte bibliotecas. A biblioteca em que trabalho é a de ciências sociais e humanidades, que é onde se reúnem todas as coleções de livros publicados no estrangeiro, em todas as línguas estrangeiras. Agora temos aproximadamente seis milhões de livros apenas na área de coleções especiais, os quais não se pode levar para casa, mas sim consultá-los. Não é necessário o uso de luvas e é possível consultá-los pessoalmente. Tudo está aberto, inclusive as revistas. Também é possível realizar o empréstimo entre bibliotecas, ou seja, tudo que não está nas coleções especiais circula. Há uma coleção com quarenta livros cartoneros que circula, que é normalmente a que se utiliza nos cursos universitários.

MFC: Colocando em perspectiva o trabalho de sua biblioteca, como você o vê em relação às outras grandes bibliotecas da academia norte-americana? Aqui na USP, por exemplo, muitos pesquisadores viajam para consultar os acervos no Texas.

PC: A biblioteca do Texas é a maior de estudos latino-americanos nos Estados Unidos, depois da Biblioteca do Congresso. As duas são diferentes e na verdade, se complementam. Cada biblioteca se especializou historicamente dependendo de seus pontos fortes, de suas coleções. Essas, por outro lado, se desenvolveram de acordo com o interesse acadêmico. O que se lê e o que se pesquisa nessas instituições é, muitas vezes, o que dita por onde caminharão essas coleções. Também temos os especialistas, nós que cuidamos das coleções especiais e vamos nos especializando. Por exemplo, meu colega que é responsável pela mesma coleção que eu, mas na Universidade de Illinois, se especializou na coleção de esportes na América Latina. Esse é seu tema, sobre o qual escreve e sobre o qual pesquisa. Então, de alguma forma, além do grande acervo, há essa área. No meu caso, me especializei em editoras cartoneras e, portanto, em coisas que se aproximam à natureza dessas edições, como a literatura de cordel aqui no Brasil. Ela não é idêntica, mas complementa o estudo das cartoneras, seu contexto histórico e sua forma de publicação. As duas edições estão à margem da indústria editorial. Por esse mesmo viés, há muitas publicações independentes por aqui que me interessam muito.

Agradecemos imensamente à Paloma pela entrevista concedida. É muito estimulante pensar os livros da Malha Fina Cartonera em uma perspectiva de circulação global. A conversa com uma especialista da biblioteconomia e das publicações independentes nas Américas proporcionou uma visão do livro não apenas em sua materialidade, mas também enquanto objeto de pesquisa e objeto circulante ao redor do mundo.

Fotos: Acervo pessoal da Paloma Carbajal e blog da Malha Fina Cartonera

Entrevista realizada por: Chayenne Mubarack e Larissa Pavoni Rodrigues da Malha Fina Cartonera

Texto por Daniele Carneiro

Fonte: Bibliotecas do Brasil

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