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Biblioteca em SP promove a inclusão de pessoas em situação de rua

Estima-se que entre 20% e 25% do público da Biblioteca de São Paulo seja composto por pessoas em situação de vulnerabilidade. A maioria vai ao local para acessar computadores e ler jornais e revistas

Imagem ilustrativa

Por: Mariana Lima

Diogo Rossali, 33, costuma ir à Biblioteca de São Paulo (BSP), localizada no Parque da Juventude, em Santana, na Zona Norte da cidade, sempre que tem tempo livre.

O hábito de leitura de Diogo pode ser considerado incomum. Ao contrário da maioria dos brasileiros, ele lê mais de um livro por semana e raramente é intimidado pelo número de páginas.

Natural do Rio Grande do Sul, Diogo chegou a São Paulo há um ano e meio, sem conhecer nada nem alguém que o apoiasse. Assim, acabou indo para o Centro de Acolhida Zachi Narchi.

Por estar próximo da biblioteca, a assistente social do albergue indicou o local para Diogo, que desde então realiza visitas frequentes ao espaço.

“Pra mim, a biblioteca é como a minha segunda casa. Eu passo o dia inteiro aqui, e isso me distrai dos meus problemas. Quando eu tô aqui, com um livro para ler, eu esqueço e consigo me distanciar. Sem o livro tudo volta”.

Diogo abandonou sua casa no Rio Grande do Sul devido a problemas familiares. “Eu praticamente fugi de lá. Estava com depressão”.

Rossali lê, em média, um livro de 300 páginas em dois dias. Sem restrições de gênero ou autor, é através do título que ele escolhe o que lerá.

“Tenho muitos livros favoritos que descobri aqui. Mas meu favorito é As Crônicas dos Mortos, do Rodrigo de Oliveira. Me fez querer comprar a série toda”, conta com um sorriso no rosto.

O período mais longo que Diogo ficou longe da biblioteca foi quando trabalhou no McDonald’s. “Por seis meses, não deu pra vir. Folgava só nas segundas-feiras, e aí a Biblioteca estava fechada”.

Desempregado, Diogo segue na busca por uma oportunidade de trabalho. “Mas é aquela história, quando percebem que é de albergue já olham diferente”.

Apesar dos desafios, Diogo enxerga a biblioteca como seu porto seguro. “Gosto daqui. Me traz uma paz como a que eu tinha em casa, perto da natureza. Sinto saudades, mas não dá para voltar”.

A construção de laços

A história de Diogo acabou se entrelaçando com a de Wellington Custodio, atendente da BSP. Devido à situação de vulnerabilidade, Diogo acabou perdendo um dos livros que pegou emprestado.

No entanto, ele não informou a nenhum dos funcionários do espaço, pois não teria como repor o material. Wellington percebeu que Diogo frequentava a BSP quase que diariamente e não levava nenhum livro.

“Resolvi me aproximar dele. Começamos a conversar e questionei o porquê de ele não levar nenhum livro. Então ele contou. Expliquei que não tinha problema, e liberamos o cadastro”.

Depois disso, as conversas se tornaram mais frequentes, e se estabeleceu uma relação de confiança entre eles.

“Com o tempo, vamos os conhecendo melhor e acabamos criando um vínculo também. Eles chegam e perguntamos como eles estão, e eles também querem saber sobre nós”, comenta o atendente.

Wellington nunca havia interagido frequentemente com pessoas em situação de vulnerabilidade, e logo foi aprendendo que o diálogo é fundamental para a aproximação.

“Boa parte deste público tem uma resistência. Eles ficam meio fechados no início, mas, quando você quebra essa barreira, eles percebem que a biblioteca é um espaço deles também”.

Há 7 anos na biblioteca, Wellington já abordou e ouviu as histórias de muitas pessoas, mas teve uma que o marcou especialmente.

“Esse é um público que precisa de um espaço de escuta, em que possa falar e ser ouvido. Eles são carentes deste espaço”.

A equipe notou que um dos frequentadores estava dormindo no espaço e, ao abordá-lo, descobriu que o albergue em que ele estava na região foi fechado, e ele não conseguia dormir na rua, devido à insegurança.

“Eu nunca tinha conversando com ele antes, mas ele frequentava o espaço havia bastante tempo. Ele falou para mim que sabia que o espaço não era para dormir, mas que ele estava sem opção enquanto aguardava surgir uma nova vaga no albergue”.

Wellington esclareceu que não haveria problema. “Ele sumiu por um tempo, mas algumas semanas atrás ele voltou, e falou que conseguiu a vaga no albergue e estava trabalhando. É bom quando eles voltam só para nos contar coisas assim”.

A biblioteca como um espaço de inclusão

Diariamente, antes de a Biblioteca de São Paulo abrir, forma-se uma fila do lado de fora. A fila tem, principalmente, pessoas em situação de rua – albergadas ou não – que querem garantir uma vaga para usar o computador.

“Temos um número limitado de computadores, então eles retiram uma ficha e os que não conseguem assim que chegam precisam esperar”, conta a superintendente da BSP, Sueli Motta.

Todos os usuários têm direito a duas horas diárias nos computadores. Alguns utilizam o tempo para falar com os familiares, enviar currículos ou para assistir a filmes e vídeos no Youtube.

“A proposta da biblioteca, quando ela foi inaugurada ainda em 2010, era atuar pela inclusão. Então não segmentamos os grupos. Temos um olhar de acolhimento para as pessoas em situação de vulnerabilidade”, explica Sueli.

Inspirada em modelos observados na Colômbia e no Chile, a BSP funciona como uma “biblioteca viva”, ou seja, que preza pela interação e o acesso à cultura.

Esse modelo é aplicado tanto na BSP quanto na Biblioteca Parque Villa-Lobos (BVL), na Zona Oeste da cidade. Ambas são administradas pela organização sem fins lucrativos SP Leituras.

“Aqui em Santana, a biblioteca acabou sendo abraçada e ocupada pela comunidade ao redor. Estamos em um parque e próximos do Centro. É um local de fácil acesso e que acolhe essas pessoas”, aponta Motta.

Ao longo dos anos de funcionamento, a equipe da biblioteca foi trabalhando para atender as necessidades do público em situação de vulnerabilidade social.

A interação possibilitou o surgimento de oficinas de montagem de currículo, auxílio para preencher formulários online de vagas e até atividades de escuta.

Através da área de serviço social da SP Leituras, funcionários realizam mensalmente uma atividade de acolhimento.

“Chamamos pessoas que estão na fila para utilizar os computadores ou em outros espaços das bibliotecas para formar uma roda e compartilhar suas histórias por meio de dinâmicas”, conta a assistente social da SP Leituras Maria Eulália Borges.

Ela ressalta que as dinâmicas são abertas para todos os usuários, mas há uma busca por pessoas em situação de vulnerabilidade.

“Esse é um público que precisa de um espaço de escuta, em que possa falar e ser ouvido. Eles são carentes deste espaço”.

Além dos computadores, a maioria do público em situação de vulnerabilidade costuma utilizar o espaço para ler jornais, revistas ou quadrinhos.

“Eles participam muito, leem muito e já nos disseram que a biblioteca ajuda a mantê-los longe da rua, das drogas”, Conta Maria Eulália.

O objetivo do espaço é integrar todos os públicos, promovendo o diálogo entre grupos distintos. A assistente social cita o exemplo de uma participação em um ‘Luau’, espécie de sarau que ocorre às quintas-feiras na BSP.

“Há algum tempo, uma pessoa em situação de rua participou de um ‘Luau’, e ele foi lá e cantou uma música que o marcou muito. Agora ele vem toda semana para participar e se junta com o pessoal da ETEC aqui do lado”.

A equipe da SP Leituras estima que entre 20% e 25% de seu público seja composto por pessoas em situação de vulnerabilidade.

“Não temos como ter um controle efetivo. A pessoa precisa da carteirinha apenas para o empréstimo do livro. Ela pode, tranquilamente, se quiser, passar pelo espaço, sentar e apenas ler”, conta a superintendente da biblioteca, Sueli Motta.

Ela ainda aponta que entre os que fazem a carteirinha para ser tornarem sócios, há os que costumam evitar dar o endereço do albergue ou contar que estão na rua.

“Aqui eles não se sentem discriminados. Se precisam de orientação para algum serviço, nós oferecemos. O espaço é deles também”.

*

Serviço

A Biblioteca de São Paulo e a Biblioteca Parque Villa-Lobos funcionam de terça a domingo, das 9h30 às 18h30.

Fonte: Observatório do 3° Setor

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