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As várias facetas de Hilda Hilst, na Flip 2018

Festa Literária Internacional de Paraty homenageia a escritora tardiamente reconhecida

Hilda morava há mais de 40 anos na Casa do Sol, em Campinas (Foto: Lenise Pinheiro/Folhapress)

Lírica, pornógrafa, mística, libertária, louca ou incompreendida, não importa, Hild Hilst (1931-2004) é um dos grandes nomes da literatura brasileira, dona de um estilo e universo poético únicos, e o reconhecimento à sua importância veio a passos lentos, mas chegou.

Sua vida, obra e até esquisitices atraem cada vez mais admiradores, que a revisitam em saraus nas periferias, no cinema, no teatro e em reedições. E a prova máxima é a homenagem à autora, promovida pela 16ª Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, que vai agitar a cidade fluminense do dia 25 a 29 de julho, reunindo 33 autores em 17 mesas (veja quadro abaixo). Os ingressos começam a ser vendidos entre final de julho e começo de julho.

Não poderia haver momento mais oportuno, para a memória da escritora, para o mercado editorial e para os herdeiros, admiradores e pesquisadores de sua escrita. Desde o ano passado, a Companhia das Letras vem reeditamndo as obras completas de Hilda, em volumes especiais.

A editora paulistana já lançou “Da Poesia” (2017), que reúne 25 livros num só volume; “De Amor Tenho Vivido” (2018), coletânea com 50 poemas; “Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão” (2018), publicado originalmente em 1974, foi o primeiro livro de poesia depois que estreou na ficção; e “Da Prosa” (2018), que reúne todos os títulos da lavra ficcional da autora numa caixa com dois volumes.

“Aconteceu com Hilda o que aconteceu com Lima Barreto (autor negro, homenageado na edição passada), a imcompreensão de sua época. Ela fez uma obra um pouco na contramão das correntes literárias em voga (pricipalmente entre 1950 e início de 60) e teve o momento em que ela foi morar, aos 33 anos, na Casa do Sol (em Campinas, no interior), quando parou de circular no meio literário. Ela fazia uma obra considerada difícil para o leitor e era publicada por uma editora de livros de arte, a Massao Oho, que fazia edições pequenas que não circulavam muito”, avaliou Joselia Aguiar, curadora da Flip, em coletiva de imprensa realizada, ontem, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, na Capital.

A escritora Hilda Hilst lança seu novo livro “A Obscena Senhora D” (Foto: Gil Passarell/Folhapress)

“Hilda só consegue alguma repercussão quando publica “O Caderno Rosa de Lori Lamby” (1990, prosa de ficção), no qual ela radicaliza na dimensão erótica, mas continua sendo uma literatura difícil. Durante muito tempo, ela fica associada à personagem Lori Lamby e à pornografia. o fato dela ser mulher também foi um fator que dificultou sua acietação, claro, porque ela fazia coisas, na literatura, que não eram esperadas em uma mulher”, continuou Joselia.

Para a curadora, o interesse crescente pela obra de Hilda, pelas novas gerações, que a adaptam para o teatro e a levam para saraus e até o cinema, deve-se à “nossa mentalidade de hoje, que aceita melhor a estranheza do que aceitava no passado”. “O leitor de há 50 anos era bem diferente do de hoje, que está mais aberto a estranhezas”, disse.

Dessa maneira, a 18ª Flip tenta abarcar a atualidade, a versatilidade e todas as facetas da autora paulistana, que não extrapolou o campo da literatura. Por isso, as mesas reúnem não somente escritores e pesquisadores, mas atores, performers, sound designers, músicos, compositores e fotógrafos.

“Esta será a edição mais artística da Flip, com debates menos acadêmicos”, avisa a curadora, que revela que há um longa-metragem que está para estrear, sobre Hilda: um documentário ficcional, um filme de arte, que utiliza elementos do realismo fantástico para abordar as tentativas da escritora de ouvir vozes de pessoas que tinham morrido, por meio da escuta de gravações na Casa do Sol.

Este assunto será abordado na segunda mesa da Flip, “Performance sonora”, com Gabriela Greeb e o português Vasco Pimentel (veja quadro).

Menos orçamento

Mauro Munhoz, diretor-presidente da Casa Azul, responsável pela Flip, participou da coletiva e revelou que o orçamento do evento, nos últimos cinco anos, vem caindo na ordem de quase R$ 1 milhão ao ano. “A gente tem um orçamento menor. Em 2017, tivemos R$ 5,8 milhões, sendo R$ 3,7 milhões exclusivo para os cinco dias do evento. Este ano, fecharemos a conta no final do ano, mais iremos eduzir o orçamento de 500 mil a R$ 1 milhão”.

A poeta portuguesa Maria Teresa Horta será entrevistada por vídeo (Foto: divulgação)

Programação completa:

>>Quinta-feira, 26 de julho

10h, Mesa 2. Performance sonora, com Gabriela Greeb e Vasco Pimentel. A voz e a escuta de Hilda Hilst registradas em fita magnéticas na década de 1970.

Mesa 3. Barco com asas, com Júlia de Carvalho Hansen, Laura Erber e Maria Teresa Horta (em vídeo) (foto). Duas poetas brasileiras entrevistam, por vídeo, um grande nome da poesia de Portugal.

15h30, Mesa 4. Encontro com livros notáveis, com Christopher de Hamel. A religião, a magia, a luxúria e a leitura na época medieval.

17h30, Mesa 5. Amada vida. Da perda, performance de Bell Puã. Com Djalmila Ribeiro e Selva Almada. Encontro entre ficcionista argentina que escreveu sobre histórias reais de feminicídio e uma autora feminista negra.

20h, Mesa 6. Animal agonizante. Com Sergio Sant’Anna e Gustavo Pacheco. Mestre da literarura brasileira relembra sua trajetória ao lado de um leitor seu.

>>Sexta-feira, 27 de julho

10h, Mesa 7. Poeta na torre de capim, com Ligia Fonseca Ferreira e Ricardo Domeneck. Diálogo de grande especialista no poeta negro Luiz Gama e um poeta e editor atento a nomes fora do cânone.

12h, Mesa 8. Minha casa, com Fabio Pusterla e Igiaba Scego. Poeta e tradutor do português conversa com romancista filha de imigrante da Somália.

15h30, Mesa 9. Memórias de porco-espinho, com Alain Mabanckou. A trajetória e o pensamento do poeta e romancista franco-congolês premiado.

17h30, Mesa 10. Interdito. Do desejo, performance de Ricardo Domeneck. Com André Aciman e Leila Slimani. Diálogo entre dois romancistas, um judeu americano de origem egípcia e uma francesa de origem marroquina.

20h, Mesa 11. A santa e a serpente, com Eliane Robert Moraes e Iara Jamra. Encontro entre ensaísta que atua na fronteira entre a literatura e a filosofia e atriz que encarnou a personagem Lori Lamby.

>>Sábado, 28 de julho

10h, Mesa 12. Som e fúria, com Jocy de Oliveira e Vasco Pimentel. Pioneira da música de vanguarda no País, dedicada à ópera multimídia, e um sound designer português.

12h, Mesa 13. O poder na alcova, com Simon Sebag Montefiore. Historiador britânico, autor de biografias de Stálin, dos Romanov e de Catarina, a Grande.

15h30, Mesa 14. Obscena, de tão lúcida, com Isabela Figueiredo e Juliano Garcia Pessanha. Romancista portuguesa nascida em Moçambique encontra narrador de gênero híbrido e filosófico.

17h30, Mesa 15. Atravessar o sol. Cantares do sem nome, performance do poeta e artista visual maranhense Reuben da Rocha a partir de tema de Hilda Hilst. Com Colson Whitehead e Giovani Martins.

20h, Mesa 16. No pomar do incomum, com Liudmila Petruchevskáia. Um dos grandes nomes da literatura russa moderna.

>>Domingo, 29 de julho

10h, Mesa Zé Kleber. De malassombros, com Franklin Carvalho e Thereza Maia. Narrador do sertão baiano se encontra com folclorista.

12h, Mesa 17. Sessão de encerraento. O escritor e seus múltiplos, com Eder Chiodetto, Iara Jamra e Zeca Baleiro, que fizeram obras baseadas na produção de Hilda Hilst. Baleiro chegou a visitar a Casa do Sol, em Campinas, e lançou um CD produzido por ele, com poemas de Hilda musicados, chamado “Ode Desontínua e Remota para Flauta e Oboé”.

Assista ao vídeo do encontro de Zeca Baleiro com Hilda, na Casa do Sol: https://www.youtube.com/watch?v=fcV6tABMw3k 

Fonte: A Tribuna

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