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As formas e os materiais dos livros infantis podem ser um convite à leitura

Nas últimas décadas, o Brasil viveu uma revolução na parte gráfica dos livros, e os destinados especialmente às crianças ganharam muito com isso

CRISTIANE ROGERIO

(Foto: Getty Images)

Era uma vez um grupo de crianças de várias idades que se viu diante de uma estante de livros meio maluca. De longe, já se observava uma imensidão de cores e tons, era impossível organizar o olhar. Quando elas foram chegando mais perto, viram que cada obra possuía um tamanho diferente: umas chegavam a passar dos 30 centímetros, outras não mediam mais que 10. Mais próximo ainda, perceberam que havia lombadas – aquele material que segura, cola ou costura as páginas – diversas. Algumas em tecido, outras se diferenciavam da cor da capa do livro, umas finas, outras grossas. As crianças começaram, então, a querer mexer em tudo, a pegar, mesmo.

 Os bebês tentavam segurar, exploravam de todas as formas. As crianças maiores se encantavam com  os tipos de ilustração (aquarela, carvão, lápis, colagens). Abriam, alisavam as folhas, voltavam para ver de novo e notavam que, dentro das obras, além das histórias, havia um jeito especial de contar as histórias. Variavam os desenhos, as letras, as cores das páginas, os papéis; tinha até livro com buracos, abas para abrir e personagens presos dentro das dobras. Uma loucura de opções.

Num cenário ideal, as características dessa estante fictícia estariam em qualquer biblioteca básica – fosse ela em casa, na escola, em instituições públicas ou livrarias. A boa notícia é que, nas últimas décadas, o Brasil avançou graficamente no mercado do livro por conta de várias questões: políticas públicas nos setores de economia, educação e cultura; formação de professores; edições diferenciadas nas livrarias que recebem crianças; novas editoras, mais voltadas para livros feitos artesanalmente ou com formatos mais ousados, desafiando as gráficas brasileiras; artistas com mais espaço para imaginar histórias em que se privilegie um casamento potente entre texto, imagem e design. É também por isso que os livros que líamos quando crianças não eram como esses que vemos hoje. Dos bebês aos maiores, a materialidade das obras ficou cada vez mais relevante para o convite à leitura.

Afinal, quando falamos de estímulo à leitura, em qualquer idade, diversidade é fundamental. Desde bebê, a criança vai experimentando o mundo pelos sentidos. “Propor a elas diversas experiências, portanto, mostra que o livro também pode ser um caminho para conhecer o mundo. O material é importante, pois vai contribuir para que essa criança se sinta estimulada a conhecer outros títulos, uma vez que ele também passa a ser objeto de curiosidade, de prazer e, claro, de pensar”, diz a arte-educadora Camila Feltre, mestre em artes na Unesp, professora do curso de pós-graduação O Livro Para a Infância d’A Casa Tombada (SP) e autora do livro É Um Livro…? Mediações e Leituras Possíveis (Ed. Cultura Acadêmica/Unesp).

Um mundo novo

O que não falta, aliás, é variedade quando o assunto é livro “só para bebês”. Nesse caso, não apenas por uma questão de segurança ou de capacidade motora e cognitiva. “Para eles, a materialidade é primordial também por outro motivo: o literário se apresenta no corpo, nos sentidos. Aí entram a textura, a sonoridade, o manuseio das páginas. O formato traz autonomia narrativa, ou seja, o bebê se vê como leitor, mesmo com a mediação de um adulto”, diz a psicóloga Cássia Bittens, criadora do projeto Literatura de Berço e pesquisadora da área de Crítica Literária da PUC-SP.

Ela exemplifica esse conceito com o livro Uma Lagarta Muito Comilona(Ed. Callis), um clássico do norte-americano Eric Carle, que narra a história de uma lagarta que sai do ovo faminta e come uma maçã na segunda-feira, duas peras na terça, três ameixas na quarta e por aí vai até se empanturrar, engordar, virar casulo e, então, borboleta. A trajetória superconhecida do bicho acontece de forma diferente pelo tom de humor que textos e imagens oferecem, e também porque, na versão original (há mais de uma dezena delas pelo mundo), o autor deixa marcas do caminho da lagarta com furos que correspondem ao número de frutas. “Ao brincar com eles, o bebê está sendo ativo na leitura e, ao mesmo tempo, entrando no mundo da fantasia, que é o que o literário faz com qualquer um de nós [nos coloca no lugar do outro]. Para o bebê, isso acontece por esse meio concreto”, diz.

(Foto: Shutterstock)

Como escolher

Independentemente de ser uma obra para bebê ou criança maior, a escolha do livro merece atenção. Não é por ser “bonito”, ter capa dura, texturas ou cores que ele é bom. Seja um livro-brinquedo (os de plástico, para ler no banho; os de pano, para a criança manusear com mais segurança; os pop-up ou com abas, para adulto e criança brincarem e se surpreenderem), seja um livro informativo (com a prioridade de ensinar algo como números, letras e cores), seja um com “apenas” uma história, há várias maneiras de avaliarmos a qualidade de uma obra e, a partir daí, formar um repertório.

“Em um bom livro, nada que está ali é por acaso: formato, tamanho, técnica da ilustração, paleta de cores, fonte da letra. Tudo que está presente é para comunicar algo. Na hora de escolher, é importante atentar para essas possibilidades”, diz Denise Guilherme, mestre em educação e criadora de A Taba, empresa e site especializados em curadoria de livros. Sendo assim, já que as opções nas prateleiras são inúmeras, os pais devem se informar sobre as obras e ler indicações, claro. Mas nada se compara ao impacto que a leitura vai causar neles próprios.

Por isso, a dica é: experimente! Se ao longo dos anos o adulto, em geral, se desliga da materialidade do livro, quando se torna pai ou mãe tem a oportunidade de reencontrar esse prazer. Retornamos àquela sensação de aprender algo novo – não raro, porém, a gente se afoba na hora de “ensinar”. Qual a saída, então? Para a atriz Letícia Liesenfeld, contadora de histórias e pesquisadora, acima de tudo, é essencial que o adulto se conecte ao livro antes de apresentá-lo à criança. “Quando trabalhei em oficinas com famílias com bebês nas redes de bibliotecas em Portugal, a primeira coisa que eu pedia para as pessoas é que pegassem nos livros, examinassem pequenas falhas, cheirassem…”, diz. Em vez de se posicionar na frente da criança dizendo a ela como fazer, a especialista sugere que você fique atrás dela para auxiliá-la ou a coloque no colo. “Até para ensinar a pressão ideal para virar as páginas, algo que é bem complexo para os pequenos”, completa.

 Por fim, vale lembrar que, seja cartonado, com números e cores, cheio de recursos de texturas ou feito “somente” para fácil manipulação das pequenas mãos, o livro para crianças também deve preservar a surpresa. Algo que pode vir do estranhamento, do riso, da aba que ora abre para cima e ora para baixo, da leitura que tem de ser feita de ponta-cabeça… O papel é o limite – ou melhor, não é.
Fonte: Revista Crescer

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