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As aquarelas botânicas da primeira expedição científica brasileira

Reis Carvalho, que havia sido aluno de Jean-Baptiste Debret, registrou primeira e única exposição de comissão nacional do século 19

‘AMEIXEIRA’, FEITO ENTRE 1859-1861 FOTO: JOSÉ CARLOS DOS REIS CARVALHO/ACERVO FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL

José Carlos dos Reis Carvalho (1800-1872) foi um pintor, desenhista e professor cearense. Foi escolhido o pintor oficial da “Comissão Científica Exploratória das Províncias do Norte” e aluno do artista francês Jean-Baptiste Debret, um dos principais integrantes da Missão Artística Francesa.

A comissão foi criada na segunda metade do século 19 como resposta ao domínio europeu no estudo de temas nacionais no período. Apoiada por D. Pedro 2º, era composta apenas por brasileiros e tinha o objetivo de explorar os locais menos conhecidos do país. Reis Carvalho trabalhou para todos os membros da comissão, que era dividida em cinco seções – botânica, geológica e mineralógica, zoológica, astronômica e geográfica, e etnográfica – durante a única expedição realizada pelo grupo, pelo Ceará, em 1859.

Mas atendeu principalmente ao chefe do grupo, Francisco Freire Alemão, que tinha o objetivo de mapear o reino vegetal segundo a biogeografia brasileira.

‘ESTUDOS BOTÂNICOS E DESCRIÇÕES DE PLANTAS BRASILEIRAS’, DOCUMENTO MANUSCRITO DA EXPEDIÇÃO DE FRANCISCO FREIRE ALEMÃO
FOTO: ACERVO FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL
‘BRYOPHYLLUM PINNATUM’, FEITO ENTRE 1859-1861
FOTO: JOSÉ CARLOS DOS REIS CARVALHO/ACERVO FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL
FOLHAS E FRUTOS (1859-1861)
FOTO: JOSÉ CARLOS DOS REIS CARVALHO /ACERVO FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL
‘FOLHAS, FLORES E FRUTOS’ (1859-1861)
FOTO: JOSÉ CARLOS DOS REIS CARVALHO /ACERVO FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL

O que chama a atenção nas obras de Reis Carvalho é a habilidade como ilustrador científico, seguindo as regras internacionais de representação de espécies vegetais, caracterizada pela ênfase no sistema reprodutor de cada planta”, diz um texto publicado pelo site da plataforma Brasiliana Iconográfica.

De acordo com a taxonomia criada pelo naturalista sueco Lineu, o sistema reprodutor era o fator que determinava a classificação da espécie no sistema botânico.

‘CEREJEIRA?’ (1859-1861)
FOTO: JOSÉ CARLOS DOS REIS CARVALHO /ACERVO FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL

Não se sabe ao certo a quantidade de registros feitos pelo pintor ao longo da viagem. Mais de 50 aquarelas botânicas pertencem atualmente ao arquivo da Biblioteca Nacional.

Reis Carvalho não registrou apenas a flora, também ilustrou construções, paisagens, animais, cenas de costumes e de trabalho.

A história da expedição

O Ceará foi a primeira e única província a ser explorada pela comissão. Alguns historiadores atribuem essa escolha a rumores de que haveria minas de pedras preciosas na região.

O grupo, formado pelos principais cientistas e intelectuais da época, chegou a Fortaleza em fevereiro de 1859, equipado de uma biblioteca científica com cerca de dois mil livros e periódicos, máquina fotográfica (inovação tecnológica então recente), microscópios, telescópios, termômetros e barômetros.

Partiram para o interior após seis meses na capital. No total, foram dois anos e cinco meses de pesquisas pelo sertão cearense.

‘FOLHAS, FLORES E FRUTOS’ (1859-1861)
FOTO: JOSÉ CARLOS DOS REIS CARVALHO /ACERVO FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL
‘FLORES, FRUTOS E RAÍZES’ (1859-1861)
FOTO: JOSÉ CARLOS DOS REIS CARVALHO /ACERVO FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL

A passagem da Comissão Científica pela província foi marcada por tensões e conflitos, segundo uma reportagem do jornal Diário do Nordeste.

A imprensa da época apelidou o empreendimento de nomes como ‘Comissão das Borboletas’ ou ‘Comissão Defloradora’”, diz a reportagem.

Incidentes envolvendo ajudantes da Comissão, problemas ligados às especificidades da região e até a tentativa frustrada de aclimatação de 14 camelos para realizar a travessia foram muito noticiados.

Os resultados da expedição renderam uma mostra no Museu Nacional em 1861 e, no ano seguinte, os itens seguiram para a Exposição Universal de Londres, mas nenhuma grande publicação foi editada com o material coletado.

Mudanças políticas nos gabinetes imperiais e a participação do Brasil na Guerra do Paraguai (1864-1870) implicaram a diminuição do orçamento e da atenção dispensados à Comissão Científica.

As expedições do século 19

No Brasil, o século 19 foi marcado por expedições estrangeiras artísticas e científicas, que apresentaram o país ao mundo por meio dos registros de artistas viajantes.

A partir de 1808, com a transferência de dom João 6º e da corte portuguesa ao Rio de Janeiro, foi declarada a abertura dos portos brasileiros, o que alterou o estatuto colonial que restringia as viagens de estrangeiros pelo país.

Com isso, teve início um ciclo de viagens e missões científicas que realizaram um inventário internacional sobre a paisagem, flora, fauna e sociedade, que originou vasta gama de estudos científicos sobre o Brasil. Também coletavam-se espécimes naturais e objetos. Parte deles eram encaminhados a museus e instituições europeias.

Nessa época, passaram pelo Brasil figuras como o naturalista inglês Charles Darwin, que participou de uma expedição promovida pela marinha inglesa e passou quatro meses no Brasil, e o botânico August de Saint-Hilaire, autor dos diversos volumes de “Voyages dans l’Intérieur du Brésil” (Viagens pelo interior do Brasil).

A partir da segunda metade do século, com a origem do Museu Nacional e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, surgiu a demanda por uma produção de conhecimento científico exclusivamente brasileiro, que motivou a criação da Comissão Científica Exploratória das Províncias do Norte.

Texto por Juliana Domingos de Lima

Fonte: Nexo

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