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ARTIGO | FESTA DO LIVRO É ESPAÇO DA DIVERSIDADE DE PENSAMENTO E NÃO DE CENSURA

É sempre uma surpresa ser censurado, quando se está em um regime constitucional que assegura as liberdades
O jornalista Sérgio Abranches Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo
O jornalista Sérgio Abranches Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Quem escreve tem dois prazeres. Escrever, mesmo quando é penoso, e falar sobre livros, inclusive os seus. Escrever é sempre o exercício de um diálogo. O escritor escreve dialogando com o narrador e com um leitor virtual. O primeiro a quem conta sua história, seja ela ficção ou não. É sempre uma alegria ser convidado para uma feira ou um festival literário. Porque o escritor gosta de falar de livros e porque o crescimento dessas festas do livro no Brasil tem contribuído para formar leitores, novos autores e propagar cultura, diversidade de visões de mundo, indagações sobre o passado, inquietações sobre o presente e o futuro.

As festas do livro são um espaço sagrado da diversidade de pensamento e da criatividade. Quando a censura ou outras formas de interdição invadem esse espaço, quebra-se um precioso elo de sustentação da democracia. É o elo mais central do sistema de liberdades e o mais vulnerável. Por isso é o primeiro alvo do obscurantismo.

Foi o que aconteceu na Feira do Livro de Jaraguá do Sul. Eu e Miriam Leitão fomos gentilmente convidados por Carlos Henrique Schroeder para falarmos de nossa formação como leitores e escritores e dos livros que marcaram nossa trajetória na mesa Biblioteca Afetiva. Aceitamos com satisfação, pelo prazer de falar sobre livros e nossa adesão entusiasmada às festas da literatura. Uma reação hostil, cheia de ameaças e ignorância, levou a coordenação do evento a retirar o convite. As ameaças e a rejeição eram principalmente contra Miriam, por ser uma jornalista de opinião de grande visibilidade e espírito crítico. Secundariamente, a mim, por minhas análises, também críticas, da política e do governo. Eram apoiadores de Bolsonaro. Mas, nos comentários à notícia, surgiram várias vozes intolerantes à esquerda. Preferiram nos atacar a examinar impessoalmente um caso de lesão à liberdade de expressão.

É sempre uma surpresa ser censurado, quando se está em um regime constitucional que assegura as liberdades. Atos incidentais de censura não são incomuns nas democracias. A questão fundamental é saber se são caso isolado e se os mecanismos de preservação das liberdades funcionaram. Quando um fato se torna um sinal de algo maior? Quando não é incidental, mas resultado de uma mudança no ambiente social e político. Já não foi isolado. Na Flip 2019, houve uma tentativa de calar a mesa com Glenn Greenwald.

Acabava de voltar do Festival Literário de Araxá, do qual fui um dos curadores. Um evento amistoso, vibrante e sem censura. Como devem ser os eventos culturais. A democracia, eu disse numa mesa com o escritor José Eduardo Agualusa e a historiadora Heloisa Starling, tem um paradoxo. Para ser plena, ela deve abrigar seus inimigos e, para combatê-los, só pode usar legitimidade os mecanismos institucionais e pacíficos de dissuasão. Se censurar os que a combatem ou se capitularmos a eles, deixa de ser democracia.

Esses fatos são sinais de alerta de uma ameaça grave à liberdade de expressão. A tirania nunca tem lado. Quando a nuvem do obscurantismo cobre o espaço do diálogo de ideias, nenhum cidadão tem mais seus direitos assegurados. Mas não perdi a esperança. Fico com a história. O livro sempre venceu no final. E o livro o que é? É o diálogo expressando o pensar que nos faz humanos.

Fonte: ÉPOCA

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