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Armandinho ganha novo livro e reforça caráter questionador

Nova compilação de tiras reafirma o menino de cabelos azuis como um intérprete mordaz de nosso tempo

Marcos Corbari
Lançamento de “Armandinho Dez” na CCXP, o maior evento de quadrinhos do Brasil / Foto: Silvio Y. Sato

Contando com mais de um milhão de seguidores no Facebook, além de incontáveis leitores que o conhecem através dos jornais impressos, o personagem Armandinho, criado pelo catarinense Alexandre Beck, está com livro novo lançado. A décima primeira compilação de tiras – Armandinho Dez – traz micronarrativas produzidas e publicadas em 2016, ano de forte ebulição política com as violações democráticas que redundaram no golpe jurídico-parlamentar que afastou Dilma Roussef da presidência e colou em seu lugar Michel Temer.

– Foi inevitável que neste período tão turbulento as tirinhas ganhassem um tom mais crítico e menos ingênuo -, explica Beck, já explicitando que as micronarrativas de seu personagem trazem uma interpretação concreta dos fatos que seu autor testemunha. “Alguns leitores questionam porque o Armandinho aborda alguns temas mais incômodos e tenho insistido em explicar que assim como manifestar-se a respeito de um assunto é uma opção política, silenciar também seria”, aponta o autor.

Ninguém solta a mão de ninguém

Recentemente autor e personagem foram alvo de críticas de entidades corporativas e até de ameaças propagadas por segmentos conservadores por expressar críticas pontuais, chegando até mesmo a ter a publicação do personagem cancelada por alguns jornais – um deles, o Diário de Santa Catarina, onde o personagem “nasceu”. “Isso assusta e incomoda, é claro, mas não me sentiria bem em não tocar nesses assuntos tendo espaço para propor reflexão a respeito”. Neste caso específico, colocou em pauta o preconceito racial estrutural e o corporativismo profissional; o primeiro a respeito da relação de forças policiais com a população negra e pobre, o segundo abordando sobre a possível recusa de profissionais médicos em cobrir vagas remotas antes ocupadas pelos profissionais cubanos que deixaram o país.

Beck afirma que já esperava por repercussões semelhantes. Isso já havia acontecido em outros momentos, como quando tocou em assuntos sensíveis à segmentos específicos, como a religião, por exemplo. O que surpreendeu agora foi a intensidade e velocidade com tudo se deu. “Essas pessoas sentem que tem seu comportamento legitimado por vozes que estão em posições de poder e já não se importam em manifestar-se de forma aberta e cada vez mais agressiva”, constata. O contraponto, porém, veio em forma de muitas manifestações de apoio por parte de leitores e até mesmo de profissionais ligados aos segmentos criticados e que compreendem a importância da crítica, bem como a razão dos questionamentos propostos. “Então é isso, senti também muito carinho e proteção vindo até de onde menos esperava, pude compreender bem o sentido dessas palavras de ordem que nos desafiam a ninguém soltar a mão de ninguém”.

Empatia segue sendo um desafio

Mas é bom registrar, o espectro de crítica social alinhavado ao longo da publicação vai além: através de Armandinho, seu sapo de estimação, família e amigos, Beck costuma abordar temáticas como a preservação do meio ambiente, a empatia com o próximo, os direitos humanos, o enfrentamento as diversas formas de preconceito, além, é claro, do cotidiano das relações interpessoais no ambiente familiar, na escola e na sociedade como um todo. “Armandinho é um personagem que muitas vezes faz rir, mas não tem essa obrigação”, alerta.

Muitos leitores consideram Armandinho semelhante à Mafalda, personagem do argentino Quino, que notabilizou-se pela linha crítica frente a períodos de instabilidade democrática em seu país. Beck se diz lisonjeado pela lembrança, mas evita comparações. “Armandinho segue sendo construído, assim como eu continuo me construindo como ser humano e é difícil prever até onde vamos ir”, explica. Quanto aos temas semelhantes, não titubeia em responder: “É fato que vivemos um momento de exceções e violações, onde devemos estar prontos para caminhar lado a lado e busco com as tirinhas compartilhar algumas reflexões que são muito minhas, mas que procuro sempre imaginar como seria se estivesse no lugar do outro”.

Serviço:

O leitor do Brasil de Fato/RS já se acostumou a ler a cada edição impressa do jornal as tiras do personagem. Agora fica o convite para conferir em Armandinho Dez e também nas compilações anteriores, os questionamentos deste menino ingenuamente invocado. O livro é uma publicação da Artes & Letras Comunicação – selo controlado pelo próprio autor – e tem distribuição nacional através da Editora Belas Letras, de Caxias do Sul. Pode ser encontrado em livrarias ou adquirido diretamente na loja virtual da distribuidora: https://belasletras.com.br/. O valor de venda, sugerido pela distribuidora, é de R$ 29,90.

Fonte: Brasil de Fato

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