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Área de humanidades vai ganhar “escritório de pesquisa”

É o que planeja o novo diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, Paulo Martins

Texto por Claudia Costa

Prédio que abriga os cursos de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Com cerca de 14 mil estudantes (incluindo os cursos de extensão universitária), 429 docentes e 295 funcionários, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) é uma das maiores unidades da USP. E, se esses números já impressionam, há ainda a estrutura física composta de seis prédios: Casa de Cultura Japonesa, Edifício Professor Eurípedes Simões de Paula (Geografia e História), Edifício de Filosofia e Ciências Sociais, Edifício Professor Antonio Candido (Letras), Biblioteca Florestan Fernandes e o Prédio da Administração. Além disso, abriga os únicos dois Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) de humanidades no Estado de São Paulo, financiados pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

Desde o dia 26 de setembro passado, a FFLCH tem um novo diretor, o professor Paulo Martins, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, que já traçou um planejamento para os próximos cem dias de sua gestão. Segundo ele, o projeto prevê ações fundamentais. “A primeira delas é a constituição de um escritório de pesquisa, que irá atender não só os projetos ligados à Fapesp, mas também os diversos laboratórios e projetos individuais”, afirma Martins, acrescentando que esse escritório vai funcionar como um apoio de base aos pesquisadores. Ainda no âmbito da pesquisa, o diretor diz que foi constituída uma Comissão de Ética em Pesquisa, “algo inovador na área de humanidades dentro de uma universidade, e regulamentada pelo Conselho Nacional que trata da questão”.

O professor Paulo Martins, novo diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP – Foto: Cicero Wandemberg

Uma segunda ação, gerada pela pandemia de covid-19, é a adequação dos espaços físicos visando a uma possível volta gradual dos estudantes à Universidade, como aponta Martins. “Talvez isso demore um pouco ainda. Mesmo entrando na fase azul, há ainda um prazo para começar a voltar”, informa. Além disso, Martins lembra a questão da segurança: “É preciso elaborar um plano de retorno que seja acolhido por todos e efetivamente seguro”. Segundo ele, “nesses próximos meses e no início do ano que vem, os esforços serão centrados na adaptação e na formulação de protocolos específicos que atendam ao protocolo da Universidade, mas com adaptações às características desta faculdade gigante”.

Em terceiro lugar, Martins pretende dinamizar a participação dos colegiados do Conselho Técnico-Administrativo (CTA) e da Congregação – tema tratado durante sua campanha eleitoral. “Nossa Congregação tem um número significativo de membros, que atualmente chega a cem integrantes, mas gostaríamos que a participação fosse mais efetiva”, espera Martins, citando um fato curioso: a pandemia já ocasionou uma melhora nessa dinâmica.

Outro ponto fundamental para Martins é estreitar as relações com funcionários e alunos. “Temos um histórico complexo dentro da faculdade, com uma comunidade acadêmica que se diferencia muito de outras unidades ligadas às exatas, biológicas e saúde, porque é muito questionadora e combativa. Precisamos construir um diálogo que seja efetivamente representativo e democrático”, afirma Martins, informando ainda que, na gestão anterior, da professora Maria Arminda do Nascimento Arruda, em que o hoje diretor ocupou a vice-diretoria, esse era um trabalho que exercia cotidianamente, principalmente através do contato entre as entidades representativas como sindicatos e centros acadêmicos. “Todos devem estar do mesmo lado, enfrentando de forma igual os problemas que surgem na atualidade, indistintamente.”

“Um ponto fundamental é a constituição de cursos interdisciplinares e transdisciplinares, em que os alunos percorreriam todas as estruturas didáticas da faculdade.

Segundo Martins, a manutenção dos seis prédios que compõem a FFLCH, incluindo a Biblioteca Florestan Fernandes e a Casa de Cultura Japonesa, é algo “impressionante”. Ele afirma que já houve um grande avanço nessa questão na gestão da professora Maria Arminda, que segundo ele, era muito firme na manutenção e principalmente na conservação desses espaços. “Porém, há dois prédios que ainda merecem atenção, o prédio de Filosofia e Ciências Sociais e a própria Administração, que estão com planos de reformas das estruturas”, relata.

No aspecto acadêmico, “ponto nevrálgico e fundamental”, nas palavras de Martins, é a constituição de cursos interdisciplinares e transdisciplinares, em que os alunos percorreriam todas as estruturas didáticas da FFLCH. Alguns já estão em estudos, diz, citando três: Estudos Clássicos (que perpassaria as áreas de grego, latim, filosofia antiga, ciência ou pensamento político antigo, antropologia e história), Estudos Ibero-Americanos (literatura espanhola, filosofia, ciência política, antropologia e outras) e Estudo do Oriente Médio (árabe, hebraico, geopolítica e história). “Possivelmente, teremos um curso relacionado à questão da Inteligência Artificial. Esse curso seria uma forma de mostrar que a FFLCH, muito além de aspectos específicos das humanidades, tem também essa interface com a tecnologia”, informa.

Vista interna do prédio dos Departamentos de Geografia e História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

O “cuidado e o trato” com a Biblioteca Florestan Fernandes também estão entre as prioridades do atual diretor. “A Biblioteca Florestan Fernandes é a maior biblioteca de humanidades da América Latina”, afirma Martins. A primeira ação, além da manutenção do prédio, que inclui pintura e troca de telhado, é colocar a biblioteca em um patamar internacional. Segundo Martins, para isso ele conta com a colaboração da coordenadora da biblioteca, Adriana Ferrari, que possui uma larga experiência na área. Ela foi diretora do Sibi (Sistema Integrado de Bibliotecas) da USP e atuou na Secretaria da Cultura do Estado, em iniciativas como a construção das bibliotecas do Carandiru e do Parque Villa-Lobos. “Adaptação de espaços, reorganização de acervos, atenção com a digitalização de teses e a própria digitalização do acervo, fundamental nas atuais circunstâncias, são os pontos principais”, afirma Martins.

Em relação à sociabilização, Martins cita a Comissão de Direitos Humanos da FFLCH. “Temos uma comissão muito ativa, e vamos contratar uma psicóloga, já que enfrentamos com tristeza alguns suicídios nos últimos quatro anos, e precisamos pensar mais seriamente nisso.” Outro objetivo de Martins é atingir as metas do Projeto Acadêmico, de cuja elaboração fez parte e com o qual tem grande afinidade. “Agora estamos em uma etapa de checagem das metas qualitativas e quantitativas que atingimos nesse primeiro ano de vigência do Projeto Acadêmico”, informa.

“Estamos absolutamente qualificados a participar ativamente do debate políticoNão para fazer política, mas para uma interferência política no mundo atual.”

“Queremos mostrar para a sociedade o que estamos fazendo em termos de pesquisa e divulgação científica”, diz Martins. Para ele, neste momento de “política obscurantista”, em que o governo “não ataca só as humanidades, mas a ciência de modo geral”, ninguém está imune ao seu negacionismo. “Haja vista a questão ambiental, a questão da educação, da saúde, ou seja, ele está aí para negar tudo aquilo que a população brasileira construiu de positivo”, afirma, e continua: “Nós tínhamos uma educação em ritmo ascendente, mas vemos que o governo federal leva ao sucateamento visível com o esvaziamento das agências de pesquisa Capes e CNPq”. Quando se trata das humanidades especificamente, segundo Martins, “há um total descontrole, desde que o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub lançou um movimento absolutamente desqualificado sobre as ciências humanas, em que refutava a filosofia e sociologia”. Para ele, “se não conseguimos valorizar aquilo que trata do humano, daquilo que é produção do intelecto humano, estamos diante do total caos”.

O diretor reitera que é preciso mostrar o que a FFLCH faz, e cita como exemplo o Centro de Estudos da Metrópole (CEM) – um dos Cepids financiados pela Fapesp -, que depois de 11 anos de existência acaba de ser aprovado para uma segunda fase. “É a maior base de dados do Brasil, que atende a todos os municípios e Estados, com mais de 600 aspectos estudados, envolvendo questões populacionais, ambientais e socioeconômicas para o estudo de políticas públicas.” Martins destaca ainda a participação da FFLCH no cenário político, algo tradicional da instituição, citando docentes dos seus departamentos que exerceram elevados cargos públicos – como o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso e o ex-secretário de Imprensa do governo federal André Singer. “Estamos absolutamente qualificados a participar ativamente do debate público. Não para fazer política, mas para uma interferência política no mundo atual.”

Fonte: Jornal da USP

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