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Aos 80 anos, Vidas Secas segue atual, firme e afiado

Para Wander Melo Miranda, especialista no trabalho do prosador alagoano, “essa pequena obra-prima continuará a ser nossa face mais luminosa e sombria”. O impacto da leitura permanece intacto pelas décadas transcorridas desde o espanto da crítica com “o mundo coberto de penas”.

Às vésperas da obrigação de ler o romance para o Programa de Avaliação Seriada (PAS) da Universidade de Brasília (UnB), tento convencer minha filha de que o livro deveria ser mais do que isso, uma maçante necessidade. Vidas Secas é lição de vida inteira. Como diz Wander, “alegria e danação”.

Na história de Fabiano, sinha Vitória, dos dois meninos e da cachorra Baleia, o pesquisador enxerga desamparo, em traços fortes e, ao mesmo tempo, delicados. Digo à minha herdeira mais velha (a quem deixo sobretudo autógrafos) que Graciliano, a partir de seu ponto de observação, sacou tudo em cortes sóbrios e retos.

Em fase de preparação de nova biografia de Graciliano, contratada pela Companhia das Letras, o autor do ensaio Graciliano Ramos (Publifolha) me ajuda a avançar na leitura familiar. Sempre compreendi Vidas Secas em seu alcance estético, sem o qual o mundo representado perderia completamente a força.

Wander ressalta que, sim, não haveria como falar de uma “experiência extrema da dor” sem estar atento à escrita, à linguagem. Graciliano teve de abandonar “toda certeza autoral no devir outro que está no cerne da criação ficcional, como o episódio da morte de Baleia sugere de forma magnífica e terrível”.

Ler Vidas Secas na adolescência urbana brasileira não é tarefa das mais agradáveis, sabemos. E convenhamos: pode gerar trauma eterno, justo para o momento e injusto com o autor e sua obra. Garotada distante da dura realidade do sertão, da ausência dramática de água, da existência em outra perspectiva.

Vocabulário agreste, cenário inóspito, imaginário muito pouco hollywoodiano. Começar, então, pela cena original, do sacrifício de Baleia, a mesma que levou Graciliano a se perguntar se estaria sendo excessivamente piegas? Lágrimas são ensinamento e adesão? Quem sabe, o exemplo de vida do autor, engajado na justiça social?

Dúvidas, parecidas com as que o romancista teve ao montar a narrativa, na tentativa de lhe dar causa e consequência. A coerência visual da adaptação cinematográfica de Nelson Pereira dos Santos talvez seja uma boa porta de entrada. Sem substituir a leitura, jamais.

Para a qual Wander recomenda lentidão, “saboreando aos poucos, cada capítulo como se fosse um conto, o que eram realmente no início”. E, claro, é preciso “prestar atenção na linguagem magnífica”. Para sentir a aspereza da realidade, para captar o silêncio da falta da palavra de nomeação, para perceber a ameaça do soldado (governo), para penetrar no descolorido da Caatinga, para calçar as sandálias da humilhação, para viver e morrer no “fim de mundo”.

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Escreve ainda o crítico: “A impossível ‘mudança’ ou ‘fuga’ – início e fim do livro – é um modo de não-conhecimento, vivido como promessa de felicidade ou libertação que se apresenta como se fosse o último desejo de um condenado à morte, no instante em que nada lhe resta senão o desejo de formulá-lo”.

Também responsável por supervisionar o projeto de reedição de toda a obra de Graciliano na editora Record, Wander Melo Miranda vislumbra em Vidas Secas a barbárie que insiste em ser indissociável da experiência de mundo de parte expressiva da população brasileira hoje, assim como na primeira metade do século 20.

Há de se ter cuidado, portanto, na aproximação das personagens dessa família em aparente deslocamento no Nordeste do país rumo a um futuro incerto. É preciso atenção redobrada na leitura. E o esforço recompensará o leitor com uma vaga na universalidade da diferença, da luz que cega os olhos (por dentro) e ilumina a alma (por fora).

Fonte: Metrópoles

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