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‘A literatura da periferia é um mercado paralelo’, diz organizadora da Festa Literária do Grajaú

A partir desta terça-feira (19) tem início a primeira Festa Literária do Grajaú (Flig), com uma série de atividades artísticas e culturais em cinco CEUs (Centros Educacionais Unificados), e no Centro Cultural Grajaú, na zona sul de São Paulo.

Organizada pela professora Michele Santos, 38, professora da rede estadual e mediadora do sarau Sobrenome Liberdade, pela bibliotecária Cíntia Mendes, 32, além de outros bibliotecários dos CEUs da região e agitadores culturais do Grajaú, a Flig busca trazer experiências de outras feiras literárias do país, mas pensada para atender autores do extremo sul de São Paulo. Ao todo, dez pessoas têm ajudado na organização do evento.

“Acho que uma das coisas mais difíceis para quem escreve na periferia é buscar essa legitimação”, comenta Michele. “Ter a união de todas essas pessoas que estão fazendo coisas interessantes na região ajuda a legitimar esse trabalho e a privilegiar todos esses artistas”, completa Cíntia.

Ao longo dos cinco dias de evento, a Flig promoverá quatro mesas de debates, mais de cinco oficinas, saraus, encontros com escritores, exposições e shows com artistas locais. Esta primeira edição homenageia Adélia Prates, figura importante do Grajaú pela militância pelos direitos das mulheres há mais de 30 anos.

No último sábado (16), a Agência Mural conversou com as organizadoras sobre a presença dos livros na periferia, a importância dos saraus no fomento à literatura e a representatividade feminina. “A periferia expõe feridas, expõe a desigualdade social. Não tem como falar de Brasil sem falarmos das periferias”, afirma Michele.

Michele Santos é uma das organizadoras da feira. A Flig começa na terça (19) (Rômulo Cabrera/Agência Mural)

Agência Mural: O que é literatura para vocês e como veem sua presença na periferia, especialmente no Grajaú?
Flig: Apesar de acreditarmos que o incentivo à leitura e a formação de novos leitores pode ajudar a transformar uma sociedade, não somos totalmente crentes da afirmação de que literatura salva. Acreditamos, sim, que os grandes livros são aqueles que te inquietam. E essa inquietude está longe de uma salvação. Às vezes, ela está mais para uma ruptura. Talvez seja esse movimento de ruptura que promova o crescimento das pessoas e, sobretudo, do ser periférico. A literatura delineou todas as nossas escolhas na vida.

E o mercado editorial?
A literatura na periferia é um mercado paralelo. É uma luta todos os dias. Acho que uma das coisas mais difíceis para quem escreve na periferia é buscar essa legitimação, esse reconhecimento. Tanto que quando procuramos quem escreve na periferia, muito raramente iremos encontrar alguém que seja só escritor – aquele cara que acorda e escreve. É sempre um trabalho paralelo, entende? Ter a união de todas essas pessoas que estão fazendo coisas interessantes na região ajuda a legitimar o nosso trabalho. Para nós, a Flig está sendo uma forma de reconhecer os talentos locais, não só para quem é de fora, mas para todos nós. Essa festa está servindo como uma rede de fortalecimento também.

A programação da Flig conta com alguns saraus, além de uma mesa de debate sobre o tema. Qual a importância dos saraus para a literatura periférica?
Os saraus funcionam como ponto de encontro de pessoas que estão fazendo [literatura] e de outras tantas que estão interessadas nesta vertente artística. Servem, vale dizer, não apenas  como pontos de expressão, mas como pontos de venda dos autores periféricos, uma vitrine para todos estes trabalhos, valorizando os artistas da região.

Cintia Mendes é bibliotecária e aponta as dificuldades dos escritores das periferias (Rômulo Cabrera/Agência Mural)

Sobre a presença da periferia na literatura: qual a importância, para vocês, de se representar as periferias na literatura?
Acho que é bem difícil para um autor que não tenha essa existência periférica, que viveu cercado de privilégios, simular este universo tão bem quanto faria alguém que nasceu e viveu aqui. Isso nos faz lembrar de Geovani Martins [autor carioca de “O Sol na cabeça”]. Foi um caso curioso porque ele trouxe [em sua obra] com tanta força a fala daqueles meninos do Rio de Janeiro, que você fica com um eco dos moleques conversando, aquele tipo de fala, “os menó e tal”. Não só o que é dito, mas como é dito, para nós é uma escolha política.

Temas como a vida e a existência são tratados de forma diferente?
Que tipo de mundo é retratado em um universo feito apenas de questões existenciais? Na periferia temos tantas outras questões mais pontuais, que muitas vezes não temos tempo para questionamentos existenciais, porque a gente está preocupado em pagar os boletos, trabalhar, viver. A gente não pode se dar ao luxo do existencialismo. A periferia expõe feridas, expõe a desigualdade social, expõe uma realidade muitas vezes encoberta. Não tem como falar de Brasil sem falarmos das periferias – ainda mais num país como o nosso.

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E com relação às mulheres? Sempre ouvimos falar muito do Sérgio Vaz, Ferréz, mas pouco das mulheres, com exceção de algumas poucas.
Acho que nós mulheres ainda temos muito a conquistar. Respeitamos muito a todos eles e a história que, com muita luta, construíram e fortaleceram, por exemplo, o cenário dos saraus nas periferias. Mas vale dizer que parte disso acabou se desenvolvendo de maneira bem machista, a princípio. Há alguns anos, tivemos um movimento chamado “Não poetize o machismo”, dentro do universo dos saraus, movimento que acabou rachando algumas organizações ao expor certas situações. As mulheres começaram a cobrar isso. Hoje a gente tem espaços específicos, movimentos reservados só para mulheres, como o Slam das Minas, o Sarau das Pretas, por exemplo.

Ainda é difícil pensar em um futuro em que voltemos a coabitar os mesmos espaços em pé de igualdade [homens e mulheres]. Dentro da literatura periférica, achamos importante que mais e mais mulheres passem a ser lembradas. De certa forma, esse racha na historicidade dos saraus, e da literatura periférica, obriga os caras a pensarem: “Não chamaremos outras mulheres?”, ou, “Só chamaremos pessoas brancas?”. Acho que a gente está aprendendo com essa questão da representatividade.

O que pensam do termo “literatura marginal”?
Gostamos mais de “literatura periférica”, apesar de não nos importarmos com o termo “marginal”. Estar à margem não é e nunca foi um problema. Em verdade, isso não estigmatiza, mas mostra de onde viemos, sua importância e toda a carga e história que o nosso universo carrega. É tão difícil o lugar de onde viemos, de chegar onde chegamos, que fazemos questão que isto seja lembrado, que viemos da periferia e que nossa literatura é, sim, periférica.

Rômulo Cabrera é correspondente de Suzano
romulocabrera@agenciamural.org.br

Fonte: Agência Mural

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