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A expressão fotográfica nas imagens de arte

Por arMina Macambyra

Num post anterior tratei da importância da análise e indexação da Expressão Fotográfica, ou seja, o conjunto de recursos técnicos e estilísticos que integram a linguagem utilizada pelos fotógrafos (SMIT, 1997). Decisões de caráter técnico ou estético como a escolha do ângulo, das lentes ou dos filtros, por exemplo, podem resultar em imagens bastante diferentes do mesmo objeto, fato que, no momento da recuperação da informação, terá influência no processo de seleção pelo usuário da imagem adequada às suas necessidades.

A força e o impacto da expressão fotográfica no resultado final podem variar bastante conforme o propósito em função do qual a imagem foi gerada. Em fotos publicitárias ou jornalísticas, por exemplo, a escolha de um ângulo, lente, filtro ou posição de câmera faz total diferença. O mesmo vale, talvez ainda mais, para fotos feitas para expressar a individualidade do fotógrafo, sem qualquer objetivo utilitário imediato. Observem, por exemplo, as nítidas diferenças entre essas duas fotos de gatos. Embora os animais fotografados sejam bastante parecidos, as fotos expressam “ideias de gato” bem diferentes entre si.

Neste post vou abordar um tipo de imagem com caraterísticas bastante específicas: as imagens de obras de arte.

Tradicionalmente, coleções de imagens de obras de arte em bibliotecas eram formadas com o objetivo de substituir o acesso, muitas vezes impraticável, aos originais. Num passado recente, pesquisadores analisavam obras às quais não tinham acesso por meio de fotografias em livros ou nos acervos de slides das bibliotecas; hoje consultam sites de museus ou bancos de imagens disponíveis na web. Mudou o ambiente de consulta, mas a função principal é a mesma. As imagens são usadas – e portanto assim devem ser tratadas pelas técnicas documentárias – como substitutas das obras originais (MACAMBYRA; ESTORNIOLO FILHO, 2008; CODELL, 2010).

Nesse tipo de imagem o impacto da expressão fotográfica se dá de forma bem menos marcante do que nos demais tipos de fotografias. Embora a criação de uma reprodução fotográfica de uma obra pictórica ou escultórica também envolva uma série de decisões técnicas, a finalidade dessas escolhas não é expressar a individualidade do fotógrafo, mas realizar tornar a reprodução o mais semelhante possível ao original.

Os elementos da expressão fotográfica mais frequentes nas fotos de obras de arte – e que podem ser visualmente identificados por pessoas sem conhecimento especializado em fotografia – são a posição da câmera (alta ou baixa), o uso de certos tipos de lentes (olho de peixe, grande angular, teleobjetiva), o enquadramento (plano geral, detalhe) e orientação da imagem (horizontal, vertical).

São particularmente importantes, sobretudo para documentação das obras tridimensionais, elementos que podemos identificar com os aspectos morfológicos da imagem, mas que nem sempre estão relacionados à técnica ou à linguagem fotográfica: as vistas.

O Cataloging Cultural Objects: a guide to describing cultural works and their imagens (CCO), ferramenta desenvolvida pela Visual Resources Association para catalogação das obras de arte e suas imagens, dedica um capítulo à descrição específica das vistas, definidas como os aspectos espaciais, temporais ou contextuais das obras capturados na fotografia (BACA et al., 2006, p. 259). O CCO propõe o campo “View Description”(descrição da vista) para detalhar em texto livre as explicações necessárias sobre o ponto de vista ou perspectiva da vista e o campo “View Type” (tipo de vista), onde se registram termos controlados. Vejam, a seguir, uma compilação das orientações do CCO para esse campo:

  • porção ou amplitude: detalhe, vista parcial posição do objeto no espaço: close-up, vista distante, vista aérea.
  • ângulo ou perspectiva: vista oblíqua, vista de cima.
  • interior ou exterior (para objetos que contêm um espaço interior, como as obras arquitetônicas ou as instalações).
  • posicionamento em obras tridimensionais: vista lateral, vista frontal, vista posterior.
  • ambiente ou iluminação: luz oblíqua, exterior com neblina.
  • pontos cardeais: vista noroeste, fachada sul.

Entretanto, a utilização desses termos como indexadores ainda não está suficientemente disseminada. Em seu estudo das bases de dados Artstor e Bridgeman Educational, Slobuski (2011, p. 51-52) observa que em nenhuma delas é possível filtrar os resultados de uma busca por imagens da Catedral de Chartres por interior ou exterior, e identifica em ambas falhas na descrição de detalhes importantes em obras arquitetônicas que podem dificultar a recuperação das imagens. Fazendo essa mesma busca hoje, na Bridgeman e na coleção pública da Artstor, encontrei o mesmo resultado. Não existe um filtro para restringir o resultado às imagens do interior da catedral. A busca por “cathedral chartres interior” traz alguns resultados, mas como não há consistência no uso desse indexador, muitas imagens se perdem. Resta ao usuário examinar todas as imagens recuperadas – no caso da Bridgeman, mais de 1500.

As bases Web Gallery of Arts, a base da agência fotográfica da Réunion des Musées Nationaux (França) e a Scala Archives, também não oferecem a possibilidade de filtro por tipos de vistas. A recuperação por grandes categorias formais – pintura, escultura, arquitetura etc – ou por técnicas específicas – óleo sobre madeira, aço inoxidável, biscuit etc – é possível, mas não conseguimos recuperar apenas vistas do interior de uma catedral, fotos de uma escultura com a câmera posicionada no alto ou atrás da obras, detalhes etc. Já o Getty Images tem filtros por elementos de expressão fotográfica na busca simples e utiliza “interior” e “exterior” como indexadores.

De fato, o tratamento documentário de imagens ainda precisa ser mais estudado e desenvolvido, bem como as formas de busca nos bancos de imagens. Para Beaudoin (2007, p. 24), uma das razões para a falta de ferramentas e técnicas para acesso a materiais visuais é o baixo status que esses materiais historicamente tiveram em unidades de informação e a pesquisa intelectual insuficiente para desenvolver bases teóricas na área.

Uma das funções mais importantes das imagens de obras de arte em bibliotecas é substituir originais muitas vezes inacessíveis, motivo pelo qual o tratamento da informação é focado nos dados da obra reproduzida. Se o perfil da instituição e as necessidades dos usuários justificarem tal esforço, é possível realizar a análise documentária dos assuntos e temas das obras fotografadas para possibilitar a recuperação desses conteúdos pelo sistema de busca, como defendem alguns estudiosos (ROBERTS, 1988; GARCÍA MARCO; AGUSTÍN LACRUZ, 1999; RÉGIMBEAU, 2007).

A tarefa não é simples, sobretudo porque, como lembra Beaudoin, os objetos culturais e seus substitutos visuais carregam grande multiplicidade de conteúdos. “A pintura não é um cachimbo, como Magritte nos informa com seu texto Ceci n’est pas une pipe, ainda que cachimbo seja certamente um dos termos que um indexador escolheria como assunto desse trabalho.” (BEAUDOIN, 2007, p. 26 ). A autora se refere à tela de René Magritte que contém a imagem de um cachimbo e a frase “Isto não é um cachimbo”.
No contexto da análise documentária das obras de arte bidimensionais – pintura, gravura, desenho etc -, o equivalente à expressão fotográfica poderiam ser elementos da linguagem das artes visuais como a composição, uso da cor e da luz, perspectiva etc. O material e o suporte utilizados numa obra pictórica são dados que devem ser registrados na catalogação, e podem ser termos de busca, mas apenas enquanto técnica. São aspectos, a meu ver, diferentes. Em sua análise de conteúdo da obra de Goya A condessa de Chinchón, García Marco e Agustín Lacruz (1999, p. 154-155) usam esses elementos na descrição textual do quadro ou resumo, embora não os proponham como termos para indexação. Não localizei na literatura examinada nenhuma proposta concreta nesse sentido. Régimbeau (2007, p. 133-134) apresenta alguns textos críticos sobre um quadro de Kandinksy que incluem observações sobre a composição, significado das cores e relações entre as formas, a partir dos quais faz algumas reflexões teóricas sobre a análise documentária de obras de arte, mas também não chega a propor um método de indexação para esses aspectos. É importante notar que estamos tratando de questões intrínsecas às obras de arte e do trabalho do artista, não das formas de registrar esse trabalho por um processo fotográfico, como os tipos de vista propostos pelo CCO.

Então, como ficamos?

Será que vale a pena investir esforços em identificar, para efeitos de indexação e recuperação da informação, esses elementos da expressão fotográfica em imagens de obras de arte, já que, na prática, nem as bases de dados de alto nível o fazem? Penso que sim. Quem estiver começando agora pode perfeitamente incluir em sua grade de indexação, no mínimo, os tipos de vista sugeridos pelo CCO. Não é nada tão difícil assim de fazer e os ganhos na recuperação das imagens, no futuro, serão importantes. Basta mudar um pouco a forma de olhar para as imagens e ir um pouco além da simples identificação do objeto fotografado.

Referências

BACA, Murtha et al. (Ed.). Cataloging Cultural Objects: a guide to describing cultural works and -their images. Chicago: American Library Association, 2006.

BEAUDOIN, Joan E. Visual materials and online access: issues concerning content representation. Art Documentation, Chicago, v. 26, n. 2, p. 24-28, 2007.

GARCÍA MARCO, Francisco Javier; AGUSTÍN LACRUZ, María Del Carmen. Lenguajes documentales para la descripción de la obra gráfica artística. In: VALLE GASTAMINZA, Félix del (Ed.). Manual de documentación fotográfica. Madrid: Síntesis, 1999. p. 169-204.

MACAMBYRA, Marina Marchini; ESTORNIOLO FILHO, José. Propostas para tratamento de imagens de arte. In: SEMINÁRIO NACIONAL DE BIBLIOTECAS UNIVERSITÁRIAS, 15., 2008. São Paulo, 2008. São Paulo: CRUESP, 2008. Disponível em: <http://www.sbu.unicamp.br/snbu2008/anais/site/pdfs/2646.pdf&gt;. Acesso em: 22 fev 2012.

REGIMBEAU, Gerard. L’image d’art entre analyse critique et analyse documentaire. Documentaliste: Sciences de l’information, Paris, v. 44, n. 2, p. 130-137, 2007.

ROBERTS, Helene. “Do you have any pictures of …?”: subject access to works of art in visual collections and book reproductions. Art Documentation, Chicago, v. 7, n. 3, p. 87-90, 1988.

SLOBUSKI, Teresa. Digital image databases: a study from the undergraduate pont of view. Art Documentation, Chicago, v. 30, n. 2, p. 49-55, 2011.

SMIT, Johanna W. Propositions for the treatment of iconographical information. In: CONGRESO INTERNACIONAL DE INFORMACION – INFO’97, 1997. Havana. Textos completos. Havana: IDICT, 1997. p. 1-14.

Fonte: imagemfalada.wordpress.com

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Um comentário

  1. Olá, pessoal! Obrigada pela divulgação.

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