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A economia, a história e a política sob a ótica de Celso Furtado

USP recebe acervo de documentos, cartas, fotografias e originais que mostram a relevância da obra do economista e sua atualidade

Texto: Luiz Roberto Serrano e Roberto C. G. Castro

Arte: Moisés Dorado e Thais Helena dos Santos

A USP vai receber por doação o acervo do economista Celso Furtado (1920-2004), um dos maiores intelectuais brasileiros do século 20. Em entrevista ao Jornal da USP, a viúva de Furtado, a jornalista e tradutora Rosa Freire d’Aguiar, comenta que esse acervo revela a importância e a atualidade do pensamento de Furtado.

Formado por pelo menos 30 mil itens – entre documentos, fotografias e cartas –, o acervo conta boa parte da história, da economia e da política brasileira e mundial do século passado. Correspondências trocadas com personalidades como o antropólogo Darcy Ribeiro e o senador norte-americano Bob Kennedy, aulas ministradas na França e nos Estados Unidos e relatórios das épocas em que ocupou os cargos de ministro do Planejamento e da Cultura fazem parte da documentação preservada pelo economista ao longo da vida.

O acervo também traz curiosidades, como um recorte de jornal datado de dezembro de 1964, informando que alunos da Escola Politécnica da USP não puderam usar o auditório da Cidade Universitária para a colação de grau porque tinham escolhido Celso Furtado – já cassado pelo regime militar então em vigor – como paraninfo. Inconformados com a proibição, os alunos se recusaram a realizar a cerimônia e foram retirar seus diplomas na secretaria da escola. 

Atualmente guardado no apartamento de Rosa no Rio de Janeiro, o acervo de Celso Furtado será encaminhado para o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde será tratado e ficará à disposição dos pesquisadores. A data de transferência dos documentos ainda não está definida, pois depende da abertura de licitação para a contratação da empresa que fará esse serviço.

Carteira de funcionário do Departamento Administrativo do Serviço Público, nos anos 40 – Foto: Rosa Freire d’Aguiar

Nascido em Pombal, no sertão paraibano, Celso Furtado se tornou doutor em Economia pela Universidade de Paris, em 1948, com a tese “L’économie coloniale brésilienne”. De 1949 a 1958, integrou a Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), órgão da Organização das Nações Unidas (ONU) sediado em Santiago, no Chile. Foi diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) e, em 1959, assumiu a direção da recém-criada Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).

Em 1962, Celso Furtado foi nomeado pelo então presidente João Goulart como primeiro titular do Ministério do Planejamento. Nessa função, elaborou o Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social. Com o golpe militar de 31 de março de 1964, o economista foi cassado com base no Ato Institucional Número 1 (AI-1), publicado em 9 de abril daquele ano, e partiu para o exílio, tornando-se professor da Universidade de Paris, cargo que ocupou por 20 anos.

Jornal dos Estados Unidos noticia encontro entre o presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, e Celso Furtado, em 1961 – Foto: Rosa Freire d’Aguiar

Com a anistia política, em 1979, Furtado visitou o Brasil várias vezes e se filiou ao PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro). Em 1986, tornou-se ministro da Cultura do governo José Sarney e elaborou a primeira lei de incentivos fiscais à cultura no Brasil.

Na década de 1990, participou da Comissão Mundial para a Cultura e o Desenvolvimento e da Comissão Internacional de Bioética, ambas da ONU, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL) e ganhou o Prêmio Jabuti com o ensaio O Capitalismo Global. Entre suas principais obras estão Formação Econômica do Brasil (1959) – traduzido em nove línguas –, Desenvolvimento e Subdesenvolvimento (1961) e O Mito do Desenvolvimento Econômico (1974).

Rosa Freire d’Aguiar conversou com o Jornal da USP no dia 11 de abril passado, uma quinta-feira, no saguão do Hotel Trip Higienópolis, em São Paulo, onde estava hospedada. A conversa teve a participação dos professores Alexandre de Freitas Barbosa e Paulo Teixeira Iumatti, ambos do IEB, e de Elisabete Marin Ribas, especialista em Organização de Arquivos, que integra a equipe técnica do Serviço de Arquivo do IEB.

 

Leia a seguir entrevista com a jornalista e tradutora Rosa Freire d’Aguiar

Reg. 131-19 Doação do acervo de Celso Furtado ao Instituto de Estudos Brasileiros (IEB). 2019/04/11 Foto Marcos Santos/USP Imagens

Jornal da USP – Em que consiste o acervo de Celso Furtado que a USP vai receber?

Rosa Freire d’Aguiar – Há uma variedade imensa de documentos, entre eles, milhares de cartas. Somente entre 1964 e 1984, são cerca de 10 mil cartas. A maioria é de correspondência recebida. A cada ano, ele recebia cerca de 400 cartas e escrevia outras tantas, das quais guardou, em cópia carbono, cerca de 80 a 100. Eu li todas elas, com muita atenção, fazendo anotações. Os correspondentes são os mais variados. É incrível como Celso, logo em seguida ao golpe militar, era uma pessoa conhecida internacionalmente. Por exemplo, poucos dias depois de ser cassado, em abril de 1964, ele recebeu telegramas de três universidades dos Estados Unidos – Harvard, Yale e Columbia –, convidando-o para ser professor lá.

JUSP – Como se pode dividir esse acervo?

Rosa – O acervo de Celso tem várias vertentes. Tem cartas referentes ao homem público que ele foi, à sua atuação internacional, à sua participação na ONU (Organização das Nações Unidas) como economista e como membro de comissões muito importantes, como a Comissão Internacional de Bioética, que foi pioneira ao tratar de temas como o genoma humano, por exemplo. Ele foi o único brasileiro a participar dessas comissões. É possível dividir o acervo também de acordo com as décadas.

JUSP – Quais os temas mais recorrentes em cada década?

Rosa – O conteúdo do acervo referente aos anos 40 inclui, por exemplo, recordações da guerra, textos jornalísticos, da época em que ele foi jornalista da Revista da Semana, no Rio de Janeiro, escritos de juventude, três ou quatro tentativas de romances, muitos textos inéditos. Sobre os anos 50 e 60, há muitas cartas e textos referentes principalmente à Sudene, da qual Celso foi o primeiro superintendente, e ao Ministério do Planejamento, que ele dirigiu de setembro de 1962 a meados de 1963.

JUSP – Sobre a Sudene, o que se pode pensar a partir dos textos do acervo?

Rosa – A Sudene foi o grande momento da vida de Celso como homem de ação. Ela representou a possibilidade de colocar em prática as teorias que ele desenvolveu nos quase dez anos em que atuou na Cepal. Ali a teoria passa à prática. Mas foi um trabalho interrompido pelo golpe militar de 1964 e a cassação.

JUSP – Como ele se referia à cassação?

Rosa – Ele nunca imaginou que seria cassado. Jamais. Foi uma coisa que calou muito fundo nele a vida inteira. Em condições normais, ele não costumava falar sobre isso, mas em momentos delicados, por exemplo, como depois de uma cirurgia, ainda um tanto abalado por uma anestesia, algumas vezes ele se referia à cassação de direitos.

JUSP – Antes da cassação, como ministro do Planejamento de João Goulart, em 1962, ele elaborou o Plano Trienal, um plano ao mesmo tempo monetarista e desenvolvimentista. Era um plano viável?

Rosa – Bem, posso falar o que Celso me falava. De fato, o plano era monetarista e desenvolvimentista. Mas nem tinha como ser diferente, tenho a impressão. No fundo, Celso percebeu com certa rapidez que o plano foi feito para ganhar o plebiscito sobre o regime de governo, em janeiro de 1963. Ganho o plebiscito, o plano não iria muito longe. Celso era um ministro técnico, não político, não lidava com as massas. Quem fazia isso era, por exemplo, o ministro do Trabalho, Almino Afonso, do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) e ligado aos sindicatos. Uma das ideias de Celso era que não podia haver aumento da massa salarial. Mas os trabalhadores estavam pressionando. Houve um momento em que o Jango não teve como negar e precisou ceder ao Almino. Aí a coisa estourou e o plano começou a fazer água. Por isso Celso ficou com a impressão, não no momento, mas julgando retrospectivamente, de que o plano foi feito só para ganhar o plebiscito, tanto que em junho de 1963 ele já saiu do governo, com o ministro da Fazenda, San Tiago Dantas.

Alexandre de Freitas Barbosa – Talvez o Plano Trienal nunca tenha sido implementado. Ele foi elaborado pelo Ministério Extraordinário do Planejamento, chefiado por Celso Furtado. Para fazer esse plano, Furtado ficou três meses trancado no BNDE, utilizando todos os quadros técnicos. Quem implementou o plano foi o ministro da Fazenda, San Tiago Dantas. Acontece que uma das vigas do plano era a negociação de créditos com os Estados Unidos. O FMI (Fundo Monetário Internacional) gostou do plano, mas os assessores norte-americanos que faziam a negociação começaram a ser informados pelo embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Lincoln Gordon, que dizia: “Esse pessoal é comunista”. No livro Fantasia Desfeita, Furtado escreve que a sorte do plano estava sendo julgada quando o San Tiago Dantas negociava, em março de 1962, com o pessoal do FMI e do Banco Mundial. Ele não consegue os créditos. Ora, para conter a inflação, mantendo os investimentos em setores estratégicos, é preciso manter o fluxo de importações e isso só poderia ser feito se a dívida externa fosse refinanciada. O Brasil importava petróleo e trigo, com subsídios. As tarifas foram liberadas e os preços subiram. Houve um repique inflacionário que não estava previsto. Mas o Plano Trienal é um documento magistral. Ele tem a frente da estabilização, a frente dos investimentos, inclui a reforma administrativo, a reforma fiscal. Mas não havia contexto político para negociar esse plano. É talvez um plano que sequer tenha sido implementado.

JUSP – Com o golpe e a cassação, Celso Furtado vai para o exílio. O que o acervo traz sobre esse período?

Rosa – As cartas do período do exílio ainda estão em Paris. Precisam vir para cá. Lá tem várias pastas com cartas em inglês, francês e espanhol, e os originais dos livros que ele escreveu nesse período. Essa parte do acervo me parece muito importante porque falta muita pesquisa da vida de Celso durante o exílio. Vejo muitos professores se referindo à cassação, em 1964, à ida para o exílio, à volta em 1979 etc., mas sobre os anos entre 1964 e 1979 não falam nada.

JUSP – O que a pesquisa sobre esse período da vida de Celso Furtado vai revelar?

Rosa – Vai revelar que essa foi a fase mais produtiva da vida de Celso. Ele escreveu 11 livros nesse período. São os seus grandes livros. E foi nesse período que ele se transformou numa personalidade internacional. Outra coisa que eu descobri lendo os textos dessa época é que o exílio está longe de ser apenas uma circunstância na vida de Celso. Ali ele mudou de profissão – ele nunca tinha sido professor – e mudou de língua, ou seja, de universo mental. Ele já dominava as línguas em que foi professor: inglês, francês e espanhol. Mas uma coisa é dominá-las para o dia a dia, para ir ao restaurante. Outra é dar aula de teoria econômica para pós-graduados. Para as aulas na Sorbonne, por exemplo, ele não se resumia a escrever fichar. Preparava-as escrevendo 10, 20 páginas em francês, temendo, durante a aula, ver lhe fugir um termo específico da matéria teórica que ensinava. O mesmo quando foi professor em Yale, em Columbia, em Cambridge: páginas e páginas de notas de aulas em inglês. 

Alexandre de Freitas Barbosa – A ida ao exílio alterou completamente a trajetória intelectual e de vida de Celso Furtado. Num livro de 1962, A Pré-Revolução Brasileira, ele conclama o País para a revolução reformista que tem em vista. Depois, quando é retirado da cena política, ele se reinventa. Passa a ver o mundo se transformando e tenta fazer a mediação. Por que não deu certo aquilo de que ele participava? A partir daí Furtado se torna uma grande referência internacional, para além da América Latina. Ele dá aula na Sorbonne e em Yale e vai ser talvez o intelectual latino-americano mais demandado do mundo. Ele se torna o intelectual brasileiro mais lido no Brasil e no exterior. Ao mesmo tempo, existe uma grande discussão sobre a sua obra. Como diz o professor Chico de Oliveira, Furtado é um divisor de águas: a economia brasileira foi pensada até hoje contra e a favor de Celso Furtado. Ele estabeleceu os termos com que nós pensamos a economia brasileira até hoje.

JUSP – E sobre o período pós-exílio, o que mostra o acervo?

Rosa – A partir de 1979, os textos do acervo abordam principalmente a participação dele na vida política, na redemocratização, culminando no Ministério da Cultura. Quando a gente sai de Brasília, em 1988, documentos e cartas que estavam no Ministério da Cultura vão para casa. Felizmente, nessa época ele tinha uma secretária muito eficiente, que guardava tudo.

JUSP – Pode citar alguns itens específicos do acervo de Celso Furtado?

Rosa – Tem muita coisa. Tem cartas do senador Bob Kennedy, convite para Celso participar de conferências ao lado de Erich Fromm e Martin Luther King, pilhas de recortes de imprensa, curiosidades como uma primeira página do New York Times, de 1964, dizendo que “o banido Celso Furtado” ia lecionar nos Estados Unidos, cartas com intelectuais daqui do Brasil, como Darcy Ribeiro, Antonio Candido, Fernando Henrique, Helio Jaguaribe e Francisco Iglesias, e do exterior, como Albert Hirschman e Raul Prebisch. Algumas são muito divertidas, outras cheias de intrigas políticas de órgãos de “inteligência” brasileira, inventando todo tipo de mentiras sobre a vida de Celso. A mais inacreditável, de um departamento de Polícia Federal, é que ele teria um terreno no Chile que foi vendido para construir uma base soviética.

JUSP – E os diários de Celso Furtado?

Rosa – Celso não era um diarista fiel. Ele deixou uns 30 cadernos, mas nenhum deles vai até o final. O diário era, para ele, um desabafo. Há uns registros curiosos. Por exemplo, quando tinha 17 anos, ainda na Paraíba, ele escreve: “Hoje eu decidi que vou escrever um livro sobre a história da civilização brasileira”. Acabou escrevendo mesmo. O último caderno é de 2002, mas já a partir de 1991 a letra começa a ficar bem ruim, por causa dos problemas de saúde. Vou publicar os Diários pela Companhia das Letras, em setembro.

JUSP – O acervo tem muitos textos inéditos de Celso Furtado?

Rosa – Celso não era de deixar muita coisa sem publicar. Deve ter versões de textos que ele retomou. Mas, sim, tem textos inéditos, técnicos, relatórios.

Alexandre Barbosa – O que talvez seja mais rico é que todos os manuscritos estão rabiscados à mão, o que permite entender o processo de criação e de construção dos conceitos. Para um pesquisador, isso é fascinante.

Qual a importância da doação do acervo de Celso Furtado para a USP?

O acervo de Celso Furtado chega num movimento de ampliação temática que é abrangida pelas coleções do IEB, que começou em 2002, quando chegou o acervo de Caio Prado. Desde então, alguns outros acervos se somaram, como os de Milton Santos e de Manoel Correia de Andrade, um grande geógrafo brasileiro, que se dedicou a estudar o Nordeste. Esses acervos têm a dimensão da reflexão sobre a inserção do Brasil no mundo. Eles permitem uma reflexão abrangente sobre grandes questões do País. Essa é uma perspectiva muito importante, que é reforçada com a vinda dos documentos que pertenceram a Celso Furtado – Paulo Teixeira Iumatti

Para nós, que somos os técnicos que trabalhamos com os acervos, é sempre um privilégio quando recebemos um conjunto assim, porque não só vem completar um linha de pensamento e uma linha que podemos chamar de linha curatorial, mas também ampliar a importância dos arquivos pessoais na história, na economia, na literatura. Com a chegada do acervo de Celso Furtado, principalmente no momento delicado que estamos vivendo, temos a oportunidade de falar aos jovens pesquisadores que nos procuram que ele foi um grande homem, que mudou a história do brasil. Somos convidados a repensar muitas questões – Elisabete Marin Ribas 

Fonte: Jornal da USP

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