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A biblioteca de… Martha Abreu

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“A biblioteca de…”  é uma coluna que pretende trazer o mundo dos livros de referências intelectuais ao grande público. Já foram entrevistados os cientistas políticos  Maria Celina D’Araujo e Octavio Amorim Neto, e o historiador Marcos Napolitano. O intuito é  convidar nossos leitores a conhecerem mais o universo  de grandes intelectuais, pesquisadores, professores e artistas ligados a diferentes áreas do conhecimento.  Aquele ou aquela que nos  inspira pode indicar caminhos de leitura fundamentais para o nosso aprendizado. Por isso, conhecer o que essas referências  leem  é mais do que uma simples curiosidade:  é, antes de tudo, um modo de  descobrir novos horizontes do saber.

A convidada dessa edição é a historiadora Martha Abreu.

Doutora em História pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Martha Abreu é professora titular da Universidade Federal Fluminense (UFF). Tendo estudado temas como cultura popular, diáspora, cativeiro e escravidão africana no século XIX, é referência básica para quem procura entender mais a discussão racial e seus desdobramentos no Brasil. Ao lado de Hebe Mattos, produziu inúmeros artigos e livros sobre a temática, destacando-se Passados Presentes (EdUFF, 2012). Em 2003, escreveu, junto a Rachel Soihet, um livro que se tornou obrigatório nas discussões sobre História e educação, Ensino de História: conceitos, temáticas e metodologias (Casa da Palavra, 2003). Mantém, junto a outras estudiosas, o site Conversa de Historiadoras.

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1. Que livro recomenda para quem está iniciando na área de História?

Eu recomendo todos os livros de João José Reis, mas especialmente Domingos Sodré, um sacerdote africano: escravidão, liberdade e candomblé na Bahia do século XIX. Através de Sodré, acompanhamos a luta dos escravizados africanos pela liberdade, seus movimentos em busca da reconstrução de suas vidas e de sua autonomia, no campo familiar, religioso e político. Ao lado de Domingos Sodré, percorremos grande parte da história da Bahia e do Brasil no século XIX, com evidentes repercussões até nossos dias. João Reis nos oferece uma das melhores oportunidades para acompanhar o trabalho do historiador com suas fontes, métodos, discussões historiográficas, rigor teórico e envolvente narrativa.

Mas não posso deixar de citar outros historiadores que foram fundamentais para a reescrita da história da escravidão e da abolição a partir da década de 1980, tais como Sidney Chalhoub, Silvia Lara, Robert Slenes, Flavio Gomes, Maria Helena Machado e Hebe Mattos.

2. Qual foi o livro que mais gostou de escrever?

Eu gostei de escrever todos. A escrita da história é uma atividade fascinante, embora sempre trabalhosa, tanto em livro, como em roteiros de filmes, atividade que tenho me aventurado. Já que preciso escolher, decido pelo último, até porque é o mais recente e tenho saudades do tempo da escrita: Da Senzala ao Palco: canções escravas e racismo nas Américas, 1870-1930. Esse livro partiu da pesquisa em torno das músicas criadas pelos escravizados na diáspora, como o cakewalk e o jongo, mas que acabaram fazendo sucesso no próspero mercado cultural das partituras para piano, dos teatros de revista e da indústria fonográfica, em todas as Américas. Foi fruto também de uma longa experiência no magistério e nas atividades de orientação sobre o Atlântico Negro, assim como de inúmeras visitas de pesquisa a comunidades negras detentoras de patrimônios culturais.

Entre as melhores novidades do livro, destaco o papel central do protagonismo dos músicos negros, entre o final do século XIX e início do XX, na transformação da música moderna. Com seu talento e presença no mundo artístico, ao lado de seus gêneros e estilos, enfrentaram e subverteram inúmeras situações de racismo. Foi também muito revelador conseguir aproximar e conectar tão de perto as relações raciais no Brasil e Estados Unidos no campo cultural.

3. Que livro que você escreveu teve maior repercussão e crítica? A que atribui isso?

Acho que foi o Império do Divino: festas e cultura popular no Rio de Janeiro, 1830-1900. Talvez porque tenha sido um dos primeiros trabalhos em que o tema das festas (e da cultura popular) despontou no campo da historiografia brasileira (ao lado também dos livros de Rachel Soihet, Maria Clementina Pereira Cunha e Leonardo Pereira). Com foco no Rio de Janeiro, o livro caminha pelo período imperial e republicano, mostrando as íntimas relações entre cultura, política e história social. As festas não mais poderiam ser vistas na história do Brasil como válvulas de escape, oportunidades de fuga das tensões sociais ou distantes das lutas políticas pela cidadania.

Entretanto, acho que meu livro de maior vendagem foi o que organizei com Rachel Soihet sobre Ensino de História, em 2003. Esse livro inaugurou um novo compromisso dos pesquisadores universitários com o ensino de história. Passou a ser muito citado por professores e tornou-se referência de muitos concursos públicos. Desde então, é possível verificar um considerável aumento do intercâmbio entre os pesquisadores das universidades e os professores de história, embora muita coisa ainda precise ser feita.

4. Qual livro de História é obrigatório ter na estante?

Para quem se interessa pela história dos populares e dos trabalhadores dentro do campo que conhecemos como “história vista de baixo”, incorporando a perspectiva das lutas no campo cultural, a leitura da obra de E.P. Thompson sobre A Formação da Classe Operária é obrigatória. Mas, em nosso país, não é mais possível escrever ou ensinar história sem a discussão da questão racial e da história das mulheres. Nesse sentido, gosto de destacar o livro de Wlamyra Albuquerque, O Jogo da Dissimulação. Abolição, Raça e Cidadania no Brasil. A autora não só atualiza o leitor nas lutas dos escravizados pela abolição, como dá um passo fundamental para nossa compreensão sobre os processos de racialização que operam nas relações sociais desde então.

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5. Em sua biblioteca, tirando as suas próprias obras, qual autor(a) está mais presente?

Os livros de minha parceira Hebe Mattos, fundamentais para a compreensão do Brasil escravista e das lutas sociais no pós-abolição (entre eles, Das Cores do Silêncio, Cidadania e Escravidão e Memórias do Cativeiro). Eu e Hebe Mattos crescemos juntas como historiadoras e passamos, nos últimos 15 anos, a trabalhar em parceria na pesquisa sobre memórias do cativeiro e racismo, especialmente em comunidades quilombolas. Hebe trazia sua bagagem do campo da história social da escravidão e eu a formação em história social da cultura e da cultura popular. Escrevemos muitos trabalhos juntas e realizamos três filmes que envolvem a escrita da história em vídeo, sem dúvida uma nova e importante dimensão do trabalho do historiador: “Memórias do Cativeiro” (2005), “Jongos, Calangos e Folias, Música Negra, Memória e Poesia” (2007) e “Passados Presentes, Memória Negra no Sul Fluminense”.

6. Qual foi o último livro que você leu e te marcou?

Eu adoro o gênero biografia. Tenho lido belos trabalhos sobre personagens que nos fazem sentir de uma forma mais próxima a história e, principalmente, as lutas antirracistas, como, por exemplo, o livro de Julio Claudio da Silva, sobre a atriz Ruth de Souza e a autobiografia da imbatível Michelle Obama. Mas o livro que mais me marcou mesmo nos últimos tempos foi Becos da Memória de Conceição Evaristo. Através da narrativa de uma jovem, Maria Jovem, e das memórias de Conceição, percorremos as fortes histórias de personagens de uma  favela que se transformava. Suas tristezas e sofrimentos são narrados com enorme sensibilidade, aproximação e delicadeza. É um livro imperdível.

7. Qual o seu livro preferido fora da área de História?

Não é exatamente um livro “fora” da área de História, pois foi escrito por um sociólogo negro, Paul Gilroy, sobre as trocas culturais e musicais no mundo Atlântico. Gilroy consegue nos fazer compreender como as trocas culturais atlânticas, desde o tráfico negreiro, foram fundamentais para a emergência da música negra e para a transformação artística e estética do mundo contemporâneo, do cakewalk ao samba, do jazz ao chorodo pagode ao hiphop. Sem dúvida, estamos num mundo conectado e profundamente marcado pela presença africana (tanto no campo cultural, como nos séculos de trabalho forçado), embora isso ainda não seja devidamente valorizado.

8. Qual tema você pretende abordar no seu próximo livro?

Nunca tive coragem de estudar diretamente o mundo do samba. É um mundo quase sem fim por sua força criativa musical e local fundamental de discussão da própria nação brasileira. Mas a maturidade intelectual talvez esteja me deixando mais atrevida e disposta a contribuir para a construção de uma história dos samba que valorize o músico negro e seu protagonismo – e não celebre o gênero como local do encontro de uma nação mestiça, ironicamente tão marcada pela desigualdade e pelo racismo. Se pensarmos bem, temos poucos trabalhos sobre a história do samba produzidos por historiadores. Como há muito material memorialístico, fica a impressão, totalmente equivocada, de que já sabemos tudo sobre a história do  samba. Bem, minha contribuição, se tudo der certo, será em torno da fundação das Escolas de Samba no final da década de 1920. Pretendo demonstrar, com densidade, o quanto seus fundadores estavam diretamente ligados ao legado dos últimos africanos aqui chegados no século XIX e ao patrimônio cultural construído por seus antepassados no tempo do trabalho forçado nas plantações de café do velho Vale do Paraíba (fluminense, mineiro e paulista). Filhos e netos de escravizados fundaram as instituições culturais mais longevas e modernas da cidade do Rio de Janeiro: as Escolas de Samba. Não será importante contar essa história dessa forma?

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Para acessar o lattes de Martha Abreu, clique aqui.

Fonte: NO CENÁCULO

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