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Entrevista com a bibliotecária Ágata Gomes Souza

Antes de finalizarmos as matérias da MC 2019, temos o grande privilégio de ter uma entrevista super especial, com a bibliotecária Ágata Gomes Souza.

Ágata já esteve com a Monitoria em diversos momentos especiais, e hoje trabalha como bibliotecária no IFSP, em Jacareí. Vamos à entrevista!

Trajetória acadêmica e profissional

Minha trajetória acadêmica começou em 2004 com o ingresso no curso de Geografia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Concluí o curso em 2007 e, na sequência, atuei como docente no Ensino Fundamental e Médio da Rede Estadual de Educação. Ao longo da docência, descobri que as escolas da rede, no geral, não possuíam biblioteca escolar. Realidade, infelizmente, ainda muito comum.

Aquela situação me impulsionou a transformar um então depósito de livros em Biblioteca. Ao longo desse processo, descobri o curso superior em Biblioteconomia e decidi fazê-lo. Em 2013, iniciei uma nova graduação, novamente na UFRJ. Ao longo do curso em Biblioteconomia, percebi como cresceu minha paixão pela biblioteca e como a parte teórica se relacionava tão diretamente com minha prática educativa.

Nesse período, houve minha mudança do Rio para São Paulo e optei por concluir o curso de Biblioteconomia na FESPSP.

Durante os estágios na Fundação Getúlio Vargas (FGV) e no Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) desenvolvi uma nova visão sobre a Biblioteconomia e sobre as inúmeras possibilidades de organização de acervos. Nascia ali uma bibliotecária apaixonada e com fé no poder transformativo da biblioteca escolar.

Competências para realizar um bom trabalho acadêmico

Um bom trabalho acadêmico começa com uma boa pesquisa acadêmica. Realizar uma boa pesquisa acadêmica é um processo prático. As disciplinas curriculares relacionadas às metodologias tratam do uso das normas técnicas da ABNT, das possibilidades e diversidade das fontes de informação, das estratégias de pesquisa nos principais buscadores de internet, enfim, abordam uma gama de instrumentos técnicos para realizar uma boa pesquisa acadêmica. Entretanto, a dimensão desse processo só é vista, de fato, ao adentrá-lo. Ou seja, se aprende pesquisa fazendo-a.

Ao longo de uma pesquisa é necessário desenvolver uma gama de habilidades… o que vai muito além de ler sobre um tema específico. É necessário olhar a pesquisa de uma maneira mais ampla. Por exemplo, ler outros trabalhos realizados na área (com a paciência e a minúcia que esse período inicial de leitura requer), identificar como se deu a construção metodológica dessas pesquisas (o objetivo, a abordagem, os instrumentos de coleta de dados utilizados, os métodos de análise etc.). Além disso, é fundamental conversar com os pares e buscar informações além das fontes mais óbvias. Em síntese, estudar sobre o que é uma pesquisa científica e analisar a dimensão metodológica de bons trabalhos já realizados são caminhos de aprendizado e de aprofundamento de qualidade das atividades acadêmicas.

A pesquisa sobre a história da Biblioteconomia no Brasil

Estudar a história da Biblioteconomia é um excelente ponto de partida para entender o que é a Biblioteconomia no Brasil hoje. No geral, nosso pensamento está centrado na presente e no futuro. Mas, só conseguimos entender nosso momento atual olhando para o passado. Residindo em São Paulo, percebi a importância da cidade para a Biblioteconomia e a importância da própria FESPSP na construção dessa história.  Investiguei esse processo para entender melhor a Biblioteconomia de hoje e pensar, com mais amplidão, na futura. Esse foi um capítulo fundamental do meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Ele tratava do ensino de Biblioteconomia e sua trajetória histórica. Como minha primeira graduação foi em Geografia, esse olhar sobre o espaço geográfico e o tempo histórico acabou emergindo. Foi um prazer mergulhar nessa pesquisa. Realizei descobertas que me fizeram ter ainda mais orgulho do meu papel como bibliotecária.

Trabalho premiado pela ABECIN

A possibilidade de participar do prêmio da Associação Brasileira de Educação em Ciência da Informação (Abecin) surgiu com uma sugestão da professora Valéria Valls (que tive a honra de ter como orientadora de TCC). Conseguimos que ele fosse premiado em primeiro lugar na região de São Paulo na área de Biblioteconomia em 2015. Fiquei muito feliz pela visibilidade que a pesquisa ganhou e pela possibilidade de validação pelos pares. Ao fazer um trabalho acadêmico, a intenção é de que os pares estejam validando todo o processo de pesquisa. Validação do orientador, depois da banca de defesa, dos leitores etc. E, essa premiação fechou com “chave de ouro” um ciclo feliz de construção de conhecimentos dentro da FESPSP.

O campo da Biblioteconomia nos últimos anos

Eu enxergo essas mudanças como positivas. E conseguimos entendê-las muito mais facilmente se olharmos para o passado. Inicialmente, a Biblioteconomia esteve relacionada com o viés mais humanista, atrelada às artes, à filosofia, à cultura. Com o passar o tempo, a American Library Association (ALA) trouxe um viés mais técnico de organização dos acervos. Hoje o olhar do profissional bibliotecário deve ter essa perspectiva dual. Isto é, estar direcionado não só para o acervo, mas também para o usuário da informação, para cada indivíduo em si. Só assim é possível fazer as transformações e adequações para tornar um acervo cada vez mais útil e o grupo de usuários atendidos com excelência.

Ou seja, hoje, não basta mais ter o olhar só para o acervo ou só para filosofia teórica, para exercer um papel eficaz nas unidades de informação. É esperado um diferencial. O contexto atual requer um profissional que consiga dialogar com o seu público, identificar necessidades informacionais e usar a técnica para suprir tais necessidades. Quem coloca isso em prática tem um campo de trabalho ampliado.

Competências que um bibliotecário deve ter

Além as competências técnicas, existem algumas competências e habilidades individuais que precisam ser utilizadas na vida profissional para potencializar esse campo de atuação. Destacarei duas.

1- Socialização/comunicação: já foi o tempo bibliotecário estar em uma sala isolada, sentado, calado… Vivemos o momento de o profissional bibliotecário ver e ser visto. Ver no sentido de circular no ambiente institucional, perceber o que acontece dentro daquele espaço, quais são as necessidades latentes, qual o clima organizacional etc. Com isso é possível ter uma percepção de como o tratamento da informação pode ser realizado da maneira mais eficaz. E isso só é feito ao olhar, dialogar com as mais diferentes pessoas, observando falas, comportamentos, oportunidades… Além de ver, é preciso ser visto. É necessário comunicar qual é o nosso papel, qual nosso potencial de conhecimento e que as técnicas que possuímos podem ser significativamente úteis naquela realidade. As  pessoas ainda têm a percepção do bibliotecário atrelado somente ao livro e a comunicação é o caminho para desconstruir essa percepção tão limitadora, para ampliar o entendimento do quanto  nossa atuação pode ser fundamental pro dia a dia organizacional.

2- Empatia: é necessário encantar cada usuário da informação. Quando o usuário chega com uma expectativa de receber um “produto x” e consegue-se entregar pra ele o “produto x” atrelado ao “produto y” (que ele não sabia que precisava e identifica como útil), a importância do profissional da informação é efetivada. Ter a empatia de se colocar no lugar do outro e tentar entender a necessidade, supri-la da melhor maneira e, sempre que possível, ir além. É assim que conseguiremos “virar o jogo” sobre a percepção que se estabeleceu sobre o profissional bibliotecário. Esse cuidado com o usuário precisa ser uma construção diária.

Mestrado vinculando Biblioteconomia e Educação

Terminei o curso de Biblioteconomia na FESPSP em 2015 e, na sequência, fiz uma especialização na área de Gestão Cultural.  Por estar trabalhando em uma biblioteca escolar e desenvolver atividades relacionadas à cultura constantemente, percebi a necessidade de aprofundar tais conhecimentos. Finalizei essa especialização em 2018 e, antes mesmo de concluí-la, já em 2017, iniciei o mestrado na área de Educação. Isso é fundamental para o profissional bibliotecário: não se afastar do conhecimento, dos estudos. Estudar precisa ser uma necessidade constante. Isso não necessariamente na área acadêmica, às vezes a necessidade profissional vai levar esse bibliotecário a estudar temas específicos da área técnica, na sua área de atuação. Mas, é importante que o aprender nunca seja uma coisa do passado. Estudar deve ser uma ação do presente.

Ao longo da pesquisa de mestrado, não faria sentido segregar os conhecimentos de Educação e Biblioteconomia. Assim, optei por desenvolver o projeto na área de Comportamento informacional, trabalhando com alunos do ensino médio e superior do IFSP. Percebi que era fundamental identificar tal comportamento com relação à necessidade, busca e uso da informação. Dessa forma, poderia adaptar o meu fazer profissional às necessidades identificadas. A pesquisa tratou de como a biblioteca contribuiria para a melhoria do comportamento informacional desses alunos. Por se tratar de um mestrado profissional, houve não só uma pesquisa no campo teórico, mas também o desenvolvimento de um produto educacional prático, palpável, que pudesse gerar uma contribuição na área do ensino. Eu não sabia muito bem qual seria o produto a ser desenvolvido, o que me levou a uma pesquisa dentro da pesquisa: o que esse aluno necessita? Que produto precisa ser desenvolvido para esse aluno? Descobri que eles tinham bastante interesse pela Lei de acesso  às informações públicas (Lei nº 12.527/2011) e os caminhos para acessar dados para pesquisas escolares e acadêmicas.

Por contar com um orientador da área de Tecnologia, desenvolveu-se um vídeo educacional. Os alunos do ensino médio solicitaram que esse vídeo fosse em formato de animação. Tive que buscar novos conhecimentos para construir o roteiro do vídeo e ir além, aprender a desenvolver animações, o que não fazia parte do meu cenário, mas que meu usuário da informação estava demandando e precisava ser atendido. O vídeo está disponível no canal do YouTube da biblioteca do IFSP/Câmpus Jacareí (https://www.youtube.com/watch?v=cXhdPvlJz98). Há o conteúdo específico sobre a lei, mas também, aborda-se o papel do profissional bibliotecário dentro da biblioteca escolar. Ilustra-se sua importância da interação com alunos e professores e como esse profissional pode contribuir para a melhoria do comportamento informacional da comunidade escolar. É um vídeo curto, mas que aborda didaticamente essa relação entre Biblioteconomia e Educação.

Algum conselho…

Acho que um conselho interessante seria o planejamento profissional. Não dá para esperar chegar o último ano de curso para pensar quais serão as estratégias profissionais. Estou me referindo não só a estratégias de inserção no mercado de trabalho, mas também, de possibilidades de campos de atuação. Isso precisa ser descoberto e ser construído ao longo da graduação.

De acordo com o nicho escolhido, é preciso pensar de uma forma mais estratégica para que, após a conclusão do curso, a vida se encaminhe um pouco mais naturalmente. Vi alguns alunos estagiando por quase dois anos no mesmo lugar, sabendo que após a conclusão da graduação não ocorreria uma efetivação. Será que essa seria a melhor estratégia? É na graduação que se constrói a inserção no mercado de trabalho de uma maneira prazerosa e que vá, de fato, relacionar as competências específicas aprendidas ao longo do curso com a sociedade. Por isso, busque estágios que contribuam tecnicamente para o seu conhecimento e, além disso, comunique-se com as pessoas, se relacione, faça laços profissionais, veja e seja visto, construa sua projeção profissional desde já.

Um forte abraço e vida longa à Monitoria Científica.

Foto: Arquivo pessoal de Ágata

Dados de apoio:

E-mail: agata.souza@ifsp.edu.br

Lei de acesso à informação: https://www.youtube.com/watch?v=cXhdPvlJz98

Lattes: http://lattes.cnpq.br/2211426713865503

TCC: http://biblioteca.fespsp.org.br:8080/pergamumweb/vinculos/000002/000002d0.pdf

PEC: https://monitoriafabci.blogspot.com/2017/05/se-liga-fabci-pec-como-elaborar-projeto.html

Fonte: Monitoria Científica FaBCI-FESPSP

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