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20 anos depois: por onde anda a cultura?

Especial Edição 500

Por Mariangela Castro

Em 1999, o Jornal do Campus publicou a reportagem “MAC estuda deixar a universidade”. A matéria da edição 209 era estritamente noticiosa, pouco crítica, o que foi observado pela turma responsável pelo JC neste semestre.

JC 209 – Abril/1999

Quando voltamos às páginas de cultura de anos atrás, percebemos que falta postura crítica nas reportagens sobre cultura. Reportar um fato, apenas como um fato, não é necessariamente um problema.

No entanto, o Jornal do Campus é feito por estudantes, e a forma como nos relacionamos com cultura diz muito sobre qual será o futuro cultural de nossa sociedade. A abordagem cultural deve ser crítica. Os repórteres responsáveis por uma matéria devem valorizar o poder que iniciativas culturais possuem e também admitir que essas iniciativas nem sempre são boas.

Dito isso, vinte anos depois, o MAC estudou a possibilidade e deixou a USP. Hoje ele está localizado no Parque Ibirapuera, uma das regiões mais caras e elitizadas da cidade.

Nesta edição 500, decidimos olhar para as instituições culturais da USP criticamente. Escolhemos cinco espaços e fizemos apenas uma pergunta inconveniente para cada um deles, do tipo “por que as pessoas não conhecem o acervo?”, “o que vocês fazem nas salas vazias?” ou “vocês se preocupam com concentração cultural?”.

A cultura deve ser uma das prioridades da universidade e, olhando o passado, constatamos que crescemos, somos maiores. Mas isso não é suficiente. Devemos olhar agora, no presente, e perguntar a nós mesmos, e à própria universidade, o que pode melhorar.

A cultura na USP atualmente

Centro Universitário Maria Antonia

Seja em aula, em textos ou até em festas, a maioria dos alunos uspianos já ouviu falar da histórica “batalha da Maria Antônia”. Porém, o Centro Universitário Maria Antonia, infelizmente, não é tão conhecido.

Localizado nas imediações da estação Higienópolis-Mackenzie, desde 1993, segundo seu site, o Centro é orientado por um “conceito abrangente de formação”. Perguntado sobre quais medidas eram realizadas para formar os profissionais, o centro respondeu que isso “não se aplica”, pois são um órgão de extensão universitária.

Em 2018, foram realizados 8 cursos de extensão; até junho de 2019, 1 curso e, para o segundo semestre, estão previstos mais 6. Todos os cursos são pagos. Atividades gratuitas, no entanto, foram realizadas 49 vezes em 2018, e 29 em 2019, até maio.

Museu de Arte Contemporânea

O diretor do Museu de Arte Contemporânea, Carlos Roberto Ferreira Brandão, falou com o JC sobre a mudança do MAC da Cidade Universitária para o Ibirapuera em 2012. Ele ficava ao lado do CRUSP.

Alguns dados interessantes sobre a transição, fornecidos pelo diretor: o MAC passou de um espaço de 2 mil metros quadrados, para um de 35 mil. Foram investidos R$ 80 milhões na reforma do novo prédio via secretaria de Cultura do Governo do Estado. O museu é gratuito e, por ser universitário, contribui com a pesquisa e ensino, além de ter importante acervo da arte contemporânea brasileira do século XX. São oito andares de exposições simultâneas.

A mudança foi feita de forma paulatina e pouco divulgada, justamente pelo seu processo lento. Desde que assumiu a gestão em 2016, o diretor diz que o foco é “intensificar os serviços ao público”. Para isso, diz ele, oferecem cursos para a terceira idade, ações externas, visitas monitoradas e cursos de extensão, gratuitos.

De fato, a disponibilidade de atividades comprova-se no site do Museu, em sua maioria com programação atualizada. Brandão também reconhece a pouca acessibilidade da região: “sabemos que muitas vezes não é um programa acessível a muitos, principalmente estudantes”.

Segundo ele, grande parte do público estudantil se perdeu na mudança para o Ibirapuera: “hoje recebemos menos, embora na Cidade Universitária o Museu se sentisse isolado, não havendo também um projeto para atrair os alunos”.

Para o diretor, os números justificam a mudança: no primeiro ano de sua gestão, em 2016, o público do MAC foi de 180 mil pessoas, atingindo 320 mil em 2018. A previsão para 2019 é de quase 400 mil visitantes. Isso coloca o MAC no nível de público dos grandes museus de São Paulo, destaca Brandão.

Biblioteca Brasiliana

Localizada na Cidade Universitária, o prédio da Biblioteca Brasiliana é um dos mais belos da USP. O edifício abriga duas salas de estudo, um auditório e o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB). Dentro do IEB há outra biblioteca e, segundo funcionários da recepção, dois auditórios e uma sala de aula. Fora esses espaços, todas as áreas da Brasiliana são restritas a alunos. Dos listados, não há possibilidade de reserva para uso, segundo a própria biblioteca.

Antes de receber uma resposta oficial, a reportagem do Jornal Campus esteve no local e perguntou aos funcionários se seria possível alugar uma das salas para um grupo de pesquisa ou realização de evento. A resposta direta: “não, não tem como”.

Alguns, que se compadeceram com a causa, ainda arriscaram: “tenta perguntar para a diretoria e ver o que eles podem fazer”. À noite, por volta das 19h, as salas do IEB estavam vazias e fechadas. Gigante, imperial e belíssimo: o espaço da Brasiliana é restrito aos estudantes.

Cinusp

O JC conversou com Thiago Afonso de André, coordenador de programação do Cinusp, para entendermos melhor o diálogo do cinema com a comunidade. O Cinusp realiza entre 15 e 25 mostras por ano, que duram em torno de três semanas. A seleção é feita por uma equipe de produção e curadoria, por “longas pesquisas, em que assistimos, discutimos esses filmes entre 25 pessoas”. Quanto às dificuldades de funcionamento, como não há de surpreender, o orçamento está entre as principais, além das burocracias uspianas, como aquisição de permissão e novos equipamentos. Mesmo assim, os números são impressionantes: mais de 350 filmes exibidos por ano.

“São esses há anos. O público está acostumado. Muitas pessoas vêm sem ver a programação sabendo que vai ter um filme às 16h e outro às 19h” comentou sobre os horários fixos. Além disso, o Cinusp depende do funcionamento da própria USP: aos finais de semana, o campus fica praticamente vazio, e os horários atuais visam aproximar a comunidade uspiana enquanto ocupa o local. Apesar de registrarem todos os públicos de todas as sessões, esse não é um fator tão relevante: é um órgão da USP e, portanto, está inserido na lógica do seu funcionamento. O grande destaque está na diversidade programação: são sessões todos os dias, cinco dias na semana, sem contar as exibições aos finais de semana, de maneira completamente gratuita. Segundo Thiago, o cinema é possivelmente o que mais exibe cinema brasileiro no país. A amplitude eleva também sua capacidade de ser um órgão importante para o pilar de cultura e extensão da universidade: só esse ano, já exibiram mais de dez filmes que nunca haviam sido exibidos antes no Brasil.

Casa de cultura Dona Yayá

Quase escondido na região da Bela Vista, em São Paulo, Centro de Preservação Cultural – Casa de D. Yayá foi fundado em 2002. Apesar de 17 anos de história, é possível que grande parte da comunidade uspiana desconheça o local.

Oficialmente, um dos objetivos do centro é “ampliar a presença da Universidade na cidade de São Paulo” e promover “troca entre conhecimento científico e as demandas sociais”. Por isso, talvez, suas ações sejam mais voltadas à comunidade da região, e não necessariamente aos alunos da USP.

Em sua página oficial do facebook, são anunciados futuros saraus, oficinas, conversas, mesas, cursos e até convites para manifestações. Como estudantes da Cidade Universitária que desconheciam a casa, nossa principal dúvida era se a divulgação de todas essas ações tem sido efetiva.

Fonte: Jornal do Campus

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